segunda-feira, 24 de outubro de 2022

Fernando Gabeira - O ‘pintou um clima’ de Jair Bolsonaro

O Globo

A frase do presidente é importante porque revela a distância entre sua vida real e o papel que procura encarnar

Gostaria de discutir as mudanças climáticas. No entanto tenho de analisar a frase de Bolsonaro segundo a qual pintou um clima entre ele, sexagenário, e refugiadas venezuelanas de 14/15 anos.

No Brasil, os escândalos se sucedem, há o perigo de perder a sensibilidade ou mesmo perder o rumo, transitando, desordenadamente, entre um e outro.

A frase de Bolsonaro é importante porque revela a distância entre sua vida real e o papel que procura encarnar: defensor da religião, da família e dos valores tradicionais.

Não é a primeira vez que um homem mais velho confessa sua atração por meninas. A literatura tem um exemplo célebre, o romance “Lolita”, de Vladimir Nabokov.

No entanto o personagem do romance, Humbert Humbert, que escandalizou sua época, não é um presidente da República, não se define como um baluarte da família tradicional nem grita “Deus acima de todos” diante da multidão.

Bolsonaro, segundo Alexandre de Moraes, não pode ser incriminado por pedofilia. Tudo bem. Mas pode ser acusado de hipocrisia, porque, embora não tenha realizado um ato, confessou emoções de um pedófilo.

Miguel de Almeida -Os evangélicos contra-atacam com ‘Messias’

O Globo

Na época da ditadura militar, um censor, furibundo com alguns diálogos de uma peça teatral, convocou o autor a dar explicações. Por razões conhecidas, Shakespeare não pôde comparecer.

Nestes tempos michelenescos, o afável arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer, se viu obrigado a explicar por que usa vestes vermelhas. O inquisidor ouviu algo mais ou menos assim:

—É a cor dos cardeais, meu filho.

No Twitter, dom Odilo cravou:

— Conheço bastante a História. Às vezes, parece-me reviver os tempos da ascensão ao poder dos regimes totalitários, especialmente o fascismo. É preciso ter muita calma e discernimento nesta hora!

Dom Leonardo Steiner, arcebispo de Manaus, buscou inspiração em trecho de “Irmãos Karamazov”, de Dostoiévski, para cravar sua incredulidade diante da terra arrasada pelo Bolsolão:

— Quem mente a si mesmo e escuta as próprias mentiras chega ao ponto de já não poder distinguir a verdade dentro de si mesmo.

É possível que algum eleitor de Damares ou um pastor que prega nos cultos contra os homossexuais venha a chamar os Karamazov de comunistas, mas, vá lá, é da vida: o chefe deles já disse que -5% + 4% são 9% positivos. Perdoai-o, mas com Oscar Wilde na cabeça:

—Os loucos às vezes se curam; os imbecis, nunca.

Míriam Leitão - A granada explodiu no colo de Bolsonaro

O Globo

O Exército teria que ter revogado a CAC de Jefferson e a Polícia tomado as armas dele, para começo de conversa

O Exército tem a obrigação, segundo suas próprias normas, que ter cancelado as licenças de "Colecionador, Atirador, e Caçador", de Roberto Jefferson. E não fez isso. Recebi a cópia das normas internas do Exército que diz em, seus artigos 26 e 23, que quem responde a inquérito policial ou processo criminal tem o registro do CAC cassado. E as normas se baseiam em decreto de 2019, do próprio governo Bolsonaro. Portanto, o Exército descumpriu suas próprias normas.

Esse caso revela muitos erros do governo Bolsonaro, mas principalmente é um exemplo claro do que é um CAC: uma pessoa que tem arsenal em casa e que não hesita em atirar contra a própria Polícia Federal no cumprimento de uma ordem judicial. Portanto é uma milícia. Roberto Jefferson jogou granadas. Ele tinha treze armas, fuzil com mira a laser, como admitiu na conversa com o negociador que foi prendê-lo, e granadas.

Vamos parar de fingir no Brasil que quem se arma a esse ponto é um colecionador, ou um desportista de tiro, ou um caçador num país que proíbe a caça. Eles se transformaram numa milícia de Bolsonaro.

Malu Gaspar - Roberto Jefferson negociou indulto com aliados de Bolsonaro

O Globo

Depois que o presidente deu o perdão judicial a Silveira, Jefferson enviou emissários ao Palácio do Planalto para tentar conseguir o mesmo benefício

Depois que Jair Bolsonaro concedeu indulto ao deputado Daniel Silveira (PTB-RJ), em abril passado, o ex-deputado Roberto Jefferson tentou por alguns meses conseguir do presidente da República o mesmo perdão judicial.

