terça-feira, 30 de outubro de 2012

Para PT, urnas 'abafaram' uso do mensalão


Raphael Di Cunto

SÃO PAULO - Passadas as eleições municipais, o PT começa a reagir à condenação de ex-dirigentes do partido pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por crimes no mensalão. Em nota divulgada ontem para exaltar o resultado eleitoral do partido, a executiva da sigla em São Paulo afirmou que a sociedade "falou em alto e bom tom" que "o PT não está e nunca esteve no banco dos réus". "A resposta a todos os ataques que sofremos foi dada pela população através da manifestação democrática: o voto", diz o texto.

Na análise do diretório estadual, a vitória em cidades importantes, como a capital São Paulo, mostra que "as urnas abafaram as vozes que tentaram fazer do julgamento um instrumento de desgaste e até, como muitos alardearam, de destruição do PT". Também aponta derrota "dos setores da imprensa que partidarizaram a leitura dos fatos".

A executiva nacional do PT também prepara uma nota, a ser divulgada após reunião na quinta-feira, com uma avaliação do resultado eleitoral e críticas ao "julgamento político" feito durante as eleições.

O presidente nacional do partido, Rui Falcão, disse ontem que não é possível precisar qual influência o julgamento teve na eleição. Destacou, porém, que o PT cresceu em número de prefeituras, enquanto o PSDB caiu. "O importante é que, a despeito da campanha que foi feita, fomos o partido que obteve o maior numero de votos no primeiro turno e somos o partido que vai governar o maior número de eleitores a partir de 2013", afirmou.

Para Falcão, o objetivo em 2013 será aprovar a reforma política, com ênfase no financiamento público de campanha. Ele nega que esse debate sirva para desviar o foco do resultado do julgamento pelo STF, que condenou dirigentes petistas por compra de apoio no Congresso com dinheiro público - os advogados dos réus defenderam a tese de que os recursos eram caixa dois de campanha.

Para destacar o enfraquecimento dos tucanos, o presidente do PT destacou a perda de influência no Estado de São Paulo, governado pelo PSDB desde 1994. Embora ainda seja o partido com maior número de prefeituras, com 27% das 645 cidades, houve queda em relação a 2008, além das derrotas do ex-governador José Serra (PSDB) na capital e em São José dos Campos, que era administrada pela legenda há 16 anos.

"[São José dos Campos] É a porta de entrada do Vale do Paraíba, reduto do governador Geraldo Alckmin [PSDB] e onde tínhamos dificuldade de entrar. Tínhamos duas prefeituras da região e agora passamos para nove", pontuou Falcão. O PT também manteve os prefeitos da segunda maior cidade do Estado, Guarulhos, e da quarta, São Bernardo do Campo.

A nota divulgada pela executiva estadual do PT classifica o resultado como "a pior derrota da história" para o PSDB e aliados.

Para o petista, isso consolida o partido no Estado e reforça a candidatura ao governo. Falcão evitou apontar favoritos para ser o candidato - há uma disputa velada entre os ministros da Educação, Aloizio Mercadante, da Cultura, Marta Suplicy, e Saúde, Alexandre Padilha, além do prefeito de São Bernardo, Luiz Marinho.

O presidente do PT também desconversou se, com a vitória de Haddad, a tendência é o partido apostar em outro nome pouco conhecido eleitoralmente pra concorrer ao governo - seguindo modelo iniciado com a candidatura da então ministra-chefe da Casa Civil, a hoje presidente Dilma Rousseff, em 2010.

"Vamos fazer essa discussão no ano que vem, com análise do nosso programa e do que a população quer", afirmou. "A vitória do Haddad mostra que o PT tem capacidade de criar novos quadros, ao mesmo tempo que mantém como referência lideranças fortes, como o presidente Lula."

Falcão disse, porém, que o PT pode abrir mão de disputar o Senado em 2014 - na vaga que hoje é de Eduardo Suplicy- para um partido aliado, em troca de apoio na disputa pelo governo.

"Como em 2014 só tem uma vaga para o Senado, é provável que seja usada para uma composição", afirmou. Há setores que defendem essa troca com o PMDB, do deputado federal Gabriel Chalita, ou o PSD, do prefeito da capital, Gilberto Kassab, que é presidente nacional da sigla e já ensaia adesão à base aliada da presidente Dilma.

O PT deve investir nessa relação com o PSD, segundo Falcão. "Quanto mais ampla puder ser a aliança nacional, dentro do programa que a gente defende, melhor", afirmou, ao comentar que a prefeita reeleita de Ribeirão Preto (SP), Darcy Vera, recebeu apoio do PT com a promessa de que fará campanha para Dilma em 2014.

O dirigente petista diz ainda que o resultado desta eleição consolida a definição de candidatos por consenso, sem passar por prévias, instrumento em que os filiados escolhem o candidato. "[O modelo será] Primeiro, a busca de acordo. Segundo, realização de disputa no âmbito do encontro de filiados, e por último, a realização de prévias", pontuou.

O PT tem reduzido a importância das prévias desde 2011, quando aprovou regra para que, com apoio de dois terços dos delegados do partido, o pré-candidato seja escolhido sem passar por votação de todos os filiados.

O abandono das prévias causou celeuma na disputa em São Paulo, onde o ex-ministro da Educação Fernando Haddad, hoje prefeito eleito, foi alçado à candidatura contra a vontade da senadora Marta Suplicy. Pressionada por Lula a desistir de concorrer, Marta afastou-se da campanha por quase um ano - só declarou apoio no meio da eleição, e dois dias depois foi nomeada para o Ministério da Cultura.

Por outro lado, em Recife, onde houve prévias, o clima radicalizou-se. O atual prefeito, João da Costa, não apoiou o senador Humberto Costa depois de ser impedido pela direção nacional de concorrer à reeleição e a legenda foi para a disputa desunida. O PT foi derrotado já no primeiro turno para o PSB, do governador Eduardo Campos, possível candidato à Presidência.

Rui Falcão disse que pretende propor, no Congresso Nacional do PT em 2014, mudança no estatuto para que não ocorram prévias nas cidades onde o prefeito do partido disputa a reeleição, exceto nos casos em que "houver problema de natureza ética" ou o prefeito não quisar concorrer. "Só a chance de derrota não pode ser motivo", afirmou. Isso faria voltar a tese do "candidato nato", que o diretório nacional do PT vetou em outubro de 2011.

Fonte: Valor Econômico

Senador tucano diz que Serra perdeu a eleição por ‘negligência do PSDB’

Na avaliação de Aloysio Nunes Ferreira, faltou "presença política" do PSDB

Cristiane Jungblut

BRASÍLIA - Um dos coordenadores da campanha tucana em São Paulo, o senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP) disse, em discurso no Senado, que o candidato José Serra perdeu para o petista Fernando Haddad por "negligência" do PSDB. Para ele, o partido e os coordenadores da campanha não conseguiram reverter junto à população a impressão de que Serra deixaria mais tarde a prefeitura, caso eleito. Este ponto foi explorado, porque Serra já deixara a prefeitura de São Paulo para concorrer ao governo do Estado, quando foi eleito.

Na primeira sessão depois do fim das eleições, Aloysio utilizou o discurso para fazer um verdadeiro balanço dos erros do partido em São Paulo. Para o senador, faltou maior empenho junto aos diferentes setores da sociedade e até maior oposição ao PT, como fizeram na época em Marta Suplicy comandou a cidade.

- O que aconteceu, repito, é que - pela ação dos nossos adversários e por negligência política nossa - acabou se cristalizando na consciência do eleitor algo que, na verdade, foi o grande empecilho a que o Serra, cuja biografia e cuja competência jamais foram questionadas por nenhum dos nossos adversários, lograsse vitória nas eleições. É a ideia de que o Serra, eleito, poderia vir a abandonar a prefeitura. Esse foi o grande fator que, no meu entender, explicaria o nosso insucesso eleitoral. Por que o resultado eleitoral adverso? Porque a ação administrativa não foi acompanhada da luta política; do esclarecimento das consciências; da articulação com a base da sociedade; com a presença cotidiana do partido, nas associações, nos movimentos sociais; com o distanciamento da população; com a burocratização da estrutura partidária - disse Aloysio Nunes Ferreira.

O senador disse ainda que faltou "presença política" do PSDB pela cidade de São Paulo:

- O que houve, na verdade, foi falta de luta política, falta de luta política, de presença política – e aí faço uma autocrítica do meu partido –, falta de presença política constante na cidade, como exercemos durante o mandato da Prefeita Marta Suplicy, na luta da oposição. Não relaxamos um segundo sequer na oposição à Prefeita Marta Suplicy, apontando, denunciando, chamando a atenção, propondo, coisa que não fizemos depois. Se verificarmos alguns bairros da cidade de São Paulo, onde colhemos os nossos piores resultados eleitorais, foi exatamente nos bairros onde o governo do PSD, o Governo Kassab atuou com mais intensidade, com mais eficiência e com mais qualidade.

Para ele, foram plantadas "mentiras" sobre Serra, que não conseguiram ser desconstruídas.

