sábado, 3 de outubro de 2026

Em nome de Deus, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

As denúncias lançadas contra o candidato de oposição, como farras com prostitutas, amizade com milicianos e lavagem de dinheiro, não incomodaram tanto quanto acusação de fundo religioso. O Brasil da República é laico, mas o brasileiro é religioso

Política e religião não se combinam. É difícil governar com base em conceitos religiosos. Desde os antigos até os dias de hoje, a confusão é séria. Jesus Cristo, o homem chamado filho de Deus, foi um essênio que viveu na Galileia entre 6 e 4 a.C e 30-33 d.C. numa tribo isolada no deserto de onde saiu para pregar o arrependimento, a justiça e amor ao próximo. Sua pregação ocorreu em território dominado por Roma. O homem forte na região, Pôncio Pilatos não gostou do que ouviu, sobretudo porque o profeta era visto pelos seus seguidores como um rei. Dois reis não convivem no mesmo pedaço. O dos cristãos morreu na cruz. 

Nenhuma hipótese é absurda, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

É tão urgente preocupar-se com o risco de interferência estrangeira no processo eleitoral quanto seria alarmar-se com a interferência interna – intervenção tocada por ministros do Supremo – que se desenvolve, concretamente, já.

Atenção à blitz autoritária – para minar a confiança no TSE – imposta por quem, na eleição passada, fora defensor-mor da Corte Eleitoral, em função de cuja proteção chancelou-se toda sorte de arreganho censor. Era defesa do TSE mesmo, ou do monopólio sobre o instrumental xandônico por meio do qual, em nome de salvar a democracia, exercia-se o poder?

O trabalho vai deixar de pagar a conta? Por Fábio Gallo

O Estado de S. Paulo

A questão colocada pela IA é saber o que acontecerá com os impostos em meio à redução do emprego

Salários geram imposto de renda e contribuições sociais e, quando são gastos, alimentam também a tributação do consumo. Assim, o trabalho ajuda a financiar o Estado moderno. Nos países desenvolvidos, os tributos sobre o trabalho ainda respondem por cerca de metade da arrecadação.

Agora, o problema colocado pela IA não é apenas saber quantos empregos desaparecerão. É saber o que acontecerá com os impostos quando uma parcela maior da renda potencialmente deixar de remunerar o trabalho e passar a remunerar o capital.

Ao longo do tempo, os países construíram um sistema tributário relativamente confortável para o Estado, onde as pessoas trabalham, recebem salários, pagam tributos, consomem e pagam mais impostos. Agora, imagine que a IA permita produzir a mesma coisa com menos trabalho humano.

Decisão será fácil porque eleitor sabe onde o calo aperta, por Flávia Oliveira

O Globo

Não parecia que, quatro anos depois, trama golpista exposta, investigada e julgada, estaríamos novamente diante do risco de ruptura

A esta altura, resta pouco a dizer sobre a corrida eleitoral, entre os Poderes, acidentada; entre os eleitores, entediante. O que faltou em transparência e aprofundamento de propostas sobrou em protagonismo do Supremo Tribunal Federal (STF), ora por atos dos próprios ministros, ora pela judicialização recorrente por candidatos e legendas. Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva, em artigo aqui no GLOBO, classificou o pleito deste 2026 como a eleição do cansaço. É sentimento expresso tanto no excesso de trabalho, dívida, perrengue, frustração quanto na escassez de encantamento pela política e, pior, pela democracia.

Amanhã, por Eduardo Affonso

O Globo

Eleger é selecionar o melhor — e lá vamos nós, de novo, recolher na xepa o que parecer menos podre

Amanhã é domingo, dia de fila de votação, em pé, de castigo. O castigo é bizarro: optar entre a bijuteria barata banhada a ouro (de tolo) e a estatueta de ouro (com pés de barro). É mais uma eleição que não faz jus ao nome: eleger é selecionar o melhor — e lá vamos nós, de novo, recolher na xepa o que parecer menos podre.

Com a menor folga desde 2002, Lula põe a biografia em jogo, por Thaís Oyama

O Globo

O presidente tem dado sinais de que está disposto a descer aos pântanos da política para buscar os votos de que precisa

Em abril, o presidente Lula dizia não ter certeza se disputaria a reeleição. No fim daquele mês, seu ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social, Sidônio Palmeira, foi autorizado a testar potenciais substitutos em pesquisas. O entorno do presidente descrevia seu estado de alma: de forma alguma Lula encerraria a biografia com uma derrota para o filho de Jair Bolsonaro. Naquele momento, Flávio Bolsonaro — que havia tirado de campo a candidatura Tarcísio de Freitas, ao ser ungido em dezembro candidato a presidente pelo pai — surpreendia com o crescimento nas pesquisas, tecnicamente empatado com Lula nos dois turnos.

