terça-feira, 10 de março de 2015

Doação a políticos é empréstimo a ser cobrado com juros altos, diz delator

• Não há financiamento de campanha, mas empréstimos depois cobrados com juros altos, afirma Paulo Roberto Costa

• Ex-Petrobras, delator explicou que nomeação em estatais pressupõe que o indicado favoreça o partido que o indicou

Severino Motta – Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - Em seus depoimentos, o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa afirmou que não há doações para campanhas políticas no Brasil, mas "empréstimos" que posteriormente são cobrados com "juros altos" de quem recebeu os recursos para se eleger.

Falando ao Ministério Público sobre a dinâmica das eleições, ele afirmou que os gastos declarados oficialmente com campanhas representam normalmente um terço do que verdadeiramente é usado nos pleitos. O restante seria proveniente de recursos ilícitos ou não declarados.

"O depoente menciona que é uma grande falácia afirmar que existe "doação de campanha" no Brasil, quando na verdade são verdadeiros empréstimos a serem cobrados posteriormente a juros altos dos beneficiários das contribuições quando no exercício dos cargos", diz trecho do resumo da delação enviada ao STF (Supremo Tribunal Federal).

Em alguns casos da Lava Jato, o Ministério Público entende que doações legais a políticos e partidos faziam parte do esquema criminoso. Conforme essa tese, esses valores seriam abatidos das propinas distribuídas.

Costa também destacou que nas empresas públicas só chegam a cargos de alto comando pessoas indicadas por partidos. Assim, caso o nomeado não atenda aos interesses das siglas, é "imediatamente" substituído.

"Uma vez ocupando o cargo de diretor por indicação política, o grupo político sempre demandará algo em troca; que toda indicação política no país para os cargos de diretoria pressupõe que o indicado propicie facilidades ao grupo político que o indicou, realizando o desvio de recursos de obras e contratos firmados", diz outro trecho.

Sobrepreço
Ao detalhar o esquema de desvio de recursos, Costa explicou que em obras grandes, como as da Petrobras, havia um esquema de jogos de planilha para superfaturar preços e garantir os recursos para o esquema criminoso.

Compras em grandes volumes permitiam cobrar valores maiores pelos itens, gerando assim os recursos que seriam usados como propina.

"Nestas grandes obras de engenharia é extremamente difícil [se identificar irregularidades], uma vez que o volume de determinados itens, como por exemplo tubos, permite que uma pequena variação do valor, como R$ 5, possa gerar valor final bastante expressivo."

Ainda de acordo com Paulo Roberto Costa, a detecção do esquema se tornava mais difícil uma vez que havia preços diferentes dos produtos no mercado nacional e internacional, embaralhando o cenário e os preços cobrados por diferentes empresas.

'Não é hora de afastar Dilma nem de pactuar', diz FHC

Entrevista - Fernando Henrique Cardoso

• Para ex-presidente, PT tenta atribuir impeachment a tucanos e Lula prefere acusar PSDB de 'maus' a querer dialogar

Eliane Cantanhêde – O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO - O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, principal líder do PSDB e, portanto, da oposição, já tem uma posição clara diante da crise: nem apoio ao impeachment, nem pacto com o PT. Em entrevista ao Estado, ontem, FHC disse que o horizonte mais provável é de que o governo "fique cozinhando o galo em fogo brando" nos próximos quatro anos. Mas ressalvou que, em política, "nada é impossível". E criticou Lula: "Ele quer é acusar. Ele é o bom, nós somos os maus. Então, não há como dialogar com quem não quer dialogar".

Como o sr. vê a situação hoje?

Como todo brasileiro, com muita preocupação. Sem esperança, não vendo uma saída. É um momento bastante sombrio.

A ponto de ter impeachment?

Impeachment não é uma coisa desejável e ninguém se propõe a liderar isso. O PT usa o impeachment para dizer que o PSDB quer, mas não é verdade. Impeachment é como bomba atômica, é para dissuadir, não para usar.

O panelaço de domingo e a manifestação de 15 de março podem mudar alguma coisa?

Essa manifestação vai ser realmente grande, mas é produto das redes sociais, de vários setores da sociedade, independentes uns dos outros, por motivos diferentes. E totalmente independente dos partidos.

Dá para comparar com 2013?

Sociologicamente, vai ser uma comparação interessante. Em 2013, era contra tudo, agora é direcionada contra o governo. Mas vamos esperar para ver. O PSDB faz bem em não chamar para a rua. A rua, neste momento, não é dos partidos, é do povo. É o povo que vai para a rua.

Se as manifestações forem num crescendo, o sr. não vê horizonte de impeachment?

Eu não posso dizer que seja impossível, porque as coisas não são assim em política. Mas o horizonte mais provável não é que vá para esse lado.

E o peso da Petrobrás na crise?

É muito grande. A Petrobrás é uma empresa vital para o Brasil. A despeito das intrigas do PT, sobretudo do Lula, de que queríamos privatizar a Petrobrás, isso tudo era uma grande mentira. Não cabe privatizar a Petrobrás. Cabe, sim, despolitizá-la, despartidarizar a Petrobrás.

Como o sr. vê agora a venda de R$ 39 bilhões em ativos?

Vai vender na bacia das almas, no pior momento. Isso, sim, é contra o interesse da Petrobrás e do Brasil. No limite, a crise real é política, é de confiança. Sem confiança, não se cria esperança. Sem esperança, a recessão é só recessão, o ajuste é só o ajuste, só um mal estar.

Na TV, a presidente disse que tudo isso é passageiro, até o final do ano. Há condições?

A quebra de confiança foi grande. Não se refaz do dia para a noite.

E a crise no Congresso?

O governo criou caso com a própria base, então fica difícil. A presidência do Senado devolveu a medida provisória das desonerações. Foi um ato de rebeldia e força. É um sinal de que o processo congressual está descontrolado e não vejo como este governo tenha como reagir à altura. É muito ruim que o governo não reconheça nenhum erro.

Foi o FHC?

Foi o FHC! É patético, mas eu fico até envaidecido, porque, depois de mais de 12 anos, eu até fico pensando: 'Meu Deus, que força que eu tive!'

O envolvimento de 47 políticos na Lava Jato ajuda o Planalto?

De certo ponto, sim. Mas acho que o importante para o Planalto é dar eficiência ao Congresso, para conseguir as votações do ajuste. Isso não dá eficiência ao Congresso, muito pelo contrário. Dá é paralisia.

Alguma comparação histórica com o momento atual?

Eu só vi uma situação parecida em 1963, quando houve um descolamento entre o Congresso e o governo, e o governo foi perdendo a capacidade de governar. Quando o Congresso percebe que o Executivo não tem agenda, está tonto, fazendo uma agenda que não é a dele, o Congresso fica mais inerte. E, se você perde a força aqui, você perde a força no mundo.

Alguma conexão com Collor?

Não creio. A conexão com o Collor é que ele não sabia como manejar com o Congresso, não tinha amor pelo Congresso, ficava isolado. Nesse sentido, há alguma similitude, mas só nisso. Na época, a sociedade sancionou o impeachment, Collor não reagiu e os partidos tinham condição de operar a transição. Não vejo a mesma coisa hoje.

A crise joga o PMDB para o PSDB?

Não para o PSDB, mas para a oposição. O PMDB já está na oposição e com razão. Que ministérios eles têm? Qual o peso deles? Não tem. O PMDB não participa da negociação política, das decisões do governo.

O senador Aloysio Nunes fala em "deterioração controlada" nos próximos quatro anos. Se as ruas são movidas pelas redes sociais e faltam lideranças políticas, quem pode controlar o quê?

O PSDB está digerindo a crise, tentando entender até onde vai ela. O que ele quis dizer é que não haverá uma ruptura, as coisas vão ficando mais desengonçadas, mas se mantêm.

Quatro anos não é muito?

É uma possibilidade. Nós já vimos outras fases assim, quando os governos vão cozinhando o galo em fogo brando. A novidade é que a sociedade está mais inquieta, mais ativa. Se os partidos e os líderes políticos não responderem, eles perdem força. Um desafio para todos nós.

Na redemocratização, no Collor, nos momentos graves, havia grandes líderes no Congresso, na sociedade, no empresariado, na Igreja, na área militar. E hoje?

Esse ponto é muito importante. A crise hoje não é só dos partidos, é mais ampla. Você tem dificuldade até de diálogo com a sociedade. Um exemplo. No passado, você tinha cardeais que sabia o nome, conhecia pessoalmente, como o d. Paulo. Até hoje, você fala e todo mundo sabe quem são. Agora, não. E isso vale para a OAB, ABI. A UNE virou departamento de um partido. Mesmo na área empresarial, não vejo quem são as lideranças com quem você possa dialogar num momento como este.

No Congresso, não é pior? Os presidentes da Câmara e do Senado estão sendo investigados.

Bem, até que esses dois atuam e, no próprio PSDB, raramente nós tivemos uma bancada de senadores tão poderosa. Só não sei no que vai dar tudo isso da Lava Jato. E tem uma coisa: a circunstância é que faz as lideranças. O desafio é tão grande que vai empurrar as lideranças, senão para controlar a onda, porque às vezes é impossível, pelo menos surfar nela.

A inclusão do senador Anastasia enfraquece o PSDB?

Ele foi posto lá para isso.

Por quem, presidente?

Ora, quem? O responsável final é o procurador. A acusação é vaga, parece história da carochinha. Se encontrarem, vale aquilo: errou, pagou. Mas acho que não vai chegar a isso.

Qual a viabilidade de conversas entre o sr. e o ex-presidente Lula e de um pacto PT-PSDB?

Qual seria o significado de um encontro meu com o presidente Lula? Ele tem que, primeiro, pacificar lá a situação do partido dele. E qual é a pauta? Nunca me neguei a discutir uma pauta. Agora, essa discussão não pode ser um conchavo, tem que ser uma discussão sobre como melhorar a situação política, econômica e social. Quais são os itens? Dá para convergir? Não dá? Mas a visão do presidente Lula não é essa, ele quer o contrário, quer acusar. Ele quer dizer quem são os bons, quem são os maus. Ele é o bom, nós somos os maus. Então, é quase impossível. Não há como dialogar com quem não quer dialogar.

E a convocação que ele fez ao "exército do Stédile"?

É uma retórica preocupante, porque quem foi presidente da República não tem o direito de brincar com questões sérias. Convocar para a briga e menosprezar inclusive o Exército, porque citou um outro exército, é indesculpável. Todo mundo está vendo o que está acontecendo aqui. Um descalabro.

A crise pode dividir o Brasil como na Venezuela?

Espero que não e espero que aqui não seja meio a meio. Se o Lula insistir na divisão, ele vai ficar com 20%.

Siglas de oposição dão suporte para protestos do dia 15

• PSDB, DEM, PPS e SD chamam filiados para atos e se reúnem com grupos anti-Dilma; maioria, porém, tenta se desvincular da bandeira do impeachment

Pedro Venceslau, Valmar Hupsel Filho - O Estado de S. Paulo

No momento em que o governo enfrenta a sua pior crise política desde que Luiz Inácio Lula da Silva da Silva chegou ao poder em 2003, os partidos de oposição decidiram aderir aos protestos marcados para o próximo domingo contra Dilma Rousseff. Uma das bandeiras dos manifestantes é o impeachment da presidente.

PSDB, DEM, PPS e Solidariedade, as principais siglas de oposição, vão dar suporte formal e informal aos atos programados para todo o País.

No PSDB, a ordem é incentivar a participação de filiados nas todas as manifestações. Dirigentes e parlamentares do partido têm se reunido com grupos organizados favoráveis ao impeachment. Para os tucanos, porém, não é hora de pedir formalmente a saída da presidente. "Não quero que ela saia, quero ver o governo sangrar, não quero ser governado pelo (vice-presidente) Michel Temer", diz o senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP).

"Estive com pessoas que integram três grupos: Vem pra Rua, Brasil Livre e Onda Azul. São movimentos com visões diferentes, mas há um denominador comum de que o discurso deve ser mais amplo do que só o 'Fora Dilma'. O protesto é contra o rumo do atual governo", afirma o senador.

A atuação do Solidariedade, cujo presidente nacional, o deputado federal Paulinho da Força (SP), até encomendou aos seus advogados um parecer jurídico para embasar um pedido forma de impeachment na Câmara, será intensa no domingo. "O Solidariedade participará com bandeiras, camisetas e três carros de som", diz o deputado.

Política. "Nós do PPS vamos ao ato com bandeiras do Brasil. Queremos quebrar esse preconceito de que a manifestação não pode ser política", afirma o ex-deputado Roberto Freire, presidente nacional do PPS. "A discussão sobre o impeachment presta um serviço à sociedade. Setores do partido defendem que adotemos essa palavra de ordem, mas eles não são majoritários", diz o dirigente.

Grupos preveem atos em 32 cidades no país

• Movimentos que organizam protestos no domingo divergem sobre pedido de impeachment de Dilma

Julianna Granjeia e Tiago Dantas – O Globo

SÃO PAULO e RIO - Os grupos que estão organizando protestos contra a presidente Dilma Rousseff (PT) no próximo domingo compartilham a insatisfação com o governo federal, mas divergem sobre um pedido de impeachment. Ativos na internet, onde já somam dezenas de milhares de seguidores, esses grupos se dividem entre os que reivindicam para já a adoção dessa medida, contra outros que ainda esperam por um fato que dê margem legal a uma decisão dessa natureza.

Até ontem, havia atos confirmados em 32 cidades no Brasil, além de Boston, nos Estados Unidos, e Sidney, na Austrália, segundo levantamento do Movimento Brasil Livre. A organização, que defende o liberalismo econômico e a participação mínima do Estado na economia, se posicionou a favor do impeachment, segundo um dos seus coordenadores, Kim Kataguiri:

- A pauta principal é o impeachment. Já há pareceres jurídicos que embasam isso. Se a presidente não falhou por dolo, falhou por culpa.

O movimento Vem Pra Rua, que também tem divulgado os protestos na internet, se diz contra o impeachment. Comandado por cerca de 20 empresários, o grupo, que também participou de movimentos contra a Dilma após as eleições de 2014, defende "mais transparência, mais ética, mais iniciativa privada e menos Estado inchado".

- São grupos diferentes que têm em comum o desejo de mudança e a total insatisfação com o governo Dilma. Mas nós temos opiniões diferentes sobre como fazer essa mudança - diz o empresário Rogerio Chequer, de 46 anos, um dos líderes do Vem Pra Rua. - Somos a favor de mudanças dentro da Constituição. Entendemos que ainda falta base legal para um impeachment. Mas, se houver, seremos a favor.

Além de panelaço, vaiaço
O Movimento Brasil Livre e o Vem Pra Rua são contra intervenção militar, mas admitem que grupos a favor da medida irão aos protestos de domingo.

O panelaço durante o pronunciamento da presidente Dilma anteontem foi ouvido em pelo menos 13 unidades da Federação, principalmente nas capitais - em quatro delas a petista venceu Aécio Neves (PSDB) no segundo turno da eleição de 2014. A maioria das manifestações nas capitais ocorreu em bairros nobres e de classe média, mas não somente neles. No Estado do Rio, houve vaiaço em cidades como Japeri, na Baixada Fluminense, onde Dilma obteve 72,36% dos votos contra 27,64% de Aécio. Japeri tem o 9º pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do estado.

- Era gente gritando e vaiando. Para descobrir o que era, ligamos a TV e a Dilma estava falando. Na hora não gritei, mas concordo plenamente - disse Nelça Filgueiras, 53 anos, moradora do bairro Chacrinha, em Japeri.

O panelaço de anteontem contra Dilma não foi uma surpresa por ter ocorrido, principalmente em redutos de eleitorados tucano e antipetista, diz Pedro Fassoni, da PUC-SP.

- Essa manifestação aconteceu nos redutos contrários ao governo federal. Basta ver no mapa eleitoral do ano passado. São regiões que votaram no Aécio. E não reflete a opinião da maioria dos eleitores brasileiros - disse Fassoni. (Colaborou Juliana Castro)

FHC diz que impeachment de Dilma 'não adianta nada'

• Ex-presidente tucano afirmou ainda que o sistema político da gestão petista está espatifado

- O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO - O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou nesta segunda-feira, 9, que um eventual impeachment da presidente Dilma Rousseff "não adiantaria nada".

"Tirar a presidente da República não adianta nada. O que vai fazer depois?", questionou o tucano durante um seminário no Instituto FHC, na capital paulista.

O tucano deu a declaração um dia depois do panelaço contra Dilma no qual manifestantes xingaram a petista e também pediram sua renúncia durante a transmissão do pronunciamento oficial da presidente na TV.

Durante o seminário, o ex-presidente realizou uma análise sobre o cenário político e econômico do País e teceu uma série de críticas ao modelo de gestão do PT na Presidência.

FHC afirmou que o modelo de presidencialismo de coalização, chamado pelo tucano como de "presidencialismo de cooptação", está exaurido. Para o tucano, o sistema político está "totalmente espatifado".

"Um congresso que tem 20 e poucos partidos e um governo que tem 40 e poucos ministérios é receita para não dar certo. Não pode funcionar", afirmou ele.

"Esse modelo que eles chamou de presidencialismo de coalização está exaurido. E não é de coalização. É de cooptação. Isso se arrebentou. Não tem mais Tesouro para sustentar essa farra toda. O sistema políticos está totalmente espatifado".

FHC volta a dizer que é contra impeachment

• Ex-presidente afirmou que o sistema de presidencialismo de coalizão “se exauriu”

O Globo

SÃO PAULO - O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso voltou a se colocar contra o impeachment da presidente Dilma Rousseff nesta segunda-feira. Durante evento do instituto que leva seu nome, o tucano afirmou que "não adianta nada tirar a presidente", segundo o jornal “Valor”.

No fim de fevereiro, o ex-presidente já havia declarado que o PSDB não deveria apoiar a tese do impeachment em reunião com a cúpula do PSDB.

— Se exauriu o modelo de presidencialismo de coalizão, que na verdade era um modelo de presidencialismo de cooptação. O sistema político está esgotado — afirmou o ex-presidente durante o seminário no IFHC, de acordo com o “Valor”.

O senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB), ex-candidato a vice na chapa do tucano Aécio Neves , também participou do evento e disse ser contra o impeachment.

— Não quero que ela saia, quero sangrar a Dilma, não quero que o Brasil seja presidido pelo (vice-presidente, do PMDB) Michel Temer (...) Vejo essa palavra (impeachment) como expressão de rechaço à ordem atual, sem entrar no mérito — afirmou o senador, segundo a publicação.

O tucano, porém, afirmou ser positiva as manifestações contrárias ao governo e reconheceu que o PSDB falhou no debate político.

— O PSDB deixou o PT carimbar sobre nossa pele a tese de que somos um partido da elite. Deixamos que isso se estabelecesse, que fosse o fato consumado. Isso começou a mudar nesta última eleição.

FHC diz que não adianta tirar Dilma, e Aloysio quer ver presidente 'sangrar'

- Folha de S. Paulo

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso disse nesta segunda-feira (9) que a saída de Dilma Rousseff não irá resolver a crise política por que passa o governo.

"Não adianta nada tirar a presidente", disse FHC, de acordo com o site do "Valor". Ele já havia se colocado contra o impeachment.

No mesmo evento, realizado no Instituto Fernando Henrique Cardoso, o senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP) –ex-candidato a vice na chapa de Aécio Neves– também disse ser contra o impeachment. O tucano afirmou que prefere ver a petista "sangrar" nos próximos quatro anos, quando encerrará o seu segundo mandato.

"Não quero que ela saia, quero sangrar a Dilma, não quero que o Brasil seja presidido pelo Michel Temer (PMDB)", disse Nunes Ferreira. Ele é defensor dos protestos agendados para este domingo (15).

O tucano afirmou que, embora seja contra o impeachment de Dilma, enxerga a manifestação de forma positiva por representar um protesto contra o governo federal por uma série de fatores, como os escândalos de corrupção na Petrobras e as medidas de ajuste fiscal anunciadas recentemente que foram negadas pela presidente durante a campanha eleitoral.

"Vejo essa palavra [impeachment] como expressão de rechaço à ordem atual, sem entrar no mérito", declarou. O senador também previu um quadro de crise política sem perspectivas de saída dada a falta de capacidade da presidente em liderar esse processo. Segundo ele, Dilma está desvinculada da realidade nacional.

"Vivemos um quadro de polarização com ausência de diálogos entre os polos. Lembrando o pronunciamento da Dilma ontem, parece que ela é presidente de Plutão", ironizou o tucano. Dilma, ressaltou Aloysio, governa sem atributos para estimular a economia e pacificar a base aliada no Congresso.

Para justificar a análise, observou que os dois principais partidos da base, PT e PMDB, já lançaram, respectivamente, o ex-presidente Lula e o prefeito do Rio, Eduardo Paes, como pré-candidatos à Presidência em 2018. "Daí a ideia de que o governo mal começou, mas já acabou."

O senador, porém, reconheceu que o PSDB falhou no debate político durante as últimas eleições ao Planalto. "O PSDB deixou o PT carimbar sobre nossa pele a tese de que somos um partido da elite. Deixamos que isso se estabelecesse, que fosse o fato consumado. Isso começou a mudar nesta última eleição", declarou.

Coalizão
FHC, ainda de acordo com o Valor, condenou o modelo criado pelos governos petistas, com cerca de 20 partidos dividindo quase 39 ministérios. "Se exauriu o modelo de presidencialismo de coalização, que na verdade era um presidencialismo de cooptação. O sistema político está esgotado", disse.

O ex-presidente disse ainda que avisou Dilma e o ex-presidente Lula sobre isso quando foram juntos à África do Sul, mas que "ninguém quis agir".

Segundo ele, só a criação de um novo bloco, com a participação da sociedade, seria capaz de criar uma saída para a crise

Aécio, sobre pronunciamento da presidente da República

• Nota de Aécio Neves

Novamente a presidente Dilma Rousseff falta com a verdade ao se dirigir aos brasileiros.
Inventa bodes expiatórios, terceiriza responsabilidades que são exclusivamente do governo dela e fornece um enredo irreal à população.

O pronunciamento desta noite deveria servir para que a presidente, finalmente, assumisse suas responsabilidades em relação às políticas fracassadas que levaram o país à situação atual, com recessão econômica, corte de empregos, disparada da inflação e uma profunda incapacidade manifestada pelo Estado para fazer frente à crise. Isto no campo econômico.

No campo ético, o que assistimos é a revelação de um monstruoso esquema criminoso montado a partir da Petrobras.

A presidente pede a união dos brasileiros. Mas apenas quem é capaz de admitir seus erros, buscar o diálogo e respeitar as diferenças, é capaz de apontar novos caminhos e liderar um consenso. Não é o caso da presidente, como se ainda houvesse dúvida, o pronunciamento desta noite demonstrou. Nem uma autocrítica, nem um pedido de desculpas.

Os brasileiros percebem, mais uma vez, o abismo que separa a realidade pintada no pronunciamento oficial e aquela vivida nas ruas e cidades do nosso país.

A verdade é que o país enfrenta um arrocho recessivo que penaliza trabalhadores, corta direitos sociais, congela investimentos públicos, paralisa o setor privado e expõe milhões de brasileiros ao desemprego e ao desalento.

Ao contrário do que foi dito, os sacrifícios que a presidente da República diz querer dividir entre os brasileiros penalizam mais os mais fracos e mais pobres.

Mas a presidente tem razão num ponto: os brasileiros estão irritados e preocupados. E sabem bem com o quê e com quem.

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Aécio Neves – Presidente nacional do PSDB

Roberto Freire - Panelaço: ensaio geral para o dia 15 de março!

- Portal do PPS

A presidente Dilma Roussef, mais uma vez, mostrou sua proverbial arrogância ao não admitir seus erros e insistiu na estratégia de que o nosso país não está convivendo com uma grave crise. Para piorar, pediu aos trabalhadores que paguem pelos erros dos governos do PT. Insistiu em apresentar um Brasil edulcorado que necessita apenas de pequenos ajustes e sacrifícios.

No seu pronunciamento a Nação não mencionou o desastre que se abateu sobre a Petrobras, fruto da gestão temerária e corrupta do governo Lula e do seu próprio, lançando um patético pedido de “paciência” ao povo brasileiro, vítima do embuste de sua campanha de reeleição verdadeiro estelionato eleitoral.

Mas de nada adiantou seu pedido de paciência alegando que tudo vai melhorar como resultado do seu ajuste. Tal ajuste Dilma/Levy é equivocado, será brutal nas suas consequências contraindo a produção e aumentando o empobrecimento de todos, e nada mais justo que a reação imediata da cidadania no ensurdecedor panelaço em diversos estados brasileiros, num verdadeiro ensaio de 15 de março próximo!

Um governo isolado politicamente e vítima por suas próprias contradições assiste inerte a um crescente processo de desgaste, de um lado, e de uma ampla e democrática mobilização popular, por outro, que nos faz lembrar momentos importantes de nossa história recente.

Como o “Movimento das Diretas Já”, que uniu as mais diversas correntes políticas e sociais no desejo comum de derrotar a ditadura e que posteriormente com a não aprovação da Emenda Dante deu sustentação fundamental a eleição de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral, instrumento criado para reproduzir o próprio regime militar.

Também nos recorda do vigor e alegria de nossa juventude no “Movimento dos Caras Pintadas” que, por sua amplitude, galvanizou todas as forças políticas do país independente dos partidos e das ideologias, contra um governo igualmente corrupto e incompetente, culminando, dentro dos marcos constitucionais, com o impeachment do presidente Collor.

Mais uma vez, vê-se a Nação confrontada por um governo e um partido que por meio da mentira sistemática de sua propaganda vendeu a ilusão de um país que não existe. Flagrado num processo sistemático de aparelhamento e partidarização do Estado e de criminosos esquemas de manutenção do poder como já detectado no julgamento do “mensalão”, e agora com dimensão redobrada no esquema do “Petrolão” que quebrou a mais importante empresa do país, a Petrobras, a cidadania tem se manifestado de maneira inequívoca, como nas jornadas de junho de 2013.

O PPS participante da oposição, desde 2004, quando lançou o documento “Sem Mudança, não Há Esperança”, reconhece que a amplitude do descontentamento atinge os mais diversos espectros sociais e políticos, configurando um enorme movimento de repulsa ao governo Dilma, que atingirá um ponto importante em 15 de março, com manifestações que varrerão todo o país.

