Segundo turno impõe debate maduro de ideias
Por O Globo
Direita deu demonstração de força; agora
Flávio e Lula têm obrigação de trocar ataques estéreis por propostas exequíveis
O eleitor brasileiro ainda não escolheu o presidente da República ontem. Haverá segundo turno no próximo dia 25 entre o senador Flávio Bolsonaro (PL) e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Flávio obteve 47% dos votos, ante 45% de Lula. A abstenção foi de 21%, aproximadamente o mesmo patamar de 2022. Os votos nulos e brancos cresceram em relação à última eleição — 4,7% ante 4,4%. Como em 2018 e 2022, as urnas refletiram o cenário político polarizado, e os demais candidatos não chegaram nem perto de ameaçar a hegemonia das duas maiores forças políticas do país. Mas o recado mais nítido das urnas foi o avanço de candidatos e partidos de direita.
O maior motor desse avanço foi a arrancada
surpreendente de Flávio na reta final da campanha. Ao contrário do que sugeriam
as pesquisas, ele terminou o primeiro turno em primeiro lugar — embora a
tendência de esvaziamento dos demais candidatos de direita em benefício dele já
houvesse sido detectada nas últimas sondagens. Flávio começa a campanha do
segundo turno como favorito, mas nada está definido. Em três semanas, tudo pode
acontecer.
O avanço conservador se deu em todos os
cargos. Dos 20 governadores eleitos ou reeleitos em primeiro turno, quase todos
são de direita ou centro-direita — o PT só venceu no Piauí (Rafael Fonteles),
na Bahia (Jerônimo Rodrigues) e no Ceará (Elmano de Freitas). Entre os
candidatos da direita, o maior destaque foi Tarcísio de Freitas (Republicanos),
reeleito com 63% dos votos no maior colégio eleitoral do país, São Paulo. Além
de Tarcísio, a direita venceu com Sergio Moro (PL-PR), Cleitinho Azevedo
(Republicanos-MG), Arthur Henrique (PL-RR), Daniel Vilela (MDB-GO), Dr. Furlan
(PSD-AP), Eduardo Riedel (PP-MS), Fábio Mitidieri (PSD-SE), Jorginho Mello
(PL-SC), Lucas Ribeiro (PP-PB), Marcos Rogério (PL-RO), Otaviano Pivetta
(Republicanos-MT), Eduardo Braide (PSD-MA), Dr Daniel (Podemos-PA), Luciano
Zucco (PL-RS), Raquel Lyra (PSD-PE), JHC (PSDB-AL) — e chegou em primeiro lugar
no Rio, com Douglas Ruas (PL), onde a realização de segundo turno depende de
decisão judicial.
No Senado e na Câmara, onde os resultados
finais ainda não estavam definidos, já era possível medir o ganho significativo
dos partidos de direita. No Senado eles levaram duas cadeiras em estados-chave,
como São Paulo, Rio e Distrito Federal, ampliando a bancada de 32 para 48
senadores. Na Câmara, as primeiras estimativas falavam em 258 deputados ligados
a partidos da direita, ante 243 na composição atual.
É a eleição presidencial, contudo, que tem
maior poder de mobilização. Agora, Lula e Flávio devem abandonar o debate
estéril e demarcar suas diferenças por meio do confronto de ideias, para que os
eleitores possam fazem suas escolhas de modo racional. Os dois têm deixado a
desejar nessa missão. Eles têm visões diferentes sobre educação, meio ambiente,
política externa e muitos outros temas. É fundamental que deixem de lado as
bravatas e digam desde já que rumos darão à economia ou à segurança. Espera-se
que o próximo governo esteja à altura desses e dos demais desafios, sem
respostas inócuas ou demagógicas.
Mais uma vez a população brasileira deu um
exemplo de maturidade democrática e foi protagonista de uma eleição sem
sobressaltos. O segundo turno dá a todos a oportunidade de refletir melhor
sobre a escolha para torná-la mais sólida e condizente com o desejo popular. É
preciso saber aproveitá-la.
