sexta-feira, 2 de abril de 2010

Hegemonia, imperialismo e capitalismo no pós-guerra::Anna Saggioro Garcia

DEU EM GRAMSCI E O BRASIL

1. Introdução

Os conceitos de hegemonia e imperialismo são usados por autores representantes dos três principais paradigmas das Relações Internacionais (realismo, institucionalismo e marxismo) de formas diferentes, muitas vezes para explicar o mesmo: o estabelecimento de uma determinada ordem internacional sob dominação de uma potência. Algumas vezes “dominação”, “império” e “hegemonia” são usados de maneira intercalada, sem diferenciação; em outras, os mecanismos e meios com os quais a ordem dominante é estabelecida e mantida se distinguem, diferenciando uma ordem hegemônica de uma imperial. Alguns autores enfatizam os elementos do “consenso” na construção e manutenção da ordem, outros colocam à frente as diferentes formas de “coerção”. Ambas as caracterizações da ordem mundial podem ser tratadas de forma positiva (como uma liderança benévola) ou negativa (uma imposição de poder e subordinação de uns frente a outros), dependendo das visões de mundo e do posicionamento de cada autor.

O presente trabalho se propõe revisar parte da literatura existente sobre os conceitos de hegemonia e imperialismo por autores ligados a diferentes correntes de pensamento das RI, a fim de esclarecer como e quando cada um destes conceitos é usado. Primeiramente será averiguada algumas de usas definições, para depois analisar seus usos para caracterizar o período de dominação dos EUA após a segunda guerra mundial. Este breve ensaio não esgota a vasta literatura existente sobre estes conceitos, tampouco poderá fazer um estudo de caso detalhado. Propõe-se, no entanto, explicar as diferentes caracterizações e os elementos enfatizados em cada uma delas, procurando esclarecer parte do campo teórico do estudo da ordem mundial.

2. Imperialismo: definições e usos

O uso do termo “imperialismo” foi, por um longo tempo, restrito ao campo marxista. Mesmo as diversas intervenções militares estadunidenses durante a guerra fria não suscitaram o uso do termo pelas principais correntes de pensamento nas RI, uma vez que a situação da guerra fria justificava as estratégias geopolíticas. Segundo Borón (2006) e Foster (2006), o conceito de imperialismo reaparece de maneira inesperada a partir de seu “centro”, os EUA, com a “guerra ao terrorismo”. Os termos “império” e “imperialismo” econômico, militar ou cultural são retomados na mídia e na academia norte-americana e mundial, mas vistos como separados, dissociados do capitalismo, podendo ter inclusive uma conotação benévola (Foster 2006: 432-439; Borón 2006: 461).

Durante os anos 70, um dos poucos autores não-marxistas a trabalhar o tema do imperialismo foi Cohen (1976). O autor aponta que o termo ficou relegado a “panfletos políticos”, sendo necessário um método apropriado para redefini-lo, dando-lhe um significado “bem definido, eticamente neutro e objetivo” para que seja útil à análise da Economia Política Internacional (Cohen 1976: 15). Desde este ponto de partida, o autor define imperialismo como “tipo de relações internacionais caracterizadas por uma assimetria particular — a assimetria de dominação e dependência. [...] O imperialismo refere-se àquelas relações particulares entre nações inerentemente desiguais que envolvem subjugação efetiva, o exercício real da influência sobre o comportamento” (ib.: 20, grifos no original). O conceito seria operacional. A forma do imperialismo pode ser o controle direto, através da extensão da soberania política, ou indireto, com penetração econômica e pressões diplomáticas ou militares.

O autor baseia-se no realismo para afirmar que a política de poder é determinante da ordem internacional, e a raiz principal do imperialismo está na “organização anárquica” do sistema internacional. A anarquia vai disciplinar o comportamento dos Estados, levando-os à busca da maximização de sua posição de poder individual a fim de assegurar sua segurança nacional. Desta forma, o imperialismo teria sua origem “na organização externa dos Estados” (ib.: 223).

A visão de Cohen reflete o paradigma realista do sistema internacional. A expansão de poder (territorial, econômica, política e militar) dos Estados é justificada para manutenção de seus status quo, o que apresenta uma ambiguidade, uma vez que é necessário expandir e crescer para manter a situação original de poder. A política de expansão do Estado imperial se torna uma “escolha racional”, perdendo elementos morais e éticos. O poder adquire conotação neutra, e a política de poder e expansão se torna um movimento quase mecânico. As consequências da guerra, racismo, exploração e subalternização de outras nações, povos e classes, acabam sendo silenciadas. Observamos aqui a dissociação entre capitalismo e imperialismo. Outros autores também buscaram o uso historicamente específico do conceito de imperialismo e a separação de seus aspectos econômicos e políticos (ver, p. ex., Smith 1981).

É com os pensadores marxistas que o conceito de imperialismo será definido de forma mais complexa e abrangente. A teoria marxista clássica do imperialismo é de Lenin. Para este, o imperialismo do final do século XIX é consequência direta da fase de monopólio do capitalismo nos países avançados, ou seja, a combinação, em uma só empresa, de diferentes ramos da indústria (Lenin 2005/1916: 19). Este desenvolvimento leva também a uma centralização de capital-dinheiro em alguns bancos, que passam de simples operadores e intermediários, a “monopólios onipotentes”, que dispõem do capital-dinheiro da maior parte das indústrias, conferindo-lhes nova função: a capacidade de controle da economia de toda a sociedade (ib.: 31). Ao mesmo tempo, Lenin explica que a relação entre banqueiros e industriais não está absolutamente separada, mas, ao contrário, há antes uma “união pessoal”. Se os industriais só têm acesso a seu capital através dos bancos, também estes precisam colocar este enorme capital em investimentos de retorno. Assim é formado o “capital financeiro”, o capital bancário transformado em capital industrial (Hilferding, apud ib.: 47) [1].

Com a formação do capital financeiro inicia-se o processo chave do imperialismo capitalista: exportação de capital. O excedente de capital em alguns países é exportado para nações pré-capitalistas, onde são construídas as condições para o desenvolvimento capitalistas destas áreas (como ferrovias e infraestrutura), sempre dadas em troca de algo para proveito próprio, impondo gastos do mesmo empréstimo na compra de produtos do país credor. A exportação de capitais aumenta a exportação de mercadorias e, com isso, inicia-se o alargamento e aprofundamento do capitalismo em todo o mundo (ib.: 64-5).

Qual é o papel da guerra para Lenin? Enquanto ele entendia o imperialismo moderno a partir do (sustentado pelo) capital financeiro, Kautsky (1914) enfatizou o seu lado político. Para este, a ocupação e a subjunção de áreas agrárias produziram fortes contradições entre os países industrializados, levando a uma corrida armamentista. Contraditoriamente, a própria economia capitalista estaria ameaçada por esta competição, sendo de interesse dos próprios capitalistas a união pacífica entre os grandes Estados, se estes quiserem continuar explorando as áreas agrárias. Kautsky previa uma translação da cartelização do capital para a política externa: uma fase de “ultraimperialismo”, ou uma “aliança sagrada” entre Estados imperialistas. Quanto mais durasse a guerra, mais exaustos estariam seus participantes, fazendo-os querer evitar a repetição de conflitos armados.

Em resposta a Kautsky, Lenin reafirmava a centralidade do capital financeiro nesta fase do imperialismo, que mostrava tendência de anexação não só das áreas agrárias, mas também das industriais. O capital financeiro e os trustes acentuavam (e não diminuíam) as diferenças entre os ritmos de crescimento dos diferentes países e regiões da economia mundial. Com isso, “faz parte da própria essência do imperialismo a rivalidade de várias grandes potências nas suas aspirações por hegemonia, isto é, a apoderarem-se de territórios não tanto diretamente para si, como para enfraquecer o adversário e minar a sua hegemonia” (Lenin 2005/1916: 92). Perguntava, então: “como podem resolver-se as contradições, sob o capitalismo, a não ser pela força?” (ib.: 97, grifo no original). Uma aliança pacífica entre as potências seria uma trégua entre guerras, gerando um ciclo de formas de luta pacífica e não-pacífica sobre uma mesma base de vínculos imperialistas (ib.: 121).

Autores atuais apontam para a necessidade de avançar das teorias clássicas do imperialismo, uma vez que estas já são insuficientes para explicar a atual fase do capitalismo mundial. Para Panitch/Gindin (2004), o imperialismo demonstrava ser um movimento duplo e simultâneo: o aprofundamento do capitalismo para dentro e sua expansão para fora. Os autores afirmam que a relação entre capitalismo e imperialismo somente pode ser entendida a partir de uma teoria do Estado. Quando Estados pavimentam, monitoram ou administram o caminho para a expansão de seu capital para fora, isto só pode ser entendido em termos do papel relativamente autônomo do Estado na manutenção da ordem social e na garantia das condições de acumulação do capital dentro das fronteiras (Panitch/Gindin 2004: 7). Além de compreender a predominância conjuntural de um Estado, para a atual fase do imperialismo é necessário entender a penetração estrutural em antigos rivais pelo Estado imperial, característica principal do que eles chamarão de American informal empire [2].

Para Ellen Wood (2003), a lógica das teorias do imperialismo clássico é a mudança de foco de operações internas nos países capitalistas avançados para relações externas, ou interações e conflitos entre Estados capitalistas e o mundo não-capitalista (Wood 2003: 124-8). Enquanto no imperialismo tradicional a dominação colonial e exploração econômica eram transparentes, a principal caracterização do “novo imperialismo” é a dominação não-direta, que torna as relações opacas. As formas de coerção econômicas são diferentes da política e militar: a “compulsão” é impessoal, opera como imposição do “mercado”. As relações são formalmente reconhecidas e se dão entre entidades legalmente iguais e livres, ou seja, Estados soberanos, assim como trabalhadores e patrões, credores e devedores (ib.: 1-4). Mas a coerção “extraeconômica” — política, militar, jurídica — se mantém essencial, especialmente quando ações militares dos principais países são fundamentadas pela “neutralidade dos interesses da sociedade internacional” (ib.: 5).

Portanto, para entender o “novo imperialismo”, é necessário entender a natureza da relação entre forças econômicas, políticas, militares e ideológicas no capitalismo. Este é especialmente capaz de dissociar o econômico do extraeconômico, porém, segundo Wood, o Estado-nação é mais essencial ao capital que nunca. Somente ele pode ser o garantidor administrativo e coercivo da ordem social, das relações de propriedade, da estabilidade e previsibilidade contratual, ou de qualquer outra condição básica requerida pelo capital em seu cotidiano (ib.: 139). Com isso, o novo imperialismo depende cada vez mais de um sistema de múltiplos Estados e soberanias locais, ao mesmo tempo em que, para administrar este múltiplo sistema de Estados, é necessário um único poder militar, capaz de manter todos “na linha” (ib.:142), função exercida pelos EUA.

3. Hegemonia: definições e usos

O conceito de hegemonia é usado de maneira mais abrangente do que imperialismo, tendo sido incorporado em boa medida por realistas e institucionalistas das Relações Internacionais. Império e hegemonia têm algo em comum — o exercício da liderança —, porém há divergência sobre a finalidade, forma e os instrumentos com os quais esta liderança é exercida.

Para Agnew (2005), hegemonia e império se diferem no tipo de poder e sua organização geográfica. Se o “poder rígido” está ancorado na coerção militar, e o soft power em valores culturais e preferências, a organização geográfica de poder varia entre fortemente territorial ou difusa e “enredada” (Agnew 2005: 21). A diferença de hegemonia para império estaria na falta de comprometimento explícito para com o bloco territorial de poder em si, e no seu embasamento em persuasão e recompensa aos subordinados. O autor define hegemonia como a participação de outros no exercício do seu próprio poder, “convencendo-os, bajulando ou coagindo a querer aquilo que você quer” (ib.: 2).

Certamente a base para esta diferenciação está no conceito de hegemonia de Gramsci. Sua definição foi popularizada pela equação “consenso + coerção”. As reflexões de Gramsci, no entanto, têm como ponto de partida um questionamento específico num período histórico concreto: como explicar a vitória do fascismo na Itália? A complexidade e refinamento de sua teoria advém, portanto, da perspectiva de uma derrota (os inimigos estavam no poder), e de uma reflexão sobre as táticas e estratégias do inimigo, para poder derrotá-lo.

