O Globo
Quem esperava algo ao menos parecido com
liberalismo econômico no governo Bolsonaro topou com o populismo
Em 2007, escrevi neste jornal que o Brasil
precisava de uma boa direita. Voltei ao assunto em 2013. E outra vez em 2019.
Quase 20 anos depois da primeira coluna, faz todo o sentido perguntar: a
direita apareceu? Apareceu uma direita. Ganhou eleições, mobilizou milhões de
pessoas, construiu um movimento político. Em 2019, colocou seu presidente no
Palácio do Planalto e, hoje, tem o candidato favorito para este segundo turno.
Além disso, se tornou a principal força do Congresso. Mas não é a direita de
que eu falava.
Pensava numa direita liberal na economia e
democrática na política. Defendia menos Estado onde o Estado atrapalha, mais
eficiência onde ele é indispensável, contas públicas equilibradas, economia
aberta, competição, investimento privado, liberdades individuais e de imprensa.
O governo Jair Bolsonaro obviamente não cabe nesse figurino. Sua inspiração assumida era a ditadura militar que dominou o país de 1964 a 1985. Além da opressão política, da tortura, dos assassinatos e da censura à imprensa, a ditadura aplicou um modelo econômico que nada tinha a ver com o liberalismo. Bem ao contrário, foi uma política estatizante e intervencionista.
Quando caiu a ditadura, o país mergulhou na
festa da democracia, mas também numa sucessão de crises econômicas,
consequência do desarranjo deixado pelos militares e seus aliados. E da má
gestão dos governos democráticos.
Provando mais uma vez que o Brasil não é para
amadores, foi um intelectual vindo da esquerda acadêmica, FH, que liderou as
reformas liberais. Além da moeda estável, das privatizações e de uma primeira
reforma previdenciária, deixou regras básicas: a necessidade de
responsabilidade fiscal e, de outro lado, dos programas sociais, como o Bolsa
Escola, depois transformado em Bolsa Família.
E foi com evidente satisfação que FH passou a
faixa presidencial a Lula, em janeiro de 2003. Era de reparar. Era a primeira
vez, desde 1961, que um presidente eleito pelo voto popular transmitia o
governo a outro presidente escolhido pelas urnas.
Estávamos na democracia e parecia que algumas
bases econômicas estavam assentadas. De fato, Lula 1 foi praticamente uma
sequência de FH 2. Manteve a responsabilidade fiscal e, se não privatizou,
também não reestatizou. Ajudado ainda pela onda das commodities e pelo
despertar do agronegócio,
o Brasil ganhou destaque nos mercados globais. Parecia que a antiga expressão —
país do futuro —fazia sentido.
Mas, a partir do Lula 2, os governos do PT
abandonaram a responsabilidade fiscal, voltaram à tese de que o gasto do Estado
é o vetor do crescimento, mesmo que deixe déficits e dívida pública elevada.
Inflação e recessão derrubaram Dilma.
O breve governo Temer (maio de 2016 a janeiro
de 2019) foi uma surpresa liberal. Com a regra do teto de gastos públicos,
restabeleceu a responsabilidade fiscal. Respeitou o Banco Central independente
e encaminhou a importante reforma previdenciária. Conseguiu reduzir déficit e
juros.
Aí caímos no governo Bolsonaro. Cansados dos
atrasos do PT, do peso sufocante do Estado na atividade econômica privada e dos
seguidos escândalos de corrupção, os eleitores optaram pelo capitão. Deu num
governo autoritário, que lutou para restringir liberdades até a tentativa de
golpe. Quem esperava algo ao menos parecido com liberalismo econômico topou com
o populismo.
Veio Lula 3, com seu aumento forte das
despesas e das receitas, com o consequente crescimento da dívida pública. Só
não tivemos inflação mais alta por causa dos juros nas alturas. Tudo
considerado, não apenas ficamos longe de uma direita liberal, como voltamos a
uma esquerda economicamente atrasada. Caímos num ambiente, neste ano eleitoral,
em que os problemas se acumularam.
Na política, o risco para a democracia. Na
economia, o desarranjo do Estado, a baixa produtividade, as restrições à
atividade privada. E mais a imensa corrupção. Faltando uma direita liberal e
uma esquerda moderna.

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