- Na minha visão, o principal fator da derrota do nosso candidato à prefeitura foi o fato de terem transitado em julgado na consciência do eleitor paulistano duas mentiras: a de que o Serra abandonou a cidade de São Paulo, mentira essa que subentende outra, a de que a cidade está abandonada - disse o senador.

Um dos principais líderes do PSDB, o senador disse que saía das eleições "um pouco empoeirado e com algumas cicatrizes".

- Venho à Tribuna, para fazer uma apreciação, claro, parcial do resultado das eleições.

O senador ainda colocou em dúvida a avaliação de que Serra perdeu porque Haddad representava "o novo" e que o PSDV deveria ter investido num candidato menos "batido".

- Tenho minhas dúvidas sobre esse poder miraculoso do novo nas eleições. Fosse assim, Arthur Virgílio não teria sido eleito Prefeito de Manaus - disse o senador.

Fonte: O Globo

O recado das urnas - Norte-Nordeste derrota PT e reanima oposição

PSDB e DEM vencem em quatro capitais nordestinas, além de Belém e Manaus

PSB de Eduardo Campos conseguiu vitórias contra petistas em Fortaleza e Recife; pelo país, votação dos socialistas cresce 52,8%. Eleição de Haddad em São Paulo dá ao PT liderança no total de votos conquistados

Reduto eleitoral de Lula e do PT, o Norte-Nordeste deu vitórias importantes à oposição. No Nordeste, que dera 60,8% dos votos a Lula em 2006 e 70,5% a Dilma em 2010, sete das quinze maiores cidades estão agora com PSDB e DEM, entre elas quatro capitais. Presidente do PSB, partido que mais cresceu e se toma central para 2014, o governador Eduardo Campos cobrou do Congresso e da presidente Dilma o ajuste do Pacto Federativo e novo rateio para o FPE.

Reduto de Lula, Norte-Nordeste fortalece oposição

PSDB e DEM conquistam seis capitais nas duas regiões; PSB se consolida

Maria Lima, Guilherme Voitch

SÃO PAULO - O mito Luiz Inácio Lula da Silva, que em 2006 foi reeleito com 60,8% dos votos de seus conterrâneos nordestinos, e em 2010 ajudou a presidente Dilma Rousseff a fazer 70,5% dos votos na região, nestas eleições não teve forças para impedir que o Nordeste se transformasse no novo bunker do bloco PSDB/DEM. Juntas, as duas legendas levaram sete das 15 maiores cidades da região. Entre elas quatro capitais: Salvador, Aracaju, Maceió e Teresina. O mesmo fenômeno se repetiu no Norte, onde Lula teve 65,5% dos votos em 2006, e Dilma obteve 57,4% em 2010. Nas eleições de domingo, a oposição passou a controlar três capitais, com a vitória do PSDB em Manaus e Belém, e do PSOL em Macapá.

Além disso, o PSB, que já fala em alianças com os tucanos, consolidou-se nas duas regiões, com vitórias sobre o PT em Fortaleza e Recife, e em Porto Velho.

- O declínio do prestígio de Lula no Nordeste nestas eleições é um fato novo, relevante, que deve ser analisado. Ele foi a Salvador duas vezes. Em Fortaleza, foi uma vez. Gravou para o candidato do PT em Recife e não conseguiu virar as situações negativas. O que parece é que as pessoas se cansaram dessa coisa de mito, de deus. É um exagero dizer que ele foi o grande derrotado, porque ganhou São Paulo. Mas há um declínio de Lula, quer ele queira, quer não - avaliou o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE), que apoiou a candidatura de Geraldo Júlio, do PSB de Eduardo Campos.

Bolsa Família deixa de ser recurso eleitoral

Fora São Paulo, Lula centrou fogo no Nordeste, em comícios, carreatas e gravações para seus candidatos. Para a oposição, as derrotas de Lula se devem ao fato de grande fatia do eleitorado, beneficiada pelo o Bolsa Família, considerar o benefício uma política pública consolidada:

- Lula perdeu força nessa eleição porque se exauriu um pouco essa coisa da Bolsa Família como fidelização do eleitorado - avalia o diretor da CEF Geddel Vieira Lima (PMDB), que apoiou ACM Neto, do DEM, em Salvador.

Em Salvador, Lula usou o discurso do Bolsa Família e chamou ACM Neto de mentiroso:

- É uma mentira sórdida dizer que o avô dele (Antônio Carlos Magalhães) criou o Bolsa Família - disse Lula no palanque de Nélson Pelegrino.

Animado com a conquista de Aracaju e Salvador, o presidente do Democratas, senador Agripino Maia (DEM-RN) afirma:

- Lula era uma fortaleza inexpugnável em Pernambuco, sua terra natal, uma potência no Nordeste. O exemplo mais emblemático do fim desse mito é Salvador. Ele desembarcou lá com Dilma, era Bolsa Família de ponta a ponta. Tinham obrigação de eleger o candidato deles lá. O pobre do Bolsa Família aprendeu a votar e votou em quem quis. O messianismo de Lula morreu - disse Agripino.

No PSDB, o senador Aécio Neves (MG) ressalta o fortalecimento da oposição no Norte e Nordeste, onde estava praticamente aniquilada. E minimiza a liderança da dupla Lula/Dilma.
- Com exceção de São Paulo, onde estiveram no palanque de Haddad, com um discurso muito raivoso, Dilma e Lula perderam todas. Não tem mais esse negócio de Lula ser o dono da cocada preta não! Voltamos para o jogo com muita força no Norte e Nordeste - disse Aécio Neves.

Em Recife e Fortaleza, onde o PSB ganhou, a avaliação da oposição é que esse reduto também não pode ser contabilizado como de aliados do Planalto, porque houve um embate entre petistas e socialistas. E os irmãos Ciro Gomes e Cid Gomes, governador do Estado, ficaram irritados com a ida de Lula a Fortaleza para fazer campanha contra Roberto Cláudio (PSB).

- Onde Lula impôs candidatos, o PT se quebrou - disse Cid Gomes em conversa com Agripino Maia ontem.

O deputado José Nobre Guimarães (PT-CE), vice-líder do governo na Câmara, reconhece que a relação do PT e do PSB tem que ser rediscutida na Executiva Nacional do PT.

-No Ceará a disputa tomou rumos que não são aconselháveis para aliados. O PSB constituiu ampla aliança que deu musculatura ao antipetismo. Lamentavelmente, o PCdoB foi instrumento disso, junto com o DEM. Foi uma ação contra o Lula -avalia Guimarães.

Fonte: O Globo

Aécio minimiza derrota de Serra


Aécio Neves minimizou ontem, em entrevista ao Estado , o impacto para o PSDB da derrota de José Serra em São Paulo. “Essa eleição não teve um grande derrotado”

'Derrota de Serra não diminui papel do PSDB'

O senador e presidenciável afirma que a influência de Lula e Dilma nas eleições já não existe como se imaginava

Julia Duailibi

Para o presidenciável do PSDB, senador Aécio Neves (MG), o resultado dessa eleição mostrou que a influência do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e da presidente Dilma Rousseff "não existe mais do modo que a gente imaginava". Aécio, no entanto, minimiza o impacto para o PSDB da derrota de José Serra em São Paulo: "Essa foi uma candidatura que nunca foi simples, nunca foi fácil".

O tucano destaca o desempenho do PSDB no Norte e Nordeste e tece elogios à aliança com o PSB. Aécio vê um "antagonismo" entre PT e PSB nas cidades onde disputaram eleição, que não deve ser superado em 2014. Leia abaixo a entrevista.

Qual avaliação o sr. faz da derrota do PSDB em São Paulo?

Numa eleição em que 50 cidades estavam em jogo, não dá para avaliar uma. É uma derrota que tem repercussão, mas ressalto que Serra foi candidato porque o partido quis que fosse, para fazer justiça a ele. Serra não brigou para ser candidato. É claro que não foi bom perder, mas, no geral, nessa eleição não teve um grande derrotado. No nosso caso, nos saímos de forma muito vigorosa no Nordeste e no Norte, de onde havíamos sido dizimados nas últimas eleições.

O PSDB precisa se renovar?

Há figuras novas que já surgiram: o Eduardo (Leite), que ganhou em Pelotas, o menino de Blumenau (Napoleão Bernardes), Firmino (Filho, em Teresina), Maceió (com Rui Palmeira). Tem uma geração nova se afirmando.

O partido errou ao não arriscar um nome novo em São Paulo?

O momento em que o Serra resolveu ser candidato ele fez por um apelo do partido. E parecia a candidatura mais sólida. Enfim, perdeu. Ele vai ser uma figura que terá sempre um papel importante nas decisões do PSDB. Isso (a derrota) não diminui o papel do PSDB. Essa foi uma candidatura que nunca foi simples, nunca foi fácil.

O desempenho do PSDB em Estados importantes, como São Paulo, ficou abaixo do esperado.

Nas últimas eleições presidenciais, ganhamos nos três Estados do Sul e do Centro-oeste. No Sudeste, nenhum outro partido tem uma situação mais sólida que o PSDB, com o governo de Minas e o de São Paulo. O PSDB, em relação a um cenário de seis, oito meses atrás, teve resultado muito além do que a gente poderia imaginar.

Há setores do PSDB paulista que defendem uma aliança em 2014 com o PSB, de Eduardo Campos (PE), na cabeça de chapa em troca do apoio à reeleição do governador Geraldo Alckmin.

O PSDB é a única força de oposição para se apresentar como uma alternativa. Problema quem tem hoje é o governo, para manter a base unida. Vamos apresentar um projeto alternativo e atrair ao longo do caminho forças que estão hoje com o governo. As alianças que fizemos com o PSB, que brinquei que votei mais 40 que 45, criam lógicas locais. Pega Campinas, Fortaleza, a cidade se divide em dois grupos. Então, amanhã, é difícil que os grupos se aliem. Vai todo mundo para uma candidatura do PT? É difícil. Fizemos alianças importantes com o PSB, e, mesmo que amanhã o PSB esteja com o PT, e hoje é o caminho mais natural, nessas praças vai haver sempre um antagonismo, com tendência do eleitorado que não é PT ficar com outra alternativa. A eleição do ACM Neto (Salvador), do Arthur Virgílio (Manaus), pelo fato de Lula ter ido, de Dilma ter ido muito agressiva, mostra que essa influência, do modo como a gente achava que existia, não existe mais. Tem um País aberto para uma proposta nova.

O PSDB deve definir logo o presidenciável. Serra é um nome?

Não tem que antecipar. Ninguém é candidato dois anos antes de uma eleição. Acho que o momento é a virada de 2014.

Qual espaço Serra terá?

Não sei nem se ele pretende objetivamente algo. Ele vai ser sempre uma figura central no PSDB. Não dá para desprezar os votos que ele teve. Não dá para desprezar o que representa, mesmo que tenha perdido a eleição.

O sr. acha que ele pode ocupar a presidência do PSDB?

Não pensei nisso. Nem sei se ele quer isso.

Fonte: O Estado de S. Paulo

O novo-velho - Merval Pereira


A figura que melhor representa o atual estágio de nossa política partidária, até porque, mesmo responsável direto pela maior derrota de seu aliado PSDB, pode se considerar "vitorioso" nesta eleição, é o prefeito Gilberto Kassab. As características mais enraizadas, a esperteza mais óbvia, todas as ambiguidades de nossa política que afugentam o eleitor das urnas em nível nunca antes registrado estão reunidas em Kassab e em seu novo-velho PSD, partido que não é "nem de centro nem de direita nem de esquerda".

Para se ter uma ideia de como o prefeito paulistano é capaz de uma política pragmática, basta ver que ele é um dos principais articuladores no Congresso da aprovação de uma lei que impede novos partidos que venham a ser criados de ter tempo de TV e fundo partidário. A ideia é desestimular a criação de novos partidos, e Kassab está realmente preocupado com a possibilidade de novas legendas pipocarem no cenário político.

Mas ele não foi o criador de um dos mais recentes partidos? Claro, mas agora, após ter ameaçado disputar até no STF o direito a tempo de propaganda eleitoral e dinheiro, ele quer fechar a torneira. E tem razão. Ao todo são 30 partidos legalmente reconhecidos pelo Tribunal Superior Eleitoral. Depois do PSD, foram criados mais dois: Partido Pátria Livre (que já tem até um senador) e Partido Ecológico Nacional. Na fila do TSE há vários outros: Partido dos Servidores Públicos e dos Trabalhadores da Iniciativa Privada do Brasil (PSPTP); Aliança Renovadora Nacional (Arena); Partido Nacionalista Democrático (PND); União Democrática Nacional (UDN); Partido Pirata do Brasil (Piratas); e Partido Federalista.

Com taxa de rejeição altíssima, mesmo assim Kassab foi assediado por petistas e tucanos, na suposição de que a máquina municipal teria serventia em uma disputa que se mostrava difícil.

Lula farejou com precisão em São Paulo para onde o vento soprava e obteve sua grande vitória pessoal, coisa que não ocorreu no resto do país, onde sofreu derrotas pessoais importantes em Recife, Fortaleza, Salvador, Porto Alegre, Manaus, Campinas, Belo Horizonte. Em São Paulo, porém, Lula acertou a mão na escolha de um candidato que vestiu o PT com roupagem nova, longe do mensalão, embora tenha arriscado muito com o apoio de Maluf e pudesse ter levado para seu candidato toda a rejeição do prefeito caso o PSDB não tivesse convencido Serra a se candidatar.

A "lealdade" a quem o levou ao poder fez Kassab abandonar o namoro com o PT. Mas a "lealdade" era apenas local, e o PSD passou a fazer acordos políticos com os petistas e o Planalto em diversas disputas municipais, como em Belo Horizonte, a pedido da presidente Dilma, ou no interior paulista.

Na eleição para prefeito de São Carlos, o PSD de Kassab apoiou Osvaldo Barba, do PT, que não conseguiu a reeleição. Mas o PT registrou a boa-vontade. Em Ribeirão Preto, foi a vez de o PT apoiar a reeleição de Dárcy Vera, do PSD.

Na capital mineira, teve que fazer uma intervenção no diretório local do PSD, que pendia para um acordo com o prefeito Marcio Lacerda, do PSB.

A situação ambígua desse apoio de Kassab a Serra a nível local e ao Planalto a nível nacional provocou situações estranhas, como estar no palanque do derrotado e já aparecer como uma das forças de apoio a Haddad mesmo antes que as urnas decretassem a derrota de seu "padrinho". Foi o alvo preferencial das críticas da campanha petista e passa a ser aliado importante na grande aliança governista.

Com a força que sua legenda ganhou - além de ser hoje a quarta maior bancada no Congresso, o PSD emplacou 494 prefeitos -, Kassab tornou-se figura importante no jogo político de Brasília, para onde se muda ao fim de seu mandato para articular seu papel na disputa presidencial de 2014. Um ministério aguarda o PSD. Nesse caso terá outro problema de "lealdade" para gerir caso o governador Eduardo Campos resolva mesmo sair do campo governista para ser candidato à sucessão de Dilma. Como se sabe, o PSD de Kassab foi uma construção conjunta com o PSB de Campos, e os dois partidos chegaram a pensar em uma fusão logo no início.

Mas esse é doce problema que será resolvido a seu tempo, mesmo porque nada indica que Campos, também dentro do espírito pragmático que norteia nossa política, vá decidir logo que rumo tomará. Até 2014 há muito tempo para negociar.

Fonte: O Globo

Estado de graça - Dora Kramer


Dizem que a vitória cura todas as feridas. Mesmo não sendo uma verdade absoluta, certo é que ameniza os espíritos.

Na noite de domingo, logo após a confirmação do resultado em São Paulo, o PT estava em estado de graça. Dos petistas habitualmente belicosos, como o assessor internacional da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia, aos mais apaziguadores, como o deputado Arlindo Chinaglia e o prefeito de Osasco, Emídio de Souza, todos pregavam bom senso e moderação.

Falando aberta e francamente nos erros crassos que levaram a derrotas do partido, reconhecendo a "aspiração legítima" do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, à disputa presidencial de 2014 e defendendo "respeito" às decisões do Supremo Tribunal Federal no julgamento do mensalão.

Aparentemente essa prudência se deve ao "relax" decorrente da eleição de Fernando Haddad. Mas é possível também que tenha a ver com o balanço objetivo de perdas e ganhos, no qual o PT não fica tão bem quanto apregoa.

O equilíbrio partidário observado no primeiro turno foi confirmado com o seguinte resultado final: o comando nas 26 capitais onde há prefeitura (o Distrito Federal não tem prefeito) está distribuído entre 11 partidos.

Isso quer dizer que há 11 legendas fortes e representativas? Não, significa que nesse sistema partidário fragmentado e frágil as condições locais – empatia do candidato, alianças, rumo da campanha etc. – prevalecem sobre a identificação do eleitor com esse ou aquele partido.

Outro dado a ser considerado: o ex-presidente Lula concentrou esforços em 17 cidades país afora, ganhando em oito delas e perdendo em nove. São Paulo, evidentemente, desequilibra, mas o cômputo geral desidrata a mistificação sobre o poder de Lula na condução da vontade do eleitor.

Ganha onde pode e faz as coisas certas. Onde quem acerta é o adversário, Lula e PT enfrentam as mesmas adversidades que qualquer outro partido ou político quando o eleitorado resolve dar o próprio jeito.

Os petistas contam com muitas vantagens – objetivos claros, boa dose de unidade e comando –, mas nelas não se inclui uma ligação direta, automática, permanente e, sobretudo, segura entre a presença do ex-presidente, a força do governo federal e o voto na urna.

De onde provavelmente a preocupação das lideranças de não se deixar inebriar excessivamente pelo êxito paulistano.

Arlindo Chinaglia, por exemplo, diz com todas as letras que insucessos fragorosos como os registrados em Recife e Porto Alegre devem-se exclusivamente a erros de cálculo do partido.

Essa "pegada" pós-eleitoral mais leve não pode ser vista como desistência do PT de se manifestar contra as condenações.

Já no decorrer desta semana, o partido apresentará publicamente a própria "leitura" de que houve uma grande injustiça e, quando for concluído o processo, ficará ao lado dos réus que decidam recorrer ao simbolismo de apelos a organismos internacionais.

Mas, se prevalecer o estado de espírito da noite da conquista da joia da coroa, nada de mobilizações de caráter institucionalmente desabonador em relação à Corte suprema.

"O eleitor separou o julgamento da eleição. O partido deve saber também fazer essa separação, compreendendo que vitória eleitoral não é salvo-conduto", analisava o prefeito de Osasco.

Marco Aurélio Garcia cobrava o mesmo rigor na apreciação do processo do "mensalão mineiro", cujo protagonista é o tucano Eduardo Azeredo, e reclamava do "clima de viva emoção" agora em torno do STF.

É de se notar, porém, o tom de passo adiante quando fala em "nova linhagem do PT" e defende uma reforma política "que nos previna desse tipo de acontecimento".

Emerge da eleição um discurso ameno, pragmático, para se contrapor ao ânimo radical que até "fala" ao coração de militância, mas não conquista a cabeça da maioria do público.

Fonte: O Estado de S. Paulo

O fator PSB - Eliane Cantanhêde


O PT ganhou a joia da coroa, São Paulo, mas levou a pior ao bater de frente com o PSB em Recife e Belo Horizonte, no primeiro turno, e em Fortaleza e Cuiabá, no segundo. Sem falar em Campinas.

É assim, batendo o PT, avançando no Nordeste, conquistando espaço no Sudeste e com o troféu de principal vencedor nas cem cidades mais pobres, que o PSB se consolida como força política relevante no país. Com a vantagem de ser simultaneamente aliado do governo Dilma e interlocutor dileto da oposição.

Ou seja: o PSB e seu grande líder, o governador Eduardo Campos (PE), mantêm as vantagens e luxos de quem está casado com o poder, mas já se preparando para fazer o inverso do PSD de Kassab: trair o PT com o amante PSDB. Possivelmente, não ainda em 2014, mas já em 2018. Tudo é questão de oportunidade.

O PT é uma faca de dois gumes: aliado conveniente porque detém o Planalto -e a caneta, os cargos, as verbas, a popularidade-, mas profundamente inconveniente para os que almejam o poder. Sabe quando o PT vai abrir mão da cabeça de chapa para o PSB, o PMDB, o PC do B ou qualquer outro? Nunca.

Já o PSDB é um aliado excelente, porque é o partido mais forte da oposição e está cada vez mais fraco. Aos 70 anos, Serra, derrotado para a Prefeitura de São Paulo e com alta rejeição dentro e fora do partido, não tem mais vez. Alckmin já não deu para o gasto em 2006. E Aécio, hibernando no Senado, é uma incógnita.

Sem os três, não sobra ninguém no PSDB e na oposição que seja ao menos visível a olho nu para 2014 e 2018. É esse espólio que Eduardo Campos trabalha e cobiça.

Quando Aécio e Campos se abraçam e despejam milhares de pulgas atrás das orelhas de Lula, Dilma, Serra e Alckmin, o mineiro se sente esperto como o avô Tancredo, imaginando que é ele quem vai colher os frutos. Há controvérsias. Não é Campos quem faz o jogo de Aécio, é Aécio quem está fazendo o jogo de Campos.

Fonte: Folha de S. Paulo

Democratas é um sobrevivente - Raymundo Costa


A vitória de Antonio Carlos Magalhães Neto, em Salvador, se não acaba de uma vez por todas, seguramente arrefece as ideias de fusão ou dispersão do Democratas por outros partidos. O DEM é a única sigla da oposição a governar, a partir do próximo ano, um dos quatro maiores colégios eleitorais do país. Pela ordem, as capitais de São Paulo (PT), Rio de Janeiro (PMDB), Salvador e de Minas Gerais (PSB).

Considerando-se o mês de junho de 2011, depois do ataque especulativo que o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, fez em suas fileiras, o DEM entrou nas eleições municipais com 347 prefeituras e 4,8 milhões de votos. De quarta força nas eleições de 2008, o DEM passou para a sétima. Agora é a nona em número de prefeitos. Elegeu 278, mas cresceu 50% - sempre em relação a junho do ano passado - em número de votos.

O balanço final do DEM é positivo. Graças sobretudo à eleição de Salvador, o partido saiu com 6,87 milhões de votos da eleição municipal. Ou seja, mesmo com menos prefeituras, o Democratas ganhou 2,1 milhões de eleitores. Não governava nenhuma capital. Agora tem Aracaju, a capital de Sergipe, e assume o terceiro maior colégio eleitoral do país. "O DEM cresceu qualitativamente", diz seu presidente, o senador José Agripino Maia (RN).

Agripino diz que Salvador foi uma lição para o governo

A partir do próximo ano, o Democratas vai administrar um orçamento de R$ 12,9 bilhões. Originalmente PFL, a dissidência da Arena que viabilizou a eleição de Tancredo Neves, em 1985, e o fim do regime militar, o DEM era o partido dos grotões. Em 2012, assumirá, além das duas capitais, cidades de porte como Barueri (SP), São José dos Pinhais (PR), Feira de Santana (BA), Mossoró (RN) e Vila Velha (ES), entre outros.

No ranking das capitais, o DEM ficou atrás, em prefeituras, somente do PSB (5), PSDB (4), PT (4) e PDT (3), empatando com o PP (o sucedâneo da Arena, que também elegeu dois prefeitos). Em Santa Catarina, onde o prefeito Gilberto Kassab levou praticamente todos os integrantes do DEM para o PSD, comemorou com especial prazer ser o vice da chapa que tirou da Prefeitura de Blumenau João Paulo Kleinubing, seu antigo filiado hoje no PSD de Kassab.

"Eu nunca levei isso muito a sério", diz Agripino, sobre as conversas de fusão do DEM ora com o PSDB ora com o PMDB. Aparentemente, o partido com mais condições locais de acomodar a maioria do DEM é o PMDB. Mas o PMDB é da base do governo e quem não se aliou aos "trânsfugas", como o presidente do DEM faz questão de qualificar os que foram para o partido de Kassab, é porque queria ficar na oposição. Deputados como Ronaldo Caiado, por exemplo. Não faria sentido, portanto, se aliar a um partido da aliança governista.

O curioso é que após a eleição de Dilma Rousseff, em 2010, até o prefeito eleito de Salvador tinha dúvidas sobre o futuro reservado ao DEM. Hoje, ACM Neto diz que cumprirá o mandato até o final, sem aventurar-se por uma candidatura a governador em 2014. Muito jovem - tem apenas 33 anos -, Neto é um prefeito "com muitos anos de vida política útil pela frente", como gosta de dizer Agripino.

Há uma espécie de "consenso" entre congressistas e analistas políticos que o DEM é um partido que não consegue sobreviver sem estar à sombra do governo federal. O presidente do Democratas descarta esse teoria. Agripino Maia espera, a partir de agora, "um partido mais coeso" e seguramente na oposição. "Os trânsfugas foram todos embora no ataque do Kassab. Especialmente aqueles que queriam de todo modo aderir ao governo. "Ficou a essência do partido", diz Agripino. "Nós lutamos para sobreviver na oposição. Sobrevivemos e crescemos. Não há lógica, portanto, em se aliar a um partido da base do governo".

Com relação ao PSDB, seu aliado em quatro das últimas cinco eleições presidenciais, Agripino afirma que é cedo para especular sobre uma eventual aliança em 2014. "Não há um alinhamento automático", diz. Por enquanto, o partido pensa apenas em manter a parceria que tem com os tucanos, no Congresso, na oposição aos governos do PT e à presidente Dilma Rousseff.

Agripino destaca como simbólica a eleição de ACM Neto para prefeito de Salvador, área de influência do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Também a presidente Dilma esteve em Salvador a fim de fazer campanha para o candidato do PT, Nelson Pelegrino.

Segundo Agripino Maia, esse palanque e mais o governador Jaques Wagner (PT) diziam aos soteropolitanos que eles tinham a "obrigação" de votar no em Pellegrino em retribuição aos benefícios sociais concedidos pelos governos petistas aos baianos. Só para Salvador, neste mês de outubro, o Ministério do Desenvolvimento Social pagou o Bolsa Família para 172.066 famílias.

"O Fernando Haddad, no discurso da vitória em São Paulo, afirmou que sua eleição iria derrubar o muro que separa os ricos dos pobres", diz Agripino Maia. "Essa é a cantilena da companheirada, deve ter sido assim em todo o Brasil", e a eleição na Bahia, no entendimento do presidente nacional do DEM, "deve servir de lição ao governo: o pobre sabe votar".

Eleições municipais são mais relevantes, do ponto de vista das eleições nacionais e estaduais, quanto mais elas são formadoras da opinião pública. Nesse sentido o DEM ganhou ao avançar para cidades de maior porte, deixando de privilegiar os grotões que herdou da Arena e do PFL.

