domingo, 4 de outubro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Democracia brasileira demonstra vigor

Por O Globo

Brasileiros irão pacificamente às urnas votar para presidente pela décima vez consecutiva

Algo de revigorante acontecerá hoje para a democracia brasileira: enquanto os candidatos e coligações que disputam votos se dilaceram, muitas vezes com ataques de baixo nível, os eleitores demonstram maturidade. O que se verá hoje nas seções eleitorais não pode ser confundido com apatia. É um eleitorado pacífico, ordeiramente em fila para fazer sua escolha. O comportamento estridente da classe política contrasta com a maturidade dos brasileiros, demonstração inequívoca da força deste que é o período democrático mais longevo do país. São dez eleições presidenciais consecutivas — e a democracia resiste.

É possível dar bom-dia à democracia hoje? Por Dorrit Harazim

O Globo

Numa eleição da magnitude da atual, não há mais espaço para o opcional. Após um hiato de quatro anos, o Brasil se vê novamente às turras

‘Bom dia, democracia. Como é lindo o teu rosto’, postou no 2 de janeiro o imortal da Academia Brasileira de Letras Marco Lucchesi. Assim começava a coluna aqui publicada sobre a posse de Luiz Inácio Lula da Silva como presidente eleito do Brasil dois meses antes. Embora fosse a terceira subida de rampa do candidato do Partido dos Trabalhadores, a apertadíssima vitória sobre o incumbente Jair Bolsonaro (1,8% dos votos) retratava a fenda trevosa que continuaria a dividir o Brasil. Não deu outra: o novo governo mal havia se instalado quando ocorreu a delirante tentativa de golpe do 8 de Janeiro, com o consequente julgamento e condenação do derrotado insurgente a 27 anos e três meses de prisão em regime fechado.

O desafio de Lula na hora da decisão, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Sob pressão, presidente precisa convencer descontentes de que mudança pode ser para pior

Foi há 20 anos, quando a Itália venceu sua quarta Copa do Mundo. Encerrado o torneio, o saudoso Fernando Vannucci saudou a campeã e fez um discurso inflamado sobre o fiasco da seleção brasileira. “É hora da gente mudar... ou mudar de vez. Vamos colocar o castelo de areia abaixo!”, conclamou.

As redes sociais ainda engatinhavam, mas a transmissão de 2006 virou meme instantâneo. Circula até hoje na internet, onde vídeos antigos ganham novos significados, inspiram piadas, alimentam outros debates.

No esporte e na política, mudar tudo é uma ideia poderosa. Derrubar o castelo soa mais tentador do que reformá-lo. É mais fácil destruir do que consertar as telhas, trocar as janelas, reparar os canos gastos pela ferrugem.

A jornada do voto e os riscos atuais, por Míriam Leitão

O Globo

Eleitores decidirão o destino do país, e não só os próximos quatro anos. O autoritarismo e o alinhamento acrítico aos EUA são riscos que não podemos correr

Quando minha mãe nasceu, mulher não votava. O direito eleitoral feminino é recente. O voto é novo no Brasil. Há apenas 37 anos, o Brasil voltou a escolher livremente o presidente e os governadores, após a longa interrupção imposta pela ditadura. Apesar de as eleições terem se tornado rotina desde a redemocratização, não podemos perder de vista como é valioso o direito que hoje podemos exercer. No fim deste domingo, 4 de outubro, o país terá escolhido dois terços do Senado, toda a Câmara dos Deputados, todas as Assembleias Legislativas e vários chefes do Executivo. A composição do Senado definirá o perfil do Supremo Tribunal Federal que teremos. Será um Supremo capaz de corrigir seus erros ou ele será capturado para o projeto autoritário que um dia combateu?

Sem utopias, por Merval Pereira

O Globo

Votaremos este ano sem ânimo, sem utopias, sem esperança de melhoras. No máximo, tentaremos evitar nas urnas que o candidato que consideramos pior prevaleça.

Em 2022 o Supremo Tribunal Federal (STF) teve papel relevante, garantindo a democracia antes, durante e depois da campanha presidencial. Interveio até mesmo no dia da eleição, quando bloqueios ilegais nas estradas pretendiam impedir que eleitores nordestinos, majoritariamente lulistas, chegassem às urnas para votar. Hoje, o mesmo Supremo Tribunal Federal está mais uma vez envolvido com a eleição, mas do outro lado da mesa, não como mantenedor da ordem e da democracia, mas como fator de desestabilização eleitoral, interferindo indevidamente a favor do presidente Lula, que busca a reeleição.

