sábado, 3 de outubro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Que Deus? Que pátria? Que família?

Por CartaCapital

Flávio Bolsonaro é uma fake news ambulante

Em meio à guerra santa que ameaça o posto de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil, Flávio Bolsonaro, sem esconder o constrangimento, ergueu uma santa de crochê à maneira de um capitão de time de várzea que empunha uma taça de latão. Caso Robin, o parceiro do Batman naquele seriado de tevê dos anos 60 do século passado, assistisse a esse momento de devoção, não titubearia: “Santa hipocrisia”.

A controvérsia em torno da patrona, da imagem negra recolhida de um rio por pescadores, não deixou de produzir um milagre. O esforço do chamado jornalismo profissional em provar que alguns fatos compunham uma fake news, a ponto de colocar em dúvida o trabalho de uma das mais competentes jornalistas, Maria Cristina Fernandes, se assemelha a um épico bíblico. A água se converteu em vinho.

Lembremos os fatos: a jornalista apenas, e tão somente, informou o incômodo da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil com uma ala evangélica ligada umbilicalmente ao senador que defende o “rebaixamento” da santa. Como se sabe, os protestantes sempre criticaram a adoração de imagens. A preocupação da CNBB tem razão de ser. Desde 2018, aponta um relatório da Comissão de Justiça e Paz, foram registrados 58 episódios de ataques a católicos. Victório Galli, ex-deputado e ex-assessor da Presidência da República no governo de Jair Bolsonaro, propôs um projeto, rejeitado na Câmara, para mudar o status de Nossa Senhora para “padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. O pastor JB Carvalho, responsável pelo batismo de Flávio Bolsonaro, considera inconstitucional o título da santa estabelecido por uma lei de 1980. E o presidenciável afirmou que, na eventualidade de ser eleito, decretará, como primeiro ato, “que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo” (supomos que o segundo será assinar a anistia ao pai, condenado por tentativa de golpe).

Em geral, onde há fumaça há fogo, mas os meios de comunicação, em uma cruzada, se empenharam em desqualificar esse conjunto de evidências por meio de editoriais, artigos e “reportagens”. Faltam registros de veemência semelhante quando mentiras comprovadas – e não análises plausíveis − contra candidatos progressistas, de qualquer época, influíram na dinâmica eleitoral. Mais. Não foram raros os momentos em que a mídia foi o centro irradiador ou a caixa de ressonância da desinformação. Mas nunca é tarde para a remissão dos pecados.

Apesar da condescendência, Flávio Bolsonaro não passa de uma caricatura. O carola no expediente comercial vira um endiabrado entre quatro paredes, conforme as revelações de Alexandre Santini, seu ex-sócio na fantástica loja de chocolates, a mais lucrativa franquia da Kopenhagen, especializada em movimentar dinheiro vivo. Diante das “encomendas” – e nem vieram à tona detalhes das festas de Daniel Vorcaro em Trancoso −, pode-se dizer que o presidenciável tem um conceito amplo de família. Sempre cabe mais uma.

O filho 01 encarna, por fim, um paradoxo consolidado sob a égide do bolsonarismo: o patriota entreguista. Flávio não concorre ao cargo de presidente do Brasil. Sua ambição, captada pela foto da visita à Casa Branca, é arrumar um bico de mordomo de Trump.

No domingo 4, os eleitores terão a chance de afastar a tentação.

Publicado na edição n° 1433 de CartaCapital, em 07 de outubro de 2026.

Escassez de propostas

Por Revista Veja

Polêmica sobre Nossa Senhora é mais um exemplo do baixo nível da atual campanha eleitoral

Parece não haver milagre capaz de afastar da política nacional a mistura com assuntos religiosos. O Estado laico, garantido pela Carta de 1988, muitas vezes parece soar como letra morta na nossa Constituição. O culto a Nossa Senhora Aparecida é usado com frequência para promover essa indevida confusão, nos mais diferentes períodos da história nacional. No Império, por exemplo, a princesa Isabel visitou a cidade de Aparecida, no interior paulista, e ofereceu à imagem uma coroa de ouro e diamante. Em 1930, a adoração recebeu o aval definitivo do papa Pio XI, que a declarou padroeira do Brasil. Getúlio Vargas, chefe do governo provisório que depôs a República Velha, acompanhou a cerimônia e participou das celebrações. Foi na ditadura militar que 12 de outubro virou oficialmente o feriado da santa. A atual campanha eleitoral acaba de acrescentar um novo capítulo a essa história.

