O Povo (CE)
É necessário um pouco
mais de cautela ao reportar a postura adotada pelas campanhas após o primeiro
turno. Nos principais jornais, prevaleceu um clima de "já ganhou"
antes da hora presente no otimismo que Flávio tentou demonstrar
O Brasil parece estar vivendo desde a noite
do último domingo, 4, em função dos resultados das eleições e dos
desdobramentos do apurado das urnas de todo o País. Não faltaram análises nos
principais veículos sobre a composição do próximo Congresso, acerca do elevado
número de governadores eleitos ou reeleitos num só turno e, claro, sobre a
disputa presidencial, com Flávio
Bolsonaro (PL) à frente de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), contrariando o que
projetavam as pesquisas.
Com poucas disputas em segundo turno pelos
governos estaduais, a corrida pelo Palácio do Planalto fica ainda mais em
evidência no noticiário. Ao longo da última semana, as agendas e estratégias de
Flávio Bolsonaro e Lula pautaram a cobertura.
O candidato do PL vestiu a roupa de “futuro presidente”. O noticiário em torno de Flávio Bolsonaro baseou-se nos apoios recebidos para o segundo turno, nas projeções de cortes no orçamento que animaram os mercados e nas promessas de mudanças na Constituição sob o argumento de “redemocratizar” o País.
O POVO repercutiu que até
Ciro Gomes, tucano que perdeu as eleições no Ceará sem reconhecer a derrota, entrou no rol de possíveis ministros num eventual governo
Flávio.
No lado petista, o clima foi de rota
recalculada. Exitoso ao ajudar a reeleger o aliado Elmano de Freitas (PT) no
Ceará, o senador Camilo Santana (PT) foi escalado para a coordenação política
da campanha de Lula, o que também recebeu destaque no O POVO.
É necessário um pouco mais de cautela ao
reportar a postura adotada pelas campanhas após o primeiro turno. Nos
principais jornais, prevaleceu um clima de “já ganhou” antes da hora presente
no otimismo que Flávio tentou demonstrar. A primeira pesquisa Datafolha divulgada na última
quinta-feira, 8, mostrou uma vantagem de quatro pontos do senador em
relação ao presidente. Ou seja, um cenário aberto, com empate técnico no limite
da margem de erro. Algo que, por exemplo, deveria ter sido mencionado na
matéria publicada pelo O POVO
sobre o levantamento.
A extrema direita no Congresso
Sobre as disputas pelo Legislativo, foi
amplamente destacado o desempenho eleitoral do PL, que aumentou
consideravelmente suas bancadas na Câmara dos Deputados e no Senado. Nas
manchetes, o resultado foi tratado majoritariamente como triunfo do “bolsonarismo”
ou como uma “guinada à direita”, persistindo a relutância de muitos
veículos brasileiros em classificar o bloco como “extrema direita”, diferente
do habitualmente visto quando o assunto são eleições mundo afora.
Mais recentemente, no contexto de vitórias em
eleições regionais alemãs, houve menos pudor da imprensa em tratar a AfD como um partido
de extrema direita. O mesmo costuma valer para outros países onde grupos conservadores mais radicalizados
obtêm algum destaque político.
No Brasil, a personificação em torno do
ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) como principal liderança talvez explique o
termo “bolsonarismo” ser mais comum para se referir ao grupo político ou a seus
membros mais radicais. Mesmo no país onde reconhecidamente houve uma tentativa de golpe de Estado há
menos de quatro anos orquestrada por este mesmo grupo político, o uso
de “extrema direita” é mais raro para se referir a eles.
No O POVO,
o termo “extrema direita” no contexto da política brasileira costuma aparecer
em dois tipos de conteúdo: em matérias produzidas originalmente por agências de
notícias internacionais com as quais O POVO
tem contrato, como no perfil do candidato do PL feito pela AFP cujo título é “Flávio Bolsonaro, o herdeiro da extrema direita que desafia
Lula”; ou nas falas de políticos posicionados ao centro ou à esquerda do
espectro político.
Na última semana, Valdemar da Costa Neto foi textual na admissão do plano de
golpe do governo Bolsonaro após a derrota nas eleições de 2022.
Perguntado sobre uma nova tentativa em eventual governo Flávio Bolsonaro, o
presidente do PL se saiu com um “sei lá”. O fato até recebeu registro, mas,
diante da nova ameaça à democracia, não teve a repercussão crítica devida,
sendo apenas mais um conteúdo em meio ao vasto noticiário eleitoral.
Jornalismo como agente eleitoral
Daniel Vorcaro será um personagem inescapável
quando a história das eleições deste ano for contada no futuro. O ex-banqueiro,
enrolado em trambiques de toda sorte, voltou a ser destaque na primeira semana
de campanha do segundo turno da disputa presidencial. A revista “Veja”
publicou reportagem na última sexta-feira, 9, apontando que Vorcaro
supostamente enviou R$ 30 milhões para produção de documentário sobre o
presidente Lula em troca da captação de recursos de fundos federais.
A reportagem mostrou áudios, documentos e
capturas de tela como supostas evidências. Contudo, não foram apresentadas
provas do pagamento. A própria “Veja”
pondera, lá pelo meio do texto, que “ao contrário do que sugerem essas
conversas, não há qualquer prova de que Lula teve realmente esse encontro com
Vorcaro”. Assim como não há indício de acesso do ex-banqueiro aos tais fundos
federais.
Outra reportagem do portal “UOL”
apontou que mensagens extraídas do telefone celular de Vorcaro não mencionam
qualquer pagamento dele para realização do filme sobre Lula e que os documentos
na matéria da Veja não constam nas três propostas de delação apresentadas por
sua defesa e posteriormente rejeitadas pela falta de provas e credibilidade nos
relatos.
O diretor do documentário, Oliver Stone,
refuta ter recebido dinheiro de Vorcaro para realização do filme. Polícia
Federal e Procuradoria-Geral da República também negam que o material citado na
reportagem estivesse no telefone do ex-banqueiro. A jornalista Mônica Bergamo,
colunista da "Folha de
S.Paulo", publicou que a PGR desconfia de que os áudios revelados pela
“Veja” teriam sido gravados ilegalmente por Vorcaro dentro da prisão.
Ao longo de toda a campanha no primeiro
turno, foi debatido à exaustão como as ações tomadas pela alta cúpula do Poder
Judiciário teriam potencial para interferir e estavam concretamente mexendo com
os rumos da corrida eleitoral. Numa disputa tão acirrada e faltando agora
apenas duas semanas para o segundo turno, é muito ruim para a imprensa se
colocar em posição semelhante.
Num momento tão delicado, no qual cada assunto levantado pode se mostrar decisivo, é necessário mais prudência jornalística para que as histórias sejam publicadas com um cabedal probatório mais robusto.

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