O conceito de hegemonia de Gramsci refere-se diretamente a sua noção de Estado de forma ampliada: sociedade política e sociedade civil. A hegemonia se forma com a supremacia de determinado grupo ou classe social e sua liderança moral e intelectual na sociedade civil. Este grupo exerce liderança antes de chegar ao governo. Neste momento ele se torna dominante, mas mesmo depois de se afirmar no poder, não pode deixar de “liderar” (Gramsci 1971: 58). Para Gramsci, “dominar” não é igual a “liderar”: este requer certas concessões aos grupos subordinados, para que eles “concedam” (mesmo que indiretamente) e se tornem parte do projeto de dominação de dado grupo.

A hegemonia pressupõe, portanto, levar em consideração os interesses e tendências dos grupos sobre os quais a hegemonia deve ser exercida. Isto significa que o grupo dominante terá que fazer certos sacrifícios de tipo econômico-corporativo, desde que não toquem no essencial de seu poder econômico (ib.: 161). Este “equilíbrio compromissado” faz com que o desenvolvimento e expansão do grupo particular sejam concebidos e apresentados como força-motriz de uma expansão universal. Segundo Gramsci, o Estado se torna o reflexo destes interesses particulares apresentados como universais (ib.: 182).

A hegemonia da classe dominante é, assim, institucionalizada no aparato político, mas formada e sustentada na esfera na sociedade civil (Estado ampliado). Quando a classe dominante perde o consenso na sociedade, ela não exerce liderança, mas dominação, precisando para isso exercer força coerciva (ib.: 272). A ideologia liberal buscou separar o Estado da sociedade civil, afirmando que a atividade econômica pertence a ela, e o Estado não deve intervir nem regulá-la. Mas se ambos são parte do mesmo, então, segundo Gramsci, “deve estar claro que o liberalismo também é uma forma de regulação estatal, introduzida por meios legislativos coercivos” (ib.: 160). Hegemonia e sociedade civil são, portanto, dois conceitos interdependentes e devem ser pensados de forma conjunta (Buttigieg 2005).

Alguns autores críticos e marxistas buscaram adequar o conceito gramsciano em sua complexidade para as Relações Internacionais. No entanto, na concepção predominante na academia norte-americana, o realismo, a visão de hegemonia é centrada no poder do Estado em sua forma simples: instituição de autoridade política. Um expoente do realismo, Gilpin, equivale poder, hegemonia, império e Estado dominante como sinônimos. Para ele, a história demonstra que a guerra tem sido inevitável para solucionar tensões geradas pelo desequilíbrio na distribuição de poder no sistema internacional. Hegemonia é consequência inevitável da vitória de pelo menos um Estado ou grupo (Gilpin 1981: 197-8). Segundo o autor, uma guerra hegemônica se caracteriza por: contestação direta entre poder dominante e Estados revisionistas, mudanças na natureza e a governança no sistema, e meios de violência quase ilimitados (ib.: 200). As grandes transformações na história mundial foram derivadas de guerras hegemônicas entre rivais políticos, cujo resultado é o re-ordenamento do sistema a partir de ideias e valores do Estado vencedor (ib.: 203).

Gilpin afirma que marxistas e realistas compartilham da visão de que, enquanto for possível a expansão territorial e de recursos, a lei do desenvolvimento desigual pode operar sem alterar a estabilidade do sistema como um todo. No entanto, quando seus limites são alcançados, o sistema entra em crise, o que levou a uma intensificação do conflito e ao colapso final do sistema em duas grandes guerras (ib.: 201). Observa-se que o mesmo processo histórico caracterizado por Gilpin como guerra hegemônica, para Lenin é denominado guerra inter-imperialista.

Ao contrário de Gramsci, Gilpin afirma que a tática de fazer concessões aos poderes menores para assegurar o status quo pode demonstrar um sinal de enfraquecimento do hegemon, gerando um ciclo vicioso de demandas por mais concessões (ib.: 207). Este ponto expõe a diferença da concepção de hegemonia como poder militar, política, territorial e econômico (semelhando a imperialismo), inversamente de autores que trabalham com “consenso e coerção”. Para estes, a habilidade de construção de consenso a partir de concessões legitimará a liderança do hegemon, que usará a coerção somente quando necessário. Assim, as formas de concessão e compromissos internacionais são instrumentos de legitimação do poder.

Gilpin aponta que paz se equivale a uma “estabilidade hegemônica”, uma vez que ela é assegurada e vigiada por um poder maior, que coordena a política mundial a partir da sua visão de mundo (ib.: 209). Também Kindleberger (1973) aponta que a crise e a Grande Depressão dos anos 30 poderia ter sido evitada se a Inglaterra tivesse tido capacidade, e os EUA vontade política de exercer liderança (Kindleberger 1973: 291-2). Ambos foram incapazes de preservar o “bem público”, voltando-se para si, privilegiando questões particulares ao invés do bem comum, que seria a estabilidade do sistema como um todo. As visões de Gilpin e Kindleberger deram origem à chamada “teoria da estabilidade hegemônica”, desenvolvida posteriormente por Keohane (1993), expoente do paradigma institucionalista das RI. De acordo com este, as estruturas hegemônicas de poder dominadas por um só país conduzem à formação de regimes internacionais fortes, com regras precisas e obedecidas por todos (Keohane 1993: 111) [3]. Os regimes econômicos internacionais fortes dependem de um poder hegemônico, ao passo que fragmentação do poder entre países em competição leva à fragmentação do regime. A concentração de poder indica, portanto, estabilidade.

Keohane afirma que poderes maiores e menores têm incentivos para colaborar dentro de um regime internacional: “a potência hegemônica ganha capacidade de configurar e dominar seu entorno internacional, enquanto que administra um fluxo suficiente de benefícios a pequenas e médias potências para convencê-las de que coincidem [em interesses]” (ib.: 115). Por outro lado, na medida em que a distribuição de recursos (especialmente econômicos) se torna mais equitativa, aumentam os custos do hegemon em manter estabilidade e o cumprimento das regras, e os regimes se debilitam. Inicia-se assim um período de transição e de instabilidade (ib.: 116-7).

Nota-se aqui que a hegemonia adquire uma conotação benigna. Assim como um “Leviatã” daria fim a um “estado de natureza de todos contra todos”, também o hegemon pode minimizar os efeitos da anarquia internacional. Desta forma, o “bem comum” (estabilidade, paz, ordem) seria garantido. Diferentemente de Gramsci, quem, através do conceito de hegemonia, denunciava a opressão e subalternidade de uma classe frente a outra, para estes teóricos do realismo e do institucionalismo, a desigualdade social e internacional não é um mal em si, podendo ser “um mal necessário” para garantir a ordem do sistema.

Autores críticos buscaram revidar a noção de uma hegemonia “benévola”, trabalhando, a partir da teoria gramsciana, os instrumentos de manutenção do poder na ordem mundial. Cox (1987) define hegemonia como uma dominação de forma particular, onde um Estado cria uma ordem baseada ideologicamente em ampla medida de consentimento, funcionando de acordo com princípios gerais que, de fato, asseguram a contínua supremacia do Estado líder, e sua classes social dominante, oferecendo, ao mesmo tempo, alguma medida de satisfação aos menos poderosos (Cox 1987: 7). Deste modo, para se tornar hegemônico, um Estado precisa fundar ou proteger uma ordem que seja universal em sua concepção, mas em que outros Estados sintam em parte compatível com seus próprios interesses (Cox 1993: 61).

Neste tipo de ordem, a produção em países particulares se torna conectada ao sistema mundial de produção. A classe dominante no Estado hegemon encontra aliados em classes de outros países. Uma sociedade mundial incipiente emerge no sistema interestatal, e os próprios Estados se tornam internacionalizados, de modo que seus mecanismos e políticas são ajustadas ao ritmo da ordem mundial (Cox 1987: 7). Assim, a hegemonia mundial se forma sobre uma sociedade civil globalmente concebida, e não somente a partir das relações interestatais.

Um importante mecanismo de universalização de normas da hegemonia mundial são as organizações internacionais. Através delas são incorporadas as regras que facilitam a expansão de ordens mundiais hegemônicas, legitimando ideologicamente as normas desta ordem. Ao mesmo tempo, elas mesmas são produto da hegemonia de um Estado dominante, e são capazes de facilitar a cooptação de elites dos países periféricos, e absorver ideias contra-hegemônicas (Cox 1993: 62). Para Arrighi (1993), a formação de uma hegemonia mundial está diretamente ligada à formação social hegemônica da classe dominante no âmbito doméstico. Um Estado se torna hegemônico mundialmente quando pode reivindicar com credibilidade que é a força-motriz da uma expansão universal do poder coletivo de sua classe dominante com relação a outros Estados, assim como com relação às classes subalternas (Arrighi 1993: 151). Este tipo de reivindicação é mais plausível em situações de caos sistêmico, onde há falta de organização generalizada e escalação de conflitos [4]. Na medida em que o caos sistêmico aumenta, a demanda pela instalação de ordem se generaliza entre dominantes e dominados. Qualquer Estado em condições de satisfazer esta demanda se apresenta como potencial hegemon (ib.).

4. Ordem mundial capitalista após a II Guerra: Pax Americanna ou American Empire?

Buscamos apresentar até aqui algumas das diferentes definições e aplicações dos conceitos de imperialismo e hegemonia na literatura marxista, realistas e institucionalistas das RI. Estas diferenças conduzirão à caracterização distinta do período de dominação dos EUA após a II Guerra Mundial. Para os autores realistas e institucionalistas que fazem uso do termo hegemonia, a Pax Americanna foi uma forma benévola de ordem mundial, na qual as instituições e regimes internacionais foram privilegiados para organizar a coesão contra a ameaça soviética, o que, em grande medida, significou mais custos aos EUA, se comparado a poderes hegemônicos anteriores.

Gilpin (1975) enfatiza o papel das empresas multinacionais como principal instrumento da hegemonia global americana, cujos outros pilares são a posição do dólar como moeda de troca internacional, e a supremacia militar e nuclear (Gilpin 1975: 138-40). Segundo o autor, os interesses das corporações e o interesse nacional dos EUA se sobrepõem e complementam: a expansão mundial das corporações atendem aos interesses geopolíticos americanos, sendo elas território de controle e legislação dos EUA, assim como ajudam a atenuar o déficit fiscal do dólar; ao mesmo tempo, a política externa americana apóia a expansão das empresas, com crédito, acordos comerciais, e seu peso como poder hegemônico mundial (ib.: 146-7). Com efeito, os lucros feitos pelas companhias no exterior apóiam o Estado americano a cobrir gastos pesados em operações diplomáticas e militares, tendo sido essenciais para financiar a posição hegemônica global dos EUA (ib.: 149).

Gilpin afirma que a construção de hegemonia através de alianças (especialmente com Europa e Japão) [5] demandou concessões, como por exemplo a tolerância da concorrência econômica. Instrumentos diretos de transferência de capital, como o plano Marshall, colocaram aos EUA um peso financeiro, que não ocorreu com a Inglaterra em seu período auge (ib.: 151).

Keohane (1993) aponta que a liderança hegemônica dos EUA durante a década de 1950 foi responsável, administrando benefícios a seus aliados, mas também lhes impondo restrições. Os EUA fizeram sacrifícios de curto prazo para criar uma ordem “próspera e estável” a seu favor no longo prazo. Os interesses do “mundo livre” se combinavam com os interesses dos EUA para determinar uma estratégia de liderança, facilitada em grande medida pela ameaça soviética (Keohane 1993: 315-21). No entanto, a “longa década” de 50 foi frágil e curta, uma vez que os EUA não puderam administrar bem a combinação dos interesses particulares internos com a preocupação de manter alianças internacionais. Keohane aponta que os EUA teriam contraído a “enfermidade dos fortes” — a negação em ajustar-se às mudanças —, especialmente nas áreas de finanças e petróleo, onde a política norte-americana estava debilitada pela incoerência entre demandas políticas internas e os imperativos internacionais de longo prazo (ib.: 347).

Ikenberry (2001) caracteriza a ordem mundial nos anos 90 como “hegemonia de acionistas”: uma forma benévola de poder (soft power) construída pelos EUA a partir de suas instituições domésticas democráticas, maduras, abertas, com regras previsíveis e vinculadas a uma rede de instituições multilaterais. Através destas são estabelecidas parcerias estáveis e vinculantes, que asseguram a ordem econômica e militar dominada pelos EUA, ao mesmo tempo que constrangem e restringem o poder de ação do próprio hegemon (Ikenberry 2001: 20-2). Desta forma, a ordem hegemônica construída pelos EUA seria um espelho de suas próprias instituições domésticas (ib.: 19).

Este ambiente muda com o 11 de Setembro de 2001. O termo “Império Americano” é retomado com otimismo por neoconversadores, e a administração Bush afirma uma “soberania contingente” e o direito de intervenção preventiva (Ikenberry 2004). Para o autor, porém, o termo “Império” não cabe para descrever a estrutura de dominação americana. Se, de fato, os EUA mantiveram políticas imperiais frente à América Latina e ao Oriente Médio, com relação à maior parte dos países, a ordem mundial teria sido um sistema negociado, em que os EUA buscaram a participação de outros Estados em termos mutuamente acordados. O império americano seria um “ilusão”, pois suas instituições limitam e legitimam seu próprio poder (ib.).

Contrariamente a esta argumentação, pode-se afirmar que as instituições e organizações internacionais não serviram para constranger ou limitar o poder dos EUA, senão para alcançar a universalização de normas e expandir sua hegemonia mundial (Cox 1989; 1993). Cox aponta para dois fenômenos centrais do período da Pax Americanna: a internacionalização da produção — enquanto a força de trabalho permaneceu fragmentada pelas múltiplas soberanias estatais — e a internacionalização do Estado, que passou a ajustar no plano doméstico as imposições da economia globalizada e a participar da formação do consenso internacional estruturado hierarquicamente (Cox 1989: 244-254). Arrighi (1993) aponta para a relativa reconfiguração do Estado, com considerável restrição de direitos e poderes dos Estados soberanos pelas instituições da hegemonia americana. Os princípios, normas e regras aos quais os Estados eram submetidos aumentaram e se tornaram mais estreitas (se comparadas ao período de hegemonia britânica), enquanto o crescente número de organizações supranacionais adquiriram mais poder autônomo para “sobregovernar” o sistema interestatal (Arrighi 1993: 182).

Pode-se observar que a ordem hegemônica estabelecida pelos EUA no mundo capitalista no pós-Segunda Guerra transcende o poder bélico e tem nas instituições internacionais (organizações interestatais e corporações privadas) seus pilares de legitimação e imposição da ordem. No entanto, o consenso atingido através de alianças e instituições não poderia dispensar o elemento militar, principal mecanismo de poder entre as potências da Guerra Fria. Para Magdoff (1975), o imperialismo e o militarismo são fatores determinantes da evolução e da supremacia tecnológica americana, assim como da repatriação das riquezas no interior do país. A guerra deve ser entendida em seu sentido amplo, abarcando todos os tipos de intervenção militar (Magdoff 1975: 33). As despesas militares americanas têm impacto na provisão de matérias-primas, desenvolvimento de bens duráveis e pesquisa tecnológica de alto nível, tendo impactos assim em toda a economia.

Para Panitch/Gindin, o imperialismo atual se caracteriza pela capacidade do Estado americano de penetrar e coordenar os outros Estados líderes capitalistas. O dinamismo do capitalismo americano e o seu apelo mundial, combinado com uma linguagem universalista da ideologia de democracia liberal, apoiam a capacidade do império informal de ir além dos impérios anteriores. Segundo os autores, somente o Estado americano reivindicava para si o direito de intervir contra a soberania de outros países, e somente ele reservou para si o direito “soberano” de rejeitar normas e regras internacionais, quando necessário. Neste sentido, only the American State was actively ‘imperialistic’ (Panitch/Gindin 2004: 16). Assim, a ordem capitalista mundial se organizou e regulou pela via de reconstrução de outros Estados como elementos integrais do império informal americano.

Os autores se diferenciam dos teóricos críticos baseados em Gramsci, ao afirmarem que, mesmo com toda a penetração cultural e econômica, nunca houve uma “transferência de lealdade popular direta” de outros povos aos EUA. (ib.: 32). Tampouco os EUA tiveram que incorporar demandas das classes subordinadas em outros Estados dentro da construção de seu império. O consentimento ativo para a dominação do império informal sempre foi mediado pela legitimidade que os outros Estados mantinham para si em nome de qualquer projeto particular do Estado americano (ib.). De todos modos, o recorrente uso de intervenções militares ao redor do mundo demonstram que esta legitimidade foi muitas vezes difícil de ser alcançada, e a formação de um consenso dentro das instituições hegemônicas não é suficiente.

A centralidade da força militar em combinação a força econômica dos EUA é caracterizada por Wood como surplus imperialism (Wood 2003: 143). Por que um aparato militar tão grande quando não há um inimigo claro a ser combatido? Este é o paradoxo do novo imperialismo. O poder militar não está desenhado para conquistar novos territórios nem derrotar um inimigo, não busca dominação territorial ou física, contraditoriamente produziu uma capacidade militar desproporcional com alcance global. Isso de dá, segundo a autora, precisamente por não haver inimigos nem objetivos claros e finitos: a dominação sem fronteiras de uma economia global e um múltiplo sistema de Estados para administrá-la requerem ação militar sem propósito, tempo e fim (ib.: 144). Substituem-se doutrinas tradicionais de guerra por um novo princípio de “guerra sem fim”, pelo qual ações militares são justificadas sem expectativa de seu objetivo será alcançado (ib.: 149). Diferentemente do antigo, que se baseava na expansão do capital para áreas pré-capitalistas, o novo imperialismo se baseia na própria universalidade do capitalismo. Wood ressalta que a força militar apoia seu alcance global. Enquanto os imperativos de mercado têm um alcance que vão além do poder de um único Estado, estes mesmos imperativos têm que ser reforçados pelo poder extraeconômico (ib.: 152-4). Por ironia, num sistema globalizado onde supostamente o Estado-nação estaria desaparecendo, a ordem global se mantém por um sistema de múltiplos Estados, onde importa quais são as forças locais que governam e como [6].

5. Conclusão

O presente trabalho procurou rever parte da literatura sobre imperialismo e hegemonia, verificando seus diferentes usos e definições. Observamos que a linha divisória entre ambos conceitos é tênue. De um lado, o termo hegemonia foi usado de forma mais ampla por autores marxistas e não-marxistas para indicar uma ordem mundial estável e “benévola”, ou ao contrário, uma ordem de dominação e imposição construída a partir de instituições que organizam o consenso e a coerção. De outro, o termo imperialismo (ou Império) foi usado por autores marxistas e críticos para indicar uma estrutura de poder que tem a partir do Estado americano o epicentro do capitalismo global. Em alguns casos, a ênfase nos meios de dominação econômico e militar leva à caracterização da ordem mundial como imperialista. Em outros, a ênfase nas instituições, soft power e concessões a poderes menores leva à caracterização da ordem como hegemônica, que também pode ser vista a partir da perspectiva gramsciana de universalização de regras, normas e valores particulares.

Lembramos que “uma teoria é sempre para alguém e para algum propósito” (Cox 2000). Todas as teorias têm uma perspectiva, que deriva de uma posição em tempo e espaço político e social. Parece pertinente a divisão de Cox entre “solução de problemas” e teoria crítica: a primeira diz respeito a problemas particulares dentro de uma ordem mundial tida como dada, sendo que a solução destes problemas objetiva o melhor funcionamento e a manutenção da própria ordem, e não a transformação desta; a segunda, ao contrário, se dirige ao complexo social e político como um todo, buscando as origens históricas e as relações sociais e de dominação que prevaleceram em uma determinada ordem mundial, para entender suas dinâmicas e buscar sua transformação (ib.). Autores que escrevem a partir do centro de poder, os EUA, com a intenção de explicar sua ascensão e entender seu declínio, mantêm intactas as premissas do sistema capitalista. Já autores marxistas e da teoria crítica buscam explicar a ordem de dominação e poder (ora caracterizada como hegemônica, ora como imperial) com a perspectiva de transformação histórica do sistema em sua totalidade. É necessário compreender ambas as perspectivas para dar conta de uma realidade social complexa e contraditória.

Anna Saggioro Garcia é doutoranda em Relações Internacionais na PUC-Rio. Membro da Fundação Rosa Luxemburg.

Notas

[1] O imperialismo é o domínio do capital financeiro, e implica o domínio do rentier ou oligarquia financeira (ib.: 59). Para Lenin, rentiers são aqueles que vivem de uma renda, “parasitas” e não investidores. Estados-rentiers são os poucos Estados credores frente a grande maioria de Estados devedores (ib.: 102-3).

[2] Impérios informais requerem a penetração econômica e cultural nos outros Estados, sustentada pela coordenação política e militar com governos independentes. O principal fator que determinou a mudança na extensão de impérios formais após 1880 foi a inabilidade da Inglaterra em incorporar os recentes poderes emergentes, Alemanha, EUA e Japão, no seu “imperialismo de livre-comércio” (ib.: 22).

[3] Para Keohane, regimes internacionais são modelos de comportamento cooperativo regulado na política mundial. Regimes fortes estabelecem um comportamento ordenado e previsível segundo padrões comuns aos participantes, enquanto que em regimes fracos, as regras se interpretam de forma diferenciada, e são frequentemente rompidas (ib.: 112).

[4] Arrighi diferencia entre caos e anarquia. Caos é a falta de ordem generalizada, enquanto que anarquia é a falta de uma autoridade central, podendo ser ordenada através de princípios, regras e normas comuns entre todos.

[5] Europa e Japão aceitaram o papel dos EUA como “banqueiro mundial” e apoiaram o dólar como reserva em troca de ter sua segurança garantida pelos EUA. Assim, estes puderam manter seu déficit fiscal sem constrangimento, o que possibilitou sua expansão militar e de capital para fora (ib.: 154 s.).

[6] A desordem criada pela ausência de poder de Estados efetivos (“Estados falidos”, “semiestados”, “eixo do mal”) ameaça um ambiente previsível e estável necessário para o capital, e devem ser colocados novamente em “ordem” sob a orbita dos EUA (ib.: 156).

Referências

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ARRIGHI, Giovanni. “The Three Hegemonies of Historical Capitalism”. In: Gill, Stephen (Ed.). Gramsci, Historical Materialism and International Relations. Cambridge University Press, 1993.

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BUTTIGIEG, Joseph. “Gramsci on Civil Society”. Boundary 2, 22, n. 3, 1995.

COHEN, Benjamin. A questão do imperialismo. Economia política da dominação e dependência. Rio de Janeiro: Zahar, 1976.

COX, Robert. “Social Forces, States and World Orders. Beyond International Relations Theory”. In: Linklater (Ed.): International Relations. Vol. IV. Routledge, 2000.

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----------. Production, Power and World Order. Social forces in the Making of History. New York: Columbia University Press, 1989.

FOSTER, John Bellamy. “O redescobrimento do imperialismo”. In: Borón, Amadeo, Gonzáles (Orgs.). A teoria marxista hoje, cit.

GILPIN, Robert. War and Change in World Politics. Cambridge University Press, 1981.

----------. US Power and the Multinational Corporation. New York Basic Books, 1975.

GRAMSCI, Antonio. Selections of Prison’s Notebooks. New York: International Publishers, 1971.

IKENBERRY, John. “Illusions of Empire: Defining the New American order”. Foreign Affairs, Mar/Apr 2004, Vol. 83, ISS 2, 2004.

----------. “Getting Hegemony Right”. The National Interest, Spring 2001, 63.
KAUTSKY, Karl. “Ultra-Imperialism” (Die Neue Zeit, 1914), http://www.marxists.org/archiv/kautsky.%20Acessado%20em%2026/03/2009.

KINDLEBERGER, Charles. The World Depression, 1929-1939. University of Califórnia Press, 1973.

KEOHANE, Robert. Instituciones internacionales y poder estatal. Ensayos sobre teoria de las relaciones internacionales. Grupo Editor Latinoamericano, 1993 (Colección Estúdios Internacionales).