Segundo relatos de duas fontes, uma ligada ao petebista e uma próxima do presidente, Jefferson enviou emissários para falar com interlocutores de Bolsonaro, incluindo ministros.

Em meio às conversas, seu advogado, Luis Gustavo Cunha, chegou ainda a redigir uma minuta de decreto e mandou para o Palácio do Planalto. O rascunho chegou ao presidente, mas nunca houve resposta.

Jefferson achava que Bolsonaro devia a ele o mesmo benefício que deu Silveira porque considerava que as duas situações eram semelhantes.

Dizia que sua prisão era tão ilegal quanto a do parlamentar, e tinha a ver com atos que ele fizeram em favor do governo.

Bruno Boghossian - Ataque cola marca de violência a plataforma de Bolsonaro

Folha de S. Paulo

Presidente se aproveitou da ação de extremistas e agora faz jogo duplo para conter danos

O esforço de contenção de danos montado após o ataque do ex-deputado Roberto Jefferson a policiais federais dá a dimensão que o episódio representa na campanha de Jair Bolsonaro (PL). O caso cola uma marca de violência a um dos principais itens da plataforma política do presidente.

Pouco depois que o político atirou e lançou granadas contra agentes que preparavam sua prisão, Bolsonaro declarou repúdio à ação armada do ex-parlamentar. Na mesma frase, no entanto, o presidente reclamou da existência de "inquéritos sem nenhum respaldo na Constituição".

Foi o início de uma tentativa desastrada de se desvincular do aliado, mas sem abandonar o ambiente de enfrentamento com o STF (Supremo Tribunal Federal). Bolsonaro tenta se equilibrar nessa corda bamba porque precisa manter a visibilidade do conflito institucional que fabricou, sem absorver muitos danos de uma só vez.

Celso Rocha de Barros - Lula é o Brasil contra a máquina

Folha de S. Paulo

Bolsonaro está usando a máquina pública como nenhum candidato jamais fez

Curiosamente, o currículo de Jair Bolsonaro, que inclui o assassinato de centenas de milhares de brasileiros por asfixia durante a pandemia, a montagem de um orçamento secreto no valor de vários petrolões, diversas tentativas de se tornar ditador para roubar para si e para seus filhos encostados, quatro anos sem aumento real do salário mínimo enquanto o preço da comida disparava, a concessão de mais poder ao centrão do que ele jamais teve, a confissão de que entre ele e meninas de 14 anos já "pintou um clima" e a recente revelação do plano de Paulo Guedes para não aumentar salários nem aposentadorias, não foi suficiente para tornar o atual presidente da República o favorito para ganhar as eleições de 2022.

Para reverter esse quadro, Jair está usando a máquina pública como nenhum candidato até hoje jamais fez. Mudou a Constituição três meses antes da eleição para poder gastar mais dinheiro. Distribuiu bilhões adicionais pelo orçamento paralelo. Antecipou o pagamento de auxílios para antes da eleição (afinal, ele quer cortá-los logo depois). Em apenas três dias, liberou R$ 2 bilhões para empréstimos consignados do Auxílio Brasil, para pobres que não terão como pagá-los; e criou um mecanismo de incentivos para mulheres empreendedoras com prazo de inscrição que acaba pouco depois da eleição.

Marcus André Melo* - O presidente e o orçamento

Folha de S. Paulo

Em tese, quem assumir em 1º de janeiro poderia contingenciar o orçamento, mas a questão é se terá condições políticas de fazer isso

O "orçamento secreto" é produto da metamorfose radical que o governo Bolsonaro sofreu no segundo ano do mandato, e que decorreu de uma dupla ameaça: o espectro do impeachment e da paralisia decisória do governo. A encruzilhada crítica ocorreu entre abril e maio de 2020. É nela que o presidencialismo plebiscitário se transmuda —sem que a transformação se complete— em presidencialismo de coalizão. Nela o STF, então sob ataques, participou do "pacto".

A crônica desta transformação pode ser recuperada pela voz dos protagonistas. Luiz Eduardo Ramos, à frente da Secretaria de Governo, em junho de 2020, revelou o isolamento do governo: "Até abril, eu nunca tinha conseguido reunir todos os líderes de partidos no Palácio do Planalto. Eles se encontravam na casa do Rodrigo Maia, presidente da Câmara. Agora mudou". "O ‘pacto’ funcionou", declarou Toffoli em agosto.