Uso da IA na educação exige regras sensatas
que resistam a avanço veloz
Por O Globo
Nada impede que, desde já, modelos sejam
classificados por faixa etária, como os filmes
A disseminação da inteligência
artificial (IA) tem despertado dúvidas sobre o uso por crianças. Até
que ponto robôs podem ser usados em tarefas escolares ou para facilitar o
aprendizado? A partir de que idade? Em que contextos? A tecnologia tem evoluído
tão rápido que a resposta a qualquer uma dessas perguntas pode caducar em
meses, ou mesmo semanas. Apesar disso, é preciso haver um mínimo de regras
sensatas para orientar pais e educadores. E elas devem ser baseadas em
princípios capazes de resistir à evolução tecnológica.
Primeiro, a tecnologia não deve substituir o
aprendizado. “Toda vez que você não faz e pede para um chatbot fazer, está
perdendo uma oportunidade de aprender a fazer aquilo”, disse ao
GLOBO Paulo Blikstein, titular da cadeira de educação e tecnologia na
Universidade Columbia, em Nova York. “Se você quer ser um bom
jogador de futebol, tem que jogar futebol. Não pode só assistir.” A IA funciona
para responder a algumas perguntas sobre o que ela já viu muitas vezes, mas não
para tratar de algo novo ou diferente. Sem falar no risco de “alucinações”, com
mentiras e informações desencontradas.
O segundo princípio é consequência direta do
primeiro: deve haver restrição ao uso em determinados contextos. É um exagero
evidente — além de impossível de implementar com eficácia — a proibição total
da IA nas escolas, como fez o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani. Mas é
perfeitamente justificável a restrição por faixas etárias ou contextos
educativos, como a proibição em provas ou trabalhos, necessários para os alunos
desenvolverem competências e aprenderem o que está no currículo. Uma
dificuldade intrínseca é que qualquer regra pode se tornar inócua ou caducar
diante do progresso vertiginoso da IA.
Apenas aos 18 anos o cérebro humano está
completamente desenvolvido nas funções de planejamento, resolução de problemas,
gestão do tempo, disciplina e foco. “Interagir com IA conversacional pode ser
muito perigoso para uma criança que não entende bem que aquilo não é humano”,
diz Blikstein. Há risco até de uso indevido de imagem e informações sobre a
criança. “Não é como acessar o YouTube, que pode ser facilmente bloqueado.”
Nada impede, portanto, que desde já seja
criada uma classificação etária para enquadrar os diversos tipos de IA, como no
caso de filmes. Os modelos mais avançados deveriam ser usados apenas por quem
já desenvolveu tais competências, normalmente no ensino médio ou em cursos
universitários. Não deveriam estar ao alcance de crianças para uso pedagógico.
A IA não pode substituir o treinamento mental.
Há no mundo várias experiências de regulação digital. A Unicef, agência da ONU para educação, ciência e cultura, apresentou propostas para proteger os menores no uso de IA. Tudo isso deve ser levado em conta para as autoridades e educadores estabelecerem as melhores regras. Elas devem ser, ao mesmo tempo, capazes de permitir às crianças usar a tecnologia quando aperfeiçoar o aprendizado e de protegê-las dos riscos intrínsecos.
Flávio e a direita mostram força nas urnas
Por Folha de S. Paulo
O campo conservador obteve outras vitórias
importantes, a começar pelos governos de São Paulo e Minas
A despeito do despreparo e das ligações com
milicianos e Vorcaro, bolsonarista obtém mais votos que Lula; PL avança nos
estados e no Congresso
Depois de passar quase toda a campanha em
segundo lugar na grande maioria das pesquisas eleitorais, Flávio
Bolsonaro (PL)
conquistou
47% dos votos válidos no primeiro turno, à frente dos 45% de Luiz
Inácio Lula
da Silva (PT)
e não muito distante da maioria necessária para encerrar a disputa presidencial
neste domingo (4).
Não se pode falar em surpresa. Nos últimos
pleitos, o bolsonarismo mostrou mais força nas urnas do que nas sondagens de
intenções, seja devido a eleitores que não declaravam abertamente suas
preferências, ao voto útil antipetista ou a maiores taxas de abstenção no campo
adversário.
O feito é particularmente notável porque a
candidatura de Flávio mal foi levada a sério quando lançada por seu pai.