A polêmica começou quando uma jornalista comentou em um programa recente da GloboNews que grupos católicos estavam preo­cupados com uma movimentação evangélica para elaborar um projeto de lei com o objetivo de tirar de Nossa Senhora o título de padroeira do Brasil. O caso logo ganhou repercussão, com a campanha de Lula e os principais aliados petistas atribuindo o suposto movimento a aliados religiosos do rival Flávio Bolsonaro. A emissora se retratou na sequência, pedindo desculpas pelo erro e informando que havia uma proposta nessa direção em dezembro de 2007, mas que acabou sendo arquivada pela Câmara em agosto de 2008. “Posso considerar uma espécie de facada essa fake news em mim”, disse o candidato do PL em podcast católico. O assunto deu início também a um novo conflito entre o TSE e o STF, com base em decisões sobre a retirada e manutenção desse tipo de conteúdo nas redes sociais.

O fato de Nossa Senhora ter virado a santa da polarização é mais um exemplo do baixo nível da atual campanha, que parece ainda pior do que as anteriores. A poucos dias das eleições, Lula e Flávio gastaram boa parte do tempo batendo boca a respeito de um assunto desmentido pelo próprio veículo que o divulgou. Ao longo dos últimos meses, devido a outras polêmicas, pouco se discutiram com a necessária seriedade e profundidade temas importantes como a dívida pública, o baixo nível da educação e ideias efetivas para combater facções do crime organizado como PCC e Comando Vermelho. Salvo uma grande surpresa no próximo dia 4, os dois favoritos devem se enfrentar na rodada final, em tempo ainda para mostrarem que são capazes de falar sobre propostas e projetos para o futuro do país. O Brasil merece um debate melhor.

Orçamentos ligados à Justiça estão fora da realidade

Por O Globo

Judiciário, Defensoria e Ministério Público preveem gastos com pessoal acima do permitido por lei

Depois do pagamento de juros da dívida, os salários do funcionalismo são a segunda maior despesa do governo federal. Ficam atrás somente dos gastos com Previdência. Como o item tem destaque na planilha de custos, uma lei aprovada em 2024 como decorrência do novo arcabouço fiscal determinou uma trava para os aumentos salariais. Se as contas do governo fecham no vermelho em determinado ano, no seguinte a folha de pagamentos não pode crescer mais de 0,6% acima da inflação. A determinação já é generosa. Mas a premissa tem lógica: o funcionalismo deve estar em sintonia com a realidade do país. Desgraçadamente, o Poder Judiciário, o Ministério Público da União (MPU) e a Defensoria Pública da União (DPU) pensam de modo diferente.

Como revelou reportagem do GLOBO, o Orçamento de 2027 prevê gastos com pessoal acima da trava. No Judiciário, o limite seria de R$ 53,7 bilhões, mas a previsão é de R$ 55,3 bilhões (diferença de R$ 1,6 bilhão). No MPU, a despesa extrapola em R$ 291 milhões o teto de R$ 8,2 bilhões e, na DPU, em R$ 74 milhões o limite de R$ 537 milhões. A falta de comprometimento dos organismos vinculados à Justiça destoa dos demais Poderes. Executivo e o Legislativo preveem gastos dentro dos parâmetros estabelecidos pela lei.

Judiciário e MPU abrigam a elite do funcionalismo, que ganha os maiores salários. De acordo com os dados mais recentes do Atlas do Estado Brasileiro, do Ipea (2021), a remuneração média no Judiciário federal é 33% superior à do Legislativo e 73% superior à do Executivo. A principal causa da distorção são os vencimentos dos juízes, mas não só. Mesmo os 20% que ganham menos no Judiciário são mais bem remunerados que servidores públicos em faixas salariais elevadas nos âmbitos municipal e estadual.

O Supremo Tribunal Federal (STF), responsável pela proposta orçamentária do Judiciário, não respondeu à contestação da reportagem do GLOBO. Na tentativa de justificar a previsão de despesa acima do teto, a DPU disse que a lei de 2024 não estabeleceu como definir a base do cálculo de gasto com pessoal. Como o Orçamento de 2027 foi feito antes do fim de 2026, a Defensoria anualizou os pagamentos de março e chegou a um total de R$ 643,8 milhões, acima do valor estimado pelo governo. Um erro de cálculo de algumas dezenas de milhões.

A resposta do MPU é a mais reveladora, por explicar por que o Brasil tem um dos sistemas judiciais mais caros do mundo. A Procuradoria-Geral da República afirmou que chegou ao total de gastos seguindo o trecho da lei que permite retirar do cálculo da trava as despesas decorrentes de decisões judiciais. Quais especificamente? A do STF em 25 de março, quando a Corte ampliou o teto salarial constitucional de R$ 46,4 mil para R$ 78,9 mil. Em vez de combater os auxílios de todo tipo, o STF legitimou os famigerados “penduricalhos”.