Ana Cristina Rosa - 'Mentiras sinceras' não interessam

Folha de S. Paulo

A pátria onde hoje 33 milhões passam fome faz lembrar a canção Miséria

Do uso da máquina pública à disseminação de fake news, da violência política de gênero passando por reiteradas denúncias de assédio eleitoral, o cotidiano brasileiro parece ter sido sequestrado pelo realismo fantástico de maneira a causar inveja a muito roteirista de ficção (e dos bons) nestas eleições. A sucessão de absurdos é tamanha que está cada dia mais difícil de saber se "a vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida", como disse o escritor irlandês Oscar Wilde, ou se é exatamente o contrário.

Com base num perverso estratagema eleitoreiro de exploração da vulnerabilidade social, a três semanas do segundo turno do pleito os beneficiários do Auxílio Brasil começaram a ser seduzidos com empréstimos consignados —e induzidos a se atolar em dívidas.

Felipe Moura Brasil - O mártir do bolsonarismo

O Estado de S. Paulo

O estímulo ao terrorismo ‘do bem’, agora sabemos, vai até a tentativas de homicídio de policiais

Em 13/8/2021, escrevi que Jair Bolsonaro “encobre o patrimonialismo, o fisiologismo, os acordões e a inépcia da família com o reacionarismo aloprado que resultou na prisão de Roberto Jefferson, o condenado no mensalão do PT promovido a mártir da liberdade bolsonarista de aloprar”.

O ex-deputado do PTB levou a sério seu papel.

“Reagi. Não vou me entregar. Só saio daqui morto”, disse Jefferson ontem, após dar tiros de fuzil e lançar granadas contra a PF, quando agentes chegaram à sua casa para levá-lo à cadeia, por ordem de Alexandre de Moraes.

O ministro do STF revogou a prisão domiciliar “em face do reiterado desrespeito às medidas restritivas” a visitas, orientação de correligionários, entrevistas, notícias falsas e redes sociais. Em vídeo publicado por sua filha e correligionária Cristiane Brasil no dia 21, o ex-deputado xinga Cármen Lúcia de prostituta arrombada, ao comentar a postura da ministra do TSE em decisão que concedeu, por 4 votos a 3, três direitos de resposta ao petista em emissora governista e proibiu o lançamento até dia 31 do filme de uma produtora sobre o caso Adélio.

Denis Lerrer Rosenfield* - Credenciais democráticas

O Estado de S. Paulo

Nem Lula nem Bolsonaro defendem a democracia como um fim em si mesma, mas apenas como um instrumento para a conquista do poder.

Pobre Brasil diante de uma escolha entre duas falsas credenciais democráticas, uma representada por Lula, outra por Bolsonaro. Nem um nem outro defendem a democracia como um fim em si mesma, mas apenas como um instrumento para a conquista do poder, após a qual as instituições da democracia são progressivamente minadas. Diferenças menores consistem em ser esses respectivos discursos mais ou menos explícitos, pois, para seus objetivos serem alcançados, devem ser velados.

Lula, atualmente, apresenta-se como uma espécie de redentor da democracia, em sua luta contra o autoritarismo bolsonarista. Constituiu-se uma dita “frente democrática” para dar guarida a essa narrativa, que se contrapõe à própria história do PT e aos governos petistas, seja com Lula, seja com Dilma. Sob os seus respectivos reinados, a democracia foi constantemente minada. Logo, tornar o “salvador dos pobres” em “salvador da democracia” é um salto ideológico dos mais perigosos. Antes, como agora, paira a ameaça da censura, encoberta pela proposta de regulação da mídia. O tombo pode ser enorme.

Alex Ribeiro - Guedes quebra liturgia nas reuniões do FMI

Valor Econômico

Em defesa do governo, ministro levantou uma dúvida sobre a continuidade do que descreve como momento favorável

O ministro da Economia, Paulo Guedes, quebrou a liturgia durante a reunião de primavera do Fundo Monetário Internacional (FMI), em Washington, adotando um tom político-partidário pouco comum nesses encontros de organismos multilaterais.

Chamou a atenção a linguagem crua usada em palestras com investidores estrangeiros, que estão pouco acostumados com o estilo do ministro. Ele também levantou dúvidas, em entrevistas coletivas e na carta entregue ao Comitê Monetário e Financeiro Internacional (IMFC, na sigla em inglês), sobre a continuidade da política econômica brasileira, dependendo do resultado das eleições presidenciais.

Gustavo Loyola* - Brasil, entre o risco e a oportunidade

Valor Econômico

O desleixo com a situação das contas públicas pode ser fatal para qualquer ambição de reduzir a enorme desigualdade que marca o Brasil

O segundo turno das eleições presidenciais brasileiras coincide com um momento de grandes mudanças no cenário global. Tais mudanças podem se mostrar benignas ou malignas para o Brasil dependendo basicamente das políticas de governo a serem seguidas pelos eleitos no pleito de outubro deste ano.