Um estudo dos tucanos revela que há uma interferência das eleições municipais na formação das bancadas, dois anos depois, de maneira especial da bancada de deputados federais. E o número de deputado na bancada da Câmara é determinante para a fixação do tempo de televisão do partido no horário de propaganda eleitoral e a cota que cada partido terá do fundo partidário.

Por esse aspecto, o Democratas deveria se preocupar por ter eleito apenas 278 prefeitos. Mas Agripino é um otimista: como cresceu o número de eleitores e o partido avançou em direção de capitais e de cidades com mais de 200 mil eleitores, dificilmente fará uma bancada na Câmara inferior à atual, desidratada de 43 deputados eleitos para 28, depois da razia de Kassab. O DEM é um sobrevivente.

Fonte: Valor Econômico

Estação 2014 - Tereza Cruvinel


É prematuro apostar na candidatura presidencial do governador Eduardo Campos, do ascendente PSB. E vice, garante um político de sua intimidade, ele não será. Nem de Dilma nem de Aécio

Contados os votos, no cronômetro político a ampulheta será agora invertida e começará a contagem para a eleição presidencial de 2014. Para a presidente Dilma, dentro de dois meses estará começando o segundo biênio de seu mandato, período crucial para quem disputará a reeleição. Para produzir resultados, na verdade, ela só terá um ano, porque o segundo será consumido pela campanha. O pleito municipal colocou na roda outros dois nomes. O senador Aécio Neves (MG) só não será o candidato do PSDB se não quiser, mas é prematuro apostar na candidatura do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, do ascendente PSB. E vice, garante um político de sua intimidade, ele não será. Nem de Dilma nem de Aécio. O resultado da eleição de domingo comportou as mais diferentes avaliações, mas, com vistas a 2014, o que importa é saber quem ganhou mais músculos para a corrida rumo a 2014.

Uma leitura do pleito sugere que a dispersão partidária não deu hegemonia a nenhum partido. Essa aparência enganosa deriva do fato de que 11 partidos dividirão o comando das 26 capitais. Ou do falso equilíbrio entre PSB, que conquistou cinco, PT e PSDB, que ganharam quatro cada um. Mas, olhado sob outros prismas, a eleição confirmou a hegemonia do bloco governista e a predominância de três partidos: juntos, PT, PMDB e o oposicionista PSDB governarão localmente metade dos brasileiros. Com vistas à eleição presidencial, o que importa é saber quem terá mais prefeitos e vereadores (e deputados federais) puxando votos, quem vai gerir mais recursos públicos e vai governar mais eleitores, mediando as necessidades locais e o acesso aos cofres federais. O cidadão vive é no município, gostava de dizer Ulysses Guimarães. Então, vejamos por essa ótica.

Para começar, a recandidatura de Dilma não será pelo PT, mas pela coligação PT-PMDB, ainda que outros partidos estejam nela, como satélites. Visto assim, um sinal da hegemonia é dado pela votação obtida nos dois turnos. O PT foi campeão, com 17,2 milhões de votos, seguido do PMDB, com 16,7 milhões, e do PSDB, com 13,9 milhões. PT e PMDB juntos receberam 33,9% dos votos válidos. Em número de prefeitos eleitos, o PMDB foi campeão, com 1.024, e isso é um dos ativos que o valorizam como aliado. O PSDB ficou em segundo lugar (702), seguido do PT (635). Juntos, os partidos de Dilma terão 1.659, ou 29,8% do total. Prefeitos são cabos eleitorais importantes num país como o Brasil, mas quais são essas prefeituras? As do PMDB são mais interioranas, cobrindo áreas aonde o PT só começou a chegar em anos recentes. As do PT refletem o Brasil mais urbano e somam recursos orçamentários da ordem de R$ 77,7 bilhões. As do PMDB, R$ 60,3 bilhões. As do PSDB, R$ 42,6 bilhões, e as do PSB, R$ 37,9 milhões. A vida é dura para quem está na oposição por isso mesmo: é difícil competir com quem tem a verba e a caneta. E, por fim, buscando olhar o "bloco de Dilma" e não apenas o PT, verifica-se também a hegemonia no que diz respeito ao número de eleitores governados. Pelo menos no grupo das 85 cidades com mais de 200 mil eleitores, incluindo capitais. Também nelas verifica-se a predominância dos três maiores partidos (PT, PMDB e PSDB), mas com nítida vantagem para os da coalizão dilmista. As prefeituras petistas nesse grupo de cidades somam mais de 15 milhões de eleitores, e as do PMDB, cerca de 7 milhões, totalizando 22 milhões, fora as que serão governas por outros partidos aliados. As prefeituras tucanas congregarão 6 milhões de eleitores e as do PSDB, 7 milhões.

Em matéria de eleitores, máquina e recursos, as urnas ampliaram a hegemonia do bloco de poder construído sob o governo Lula. Mas como a política não é aritmética, esses números indicam apenas que Dilma parte para 2014 com um equipamento vantajoso, fora a alta aprovação de seu governo. Se máquina fosse tudo, Lula não teria sido eleito em 2002, desalojando os tucanos do governo federal. Apesar desses números, os eleitores mandaram mensagens alentadoras também para a oposição: estão querendo renovação na política e votando segundo critérios muito próprios. Em algumas capitais, derrotaram os governadores e até mesmo Lula.

Com que roupa?

O PSB está em festa e não é para menos. O pequeno partido que desde 1989, com o PCdoB, compunha a Frente Brasil Popular para apoiar Lula – que perdeu com ele em 1989, 1994 e 1998, e com ele ganhou em 2002 e 2006 –, agora entrou para o clube das grandes siglas. Mas, apesar da festa, o tom da conversa é cauteloso em relação a 2014 e ao papel do governador Eduardo Campos. "Em breve, ele vai nos reunir para começarmos a discutir as linhas estratégicas do partido dentro da nova configuração que saiu das urnas. Por ora, apenas uma coisa é certa: o PSB sente-se credenciado pelo povo brasileiro a participar das grandes decisões nacionais", diz o senador Rodrigo Rollemberg.

Isso pode significar qualquer coisa. Que Eduardo pode ser candidato a presidente pelo PSB ou que será um aliado de Aécio Neves em 2014. Ou que está aberto a uma recomposição com Lula, Dilma e o PT, desde que reconheçam seu peso, bem como o de seu partido. Num primeiro momento, esse parece ser o cenário mais provável, pelo menos para os próximos meses, até que o quadro sucessório ganhe contornos mais nítidos.

Fonte: Correio Braziliense

O STF, a lei e a política no Brasil - Lourdes Sola


O julgamento em curso no Supremo Tribunal Federal (STF) suscita uma unanimidade perturbadora quanto ao alcance histórico das decisões tomadas até aqui. O que se entende por alcance histórico, porém, varia muito, o que não surpreende. Os aspectos a explorar são muitos e dependem do foco do analista. Conforme se privilegiem as dimensões político-eleitoral ou institucional, a legal-constitucional, ou se adote uma perspectiva histórica fundamentalista do tipo "nunca antes neste país", ter-se-ão apostas distintas sobre o impacto das decisões do STF. Por certo, há muito em comum entre os que compartilhamos a percepção de que elas marcam um daqueles pontos de virada que geram um impulso transformador dos mores políticos e, sobretudo, das expectativas em que se baseiam os cálculos políticos. Um de seus efeitos subversivos é a reversão das expectativas gêmeas que poluíram as discussões anteriores: a da impunidade e a do ceticismo entre os indignados.

Isto posto, qual o foco privilegiado aqui? Como situar o Rubicão que atravessamos pela mão dos membros do STF e com apoio nas análises que a mídia propicia? Atenho-me a um par de aspectos em registro de médio e de longo prazos. Descarto o foco político-eleitoral pelo repúdio ao que a campanha em São Paulo conteve de cinismo de ambos os lados: de um, o argumento de que a voz das urnas equivale a uma absolvição, com o que se deslegitima o ordenamento jurídico; de outro, a tentativa de estender a um partido como o PT - cujos representatividade e compromisso com avanços sociais é inquestionável - uma condenação que todos os atores do sistema de Justiça circunscrevem a alguns de seus membros.

O alcance histórico das decisões do STF é também "geográfico", pela relevância geopolítica. Valho-me do olhar de um cientista político americano, Douglas Chalmers, que ainda nos anos de chumbo se empenhou em entender como nossa formação histórica afetava o modo de fazer política na região. Atenho-me exclusivamente à relação com a lei. Numa intuição profética, destacava "uma característica estrutural dominante" no século 20, que consistiria na instabilidade inerente tanto aos regimes autoritários quanto democráticos. Diz ele: "A razão está na percepção generalizada de que as instituições são um meio instrumental e tentativo para resolver conflitos". É a percepção de que "os conflitos se resolvem pelo choque de forças, quer dizer, politicamente, e não por referência a um conjunto fixo e estabelecido de procedimentos". Trocando em miúdos, a força da lei, quando se exerce, é sempre passível de contestação nesse tipo de Estado que Chalmers caracterizava como "o Estado politizado", por contraposição ao Estado institucionalizado.