A criação de vantagens salariais descabidas, as manobras facciosas para mantê-las e as decisões judiciais tendenciosas que as legalizam demonstram o grau de descolamento da realidade na elite do funcionalismo. Os supersalários da magistratura e do Ministério Público deveriam ser combatidos mesmo que houvesse folga orçamentária. Com as contas públicas desarranjadas, precisam ser prioridade.

Soberania é fundamental para Brasil avaliar cooperação técnica com EUA

Por O Globo

México é exemplo de como recursos americanos podem ser usados contra o tráfico sem violar princípio essencial

A ampliação da atuação militar dos Estados Unidos na América Latina tem despertado controvérsia. As ações americanas vêm na esteira de uma campanha agressiva do presidente Donald Trump, iniciada com o ataque a embarcações no Caribe acusadas de transportar drogas e amplificada pela captura do ditador venezuelano Nicolás Maduro. Também integra a iniciativa continental a designação de facções criminosas brasileiras como grupos “narcoterroristas”.

Em tal contexto, é importante que o Brasil mantenha a defesa da soberania e do território nacional. Não se pode conceber uma intervenção semelhante à que ocorreu na Venezuela. Mas isso não significa que não haja oportunidade de receber apoio técnico no combate a facções criminosas de atuação internacional. Em entrevista ao Wall Street Journal, o general americano responsável pelo Comando Sul, Francis Donovan, afirmou que todas as “opções estão sobre a mesa” para combater o narcotráfico no continente.

Um exemplo positivo foi o entendimento entre Trump e a presidente mexicana, a esquerdista Claudia Sheinbaum. Por ter extensa fronteira com os Estados Unidos e ser base de cartéis de drogas, o México foi alvo de duras ameaças de Trump. Sheinbaum soube abrir e aproveitar um canal de comunicação direta com ele. Em fevereiro, forças mexicanas, usando informações da inteligência americana, deflagraram operações que resultaram na morte de Nemesio Oseguera Cervantes, “El Mencho”, chefe do Cartel Jalisco Nova Geração — dentro do princípio de colaboração com soberania, estabelecido por ela e aceito por Trump.

Outros casos que envolvem maior intervenção devem servir de alerta para não alargar demais a cooperação. Nos últimos meses, 50 militares e agentes americanos participaram de ações no Equador contra uma rede de tráfico ligada a um cartel mexicano. Também no Equador, os Estados Unidos ajudaram no bombardeio a uma base de traficantes. Na Venezuela, houve participação americana na operação que eliminou o chefe da organização criminosa Tren de Aragua, também classificada como “narcoterrorista”. O Brasil deve tomar todo cuidado para não abrir espaço a presença militar em território nacional.

Isso não significa, contudo, que o país deva recusar toda ajuda americana no combate ao tráfico, em especial na imensidão da Amazônia, onde é vital o uso de tecnologia de ponta para rastrear e localizar rotas e bases criminosas. A situação enseja uma colaboração que envolva troca de informações, como a já existente entre polícias e Forças Armadas dos dois países, além de fornecimento de tecnologia e material. Mas sem participação direta nas ações.

Donovan descreve a possibilidade de uso de drones para mapear redes do tráfico, menciona mais pontos de checagens em fronteiras e scanners em portos — um dos pontos frágeis da vigilância brasileira — e cita tecnologia avançada para monitoramento aquático — que poderia servir também em rios brasileiros. Tudo isso é possível, desde que resguardada a soberania.

Em SP, dúvidas se concentram na corrida ao Senado

Por Folha de S. Paulo

Datafolha mostra que Tarcísio está perto de derrotar Haddad no 1º turno da eleição para o governo estadual

Marina e Tebet, as candidatas não petistas de Lula, e Derrite e André do Prado, do campo bolsonarista, disputam as duas vagas de senador

A disputa para o cargo de governador de São Paulo está à beira de ser decidida no primeiro turno, a julgar pela mais recente pesquisa Datafolha. Uma segunda rodada, que permitiria mais debate e informação ao eleitor, parece menos provável.

Em contraste, a eleição para o Senado se afigura de todo incerta, mas pode-se dizer que o desempenho das candidatas do governo federal é mais animador do que o de Fernando Haddad (PT).

Marina Silva (Rede) e Simone Tebet (PSB), do campo governista, mas não do partido de Haddad e Luiz Inácio Lula da Silva, têm chances de eleição. Em situação de empate, na prática, disputam as duas cadeiras com Guilherme Derrite (PP) e André do Prado (PL), associados à situação paulista e à candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro (PL).