Na esfera geopolítica, o registro maior é o aumento da tensão entre as duas principais potências econômicas globais e o expansionismo russo no leste da Europa. A disrupção do fornecimento de gás pela Rússia aos países da Europa ocidental e as ameaças crescentes da cada vez mais autoritária China de Xi Jinping a Taiwan tem gerado temores generalizados quanto à excessiva dependência das economias dos países da OCDE em relação à China no que concerne a insumos estratégicos. Como exemplo da disposição das empresas europeias de reduzirem sua dependência da China, vale mencionar artigo divulgado no site do IFO Institute, uma instituição alemã de pesquisa econômica, indicando que cerca de 46% da indústria manufatureira alemã depende de insumos chave provenientes da China, sendo que metade delas pretende diminuir suas compras daquele país, diversificando suas fontes de fornecimento.

Bruno Carazza* - Segundo turno entre a lógica e a matemática

Valor Econômico

Quem terá maior poder de mobilização na reta final?

A foto se tornou um clássico da história política brasileira. Na noite de 26/10/2014, o olhar de perplexidade de políticos, celebridades e empresários diante da TV, entre surpresos e decepcionados, refletia o sentimento de quase metade do eleitorado.

Reunidos num amplo apartamento do tradicional Edifício Parque das Mangabeiras, Belo Horizonte, os convidados acompanhavam a apuração do segundo turno. Os 3.459.964 votos que faltaram para a vitória do irmão da anfitriã, Andrea, frustraram a expectativa da festa.

Era difícil imaginar que tão cedo teríamos uma votação tão apertada como aquela. Oito anos depois, contudo, há grandes chances de o destino do país ser decidido por uma margem ainda menor do que os 3,28 pontos percentuais que separaram Dilma Rousseff (51,64%) e Aécio Neves (48,36%).

Maria Cristina Fernandes - Com ataque a tiros, aliado desfere antifacada

Valor Econômico

Assim como Adelio Bispo ajudou a eleger Bolsonaro, Jefferson pode ajudar a derrotá-lo

Passaram-se cinco horas entre os dois pronunciamentos do presidente Jair Bolsonaro sobre Roberto Jefferson na tarde deste domingo. No primeiro, Bolsonaro, de cabeça baixa, leu uma nota dizendo repudiar tanto a fala de Roberto Jefferson contra a ministra Carmen Lúcia e sua ação armada contra agentes da PF quanto inquéritos “sem nenhum respaldo na Constituição”. Na segunda, ante um teleprompter, o presidente muda de postura. Tenta capitalizar a prisão do aliado e reparar as omissões de sua primeira declaração. Disse que quem atira em policial deve ser tratado como bandido e presta solidariedade aos policiais feridos.

A demora com a qual Bolsonaro mudou sua postura mostra o quanto o episódio desnorteou sua campanha. A guerra entre as alas do bolsonarismo nas redes sociais é apenas um aperitivo. Se a grosseria inominável de Jefferson com Cármen Lúcia já havia sido grave, os tiros de fuzil e as granadas lançadas contra policiais federais que foram cumprir a ordem de sua prisão têm o potencial de se transformarem na antifacada de 2022. Administrado com competência durante um mês, em 2018, o ataque a Bolsonaro foi decisivo para a vantagem colocada pelo presidente sobre Fernando Haddad no primeiro turno, que se mostrou irreversível no segundo.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

É cara a conta do uso da máquina na campanha

Valor Econômico

O Congresso, ao aprovar a chamada PEC das Bondades permitiu que Bolsonaro atropelasse a legislação eleitoral

A ex-presidente Dilma Rousseff (PT) falava a uma plateia de 22 prefeitos paraibanos e beneficiários de programas habitacionais, em março de 2013, quando proferiu uma frase que ficou famosa: “Podemos fazer o diabo quando é hora de eleição, mas, quando se está no exercício do mandato, temos de nos respeitar, pois fomos eleitos pelo voto direto”. Neste ano, o presidente Jair Bolsonaro (PL) deu nova dimensão à declaração.

Naquela ocasião, é preciso recordar, Dilma estava envolvida numa campanha antecipada. Em seu discurso, buscou destacar que seu governo sempre respeitara os políticos de partidos da oposição, a despeito das paixões eleitorais. Em mais um deslize verbal, no entanto, acabou dando munição a adversários.

