segunda-feira, 12 de outubro de 2026

A falta que ainda nos faz uma boa direita, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Quem esperava algo ao menos parecido com liberalismo econômico no governo Bolsonaro topou com o populismo

Em 2007, escrevi neste jornal que o Brasil precisava de uma boa direita. Voltei ao assunto em 2013. E outra vez em 2019. Quase 20 anos depois da primeira coluna, faz todo o sentido perguntar: a direita apareceu? Apareceu uma direita. Ganhou eleições, mobilizou milhões de pessoas, construiu um movimento político. Em 2019, colocou seu presidente no Palácio do Planalto e, hoje, tem o candidato favorito para este segundo turno. Além disso, se tornou a principal força do Congresso. Mas não é a direita de que eu falava.

Pensava numa direita liberal na economia e democrática na política. Defendia menos Estado onde o Estado atrapalha, mais eficiência onde ele é indispensável, contas públicas equilibradas, economia aberta, competição, investimento privado, liberdades individuais e de imprensa.

O governo Jair Bolsonaro obviamente não cabe nesse figurino. Sua inspiração assumida era a ditadura militar que dominou o país de 1964 a 1985. Além da opressão política, da tortura, dos assassinatos e da censura à imprensa, a ditadura aplicou um modelo econômico que nada tinha a ver com o liberalismo. Bem ao contrário, foi uma política estatizante e intervencionista.

Quando caiu a ditadura, o país mergulhou na festa da democracia, mas também numa sucessão de crises econômicas, consequência do desarranjo deixado pelos militares e seus aliados. E da má gestão dos governos democráticos.

Provando mais uma vez que o Brasil não é para amadores, foi um intelectual vindo da esquerda acadêmica, FH, que liderou as reformas liberais. Além da moeda estável, das privatizações e de uma primeira reforma previdenciária, deixou regras básicas: a necessidade de responsabilidade fiscal e, de outro lado, dos programas sociais, como o Bolsa Escola, depois transformado em Bolsa Família.

E foi com evidente satisfação que FH passou a faixa presidencial a Lula, em janeiro de 2003. Era de reparar. Era a primeira vez, desde 1961, que um presidente eleito pelo voto popular transmitia o governo a outro presidente escolhido pelas urnas.

Estávamos na democracia e parecia que algumas bases econômicas estavam assentadas. De fato, Lula 1 foi praticamente uma sequência de FH 2. Manteve a responsabilidade fiscal e, se não privatizou, também não reestatizou. Ajudado ainda pela onda das commodities e pelo despertar do agronegócio, o Brasil ganhou destaque nos mercados globais. Parecia que a antiga expressão — país do futuro —fazia sentido.

Mas, a partir do Lula 2, os governos do PT abandonaram a responsabilidade fiscal, voltaram à tese de que o gasto do Estado é o vetor do crescimento, mesmo que deixe déficits e dívida pública elevada. Inflação e recessão derrubaram Dilma.

O breve governo Temer (maio de 2016 a janeiro de 2019) foi uma surpresa liberal. Com a regra do teto de gastos públicos, restabeleceu a responsabilidade fiscal. Respeitou o Banco Central independente e encaminhou a importante reforma previdenciária. Conseguiu reduzir déficit e juros.

Aí caímos no governo Bolsonaro. Cansados dos atrasos do PT, do peso sufocante do Estado na atividade econômica privada e dos seguidos escândalos de corrupção, os eleitores optaram pelo capitão. Deu num governo autoritário, que lutou para restringir liberdades até a tentativa de golpe. Quem esperava algo ao menos parecido com liberalismo econômico topou com o populismo.

Veio Lula 3, com seu aumento forte das despesas e das receitas, com o consequente crescimento da dívida pública. Só não tivemos inflação mais alta por causa dos juros nas alturas. Tudo considerado, não apenas ficamos longe de uma direita liberal, como voltamos a uma esquerda economicamente atrasada. Caímos num ambiente, neste ano eleitoral, em que os problemas se acumularam.

Na política, o risco para a democracia. Na economia, o desarranjo do Estado, a baixa produtividade, as restrições à atividade privada. E mais a imensa corrupção. Faltando uma direita liberal e uma esquerda moderna.

 

Nenhum comentário: