Folha de S. Paulo
Políticas atuais de segurança pública,
orientadas por lógica de guerra contra parte da população e aposta na
letalidade policial como medida de proteção social, atualizam os métodos
empregados pelo regime militar. Autor sustenta que a situação demanda enfrentar
as heranças da ditadura em vez de tratar o
golpe de 1964 como parte da história que não deve ser remoída, como
Lula faz.
Não tenho recordação da ditadura na minha
infância, sensação que causa hoje em mim estranheza. Lembro, vagamente, as
propagandas ufanistas sobre o país que deu certo, o milagre econômico, o
progresso e o desenvolvimento de toda a nação.
Presidente, eu nasci em julho de 1964, três
meses depois do golpe de Estado e da instauração da ditadura no Brasil.
Diferente do senhor, que tinha 19 anos de idade, não lembro, obviamente, o que
aconteceu.
Acho que o senhor se lembra, presidente, de
um programa de TV chamado Amaral Netto, o Repórter, ocasião em que os supostos
êxitos do governo militar eram apresentados e exibidos à exaustão: um Brasil
que deu certo graças aos militares —aliás, fala constante de pessoas que fazem,
hoje em dia, apologia do período ditatorial.
Não era sobre um Brasil
onde pessoas eram torturadas e desapareciam. Não era sobre um Brasil
onde a miséria e a hiperinflação reinavam. Está vendo como é importante falar
de um passado que insiste em ser negado, presidente?
A vida seguiu adiante. Em 1985, se iniciou o
processo de redemocratização do país. Em 5 de outubro de 1988, foi promulgada a
Constituição Federal, a nossa Constituição Cidadã, marco do retorno da
democracia ao país. É o que dizem. Não foi bem isso, contudo, o que aconteceu.