Mas a ex-presidente não falou nada de diferente do que sempre ocorreu em disputas eleitorais. E, de fato, fez-se o diabo naquele pleito. Os impactos fiscais foram sentidos por vários anos.

Hoje, vive-se uma situação perigosamente semelhante. Foi o que mostrou o Valor Fiscal na semana passada. De acordo com a reportagem, as medidas lançadas pelo governo federal para aumentar despesas sociais em pleno período eleitoral tiveram impacto direto de pelo menos R$ 68 bilhões nos cofres públicos somente neste ano. E com um agravante: a tendência é que as medidas deixem um rombo para as contas públicas em 2023, num momento em que o país precisará rediscutir um novo marco fiscal.

Poesia | Fernando Pessoa - Aproveitar o tempo

 

Música | Seu Jorge - Burguesinha

 

domingo, 23 de outubro de 2022

Míriam Leitão - Por que Bolsonaro foge da economia

O Globo

Bolsonaro foge de debate sério sobre economia repetindo respostas inventadas que decorou. Não saberia explicar a frase de que não há fome no país

O ideal neste tempo final de campanha é que o país consiga se dedicar a temas que realmente importam, como a economia, o emprego, a luta contra a fome, o resgate da educação. Ontem, a coligação de Lula ganhou o direito de resposta concedido pelo plenário do TSE e tem pela frente essa vantagem nestes momentos decisivos. Estamos a uma semana do fim da mais violenta campanha eleitoral da história da democracia. O PT, na visão de muita gente do partido, foi para o campo que Bolsonaro quis, o de discutir falsos problemas e entrar na guerra de ataques sem fim e sem propósito.

— Mordemos a isca. Temos que sair disso. O tema é o emprego, a fome, o desenvolvimento, a educação. Assuntos que sempre foram nossos. Respeitamos as igrejas pentecostais, todas as igrejas, mas o que as pessoas querem saber é como o Brasil conseguirá acabar com a fome. Temos que recolocar a nossa agenda — reclamou um dos líderes políticos do PT incomodado com o espaço dado na campanha para rebater as acusações de banheiro unissex, aborto, fechamento de igrejas e outras mentiras de Bolsonaro.

Dorrit Harazin - Terceiro turno?

O Globo

Chegou nossa vez de garantir que o eleito pelos brasileiros no dia 30 tenha a segurança de ser empossado

Faltando a eternidade de sete dias até o Brasil cravar nas urnas que tipo de nação gostaria de chamar de sua, estamos em pico de ansiedade. Tateando. À falta de qualquer certeza, tornamo-nos sommeliers de pesquisas à procura de apaziguamento em seus muitos microdados. Se ficarmos só no geralzão das declarações de intenção de voto coletadas pelos institutos ao longo da semana, o ex-presidente Lula mantém a liderança. O candidato à reeleição, Jair Bolsonaro, contudo, embicava para um empate técnico dentro da margem de erro estatístico. Placar do agregador de pesquisas divulgado pelo site Jota Info: Lula 47% , Bolsonaro 43%, 4% de indecisos.

É nessa estreiteza que mora o perigo.

Estivesse o Brasil respirando uma democracia a plenos pulmões, a vitória de qualquer candidato por uma diferença de alguns milhões de votos, ou menos, deveria significar contenda encerrada e sacramentada no mesmo dia. Restaria ao perdedor lamber suas feridas cívicas. Só que o clima eleitoral no Brasil de 2022 pode ser chamado de tudo, menos de lisamente democrático ou respeitoso do voto popular.

Merval Pereira - Um país dilacerado

O Globo

Agressividade e mentiras da campanha eleitoral refletem degradação do país

O país não está apenas dividido, mas dilacerado por suas contradições e seus erros históricos como a desigualdade. Uma campanha presidencial dominada por mentiras, meias-verdades, promessas descabidas e inexequíveis, além de uma agressividade acima de todos os limites civilizados, é o reflexo de um país que está à deriva, e assim permanecerá, seja qual for o resultado da eleição do próximo domingo. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE), apesar dos esforços, tem fracassado no controle da campanha

Um candidato promete picanha e cerveja para todos, outro garante que dará aumento acima da inflação para todos, quando não o fez nos quatro anos em que governou. A defesa da democracia, imprescindível diante das ameaças recentes, tem sido feita também através de desmandos e ilegalidades do TSE e do Supremo Tribunal Federal (STF), paradoxo que revela uma situação limite que precisa ser superada pelas instituições democráticas que, definitivamente, não estão funcionando.