Trata-se, afinal, de um político não apenas sem brilho próprio, dependente do
sobrenome, mas também
despreparado e, se não bastasse, com longo histórico de ligações com
personagens das milícias do Rio —e, mais recentemente, com o corruptor Daniel
Vorcaro.
O patriarca da família foi corretamente
condenado por tentativa de golpe de Estado, e o indulto prometido pelo filho
será uma afronta à democracia. Com tais credenciais, Flávio não conseguiu apoio
de nenhum outro partido.
Seu PL, legenda secundária no país até
abrigar o bolsonarismo, ampliou seu poderio nacional. Garantiu já no primeiro
turno os governos dos três estados do Sul, de Roraima e Rondônia; estará no
segundo turno no Rio e no Amazonas. Michelle e Carlos Bolsonaro conquistaram
mandatos no Senado, para o qual a sigla teve votação avassaladora.
A direita obteve outras vitórias importantes,
a começar pelos governos de São Paulo e Minas, os dois maiores colégios
eleitorais, assegurados pelo Republicanos. Nos dois estados, postulantes
conservadores conseguiram 3 das 4 vagas de senador.
O PT de Lula, por ora, se mantém restrito ao
Nordeste, preservando Bahia, Ceará e Piauí. Disputará o segundo turno no
Distrito Federal e no Rio Grande do Norte. Ex-ministras de Lula, Marina Silva
(Rede) e Simone Tebet
(PSB),
foram derrotadas na disputa paulista pelo Senado.
O presidente da República terá uma tarefa
difícil na segunda rodada do pleito —até hoje, nunca o segundo colocado no
primeiro turno conseguiu vencer a eleição presidencial. Os demais postulantes
da corrida ao Planalto reúnem mais votos conservadores, que tendem a migrar
para Flávio.
Cartuchos importantes já foram queimados,
como a ampliação da isenção do Imposto de Renda, o reajuste do Bolsa Família e
a proibição das bets, sem resultados palpáveis. A próxima empreitada será a
votação do fim da escala de trabalho 6x1.
Desde a recessão catastrófica produzida por Dilma
Rousseff (PT) e a ascensão da direita populista, o discurso
econômico e social do partido tem menos apelo —ainda mais quando os juros
resultantes de sua política gastadora sufocam as famílias.
Tarcísio reeleito
Por Folha de S. Paulo
Governador do estado mais poderoso do país
que conquista o 2º mandato é candidato em potencial à Presidência
Tarcísio tentou se equilibrar entre mostras
de moderação e de fidelidade ao bolsonarismo, mas abraçou a causa infame da
anistia ao padrinho
Pela lógica política convencional, um
governador do estado mais populoso e economicamente poderoso do país é
candidato em potencial à Presidência da República —ainda mais um reeleito em
primeiro turno sem sobressaltos, caso de Tarcísio de
Freitas (Republicanos) neste domingo (4).
A situação do carioca que recebeu mais
de 60% dos votos válidos em São Paulo,
contudo, é peculiar. Ele teve a chance de disputar o Palácio do Planalto já
neste ano, cortejado do centro à direita para se lançar como alternativa a Luiz
Inácio Lula da Silva (PT).
Recusou a missão para não desafiar o padrinho político, Jair
Bolsonaro (PL),
que lançou o filho Flávio.
Em seu primeiro mandato, Tarcísio tentou se
equilibrar entre mostras de moderação e de fidelidade ao bolsonarismo. Não se
prestou a pregações golpistas, a questionamento das urnas eletrônicas nem a
ataques a instituições ou à imprensa. Abraçou, porém, a causa infame da anistia
ao ex-presidente condenado por tentar subverter a democracia.
Em seus piores momentos na administração, fez
avançar bandeiras reacionárias
como as escolas cívico-militares —baseadas na ilusão de que a
disciplina fardada adotada em estabelecimentos que selecionam seus alunos
poderá melhorar o aprendizado em larga escala na rede de ensino.
Foi criticado pela truculência da polícia estadual
e pela relutância em apoiar a política de câmeras corporais. Soube ceder:
passou a apoiar as câmeras e mudou a cúpula da Secretaria de Segurança Pública,
o que teve efeito ao menos simbólico.
Sua gestão é bem avaliada pelos paulistas. Segundo
o Datafolha, 47% a
consideram boa ou ótima, ante 21% que a reprovam como ruim ou
péssima. O governador do Republicanos soube preservar uma espécie de
estabilidade conservadora no estado que remonta à longa hegemonia anterior do
PSDB, iniciada em 1995.
Berço do PT, São Paulo nunca elegeu um
governador da legenda, rejeitada sobretudo no interior —e não foi diferente com
Fernando
Haddad, ex-prefeito da capital que disputou novamente o Bandeirantes
para dar um palanque a Lula. Em 2022, chegou ao menos ao segundo turno contra
Tarcísio. Ambos são especulados como presidenciáveis em 2030.
O futuro do vitorioso na eleição estadual parece hoje mais sujeito a variáveis, a começar pelo desempenho de Flávio na eleição presidencial. Mais do que não ter firmado uma marca de governo, Tarcísio ainda não tem uma clara identidade política. Seu segundo mandato tende a ser esclarecedor nesse sentido.
Flávio na frente é recado claro do eleitor
Por O Estado de S. Paulo
Haverá segundo turno, mas a votação de ontem, com Flávio na frente de Lula e com vitórias acachapantes de partidos da oposição, já deixou evidente o crescente repúdio ao lulopetismo
Haverá segundo turno, mas a votação de ontem,
com Flávio na frente de Lula e com vitórias de partidos da oposição, já deixou
evidente o crescente repúdio ao lulopetismo.
Como esperado, haverá segundo turno entre
Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na disputa presidencial,
mas as urnas já deram um recado claríssimo no primeiro turno: com Flávio na
frente de Lula, e com vitórias expressivas de partidos da oposição ao
presidente – sobretudo o PL, partido dos Bolsonaros – na disputa pelo Senado e
pelos governos estaduais, os brasileiros deixaram evidente que estão cada vez
mais cansados do lulopetismo. Já se pode dizer que o eleitorado deseja
mudanças.
O que se espera de Flávio e de Lula, agora, é
que se disponham a debater suas ideias para que o eleitor possa saber qual dos
dois é mais capaz de fazer essas mudanças. A campanha do primeiro turno,
entretanto, não autoriza otimismo.
Ao longo das últimas semanas, o País assistiu
a uma sucessão de ataques, insinuações e acusações recíprocas entre as
campanhas de Lula e Flávio. Quase nada se ouviu sobre o que cada um deles pretende
fazer a partir de janeiro. Ambos apostaram mais no medo de uma eventual vitória
do adversário do que na confiança em suas próprias propostas, como se bastasse
ao vitorioso ser menos detestado do que o derrotado para se qualificar como bom
governante. O resultado é um eleitorado que foi às urnas mais por dever do que
por esperança, e que decerto optou pelo que considerou o mal menor.
Lamentar a indigência do debate, contudo, não
basta. O País é este. E, desde ontem, os candidatos a governálo são Lula e
Flávio Bolsonaro. É com um deles que a sociedade terá de lidar nos próximos
quatro anos. Diante disso, o pior que o eleitor pode fazer por si mesmo e pelo
Brasil é se entregar ao desalento, à indiferença ou à raiva. Sua decisão daqui
a três semanas pesará muito no futuro. O próximo presidente da República terá
pouca margem de erro para tratar de questões dificílimas de resolver.
As contas públicas estão em frangalhos. O
crime organizado provoca medo nas ruas e avança sobre a economia formal, a
política e até as instituições de Estado. A preservação do meio ambiente, ativo
inestimável do Brasil, terá de ser conciliada com a exploração de petróleo e
minerais raros. O Brasil precisa definir seu lugar em um mundo em convulsão
após o colapso da ordem global do pós-guerra, notadamente marcado pela disputa
geopolítica entre os Estados Unidos e a China, seus maiores parceiros
comerciais. Como se nada disso bastasse, persistem os problemas domésticos nas
áreas de saúde, educação e infraestrutura que, há décadas, frustram o potencial
de desenvolvimento do Brasil.
