Folha de S. Paulo
Ações de dirigentes mudam cálculos de países
acerca da conveniência de ter armas nucleares
Proliferação aumenta chances de episódios de
estresse como a crise dos mísseis de 1962
Eu sou muito novinho, mas a geração de meus pais viveu dias de pânico em outubro de 1962, durante a crise dos mísseis em Cuba, quando a perspectiva de enfrentamento nuclear entre EUA e URSS não apenas era real como pôde ser acompanhada de perto por jornais e rádio. Eu e meus coetâneos fomos poupados daqueles momentos de tensão, mas ainda crescemos num mundo sobre o qual pairava a ameaça de holocausto atômico.
O clima de apreensão foi, contudo,
arrefecendo. A própria crise dos mísseis e seu desfecho não catastrófico
contribuíram para solidificar o chamado tabu nuclear, a ideia de que armas
atômicas jamais seriam usadas. Serviam só para dissuasão, já que sua utilização
seria sob qualquer análise irracional. Não foram só pessoas que chegaram a essa
conclusão, mas também nações.
Nos anos 1990, após o fim da URSS, países
nuclearizados se desfizeram de seus arsenais. Ucrânia, Cazaquistão e Belarus,
que herdaram mísseis soviéticos, os entregaram à Rússia.
Houve, é claro, intensa pressão política, mas essas nações aceitaram trocar as
armas por "garantias de segurança". De forma mais espontânea, a
África do Sul também decidiu se desfazer das bombas que desenvolvera em
segredo.
E não são tantos assim os países que
percorreram a trilha oposta. Tirando as cinco potências nucleares oficiais, só
quatro produziram ogivas: Índia, Israel, Paquistão e Coreia do Norte.
Ainda que com estresse, o mundo não estava se
saindo mal na meta de evitar a proliferação nuclear. Até que vieram Vladimir
Putin e Donald Trump com
ações que mudam os cálculos dos países. A Ucrânia se arrependeu de ter
desistido dos mísseis. Se os tivesse conservado, talvez não tivesse sido
invadida pela Rússia. Trump, ao fragilizar as alianças militares dos EUA, está
empurrando aliados para a bomba. A Coreia do Sul
já está considerando fabricar a sua. E a Europa não ficará inerte.
No mínimo desenvolverá um sistema de defesa independente do americano.
Espero que meus filhos não tenham de
experimentar os dias de pânico que meus pais viveram.
.jpg)
Nenhum comentário:
Postar um comentário