O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) conta com boa avaliação. Para 47% do eleitorado, seu governo é ótimo ou bom, enquanto para 21% é ruim ou péssimo. Seus números melhoraram depois do início da campanha eleitoral. É aprovado por 62% dos entrevistados e desaprovado por 32%; é rejeitado por apenas 29% dos eleitores.

Haddad, por sua vez, tem rejeição de 45%, próxima da maioria. No primeiro turno, Tarcísio vence por 50% a 33% do total de votos. Nos válidos, são 56% a 37%.

A situação parece ainda mais difícil quando se considera a quantidade de votos que poderia receber de eleitores migrantes. Além de Tarcísio e de Haddad, os demais candidatos somam não mais do que 8% do total de votos; os indecisos são apenas 3%. Enfim, em caso de improvável segundo turno, Tarcísio venceria com 55% dos votos totais, ante 38% de Haddad.

O ex-prefeito de São Paulo até se mostra competitivo na região metropolitana, onde marca 40% e se aproxima dos 43% do governador. No interior, entretanto, Tarcísio, mesmo ainda um novato na política estadual, bate o petista por 57% a 27%.

Ex-ministro da Fazenda e um dos principais assessores do presidente da República, Haddad não tem bom desempenho mesmo no eleitorado mais típico do lulismo. Perde para Tarcísio por 45% a 35% entre aqueles com renda igual ou menor do que dois salários mínimos, por exemplo.

Já as candidatas do governismo ao Senado, Marina Silva e Simone Tebet, têm desempenho semelhante nas diversas faixas de renda, votação que, de resto, não discrepa daquela dos demais candidatos na ponta, Derrite e Prado.

Especula-se qual será a atitude de Tarcísio em caso de vitória no primeiro turno. Seu nome foi preterido por Jair Bolsonaro (PL) para a disputa presidencial. Até aqui, não se sabe se, por estar ocupado pelas obrigações de governo e candidatura, o governador não parece ter se envolvido de modo entusiasmado na campanha de Flávio.

Uma vitória precoce poderia engajar Tarcísio na campanha da direita, ou assim esperam os líderes políticos do bolsonarismo.

O que o baixo desemprego esconde

Por Folha de S. Paulo

País gera mais postos de trabalho, mas informalidade cresce entre empregados do setor privado de 2014 a 2025

A carteira assinada não garante prosperidade, mas contribui para uma trajetória mais previsível de crescimento profissional

O Brasil atingiu recordes favoráveis no mercado de trabalho, com mais de 103 milhões de pessoas ocupadas e taxa em torno de 59%, a maior da série do IBGE iniciada em 2012. Mas, a despeito do aumento do emprego, a participação das vagas formais no total ainda deixa a desejar.

O debate público costuma tratar emprego e formalização como fenômenos quase equivalentes. Não são. Quando se consideram os empregados no setor privado, exclusive domésticos, a proporção dos com carteira assinada —basicamente, celetistas— sobre o conjunto dos ocupados caiu de 40,3%, em 2014, para 38,5% no ano passado.

Já a fatia dos sem carteira subiu de 11,4% para 13,2% nas mesmas bases de comparação.

É verdade que, quando se levam em conta também os funcionários públicos, os domésticos e os autônomos, a informalidade total no mercado caiu no período, situando-se hoje na casa de ainda muito elevados 37%. Mas os números do setor empresarial são particularmente relevantes.

A formalidade está associada a maior produtividade, acesso ao crédito, treinamento contínuo, contribuição previdenciária e proteção social. Quando o emprego cresce sem que a formalização acompanhe o movimento, parte dos ganhos econômicos de longo prazo deixa de aparecer.

Há ainda um efeito menos discutido: a mobilidade social. A formalidade não garante prosperidade, porém contribui para uma trajetória mais previsível de crescimento profissional. É por meio dela que muitos trabalhadores ampliam sua capacidade de investimento em educação e formação de patrimônio.

Quando a proporção dos empregados sem carteira assinada é elevada, essas pontes para a ascensão se tornam mais frágeis.

Deve-se reconhecer que o mercado de trabalho mudou. Profissionais autônomos, microempreendedores e trabalhadores de plataformas digitais frequentemente valorizam flexibilidade e autonomia. Em muitos casos, suas rendas podem superar as de empregos tradicionais.

Tratar toda informalidade como sinônimo de precariedade, portanto, seria ignorar transformações relevantes da economia.