É fácil explorar outras especificidades derivadas dessa. Por um lado, a falta de credibilidade do Estado enquanto lei, ou seja, o ceticismo quanto à sua capacidade de fazer valer o ordenamento jurídico previamente acordado. Por outro, a tendência a redefinir a lei ao sabor das resultantes dos embates políticos. Isso explica, a meu ver, seja a dificuldade de aceitar como final a intermediação do sistema de Justiça pelas partes em conflito, seja a tentação de redefinir continuamente o ordenamento jurídico. Basta lembrar as crises de sucessão durante nosso regime autoritário, ou a contínua redefinição do sistema partidário em resposta à eleições tuteladas, para situar a nossa versão de Estado politizado. Pouco que ver com o Estado autoritário institucionalizado da Espanha ou do Chile. Nos anos de chumbo, porém, a constatação dessa instabilidade congênita soava como música aos ouvidos de uma democrata.

Mas até que ponto o insight de Chalmers vale para os dias de hoje? Cabe como luva à Venezuela de Chávez, à Argentina dos Kirchners, ao Equador de Correa. Mas não se aplica ao Brasil, ao menos não nos mesmos termos (apesar da "insegurança jurídica" detectada pelos economistas). Nosso avanço se deve a um processo cumulativo de institucionalização, cuja peça central foi a Constituição de 1988 e o consequente apoderamento dos atores do sistema de Justiça, notadamente os do Ministério Público. Se é verdade que culmina hoje com a reafirmação do Estado como lei pelos membros do STF, vale lembrar que foram subsidiados pelos juízes de instrução e pelos dois procuradores-gerais que analisaram as denúncias pertinentes. As decisões do STF, portanto, aproximam-nos mais do Chile e nos distanciam dos outros vizinhos. Seu alcance potencial, no entanto, deverá ser testado, em dois registros. Um: o Estado de Direito é uma construção política coletiva e, como toda construção, pode ser fragilizado. Entre nós, está exposto à vocação restauradora que busca sobrepor legitimidade política, êxito econômico e popularidade ao império da lei. Dois: valendo para todos, depende da reiteração desse princípio, na prática, e quando cabível pelo sistema de Justiça.

É possível detectar outros desdobramentos desse impulso transformador. Minha aposta é que nos próximos anos os profissionais da Justiça deverão (re)conquistar um espaço privilegiado enquanto atores políticos. Similar ao dos economistas, na esteira das democratizações marcadas pela crise econômica e por megainflações. O espaço reservado na mídia ao debate político centrado na economia foi e é uma das características distintivas da nossa democratização, pela quantidade e pelo vigor. Entra em cena agora o debate político centrado na Justiça e o aprendizado que isso exige de nós, leigos. E dos próprios especialistas obrigados a renunciar ao aconchego de seu dialeto. A exposição pública é essencial: pela exemplaridade da argumentação cerrada, da tolerância pelo contraditório, pela contestação da defesa e pelas tensões entre os ministros relator e revisor. Contribui para a redução de um dos hiatos que caracterizam a nossa (e toda) democracia: entre o acesso instantâneo às informações e a capacidade dos cidadãos leigos de elaborá-las.

Cientista política, professora aposentada da USP, ex-presidente da Associação Internacional de Ciência Política, membro de Academia Brasileira de Ciêncais, é autora de 'Democracia, mercado e estado' (fgv, 2011), seu livro mais recente

Fonte: O Estado de S. Paulo

Eduardo promete colocar PSB à disposição do País


"Vamos colocar o PSB à disposição do País"

Entrevista - Eduardo Campos

Assim como fez ao final do primeiro turno, o governador e presidente nacional do PSB, Eduardo Campos, concedeu entrevista coletiva ontem para comentar o resultado das eleições municipais. O socialista voltou a destacar o desempenho de seu partido, que venceu em seis dos sete municípios onde disputou o segundo turno, e governará cinco capitais a partir de 2013. Também falou da relação com a presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula. Abaixo, os principais pontos da entrevista.

Resultado

Vamos pegar os indicadores. O PSB cresceu 42% no número de prefeitos eleitos, enquanto o segundo maior crescimento foi do PT, com 14%. Todos os demais partidos tiveram queda. Quando vamos para o número de pessoas que moram nas cidades que os partidos governam, nós crescemos 101%, enquanto o segundo colocado, que foi o PT, cresceu 36%. Além disso, o partido que mais governa capitais é o PSB, com cinco, enquanto PT e PSDB ficaram empatados, com quatro cada. Mas um indicador extremamente importante é que chegamos ao índice de reeleição de 72%, quando a média dos outros partidos fica na faixa de 50%. Claro que tivemos candidatos que foram à reeleição e perderam. Aí cabe a cada diretório municipal avaliar o que houve e o que precisa ser corrigido. Nossa orientação para os que perderam é esfriarem a cabeça, fazerem uma análise, uma autocrítica, para voltarem a vencer no futuro.

Futuro

Quem ganha a eleição ganha também responsabilidades, e é preciso saber usar a vitória e a força política para fazer aquilo que interessa ao País. Queremos que essa força política que o PSB adquiriu nesta eleição seja colocada à disposição do País para as boas causas. O próximo passo é cuidar de ajudar os que ganharam em 442 municípios em nome do PSB para que possamos prepará-los para fazerem o melhor a partir de janeiro. Faremos um seminário nacional nesta quarta-feira, onde basicamente teremos uma análise de conjuntura, para que os prefeitos tenham ideia de como será o primeiro ano das administrações, os passos para uma boa gestão, as experiências que deram certo.

Dilma

Nós temos uma relação de grande respeito e muita consideração com a presidente Dilma. Estamos na base de sustentação do seu governo, ajudamos no processo eleitoral porque vimos nela qualidades para ser presidente da República. No processo, é um direito de cada um de dizer o que acha da relação que temos com Dilma, que continua a ser uma relação de companheiros. Conversei com ela (Eduardo interrompeu a entrevista para atender um telefonema de Dilma, que durou cerca de 15 minutos), falamos sobre vários assuntos administrativos e ficamos de ter uma conversa nos próximos dias.

Aliado

Se fizer um levantamento, nos principais embates vividos pelo governo federal o PSB sempre esteve ao lado das posições de Dilma. Estamos olhando para a frente. É nossa responsabilidade ajudar nesse momento. Já tem muita gente para criar problemas para a presidente Dilma. Nós queremos ajudá-la a criar soluções e a tocar a pauta que interessa à população nesse momento.

Divergências

O Comitê Estadual de Estiagem foi criado a pedido da própria presidente Dilma. Fizemos uma reunião, que produziu um documento encaminhado para o Comitê Nacional, e foi por solicitação da própria presidente que encaminhássemos a ela as notícias sobre o andamento da questão de estiagem. Por isso remetemos uma cópia daquele relatório, que segue normalmente para o Comitê Nacional, para a presidente, em função do agravamento da seca que a Imprensa vem noticiando. No que tange à questão da energia, é claro que não é natural que se leve 3h40 para religar um sistema em tantos Estados quando ele cai. O fato de haver um apagão tem que ser apurado por quem tem espertise e responsabilidade legal para isso.

PT-PSB

No primeiro turno, o PSB foi o partido que mais apoiou o PT. Claro que o que é notícia é onde o PSB não está com o PT. No segundo turno, das 17 cidades em que o PT esteve disputando, o PSB apoiou em onze. Onde não estávamos juntos, em regra, era porque estávamos disputando contra eles e obtivemos vitórias. Vencemos em Porto Velho, Cuiabá, Fortaleza, Campinas e Petrópolis (nesta última, o PT apoiou o candidato do PMDB). Só em Caxias é que o PT nos apoiava desde o primeiro turno.

Câmara

Normalmente, a direção do partido não interfere nesse debate, que é próprio do Legislativo. E pelo que sei, ainda não foi iniciado.

Lula

Conversei sábado com o ex-presidente Lula (PT), e ele recordava o quanto foi importante a decisão do PSB de apoiar Fernando Haddad (PT) desde o primeiro momento em São Paulo. Acho que cada um fala o que deseja falar. Falaram muito sobre a relação de Lula comigo, está cheio de notícias nesses últimos 100 dias. O mais importante é o fato. E o fato é outro, é que uma relação de tantos anos, que passou por momentos tão duros e momentos tão bonitos da vida política brasileira nos últimos 20 anos ou mais, não vai ficar ao sabor do disse-me-disse de quem se interessa por intrigar as pessoas. O ex-presidente Lula tem uma extraordinária experiência de vida e muita maturidade, eu também tenho alguma, para sabermos colocar cada coisa no seu lugar. Fiquei muito feliz de poder cumprimentá-lo pelo seu aniversário (no sábado), como faço todos os anos, por poder conversar com ele, na véspera de um dia feliz, ganhando uma eleição que ele se esforçou muito para ganhar, e por PSB ter tido a oportunidade de ajudar para que essa vitória acontecesse. Todos vamos torcer muito para que Haddad faça um grande governo.

