quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Flávio toca um disco velho, por Elio Gaspari

O Globo

2026 não é 2018

Começou uma campanha eleitoral imprevisível e com cheiro de mofo. Lula foi a São Bernardo para relembrar as greves históricas de 1979, e Flávio Bolsonaro retomou o discurso errático de seu pai.

A imprevisibilidade começa quando, segundo a última pesquisa da Quaest, a percentagem de entrevistados que desaprovam o governo (48%) é superior à dos que aprovam (46%). Na realidade, esses números refletem um empate, e esse equilíbrio se repete na liderança de Lula num eventual segundo turno: 43% x 40%. As entrelinhas dessa pesquisa não permitem saber com precisão para onde vão as preferências dos outros candidatos num eventual segundo turno.

O cheiro de mofo vem da escolha de Lula para iniciar a campanha onde começou sua vida pública, há 47 anos. Cheira a mofo a essência do discurso de Flávio em Copacabana, ecoando as falas do pai.

Em 2018, o antipetismo era difuso, Lula estava na cadeia, e o comissariado enfrentava a adversidade com olímpica soberba. Hoje a situação é outra; prova disso é que o Centrão se declarou neutro. A consequência dessa posição só poderá ser medida na noite de 4 de outubro, com as urnas computadas.

Em 2018, Bolsonaro carregava o estandarte de Paulo Guedes; hoje seu filho oferece sucedâneos. O antipetismo de 2026 perdeu seu caráter difuso e ficou restrito a um horror visceral.

Nos últimos anos, a economia viu a queda de gigantes da economia, com as redes varejistas tradicionais Americanas e Casas Bahia recorrendo à recuperação judicial. As causas das dificuldades são diversas. Nas Americanas, vinham da fraude. Nas Casas Bahia, há o fator tecnológico. Nos dois casos, a taxa de juros lunar.

Essas crises desempregam mais gente que os tarifaços de Trump, mas o governo, como todos os anteriores, acha que nada tem a ver com o problema, pois a taxa de juros vem do Banco Central. Verdade, mas quem expande os gastos públicos é ele.

Lula começou seu terceiro governo achando que poderia ajudar a acabar com a guerra na Ucrânia e chega ao final encrencado com dois encrenqueiros: Donald Trump e Javier Milei. Flávio apresenta-se como remédio para esses males. Promessa de campanha. A Trump, ele não pode e não deve dar o que ele quer. A Milei, pode dar discursos e pouco mais que isso.

Com pouca plataforma, Bolsonaro II foi ao arquivo e de lá tirou o tema mofado das urnas eletrônicas, que seriam produzidas por uma empresa da Venezuela chavista. Não só essa patranha já foi desmentida, como o sistema eleitoral brasileiro, instalado há 30 anos, é defendido hoje pelo presidente do TSE, Kassio Nunes Marques. Quem o colocou no STF em 2020 foi Bolsonaro I, a partir de uma articulação de Flávio. Sua recente desconfiança nas urnas é apenas falta de assunto.

O cheiro de mofo da campanha torna-se tóxico quando a operadora de planos de saúde Hapvida diz que poderá aumentar suas mensalidades em dois dígitos, e nenhum candidato pergunta onde foi parar o estudo que pretendia debulhar a composição desses reajustes.

A campanha começou rala e mofada. Tomara que tome jeito.

 

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