domingo, 2 de agosto de 2015

"Com o PT, não dá para conversar", Samuel Pessoa

• O economista diz que o problema estrutural das contas públicas só poderá ser resolvido em outro governo, porque não dá para fazer pacto com os petistas

Guilherme Evelin – Época

Filiado ao PSDB, o economista Samuel Pessoa costumava fazer elogios públicos a programas dos governos do PT. Era uma voz a favor da distensão política e tentava abrir espaços de interlocução com economistas heterodoxos, com linha de pensamento diferente da dele. Samuel mudou. Um dos autores do estudo que diz que o problema da solvência das contas públicas do país só será resolvido com reformas estruturais, ele se tornou um cético quanto à possibilidade de um pacto nacional para enfrentar essa agenda. "Sou o efeito de uma campanha eleitoral sórdida e suja", diz ele.

ÉPOCA - O ajuste do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, vai resolver nosso problema estrutural nas contas públicas?

Samuel Pessoa - O Joaquim Levy está fazendo um ajuste macroeconômico cíclico. O que a gente está dizendo é que, além desse ajuste macroeconômico cíclico, o Brasil tem um problema estrutural, que é um superávit primário (tamanho da poupança que o governo deve fazer para pagar os juros de sua dívida) aquém do requerido para estabilizar a dívida pública. Para estabilizar a dívida, a gente tem de repensar o contrato social estabelecido desde a Constituição de 1988: os programas sociais, todas as decisões que a sociedade brasileira, por meio do Congresso Nacional, de forma absolutamente legítima, tomou para resolver o problema da desigualdade. O problema é que esse contrato social implica um crescimento do gasto público de 0,3 ponto percentual do PIB, todo ano, há 23 anos.

ÉPOCA - E agora essa conta não está fechando mais.

Pessoa - Por 12 anos, no período que vai de 1999 a 2011, essa conta fechou graças a uma taxa extraordinária de crescimento da receita. A receita cresceu sistematicamente em velocidade superior à velocidade do PIB real, sem que novos impostos tivessem sido criados. Mas esse comportamento da receita, muito extraordinário, entorpeceu a sociedade e os participantes do debate público para esse problema estrutural.

ÉPOCA - Seu estudo diz que agora o enfrentamento desse problema estrutural se tornou inevitável. Essa agenda vai se impor de forma organizada ou, pior, pelo aguçamento da crise. Qual é o cenário mais provável?

Pessoa - Não é possível manter um estado de bem-estar social cujos gastos crescem mais do que o PIB. Isso aconteceu nos últimos 23 anos, mas não pode acontecer sistemática e eternamente. A solução dessa crise exige que a sociedade entenda que ela tem de fazer um monte de mudanças, como a reforma da Previdência. A sociedade tem de olhar o todo e repensar esse contrato social. A dificuldade é que cada um desses itens, em que houve crescimento de gastos, são meritórios. Mas o fato de as coisas serem meritórias não significa que elas caibam dentro do nosso PIB. O problema de a gente continuar com um contrato social cuja dinâmica não cabe dentro do PIB é que a gente pode escorregar para uma hiperinflação e chegar no cenário da Venezuela.

ÉPOCA - Mas o Brasil tem instituições mais sólidas do que a Venezuela.

Pessoa - Mas a gente não é intrinsecamente melhor do que a Venezuela ou a Argentina, que está com uma inflação de 30%. A Venezuela, há 15 anos, era mais organizada do que é hoje. A Venezuela, há 15 anos, não tinha 80 homicídios para cada 100 mil habitantes, nem tinha uma inflação batendo 100% ao ano. Construiu isso ao longo de uma década. O problema é que a gente já teve hiperinflação no passado.

ÉPOCA - Esse crescimento dos gastos é resultado de um contrato social. Para desfazer esse contrato, é preciso algum tipo de pacto nacional. Oual é a chance de isso ocorrer?