Os Safras, história de um banco, por Elio Gaspari

O Globo

Eram três irmãos — Edmond, José e Moise — que criaram a empresa com o sobrenome da família. Triunfaram, brigaram (ao seu estilo), viram-se metidos num crime

Está nas livrarias “Os Safras — Uma história”, do repórter Robson Viturino. Conta a trajetória do banco Safra. Tremenda história. Eram três irmãos — Edmond, José e Moise — que criaram um banco com o sobrenome da família. Triunfaram, brigaram (ao seu estilo), viram-se metidos num crime, no qual morreu Edmond.

Em 2015, José Safra era o banqueiro mais rico do mundo. Batia os Rothschild, Warburg, Morgan, Goldman, Rockefeller, Setúbal e Moreira Salles. Tudo isso com um jeito simples e discreto, em pouco mais de 50 anos.

Não importa quem vença, o Centrão vai mandar e o STF estará em maus lençóis, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

É bastante improvável que a eleição presidencial feche já no primeiro turno; as incertezas e tensões vão persistir para além da noite de domingo

Nunca antes na história deste País as eleições chegam ao fim tão indefinidas, tensas e com o Supremo Tribunal Federal roubando a cena, soterrado por erros e críticas. Ganhe quem ganhar a Presidência, as únicas certezas são que o Judiciário estará na mira e que o Centrão vai continuar poderoso, dominando o Legislativo e controlando o Executivo.

Quem ganha neste domingo? É certo que o “segundo pelotão”, com Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Augusto Cury e Renan Santos, mal deve chegar a 10% dos votos válidos e só dois candidatos têm chance de vitória, o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro. No mais, tudo continua incerto.

Eleições 2026: Um bom pedaço do atual regime de poder está em jogo, por William Waack

O Estado de S. Paulo

Número de senadores de oposição e a diferença entre Lula e Flávio Bolsonaro dirá qual é a capacidade desse grupo de conduzir a política

O mais atrevido esforço de parte da burocracia estatal em dirigir o resultado de um pleito terá já no domingo uma boa apreciação da eficácia de seus esforços. A combinação de número de senadores de oposição e a diferença no primeiro turno entre Lula e Flávio Bolsonaro dirá qual é a capacidade desse grupo de conduzir a política.

Já se enxerga o considerável tamanho do erro político, por parte da ala de força dentro do STF, em fundir a crise interna da instituição com o resultado de uma eleição. Ela dispõe de instrumentos de coerção contra adversários internos, especialmente o comando sobre parte relevante de aparatos de segurança como a Polícia Federal. Mas tem bem menos capacidade de controlar os grandes fatores que pesam na formação do voto.

Em quem você vai votar em 2030? Por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Mais do que candidatos, faltam novas forças e coalizões sociais para renovar a política

Até agora, grupos que apareceram no cenário político apoiam projetos reacionários

Na véspera do primeiro turno deste 2026, pelas mídias sociais se viam cartazes criados por IA dos candidatos a presidente de 2030: Flávio Dino, ministro do STF, contra Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo. Sim, 2030 começou faz tempo. Não prestamos atenção.

Os próximos anos serão de dificuldades econômicas. A depender do resultado de 2026, é possível que venham a ser também de angústia política, sendo incertas as condições de disputa da eleição de 2030, se com degradação democrática maior ou total.

Sabe-se que Luiz Inácio Lula da Silva não vai disputar o cargo de presidente em 2030. Nas direitas, caso o bolsonarismo defina a candidatura principal, está longe de certo que Tarcísio ou equivalente seja o candidato. Ainda que apareçam presidenciáveis pela esquerda, no momento é difícil acreditar que o PT adote candidato de fora.

Ao menos desde 2002, o PT é o centro da política partidária. Alguma variante de antipetismo definiu a outra força maior. Desde 1994, o PT mais e mais se limitou a lulismo e Lula. Lideranças escasseiam faz tempo.

Caro leitor de direita, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Se você votar em candidatos bolsonaristas, recompensará quem montou o esquema Master

Se Flávio Bolsonaro perder essa, em 2030 haverá opções melhores

Leitor de direita, a grande mídia está mentindo para você, não para te sacanear, mas para puxar teu saco.

Grande parte do público que paga por notícia ou tem dinheiro para comprar os produtos dos anunciantes da grande mídia está nas classes média e alta.

Historicamente, a classe alta tem maior probabilidade (mas não igual a cem por cento) de votar em candidatos do centro para a direita.

A classe média é um caso mais complexo, mas, nos últimos anos, também tendeu para candidatos do centro para a direita. Nenhum dos pobres que podem eleger Lula esse domingo paga por notícia.

Isso quer dizer que, para não perder as classes que pagam por notícia como público, a grande mídia tem um medo desproporcional de desagradar a direita.