Comprometido com a Democracia, somos defensores de que qualquer saída para a crise política que ora vive o Brasil tem necessariamente que se dar nos marcos da Constituição Federal e para sua concretização se impõe a participação democrática da cidadania .

Todos às ruas das nosssa cidades no próximo 15 de março!

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Roberto Freire é presidente nacional do PPS

Merval Pereira - Proteger a democracia

- O Globo

Parece haver um quase consenso, que conta curiosamente com a participação da própria presidente Dilma, de que ainda é cedo para um processo de impeachment. É preciso haver um motivo, disse a presidente, e nem mesmo a sensação da maioria da população de que ela acobertou as falcatruas da Petrobras é bastante para um processo desse tipo.

As investigações continuarão, e é precipitado achar que alguma coisa surgirá para demonstrar a culpa da presidente. Mas não implausível, e só o tempo dirá. Há quem considere que a solução menos traumática para os impasses institucionais em que o país está atolado seria a renúncia da presidente, assim como os que acreditam que, diante da apatia com que lida com a situação, Dilma na verdade já renunciou ao cargo.

Nesse sentido, o discurso que fez na noite de domingo, a pretexto do Dia Internacional da Mulher, é típico de quem está fora da realidade e acha que ainda pode, com truques antigos, contornar uma situação política que a coloca no córner.

Assim como Dilma insiste no erro de tentar convencer o cidadão comum de que a situação econômica mudou repentinamente da eleição para cá, e não está tão ruim assim como ele está sentindo, ou que são temporários os problemas que enfrentamos, também as lideranças do PT tentam manipular a realidade como se pudessem apagar da fotografia os fatos que incomodam.

Ora, dizer que o panelaço foi um fracasso chega a ser patético, diante do que as redes sociais estão mostrando desde o momento em que a cara de Dilma surgiu na televisão. Nunca antes na história do país houve um movimento espontâneo como aquele panelaço, semelhante às manifestações de 2013, se não propriamente na extensão, certamente na surpresa da movimentação de caráter nacional: nada menos que 14 capitais aderiram aos protestos organizados pelas redes sociais.

Como uma medida provisória em que o governo coloca uma série de penduricalhos para ludibriar a legislação, também o discurso de domingo estava cheio de temas que nada tinham a ver com a data que estava sendo comemorada. E mesmo quando fazia menção indireta aos problemas que as sequelas de seu primeiro governo estão criando para a população, Dilma tergiversou.

O melhor exemplo da enrolação que tentou passar como verdade é dizer que no final do 2º semestre os primeiros sinais de recuperação começariam a aparecer. Isso quer dizer no final de 2015, e nada indica que 2016 será um ano glorioso para a nossa economia, que estará, ao que tudo indica, no seu segundo ano de recessão.

Todas essas razões justificam passeatas e panelaços de oposição ao governo, mas não uma "ruptura democrática", como classificou o impeachment a presidente. Neste momento, forçar um processo no Congresso seria mesmo, mas sair à rua protestando contra as mentiras governistas não é uma tentativa de realizar um terceiro turno, como acusou o ministro Mercadante.

Fez bem o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, ao reafirmar ontem na Associação Comercial do Rio que a esta altura impeachment é golpe, e ele não colaborará com tal iniciativa. Demonstra que não atuará oportunisticamente pelo menos nesse caso, o que dá uma aparente estabilidade às nossas instituições.
O jurista Joaquim Falcão, diretor da Faculdade de Direito da FGV do Rio, classifica de "Brasil pirata" uma série de atitudes e medidas que está surgindo nesse momento brasileiro, entre elas a devolução, por parte do presidente do Senado, Renan Calheiros, da medida provisória de desoneração fiscal.

Os mesmos defeitos apontados corretamente por ele para justificar a atitude estão presentes em centenas de MPs que o Congresso aceitou nos últimos anos, e mudanças radicais significariam uma "privatização do Congresso" por parte de quem está interessado em criar problemas para o governo que considera ter colaborado para sua inclusão na lista dos investigados.

Da mesma maneira, a chamada PEC da Bengala, que amplia a aposentadoria dos ministros do Supremo para 75 anos, mesmo podendo estar correta devido ao aumento da expectativa de vida, se aprovada, como parece, será como uma retaliação a Dilma, e padeceria de um erro de origem que coloca em risco o vigor de nossa democracia. Joaquim Falcão chama de "canibalização institucional" medidas que, aprovadas de acordo com circunstâncias, acabam por colocar em xeque a credibilidade de nosso sistema democrático. É nessa linha frágil entre o permanente e o circunstancial que se dará a disputa pela manutenção da estabilidade institucional do país.

Bernardo Mello Franco - Devagar com o andor

- Folha de S. Paulo

Concordando-se ou não com os manifestantes, Dilma Rousseff deu motivo para as vaias, o buzinaço e as paneladas de domingo. A presidente mentiu na campanha, nomeou um ministério que envergonhou seus próprios eleitores e sumiu na hora das más notícias. Reapareceu com um pronunciamento fraco e palavroso, sem qualquer autocrítica sobre os erros do governo.

Em longos 15 minutos, Dilma repetiu a ladainha da "crise internacional", recurso batido para se eximir de culpa pelos problemas. Abusou dos eufemismos ao chamar cortes duros de "correções e ajustes". E avisou que vai "dividir o esforço" com a sociedade, sem ter feito sua parte para reduzir o gasto público.

Por fim, disse que "não havia como prever" a duração da crise. Nem parecia a candidata que, há poucos meses, negava a realidade e chamava de "pessimildo" quem alertava para o descontrole nas contas públicas.

Pior que o discurso, só a escolha da data para ir à TV. Na sexta-feira, a lista de Janot havia empurrado a bomba para o Congresso. Em apenas dois dias, Dilma trouxe-a de volta ao seu colo. O foco da crise voltou a ser ela, e não as acusações contra os presidentes da Câmara e do Senado.

A reação do PT ao panelaço foi tão desastrosa quanto o pronunciamento. Um dirigente do partido falou em "orquestração golpista" da "burguesia" e desqualificou os manifestantes, como se todos fossem marionetes da oposição. Quem estava insatisfeito e não foi à janela ganhou novo estímulo para sair de casa no dia 15.

Apesar da incrível sequência de erros, nada justifica a tentativa de direcionar os novos protestos para um processo de impeachment. Dilma acaba de ser reeleita nas urnas e ainda não há, segundo o ministro Teori Zavascki, "indícios mínimos" de que tenha entrado na farra do petrolão.

Afastar um presidente é coisa séria. Ainda mais quando estão na linha sucessória dois políticos suspeitos de receber propina do esquema que varreu os cofres da Petrobras.

Luiz Carlos Azedo - Outros poderes se "alevantam"

• A Operação Lava-Jato revelou também as existência de um “criptogoverno” mafioso, corrupto e corruptor, formado por políticos, funcionários públicos, executivos e grandes empresas

- Correio Braziliense

A frase é do veterano líder sindical Luís Tenório de Lima, que a usava sempre que alguma coisa ocorria de maneira diferente da imaginada ou prevista. Serve sob medida para intitular a coluna de hoje. Um dos articuladores da chapa Jânio-Jango na eleição de outubro de 1960, Tenorinho ajudou a cristianizar o marechal Henrique Teixeira Lott (PSD).

Graças à manobra eleitoral, o ex-ministro do Trabalho João Goulart foi eleito vice-presidente da República, com apoio maciço dos sindicatos paulistas. O resto da história todos conhecem: Jânio renunciou e Jango virou o presidente da República, mas foi derrubado pelos militares em 1964, após anunciar a intenção de decretar as chamadas reformas de base, que o Congresso não aprovava.

Reminiscências históricas à parte, vem aí um ato sindical convocado pela CUT e o PT para 13 de março, mesma data do Comício da Central de 1964, pretexto para o golpe de Estado contra Jango. E uma manifestação nacional convocada pelas redes sociais para 15 de março, que pode ganhar as conotações conservadoras da Marcha com Deus pela Família e a Liberdade, que reuniu 500 mil pessoas, em 19 de março, e se repetiu, digamos, com 1 milhão de coxinhas nas ruas em 2 de abril daquele ano fatídico.

A classe média voltou-se contra o governo e apoiou os políticos de oposição e militares golpistas. Aviso logo: sou daqueles que acham que história só se repete como farsa ou como tragédia. Os líderes dos partidos de oposição foram escaldados pelo golpe e o regime militar, não vejo muito sentido nessa história de que pretendam uma ruptura institucional ao aderir aos protestos populares contra o governo Dilma. Isso é do jogo democrático!

Tenorinho entra nessa história por outro motivo: um velho artigo do mestre Norberto Bobbio, intitulado Os meandros do poder, escrito no auge da crise política italiana de 1980. (in As ideologias e o poder em crise, Editora UnB). Faz parte de uma série sobre o que chamou de “mau governo”.

Inspirado na microfísica do poder de Foucault, Bobbio afirma que “a ideia tradicional de que o poder reside numa pessoa, numa restrita classe política ou em determinadas instituições colocadas no centro do sistema social é enganadora. O poder está em qualquer lugar, como o ar que se respira”.

“Não compreendeu a estrutura ou o movimento de um sistema social aquele que não se deu conta de que este é constituído por uma densa e complexa interrelação de poderes”, afirma. O poder não estaria apenas difuso e repartido, mas disposto em estratos que se distinguem um dos outros por diferente graus de “visibilidade”.

Bobbio identificou três esferas de poder: o emergente e público, que é o governo propriamente dito; o semi-submerso ou semipúblico, que chamou de “sub-governo”, que são suas agências e aparatos públicos, por onde passa a política econômica e o governo da economia; e a faixa de poder submerso, oculto ou invisível, que poderia ser chamada de “criptogoverno”.

Podres poderes
Segundo Bobbio, na medida em que o Estado liberal clássico foi sendo ampliado na direção do Estado de bem-estar social, o espaço do “sub-governo” se ampliou tremendamente, em estreita relação com o governo autêntico. Mas, em contrapartida, tem um nexo duplo com o que seria o “criptogoverno”.

Dirigentes dessas entidades, designados ou diretamente nomeados pelos partidos de governo pelo sistema de loteamento, através da função latente que a eles é atribuída, passam a prover o financiamento “oculto” dos partidos ou canalizar para eles os recursos financeiros de que têm necessidade para garantir a própria sustentação e para ganhar “consensos” ( que nesse caso Bobbio trata como uma mercadoria igual a todas as outras).

Essa leitura de Bobbio ajuda a entender o que aconteceu na Itália, onde os grandes partidos do pós-guerra foram tragados pela Operação Mãos Limpas, e nos dá uma pista para compreender melhor a gravidade do escândalo revelado pela Operação Lava-Jato, que agora chegou ao Congresso e ameaça implodir o nosso “presidencialismo de coalizão”.

Num paralelo rápido, a investigação sobre os desvios de recursos da Petrobras e de outras estatais, com superfaturamento de obras e serviços, mostra-nos as conexões entre o governo propriamente dito, as agências e as empresas de um “sub-governo” legalmente constituído, mas transformado em caixa preta. A Operação Lava-Jato revelou também as existência de um “criptogoverno” mafioso, corrupto e corruptor, formado por políticos, funcionários públicos, executivos e grandes empresas fornecedoras do Estado para dar as cartas no jogo político.

Tudo isso precisa ser passado a limpo, porque a democracia é idealmente o governo do poder visível e não dos podres poderes ocultos a serviço do saque do Tesouro, do enriquecimento ilícito e do abuso do poder econômico nas campanhas eleitorais, para perpetuar no poder grupos políticos e partidos.

Míriam Leitão - Sinceramente

- O Globo

Qualquer governante pode pedir suor e lágrimas. Só não pode fazer isso mentindo. O teor do pronunciamento da presidente Dilma Rousseff foi muito ruim. Por trás de palavras como "paciência", ela camuflou uma versão dos fatos que ofende a inteligência. Disse que a crise internacional explica a conjuntura brasileira, que nem está tão ruim; a imprensa é que confunde, em vez de esclarecer.

Depois de uma campanha em que mentiu sobre a situação econômica e energética do país, fica muito difícil ouvir a mesma irritante distorção da realidade. A explicação para a mudança de inflexão da política econômica poderia ser feita de forma mais sincera, se ela não tivesse feito um marketing tão agressivo, acusando os seus adversários de preparar o que ela já sabia que tinha contratado.

Dilma acusou os candidatos Marina Silva e Aécio Neves de estarem preparando um tarifaço de energia, de quererem "plantar inflação para colher juros", de tramarem um ajuste fiscal desnecessário para tomar medidas impopulares. "Impopular quer dizer contra o povo". Ela disse muito mais. Pouparei vocês da repetição do longo rosário de falsidades ao qual estivemos expostos na campanha.

Não foi, como já disse aqui, a crise hídrica que nos trouxe o aumento da energia. Como sabem os que acompanharam as análises e as entrevistas dos especialistas, o governo contratou o tarifaço. Ao fim de 2015, a energia terá subido 100% em dois anos. Só em parte é a falta de chuvas. O erro foi reduzir o preço de forma populista e irreal, foi deixar as empresas sem contrato por erros de gestão, foi postergar o problema, mandando as distribuidoras pegarem empréstimos para serem repassados ao consumidor. Foi ignorar os alertas. Dilma já sabia que a energia teria que subir e muito em 2015, chovesse ou não. Os empréstimos bancários foram dados com o aval da Aneel para as distribuidoras cobrarem do consumidor com juros e correção monetária a partir deste ano.

Segundo a versão que a presidente apresentou, a energia vai subir apenas temporariamente. Não é verdade. Até o aumento da bandeira tarifária vai demorar bastante a ser revertido. As empresas ainda estão pegando empréstimos bancários que continuarão nos próximos anos sendo jogados na conta. Disse que estamos entrando numa outra fase da crise internacional de 2008 que, na visão dela, enfrentamos muito bem. A economia americana está crescendo, com recorde de criação de empregos. A China reduziu devagar seu crescimento, mas isso era esperado, e ainda cresce a 7%, a Europa tem dificuldades, mas vários países tem desempenho melhor que o país. O Brasil está estagnado e indo para a recessão. Parte fundamental da crise é resultado de políticas erradas, gasto desenfreado, mentiras contábeis e preços reprimidos.

Dilma disse: "como o mundo mudou, as circunstâncias mudaram, tivemos que mudar". Para se aceitar essa versão era preciso provar que todo esse novo cenário ocorreu após a eleição. Durante a campanha, ela já sabia que mudaria o rumo na política econômica, mas seu marketing atacou e ofendeu todos os candidatos e seus assessores que alertaram que o Brasil precisava alterar o rumo da política econômica. É difícil, num domingo à noite, ouvi-la falar como se o país fosse formado por pessoas desmemoriadas e desinformadas. A se acreditar no que ela disse, o governo estava certo antes e está certo agora que mudou completamente de rumo, porque essa alteração só foi necessária no momento seguinte ao fechamento das urnas.

Dilma disse também que a crise brasileira não é tão ruim. Falso. O Brasil está com um déficit fiscal gigante, déficit externo enorme, inflação indo para 8%, país em estagnação, e a Petrobras no fundo do poço. Isso é sim um situação grave. Sair dela será mais fácil se o governo reconhecer o tamanho da crise. Dilma comparou com o ajuste de 2003. Naquele momento, a alta do câmbio ocorreu pelo medo de mudança na política econômica que Lula não fez, apesar de ter dito que faria. A manutenção da política foi o suficiente para acalmar os ânimos. O país não estava com esse déficit fiscal, nem com tarifas reprimidas, nem em estagnação, nem em crise política. A conversa "sincera e íntima" que propôs não foi sincera. E foi o que mais irritou. Sinceramente.

“Panela Nela” - ITV

Foram 15 longos minutos. Seria tempo bastante para Dilma Rousseff apresentar à nação uma narrativa verdadeira e honesta sobre as dificuldades vivenciadas pelos brasileiros em seu dia a dia. Mas não foi nada disso o que se viu. Como a presidente enveredou pela ficção, a resposta veio rápida: panela nela!

Em seu pronunciamento neste domingo, novamente a presidente da República buscou bodes expiatórios para uma crise cuja única culpada é ela mesma. Novamente tentou socializar as responsabilidades. Novamente ludibriou a boa fé dos brasileiros que anseiam por um líder que indique um bom caminho para o país.

Numa crise tão grave quanto a atual – que de econômica passou a política e caminha agora para tornar-se institucional – Dilma não pode ficar desperdiçando oportunidades de aglutinar a nação em torno de uma solução razoável para o país. Não há mais tempo a perder, mas ela insiste em jogá-lo fora.

O povo não tem mais paciência para engolir as empulhações do PT. A culpa pela carestia não está no exterior. A responsabilidade pelo arrocho recessivo não é senão da presidente e de sua equipe econômica. Os retrocessos e fracassos dos últimos anos são resultado direto de escolhas mal feitas de Dilma.

O maior vilão da inflação atual não tem nada a ver com a seca. São as tarifas públicas, que o governo da presidente reajusta sem dó desde que a eleição acabou. Só a energia já subiu 32% neste ano e deve subir mais. Já a gasolina ficou 8,3% mais cara em fevereiro.

Dizer que é a “segunda etapa” da crise internacional que empurra o Brasil para a recessão é escarnecer da inteligência dos brasileiros. A maior parte do mundo – inclusive as economias mais afetadas pela crise – já voltou a crescer, em alguns casos com intensidade, como os EUA.

O apelo da presidente em favor de “união”, com “sacrifícios temporários” para “dividir o esforço entre todos” equivale a um abraço de afogados. Como quer apoio se nunca, jamais, admite que é responsável por boa parte dos problemas atuais? Quem não reconhece onde estão os erros não é capaz de corrigi-los.

Novamente, o discurso oficial petista promete um futuro venturoso, que está logo ali, “no final do segundo semestre”, mas nunca chega. Tem sido assim desde o início do governo da presidente. Ela sempre acenou com maior crescimento, mais desenvolvimentos. Mas jamais entregou. Como ter mais “paciência e compreensão”, como ele pede?

Dilma Rousseff sabe da irritação dos brasileiros com ela – tanto que registrou isso em seu discurso de ontem. Mas talvez esteja longe de perceber até onde esta indignação alcança. Uma primeira amostra a presidente ganhou ontem, em tempo real. As próximas virão nos próximos dias, bem mais visíveis, nas ruas do país.

Panela de pressão – Editorial / Folha de S. Paulo

• Vaias durante discurso de Dilma prolongam radicalização eleitoral e mostram que cresce a insatisfação com seu governo

Convocados por meio de redes sociais e aplicativos de celular, os protestos simultâneos ao pronunciamento da presidente Dilma Rousseff (PT) no domingo à noite deixaram em segundo plano o discurso feito no Dia da Mulher.

O buzinaço e o panelaço registrados em pelo menos 12 capitais não eclodiram como reação ao que Dilma dizia no rádio e na TV. Tornando-se audíveis tão logo se formou a rede nacional, traduziam o quanto existe de exasperação com uma presidente que, vitoriosa nas urnas em outubro, nem bem deu início ao segundo mandato.

Não foi por coincidência que as manifestações se fizeram notar sobretudo em regiões nas quais a petista obteve menos sufrágios. De certa maneira, é a polarização acerba do período eleitoral que se estende para além da votação, quando, ao menos em tese, a radicalização típica da campanha perde muito de seu sentido.

Nas atuais circunstâncias, o prolongamento da exaltação ainda encerra um paradoxo. O ajuste nas contas públicas, principal iniciativa da presidente neste novo governo, era mais associado ao senador Aécio Neves (PSDB-MG), adversário da petista no segundo turno. Mais que isso, trata-se de medida crucial para a saúde da economia.

O remédio ora ministrado, mesmo que nas doses corretas, terá sabor amargo para a maioria; seu uso representa, além disso, uma traição para quem acreditou nas fantasias publicitárias da petista.

Enfrentando sérias dificuldades no Congresso, Dilma e sua equipe decerto sentiram necessidade de dar uma satisfação à população em geral, mas em especial a seus eleitores que, por enquanto, se mantêm distantes dos protestos.

O pronunciamento de domingo tinha precisamente o intuito de defender o ajuste: "Como o mundo mudou, o Brasil mudou e as circunstâncias mudaram, tivemos, também, de mudar a forma de enfrentar os problemas", disse Dilma.

Seria demais esperar que a presidente reconhecesse o quanto o descalabro econômico se deve a sua própria gestão. Ainda assim, e mesmo que tenham sido extravagantes ou falsas as explicações para a crise, a petista se permitiu níveis razoáveis de sinceridade.

Dirigindo-se ao espectador, afirmou: "Você tem todo o direito de se irritar e de se preocupar". Adiante, admitiu que as iniciativas em curso devem significar "alguns sacrifícios temporários para todos".

Dilma Rousseff finalizou sua intervenção em rede nacional pedindo apoio da população e do Congresso. É sintomático que, enquanto a presidente falava em união, uma parte da população respondia com vaias. O apito da panela de pressão indica que, para algumas camadas da sociedade, a insatisfação já beira o insuportável.

Panelaço é rejeição a velhas desculpas – Editorial / O Globo

• Governo precisa fazer política, conversando com todos, inclusive a oposição, porque a estabilidade econômica e política interessa a toda a sociedade

O panelaço que acompanhou na noite de domingo o pronunciamento à nação da presidente Dilma Rousseff, em regiões de cidades importantes como São Paulo, Rio e Belo Horizonte, continuou a ecoar segunda-feira.

Interpretar a manifestação como uma tentativa antidemocrática de um “terceiro turno” para as eleições do ano passado, termo empregado por Dilma e o ministro-chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, é de nenhuma valia para o governo. Afinal, tanto a presidente quanto o ministro reconheceram, e não poderia ser diferente, que está em vigor a plena liberdade de manifestação.

Se não passa de insensatez de minorias desprezíveis conspirar contra uma presidente eleita e empossada sem contestações formais, cabe ao Planalto interpretar sem devaneios a mensagem transmitida na noite de domingo.

Culpar a “burguesia”, a “elite branca”, termos que fazem a alegria de militantes, fração ínfima da população, também em nada ajuda o Planalto. Queiram ou não, a barulheira feita em grandes cidades anteontem virou um fato político a ser considerado, e deveria levar o Palácio a uma reflexão sobre sua linha de comunicação com a sociedade.

O dramático resultado da pesquisa Datafolha sobre a popularidade de Dilma, realizada no início de fevereiro, já sinalizava para sérios ruídos nessa comunicação. Entre outros pontos, pesou na queda pela metade da popularidade da presidente em relação a dezembro — de 42% para 23% — o fato de ter sido constatado que ela disse uma coisa na campanha e, reeleita, passou a fazer outra.

Diante disso, embora defendesse, com acerto, o ajuste fiscal, não foi boa a ideia de insistir na inverosímil explicação de que a crise atual se deve aos ombros cada vez mais largos de uma “crise internacional” somada à seca. Ora, a Europa continua mesmo a patinar e a China cresce “apenas” a 7,5%, mas os Estados Unidos aceleram a recuperação, com a criação de centenas de milhares de empregos a cada trimestre. O Brasil do primeiro governo Dilma é que errou de política econômica, a qual a presidente tenta agora rever, e ainda bem.

Dilma demora a se curvar à necessidade de fazer política. Convocar o vice-presidente Michel Temer, do PMDB, para de fato auxiliar nesse campo é urgente. A chegada dele ajudará no manejo do quadro potencialmente grave de um Congresso sem Norte, em que seus principais dirigentes, os peemedebistas senador Renan Calheiros (AL) e Eduardo Cunha (RJ), com pedidos de inquérito no Supremo para serem investigados no petrolão, ameaçam usar a instituição em defesa própria, algo inaceitável.

O foco precisa ser a contribuição do Congresso ao ajuste nas contas públicas. Usar o cargo para ameaçar o Ministério Público com retaliações típicas do baixo clero é não entender o momento do país. Porém, para contornar esses obstáculos, o Planalto precisa dialogar, e com todos os partidos, incluindo o PSDB. A estabilidade econômica e política interessa a toda a sociedade.

A grande mentira – Editorial / O Estado de S. Paulo

"A questão central é a seguinte: estamos na segunda etapa do combate à mais grave crise internacional desde a grande depressão de 1929." Foi com essa estarrecedora desculpa que Dilma Rousseff jogou no lixo todos os indicadores econômicos e se eximiu de qualquer responsabilidade pela grave crise nacional que o Brasil enfrenta depois de quatro anos de seu desgoverno. Falando em rede de rádio e de televisão sob o pretexto de comemorar o Dia da Mulher, a presidente garantiu que, "como temos fundamentos sólidos", as "dificuldades conjunturais" são passageiras e começarão a ser superadas "já no final do segundo semestre deste ano". Os brasileiros não têm, portanto, com o que se preocupar, porque todas essas dificuldades "conjunturais" significam "apenas a travessia para um tempo melhor, que vai chegar rápido e de forma ainda mais duradoura". Oxalá!

A encenação mendaz de Dilma foi mal recebida. Seu discurso foi saudado por um panelaço em bairros de classe média das cidades mais importantes do País, mas também em suas periferias. Pronunciou-se a mesma classe média para a qual, segundo Dilma, os governos do PT contribuíram com um novo contingente de 44 milhões de brasileiros.

Parte importante da crise de governança que está levando o Planalto ao desespero e a população a se manifestar ruidosamente decorre da absoluta incompetência de Dilma que, para completar o desastre, entrou em rota de colisão com o maior partido de sua base de sustentação, o PMDB, praticamente jogando-o na oposição. Como se não bastasse, os antigos parceiros do Planalto na farsa do "Novo Brasil", vendo-se agora enredados até o pescoço no propinoduto da Petrobrás, resolveram criar uma farsa toda sua.

