Folha de S. Paulo
Se eleito, senador tentará apagar uma
liberdade que existe em poucos países
Político quer uma sociedade do medo e
tornaria a vida dos pobres mais difícil
Eu estou com medo. Estou com medo porque Flávio
Bolsonaro pode vencer a eleição para presidente no Brasil, e o que
ele quer é destruir tudo o que faz do país um dos lugares mais maravilhosos do
mundo.
Eu só estive algumas vezes
no Brasil. Passei apenas algumas
semanas neste país. Não pretendo compreender toda sua complexidade.
Eu não conheço em detalhes a história do Brasil nem sua geografia ou o conjunto
das culturas que o compõem. Há tanta gente no mundo, a começar pelos próprios
brasileiros, que têm muito mais a dizer do que eu sobre este lugar do planeta.
No entanto, apesar das limitações do meu conhecimento, eu sei de uma coisa: tudo que eu vi em minhas viagens ao Brasil, tudo que testemunhei, tudo que constitui a beleza, a força e a singularidade desse país, Bolsonaro quer destruir.
A sublime e misteriosa floresta amazônica,
sem a qual a humanidade não pode sobreviver, e graças à qual o oxigênio do
planeta é respirável, e que Flávio Bolsonaro, assim como seu pai fez antes
dele, quer devastar para vendê-la ao capitalismo mais destruidor.
A alegria que explode quando, no samba, à
noite, os homens e as mulheres cantam em uma só voz, homens brancos, mulheres
negras, homens negros e mulheres brancas, todos ao redor dos músicos da roda de
samba, sonhando com um mundo melhor e nos provando que podemos viver, cantar e
sonhar juntos, todos esses corpos que Bolsonaro vai tentar colocar uns contra
os outros, separar uns dos outros por meio de suas políticas racistas, da
perseguição das populações negras das favelas, de todo o poder que ele vai dar
à polícia, que, no mundo inteiro, nós sabemos, tem como alvo prioritário as
pessoas não brancas.
O Brasil é também todas as vezes em que vi
dois homens se beijando, ou duas mulheres, com total liberdade, na praia, em
frente ao mar nas noites de verão, nos bares no Rio ou nas ruas quentes de São
Paulo à noite, no samba do trabalhador ou nas areias de Paraty
durante o
festival da Flip.
Toda essa liberdade, que existe em tão poucos
países no mundo, Flávio Bolsonaro tentará apagar, dando cada vez mais espaço ao
fundamentalismo religioso, opondo-se aos direitos das pessoas transgênero, gays
e lésbicas, como fez tantas vezes no Senado
ao longo dos últimos anos.
Todas as vezes em que observei, nas praias do
Rio, pela manhã, amigos bebendo água de coco para se recuperar dos efeitos do
álcool, depois de uma noite de festas, risadas e encontros. Essa cultura da
alegria, da amizade e da celebração popular contra a qual a família Bolsonaro
sempre declarou guerra abertamente, ao atacar o Carnaval
ou os desfiles de rua, supostamente ameaçadores à ordem e à "família
tradicional".
O Brasil é, ainda, uma cultura musical
imensa, o Brasil é todas as vezes em que eu ouvi brasileiros cantando Gilberto Gil
ou Caetano
Veloso, enquanto em 2022, durante a Copa do Mundo
de futebol,
apoiadores de Jair
Bolsonaro perseguiram Gil em público, ameaçando-o e
insultando-o, os mesmos apoiadores que hoje defendem Flávio
Bolsonaro, que, por sua vez, defende o legado político de seu pai.
Brasil é uma literatura
grandiosa que conquistou o mundo. Machado de
Assis, Clarice
Lispector, Victor
Heringer, todos esses grandes autores que fazem a cultura brasileira
brilhar mundo afora, que vieram das margens ou pertenciam a parcelas da
população odiadas pela extrema direita conservadora. Machado de Assis era
descendente de escravizados, Heringer era homossexual, Lispector era mulher.
Bolsonaro, ao cortar os gastos do Estado e,
em consequência, os serviços públicos, tornará a vida dos pobres mais difícil,
e os reduzirá, enfim, ao silêncio. Bolsonaro, que fez muitas declarações
machistas e misóginas e vangloria a família tradicional, dificultará a
emancipação das mulheres. Bolsonaro, ao colocar em curso políticas repressivas
que terão como alvo a população mais vulnerável, e, portanto, em grande parte,
a população não branca, silenciará a diversidade.
Num mundo bolsonarista, não existiria
Lispector nem Machado de Assis nem Heringer. Não existiria literatura.
Eu tenho plena consciência de que, ao evocar
minhas lembranças do Brasil e meu conhecimento muito limitado do país, não
estou mencionando os problemas enfrentados pela sociedade brasileira, as
desigualdades, a violência, a pobreza, a corrupção.
Mas, justamente, Flávio Bolsonaro vai agravar
todos esses problemas. Bolsonaro quer uma sociedade do medo, da violência, da
prisão, do ódio, da polarização, do desmonte do Estado. Uma sociedade da
família conservadora, da brutalidade, da ordem, da desigualdade, da reprodução
das classes sociais, uma sociedade onde cada um permanecerá em seu lugar,
enquanto o clã Bolsonaro continuará a enriquecer com seus esquemas de corrupção.
A autora
francesa Marguerite Duras certa vez escreveu que a direita e a morte
são sinônimos. O Brasil que Bolsonaro quer é um Brasil morto. Um Brasil sem
alegria, sem liberdade, sem música,
sem negros, sem cultura, vocês percebem?
Um Brasil sem solidariedade, sem amor, sem
arte, sem música, sem mulheres, sem poder beijar quem vocês quiserem, sem poder
dançar quando e onde vocês quiserem. Um Brasil sem paixão, sem diversidade, sem
Nordeste, ou com um Nordeste silenciado. Um Brasil sem Candido
Portinari, sem literatura, sem partilha, sem Amazônia,
um Brasil sem Gilberto Gil, sem sonhos, sem progresso.
O que Flávio Bolsonaro quer é um Brasil sem
Brasil, ou seja, um Brasil esvaziado de tudo que constitui a força e a grandeza
do Brasil, sua identidade.
O sonho de Flávio Bolsonaro é um Brasil
submisso aos Estados
Unidos e a serviço deles, um Brasil em que os bilionários possam
continuar a desviar dinheiro do povo, um Brasil de prisões, jaulas e armas de
fogo, um Brasil em que o medo reinará, um Brasil em que os brancos terão medo
dos negros, os negros da polícia, um Brasil em que os pobres terão medo dos
pobres, em que os jornalistas terão medo de se expressar.
Como disse recentemente um professor da
Universidade de São Paulo, não deixem Bolsonaro fazer vocês acreditarem que o
Brasil precisa se tornar triste para se tornar forte.
O Brasil é forte porque está vivo.
Eu estou com medo, mas eu peço a vocês que
não tenham medo e que lutem nesse segundo turno das eleições.
Estou com vocês.
*Escritor francês, é autor de 'O Fim de Eddy', 'História da Violência' e 'Mudar: Método', publicados no Brasil pela Todavia
Tradução de Luisa Tieppo

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