Pessoa - Essa concertação política está muito difícil. O PT mentiu de A a Z e recorreu a uma agressividade contra o Armínio Fraga, a Neca Setúbal, a Marina Silva. Isso inviabiliza a concertação. Entre os políticos que não são petistas, e não só os da oposição, a leitura dessa avançada no sinal que o PT deu para ganhar a eleição é que o PT está disposto a fazer qualquer coisa para se manter no poder. Setores políticos muito expressivos estão convencidos de que o PT é um perigo para a sociedade.

ÉPOCA - O senhor concorda com essa ideia?

Pessoa - Eu nunca concordei com isso, mas começo a concordar. Olhando o conjunto da obra - a ganância em ganhar a eleição a qualquer preço no ano passado, a dificuldade de reconhecer os erros, a relação ambígua com a Venezuela -, você vê um DNA autoritário. As cicatrizes e feridas da campanha são responsabilidade do PT. Não houve simetria. A oposição manteve a temperatura normal nas disputas políticas no Brasil. O PT se dá ao direito de avançar o sinal porque o PT é um partido que se vitimiza, que diz que é perseguido pela imprensa. Sempre que alguma coisa dá errado, o PT diz que os outros são culpados. Essa vitimização petista faz com que eles se sintam no direito de usar qualquer instrumento para se manter no poder porque eles são uns coitadinhos perseguidos pelo capital. O partido que ganhou a eleição com mentira de A a Z é o PT. É ele que tem de fazer um gesto. Mas esse gesto exige um desprendimento do PT, que eles nunca tiveram em 30 anos. É um partido difícil de conversar. Não vai ser agora que eles estão acuados que esse gesto vai vir.

ÉPOCA - Mas a presidente Dilma Rousseff, ao nomear Joaquim Levy, não fez esse gesto, reconhecendo seus erros?

Pessoa - Eu acho que ela está reconhecendo, mas, em política, a conversa é importante. Dada a ultrapassagem de sinal que eles deram e a prevenção que todo sistema político tem com o PT, eles teriam de fazer muito mais.

ÉPOCA - Se um acordo está difícil, isso significa que a crise vai se tornar mais aguda?

Pessoa - É muito difícil saber o timing disso. O mundo está muito paciente com a gente. O Brasil tem instituições boas. O joaquim Levy está fazendo um bom trabalho dentro das circunstâncias. O ajustamento cíclico avançou. A gente já consegue enxergar a inflação dentro da meta em 2017. Mas você tem um problema dramático que é o da insolvência do Tesouro Nacional. Por essas questões estruturais, essa insolvência, com o tempo, piora. A solvência não é atribuição do ministro da Fazenda, é problema da sociedade liderada pelo Executivo. Não vejo espaço político para uma concertação, mas a gente tem nos próximos dois anos um mundo de juros muito baixos, e isso dá um espaço para gente. É possível que a situação vá se deteriorando, mas que a gente consiga empurrá-la com a barriga por mais três anos e meio, até a próxima campanha presidencial, sem que haja um evento extremo até lá. E aí, em 2017, a gente discute o país e elege um governo para arrumar a casa. Mas, mesmo nesse cenário, otimista, não dá para ter crescimento porque você não endereça a questão do buraco fiscal. Fica todo mundo com o pé no freio porque sabe que vai ter um ajuste de contas lá na frente, mas não sabe a natureza dele. Isso cria uma incerteza.

ÉPOCA - A pauta-bomba no Legislativo ameaça esse cenário otimista. Como vê o comportamento do Congresso?

Pessoa - O petrolão também é um obstáculo para essa concertação política. O efeito do petrolão é menos na economia e mais nas dificuldades que ele introduz para agenda da política. Ninguém sabe o que vai acontecer, e aí as agendas individuais ficam mais importantes. Mas eu espero que, com a sinalização da Standard & Poors (sobre a possibilidade de rebaixamento da nota de crédito do Brasil), os deputados entendam a situação e aprovem a desoneração da folha de pagamentos como o ministro Levy tinha mandado ao Congresso em fevereiro. Os deputados deviam fazer isso pelo bem do país. O jogo dos parlamentares é votar coisas absurdas, como o fim do fator previdenciário, e deixar que a presidente vete. Eles querem desgastar o PT por tudo que o PT fez. É um pouco a resposta que os políticos estão dando a um grupo político que escolheu transpor alguns limites da política brasileira. Eu coloco a pauta-bomba nesse contexto. Mas eu acho que eles não vão derrubar os vetos da presidente. Eu espero que não.

