O Globo
Nenhum lado do espectro político lhe entrega
o que busca. Daí fica zanzando de um canto ao outro
A eleição presidencial não acabou, e quem acha que está decidida se engana. É verdade que jamais o vencedor do primeiro turno perdeu no segundo. Mas também é verdade que nunca a vitória de um sobre o outro foi tão estreita. Não bastasse isso, os votos que Flávio ganhou a mais, neste pleito agora, foram de Lula em 2022. Não se trata de um eleitor antipetista. Ainda assim, Flávio é favorito, e por uma razão apenas: tem errado menos. A pista que explica o que levou Lula à vitória em 2022 e deu a Flávio a vantagem nesta eleição pode estar na leitura que um jornalista americano faz dos Estados Unidos. É Chuck Todd, ex-diretor da sucursal de Washington da rede NBC. O eleitor deseja valores conservadores e uma política de Estado à esquerda. Nenhum lado do espectro político lhe entrega o que busca. Daí fica zanzando de um canto ao outro, sempre insatisfeito com o que o presidente lhe entrega.
A campanha de Lula erra mais porque não
consegue encarar o fato de a classe C não querer patrão na sua vida. O PT sabe
disso desde que a Fundação Perseu Abramo encomendou um estudo da maior classe
social brasileira, em 2011. Reconhecer que a classe média baixa quer autonomia,
e não emprego, seria admitir mudar radicalmente a concepção de Estado que a
esquerda abraça faz um século. É menos política para que o patrão trate bem o
empregado e mais política para tirar da frente qualquer dificuldade à formação
de empresas. Principalmente as bem pequenas, com até dez ou 20 funcionários.
Não é simples. Porque esses cidadãos seguem desejando um Estado de bem-estar
social. Querem SUS com qualidade, escola pública, segurança e alguma forma de
previdência social.
Todd fala, olhando para os Estados Unidos,
que os eleitores querem uma “economia de esquerda”. Mas, lá, o país já facilita
que a classe média baixa tenha seus negócios. O que o governo entrega pouco é o
Estado de bem-estar social. Bernie Sanders ou Zohran Mamdani não têm
dificuldade em entender que seu eleitor é dono de um pequeno negócio. É só na
América Latina que a esquerda se prende à dualidade patrão-empregado e toma o
lado do segundo. Esse Estado que o eleitor deseja não é o que Flávio Bolsonaro
oferece,o que a Fiesp quer ou aquele com que a Faria Lima sonha. Mas tampouco é
aquele que a esquerda brasileira gostaria de construir.
É porque se recusa a encarar esse fato que o
PT erra demais na campanha. Abraça teses como o problema estar na comunicação
digital. Aí põe uma deputada muito jovem, recém-eleita, que tem uma quantidade
imensa de seguidores. Ela realmente engaja. Engaja, porém, fazendo um discurso
identitário. Brancos oprimem negros, homens oprimem mulheres, precisamos de um
Estado que se imponha aos opressores. Basta piscar num vídeo da moça que o
eleitor de quem Lula precisa vira as costas num segundo.
Ao achar que o problema está no meio digital,
a esquerda considera que a questão é de formato. Não é. É de mensagem. Comunicação
digital não é difícil. Os algoritmos das redes pedem uma identidade de grupo e
um inimigo claro. Todo político de sucesso nas redes faz isso: nós somos
vítimas deles. A esquerda identitária faz sucesso na mídia social por causa
disso. E a direita radical faz mais sucesso pela mesma razão. Este é um jogo de
grandes números. O discurso sobre valores de Nikolas encontra mais gente que
concorda que o de Erika. Claro, para amealhar milhões de votos, ambos fazem
sucesso. É só que há mais desses milhões de um lado que do outro. Não há
mistério. Menos na cabeça de quem coordena a campanha de Lula. Porque acharam
ótimo insuflar discurso de guerrilheira social a um eleitorado conservador.
Porque seria vista. Pois é. Foi vista. Por isso mesmo virou um problema.
Flávio erra também. Os Bolsonaros erram
muito. Mas o entorno político de Flávio não erra. Diz que não quer vingança,
que não haverá radicais no ministério e que os programas sociais serão
mantidos. Se é possível confiar nos Bolsonaros, esse é outro departamento. Eles
fazem de tudo para provar o contrário. Eduardo diz que será chanceler e
perseguirá diplomatas, o próprio Flávio posa como se já tivesse a faixa e fala
em “redemocratizar” o país. Além disso, ainda não mostrou como entregar uma
economia de Milei e manter os programas sociais. A conta não fecha. Mas, ao
menos no lado da direita, tem gente falando o que o eleitor deseja ouvir. Isso
reforça o favoritismo do senador.
A duas semanas da eleição o placar segue
apertado.

Um comentário:
Perfeito.
Postar um comentário