Faria Lima sabe que as contas de Flávio não fecham, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Mercado e alguns setores do empresariado acreditam que senador fará um ajuste rigoroso e duradouro nas contas públicas

Mas nada do que ele disse ou fez até aqui legitima esta expectativa

Flávio Bolsonaro agrada à Faria Lima porque o mercado e alguns setores do empresariado acreditam que o senador fará um ajuste rigoroso e duradouro nas contas públicas caso eleito.

Mas nada do que Flávio disse ou fez até aqui legitima essa expectativa.

No Senado, foi um parlamentar ausente nos grandes debates econômicos —sempre blindado pela base cativa do seu pai, Jair Bolsonaro, alinhada com as pautas conservadoras de costumes e de segurança pública.

Atrás nas pesquisas, Flávio Bolsonaro volta a desacreditar as eleições, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Filho 01 fugiu ao debate para não ter de enfrentar a fúria de Renan Santos

Campanha presidencial de 2026 mistura cansaço e descrédito

Um espetáculo caricato, desmoralizado pelos próprios participantes e não raro violento. Com a concorrência dos discursos sedutores e mentirosos veiculados nas redes e aplicativos e o domínio do marketing sobre as propostas de governo, os debates eleitorais na televisão estão em xeque.

Desde 2002 nenhum pleito presidencial havia registrado menos de três encontros na primeira rodada. Neste ano houve apenas um, o da Band, em agosto, transcorrido num clima melancólico: três homens tristes falando ao vento. O da Globo nem isso. Cancelado à última hora, após a desistência de Flávio Bolsonaro, entra na categoria de mico histórico.

Os múltiplos aspectos na polêmica sobre as BETS, por Marcus Pestana

A repentina proibição do funcionamento das BETS desencadeou enorme polêmica nacional, marcada por múltiplas dimensões. Jogos e apostas sempre estiveram presentes no cotidiano da população brasileira. Não é novidade para ninguém a expressão do Jogo do Bicho, seu enraizamento popular e entrelaçamento com eventos famosos como o carnaval. Sua ilegalidade sempre foi relativa. Gozava de grande credibilidade, traduzida na frase “vale o que está escrito”. Os cassinos, com seus shows e vedetes, tiveram vida ativa, no Brasil, nas décadas de 1930 e início de1940. Foram proibidos por um Decreto-Lei do presidente Dutra, em 1946. As apostas em corridas de cavalo estão presentes em todos os Jockeys Clubs espalhados pelo Brasil. As lotéricas da Caixa, presentes em todo o país, oferecem nada menos que onze tipos de apostas. É preciso, portanto, dosar a carga de moralismo e hipocrisia na presente discussão.

O Brasil que sai das urnas, por Murillo de Aragão

Revista Veja

Votação não desfaz dependência recíproca entre Congresso e STF

Domingo o eleitor irá votar convencido de que decide o futuro do país. Decide, mas em parte. Na segunda-feira conheceremos a nova Câmara, dois terços do Senado e os governadores eleitos no primeiro turno. E começará, antes mesmo das posses, um novo capítulo da guerra institucional que vem marcando as relações entre os Poderes.

O novo Senado terá influência direta sobre o futuro do Supremo. A Casa já mostrou que sabe usar esse poder: em abril, rejeitou Jorge Messias, algo que não acontecia desde 1894. Com a vaga de Luís Roberto Barroso ainda aberta e novas aposentadorias previstas, o próximo presidente poderá indicar quatro ministros até 2030. Cada nome dependerá do Senado. Não por acaso, a renovação de 54 cadeiras foi apresentada por muitos candidatos como um instrumento para alterar a relação de forças com o STF.

Eleição diferente, por José Casado

Revista Veja  

Reta final com guerrilha religiosa no palanque e esgrima de vaidades no STF

É uma eleição diferente. Delineia o fim de um ciclo com a despedida da geração que se mantém hegemônica na política desde o fim da ditadura.

Dois candidatos encarnam esse epílogo: Lula, 80 anos, e Ronaldo Caiado, 77 anos, ajudaram a fazer a Constituição (1988), disputaram a primeira presidencial com voto direto (1989) e estão aí nas urnas, de novo, quase quatro décadas depois.

O sujeito oculto desta eleição é Jair Bolsonaro, 71 anos. Ele ascendeu na política cultuando o saudosismo do regime militar, que o renegara no Exército. Está inelegível e condenado à prisão até os 97 anos de idade, porque tentou construir a própria ditadura depois de ter perdido a reeleição para Lula (2022).

