O Estado de S. Paulo
A campanha do presidente Lula dormitou no
primeiro turno todo, mas acordou com força no segundo, ativando o canal
“Exército do Lula”, com quase quatro milhões de seguidores na internet, e
megamanifestações em São Paulo, Rio e diversas capitais. São fatos políticos
relevantes, que podem ter impacto na eleição, e a campanha de Flávio Bolsonaro
reage.
Os mega-atos foram trunfo do PT durante décadas, mas perderam vigor com mensalão e petrolão e abriram espaço para as multidões de Jair Bolsonaro, pelo Brasil afora, nas suas disputas à Presidência. Deu certo em 2018, mas não foi suficiente para elegê-lo em 2022. O PT, agora, retoma as ruas.
A campanha de Flávio sentiu o golpe e usou
sua arma estratégica contra o PT: a presidência do TSE, que o ministro do STF
Kassio Nunes Marques, nomeado no governo Bolsonaro, usou para atropelar a
corregedoria do órgão e, com uma canetada, suspender o “Exército de Lula” na
internet.
Tal como os atabalhoados movimentos liderados
pelo ministro Gilmar Mendes no TSE e no STF, para dar uma mãozinha para Lula e
melar o último debate do primeiro turno, o de Nunes Marques também tem, ou pode
ter, efeito bumerangue contra Flávio, em vez de favorecê-lo.
O corregedor Ricardo Villas Bôas Cueva
derrubou a decisão de Nunes Marques, que voltou ao ataque e pediu à Assessoria
Especial de Enfrentamento à Desinformação do TSE uma perícia técnica no canal
pró-Lula. Resultado: não foram encontradas as “fake news” citadas pela campanha
bolsonarista.
Assim, a ação de Nunes Marques só teve três
efeitos: fazer propaganda do “Exército do Lula”, dar discurso para o presidente
se dizer perseguido pelo TSE e chamar a atenção para a sua própria situação
complicada no escândalo Master/Daniel Vorcaro. Afinal, o ministro quis ajudar
Flávio, ajudar a si mesmo ou ambos?
A PF identificou nos celulares de Vorcaro
referências à “turma do KN”, com contratos que poderiam chegar a R$ 427 milhões
para advogados íntimos de Nunes Marques e a R$ 500 mil para o próprio filho
dele, o novato Kevin Marques, além, claro, de hotéis caros, voos, festas...
Talvez por “coincidência”, os votos do ministro no STF foram favoráveis ao
Master.
No bang bang institucional, é assim. A
sociedade se sente tonta, como num duelo entre os ministros, sem previsão de
vitória. Mas há um ponto comum: um grupo joga o Supremo às favas para salvar o
pescoço de Alexandre de Moraes e outro conta com a vitória de Flávio para
salvar seus próprios pescoços, como o de Nunes Marques.
Os dois grupos dão de ombros para as
multidões na Avenida Paulista, em Copacabana, na Lapa e em tantas capitais, e
para os muitos milhões que vão ficar em casa ou votar nulo e branco no segundo
turno, por indignação ou exaustão.

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