O PMDB acusa o governo de manipular o Ministério Público (MP) para desmoralizar alguns dos seus principais líderes, como Renan Calheiros e Eduardo Cunha, incluindo-os no pedido de investigação apresentado ao STF pelo procurador-geral Rodrigo Janot. Ora, pelo menos esta acusação não se pode fazer ao governo petista. Se tivesse o poder de manipular o MP e a Polícia Federal o governo Dilma teria forçado a exclusão de figurões petistas da lista de suspeitos do procurador-geral e também, obviamente, a inclusão de nomes de oposicionistas tucanos e democratas. O que o PMDB pretende é criar confusão para comprometer os resultados da Operação Lava Jato. Para tal recorre sem nenhum constrangimento às acusações a Dilma e ao PT, com os quais os peemedebistas estão circunstancialmente de mal. Mas são todos farinha do mesmo saco - ou seja, do mesmo governo - tentando salvar-se do naufrágio de uma parceria que faz água por todos os lados.

O PMDB tem culpa no cartório, mas não é o principal responsável pela crise. A grande responsável pelo desastre é a presidente da República, como ficou claro em seu patético discurso do Dia das Mulheres. Atrás da sua soberba assoma a absoluta incapacidade de admitir os próprios erros, uma característica marcante de Lula e do PT que ela se encarregou de levar a extremos e que a torna uma governante medíocre.

Não reconhecendo os próprios erros, ela escamoteia a verdade, dissimula. E como uma mentira puxa outra, Dilma encontra-se hoje refém das fabulações com que tem insultado a inteligência dos brasileiros. Como a de afirmar, como fez no domingo à noite, que o seu é "um governo que se preocupa com a população", como se isso fosse uma exclusividade petista; ao dizer que "às vezes temos que controlar mais os gastos para evitar que o nosso orçamento saia do controle", exatamente o que ela nunca fez e que levou o País ao descontrole fiscal e à recessão econômica; ou então ao garantir que o País pode confiar no governo para controlar a crise econômica porque "queremos e sabemos como fazer isso", afirmação desmentida pela desconfiança com que os agentes econômicos encaram sua administração.

E é assim que, de mal um com o outro e cada um dissimulando, encenando, fabulando à sua maneira e de acordo com suas conveniências, o PT da desnorteada Dilma Rousseff e o ressentido PMDB de Michel Temer protagonizam a cena política que começa a abrir espaço para a participação das classes médias, sempre mais efetivas em momentos críticos do que os "exércitos do Stédile".

José Casado - A agonia de um partido

• Exemplo da corrupção na Petrobras, o PP respira no ritmo agonizante da ‘maior base parlamentar do Ocidente’ — legado de Lula que Dilma ainda sonha em preservar

- O Globo

Na quinta-feira 7 de abril de 2005, Lula foi a Roma assistir ao funeral do Papa João Paulo II. Levou na comitiva o deputado Severino Cavalcanti, católico praticante, expoente do Partido Progressista (PP) em Pernambuco. Estavam em conflito. Lula fantasiava com a “maior base parlamentar do Ocidente” em torno de seu projeto para reeleição, no ano seguinte. Na presidência da Câmara, Severino estabelecera um preço para apoiá-lo. Combinaram uma parceria durante o voo.

Seis semanas depois, floresciam aflições no outono de Brasília. Acuado por denúncias de corrupção nos Correios, o deputado Roberto Jefferson, líder do Partido Trabalhista Brasileiro, deflagrou uma crise com o governo e pôs no alvo o chefe da Casa Civil, José Dirceu. Na terça-feira 17 de maio, enquanto a oposição viabilizava uma CPI, Lula pediu a José Múcio (PTB-PE) que desse um recado a Jefferson: “Nós temos que ser parceiros”.

No dia seguinte, Severino Cavalcanti foi à ministra de Minas e Energia, Dilma Rousseff, e cobrou: “Quero o cargo que o presidente me ofereceu durante a viagem a Roma.” Dilma desconversou: “Podemos ver outra diretoria”. Ele insistiu, relatou a repórter Maria Lima: “O que o presidente me ofereceu foi aquela diretoria que fura poço e acha petróleo. É essa que eu quero.”

O rústico Severino frustrou-se na arrogância. Lula escolhera negociar com o deputado paranaense José Janene, líder do Partido Progressista. No outono anterior, em maio de 2004, Janene encenara uma “rebelião” do PP, com meia dúzia de votações contra o governo. Lula chamou o parceiro. Presenteou-lhe com a nomeação de Paulo Roberto Costa para a Diretoria de Abastecimento da Petrobras. O PP alinhou-se e o compromisso foi resguardado por Dilma na Presidência até o outono de 2012.

Costa contou à polícia que assumiu sob uma regra: 3% de cada contrato da estatal divididos entre o PP (1%) e o PT (2%). O operador financeiro do PP, Alberto Youssef, confirmou.

Severino renunciou quatro meses depois do encontro com Dilma, flagrado na cobrança de um mensalinho da concessionária do restaurante da Câmara. A CPI dos Correios fez o mensalão emergir, engolfando alguns do PP de Janene, do PT de Lula e do PTB de Jefferson. Na Petrobras, porém, já estava tudo dominado.

Em 2006, ano da reeleição de Lula, Janene levou Costa a uma reunião na Braskem, cujo controle é partilhado pelo grupo Odebrecht (50,1%) e Petrobras (47%). A petroquímica desejava preços menores nas matérias-primas (nafta e propeno) que comprava da estatal monopolista. Acertaram-se e, segundo Costa e Youssef, sobrou para o PP um suborno anual de US$ 5 milhões. A Odebrecht nega tudo.

No ano da eleição de Dilma, jorravam propinas. Costa e Youssef faziam um periódico “batimento das contas” da campanha de 2010. Anotavam: “28,5 PP”, significando R$ 28,5 milhões para os candidatos “progressistas”.

O PP é caso exemplar da máquina político-empresarial que drenou a Petrobras. Está com 60% dos seus senadores e 45% dos deputados federais sob investigação, além de dois ex-ministros, um vice-governador e oito ex-parlamentares. Moribundo, respira no ritmo agonizante da “maior base parlamentar do Ocidente” — um legado de Lula que Dilma ainda sonha em preservar.

Hélio Schwartsman - O paradoxo de Janot

- Folha de S. Paulo

Se há algo que salta aos olhos na lista do Janot é a concentração de suspeitos nas fileiras do PP. Dos 47 investigados, 32 (68%) têm vínculo com o partido. Considerada apenas a Câmara, as denúncias atingem 18 parlamentares da legenda, quase a metade da bancada de 40 deputados federais.

A melhor explicação para essa anomalia é que era o PP que apadrinhava o ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa, cuja delação premiada embasou boa parte da lista do procurador-geral. Mas, mais interessante do que explicar a origem do desvio estatístico, é pensar suas implicações.

Peço aqui licença para fazer uma digressão pelo campo da exobiologia, a ciência que estuda a vida em outros planetas. Como ainda não identificamos nenhum exemplar de ET, a disciplina trabalha apenas com princípios e hipóteses. Um dos mais difundidos é o princípio da mediocridade. Popularizado por Carl Sagan e Frank Drake, ele postula que, se existe vida na Terra e este é um planeta sem nada de excepcional (medíocre), deve haver seres vivos em muitos outros mundos também.

Podemos aplicar a mesma lógica ao chamado petrolão. Se o PP, que é um partido marginal da base aliada sem nada de muito especial, está com quase a metade de sua bancada envolvida, será que não deveríamos esperar níveis semelhantes de comprometimento em outras legendas, caso levássemos as investigações adiante de forma exaustiva?

E não há por que parar na Petrobras. Ela, afinal, não é a única estatal brasileira que mantém contratos com empreiteiras. Se o que estamos vendo na Petrobras é típico do que ocorre no meio, haveria muito mais a descobrir fora do setor petrolífero.

Isso nos leva a uma versão bastarda do paradoxo de [Enrico] Fermi, no qual o físico italiano perguntava: se extraterrestres são comuns, por que não são óbvios? "Onde estão eles?", como a contradição foi celebrizada.

Rubens Barbosa - Plano inclinado

- O Estado de S. Paulo

Como já é evidente, a desorganização da economia nos últimos quatro anos é responsável pela drástica queda do crescimento, pela alta da inflação e pela crise em alguns dos principais setores industriais. Para tentar controlar os prejuízos ao país, a presidente Dilma, numa manobra tática pensando no futuro do PT em 2018, sem alternativa, decidiu recorrer a um economista ortodoxo que está aplicando de forma mais radical políticas que a oposição estava propondo durante a campanha eleitoral e, com isso, recuperar a estabilidade econômica nos próximos anos.

O dano sistêmico - consequência das necessárias medidas de ajuste - combinado com a crise financeira da Petrobras - derivada da má gestão e da corrupção desenfreada - está contagiando a economia com um todo.

Na área de óleo e gás, as consequências em cadeia são maiores pelo peso da Petrobras na economia e pelo efeito multiplicador em outros setores. A empresa representa cerca de 2% do PIB e 10% do investimento total. O corte de quase 30% do orçamento de US$ 220 bi no período 2014/18 pelas restrições de crédito poderá implicar uma queda de 15% nos investimentos de infraestrutura no país e já está tendo forte impacto econômico, social e político. A suspensão de projetos, que representam 2,3% do PIB, vai afetar um terço dos investimentos da indústria, inclusive a naval.