Sobe-e-desce, por Carlos Drummond

CartaCapital

Os rumos da economia sob Lula ou sob Flávio Bolsonaro

Além do significado político, a eleição presidencial do domingo 4 será, para a economia, ainda mais decisiva do que aquela de 2002, quando a vitória de Lula impediu o ingresso do País na Alca e a privatização da Petrobras, acredita o economista Marcelo Manzano, professor do Instituto de Economia da Unicamp e diretor do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da mesma universidade. “Muito mais estará em jogo, não apenas porque o projeto de país representado por Lula é radicalmente diferente daquele defendido por Flávio Bolsonaro, mas também porque o cenário internacional nos coloca diante de desafios enormes. Caso a oposição vença, o nosso futuro estará ameaçado.”

Luiz Inácio e Mahatma Gandhi, por Luiz Gonzaga Belluzzo

CartaCapital

As políticas públicas e sociais dos três mandatos do presidente foram impulsionadas por um ambiente democrático

É atribuída a Mahatma Gandhi uma resposta irônica ao jornalista que o questionou sobre a Civilização Ocidental. Gandhi disparou: “Teria sido uma boa ideia”.

Na esteira do Iluminismo e da Revolução Francesa, a dita Civilização, entre dores e contradições, busca sobreviver às muitas agressões dos que proclamam sua defesa. O século XX testemunhou a dura peregrinação da “boa ideia”, sempre atormentada pela tensão permanente entre desejos despóticos dos poderosos e os anseios dos mais frágeis pela autonomia do indivíduo. Autonomia que reivindica a convivência entre singularidade e diferença, ancoradas nas solidariedades da pertinência cívica e republicana.

Páreo a páreo, por Cláudio Couto

CartaCapital

Uma eleição completamente aberta

A eleição presidencial de 2026 chega à reta final indefinida, com os dois principais contendores empatados tecnicamente, tanto no primeiro quanto no segundo turno, na maior parte dos levantamentos de intenção de voto.

Por um lado, presidentes no cargo costumam contar com o benefício da incumbência, podendo recorrer a medidas de última hora (como nos casos, agora, da proibição das plataformas de apostas e do reajuste do Bolsa Família), além de ter na propaganda eleitoral um instrumento capaz de mostrar as realizações do governo e, com isso, melhorar seus índices de aprovação, como se viu em eleições passadas. Por outro lado, a figura de Lula, central na política brasileira desde o fim dos anos 1970, apresenta sinais de fadiga, não entusiasmando os mais jovens e desalentando muitos dos mais velhos. Tal quadro é evidenciado por dados da pesquisa Meio-Ideia do fim de setembro: o atual presidente perde para Flávio Bolsonaro entre eleitores de 16 a 24 anos (53,5% x 40,4%) por diferença bem maior do que a vantagem que tem na faixa etária dos 45 aos 59 anos (51,8% x 46,8%).

O risco evangélico, por Aldo Fornazieri*

CartaCapital

O proselitismo religioso contamina, como nunca, o processo eleitoral

A política brasileira tem sofrido uma crescente e perigosa contaminação religiosa. As eleições de 2026 representam uma escalada nesse processo. Determinados líderes e grupos evangélicos estão se tornando um grave risco à paz religiosa, social e política. Estimulam o preconceito, o ódio e a intolerância. A família Bolsonaro, notadamente Flávio e Michelle, estão envolvidos com esses grupos e ameaçam o Estado laico. Michelle age, provavelmente, movida por uma fé distorcida. Flávio, por oportunismo político e eleitoral.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Que Deus? Que pátria? Que família?

Por CartaCapital

Flávio Bolsonaro é uma fake news ambulante

Em meio à guerra santa que ameaça o posto de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil, Flávio Bolsonaro, sem esconder o constrangimento, ergueu uma santa de crochê à maneira de um capitão de time de várzea que empunha uma taça de latão. Caso Robin, o parceiro do Batman naquele seriado de tevê dos anos 60 do século passado, assistisse a esse momento de devoção, não titubearia: “Santa hipocrisia”.

A controvérsia em torno da patrona, da imagem negra recolhida de um rio por pescadores, não deixou de produzir um milagre. O esforço do chamado jornalismo profissional em provar que alguns fatos compunham uma fake news, a ponto de colocar em dúvida o trabalho de uma das mais competentes jornalistas, Maria Cristina Fernandes, se assemelha a um épico bíblico. A água se converteu em vinho.

Poesia | Talvez, de Pablo Neruda

 

Música | Teresa Cristina - Com que roupa (Noel Rosa)