Bernardo Mello Franco - O alerta do cardeal

O Globo

Insultado por extremistas, dom Odilo lembra a ascensão de regimes totalitários na Europa: "Conheço bastante a História"

Bibo Nunes é um bolsonarista raiz. Despreza a ciência, dissemina notícias falsas, aposta no discurso de ódio para se promover. O deputado do PL gaúcho topa tudo por uma polêmica. Já foi capaz de interromper uma homenagem a Marielle Franco, vereadora assassinada a tiros, para bater boca com parlamentares de esquerda.

A exemplo do capitão, Bibo vê na atividade política um atalho para se dar bem. Já torrou verba de gabinete para comer churrasco e espalhar outdoors com a própria foto. “Deputado não é para fazer economia. Se é para fazer economia, eu fico dormindo em casa”, justificou, numa entrevista à Zero Hora.

Em outro episódio, ele usou dinheiro público para alugar carros de luxo. “Sempre andei de Mercedes e BMW. Não vou abaixar meu estilo de vida só porque sou deputado”, esnobou.

Há poucos dias, Bibo superou seus próprios padrões de indignidade. Declarou que estudantes da Universidade Federal de Santa Maria mereciam ser queimados vivos. O bolsonarista se irritou com um protesto contra os cortes na educação superior. “É isso o que esses estudantes alienados, filhos de papai, merecem”, vociferou.

Luiz Carlos Azedo - O mundo que Michelle e Damares oferecem às mulheres

Correio Braziliense

Mesmo que não estejam de acordo com o comportamento da nova geração, a maioria não deseja que haja uma regressão aos costumes de sua adolescência, quando a virgindade era um tabu

Depois de algumas tentativas frustradas, consegui comprar na Livraria da Travessa, em Brasília, o livro Os Anos (Fósforo), premiadíssimo, da escritora francesa Annie Ernaux, ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura deste ano. É uma mistura de crônicas do cotidiano e filosofia, numa “autobiografia impessoal” que reconstitui a evolução dos costumes da sociedade francesa, num período de 60 anos, que vai do imediato pós-guerra ao atentado às Torres Gêmeas, em 11 de setembro de 2001.

Talvez a leitura nos ajude a entender um pouco melhor porque a maioria das mulheres não vota no presidente Jair Bolsonaro (PL), embora ele tenha duas cabos eleitorais poderosas — a primeira-dama Michelle Bolsonaro e a recém-eleita senadora pelo Distrito Federal Damares Alves (Republicanos), ambas evangélicas.

Vinicius Torres Freire - O leite sujo e derramado na eleição

Folha de S. Paulo

Compra de votos custa mais do que gasto eleitoreiro; Justiça não se preparou para fakes

Está uma corrida maluca para se fazer a conta de quanto o governo Jair Bolsonaro (PL) gastou a fim de adquirir votos. Está um "barata voa" no TSE, afogado pela torrente de "fake news" e outras imundícies. É leite derramado, eram bolas cantadas.

Além disso, essas contas de gasto eleitoreiro são meio ingênuas e deixam transparecer uma ideia equivocada dos efeitos de políticas de governo. O TSE, por sua vez, quis conter a onda de sujeira com um balde e tomou um caldo, "hecatombado pela vaga da ressaca", para citar Mario Faustino (poeta, 1930-1962).

Bruno Boghossian - Cortando caminho

Folha de S. Paulo

Campanha quebra barreira da economia entre fiéis de baixa renda e investe em temas morais

A campanha de Jair Bolsonaro quebrou uma barreira e conseguiu abrir uma vantagem considerável sobre Lula entre os evangélicos mais pobres. Em meados do primeiro turno, o presidente era o favorito dos fiéis de renda média e alta, mas enfrentava uma disputa parelha na base da pirâmide. Agora, ele supera o petista por 27 pontos entre os eleitores desse grupo religioso que recebem até dois salários mínimos por mês.

Bolsonaro tem 61% das intenções de voto entre os evangélicos de baixa renda, contra 34% de Lula. As variações detectadas pelo Datafolha sugerem que o presidente vem ganhando musculatura nessa faixa, tendo ampliado em nove pontos a diferença sobre o petista na última semana.

Hélio Schwartsman - Como o mundo enriqueceu

Folha de S. Paulo

Dois séculos atrás, 94% dos terráqueos viviam com menos de US$ 2 por dia

Você, leitor, trocaria de lugar com um nobre inglês do ano 1200? É verdade que, se o fizesse, teria vários servos à sua disposição e teria acesso aos benefícios políticos de ser um membro do estamento superior. Mas teria de viver num castelo muito pouco confortável, veria vários de seus filhos morrerem na infância e teria uma grande chance de sucumbir por doenças hoje facilmente tratáveis. A diarreia matou dois reis ingleses; a varíola, outros dois. E o mundo era bem mais pobre também.