LENIN, V.I. O imperialismo, fase superior do capitalismo [1916]. 3. ed. Centauro, 2005.

MAGDOFF, Harry. O imperialismo. Um processo histórico. Lisboa: Delfos, 1975.

SMITH, Tony. The Pattern of Imperialism. The United States, Great Britain, and Late-Industrializing World since 1815. Cambridge University Press, 1981.

PANITCH, Leo/GINDIN, Sam. “Global Capitalism and American Empire”. Socialist Register 2004. London: Merlin Press.

WOOD, Ellen Meiksins. Empire of Capital. New York, London: Verso, 2003.

O QUE PENSA A MÍDIA

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Morte e vida Severina (Auto de Natal Pernambucano) – parte 10::João Cabral de Melo Neto

CHEGANDO AO RECIFE, O RETIRANTE SENTA-SE PARA DESCANSAR AO PÉ DE UM MURO ALTO E CAIADO E OUVE, SEM SER NOTADO, A CONVERSA DE DOIS COVEIROS

— O dia de hoje está difícil;
não sei onde vamos parar.
Deviam dar um aumento,
ao menos aos deste setor de cá.
As avenidas do centro são melhores,
mas são para os protegidos:
há sempre menos trabalho
e gorjetas pelo serviço;
e é mais numeroso o pessoal
(toma mais tempo enterrar os ricos).
— Pois eu me daria por contente
se me mandassem para cá.
Se trabalhasses no de Casa Amarela
não estarias a reclamar.
De trabalhar no de Santo Amaro
deve alegrar-se o colega
porque parece que a gente
que se enterra no de Casa Amarela
está decidida a mudar-se
toda para debaixo da terra.
— É que o colega ainda não viu
o movimento: não é o que se vê.
Fique-se por aí um momento
e não tardarão a aparecer
os defuntos que ainda hoje
vão chegar (ou partir, não sei).
As avenidas do centro,
onde se enterram os ricos,
são como o porto do mar:
não é muito ali o serviço:
no máximo um transatlântico
chega ali cada dia,
com muita pompa, protocolo,
e ainda mais cenografia.
Mas este setor de cá
é como a estação dos trens:
diversas vezes por dia
chega o comboio de alguém.
— Mas se teu setor é comparado
à estação central dos trens,
o que dizer de Casa Amarela
onde não pára o vaivém?
Pode ser uma estação
mas não estação de trem:
será parada de ônibus,
com filas de mais de cem.
— Então por que não pedes,
já que és de carreira, e antigo,
que te mandem para Santo Amaro
se achas mais leve o serviço?
Não creio que te mandassem
para as belas avenidas
onde estão os endereços
e o bairro da gente fina:
isto é, para o bairro dos usineiros,
dos políticos, dos banqueiros,
e no tempo antigo, dos banguezeiros
(hoje estes se enterram em carneiros);
bairro também dos industriais,
dos membros das associações patronais
e dos que foram mais horizontais
nas profissões liberais.
Difícil é que consigas
aquele bairro, logo de saída.
— Só pedi que me mandassem
para as urbanizações discretas,
com seus quarteirões apertados,
com suas cômodas de pedra.
— Esse é o bairro dos funcionários,
inclusive extranumerários,
contratados e mensalistas
(menos os tarefeiros e diaristas).
Para lá vão os jornalistas,
os escritores, os artistas;
ali vão também os bancários,
as altas patentes dos comerciários,
os lojistas, os boticários,
os localizados aeroviários
e os de profissões liberais
que não se liberaram jamais.
— Também um bairro dessa gente
temos no de Casa Amarela:
cada um em seu escaninho,
cada um em sua gaveta,
com o nome aberto na lousa
quase sempre em letras pretas.
Raras as letras douradas,
raras também as gorjetas.
— Gorjetas aqui, também,
só dá mesmo a gente rica,
em cujo bairro não se pode
trabalhar em mangas de camisa;
onde se exige quépi
e farda engomada e limpa.
— Mas não foi pelas gorjetas,
não, que vim pedir remoção:
é porque tem menos trabalho
que quero vir para Santo Amaro;
aqui ao menos há mais gente
para atender a freguesia,
para botar a caixa cheia
dentro da caixa vazia.
— E que disse o Administrador,
se é que te deu ouvido?
— Que quando apareça a ocasião
atenderá meu pedido.
— E do senhor Administrador
isso foi tudo que arrancaste?
— No de Casa Amarela me deixou
mas me mudou de arrabalde.
— E onde vais trabalhar agora,
qual o subúrbio que te cabe?
— Passo para o dos industriários,
que é também o dos ferroviários,
de todos os rodoviários
e praças-de-pré dos comerciários.
— Passas para o dos operários,
deixas o dos pobres vários;
melhor: não são tão contagiosos
e são muito menos numerosos.
— É, deixo o subúrbio dos indigentes
onde se enterra toda essa gente
que o rio afoga na preamar
e sufoca na baixa-mar.
— É a gente sem instituto,
gente de braços devolutos;
são os que jamais usam luto
e se enterram sem salvo-conduto.
— É a gente dos enterros gratuitos
e dos defuntos ininterruptos.
— É a gente retirante
que vem do Sertão de longe.
— Desenrolam todo o barbante
e chegam aqui na jante.
— E que então, ao chegar,
não têm mais o que esperar.
— Não podem continuar
pois têm pela frente o mar.
— Não têm onde trabalhar
e muito menos onde morar.
— E da maneira em que está
não vão ter onde se enterrar.
— Eu também, antigamente,
fui do subúrbio dos indigentes,
e uma coisa notei
que jamais entenderei:
essa gente do Sertão
que desce para o litoral, sem razão,
fica vivendo no meio da lama,
comendo os siris que apanha;
pois bem: quando sua morte chega,
temos que enterrá-los em terra seca.
— Na verdade, seria mais rápido
e também muito mais barato
que os sacudissem de qualquer ponte
dentro do rio e da morte.
— O rio daria a mortalha
e até um macio caixão de água;
e também o acompanhamento
que levaria com passo lento
o defunto ao enterro final
a ser feito no mar de sal.
— E não precisava dinheiro,
e não precisava coveiro,
e não precisava oração
e não precisava inscrição.
— Mas o que se vê não é isso:
é sempre nosso serviço
crescendo mais cada dia;
morre gente que nem vivia.
— E esse povo lá de riba
de Pernambuco, da Paraíba,
que vem buscar no Recife
poder morrer de velhice,
encontra só, aqui chegando
cemitérios esperando.
— Não é viagem o que fazem,
vindo por essas caatingas, vargens;
aí está o seu erro:
vêm é seguindo seu próprio enterro.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Reflexão do dia – José Serra

“Nós governamos para o povo e não para partidos.

Estou convencido de que o governo, assim como as pessoas, tem que ter honra. E assim falo não só porque aqui não se cultiva escândalos, malfeitos, roubalheira, mas também porque nunca incentivamos o silêncio da cumplicidade e da conivência com o malfeito.
Quando criamos o PSDB, éramos oposição por todos os lados. Mas, de um lado ou de outro, nunca me dei à frivolidade das bravatas. Nunca investi no quando pior, melhor (...) Jamais mobilizei falanges do ódio. Jamais dei meu apoio a uma proposta, uma ação política, porque elas seriam prejudiciais aos meus oponentes.

Não sou assim, não ajo assim. Não entendo assim o debate político. E nisso não vou mudar, ainda que venha a ser alvo dessas mesmas falanges. Ao eventual ódio, eu reajo com serenidade de quem tem São Paulo e o Brasil no coração.

Vamos juntos. O Brasil pode mais. A etapa seguinte nos espera. Vou entrar nela com disposição, confiança, fé, serenidade e muito trabalho. "


(José Serra, ontem, em discurso de despedida do governo de S. Paulo)

Pressão contra o Irã:: Merval Pereira

DEU EM O GLOBO

Não é apenas a Petrobras que pode ser passível de sanções econômicas devido à relação comercial com o governo do Irã. Também o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) é citado por funcionários israelenses como possível fonte de financiamento indireto do governo do Irã, caso venha a apoiar a ação de empresas brasileiras naquele país, assim como alguns bancos brasileiros que têm negócios por lá.

Antecedendo a viagem do presidente Lula a Teerã, em maio, uma missão com 80 empresários irá ao Egito, ao Líbano e ao Irã, em abril, sob a coordenação do ministro Miguel Jorge, do Desenvolvimento, Indústria e Comércio.

A busca de mercado para a atuação de empresas brasileiras pode esbarrar nas sanções econômicas que os Estados Unidos estão empenhados em aprovar o mais rápido possível no Conselho de Segurança da ONU.

A paranoia com o programa nuclear iraniano é tamanha que setores como casa e construção, máquinas e equipamentos, produtos siderúrgicos, metalúrgicos, equipamentos médico-hospitalares e para exploração mineral, construção e de infraestrutura são colocados sob suspeita.

Mesmo que o governo brasileiro queira fazer um acordo com o Irã para pesquisas médicas com base na energia nuclear, estará sujeito a embargos políticos por parte dos Estados Unidos, enquanto o Irã não abrir seus laboratórios de pesquisas nucleares aos investigadores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

Um dos principais alvos da inquietação de Israel são as grandes empreiteiras brasileiras, caso venham a fazer parte de algum acordo para obras no Irã.

Isso porquê, de acordo com documentos do governo israelense que foram debatidos recentemente por enviados especiais da diplomacia israelense em contatos com autoridades brasileiras, parlamentares e formadores de opinião, o braço econômico da Guarda Revolucionária Islâmica é uma empresa de construção chamada Khatam al-Anbiya, que executa a maior parte dos projetos de infraestrutura e tem “ligação sugestiva” com o programa nuclear iraniano.

Quando a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, disse em palestra em uma universidade no Catar, em fevereiro deste ano, que o governo dos Estados Unidos acredita que o Irã está se tornando uma ditadura militar, ela chamou a atenção para o papel da Guarda Revolucionária no Irã, que, para as autoridades israelenses e americanas, estaria conquistando tanto poder que, na prática, teria suplantado o governo.

Segundo a análise do setor de inteligência do Ministério das Relações Exteriores de Israel, a Guarda Revolucionária tem tido um papel crescente na economia iraniana, especialmente depois da subida ao poder de Mahmoud Ahmadinejad em 2005.

Seriam mais de 100 empresas ligadas direta ou indiretamente à Guarda Revolucionária, que controlaria, segundo os documentos, um gigantesco consórcio de construção envolvido em inúmeros projetos de infraestrutura e em exploração de petróleo, na produção de mísseis, no setor de telecomunicações e produtos eletrônicos.

Essas empresas seriam favorecidas por contratos sem licitação, especialmente nas áreas de petróleo e gás natural, na construção de oleodutos e em desenvolvimento de infraestrutura em larga escala.

Seria uma maneira de cooptar a Guarda Revolucionária e, ao mesmo tempo, utilizar algumas dessas empresas nos trabalhos clandestinos de construção de laboratórios secretos onde estaria sendo desenvolvido o programa nuclear paralelo.

A acusação é que caminhões das empreiteiras seriam utilizados para camuflar o transporte de mísseis, e outras atividades clandestinas seriam mascaradas pelas obras civis.

Entre os muitos exemplos, o relatório do serviço de inteligência de Israel cita uma empresa chamada Ghorb Nooh, que seria a responsável pelas contratações da Khatam al-Anbiya nos campos de gás de South Pars.

Uma subsidiária da Ghorb Nooh comprou maquinário de perfuração de túneis da empresa alemã Wirth e da italiana Seli, oficialmente para um sistema de fornecimento de água em Isfaham.

Esses mesmos equipamentos seriam fundamentais para o programa nuclear clandestino do Irã, segundo relatórios do setor de inteligência, que vêm sendo revelados desde 2008.

O poder econômico da Guarda Revolucionária estaria também baseado em uma ampla atividade de contrabando, com a operação de docas e portos clandestinos.

Um dos maiores complexos portuários do país, o de Martyr Rajai, na província de Hormuzgan, seria utilizado para contrabandear petróleo, que é altamente subsidiado no Irã.

O contrabando também seria feito através do controle pela Guarda Revolucionária dos aeroportos de Teerã e de Payam.