Nenhum desses desafios é trivial. Por isso,
os dois candidatos têm a obrigação de comparecer a todos os debates,
entrevistas e sabatinas para dizer à Nação, com clareza e objetividade, o que
pretendem fazer para resolvê-los. Fugir do debate, sob qualquer pretexto, ou
recorrer a promessas vagas e ataques pessoais é não só um desrespeito ao
eleitor, como um atentado contra um Brasil mais próspero para todos os seus
cidadãos, tanto das atuais quanto das futuras gerações. Ademais, a sociedade
merece saber como Lula e Flávio pretendem financiar suas políticas públicas.
Não há futuro que não comece pela revalorização da responsabilidade fiscal, um
princípio elementar da gestão pública que passou a ser tratado como xingamento.
Há ainda uma responsabilidade moral do futuro
presidente perante a Nação. Quem vencer a eleição governará um país cindido,
vale dizer, será o líder político também de milhões de cidadãos que não o
escolheram para desempenhar esse papel. Não se superam desafios daquela
envergadura sem a união do País em torno de objetivos comuns. O tom adotado por
ambas as campanhas de agora até o dia 25 de outubro dirá muito sobre a
disposição de Lula e de Flávio para curar as feridas abertas por uma disputa tão
acirrada.
O segundo turno abre uma nova oportunidade
para a qualificação do debate sobre os rumos do País. Os candidatos devem
aproveitá-la para, enfim, falar de futuro. Se os problemas do Brasil são
enormes, grandíssima também é a disposição de seu povo para resolvêlos – desde
que bem liderado, como registra a História.
Triunfo incontestável do bolsonarismo no
Senado
Por O Estado de S. Paulo
Vitórias expressivas de candidatos
impulsionados pela força de Jair Bolsonaro farão do Senado casamata na guerra
contra o STF. Espera-se que essa força seja usada também para reformas
O Brasil escolheu nesse domingo um Congresso
mais à direita, com destaque para as expressivas vitórias de candidatos ao
Senado impulsionados pela força de Jair Bolsonaro. Triunfou o discurso de
enfrentamento ao Supremo Tribunal Federal (STF), e certamente o Senado será a
casamata bolsonarista na guerra para enquadrar os ministros daquela Corte. Não
se pode dizer que esse resultado seja gratuito, considerando os muitos abusos
cometidos pelo STF nos últimos tempos.
Espera-se, porém, que essa força à direita
seja usada também para aproveitar a oportunidade histórica de colocar em
prática mudanças estruturais que o País adia há tempo demais. Se a nova maioria
se apresenta ao eleitor como conservadora ou liberal, que o seja também diante
dos privilégios, do desperdício e das estruturas de Estado que há décadas
precisam mudar.
A reforma administrativa é um bom começo para
os que chegam ou que retornam à Casa. A atual legislatura passou anos
discutindo mudanças no serviço público e chegou à eleição sem aprová-las. O
projeto mais recente, que previa medidas contra privilégios, acabou sucumbindo
à resistência das corporações e ao cálculo eleitoral. Supersalários continuam a
furar o teto constitucional, enquanto uma estrutura de carreiras desigual e
pouco racional dificulta a boa gestão do Estado. Uma reforma que não enfrente
privilégios e não dê ao Estado instrumentos para cobrar desempenho de quem o
serve será apenas mais uma reforma administrativa inútil.
A Previdência exigirá coragem ainda maior. A
reforma de 2019 produziu avanços importantes, mas o envelhecimento acelerado da
população tornou evidente que ela não encerrou o problema. As despesas
previdenciárias seguirão uma trajetória insustentável nas próximas décadas. O
tema foi convenientemente evitado durante a campanha eleitoral. Passada a
eleição, desaparece a desculpa. Agora, caberá à nova legislatura fazer uma
reforma que não esteja caduca poucos anos depois de aprovada.
O novo Congresso terá ainda de ser
particularmente criterioso ao tratar da necessária reforma do Judiciário. A
politização que contaminou o assunto nos últimos meses não pode ditar mudanças
figadais. Parlamentares precisarão se despir das campanhas eleitorais e buscar
consensos. Mandatos para ministros, limites às decisões monocráticas e a
revisão das competências excessivamente amplas dos tribunais superiores são
discussões que precisam avançar.
Há, por fim, uma reforma que exigirá dos
congressistas disposição para mexer nas regras que os beneficiam. Não deve ser
vã a esperança de que os eleitos tenham o brio de cortar na própria carne.