ÉPOCA - Esse não é um comportamento muito irresponsável, inclusive do PSDB?

Pessoa - Entendo esse comportamento, mas discordo dele. O PSDB só se enfraquece quando vota contra o seu legado.

ÉPOCA - O senhor era uma voz moderada, a favor do diálogo. Por que mudou?

Pessoa - Eu também sou efeito de uma cicatriz de uma campanha sórdida e suja. Além disso, a partir de 2009, a política econômica ficou um desastre. A nova matriz econômica é a política econômica mais malconduzida da história da República. Você pega um navio com 200 milhões de habitantes e faz invencionices, destrói uma política econômica estável que a gente ficou 20 anos construindo com dificuldade. A gente voltou para trás. A vida da minha filha vai ser pior porque essa equipe que estava no governo atrasou o país em 20 anos.

Entrevista Marina Silva; Estou pagando o preço por não apoiar o impeachment

• Ex-senadora critica Dilma, mas prega 'responsabilidade' e diz que não vai 'instrumentalizar a crise' pensando em 2018

Bernardo Mello Franco - Folha de S. Paulo

A duas semanas das novas manifestações contra o governo, Marina Silva afirma que está disposta a pagar o preço por não defender o impeachment de Dilma Rousseff.

Ela prega "responsabilidade" com a democracia e diz que não vai "instrumentalizar a crise" para tentar ampliar o desgaste da presidente.

Sem citar o PSDB de Aécio Neves, que convocará eleitores para os protestos do dia 16, a ex-senadora sustenta que os políticos devem "respeitar a sociedade" e evitar o "oportunismo". "O momento é de escutar. Ouvir e compreender, olhar e perceber", rimou.

Marina recebeu a Folha na última quarta (29), em São Paulo. Segurava seu programa de governo da campanha de 2014, em cópia xerocada e cheia de anotações a lápis.

Ela manifestou incômodo com as críticas de que estaria muito calada diante da crise. "Estou trabalhando muito. Não estou sumida não, viu?"

Folha - A senhora consegue ver uma saída para a crise?

Marina Silva - A contração da economia vai se estender por um período que ainda não sabemos qual é. Se o país perder o grau de investimento, a situação vai se agravar.

Neste momento, é preciso ter muita responsabilidade. Já tivemos perdas em relação às conquistas econômicas. Agora estamos tendo perdas em relação às conquistas sociais, com inflação e desemprego. Uma coisa que não podemos perder é a nossa confiança na democracia.

Não podemos, em hipótese alguma, colocar em xeque o investimento que fizemos na democracia. Você não troca de presidente por discordar dele ou por não estar satisfeito. Se há materialidade dos fatos, não há por que tergiversar. Se não há, o caminho doloroso de respeito à democracia tem que prevalecer.

As manifestações do dia 16 devem pedir o impeachment de Dilma. Qual a sua opinião?

A sociedade tem todo o direito de se manifestar, porque foi enganada quando negaram os problemas e não fizeram o que era preciso.

Mas esse protesto não pode antecipar o que a Justiça ainda não concluiu. Uma coisa é o que a sociedade pauta, outra é o que as lideranças políticas têm que ponderar.

Alguns políticos estão tentando instrumentalizar a crise, em vez de resolvê-la. Na democracia, não se resolve a crise passando por cima do processo constitucional.

Isso tem um custo? Claro. Mas a liderança política não tem só que repetir o que se quer ouvir. Às vezes, ela tem que pagar um preço. Não podemos deixar de considerar o valor da democracia, até pelos traumas pelos quais passamos.

A sra. é cobrada por não defender o impeachment?