A preocupação das autoridades dos Estados Unidos e de Israel é que o governo brasileiro dê fôlego ao governo autocrático do Irã com acordos comerciais, quando a ideia da maioria dos membros do Conselho de Segurança da ONU é forçar o governo de Ahmadinejad a abrir seu programa nuclear através das sanções econômicas.

Caso aconteça essa confrontação de interesses, as empresas brasileiras que mantiverem negócios com o Irã apesar da decisão da ONU, inclusive a Petrobras, poderão sofrer sanções por parte de órgãos americanos, e certamente terão prejuízos em suas operações internacionais.

Esse foi o recado dado nos últimos dias por autoridades do governo de Israel e pela própria secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, quando esteve recentemente no Brasil.

Combate eleitoral:: Dora Kramer

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

O presidente Luiz Inácio da Silva e a ministra Dilma Rousseff rodaram o País à vontade por dois anos inteiros sem ser importunados por militantes de partidos da oposição ou por manifestações organizadas com o objetivo de impedir que nadassem "de braçada" nos comícios disfarçados em solenidades oficiais durante dois anos.

E não por falta de quem preferisse na época adequada votar na candidatura oposicionista conforme o registrado pelas pesquisas de opinião durante todo esse período, a despeito da estupenda aprovação do governo Lula.

Houve até quem criticasse a oposição por não levar "o povo às ruas" para não deixar que o governo fizesse política sem contraditório. É um jeito de fazer as coisas. Ou até falta de jeito. Ou carência de base social, identificação popular, o que for.

Muito bem. Partido com militância forte conta como vantagem. É legítimo e é do jogo.

O que foge à regra da civilidade é a violência, a falta de respeito com o cotidiano de uma cidade, o uso de estruturas coletivas para embates partidários e o cerceamento à movimentação de candidatos, cerco de milícias organizadas em defesa da manutenção de empregos, de transferências de recursos, de uma situação de poder que nada tem a ver com a disputa entre candidatos mais bem qualificados para presidir o Brasil.

Os dois principais candidatos à Presidência da República fizeram suas festividades para marcar a despedida de Dilma Rousseff e de José Serra, respectivamente da Casa Civil da Presidência da República e do governo de São Paulo.

Mobilizaram recursos em boa medida públicos ? senão em toda ?, mostraram cada um a sua força. Mas no caso de São Paulo os sindicatos ligados à CUT acharam por bem atrapalhar a festa do adversário e atazanar a vida do paulistano com greves, passeatas, interrupções de avenidas, congestionamentos, ameaças, hostilidades de toda sorte. Não se pode imaginar que tenha sido a mando da candidata que apoiam.

Nem acreditar por antecipação que o adversário não vá, em reação, recorrer ao mesmo tipo de expediente. Mas em última análise são eles sim ? os candidatos ? os responsáveis por evitar que as campanhas descambem para a selvageria.

As coisas começaram mal quando o presidente Lula começou a imprimir o padrão da popularidade inimputável que a todos os joelhos dobra, a todas as espinhas quebra.

No Brasil não funciona assim. Há uma imensa massa manobrável. Mas há outra imensidão resistente a exorbitâncias. Por cima dela não passa boi, não passa boiada, não passa controle "social" da informação, não passa terceiro mandato nem tampouco tentativas de dividir o País em nome de ambições hegemônicas de gente que não aceita a regra igualitária da competição e tem ojeriza ao da alternância de poder.

Cá pra nós. Essa história de Henrique Meirelles pedir tempo a Lula para pensar não existe.

Ambos querem a vaga de vice na chapa de Dilma Rousseff e ponto final. Não há nada a ser pensado, só a chance de isso vir a acontecer ou não.

Há cerca de 15 dias quando chegou a circular a notícia de que estava decidido a concorrer ao Senado por Goiás ? num período em que o presidente Lula queria agradar ao PMDB ?, Meirelles telefonou a um amigo avisando da decisão.

Minutos depois ligou de novo acrescentando que não era bem assim: o nome dele ainda estava na parada para vice.

Nesse meio tempo, o presidente do PMDB e candidato do partido a vice, Michel Temer, praticamente vetou Meirelles em público. E mais: a pesquisa Datafolha com Serra 9 pontos à frente de Dilma reforçou a posição do PMDB, vale dizer, de Temer, na chapa.

Qualquer que seja, ou tenha sido ontem, a decisão ? ficar ou sair do governo ?, quem dá as ordens é Lula.

Que, aliás, não tem se entendido bem com sua bússola no que tange ao rumo do PMDB.

Inconsoláveis. Tem petista que não se conforma com a decisão do DEM de proibir alianças com o PT em todo o País. Promete lutar, ir ao Supremo se preciso for.

Herança deixada para os mais pobres:: Maria Inês Nassif

DEU EM VALOR ECONÔMICO

A história é um processo, mas em alguns períodos os sobreviventes de um tempo conseguem perceber quase na pele que vivem um momento em que uma página é virada e outra se inicia. Nessas ocasiões, a impressão é a de que cada um de um vasto número de incógnitos atores sociais conseguiu imprimir a sua assinatura num capítulo da história e que os dias, meses e anos passaram a andar porque foram movidos por uma vontade coletiva. São momentos de explosão social de emoção indescritível e, quando eles acontecem, os consensos formados no tecido social têm conteúdo positivo - a construção do novo. Embora sejam situações que exijam a coragem coletiva da mudança, e isso sujeita a sofrimentos, elas trazem junto a alegria da superação. Não apenas uma superação pessoal, mas coletiva.

O golpe de 1964 completou 46 anos ontem. Há 25 anos, o país passou por um momento histórico de superação. O país, que vivera a quebra da ordem institucional com relativa indiferença, do ponto de vista da maioria não engajada partidariamente; que assistira a um início de resistência de massa nos movimentos populares de 68; que caíra novamente na letargia no período do milagre econômico e de feroz repressão do governo Médici; que lutou com dificuldade no governo Geisel, aquele presidente que manobrou maiorias parlamentares, aumentou a lista de desaparecidos políticos e interviu no Judiciário - esse país chegou ao governo Figueiredo tecendo consensos. A redemocratização foi um consenso; a anistia foi uma convicção coletiva; a luta pelas eleições diretas ganhou as ruas. O primeiro presidente civil não foi eleito pelo voto direto, mas certamente assumiu porque o fim do regime militar tornou-se uma explosão de consenso: se Tancredo Neves foi o escolhido pelo Colégio Eleitoral numa transição negociada com os militares, ele também foi ungido pelo consenso das ruas.

Esses momentos, todavia, são o limiar de um tempo. Embora tragam uma intenção construtiva, são capazes exclusivamente de operar a mudança da página. Não trazem, em si, a energia da superação que transforma. As letras que carregam das páginas da história passada apenas são efetivamente reescritas no momento em que, já virada a folha, se opera a reflexão, letra por letra, das páginas anteriores. É a única forma de conseguir que as folhas seguintes se livrem da sombra do passado.

Os governos pós-ditadura, na revisão do passado, andaram um tanto que impede acusá-los de não andar nada, mas andaram tão pouco que deixaram por escrever as páginas anteriores, que permanecem nas sombras. A Comissão da Memória e da Verdade, que tanto assombra os militares, é um exemplo. Não consegue sair do papel; como não sai, não reescreve o passado; como não reescreve o passado, não vira a página para o futuro. A reivindicação de decortinar as circunstâncias da morte e desaparecimento político dos adversários do regime militar e apontar os torturadores que operaram a máquina repressiva da ditadura não é um mórbido desejo de sobreviventes e familiares de recontar sofrimentos. É coragem de expor feridas para que outras não sejam abertas.

A recusa em mexer no lixo da repressão da ditadura cobra seu preço. A conta está nas delegacias de polícia, nos presídios e nos centros de detenção de menores. Está nas favelas, onde o crime incorporou a prática como punição, amedrontamento e técnica de interrogatório. Segundo relatório da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados oferecido como subsídio à missão oficial da ONU, em 2001, a tortura é "o principal mecanismo de investigação policial" no Brasil; "é largamente aplicada como meio de pressão e imposição de disciplina em presídios e em centros de cumprimento de medidas socioeducativas para adolescentes". O relatório de 2005 traz uma análise de casos de tortura e crimes correlatos no banco de dados do SOS Tortura. De 1.863 dos casos coletados entre 31 de outubro de 2001 até 31 de janeiro de 2004 (que estão longe de representar a totalidade dos casos ocorridos no período), São Paulo foi responsável por 306 deles; Minas, por 283; Pará, por 168; Bahia, por 145; Rio de Janeiro, por 96; Distrito Federal; por 82; Maranhão, por 74, entre outros. Segundo a pesquisa, 40% desses casos aconteceram em delegacias de polícia e 21% em unidades prisionais. Segundo as vítimas, 38% dos casos de torturas foram operados como castigos e 33% para obtenção de informações.

A seccional da OAB do Estado do Maranhão acaba de entregar às autoridades uma lista com 43 pessoas mortas em presídios e delegacias do Maranhão desde 2008 e denúncias de torturas contra presos. O Espírito Santo foi denunciado na 13ª Sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU pelas violações que ocorrem em seu sistema prisional.

Hoje, as principais vítimas de torturas e de violações de direitos dentro do aparelho policial e no sistema prisional são pessoas pobres; sofrerão mais abusos, tanto no sistema como fora dele, impostas pelo representante do Estado ou por aqueles que "substituem" sua autoridade pela força nas comunidades carentes, quanto mais pobres forem, e serão mais atingidos, entre os pobres, os negros.

A ditadura acabou; a tortura, não. Ela está impregnada no aparelho policial porque a história de superação da ditadura não a superou: protegeu-a sob o manto de um pseudo-esquecimento. Esse legado da ditadura a sociedade brasileira transferiu para as classes mais pobres, que estão pagando a conta.

Maria Inês Nassif é repórter especial de Política. Escreve às quintas-feiras

Apesar de você - Chico Buarque

A ponte vermelha e o kabuletê:: Plínio Fraga

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

RIO DE JANEIRO - "E eu não posso deixar o meu governo sem inaugurar a ponte do quilombo de Ivaporunduva!", discursou Lula ontem, na solenidade em que uma dezena de ministros saiu do cargo para disputar a eleição de outubro.

Ponte do quilombo de Ivaporunduva? Lula não fez a reforma eleitoral, nem a tributária, está prestes a ver sua base no Congresso votar a favor da legalização dos bingos e das trapaceiras máquinas de caça-níquel, não concluiu metade do PAC que ele mesmo criou. E vem falar da ponte de Ivaporunduva?

Na pré-campanha eleitoral de 1993, Lula conheceu Ivaporunduva, no Vale do Ribeira, uma das mais antigas comunidades remanescente de quilombos de São Paulo, cujo nome, em tupi, significa "rio de muitos frutos". Lá vivem menos de 300 pessoas, numa área de 3.100 hectares, produzindo banana orgânica em sistema de colheita coletiva e com comercialização no atacado.
Pretendem construir uma fábrica para processar a produção e agregar valor ao produto.
Ridicularizando, é quase um laboratório tropical da ilha socialista ideal preconizada por Thomas Morus em "Utopia".

Em 2003, com Lula no poder, Ivaporunduva viu a chance de viabilizar uma ponte de 128 metros que a ligaria aos municípios vizinhos de Eldorado e Iporanga. O acesso hoje é feito por canoas e balsas.

A ponte está pronta, mas falta a desapropriação de área de 400 metros para permitir a chegada ao quilombo. Fizeram a ponte, mas se esqueceram do terreno que dá acesso a ela.

Oito anos de Lula no poder não foram suficientes para que o Estado tornasse usável uma ponte de 128 metros. Ou seja, o "socialismo" de Ivaporunduva foi apresentado à eficiência da máquina pública, numa alquimia perfeita que ligará o quilombo utópico à tonga da mironga do kabuletê estatal.

O Brasil pode mais” é mote de campanha de Serra a presidente:: Jose Roberto de Toledo

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

José Serra (PSDB) se despediu do governo de São Paulo nesta quarta com um discurso no Palácio dos Bandeirantes. A frase final, tudo indica, é o mote de sua campanha presidencial: “Vamos juntos. O Brasil pode mais”. Há uma semelhança notável com o “Yes, we can” de Barack Obama, em 2008, nos EUA.