Mesmo admitindo isso, os dados indicam que parte importante dos empregos criados surgiu em modalidades com menor proteção social e menor integração aos mecanismos tradicionais de produtividade. O sucesso não deveria ser medido apenas pela quantidade de pessoas trabalhando mas também pela qualidade econômica dessas vagas.

Juízes fazem o diabo para ajudar Lula

Por O Estado de S. Paulo

Ministros do STF e do TSE mandam às favas os escrúpulos de consciência e tomam decisões que inviabilizam o último debate presidencial do primeiro turno, do qual o petista não participaria

Já ficou suficientemente claro que há uma força-tarefa no Poder Judiciário dedicada a ajudar a reeleger o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Só isso explica as decisões arbitrárias e esdrúxulas que os ministros Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), tomaram para inviabilizar a realização do último debate presidencial antes do primeiro turno da eleição.

Em política, como já disse a ex-presidente Dilma Rousseff, faz-se “o diabo” para vencer uma eleição. A novidade agora é que ministros de tribunais superiores mandaram às favas os escrúpulos de consciência e decidiram apelar ao Coisa Ruim para facilitar a vida de Lula e dificultar a de seu principal adversário, Flávio Bolsonaro (PL), interferindo diretamente na eleição.

Como se sabe, Lula avisou que não iria ao debate na TV Globo. Conforme as regras assinadas por todos os candidatos, inclusive Lula, a emissora poderia mostrar o púlpito vazio reservado ao petista, e os demais candidatos poderiam direcionar perguntas a ele. Mas eis que o time jurídico de Lula entrou em ação, e a ministra Estela Aranha prontamente acolheu a demanda, proibindo a TV Globo de mostrar o púlpito vazio e que os candidatos presentes fizessem perguntas ao ausente. Desse modo, Estela Aranha rasgou um regulamento com o qual todos haviam concordado.

Só é possível compreender a decisão da ministra à luz de suas relações próximas com o governo Lula e com o ministro do STF Flávio Dino, fiel escudeiro do presidente no Supremo e que também está ativamente trabalhando pela campanha petista. Não é papel de uma juíza eleitoral poupar um candidato do desgaste político de se ausentar de um debate por livre e espontânea vontade, muito menos ditar o que um veículo de comunicação pode ou não exibir. A Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão deu à coisa o nome que ela tem: “Uma agressão à liberdade de imprensa”.

Pior fez o ministro Gilmar Mendes. Atropelando o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, que negara o pedido, ele obrigou a TV Globo a incluir no debate o candidato Renan Santos, do Missão, que não tinha vaga assegurada por lei nem foi convidado pela emissora. O pedido, feito pelo partido Solidariedade, foi malandramente enxertado em uma reclamação sobre um caso do Paraná que está no gabinete de Mendes desde maio – o manjado expediente, do qual já tratamos nesta página, de escolher um juiz ao gosto do freguês. O argumento de que entrevistas anteriores criaram uma “legítima expectativa” de participação de Renan no debate não tem amparo em uma vírgula da Lei Eleitoral, como avaliaram juristas consultados pelo Estadão. Foi um ato de força.

Mais uma vez, nada disso veio de graça. Desde a vergonhosa sessão do STF de 15 de setembro, está claríssimo que Gilmar Mendes integra o time do Supremo que joga pesado para impedir que Flávio Bolsonaro se eleja presidente e, conforme previsto, modifique drasticamente o jogo de forças dentro da Corte.

Não é segredo para ninguém que a reeleição de Lula interessa ao grupo integrado por Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes, Cristiano Zanin e Flávio Dino. Já a vitória de Flávio fortaleceria o grupo de André Mendonça, do qual fazem parte os ministros Luiz Fux e Kassio Nunes Marques. O que está em jogo é o controle sobre os rumos do STF e o destino jurídico de alguns de seus ministros envolvidos no caso Master, principalmente Alexandre de Moraes. Ao longo do próximo mandato presidencial, ao menos quatro cadeiras serão preenchidas, entre elas as de Luiz Fux, de Cármen Lúcia e a do próprio Gilmar Mendes. Essa guerra intestina no STF já interfere diretamente na disputa eleitoral, e os ministros nem sequer se dão mais ao trabalho de disfarçar.

Em nome de seus interesses políticos, Gilmar Mendes e Estela Aranha violaram a liberdade de imprensa e cassaram o direito do eleitor de ouvir as propostas dos candidatos à Presidência da República no que seria o último encontro entre eles antes do primeiro turno. E pela força de canetadas judiciais. É amarga a ironia de que a lisura da campanha eleitoral, defendida a duras penas contra o golpismo bolsonarista, seja agora tisnada justamente por quem tinha o dever de resguardá-la.