2014

É muito cedo para sabermos qual será a conjuntura que se viverá em 2014. Será preciso a gente viver para ver. É muito cedo para saber qual será o cenário, como o Brasil vai estar, o que vai acontecer. Para o Brasil, para o governo da presidente Dilma, quanto mais a gente deixar 2014 para 2014 será melhor para que a gente possa conseguir um diálogo nacional. Há uma série de pontos que são estratégicos para o Brasil estar bem em 2014. Quanto mais a gente antecipar as disputas, com certeza a gente vai acumular dificuldades num cenário que já tem dificuldades que não dependem apenas de nós. Essa conjuntura internacional é algo bastante complexo, e a gente precisa compreender de maneira muito aguda o que está acontecendo no mundo para tomar as decisões aqui sobre qual será o caminho do País.

Fonte: Jornal do Commercio (PE)

Desempenho qualifica PPS para 2014, diz Roberto Freire


Luis Zanini

O presidente nacional do PPS, deputado Roberto Freire (SP), classificou de “bom” o desempenho do partido no segundo turno com a eleição de prefeitos em Vitória (Luciano Rezende), Cariacica (Juninho) e Ponta Grossa (Marcelo Rangel) e disse que as vitórias qualificam o partido para a disputa eleitoral de 2014.

“Para um pequeno partido, o desempenho foi bom. Talvez tenha sido o melhor dentre os pequenos que disputaram o segundo turno da eleição”, analisou Freire, ao parabenizar os eleitos.

Segundo ele, a tarefa dos pepessistas eleitos será administrar da melhor forma possível as três cidades. “Temos que preparar boas administrações e nos qualificar onde formos oposição”, afirmou.

Freire disse ainda que as conquistas fortalecem o partido para as eleições de 2014. “Vamos para as eleições presidenciais com candidatura [própria] ou em aliança, mas formando uma grande frente para recuperar as instituições democráticas aparelhadas e hegemonizadas pelo PT”, finalizou.

Fonte: Portal do PPS

Aécio contesta Lula e diz que oposição não foi dizimada


Senador tucano elogia Serra, mas concorda com FH sobre renovação

Maria Lima

SÃO PAULO - Ausente de toda a campanha do correligionário José Serra na disputa com o prefeito eleito Fernando Haddad, o senador Aécio Neves (PSDB-SP) desembarcou ontem na capital paulista para visitar o presidente do PSDB, deputado Sérgio Guerra (PE). Aécio não quis dar conotação política ao encontro, mas nas primeiras análises após eleições, rebateu a interpretação do ex-presidente Lula de que o PSDB foi dizimado nas regiões Sul e Sudeste. Lembrou que é os tucanos governam Minas Gerais, São Paulo e Paraná, o que representa quase 50% do eleitorado dessa região, além de vitórias, em Pelotas e Blumenau, contra candidatos do PT.

Segundo Aécio, com exceção da capital São Paulo, entre as 50 maiores cidades com mais de 200 mil habitantes, no segundo turno, a oposição (PPS,DEM, PSOL e PSDB) cresceu de 10 para 25 cidades; e o PT caiu de 22 para 16:

- Acho que o ex-presidente Lula não teve tempo de analisar os resultados dessa eleição. Houve uma dispersão muito grande de forças e o PSDB tem os governos de Minas, São Paulo e Paraná, nas regiões Sul e Sudeste. Que outro partido tem uma posição tão sólida nessa região quanto o PSDB? O PT caminha a uma grande velocidade para os grotões, perdendo nas 85 médias e grandes cidades - disse Aécio.

Sérgio Guerra permaneceu com a família em São Paulo após receber alta do hospital Sirio-Libanês na última quinta-feira. Ele se recupera da retirada de um tumor na base da cabeça, atrás do pescoço, ainda sem diagnóstico sobre malignidade ou não.

Como na campanha, quando fez campanha para o candidato do PSB Jonas Donizetti em Campinas, mas não em São Paulo, Aécio foi ontem à capital mas não se encontrou com Serra. Mas reconheceu que ele se sacrificou pelo partido ao aceitar a candidatura.

Os aecistas rejeitam a possibilidade de Serra ser acomodado na presidência do partido. Acham que isso não pode ser um prêmio de consolação, o que só complicaria o processo de articulação para 2014, quando o senador mineiro deverá ser indicado para disputar a Presidência da República.

- O Serra vai ter sempre um papel importante no partido. Mas ele, como eu, sabe que só temos uma chance de que nosso projeto alternativo de poder saia vitorioso em 2014: que o partido esteja unido. Sobre a presidência do PSDB, esse assunto não está na pauta. Mesmo porque Sérgio Guerra está no pleno exercício do mandato - disse Aécio.

Sobre a avaliação de Lula - de que o PSB está crescendo e tomando o espaço da oposição - Aécio demonstrou tranquilidade. Disse que o PSDB tem um aliança natural com o PSB, e que cabe ao PT se preocupar com o crescimentos dos socialistas nas eleições:

-Essa é uma leitura que pode ser feita de forma invertida. O PSB participou de muitas campanhas vitoriosas ao nosso lado, derrotando candidatos do PT. Nós do PSDB vemos com simpatia o crescimento do PSB, enquanto o PT vê como ameaça ao seu crescimento hegemônico - disse Aécio.

"Amigo e companheiro Serra"

Aécio admitiu que Serra fez um sacrifício ao aceitar disputar a prefeitura de São Paulo, a pedido do partido. E disse que isso precisar ser reconhecido:

-Lamentavelmente, meu amigo e companheiro Serra não conquistou a vitória, obteve quase três milhões de votos, grande homem, com grande experiência. Todavia nossa luta por um Brasil justo, humano e honesto continua - disse.

Aécio, porém, apoiou a declaração do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, de que o PSDB precisa se renovar:

-O PSDB já vem fazendo isso. O Daniel, em Recife, teve um desempenho extraordinário. Crescemos com novas lideranças também em Belém, Teresina e com o nosso líder Bruno Araújo, na Câmara. Tivemos bons resultados nessa eleição com o perfil de novas lideranças - disse.

Fonte: O Globo

Prevaleceu a intuição de Lula – O Estado de S. Paulo / Editorial


E, afinal, manteve-se o padrão nesta cidade onde, em sete eleições sob o regime democrático, apenas um prefeito (Paulo Maluf) conseguiu fazer o seu sucessor (Celso Pitta) e apenas um (Gilberto Kassab) conseguiu se reeleger. Nas suas avaliações, o ex-presidente Lula há de ter levado em conta esse retrospecto, quando decidiu transformar a disputa pela Prefeitura paulistana no teste de vida ou morte para a sua obsessão de tirar do PSDB a liderança política no Estado onde também o PT tem as suas raízes. Mas, ao impor ao partido a candidatura do ministro da Educação Fernando Haddad, como fizera em 2010 com outra novata em eleições, Dilma Rousseff, ele decerto intuiu que não bastaria dar uma nova chance à ex-prefeita Marta Suplicy, derrotada em duas eleições consecutivas e ávida pela desforra, para que a tradição da alternância se confirmasse por inércia. Esse foi o seu primeiro achado. O segundo consistiu na escolha do "poste" da vez.

Jovem, professor universitário, de classe média, bons modos e boa estampa, que poderia passar perfeitamente bem por um tucano de carteirinha, Haddad tinha o perfil certo para ser aceito por uma parcela eventualmente decisiva do eleitorado antipetista majoritário no centro expandido da capital. Lula aprendeu com o passado que esse devia ser o público-alvo da campanha, para trazer os votos que as zonas sul e leste fiéis não poderiam suprir por si sós. Faltou prever que uma figura familiar nessas extensões tivesse a esperteza de ocupar o lugar reservado para o nome do PT, de quem muito poucos tinham ouvido falar. Mas a inesperada ascensão de Celso Russomanno se converteu em queda livre quando, escoltado por Lula e Dilma, Haddad mostrou os seus documentos no horário eleitoral - enquanto o adversário insistia na proposta desastrosa, pronta para ser demolida, de fixar as tarifas de ônibus por distância percorrida.

Restabelecida a arraigada polarização PT-PSDB, Serra "se enforcou na própria corda", como diria, no habitual tom azedo, Marta Suplicy. Ele carregou campanha acima o peso de ter largado a Prefeitura aos 15 meses de mandato e a servidão da grande impopularidade do seu vice e sucessor, Kassab. Além disso, ignorou que os eleitores não gostam em geral de candidatos agressivos e atacou Haddad com as armas do "kit-gay" e do mensalão - as duas negaram fogo. Deu no que deu: em proporção, o tucano perdeu nos redutos do PT mais do que ganhou nas suas zonas de conforto. Em sete dessas, aliás, a maioria preferiu o oponente. O mesmo se deu nas sete regiões indefinidas, ou pendulares. Em suma, eleitores não petistas e até antipetistas ou se abstiveram, votaram em branco e anularam o voto (cerca de 30% do total) ou preferiram Haddad, ajudando a fazer de Lula o grande vencedor singular do ciclo eleitoral deste ano.