Foi, antes de mais nada, um discurso de balanço. Como era esperado, “São Paulo” foi uma das expressões mais citadas (46 vezes), na maioria das vezes no final das frases, e associada a “governo” (49 citações) e a “estado” (30). Em comparação a “Brasil” (17), “São Paulo” recebeu praticamente três vezes mais menções. O que mostra que Serra, nesse discurso, estava mais preocupado com o que acabara de fazer como governador do que com o que virá a fazer como candidato.

A “política” não ficou fora do discurso. Explicitamente, citou a palavra apenas 3 vezes, e negativamente, como em “política do ódio”. Mas, implicitamente, a política esteve presente na maioria das vezes que Serra usou a expressão “pública(o)” (26 vezes), como em “vida pública”. E foi aí que ele encaixou uma “indireta” para o presidente Lula ao dizer que “nós governamos para o povo e não para partidos”.

Além do institucional, o discurso de Serra teve uma parte pessoal. A palavra “vida”, seja no sentido de “minha vida”, de “vida pública” ou de “ao longo da vida” foi citada 36 vezes. Em muitos casos, Serra associou-a a “pessoas” (”vida das pessoas”), outra campeã de citações (23 vezes) e mais um sinal da preocupação do tucano de “humanizar” seu discurso.

O discurso foi construído para que o final apontasse para o futuro e, obviamente, para suas pretensões presidenciais, sem, contudo, explicitar isso. Serra não mencionou as palavras “eleição” nem “candidato”. Mas terminou com uma expressão que tem todo o jeito de ser seu mote de campanha:

“Até 1932, nosso Estado, em seu brasão, ostentava aquela frase em latim “não sou conduzido, conduz”. Esse era o lema de São Paulo, até a Revolução Constitucionalista de 32. Mas, desde então, a divisa mudou. A divisa passou a ser: “Pelo Brasil, façam se as grandes coisas”. É o papel, é o destino de São Paulo, construído por brasileiros de todas as partes do Brasil. E esta é também a nossa missão. Vamos juntos, o Brasil pode mais!”

“O Brasil pode mais” tenta resolver um conflito de interesses. Muitos eleitores de Serra, atuais e potenciais, avaliam bem o governo Lula. Portanto, o tucano não pode partir para o confronto direto. A ideia implícita no mote é de mudança, mas uma mudança que em vez de abandonar o passado pretende somar novas conquistas ao que já foi feito. É uma fórmula engenhosa, mas não original.

Outras campanhas já usaram fórmulas semelhantes. A de Barack Obama, em 2008, propunha “mudança” de modo também implícito com o seu “yes, we can” (sim, nós podemos). Na de Serra, em vez de “podemos”, “o Brasil pode”.

Outra coincidência é com o nome da chapa de oposição na última eleição da diretoria do Santos Futebol Clube, batizada de “O Santos pode mais”. O candidato a presidente a ser batido, Marcelo Teixeira, havia conquistado vários títulos em sua longa gestão. O mote funcionou e a chapa oposicionista venceu. Os marqueteiros de Serra conhecem a história de perto.

Serra sai e condena 'roubalheira'

DEU EM O GLOBO

Ao se despedir para disputar Planalto, tucano tenta marcar diferenças com petistas, sem citá-los

Flávio Freire, Leila Suwwan, Sérgio Roxo e Gilberto Scofield

SÃO PAULO. Com um discurso recheado de críticas veladas ao governo federal, embora sem citar nomes ou se referir diretamente às eleições deste ano, o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), de 68 anos, fez ontem um balanço de sua gestão que, segundo ele, não cultivou escândalos nem roubalheiras. Cercado de todo o secretariado, deputados, senadores, parentes e prefeitos de partidos aliados, Serra — que amanhã deixa o cargo para se candidatar à Presidência da República — afirmou que não adotou em seu governo o “silêncio da cumplicidade”. E repudiou a “espetacularização que alimenta mitologias”, frisando que governos, assim como pessoas, precisam ser honrados.

— Estou convencido de que o governo, assim como as pessoas, tem que ter honra. E assim falo não só porque aqui não se cultiva escândalos, malfeitos, roubalheira, mas também porque nunca incentivamos o silêncio da cumplicidade e da conivência com o malfeito — disse Serra, que, no entanto, não citou os casos de corrupção que marcaram a política nos últimos anos, como o mensalão.

Em cerimônia para 6 mil pessoas no Palácio dos Bandeirantes, Serra repetiu, em seu discurso de despedida, palavras como caráter, ao definir como se deve governar.

— Acho que os governos, como as pessoas, têm que ter caráter. Caráter e índole. E este caráter se expressa na maneira de ser e na maneira de agir. Este é um governo de caráter, que manteve sua coerência, não cedeu à demagogia, a soluções fáceis e erradas para problemas difíceis.

Nem se deixou pautar por particularismos e mesquinharias — disse.

‘Sério, mas não sisudo’

O discurso de Serra não foi ancorado no balanço de suas ações, mas na personificação de seu estilo de governar.

Usando sempre a frase “acho que os governos, como as pessoas”, atribuiu à sua gestão as seguintes características: caráter, índole, honra, personalidade, brio profissional, alma, sensibilidade, solidariedade e compromisso.

— Procuro ser sério, mas não sou sisudo. Quem me conhece sabe disso.

Realista, mas não sou pessimista. Calmo, mas não omisso. Otimista, mas não leviano. Monitor, não centralizador.

Aqui está todo o meu secretariado para dar o testemunho de que não sou centralizador. O pessoal de Brasília sorri ironicamente. Mas o pessoal de São Paulo acredita nisso. Os que convivem comigo acreditam que não sou centralizador. Sei que é difícil passar essa ideia, mas é a verdadeira.

O governador frisou também que é fiel ao seu estilo mais discreto: — Muitos, ao longo da minha vida pública, me aconselharam, digamos assim, a ser mais atirado, a buscar mais holofotes, a ser notícia. Dizem alguns que o estilo é o homem. E o meu estilo, se me permite, é este.

Serra envia hoje à Assembleia de São Paulo sua carta de renúncia e fica no cargo até amanhã. Alberto Goldman, o vice, assume o governo oficialmente na próxima terça-feira. No dia 10, em Brasília, Serra lançará sua candidatura à Presidência da República num grande evento partidário. Ontem, Serra não poupou ataques e estocadas nos adversários, sem citar nomes.

Sob aplausos, levantou a voz quando a crítica parecia ter endereço certo: — Repudiamos sempre a espetacularização, a busca da notícia fácil, o protagonismo sem substância que alimenta mitologias. Este governo sabe que não tem nenhuma contradição entre minorar as dificuldades dos que mais sofrem e planejar o futuro.

O tucano também pareceu convocar o eleitorado para o que chamou de “etapa seguinte”, numa clara referência à corrida pela sucessão do presidente Lula, na qual terá como adversária a petista Dilma Rousseff, que ontem deixou a chefia da Casa Civil. Empolgado, subindo a voz, Serra fez um convocação aos convidados: — Vamos juntos. O Brasil pode mais — reforçou ele, aplaudido de pé pelos convidados, aos gritos de “Serra presidente” e “já ganhou”. — A etapa seguinte nos espera. Vou entrar nela com disposição, confiança, fé, serenidade e muito trabalho.

Ao discorrer sobre a política econômica de seu governo, Serra também fez críticas à condução da economia no plano nacional: — Austeridade para nós não é mesquinharia econômica, não. Austeridade é cortar desperdícios, reduzir custos, precisamente para fazer mais com aquilo que se dispõe. Não é para guardar o dinheiro numa burra e deixar longe das necessidades.

Segundo tucanos, a estratégia de Serra será a de demonstrar que reconhece os méritos de seus adversário, mas tem capacidade superior de execução governamental.

— Quando criamos o PSDB, éramos oposição por todos os lados. Mas, de um lado ou de outro, nunca me dei à frivolidade das bravatas. Nunca investi no quando pior, melhor (...) Jamais mobilizei falanges do ódio. Jamais dei meu apoio a uma proposta, uma ação política, porque elas seriam prejudiciais aos meus oponentes. Não sou assim, não ajo assim. Não entendo assim o debate político. E nisso não vou mudar, ainda que venha a ser alvo dessas mesmas falanges. Ao eventual ódio, eu reajo com serenidade de quem tem São Paulo e o Brasil no coração.

Demonstrando estar emocionado, fez questão de destacar algumas de suas iniciativas de governo: o projeto de habitação para idosos abandonados e as plataformas instaladas nas praias para que cadeirantes possam chegar ao mar. Também lembrou ter inaugurado hospitais e ambulatórios.

Disse que duplicou vagas nas escolas e faculdades técnicas, com investimentos de R$ 64 bilhões.

Discurso de despedida já embute programa de governo do tucano

DEU EM O GLOBO

Serra prega Estado austero, planejador e sem aparelhamento político

Gilberto Scofield Jr.

SÃO PAULO. Ainda que o governador José Serra se recuse a comentar sobre seu programa de governo ou ainda ache precipitado destrinchar as estratégias de sua candidatura à Presidência pelo PSDB, as entrelinhas de seu discurso de despedida, ontem, no Palácio dos Bandeirantes, mostram com clareza como o político José Serra pretende se vender — e a seu governo — ao público brasileiro nos próximos meses de campanha presidencial.

Ou, como disse o próprio governador, “seus valores e princípios”.

De cara, Serra deixa claro que defenderá a bandeira do caráter e da índole, será um obsessivo servidor público e do país e evitará “o silêncio da cumplicidade e da convivência com o mal feito”. Tratase de uma clara oposição ao cenário que circunda o governo petista, acusado, ao longo dos últimos anos, de escândalos diversos, dinheiros na cueca, dossiês mal explicados e mensalões. Apesar de o PSDB de Minas e o aliado DEM também terem tido seus mensalões.

Também em oposição ao discurso petista do Estado forte e de ampla ação social, mesmo às custas de desequilíbrios ocasionais no orçamento —, abraçado com ênfase pela ministra-candidata Dilma Rousseff — Serra prega o Estado responsável, austero, planejador e respeitador do direito de propriedade. E, de olho numa das maiores bandeiras da administração petista — o combate à desigualdade —, acena com um Estado com “sensibilidade para agir e compensar as desigualdades”.

— O nosso governo é um governo popular, que se orgulha de ampliar o bem-estar e as oportunidades dos mais pobres com seus programas sociais... Qual a essência do governo? É garantir a vida. É garantir os bens. Garantir a liberdade.

— disse, em determinado momento, para acrescentar logo depois: — Eu quero dizer que acredito piamente no planejamento. Nós organizamos as finanças do estado.

Praticamos uma rigorosa austeridade fiscal... Austeridade, para nós, não é mesquinharia econômica não, austeridade é cortar desperdícios, reduzir custos precisamente para se fazer mais com aquilo que se dispõe.

Para tanto, deixa claro que não aumentou impostos em São Paulo para realizar seu programa de investimentos, um discurso que o acompanha há anos e certamente fará parte de seu perfil de governo, que inclui a redução da carga tributária sobre os contribuintes.

— O que ele (o secretário de Fazenda, Mauro Ricardo) fez foi combater a sonegação, não aumentar imposto. Pelo contrário, diminuímos a carga tributária — afirmou.

Numa estocada no aparelhamento da máquina estatal por políticos e amigos, Serra, ao menos no discurso, promete separar o que é aliança política do que é máquina administrativa, outro ponto de críticas fortes ao PT.

— Aqui, a nossa relação com o Legislativo é transparente, em favor da população.

No lugar de nomeações e cabides de emprego, a corresponsabilidade pelo investimento em todas as cidades do estado.

No nosso governo, deputados não nomeiam, nem nomearam, diretores de empresa ou secretários.

Sobre educação — um dos maiores conflitos do governo de São Paulo, acuado por barulhentos sindicatos liderados pela oposição — Serra afirma que a avaliação do desempenho dos alunos em sala de aula continuará, o que provavelmente dará mais status aos programas de avaliação do ensino básico, médio e superior feitos pelo governo federal.

No balanço de seus 39 meses à frente do governo de São Paulo, o futuro candidato revelou seu marqueteiro-mor: o obsessivo José Serra.