O Brasil que queremos já existe

Por O Estado de S. Paulo

ITA, Embrapa e Porto Digital são ilhas de excelência que mostram como incentivos bem dados pelo poder público e parcerias com a iniciativa privada podem fazer do Brasil uma potência

Numa campanha eleitoral marcada por um deserto de ideias, em que os principais candidatos a presidente da República parecem ignorar as lições do passado e não ter a capacidade de idealizar projetos para o futuro, ilhas de excelência do presente mostram que o Brasil que queremos já existe.

Uma recente reportagem especial do Estadão apresentou casos de sucesso que merecem a atenção daqueles que pretendem governar o País pelos próximos quatro anos. Trata-se do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e do Porto Digital.

Em áreas distintas do setor produtivo, as três iniciativas são exemplos de como o Brasil pode se abrir para o mundo e conquistá-lo. A fórmula de sucesso aplicada é bastante semelhante: investimento em pessoas, pesquisa e inovação, parceria entre universidades e o setor privado e abertura ao conhecimento e à competição internacionais.

Esse foi o caminho trilhado pelo ITA, desde a sua fundação nos anos 1950, em São José dos Campos (SP). A instituição pública da Força Aérea Brasileira (FAB) formou mão de obra qualificada, graduando ao longo de todos esses anos mais de 9 mil engenheiros disputados por empresas de todo o mundo, e ainda produziu o conhecimento necessário que impulsionou o desenvolvimento de uma indústria aeronáutica nacional competitiva.

É a produção científica do ITA que ajudou a estabelecer as bases da Embraer, que produz e exporta aviões. O resultado pode ser mensurado em números: hoje, a carteira de pedidos da empresa brasileira soma US$ 34,5 bilhões.

Já a Embrapa é a menina dos olhos do campo. Desde os anos 1970, o centro de pesquisas atua para posicionar o Brasil como uma potência agrícola – e conseguiu. Mas, para isso, a Embrapa se abriu ao mundo, mandando mais de 2,5 mil pesquisadores para estudar no exterior e aplicar aqui o conhecimento adquirido lá fora.

Foi essa estratégia que abriu caminho para a produção de conhecimento local. E são grandiosos os feitos da Embrapa, como a otimização do uso do solo, com o plantio de até três safras por ano; a adaptação genética de sementes, o que abriu frentes agrícolas no Cerrado; e o aprimoramento da criação de animais. Com ciência tropical de ponta, o Brasil deixou a condição de importador de alimentos, passou a liderar inúmeros mercados, como o da soja, e hoje é considerado o “celeiro do mundo”.

E a tecnologia também transformou uma região degradada do Recife desde a implementação, no início dos anos 2000, do Porto Digital. Companhias que desenvolvem ferramentas tecnológicas, softwares, aplicativos, sistemas de gestão, entre outras soluções, transformaram a economia da capital pernambucana, que concentra cerca de 550 empresas que, juntas, faturam R$ 7,4 bilhões ao ano e geram mais de 24 mil empregos.

Nenhum desses feitos é fruto do acaso. Como bem afirmou ao Estadão o economista Marcos Lisboa, a principal semelhança entre o ITA, a Embrapa e o Porto Digital é o “investimento muito grande em formação de gente”, com proximidade a centros de pesquisa, o que possibilitou a criação de um “ambiente de inovação”.

Na aeronáutica, no campo ou na tecnologia da informação, o acesso à educação de qualidade permitiu a formação de uma mão de obra valorizada para ocupar postos de trabalho de ponta. E tudo isso foi possível porque o Estado projetou e executou políticas públicas, dando os incentivos certos aos setores produtivos, de modo a alcançar resultados efetivos.

Para isso, o Brasil precisa deixar para trás seus erros, como as políticas de subsídios e incentivos fiscais que resultam em protecionismo e perpetuam o patrimonialismo, porque atendem a interesses particulares, e não aos do Brasil. O legado dessas escolhas é a condenação a um crescimento medíocre e a uma baixíssima produtividade.

Como mostram o ITA, a Embrapa e o Porto Digital, o Brasil pode mais do que isso.

O descontrole das armas

Por O Estado de S. Paulo

Quatro anos depois, falhas que ajudam a armar criminosos ainda persistem

Passados quatro anos desde que o Tribunal de Contas da União (TCU) apontou falhas no sistema de controle de armas de fogo, em meio à temerária expansão armamentista dos anos de governo de Jair Bolsonaro, o tribunal voltou ao tema para mostrar que os problemas seguem praticamente os mesmos e que o Estado ainda é incapaz de rastrear adequadamente os armamentos que autoriza a circular.