Dois séculos atrás, 94% dos terráqueos viviam com menos de US$ 2 por dia (dólares de 2016). Em 2015, menos de 10% da população mundial vivia com menos de US$ 1,90 por dia. Dez por cento de 8 bilhões é muita gente, e US$ 1,90 por dia está longe de ser o resgate de um rei, mas parece inegável que houve progresso.

Janio de Freitas - Os cofres públicos de Bolsonaro

Folha de S. Paulo

Uso do dinheiro público para seduzir eleitorado tipifica crime

É o cúmulo do atraso em uma sociedade que o futuro de um país com 156 milhões de eleitores, ou o futuro da mais influente potência mundial, seja subordinado à difusão de informações falsas. Cá e lá, essa nova arma antidemocracia encontrou adeptos e condições favoráveis como em nenhum outro país. Cá e lá, a direita mais desvairada domina, em número e falta de escrúpulos, o uso proveitoso dessa nova criminalidade que se sobrepõe até ao Estado perplexo e impotente.

Por aqui, não basta. A imoralidade predominante no poder de governo está em nível equivalente às republiquetas e tiranias mais indecentes, do passado e do presente. O uso do dinheiro público por Bolsonaro e Paulo Guedes, para seduzir segmentos do eleitorado, tipifica crime múltiplo. A começar por transgredir a proibição legal de medidas, no período eleitoral, favorecedoras do eleitorado a seduzir.

Muniz Sodré* - Hooligans na basílica

Folha de S. Paulo

Agrupados, são facções de palavrório e vandalismo, como vivandeiras de quartel

Uma imagem-choque do grotesco: bêbado, trajando verde e amarelo, homem de meia-idade com a foto do presidente numa caneca de chope provoca o entorno aos gritos de que aquele ali era "deus, sim". Ao fundo, uma matrona embriagada saltitava.

A cena poderia constar da micareta sob a sacada da embaixada brasileira no funeral da rainha. Só que ocorreu na basílica de Nossa Senhora Aparecida, no feriado nacional da padroeira, em meio às vaias contra a homilia do arcebispo e às agressões a jornalistas. Apesar das cores nacionais, a baderna violenta carrega um nome de origem inglesa: hooliganismo.

Entrevista | Professor Marco Nobre: ‘É preciso reconstruir a direita democrática’

Por Marcelo Godoy / O Estado de S. Paulo

Filósofo, cientista político e professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Marcos Nobre identifica uma singularidade na situação política atual do País: não estamos diante de uma polarização, mas de uma divisão. Ele explica. Polarização é que o existe quando forças opostas disputam o poder aceitando as regras do jogo democrático. A divisão ocorre quando essas regras parecem não mais serem suficientes para resolver as disputas e os conflitos que aparecem na democracia. As sociedades se aproximam então de soluções catastróficas, como a guerra civil, ou rumam para a construção de um novo pacto, que isole o extremismo que procura corroer a democracia para impor sua vontade à outra parte da nação. Nobre, que é presidente do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e autor entre outros do livro Limites da Democracia, pensa que, no Brasil, esse impasse pode ser superado se o novo governo mudar a forma de construção de maioria no Congresso, não mais buscando formar uma supercoalizão, modelo que ele chama de peemedebização, que vigorou no País entre 1994 e 2013. Isso permitiria o surgimento de espaço para uma oposição democrática. “É preciso reconstruir a direita democrática e, sobretudo, que ela consiga a hegemonia do campo da direita.”

Eis aqui a íntegra de sua entrevista ao Estadão:

Eliane Cantanhêde – Divisor de águas

O Estado de S. Paulo

A pergunta de 2022 é: que país, que futuro e que mundo nós queremos?

É tenso, cansativo, às vezes irritante e até aterrorizante, mas é também um desafio fascinante acompanhar de perto as eleições de 2022, num grande momento histórico, um verdadeiro divisor de águas. Não se trata só de eleger o futuro presidente, o PT ou o PL, mas de definir o destino do País pelas próximas décadas, num mundo açoitado por ventos, chuvas e trovoadas.

Vivemos ditadura, Diretas Já, morte de Tancredo, Constituinte, ascensão, queda e retorno de Collor, transição segura de Itamar, estabilidade estruturante de Fernando Henrique, inclusão social e petrolão de Lula, desgoverno Dilma, instabilidade com Temer e concentração de poder e de absurdos de Bolsonaro. Em 2022, é diferente: um confronto de visões de mundo, de civilização.

