Correio Braziliense
Abstenção não é voto nulo nem voto em branco.
Quem anula ou vota em branco comparece e é contado — apenas não escolhe
ninguém. Quem se abstém nem chega à urna
Trinta e três milhões e meio de brasileiros estavam no colégio eleitoral na eleição de domingo e decidiram não decidir nada. É a maior abstenção de primeiro turno desde o recorde de 1998 (21,49%) e quase o alcança: 21,08% do eleitorado ficou em casa nesta eleição, contra 20,95% em 2022. O índice sobe há cinco eleições seguidas. E, como toda ausência em política, essa também fala — só que mais baixo, e é preciso prestar atenção para ouvir o que ela diz.
Abstenção não é voto nulo nem voto em branco.
Quem anula ou vota em branco comparece e é contado — apenas não escolhe
ninguém. Quem se abstém nem chega à urna. No Brasil, onde o voto é obrigatório
para a maior parte da população, essa ausência tem custo: multa e restrições a
serviços públicos para quem não justifica. Ainda assim, ela persiste, o que
sugere causas maiores que o simples "descumprimento da lei". E,
quando é alta, corrói algo mais sutil que o resultado: a legitimidade de quem
se elege e a representatividade de quem governa. Um mandato construído sobre
fração menor do eleitorado nasce mais frágil, mesmo quando a vitória é, no
papel, impecável.
Os números do domingo passado têm escala. Dos
158,7 milhões de eleitores aptos, 125,2 milhões compareceram; os outros 33,4
milhões ficaram de fora — mais gente que a população inteira do Chile. Com os
votos anulados e em branco para presidente, quase 6 milhões, perto de um em
cada quatro brasileiros, não escolheram candidato algum. O fenômeno tem endereço:
Mato Grosso do Sul (23,9%), Rio de Janeiro (23,3%) e Minas Gerais (22,8%)
lideram a ausência; Ceará (15,5%), Roraima (17,1%) e Piauí (17,2%) foram onde
mais gente votou — o DF ficou perto da média, com 18,9%. E tem idade: cerca de
50% entre eleitores acima de 70 anos, voto facultativo, e por volta de 20%
entre os jovens de 16 e 17. Oito das 10 cidades mais ausentes do país estão em
Minas Gerais, e o recorde é de Rio Vermelho, no Jequitinhonha, onde quatro em
cada 10 não votaram.
Mas a média nacional escondeu o recado mais
importante. No conjunto do país, a abstenção quase não se moveu: foram decimais
de diferença. O que mudou foi o endereço de quem ficou em casa. Nos municípios
em que Lula teve mais de 70% dos votos em 2022, a abstenção caiu — o eleitorado
mais fiel ao presidente foi votar mais, não menos. Já nas periferias de menor
escolaridade das grandes cidades, historicamente o coração eleitoral do PT, o
comparecimento recuou exatamente onde o voto em Lula também recuou. É ali,
entre quem ganha até dois salários mínimos e tem o ensino médio, que mora a
desilusão: eleitorado que, em 2022, foi à urna com esperança e agora não achou
motivo para repetir o gesto. Não é apatia genérica — é um grupo específico que
deixou de se sentir representado.
Isso pesa sobre o que vem a seguir. Uma
aposta da campanha de Lula é buscar de volta quem faltou, mas a conta não fecha
fácil. A estimativa mais confiável indica cerca de 1,1 milhão de eleitores de
Lula a mais em casa do que de Flávio; recuperá-los todos reduziria a diferença
do primeiro turno, hoje de 2,2 milhões, sem eliminá-la. A história também não
ajuda: desde 1989, nas sete eleições que foram a segundo turno, quem terminou
na frente no primeiro venceu no final, apoiado pela maioria do eleitorado dos
candidatos eliminados — agora, esse eleitorado pende para Flávio. O Tribunal
Superior Eleitoral (TSE) prometeu reforçar campanhas pelo comparecimento até o
dia 25, mas atrair de volta quem desistiu de votar é mais fácil de anunciar do
que de fazer.
Fica, então, a pergunta! É abstenção —
fenômeno antigo, crescente, movido por logística, desinteresse e o peso
relativo de uma multa? Ou é desilusão — mais específica, a sensação, em bairros
e cidades determinados, de que o voto de 2022 não trouxe o que prometia? Os números
do primeiro turno apontam para a segunda: concentrada, previsível, e carregando
um recado silencioso que nenhuma urna soma em percentual, mas que todo
candidato que o ignorar vai sentir de novo no resultado.
*Carlos André Machado | Diretor da Opinião — Inteligência Política e pesquisador de opinião

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