Relatório do TCU divulgado em 29 de setembro afirma que a maior parte das medidas recomendadas em 2022 para aprimorar esse controle ainda não foi integralmente implementada.

Naquele ano, o TCU analisou o Sistema Nacional de Armas (Sinarm), da Polícia Federal, o Sistema de Gerenciamento Militar de Armas (Sigma), do Exército Brasileiro, e o Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), do Ministério da Justiça, e descobriu que as ferramentas não conversavam entre si. Faltava integração e havia inconsistências nos dados sobre apreensões e registros deficientes de extravios, furtos e roubos.

A desordem ocorreu justamente quando o País experimentava uma corrida às armas. Entre janeiro de 2020 e dezembro de 2021, mais de 500 mil delas foram legalmente adquiridas, no embalo da máxima bolsonarista de que “um povo armado jamais será escravizado”. O afrouxamento foi tamanho que o TCU encontrou milhares de registros de CAC (grupo formado por caçadores, atiradores e colecionadores) concedidos ou renovados para pessoas que respondiam a processos de execução penal. Outras tinham mandados de prisão em aberto. Houve até mortos que, segundo os registros oficiais, continuaram comprando munição.

Dois anos depois, em 2024, já no governo de Luiz Inácio Lula da Silva, outro relatório do próprio tribunal revelou que pistolas e armas pesadas, como fuzis e metralhadoras, haviam sido compradas legalmente por criminosos condenados, alguns deles foragidos, entre 2019 e 2022. À época, o Estadão mostrou que integrantes do PCC tinham encontrado na falha burocrática um jeitinho de pagar mais barato. A facção usava “laranjas” com certificados de CAC para adquirir armas legalmente por preços até 65% inferiores aos praticados no mercado clandestino.

O novo monitoramento mostra que, das providências cobradas pelo TCU nos últimos anos, apenas uma foi integralmente implementada. Outras avançam a passos lentos e duas nem sequer saíram do papel. Os sistemas responsáveis pelo registro de armas ainda passam por processos de integração e não falam a mesma língua.

Segundo o tribunal, faltam medidas para aprimorar a rastreabilidade e a responsabilização de quem descumpre as obrigações previstas no Estatuto do Desarmamento, muitas vezes deixando impune quem não cumpre a lei. Também segue pendente a regulamentação das guias de tráfego dos CACs.

Ora, quatro anos é tempo mais que suficiente para que o Estado saiba de onde veio e para onde foi uma arma cuja compra ele próprio autorizou.

Enquanto o Estado é lento, o crime organizado corre e já demonstrou habilidade de sobra para explorar cada brecha do sistema, tirando proveito de negligências burocráticas que facilitam sua atuação delinquente.

A eleição pertence aos brasileiros

Por Correio Braziliense

Afinidades internacionais podem integrar o debate sobre política externa; não podem substituir a vontade popular nem conferir a governos estrangeiros qualquer poder de arbitragem sobre a democracia brasileira

Chegamos à reta final do primeiro turno das eleições sob pressão internacional, num cenário diferente daquele de 2022. Há quatro anos, o governo de Joe Biden contribuiu para desencorajar uma ruptura institucional e reconheceu prontamente a vitória de Lula. Agora, as afinidades da administração Donald Trump com o bolsonarismo alimentam preocupações sobre a atuação de Washington. Entretanto, nenhuma potência tem autoridade para tutelar nossas urnas, financiar sua deslegitimação ou condicionar o reconhecimento do resultado à vitória de seu candidato preferido. Cabe exclusivamente aos brasileiros escolher seu presidente.

Não se trata de uma prerrogativa do governo Lula, mas de um direito da sociedade brasileira, inclusive de quem pretende derrotá-lo. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 158,7 milhões de cidadãos estão habilitados a votar neste ano. É desse eleitorado que deve sair o mandato presidencial. Afinidades internacionais podem integrar o debate sobre política externa; não podem substituir a vontade popular nem conferir a governos estrangeiros qualquer poder de arbitragem sobre a democracia brasileira.

É grave, nesse contexto, a informação que levou a Advocacia-Geral da União a solicitar investigação à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal. Segundo reportagem do The Guardian, US$ 1 milhão do Departamento de Estado americano estaria destinado ao programa "Combate ao lawfare e à censura no Brasil". O pedido de apuração é necessário: a existência de financiamento ilegal e sua eventual conexão eleitoral precisam ser demonstradas, com provas e respeito ao devido processo.