Na infraestrutura, as empresas construtoras envolvidas na Operação Lava-Jato estão com crescentes problemas de liquidez e foram responsáveis por 10% do desemprego em janeiro. A paralisação de obras públicas contratadas e o não pagamento pelo governo já geraram demissões em massa. Segundo estimativas de especialistas, dezenas de milhares de empregos foram perdidos e outro tanto ocorrerá no corrente ano na área de construção pesada. Cinco por cento da população estão ligados, direta ou indiretamente, a esses projetos.

No setor automotriz, a forte queda das vendas no mercado interno (27%) e a redução das exportações para a Argentina fizeram com que as montadoras sofressem um aperto financeiro e demitissem 12,4 mil trabalhadores em 2014, além de gerar prejuízos e problemas em toda a cadeia produtiva. Com projeções de queda entre 5% a 10% no mercado de veículos, pela restrição de crédito, maior endividamento das famílias, com a taxa de juros e a inflação mais elevadas, a turbulência no setor deverá estender-se até 2016.

Na área de defesa, a paralisação de projetos que envolvem a indústria nacional está provocando prejuízos e demissões. Os principais programas estratégicos foram incluídos no PAC, o que não impediu que os pagamentos da Base Industrial de Defesa tenham sido suspensos. O cancelamento do PAC agrava ainda mais o problema.

O duro programa de ajuste é essencial para reorganizar a economia e deve ser apoiado, mas seu custo deve ser compartilhado pelo governo com a redução significativa dos gastos públicos. Nesse contexto, é muito importante não se perder a dimensão do crescimento econômico. O risco que corremos hoje é de a dose para combater a doença matar o paciente.

Arnaldo Jabor - Elas

• As mulheres foram e são oprimidas e estupradas na alma e no corpo, inclusive no Brasil

- O Globo

Escrevo hoje no domingo sobre o Dia Internacional da Mulher. Sempre que chega esse dia, nós, machistas, elogiamos o lado “abstrato” das fêmeas, sua delicadeza, sua capacidade de perdão (sic), sua coragem, em textos de hipocrisia paternalista, como se falássemos de pobres, de crianças.

No Oriente e na África vemos o auge da violência: castrações, estupros impunes, pais condenando filhas, tudo de horrível. Mas no resto do mundo também sobrevivem muitas formas mais sutis de opressão e desprezo. Socialmente são discriminadas no trabalho, ganham menos que os homens, sofrem assédio nos empregos. As mulheres foram e são oprimidas e estupradas na alma e no corpo, inclusive no Brasil.

Várias amigas me pediram: “Escreve, escreve sobre a Mulher!...” .

Só que “A Mulher” não existe. Eu nunca conheci a Mulher. Eu já amei e odiei “mulheres”. Então, por que esse título genérico? Existe a mulher de burca, a stripteaser, existe a freira, a bondosa, a malvada, existem Eva e Virgem Maria. Esse nome geral também oculta diferenças profundas. Qual a relação de uma mulher do interior da Paraíba, na seca, catando água dos mandacarus com uma patricinha na balada em São Paulo? O que iguala uma pobre mulher castrada no Iraque e uma gostosa da televisão?

O que as unifica é nosso ódio, sim, o ódio secreto dos homens na historia do machismo milenar. Elas são oprimidas por serem mais fracas, elas provocam inquietação com sua beleza cambiante, elas instilam dúvidas nos homens que só desejam as certezas, elas são o perigo para o sofrimento de cornos milenares, elas nos desorganizam e nos levam à submissão pelo amor e pelo tesão. Daí o ódio que os primitivos cultivam contra elas, daí os boçais assassinos do Islã apedrejando-as até a morte, daí os mitos negros como Lilith ou Jezebel ou ladies da morte como Macbeth. A mulher não é um enigma. Nós é que somos, disfarçados de sólidos. Os homens são óbvios. As mulheres não sabem o que querem; o homem acha que sabe. O masculino é certo; o feminino é insolúvel.

A mulher deseja o impossível; desejar o impossível é sua grande beleza. É um preconceito essa mania de dizermos que as mulheres são “incompreensíveis” (mesmo Freud). Mas essa confusão na cabeça das mulheres não é maluquice; nessas cabeças complexas há uma verdade indeterminada mais profunda do que as ilusões masculinas. Homem tem um “fim”. Mulher abre-se num horizonte com muitos sentidos e está sempre equivocando o homem.

Eu sou hoje o que as mulheres fizeram comigo ou o que eu aprendi com elas, no amor ou no sofrimento. Eu descobri defeitos e qualidades que me formaram, como acidentes que me foram desfigurando. Com elas, loucas, sóbrias, boas e más, descobri que não têm forma nem lógica e que eram quebra-cabeças: ao tentar armá-los, eu aprendia novos labirintos, descobria que também não tenho forma nem lógica e que sempre faltará uma peça na charada.

Elas ventam, chovem, sangram, elas têm inverno, verão, TPMs, raiam de manhã ou brilham à noite. E os homens olham perplexos. Elas querem ser decifradas por nós, mas nunca acertamos no alvo, pois não há alvo, nem mosca. As mulheres são sempre várias. Isso não as faz “mobiles” nem traidoras; nós é que nos achamos “unos”.

Aliás, o único grande mistério talvez seja a divisão entre os sexos. Por mais que queiramos, nunca chegaremos lá. Lá, aonde? Lá na diferença radical onde mora o “outro”. Há alguns exploradores: os veados, sapatões, travestis que mergulham nesse mar e voltam de mãos vazias, pois nunca saberemos quem é aquele ser com útero, seios, vagina, aquele ser maternal, bom, terrível quando contrariado no ponto G da alma. Por outro lado, elas nunca saberão o que é um pênis pendurado, um bigodão, a porrada num jogo do Flamengo, um puteiro visitado de porre, nunca saberão do desamparo do macho em sua frágil grossura. Elas jamais saberão como somos. O amor é a tentativa de pular esse abismo.

Uma leitora, que se disse “perua inteligente”, me escreveu: “No Brasil, como sempre, somos diferentes e mais óbvios. Aqui, as mulheres eram escravas passivas, hoje somos ativas, mas continuamos escravas. Mesmo sendo frígidas, temos de prometer ‘funcionamento’. Não é por acaso que eles nos chamam de ‘aviões’. É só olhar as revistas masculinas.

A publicidade é toda em cima de sexo’”. É a cultura das periguetes. Em nenhum lugar do mundo vemos as barrigas à mostra, as roupas tipo “fuck me now” mesmo em meninas visivelmente tímidas e caretas.

Na mídia, só vemos estímulos para as mulheres buscarem a bunda perfeita, bundas ambiciosas querendo subir na vida, bundas com vida própria, mais importantes que suas donas, próteses de silicone, sucesso sem trabalho, anúncio de cerveja com louras burras, mulheres divididas entre a ‘piranhagem’ e a ‘peruíce’, sorrisos luminosos de celebridades bregas, passos de ganso de manequins. A bunda é a esperança de milhões de cinderelas. O corpo tem de dar lucro. As mulheres querem ser disputadas, consumidas. Ficam em acrobáticas posições ginecológicas para raspar os pêlos pubianos nos salões de beleza e, depois, saem felizes com uns bigodinhos verticais que lembram o Hitler ou o Sarney. O que está acontecendo no Brasil é a libertação da mulher-objeto. A liberdade de mercado produziu o mercado da “liberdade”.

Mas não é como vítimas que devemos lamentá-las ou louvá-las . Sua importância é afirmativa, pois elas estão muito mais próximas que nós da realidade deste mundo aberto, sem futuro ou significado. Elas não caminham em busca de um “sentido” único, de um poder brutal. O homem se crê acima do mistério, mas as mulheres estão dentro. São impalpáveis como a realidade que o homem “pensa” que controla.

O Dia Internacional devia estimular uma ação política das mulheres, não apenas para defender seus direitos, mas para condenar a civilização de machos boçais que destroem nosso destino.

Inezita Barroso (4/3/1925 - 8/3/2015) - Ronda (Paulo Vanzolini)

Carlos Drummond de Andrade - Menino chorando na noite

Na noite lenta e morna, morta noite sem ruído, um menino chora.
O choro atrás da parede, a luz atrás da vidraça
perdem-se na sombra dos passos abafados, das vozes extenuadas.
E no entanto se ouve até o rumor da gota de remédio caindo na colher.

Um menino chora na noite, atrás da parede, atrás da rua,
longe um menino chora, em outra cidade talvez,
talvez em outro mundo.

E vejo a mão que levanta a colher, enquanto a outra sustenta a cabeça
e vejo o fio oleoso que escorre pelo queixo do menino,
escorre pela rua, escorre pela cidade (um fio apenas).
E não há ninguém mais no mundo a não ser esse menino chorando.

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De Sentimento do mundo, p. 23