O futuro nas ruas
Por CartaCapital
Um movimento alentador, independentemente do
resultado
Dominadas por zumbis verde-amarelos desde 2013, as ruas brasileiras estão novamente em disputa. O susto das urnas no primeiro turno teve o efeito positivo de tirar da letargia milhões de cidadãos, atraídos pela disposição dos mais jovens. “Os ideais estão se organizando de maneira espontânea”, resume Gabriel de Oliveira, coordenador do DCE na Universidade Federal de Pernambuco, em entrevista à página 20 a João Victor Sampaio e Kamille Soumaili, ambos universitários como o entrevistado e movidos pela crença no jornalismo, fragilizado e imprescindível. Se o miasma de 1964 exala dos esgotos do bolsonarismo, excitado com a possibilidade de vitória, e se transforma em múltiplas agressões, como se depreende da reportagem de Maurício Thuswohl à página 14, o neutralizador tem sido irradiado por um movimento que, à revelia do apparatchik petista e dos doutos marqueteiros, deu outro vigor e sentido à campanha à reeleição do presidente Lula. Protagonistas da resistência ao golpe do século passado, à custa de vidas e expurgos, os estudantes assumem, de novo, a tarefa de servir de anteparo aos beleguins que se arvoram no direito de sufocar os direitos civis em nome da “liberdade”, caso Flávio Bolsonaro venha a ser eleito em 25 de outubro.
A manifestação do domingo 11, espalhada por
dez quarteirões da Avenida Paulista, é a síntese das passeatas em diferentes
cidades do País. Há, de fato, algo de novo no ar. As cabeças brancas, os
militantes de outrora e de costume, agora dividem espaço com uma juventude de
regiões, cores e realidades diversas. A urgência reconectou a campanha petista
a uma porção do Brasil que não aceita mais ser tutelada. Tem, ao contrário,
ânsia de participar das decisões que afetam o seu cotidiano. Animal político, o
presidente percebeu a mudança dos ventos e tem estimulado os jovens a trocar a
apatia pela atuação partidária. É um passo em uma longa caminhada. Caso reverta
o resultado e conquiste um quarto mandato, Lula dependerá como nunca da
mobilização popular. O mesmo vale para o campo progressista. Chega de apelar às
massas de quatro em quatro anos – e de lamuriar se essa mesma massa não
responder ao chamado eleitoreiro. Sem as ruas, a esperança não vencerá o medo.
No domingo 25 ou em algum ponto do futuro.
Publicado na edição n° 1435 de CartaCapital,
em 21 de outubro de 2026.

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