O problema ultrapassa o montante anunciado. Recursos de uma potência destinados a influenciar disputas institucionais brasileiras podem produzir efeitos políticos superiores ao seu valor financeiro. Se confirmada uma operação dessa natureza, o Brasil deve reagir pelos canais diplomáticos e pelos mecanismos legais disponíveis. A Constituição fornece o fundamento dessa resposta. A soberania é princípio fundamental da República; a independência nacional e a não intervenção orientam suas relações internacionais. 

Também merece atenção a suspensão dos serviços consulares americanos, seguida pelo fechamento da embaixada australiana. O Departamento de Estado alegou preocupações de segurança e informou que trabalha com autoridades brasileiras. Não apresentou publicamente a natureza da ameaça nem vinculou a medida à eleição. Cabe ao Brasil proteger as representações diplomáticas e esclarecer os riscos. O momento justifica vigilância, mas não permite converter suspeitas de pressão política em fatos comprovados.

Repelir ingerências estrangeiras tampouco significa conceder imunidade ao Supremo Tribunal Federal (STF). Seus ministros devem prestar contas de suas decisões e responder por eventuais irregularidades, conforme as leis brasileiras. A defesa da soberania ganha força quando acompanha a exigência de transparência institucional. O desgaste de uma Corte não concede a outro país licença para dirigir sua reforma, selecionar seus integrantes ou explorar suas vulnerabilidades para interferir na escolha do presidente.

Esse princípio vale para os Estados Unidos e para qualquer outro país, seja governado pela direita, seja pela esquerda. O Brasil precisa de relações internacionais capazes de ampliar comércio, investimento e cooperação, preservando sua liberdade de decisão. A campanha deve devolver centralidade à segurança, à renda, à saúde e à educação, e o vencedor terá de responder aos brasileiros por esses problemas. Nossa democracia comporta divergências profundas; sua legitimidade depende de que o resultado das urnas prevaleça sobre interesses estrangeiros e seja respeitado por vencedores, derrotados e parceiros internacionais.

O eleitor e o poder do voto

por O Povo (CE)

O POVO promoveu durante a campanha debates e sabatinas com os candidatos para contribuir com a reflexão do votante

Quando esta edição impressa do O POVO chegar às mãos dos leitores na manhã deste domingo, muitos deles já estarão se preparando para uma das tarefas mais importantes desse dia: comparecer às respectivas seções eleitorais para escolher o presidente, governadores e parlamentares estaduais e federais. Assim, nos próximos quatro anos, a responsabilidade de conduzir o País estará sob a responsabilidade dos eleitos. Lembrando que a eleição de presidente e governadores ainda dependerão de um eventual segundo turno.

A caminhada até aqui foi longa e atribulada, marcada pela chamada "polarização" que hoje divide a sociedade brasileira. Nesse período, não houve nenhuma folga ou distensão no ambiente de animosidade que marcou as campanhas políticas, com muitos ataques e pouca discussão sobre as propostas essenciais para melhorar as condições de vida dos brasileiros, principalmente dos mais vulneráveis.

Na disputa à Presidência, os dois principais candidatos — o presidente Lula da Silva, que busca a reeleição, e o senador Flávio Bolsonaro (PL), que disputa o cargo pela primeira vez — nunca se distanciaram significativamente quanto à intenção de votos, segundo as pesquisas.

Sobre a eleição para governador no Ceará, os dois candidatos com mais intenções de voto nas pesquisas, o governador Elmano de Freitas (PT), que concorre à reeleição, e o ex-governador Ciro Gomes (PSDB), chegam à reta final da campanha em disputa apertada.

Portanto, o eleitor tem de considerar que o seu voto poderá ser essencial para garantir a vitória do candidato de sua preferência.

Foi com o objetivo de contribuir com a reflexão do eleitor que O POVO promoveu, durante o período eleitoral, sabatinas com todos os candidatos aos cargos majoritários no Estado (à exceção dos que optaram por não comparecer).

Além disso, foram organizados dois debates diretos entre Elmano e Ciro, retransmitidos por um pool de emissoras de rádio e TV de várias regiões do Estado, com um desses encontros realizado no Cariri. O POVO foi o único veículo de comunicação que conseguiu reunir os quatro principais postulantes ao Senado para apresentarem suas propostas. Em uma eleição, na qual os cargos executivos são os que monopolizam as discussões, torna-se ainda mais importante conhecer as propostas daqueles que vão atuar no Congresso Nacional.

Agora não se trata mais de pesquisas de intenção de votos. É hora de confirmar o artigo primeiro, parágrafo único da Constituição Federal: "Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente". Que cada eleitor cearense exerça esse direito livremente, votando conscientemente nos candidatos que escolher.

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