Ora, a eleição desse domingo pode resultar na
mais baixa renovação da Câmara desde a redemocratização, uma consequência
direta de um conjunto de distorções da atual estrutura política partidária do
País que precisa ser revista com urgência. Uma classe política tão eficiente em
criar mecanismos para se conservar no poder deve ser capaz de reformá-los.
O Fundo Eleitoral precisa encolher
drasticamente, assim como o poder que os parlamentares tomaram para si sobre o
Orçamento por meio das emendas. A cláusula de barreira deve ser apertada. E é
difícil encontrar justificativa para preservar a anacrônica suplência de
senador, que permite a alguém exercer um mandato de oito anos sem receber um
único voto. Também cabe ao novo Congresso rever as regras internas que
esvaziaram o debate parlamentar.
A nova legislatura deveria ter ainda a
decência de voltar a fazer valer os instrumentos de controle do decoro
parlamentar, principalmente quando os seus se mostram corruptos ou flertam com
práticas não republicanas. Conselhos de Ética não existem para servir de
enfeite nos corredores do Congresso, enquanto denúncias contra deputados e
senadores mofam sem consequência, como foi feito nos últimos quatro anos.
O Congresso que encerra seu mandato mostrou
que reformas consideradas impossíveis podem sair do papel. Depois de décadas de
tentativas frustradas, aprovou a reforma tributária do consumo.
O exemplo está dado. A nova legislatura terá força política e quatro anos pela frente. Que ninguém alegue, ao fim deles, que faltaram tempo, votos ou poder para fazer o que precisava ser feito.
Daqui até o 2º turno, eleitor merece ver
debate profundo
Por Valor Econômico
O segundo turno é uma chance de a disputa mostrar as propostas para o país das duas candidaturas, até agora submersas pela preponderância de denúncias de corrupção
Em uma votação que transcorreu sem incidentes
pelo país, em um marco da democracia brasileira, o senador Flávio Bolsonaro
(PL) e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vão se enfrentar no segundo
turno. O filho do ex-presidente Jair Bolsonaro encerrou o primeiro turno com
dianteira de 1,8 ponto percentual, ou 2,26 milhões de votos, em uma eleição que
mostrou a força da direita tanto no Legislativo quanto nos Executivos
estaduais. O PL foi o grande vencedor das eleições para o Senado, conquistando
19 das 54 cadeiras em disputa ontem. Os candidatos alternativos à polarização,
Augusto Cury (Avante), Romeu Zema (Novo), Ronaldo Caiado (PSD) e Renan Santos
(Missão), somados, obtiveram 7,58% dos votos.
O bolsonarismo mostrou vigor no Rio de
Janeiro, com Douglas Ruas liderando a votação contra um candidato não petista,
Eduardo Paes (PSD), quando as pesquisas apontaram a dianteira de Paes ao longo
de toda a campanha. Michelle Bolsonaro foi eleita facilmente como senadora pelo
Distrito Federal, assim como Carlos Bolsonaro por Santa Catarina e Jair Renan,
como deputado federal pelo mesmo Estado.
Sergio Moro, ex-ministro da Justiça de Jair
Bolsonaro, foi eleito governador do Paraná. A força do conservadorismo no
Estado impediu que a veterana Gleisi Hoffmann, ex-ministra chefe da Secretaria
de Relações Institucionais do governo Lula e ex-presidente do Partido dos
Trabalhadores, fosse eleita para o Senado, enquanto sufragou o ex-procurador da
força tarefa da Lava-Jato, Deltan Dallagnol (Novo). Dez dos 19 Estados em que a
disputa pelos Executivos estaduais terminou no primeiro turno serão governados
por legendas de direita: PL, Republicanos e PP.
A abstenção, de 21,08%, foi recorde para um
primeiro turno, mas não muito maior do que a da eleição de 2022, de 20,79%. É
um alerta para que, nas três semanas até o segundo turno, os dois candidatos à
Presidência se preocupem em aprofundar de fato as propostas para melhorar a
vida dos cidadãos e se disponham a debater entre si, expondo-se ao eleitor. O
cidadão precisa do passo seguinte, o crescimento sustentável, sem expansão de
gastos públicos e com recuo da dívida, financiada com juros que ainda podem
levar o país à recessão.