Fala de tucano e 'cheiro de campanha' animam aliados

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

O que mais agradou foi o fato de Serra reafirmar valores e pontuar diferença em relação ao PT sem citar adversários

Christiane Samarco, Julia Duailibi, Silvia Amorim

O aplauso farto dos líderes do PSDB e de aliados do DEM e do PPS na despedida do governador José Serra traduziram bem a satisfação geral com o discurso em que ele assumiu que é pré-candidato a presidente sem mencionar uma só vez a palavra candidatura.

"É uma largada forte na corrida presidencial, em que ele deixa claro dois valores que vão reger a campanha: gerência e decência", elogiou o líder do DEM na Câmara, Paulo Bornhausen (SC), dizendo-se feliz por conta do "cheiro de campanha" no ar. "Serra disse tudo o que precisava ser dito, com sutileza e educação", emendou o presidente do PPS, Roberto Freire.

Sorridente, Tasso Jereissati (PSDB-CE) parecia distante do senador angustiado que semanas atrás era um dos maiores críticos da demora de Serra em assumir a pré-candidatura. Bornhausen avaliou que já há um reconhecimento de que Serra está no "timing certo". "Se ele saísse atrás da procissão do Lula, seria mais um. Ele demorou e fez diferente, mas saiu melhor", observou.

Valores. O que mais agradou aos políticos foi o fato de Serra ter reafirmado valores e pontuado a diferença em relação ao PT e ao governo atual sem citar os adversários. Para o presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra, ele fez um discurso "raro, especial e com notável equilíbrio".

O presidente do DEM, deputado Rodrigo Maia (RJ), elogiou a "animação" de Serra: "O importante é que ele começou empolgado e confiante." Nos cumprimentos, Serra era só sorrisos e gentilezas. O mais efusivo foi dedicado à senadora Katia Abreu (DEM-TO), cotada para vice na chapa tucana, pois saíra do hospital para a cerimônia. Na véspera, Serra telefonara à senadora para saber notícias sobre sua internação por intoxicação alimentar.

Ao analisar a fala do pré-candidato, Guerra disse que o governador mostrou o que fez e como fez, além de ressaltar que não há loteamento de cargos no governo dele e que as prioridades são decididas com a interferência dos parlamentares. "Foi alusão objetiva à relação do Executivo com o Parlamento", afirmou.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso não foi à cerimônia. FHC explicou que havia participado de um almoço, em que discursou, e ainda teria um debate à noite. "Foi um limite físico", afirmou. "Mas liguei para José Serra avisando que não iria e lamentei muito." / Colaborou Flávia Tavares

Aécio deixa governo e não descarta ser vice de Serra

DEU EM O GLOBO

"Vou receber o que o destino me reservar", diz tucano

Marcelo Portela

BELO HORIZONTE. O tucano Aécio Neves (PSDB) deixou ontem o governo de Minas dando a entender que seu futuro político não está definido. Depois de já ter dito uma série de vezes que descarta a hipótese de ser candidato a vice numa chapa encabeçada pelo também tucano José Serra e dizer que pretende ser candidato ao Senado, Aécio ontem ressaltou em discurso que o “destino” é que decidirá o que fará.

— Com emoção me despeço como governador para voltar ao meio de todos como cidadão e conterrâneo para os acompanhar e receber o que o destino me reservar — declarou, com voz embargada, ao transferir o cargo para seu vice e agora governador do estado, Antônio Augusto Anastasia, que disputará a reeleição em outubro.

Da sacada do Palácio da Liberdade, Aécio evitou ataques diretos, mas se queixou das guerras entre rivais políticos e tentou destacar o perfil de “aglutinador” que levou parte do PSDB a defender sua candidatura à Presidência ou pelo menos sua participação na chapa.

— Devemos aos brasileiros um cenário mais generoso da ação política. A grandeza do país que somos convoca-nos à superação da lógica do enfrentamento pelo entendimento.

Queremos superar a lógica do poder meramente pelo uso do poder. A política não pode ser a casa mesquinha que transforma o adversário em inimigo.

Não pode ser a casa da intransigência, da autossuficiência e da arrogância. É essa a política que faço — disse. E continuou: — Agradeço o reconhecimento dos adversários à forma republicana com que conduzi o estado durante esses sete anos e três meses. Busquei no diálogo, nas parcerias, o caminho da construção das convergências que nos permitiram avançar tanto em tão pouco tempo.

Anastasia dá 10% de aumento para servidores A transmissão do cargo a Anastasia ocorreu com pompa, em meio a cerca de cinco mil convidados. Políticos, empresários, industriais e celebridades como Zico, as atrizes Maitê Proença e Cristiane Torloni, o cartunista Ziraldo, o apresentador Luciano Huck e os músicos Renato Teixeira e Alceu Valença lotaram os jardins do Palácio da Liberdade para a cerimônia.

Uma multidão acompanhava por telões o evento, que atrasou por causa do temporal.

O primeiro ato oficial de Anastasia depois de assumir o cargo de governador de Minas, ontem, foi sancionar reajuste de 10% para servidores públicos estaduais. O aumento, encaminhado à Assembleia em caráter de urgência por Aécio, foi aprovado na terça-feira e representa acréscimo de R$ 1,1 bilhão por ano na folha de pagamento.

Serão atingidos 900 mil servidores ativos, inativos e comissionados de todas as áreas. Funcionários da Secretaria de Estado da Defesa Social, responsável por toda a área de segurança, terão reajuste de 15%.

Para FHC, tucano precisa ser mais emotivo e petista, racional

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Ontem, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou esperar que "Serra tenha um pouco mais de candomblé e Dilma, um pouco mais de Descartes", ao fazer uma digressão sobre os perfis dos dois pré-candidatos e a inexistência de uma dicotomia entre esquerda e direita.

A afirmação foi feita após o evento de lançamento de seu livro "Relembrando o que Escrevi: da Reconquista da Democracia aos Desafios Globais".

Serra e Dilma, em "rebolation" :: Vinicius Torres Freire

FOLHA DE S. PAULO

Os dois principais candidatos a presidente saem dos cargos procurando acertar os passos do ritmo da marquetagem

OS COMENTARISTAS de futebol costumam dizer que "o time é ótimo, mas por enquanto só no papel" com o propósito de observar que uma equipe tem bons nomes, mas não tem entrosamento ou variações táticas. No papel, as candidaturas de José Serra e de Dilma Rousseff parecem bastante boas. Ou melhor, trata-se de bons nomes.

Se comparados às figuras da geração que pode sucedê-los na política brasileira, Serra e Dilma parecem excelentes, ainda mais se consideradas as personalidades intelectual e politicamente vazias, medíocres ou mesmo chucras dos quarentões e cinquentões que ora estão na fila.

Mas candidaturas não se fazem de nomes apenas. É o que temos, por ora. Ontem foi o dia em que Serra e Dilma se despediram de seus cargos.

Na prática, tratava-se de um dia de lançamento semioficial de suas campanhas à Presidência. O que se viu e ouviu, porém, foi a conversa diversionista de personagens à procura de maquiagem marqueteira. Dilma deu mais uns passos na tentativa de aprender a arte do "rebolation" emotivo-popularesco de Lula.

Fez cara de choro, falou de criancinhas pobres etc. Tudo a fim de desconstruir em público a própria personalidade de política determinada e opinionada, ou autoritária, como dizem inimigos, muitos machistas.

Serra mais uma vez procurou anular sua identidade de político e intelectual incisivos a fim de vender aquilo que, parece, será uma das mensagens centrais de sua campanha. Ou seja, a neutra ideia de que o tucano é governante "testado e aprovado", administrador experiente, "que faz", com a qual vai se contrapor à novata ungida por Lula. Como tem feito, Serra esteriliza seu discurso até matar o último micróbio de teor político e programático.

Pouco sabemos dos grupos de assessores políticos e intelectuais dos candidatos. Seus partidos não têm plataformas. O PT aprovou diretrizes das quais Dilma parece querer distância. A do PSDB inexiste desde que seu grupo intelectual dominante foi ganhar a vida na finança.

Dilma pode ao menos dizer que é a candidata do continuísmo, embora o centro da sua propaganda até agora seja a crítica de um governo findo em 2002. Serra teme dizer que vai "descontinuar" o governo Lula, para recorrer ao eufemismo anglófilo tolo da linguagem de relações públicas. Serra não ousa nem mesmo dizer seu nome, ou seja, repetir o que sempre pensou sobre políticas públicas, em especial econômicas.

O governo Lula quase inteiro foi de paralisia nos aperfeiçoamentos institucionais. O que farão os candidatos a respeito? E de Banco Central, câmbio, educação tétrica, carência de cientistas? Da devastação ambiental somada à inércia burocrática devida a ambientalistas? O que farão de impostos sobre exportações e trabalho? Qual é o limite para o aumento do gasto público, resposta que implica decisões sobre INSS, vinculações orçamentárias ou funcionalismo, e que tem reflexos sobre o crescente deficit externo?Não se trata de esperar o papelucho anódino que mais tarde será lançado com o nome de "programa".

Ninguém pode se candidatar a presidente sem ter ideias fundamentais sobre temas assim.

Mas, até agora, vemos apenas os passos marcados e tolos da "rebolation" marqueteira.

Cláusula pétrea:: Sérgio Guerra

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

A diferença entre Chávez e o PT está só no uso da força policial. A outra violência, de interferir no que a população deve "pensar", é a mesma

É vermelho o sinal de alerta contra as tentativas de estabelecer a ditadura do pensamento único e do controle dos meios de comunicação no Brasil e na América Latina. A escalada já contaminou Argentina, Equador, Bolívia e Venezuela, onde Hugo Chávez retirou do ar canais a cabo, por recusarem-se a transmitir seus intermináveis monólogos.

Aqui, os petistas disfarçam, mas vão continuar tentando estabelecer alguma coisa que lhes permita interferir na liberdade de imprensa, de pensamento e de opinião. Os petistas fazem vista grossa ao que acontece com os latino-americanos, alegando que são problemas internos daqueles países.

Assessor de relações internacionais do Planalto, Marco Aurélio Garcia chegou a dizer que havia liberdade de imprensa "demais" na Venezuela. Não é coincidência que Chávez, para retribuir, já anunciou que sua preferência nas eleições brasileiras seria a candidatura oficial.

A mais recente e vergonhosa omissão aconteceu em relação a Cuba, onde o governo brasileiro sorriu, abraçou e se deixou fotografar com os irmãos Castro. Enquanto isso, o povo cubano enterrava, cercado pela polícia, Orlando Tamayo, um pedreiro pacifista de 42 anos que os castristas deixaram morrer de inanição depois de 85 dias de greve de fome. Tamayo estava confinado há mais de 30 anos por crime de opinião.

Quantos mais precisarão morrer para se libertar? É a pergunta que o mundo se faz e os dirigentes do PT fingem não ouvir.

Em Cuba, cometem crime de opinião todos os que não se contentam em ler o "Granma", órgão oficial do Partido Comunista. Inspirado no "Pravda", é o único jornal autorizado a circular na ilha. Note-se que o seu inspirador russo foi criado por Trótski, em 1908, justamente para furar a censura imposta aos intelectuais que lutavam contra os czares.

Para o PSDB não é hora de tergiversar. É o momento, sim, de todos os que acreditam e têm a liberdade de pensamento como convicção defenderem a imprensa livre. Com autonomia para apurar, investigar e publicar, respeitados os limites da lei. Assim como o direito de resposta.

O arbítrio ou qualquer dos seus eufemismos têm que ser rechaçados com firmeza. Democracia se faz com liberdade e respeito ao direito de opinião e manifestação. Essa é a garantia de que, ao final, a verdade aparece.

Apesar do repúdio generalizado, o governo petista não cessa as tentativas, iniciadas em 2004 com o Conselho Federal de Jornalismo, autarquia pensada para dar emprego aos "companheiros", censurar e punir jornalistas e empresas de comunicação. No ano seguinte os petistas inventaram a Agência Nacional de Cinema e Audiovisual, outra clara forma de controle da produção intelectual.

