O Estado de S. Paulo
Centrão pulou no barco de Flávio Bolsonaro, mas é cedo para o ‘já ganhou’
Poder atrai poder e, neste momento, todos os
caminhos levam, não a Roma, mas ao barco de Flávio Bolsonaro, que acolhe os
náufragos do primeiro turno e os partidos do Centrão, tão rápidos e vorazes
como quando pularam em todos os governos eleitos e no barco de Lula quando ele
era, ou parecia, favorito no primeiro turno.
Esse movimento criava a percepção de que Flávio era imbatível e puxava votos para ele, já que o eleitorado não ideológico e de baixa escolaridade gosta de votar em quem “vai ganhar”, para “não jogar o voto fora”. Por isso, o primeiro Datafolha do segundo turno foi um alívio na campanha de Lula: 49% para Flávio e 45% para ele.
Quatro pontos mantêm a dianteira de Flávio,
mas configuram empate técnico, no limite da margem de erro, e não confirmam o
“já ganhou” da sua campanha. A turma de Lula considera que ainda tem jogo,
tempo e chances de virada. Pode ser sonho, mas recupera a energia na campanha –
aliás, a pior de Lula desde 1989, segundo o próprio candidato. Não há como
discordar disso.
Até aqui, Flávio estava todo sorriso, sentado
na cadeira, falando em alterar a Constituição (ai, que medo!), já projetando
cinco anos de mandato, sem reeleição, e recebendo os apoios de bandeja,
inclusive do ex-presidente Michel Temer, e comemorando a alta da Bolsa e a
queda do dólar.
Enquanto isso, Lula tratava de reformular sua
campanha, com mais PT do Nordeste, internet e juventude, talvez, como propôs a
ex-senadora Kátia Abreu, “mais Alckmin, menos Janja”. Flávio agindo como
vitorioso; Lula, como derrotado que precisa “mudar tudo”.
PP, Republicanos, PSD, UB, Novo, Podemos,
Avante e MDB nem esperaram as primeiras pesquisas para garantir vaga no barco
de Flávio. Com 28 senadores e 121 deputados, o PL completa assim o quórum para
as pautas bolsonaristas e isolar ainda mais o PT e a esquerda. Mas apoio
político custa caro. Petrolão, com Lula, e explosão das emendas, com Jair
Bolsonaro, são a prova.
O temor petista era de que Flávio entrasse no
segundo turno com uma margem bem maior do que captou o Datafolha. Logo, a
pesquisa estancou a percepção de que ele já estava eleito. Porém, Flávio
continua na frente e as condições são nitidamente desfavoráveis para Lula.
Lula perdeu no primeiro turno e na formação
de alianças para o segundo. Flávio tem mais votos e apoio nos Estados, nos
exadversários e no agro, setor produtivo e na tal Faria Lima. Vide Bolsa e
dólar. Lula tem uma pedreira pela frente, para resgatar votos de 2022 perdidos
no dia 4, independentes que optaram por branco ou nulo e os que não foram
votar. Nada é impossível, mas fácil também não é.

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