sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Pausa no ‘já ganhou’ de Flávio, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Centrão pulou no barco de Flávio Bolsonaro, mas é cedo para o ‘já ganhou’

Poder atrai poder e, neste momento, todos os caminhos levam, não a Roma, mas ao barco de Flávio Bolsonaro, que acolhe os náufragos do primeiro turno e os partidos do Centrão, tão rápidos e vorazes como quando pularam em todos os governos eleitos e no barco de Lula quando ele era, ou parecia, favorito no primeiro turno.

Esse movimento criava a percepção de que Flávio era imbatível e puxava votos para ele, já que o eleitorado não ideológico e de baixa escolaridade gosta de votar em quem “vai ganhar”, para “não jogar o voto fora”. Por isso, o primeiro Datafolha do segundo turno foi um alívio na campanha de Lula: 49% para Flávio e 45% para ele.

Quatro pontos mantêm a dianteira de Flávio, mas configuram empate técnico, no limite da margem de erro, e não confirmam o “já ganhou” da sua campanha. A turma de Lula considera que ainda tem jogo, tempo e chances de virada. Pode ser sonho, mas recupera a energia na campanha – aliás, a pior de Lula desde 1989, segundo o próprio candidato. Não há como discordar disso.

Até aqui, Flávio estava todo sorriso, sentado na cadeira, falando em alterar a Constituição (ai, que medo!), já projetando cinco anos de mandato, sem reeleição, e recebendo os apoios de bandeja, inclusive do ex-presidente Michel Temer, e comemorando a alta da Bolsa e a queda do dólar.

Enquanto isso, Lula tratava de reformular sua campanha, com mais PT do Nordeste, internet e juventude, talvez, como propôs a ex-senadora Kátia Abreu, “mais Alckmin, menos Janja”. Flávio agindo como vitorioso; Lula, como derrotado que precisa “mudar tudo”.

PP, Republicanos, PSD, UB, Novo, Podemos, Avante e MDB nem esperaram as primeiras pesquisas para garantir vaga no barco de Flávio. Com 28 senadores e 121 deputados, o PL completa assim o quórum para as pautas bolsonaristas e isolar ainda mais o PT e a esquerda. Mas apoio político custa caro. Petrolão, com Lula, e explosão das emendas, com Jair Bolsonaro, são a prova.

O temor petista era de que Flávio entrasse no segundo turno com uma margem bem maior do que captou o Datafolha. Logo, a pesquisa estancou a percepção de que ele já estava eleito. Porém, Flávio continua na frente e as condições são nitidamente desfavoráveis para Lula.

Lula perdeu no primeiro turno e na formação de alianças para o segundo. Flávio tem mais votos e apoio nos Estados, nos exadversários e no agro, setor produtivo e na tal Faria Lima. Vide Bolsa e dólar. Lula tem uma pedreira pela frente, para resgatar votos de 2022 perdidos no dia 4, independentes que optaram por branco ou nulo e os que não foram votar. Nada é impossível, mas fácil também não é.

 

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