Se o pleito deste ano marca uma série
histórica de dez eleições presidenciais consecutivas — quatro décadas sem
interrupção —, com voto universal e secreto, o eleitor merece mais atenção
nesta edição de 2026. A polarização entre petismo e bolsonarismo dissolveu a
discussão aberta e séria de propostas para o futuro. Atravessado pelo maior
escândalo financeiro da história recente, envolvendo todas as instituições,
inclusive o Supremo Tribunal Federal (STF), o período eleitoral produziu até
agora muita fúria e pouca luz, mas, ainda assim, marcou um avanço em relação ao
pleito de 2022: não houve campanha de descrédito das urnas eletrônicas.
Os eleitores tiveram de optar entre duas
forças que mal se digladiaram sobre o futuro. Lula, que pretendia fazer da
campanha a coroação de seu terceiro mandato, teve de mudar rapidamente de
curso, depois que sucessivas pesquisas mostraram que a desaprovação superou a
aprovação de seu governo em todas as pesquisas durante o período eleitoral.
Herdeiro político do pai, Flávio Bolsonaro soube colher até onde pôde o voto
antipetista. Com baixa discussão sobre os problemas do país, foi uma eleição de
rejeições: ambos os candidatos favoritos tinham 45% dos eleitores que não
votariam neles de jeito nenhum.
Apesar da disputa nas redes sociais, o
eleitor demonstrou maturidade, ao acorrer às urnas para escolher seus
representantes em um clima pacífico. Como se tornou hábito, a escolha de
senadores e deputados ficou para a última hora, sem despertar o grande
interesse que sua importância primordial merecia.
Eleições livres são a melhor forma de os cidadãos
corrigirem os rumos políticos e econômicos do país, e prova de vigor na
democracia, uma obra sempre em construção. Para o pleito atual, invadiram a
atenção dos eleitores a corrupção extensiva a todos os poderes da República
patrocinada pelo Banco Master e a surpreendente politização explícita da Corte
Suprema.
O segundo turno é uma chance de a disputa mostrar as propostas para o país das duas candidaturas, até agora submersas pela preponderância de denúncias de corrupção. O presidente deixou claro que não vê necessidade de um ajuste fiscal profundo, enquanto Flávio Bolsonaro evita dar detalhes sobre o seu plano para enfrentar a questão — só deu algumas pistas sobre vendas de ativos. A segurança pública e o avanço do crime organizado têm de ser enfrentados com políticas consistentes. Consertar a frágil educação brasileira, melhorar a produtividade brasileira, aprimorar o atendimento à saúde, promover uma melhoria geral dos serviços públicos, tudo isso merece um debate sério, que precisa ser feito agora.
O Brasil votou. E o dia seguinte?
Por Correio Braziliense
Os melhores governos da história democrática
foram aqueles que, mesmo eleitos por uma parte, souberam falar ao todo
Uma campanha eleitoral dura meses. O que ela
deixa pode durar décadas. Ontem, milhões de brasileiros fizeram fila, digitaram
os números de seus candidatos e decidiram o futuro do país. É um exercício que
parece simples, mas carrega um peso que vai além do voto individual. Cada
comparecimento é uma afirmação de que o conflito político tem um lugar para ser
resolvido sem violência, sem ruptura, sem que quem perde precise capitular e
quem ganha precise destruir. Esse lugar é a urna. E ontem, mais uma vez, ela
funcionou.
A democracia não é o melhor sistema porque
garante que o candidato certo vença. É o melhor sistema porque garante que,
independentemente de quem vença, a decisão pertence ao povo — e ela pode ser
revista nas próximas eleições. Nenhum resultado de hoje é permanente. Nenhuma
derrota é definitiva. Essa é a grandeza do sistema democrático brasileiro: ele
não fecha portas, mas redistribui oportunidades. Quem perdeu hoje tem o direito
— e o dever — de fazer oposição, de fiscalizar, de voltar e tentar de novo.