Em âmbito nacional, o PSB do governador pernambucano Eduardo Campos roubou a cena, aumentando em 42% - para 441 - o estoque de municípios conquistados. Kassab, apesar do naufrágio em São Paulo, também fez boa figura na estreia eleitoral do seu PSD, com 497 vitórias, quase sempre em cidades pequenas. O segundo turno, de todo modo, manteve nos seus postos a elite do sistema partidário. Embora a taxa de reeleição tenha despencado para 55% nas capitais e 11 siglas tenham conseguido eleger prefeitos nessas 26 praças, apenas 4 partidos governarão a partir de janeiro 60% dos 140,6 milhões de eleitores brasileiros. São eles, pela ordem, PT, PMDB, PSDB e PSB. As mesmas quatro legendas (com o PMDB e o PSB trocando de lugar) controlarão os 83 municípios com mais de 200 mil eleitores, onde pode haver dois turnos.

O quadro é semelhante no conjunto dos 5.556 municípios do País. Pouco mais da metade deles (51%) será administrada ou pelo PMDB (1.027 prefeitos), ou pelo PSDB (702), ou pelo PT (635), ou pelo PSD (com os já citados 497). Mas o PMDB é tipicamente o partido das cidades médias para menos. À parte o PSB, o PT foi o partido que revelou a mais firme trajetória de alta, com um ganho de 14%. O êxito de Haddad em São Paulo tornou a consagrar a liderança de Lula, compensando as derrotas que sofreu em outros embates do segundo turno que fez questão de travar ostensivamente. Ainda assim, o PT só levou 16 das 83 maiores prefeituras do País.

Nelson Rodrigues e o mensalão - Arnaldo Jabor


Depois de muito tempo, falei ontem com Nelson Rodrigues no velho telefone preto que ele atende lá no céu, entre nuvens de algodão e estrelas de purpurina. Ele riu ao telefone:

- Você só me liga quando está em crise? A crise é tua ou do país?

- Nelson, sou parte dos detritos da nação.

- Não faz frase, rapaz, olha a pose... Este momento do país é maravilhoso: o Brasil está assumindo a própria miséria, a própria lepra... Os brasileiros deviam se agachar no meio-fio e beber dessa sagrada lama que apareceu, com o "negão" bisneto de escravos abolindo a corrupção... Ali está a salvação. Finalmente, os marxistas de galinheiro estão aparecendo no relatório do STF. É impressionante ver as trapalhadas que fizeram; achavam que ninguém estava vendo. Eles são parte dos cretinos fundamentais que infestam o país e se escondem sob a capa da "revolução". Antigamente, o cretino se escondia pelos cantos, envergonhado da própria sombra; hoje, se você subir num caixotinho de querosene "Jacaré" e falar "meu povo", eles formam uma multidão de Fla x Flus.

Você pegue o Prestes, por exemplo; ele só fez errar, na vida. Tudo que ele quis deu zebra, de 1935 até o fim... No entanto, quem falar mal do Prestes leva um dedo na cara: "Não admito, ouviu?!" Durante 30 anos organizaram um partido e chamaram os intelectuais, que fizeram um carnaval danado, transformando o Lula num "Padim Ciço". Mas, quando chegaram ao poder, debaixo de papel picado, resolveram se suicidar como as virgens do meu tempo: ateando fogo às vestes. Daí, a verdade inapelável: os comunistas odeiam governar; só querem "tomar" o poder para entrar nas boquinhas, com a mentira de serem "socialistas". Eles acham a democracia uma vigarice burguesa para enganar as massas.

- Mas... Nelson... o proletariado sob o capitalismo...

- Para com isso, rapaz; o Homem é capitalista... Existe mercado desde o tempo dos macacos disputando minhocas no buraco... Só os cegos acreditam na "utopia" e só os profetas enxergam o óbvio. O óbvio é um Pão de Açúcar que ninguém vê. E o óbvio é que os petistas queriam fazer a "revolução" com o mensalão, ali na cara do Lula. Mas, foram mexer com a única coisa proibida: com o canalha brasileiro. O canalha é um patrimônio da nacionalidade.

Desde Tomé de Souza que roubam sem parar. Pois, os canalhas estavam quietos, metendo as mãos nas cumbucas do Estado, quando de repente apareceu o Zé Dirceu, achando que ia passar-lhes a perna. Os canalhas olharam maravilhados aquela burrice dos petistas e sacaram na hora: "Esses comunas acham que a gente é babaca? É tudo mané!..." Dirceu prometia grana mas não pagava na hora, humilhando a gangue aliada. Eles piscavam cinicamente uns para os outros, contendo o riso e preparando o bote: "Perfeitamente, camarada Dirceu..."

- Você acha o quê do Dirceu?

- Ele me fascina. Eu o conheci em 67, por aí... Ele vivia atracado em postes, como vira-latas... Explico: o Dirceu não podia ver um poste que ele trepava em cima e escrachava o capitalismo. Você sabe que os comunas tratam o capitalismo como uma pessoa: "Hoje o capitalismo acordou de mau humor, o capitalismo tem de morrer!!!" Eles falam no tal do "neoliberalismo" como se os grandes empresários de cartola tivessem resolvido: "Vamos fundar este neoliberalismo para acabar com aqueles trouxas!" Acham que a IBM, a Coca-Cola e a GM estão dando gargalhadas de bruxa de peça infantil.

A velha esquerda não entendeu até hoje a grande lição de Marx: quem manda são as mercadorias, quem manda é a salsicha. Ninguém controla o Mercado. Aliás, o Marx está ali numa nuvem, exalando cava depressão. Bem, como eu ia dizendo, o Dirceu vivia trepado em postes, falando da "utopia", que ninguém sabia o que era. Alguns sujeitos rosnavam: "Quem é essa tal de Utopia? É a mulher dele?"

Pois um dia o nosso Dirceu encontrou o Lula. Foi uma festa. O Lula era o "robô" perfeito para os petistas intelectuais: operário, foice e martelo, barba e sem dedo - tinha tudo para se tornar um símbolo de santidade, um messias da USP, onde as professoras se estapeavam para pegar um autógrafo do "proletário". Os bolchevistas, desempregados desde 68, se deram bem quando Lula chegou ao poder: "Vamos desapropriar a grana desse Estado burguês para conquistar nossos objetivos populares." Aí, apareceu o Dirceu esfregando as mãos: "Oba!... Deixa comigo, Lula!" E virou "primeiro-ministro". O Lula achou ótimo porque estava em fremente lua de mel consigo mesmo, segredando para dona Marisa: "Ei, mãezinha, quem diria, nós aqui, hein...?" E nem ligava: "Deixa que o Dirceu resolve!" E ia beijar rainhas e reis, lambido pelos granfinos internacionais. Foi aí que surgiu o Jefferson, denunciando o comandante da "revolução corrupta".

Jefferson saiu da mentira para a verdade e o Dirceu da "verdade" para a mentira. Um é o espelho invertido do outro. O Jefferson e Dirceu são a essência do Teatro: protagonista e antagonista. A maior peça do teatro brasileiro foi o duelo dos dois na Câmara. O país parou como no Brasil x Uruguai. Os dois juntos levantaram a cortina do erro brasileiro. O Jefferson, que tinha passado a vida escondido na própria gordura, se esgueirando por estatais e fundos de pensão, descobriu a deliciosa alegria do sucesso. Ninguém foi mais feliz que o Jefferson naqueles dias, espojando-se na verdade, regozijando-se no papel de herói ao avesso, abrindo o alçapão de ratos... E Dirceu se deu bem também, apesar da condenação no STF.

Ele ficou livre de sua "revolução" fracassada, finalmente no ansiado martírio, o único sossego dos paranoicos. Jefferson fez o maior tratado de sociologia política da vida nacional e Dirceu fez uma revolução inesperada - queria um socialismo stalinista e acabou fortalecendo a democracia.

- Mas, Nelson, qual o futuro disso tudo?

- Não há mais futuro, rapaz... Mas, garanto que um dia Jeff e Zé terão uma estátua em bronze - os dois sob os braços de uma grande deusa nua: a República celebrando seus heróis. Rapaz, isso é o óbvio: Dirceu e Jefferson salvaram o Brasil!

E desligou.

Fonte: Segundo Caderno / O Globo

Beth Carvalho - As rosas não falam (Cartola)

Oficina Irritada – Carlos Drummond de Andrade


Eu quero compor um soneto duro
como poeta algum ousara escrever.
Eu quero pintar um soneto escuro,
seco, abafado, difícil de ler.

Quero que meu soneto, no futuro,
não desperte em ninguém nenhum prazer.
E que, no seu maligno ar imaturo,
ao mesmo tempo saiba ser, não ser.

Esse meu verbo antipático e impuro
há de pungir, há de fazer sofrer,
tendão de Vênus sob o pedicuro.

Ninguém o lembrará: tiro no muro,
cão mijando no caos, enquanto Arcturo,
claro enigma, se deixa surpreender.

Casamento do Céu e do Inferno
No azul do céu metileno
a lua irônica
diurética
é uma gravura de sala de jantar.

Anjos da guarda em expedição noturna
velam sonos púberes
espantando mosquitos
de cortinados e grinaldas.

Pela escada em espiral
diz-que tem virgens tresmalhadas,
incorporadas à via-láctea,
vaga-lumeando...

Por uma frincha
o diabo espreita com o olho torto.