Pararam? Não, continuaram na Conferência Nacional de Comunicação, onde as mentalidades chavistas propuseram o "controle social" dos meios de comunicação. E como são a mobilizações que agradam e dão ocupação aos "companheiros", a luta continua nas próximas conferências nacionais, para as quais não faltam propostas de interferência e controle.

A diferença entre Chávez e o PT está apenas no uso da força policial. A outra violência, de interferir no que a população deve "pensar", é a mesma.

Aqui, os petistas acham-se no dever de manter toda a sociedade sob seu controle. Acreditam-se mais capazes e inteligentes, esquecendo-se de que leitores, ouvintes e telespectadores simplesmente podem ler outro jornal ou site, mudar a estação de rádio ou TV. E de voto.

Para dissimular concepções autoritárias, quando não podem fugir ou se esconder, os petistas tentam confundir. Foi o que tentaram fazer recentemente ao lançar o 3º Programa Nacional de Direitos Humanos, em dezembro passado, e compará-lo aos dois anteriores feitos quando o PSDB ocupava a Presidência da República.

Não colou. A diferença fundamental entre o atual programa e os anteriores é simples: está na origem. É isso que gera credibilidade ou não.

Quando apresentou suas propostas, em 1996 e 2002, o PSDB trabalhou para desenvolver projetos representativos de todos os segmentos sociais, democraticamente. Sem revanchismos, perseguições, sem volta ao passado.

Se o PT não é confiável, o PSDB é.

Para o nosso partido, a liberdade de imprensa, a de opinião e a de manifestação são cláusulas pétreas da democracia. É assunto que não está em discussão. Ao contrário do que faz o PT.

Essa discussão de métodos, filosofias e práticas não estará fora das eleições de 2010. Dizer a verdade, apontar erros e manipulações, pensar livremente e sem tutelas são direitos, mas também deveres, inerentes à cidadania. E princípios básicos da democracia.

Sérgio Guerra, 62, economista, é senador da República pelo PSDB-PE e presidente nacional do PSDB.

Na dúvida:: Míriam Leitão

DEU EM O GLOBO

Um presidente do Banco Central que se debate o dia inteiro na dúvida sobre se fica ou sai assusta um pouco. Foi por isso que, em um dos telefonemas da coluna para um economista, a resposta foi: “Não sei nem quem será o presidente do BC amanhã, como vou saber da taxa de juros futura?” Uma coisa estava certa ontem desde cedo: o Copom aceitará que a inflação fique acima da meta este ano.

O dia amanheceu sob várias expectativas: mudanças na diretoria do Banco Central, permanência ou não de Henrique Meirelles, e o que diria um Relatório de Inflação depois de tanta controvérsia sobre a última Ata, na qual o Copom explicou o oposto do que fez.

A maioria das dúvidas se resolveu logo pela manhã, uma ficou pendente. No final do dia, depois do suspense, da ida inesperada para falar com o presidente Lula, das frases enigmáticas, Meirelles avisou que de amanhã (hoje) não passa. A rigor, ele tem até o dia 3, sábado de Aleluia, para se desincompatibilizar e poder concorrer às eleições.

Saiu o diretor Mário Mesquita, como dito aqui ontem, e assumiu o diretor Carlos Hamilton Vasconcellos de Araújo, que na sua estreia defendeu os mesmos pontos de vista, e disse que o Banco Central está comprometido em defender a meta de inflação. Só que ele falou em convergência para o centro da meta a médio prazo.

O Relatório deixou claro que o Banco Central não vai brigar para manter a inflação no centro da meta este ano.

Trata 2010 como um ano de transição entre a crise do ano passado e o ano de 2011, no qual, pelas expectativas do mercado, a inflação vai convergir para a meta.

O BC disse também, em linguagem cifrada, que há um cronograma de elevação de taxas de juros; que a divergência na última reunião foi entre manter o cronograma original de elevação dos juros começando em abril, ou antecipar para março. Mas o desafio do Banco Central não é nada trivial. Ele está avisando que vai iniciar um período de aperto monetário. Ou seja, várias reuniões com aumentos de 0,5 ponto percentual.

O mercado calcula ao todo 2,5 pontos de elevação.

Essas altas de 45 em 45 dias ocorrerão num ano eleitoral, em que o principal candidato de oposição, que está na frente das pesquisas, é adversário declarado dos juros altos. Em que a candidata do governo nem sequer capta o sentido de metas de inflação. E todo o esforço e a briga serão para manter a inflação na meta no ano que vem, no outro governo. Até hoje, por sete anos e três meses, Henrique Meirelles conseguiu convencer o presidente Lula a deixar o Banco Central conduzir de forma autônoma as decisões do Copom. Este ano, a tarefa é mais difícil.

Até porque não há no governo Lula quem saiba a diferença entre uma inflação de 4,5%, 5% ou 6%. A leniência em relação à inflação pode já estar contratada independentemente de quem seja o presidente do Banco Central. A pressão do crescimento está sendo alimentada por um fenômeno incentivado por bancos públicos e pelo próprio BC: a expansão do crédito (vejam no gráfico).

A projeção para a inflação no centro da meta no ano que vem se baseia na expectativa de que tudo permanecerá constante, de que o Banco Central continuará autônomo para tomar suas decisões e fazer o que for necessário para preservar o regime de metas de inflação.

A dúvida é: o governo quer pagar o preço desse desgaste interno e externo, ou serão dominantes as vozes para que se aceite um pouco mais de inflação? No Banco Central há uma corrente que diz que o fato de a maioria absoluta dos diretores, e dos votos do Copom, serem de funcionários de carreira significa que haverá mais empenho em resistir às pressões políticas.

Porque, afinal, governos passam, e a instituição fica. Mas nem tudo depende desse empenho.

O Banco Central do Brasil tem tido autonomia de fato, não de direito.

Para Meirelles, o dilema é mesmo duro. Ele sonhava em sair do Banco Central para uma candidatura que não deixasse dúvidas de ser irrecusável: o velho sonho de governar Goiás, ou, ainda melhor, a Vice-Presidência.

Com as duas possibilidades fora do baralho, por que sair e deixar o Banco Central vulnerável às pressões políticas na última e decisiva batalha? A nova diretoria do Banco Central tem excelentes quadros e hoje, 45 anos depois de criado, o BC é uma instituição sólida, com um número suficiente de doutores em economia. Recebeu ontem o reforço do discreto, mas eficiente, Luiz Awazu Pereira, que foi escolhido para a diretoria da área internacional.

Luiz Pereira é funcionário do Banco Mundial, tem uma carreira internacional sólida, já trabalhou no Ministério da Fazenda no período Antonio Palocci. Não é por falta de qualidade das pessoas que surgem as dúvidas, é porque o Banco Central, no final das contas, não é independente.

Ficou para 1º de abril::Celso Ming

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Quando apresentou o novo presidente do Banco Central, em dezembro de 2002, o então eleito presidente Lula o chamou de "companheiro Henrique Meirelles".

Como ensinam os filólogos, companheiro é aquele com quem se reparte o pão. Se o pão repartido até agora não foi fácil de mastigar, o que será repartido daqui para a frente tende a ser bem mais complicado de comer.

Ao contrário do que se dizia, Meirelles não aspira nem ao cargo de senador nem ao de governador de Goiás. Ele quer mesmo ser candidato a vice-presidente na chapa de Dilma Rousseff. Durante um bom tempo, o presidente Lula pareceu dar força para que esse projeto se cumprisse. Seria um jeito de repetir a dobradinha proletariado-burguesia que Lula montou com o empresário José Alencar nas duas últimas vezes em que disputou, com sucesso, a Presidência da República. Mas coisas assim não são determinadas por atos de vontade, nem mesmo por insistência dos interessados. São determinadas pelo jogo político cujos ventos ninguém controla, nem mesmo o presidente Lula.

O anúncio de que poderia se apresentar para o jogo político já tirara de Meirelles alguma credibilidade no exercício de seu ofício, que exige distância dos políticos, que adoram gastar. Em todo o caso, não é coisa difícil de recuperar.

No entanto, se permanecer à frente do Banco Central, decisão adiada para hoje, a situação ficará mais complicada. Meirelles terá de enfrentar a disparada da inflação num ambiente de turbulência em que aumentarão as pressões para uma condução mais eleitoreira da política de juros. Essas pressões tendem a aumentar se as pesquisas de intenção de voto confirmarem baixa disposição do eleitorado de conferir a Dilma Rousseff o mandato de presidente da República.

Se a decisão for ficar, Meirelles bem que gostaria de contar com o reforço de garantias do presidente Lula de que terá plena autonomia para fazer o que terá de ser feito para combater a inflação. É claro que Lula nunca deixará de dizer que lhe dará todo e incondicional apoio. Mas o que significa isso?

Assim como não pode contar com a energia política do presidente para a escolha do seu nome como candidato a vice-presidente, Meirelles também não poderá contar com o apoio de Lula, em fim de mandato, para a neutralização das pressões sobre o Banco Central.

O Relatório de Inflação ontem divulgado mostra que os preços não vêm encontrando obstáculos para a escalada. O déficit orçamentário recorde do governo federal revelado em fevereiro mostra que não há lá muita disposição da administração federal de cortar despesas correntes num ano eleitoral. Por outro lado, não se pode desdenhar da disposição do presidente Lula de manter a inflação sob controle. Mais do que ninguém, ele sabe o quanto a inflação pode corroer a vontade do eleitor de votar nos candidatos do governo. Assim, num quadro de crescimento das despesas públicas e de necessidade de conter a inflação, sobrará quase exclusivamente para o Banco Central o serviço mais pesado.

O dia do Fico ou o dia do não Fico do companheiro Meirelles ficou afinal para 1.º de abril. Tomara que a superstição, ou, digamos, o que sobra de simbolismo popular que cerca a data, não interfira na partilha do pão que chega agora à mesa.

O Relatório corrige a ata

Na página 105, o Relatório de Inflação, divulgado ontem pelo Banco Central, muda a redação e evita as contradições em que caiu a ata do Copom divulgada quinta-feira da semana passada.

A ata havia dito que os membros do Copom tinham chegado a um consenso de que os juros teriam de subir. Mas que cinco dos oito diretores optaram pela espera até abril para conferir se o quadro de alta da inflação se confirmaria ou não. Ou seja, ficou admitido que, em se verificando uma conjuntura mais favorável, os juros poderiam não subir.

O Relatório muda os termos.

Não repete que houve consenso em que os juros teriam de subir. Ao contrário, ficou dito que "alguns membros do Comitê (...) defenderam a elevação na taxa Selic já naquele momento". E que então "a maioria (...) entendeu ser mais prudente manter a programação original".

Ou seja, no mínimo, ficou admitido que houve erro de comunicação.

O QUE PENSA A MÍDIA

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Orquestra Sinfônica Brasileira @ Chevrolet Hall - BH

Morte e vida Severina (Auto de Natal Pernambucano)- parte 9::João Cabral de Melo Neto

O RETIRANTE RESOLVE APRESSAR OS PASSOS PARA CHEGAR LOGO AO RECIFE

— Nunca esperei muita coisa,
digo a Vossas Senhorias.
O que me fez retirar
não foi a grande cobiça;
o que apenas busquei
foi defender minha vida
de tal velhice que chega
antes de se inteirar trinta;
se na serra vivi vinte,
se alcancei lá tal medida,
o que pensei, retirando,
foi estendê-la um pouco ainda.
Mas não senti diferença
entre o Agreste e a Caatinga,
e entre a Caatinga e aqui a Mata
a diferença é a mais mínima.
Está apenas em que a terra
é por aqui mais macia;
está apenas no pavio,
ou melhor, na lamparina:
pois é igual o querosene
que em toda parte ilumina,
e quer nesta terra gorda
quer na serra, de caliça,
a vida arde sempre, com
a mesma chama mortiça.
Agora é que compreendo
porque em paragens tão ricas
o rio não corta em poços
como ele faz na Caatinga:
vivi a fugir dos remansos
a que a paisagem o convida,
com medo de se deter
grande que seja a fadiga.
Sim, o melhor é apressar
o fim desta ladainha,
o fim do rosário de nomes
que a linha do rio enfia;
é chegar logo ao Recife,
derradeira ave-maria
do rosário, derradeira
invocação da ladainha,
Recife, onde o rio some
e esta minha viagem se fina.

Sissel e Jose Carreras