Mas há uma responsabilidade que recai
especialmente sobre quem ganhou. O eleito representa todos os que votaram nele,
mas também quem não votou. A margem de votos que separa vencedor de perdedor,
por maior que seja, não apaga a existência de milhões de brasileiros que
fizeram escolhas diferentes. Governar para a maioria não significa ignorar a
minoria. É necessário que os vencedores tenham a sabedoria de entender que o
mandato popular é uma confiança. Os melhores governos da história democrática foram
aqueles que, mesmo eleitos por uma parte, souberam falar ao todo e atender aos
anseios que, no fim, são comuns e universais a todos: segurança, saúde,
educação, possibilidade de empreender, oportunidades de trabalho e
tranquilidade para criar suas famílias.
O Brasil de 2026 chega ao dia seguinte desta
eleição com feridas abertas. A polarização dos últimos anos deixou marcas que
não desaparecem com o encerramento de uma campanha. Famílias divididas,
amizades rompidas, um debate público que frequentemente confundiu adversário
com inimigo. Essas feridas não serão curadas por decreto ou por discurso de
vitória. Serão curadas, se forem, pela experiência concreta de um governo que
governa para todos, e de uma oposição que fiscaliza sem sabotar.
O apelo que se faz, no dia seguinte ao voto, é pela pacificação. O Brasil é maior do que qualquer candidato, qualquer partido, qualquer resultado. A urna decide quem governa. Cabe a todos, governantes e governados, vencedores e derrotados, decidir que país queremos ser.
Segundo turno difícil para Lula; Elmano
reeleito
Por O Povo (CE)
O primeiro turno da eleição presidencial
revelou uma situação mais difícil do que se esperava para o Partido dos
Trabalhadores (PT), em vista das pesquisas de intenção de votos. A maioria dos
levantamentos dava uma leve vantagem para o presidente Luiz Inácio Lula da
Silva (PT), em torno de três pontos percentuais.
Porém, abertas as urnas e contados os votos,
essa diferença favoreceu o candidato Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL).
O resultado, possivelmente, não era esperado nem mesmo pela campanha do PL.
Ainda não é possível saber qual fenômeno
efetivamente ocorreu, por isso não se pode falar em "erro das
pesquisas", mesmo porque os institutos detectaram a ascensão de Flávio nos
dias imediatamente anteriores ao domingo, dia do voto. Em uma eleição polarizada,
a situação também se torna instável, podendo mudar rapidamente.
Um dos motivos que deve ter contribuído para
a vitória de Flávio pode ter sido a antecipação do "voto útil" dos
eleitores de direita, ao perceberem que seus candidatos não tinham condição de
chegar ao segundo turno, anteciparam apoio a Flávio Bolsonaro.
O objetivo seria dar condições ao candidato
de oposição de evitar uma disputa de segundo turno. Além disso, de acordo com
pesquisa do Datafolha, Lula teria perdido votos na região Sudeste e entre
evangélicos. Outro ponto é que o maior contingente de abstenções se encontra em
segmentos que votam majoritariamente em Lula, como pessoas de baixa renda e com
idade acima de 60 anos.
De qualquer forma, no segundo turno, a tarefa
ainda será mais árdua para o PT. Além da máxima de que o vencedor do primeiro
turno não perde no segundo, uma derrota, ainda que seja parcial, tende a
provocar letargia na militância.
Mas espera-se, nesse segundo turno, que os
candidatos se disponham a debater com profundidade seus respectivos programas,
o que faltou até agora. E, em uma eleição que se apresentará ainda mais
acirrada, que os líderes políticos e a militância, de todos os partidos se
contenham nos marcos da civilidade.
Quanto ao Ceará, o governador Elmano de
Freitas (PT) foi eleito para mais um mandato, ainda no primeiro turno,
derrotando seu oponente Ciro Gomes (PSDB). A vitória de Elmano não foi
exatamente uma surpresa, apesar de ter aparecido 19 pontos percentuais abaixo
de Ciro na primeira pesquisa Datafolha divulgada em agosto. A partir daí,
Elmano cresceu consistentemente, ultrapassando o candidato do PSDB na última
pesquisa, e vencendo-o no primeiro turno.
No mais, não houve problemas graves durante o período de votação, apenas intercorrências pontuais, que foram resolvidas sem comprometer o bom andamento dos trabalhos. A contagem dos votos terminou no mesmo dia da votação, sem contestações. As urnas eletrônicas mostraram, mais uma vez, que são cruciais para uma eleição segura e à prova de fraudes.

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