País vai às urnas refém do conflito surdo e radical, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

A política deixou de ser a arte de construir consensos para se tornar a fonte de impasses sem resultados

O jeito de escapar da armadilha é a retomada da obediência a regras e papéis legalmente estabelecidos

O Brasil vai às urnas neste domingo (4) refém da armadilha criada pela batalha de aversões e afeições em que se transformou a política, que deixou de ser a arte da construção de consensos a partir de dissensos para se tornar a própria fonte da discórdia.

A lógica é a do conflito pelo conflito produtor de impasses sem o alcance de resultados. Falar da polarização e atribuir a ela o aprisionamento do país a duas correntes surdas ao contraditório é chover no molhado dos chavões.

Padroeiro de Flávio Bolsonaro é homem, loiro e mora na Casa Branca, por Marcos Augusto Gonçalves

Folha de S. Paulo

Candidato diz que falou simbolicamente sobre Cristo; é de se perguntar até onde vai sua devoção simbólica ao líder dos EUA

Subordinação do país aos interesses americanos vai muito além da simples especulação

No ano passado, Flávio Bolsonaro assistiu a um vídeo divulgado pelo governo Trump que exibia forças americanas destruindo uma embarcação, acusada de pertencer a narcoterroristas, na região do Caribe. Um ataque sumário, que feria as leis internacionais e o bom senso.

O filho de Jair Bolsonaro disse sentir inveja da ação e convidou os americanos a fazerem algo semelhante no Rio: "Ouvi dizer que há barcos como este aqui na baía de Guanabara. Vocês não gostariam de passar alguns meses aqui nos ajudando a combater essas organizações terroristas?", disse ele, apelando ao presidente Donald Trump.

Que anticlímax! Por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Foi pena Flávio Bolsonaro ter se escafedido do debate da Globo aos 44 do 2º tempo

A Faria Lima, o agronegócio e o Brasil queriam saber de seus planos de desgoverno

Que anticlímax! Já sabendo que Lula não iria ao debate, para não ter de apanhar da turma do 1% e levar 20 minutos para poder responder, preparei-me para ouvir Flávio Bolsonaro e seu programa presidencial. Do qual, aliás, só conhecemos suas promessas de anistiar familiares presos ou condenados, soltar golpistas, pôr-se de quatro para Donald Trump e construir igrejas evangélicas. Há importantes questões envolvendo-o e que ele precisava esclarecer, até para dar satisfações aos interessados na sua eleição.

Onde foi parar a festa da democracia? Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Polarização exacerbada afasta tom celebratório do dia da eleição

Eleitor balança entre medo e conformismo com escolha do mal menor

Não muito tempo atrás, ainda era possível descrever o dia da eleição como festivo. Não que não houvesse divergências entre as pessoas, mas elas eram vistas mais como escolhas distintas do que como ameaça existencial. Estava implícito que quem perdesse aceitaria o resultado, parabenizaria o vencedor, e iria para a oposição. Ainda celebrávamos a retomada do direito de escolher nossos dirigentes depois de um hiato de mais de 20 anos imposto pela ditadura militar.

Sobre o afeto que se encerra, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

É preciso distinguir a polarização política e ideológica da afetiva, que contempla convivência cívica e até mesmo amor

A máquina de ódio religiosa transfunde polarização afetiva na política: campanhas se orientam pelo escândalo do outro

Diante do show de horrores com esqueleto fora do armário oferecido pelo STF, vale perguntar se alguma parte cabe à polarização social. Não é exclusividade nossa, acadêmicos norte-americanos já se inquietam com esse fenômeno nas universidades. É preciso, entretanto, distinguir polarização política da afetiva. A primeira contempla posições ideológicas, com maiores ressonâncias onde se exacerbe a divisão entre conservadores e progressistas. A segunda, convivência cívica e, mesmo, amor. Mas as duas podem se superpor.

Incertezas, por Elimar Nascimento

Revista Será? (nº731)

Há os que vivem em um mar de certezas, por mais turbulentos e imprevisíveis que sejam os tempos em que vivemos. Em qualquer situação, estão certos do que está ocorrendo e do que vai acontecer. E, se não acontece, não foi ele que errou, mas a culpa é de variáveis imponderáveis que surgiram. A convicção da certeza persiste.

Aos que, desta natureza, se apoiam em pesquisas de opinião, mantêm a mesma postura. Nunca erram. O que ele falou se refere a um momento que passou. A culpa é deste e não de suas opiniões, sempre certas. Em último caso, o erro é do eleitor que mudou de opinião na hora em que se viu em frente à urna e com a consciência acima.

Poesia - Apelo, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Comportamento Geral - Gonzaguinha