O Globo
Ela gosta do brasileiro pobre que imagina,
despreza o que existe
A única classe social em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva venceu no primeiro turno foi a E. Nacionalmente, recebeu 54,4% dos votos dos brasileiros mais pobres. Mas aquela em que apresentou a menor distância para Flávio foi a classe A: 40,1% ante 48,7% do senador. Em nenhuma região a distância entre os dois, na classe A, foi tão estreita quanto no Sudeste. O filho de Bolsonaro ganhou, mas por 4 pontos percentuais. Na cidade do Rio, Lula venceu na classe A por 46% a 44%. Em São Paulo, foi Flávio quem levou vantagem — 44% a 42%. Lula ganhou entre os 27% mais pobres e foi extremamente competitivo entre os 3% mais ricos. Perdeu no resto.
A conta é feita da seguinte forma: cruze os
resultados de cada seção eleitoral do país com os dados da PNAD Contínua, do IBGE.
Estime a faixa de renda média de cada urna. Distribua os votos. Flávio
construiu a maior vantagem na classe C, exatamente a faixa média de renda
brasileira: 53,5% a 37,2%.
A esquerda brasileira acredita que tem um
problema na elite. Não, não tem. A Zona Sul do Rio vestiu vermelho com vontade;
Higienópolis e Pinheiros, também. O problema de voto que o PT encontrou, nas
eleições de 2026, é com o brasileiro médio. É com as periferias urbanas. A
elite de esquerda diz estar preocupada com o povo e acredita, talvez com
sinceridade, votar em seu nome, abstendo-se dos interesses pessoais. Se percebe
altruísta. É só alienada.
Nas redes, passou os últimos quatro anos
reclamando de “pobre de direita”, “evangélico manipulado”. Ou, sem disfarçar o
sarcasmo, “CEO de MEI”. Gosta do brasileiro pobre que imagina, despreza o que
existe. Para aumentar seus gastos, o governo impôs uma taxa a importados
chineses, que compõem a renda e os sinais de status da classe C. Tratou de
extrair o que pôde de imposto das bets, que torturam principalmente a classe C.
Tentou impor CLT a quem deseja distância do modelo. A militância de esquerda,
como o governo Lula, talvez não saiba, mas tratou os brasileiros na batalha
urbana diária com arrogância, desprezo e boa dose de paternalismo. Aí a classe
C, em peso, votou contra o governo. Não há surpresa.
A classe média baixa das periferias é uma
novidade entre nós. Não tem medo de horas de trabalho, não quer patrão, aspira
a crescer na vida. E é protestante. Nunca tivemos um povo com essa
característica. São um terço de nós. São a cara do Brasil que a Nova República
criou. E podem não ter o vocabulário para explicar, mas seu problema é que o
Estado brasileiro não está organizado de forma a permitir que suas aspirações
encontrem vazão.
Nosso modelo de Estado gosta de empresas
muito grandes com muitos funcionários. Impomos um modelo tarifário complexo,
uma carga de direitos trabalhistas alta e muita regulamentação. É preciso
pendurar muita plaquinha nalgum canto, muita guia exige dois ou três carimbos
para evitar que um fiscal aplique multa. Numa economia de poucas empresas muito
grandes, funciona. Poucos são os patrões, quase todo mundo é funcionário, da
classe A à D. A escala dos negócios permite absorver os altos custos de lidar
com as complexidades legais.
A classe C aspira a um país de incontáveis
empresas pequenas. Muitos patrões de poucos funcionários. O modelo de Estado
brasileiro simplesmente não permite que algo assim funcione. Quem saca o “CEO
de MEI”, com todo o desprezo que o acarreta, na verdade tem menor capacidade de
imaginação que o eletricista da Zona Leste paulistana ou o motorista de Uber
de uma favela carioca. Essa falta de imaginação é de boa parte da elite, da
Fiesp à CUT. Vem de Getúlio, JK, Geisel, Brizola, Dilma, Ciro Gomes.
Não é só da esquerda. Usam antolhos. Não sabem que modelo é escolha e que
escolha pode mudar.
Caímos no pingue-pongue entre Lula e os
Bolsonaros. Claro. Desde 2018 não houve um só candidato à Presidência capaz de
articular com clareza esse futuro diferente. Afinal, o mundo político sofre da
mesma crise de imaginação. Assim, por mais um ciclo eleitoral, jogamos fora o
imenso potencial de criação que pulsa nas bordas das grandes cidades
brasileiras.
A direita bolsonarista é pura demagogia, uma
boa dose de golpismo, incompetência e corrupção. A esquerda se elitizou,
desconectou-se por completo do povo e virou uma força conservadora. Olha para o
passado sem utopia para vender. Se sustenta com os votos dos brasileiros que
precisam de Bolsa Família para fazer três refeições por dia. No último domingo
de outubro, a gente escolhe entre os dois.

Um comentário:
Excelente !
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