Rolf Kuntz* - A política das trevas

O Estado de S. Paulo

Dois séculos depois da Independência, brasileiros vivem uma guerra santa incompatível com aCarta outorgada em 1824 por d. Pedro I.

De volta às trevas, o Brasil vai às urnas no meio de uma guerra santa, com a disputa contaminada por um discurso religioso prenhe de ódio e de preconceito. Mais de um século depois de proclamada a República, seguidores do presidente convertem o púlpito em palanque, renegando a noção de Estado laico. A separação entre religião, política e função pública foi muito bem estabelecida, no entanto, já na Constituição de 1891, a primeira do período republicano. Naquela Carta, a laicidade estatal é evidenciada na garantia da liberdade religiosa, na proibição de aliança entre igrejas e governos, no reconhecimento exclusivo do casamento civil, no caráter secular dos cemitérios e numa regra fundamental da educação. “Será leigo o ensino ministrado nos estabelecimentos públicos”, determinou o parágrafo 6.º do artigo 72.

Cacá Diegues - Tomara que não

O Globo

Nunca havia acontecido nada parecido antes no Brasil: a cultura virou um item que só interessa ao mercado

Semana passada, contei aqui uma história, de hábito contada pelo grande cineasta Nelson Pereira dos Santos, uma história que terminava sempre com um desfile de boas notícias sobre eleições que estivéssemos vivendo naquele momento, como estas que vivemos hoje. Nelson faleceu em abril de 2018, para desgraça de nossa cultura e do cinema em geral, deixando entre os que ficaram o exemplo de um enorme cineasta, inigualável intelectual e um crítico bem-humoradíssimo da criação feita entre nós e que valia a pena existir.

Nas histórias (ou estórias) dele havia sempre heróis clássicos, desses que a gente vivia citando, mesmo sem saber exatamente de onde eram, o que haviam dito das mulheres, dos amigos e da vida, em que esquina e para que turma jogavam depois a conversa fora. Ninguém ousava fazer tais perguntas a Nelson, mas era isso o que a gente comentava no meio dos sussurros comprovados.

Cristovam Buarque* - Não assustemos ao mundo

Blog do Noblat / Metrópoles

Um candidato a favor da ditadura, da tortura, praticante da corrupção, da manipulação de mentiras, desprezo aos pobres e doentes

O Brasil assusta ao mundo que não entende as razões para um dos maiores exportadores de alimentos ter uma imensa população de famintos. Agora, assusta com o fato de que uma das democracias com maior número de eleitores chega na véspera das eleições para Presidência da República com um candidato a favor da ditadura, da tortura, praticante da corrupção, da manipulação de mentiras, desprezo aos pobres e doentes, perseguidor de meninas que ele considera prostitutas pelo simples fato de serem imigrantes venezuelanas, e no lugar de tomar medidas para protegê-las, tenta tirar proveito da tragédia.

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Ameaça autocrática

Folha de S. Paulo

Concentrar poder é o verdadeiro programa de governo de Jair Bolsonaro

Nunca foi tão avassaladora a maioria de brasileiros que consideram a democracia a melhor forma de governo, de 79% segundo o Datafolha. Nunca na Nova República um presidente ameaçou a estabilidade constitucional como o atual mandatário.

Jair Bolsonaro (PL) valeu-se do cargo para constranger e ameaçar Poderes independentes, insultar autoridades e propagar uma farsa contra o sistema eleitoral diante de brasileiros e estrangeiros.

Promoveu tratamentos ineficazes de uma doença letal, retardou a aquisição de vacinas, debochou de famílias enlutadas, protegeu os filhos de investigações e atiçou militares contra o poder civil.

Conclamou arruaceiros a cercarem as seções de votação no próximo domingo (30).

A agenda que deveria ser a do futuro —educação, saúde, infraestrutura, inovação, redução da pobreza e das desigualdades— ocupou-se de temas que já deveriam estar superados. A sociedade e as instituições tiveram de gastar energia preciosa para proteger regras básicas da convivência democrática.

Agora, como nos outros oito pleitos presidenciais realizados desde 1989, os votos serão dados livremente, a apuração revelará a vontade majoritária, e o eleito tomará posse e governará com as prerrogativas e as obrigações de chefe de Estado.

Esperar que o próprio candidato à recondução tenha compreendido e acatado os limites do mandato seria pouco realista diante do que se vê desde 2019.

É melhor trabalhar com a hipótese corroborada pela experiência —tornar-se autocrata é o verdadeiro programa de governo de Jair Bolsonaro para um eventual segundo mandato.

Poesia | Bertold Brecht - Se os tubarões fossem homens

 

Música | Caetano Veloso, Gilberto Gil - Desde que o samba é samba