O presidente Fernando Henrique tem uma postura ponderada e paga um preço por isso. Eu tenho pago o meu. Não estou fazendo isso porque quero agradar A ou B. É porque acho que é o certo. É muito fácil pensar que existe uma saída mirabolante.

Dilma tem responsabilidade pelo escândalo da Petrobras?

Ela foi ministra de Minas e Energia, chefe da Casa Civil e presidente do conselho da Petrobras. Eu não seria leviana de dizer, sem provas, que ela tem responsabilidade direta. Sinceramente, torço para que não. Ela tem responsabilidades políticas e administrativas. Não há como ser isentada politicamente.

Mas a legislação brasileira diz que é preciso ter envolvimento direto para o impeachment. Não podemos ter uma atitude leviana com isso.

A presidente voltou a falar em diálogo. A sra. aceitaria um convite para conversar?

Agora que estamos com o leite derramado, as pessoas se dispõem ao diálogo...

O caminho do diálogo é sempre bem-vindo, desde que se saiba em que direção. Na direção de mais do mesmo, não há o que conversar.

Torço para que a presidente e sua equipe reconheçam a gravidade dos problemas e os erros que foram cometidos. Reconhecer isso é a base para encontrarmos uma solução.

Qual a saída possível?

Temos que seguir dois trilhos. Um é o das investigações, com autonomia para o Ministério Público, a Polícia Federal e a Justiça. O outro trilho é o dos rumos da nação.

Talvez seja o momento de um pacto em torno de uma agenda comum aos interesses do país. Qualquer governo deveria ter apoio para medidas estruturantes. Eu não posso ser a favor do desenvolvimento sustentável e votar contra ele porque quem está propondo é a Dilma ou o Aécio. Isso seria incoerente.

Quais são os erros que o governo precisa reconhecer?

Em 2008, o mundo todo decidiu fazer o dever de casa. O Brasil simplesmente negou a crise. Negou o princípio da realidade. Tomamos medidas inicialmente acertadas, de estímulo ao mercado interno, mas em algum momento a corda iria romper.

O governo criou a expectativa de que o país poderia continuar crescendo 7% ao ano, como em 2010.

Se a sra. fosse eleita, não faria um ajuste igual ao de Dilma?

A dose não seria de morfina, como a que está sendo dada agora. Com mais credibilidade, com certeza se criaria um ciclo virtuoso de investimento e mobilização dos setores produtivos. O remédio seria menos amargo.

Eduardo Cunha pode continuar à frente da Câmara?

Nenhum de nós está acima da lei, por mais que tenhamos cargos importantes no Congresso. Uma vez denunciado, é óbvio que ele deve ser afastado, sem que isso seja um pré-julgamento. Mas a função que ele ocupa pode criar impedimentos ao andamento das investigações.

Alguns eleitores reclamam que a sra. anda distante do noticiário. A Marina sumiu?

Em 2010, as pessoas me faziam a mesma pergunta. Esse não é o momento de ficar gesticulando, tagarelando. É o momento do gesto.

Não estou aqui para instrumentalizar a crise. Nunca parei de trabalhar. Continuo na militância socioambiental e sou professora associada da Fundação Dom Cabral.

Pretende se candidatar a presidente de novo em 2018?

Ainda não sei. Estou ajudando a criar a Rede [seu novo partido, ainda não registrado]. Quero fazer as coisas sem estar presa ao que pode ser eleitoralmente melhor.

A gente está no fundo do poço porque a preocupação é maior com as eleições do que com o futuro da nação.

Crise atinge até setor que nunca parou de crescer

Crise chega à telefonia móvel e operadoras recorrem a promoções

Alô, crise

• Setor tem previsão de queda nas receitas pela 1ª vez desde 2000

Bruno Rosa – O Globo

RIO - Queda na venda de smartphones, redução no número de linhas móveis em funcionamento e inadimplência crescente. A crise econômica chegou até na telefonia, setor que crescia ininterruptamente desde 2000.

Após quase quadruplicar seu faturamento nos últimos 14 anos, as empresas de telecomunicações devem amargar neste ano um recuo na receita de 3,8% a 6%. A previsão foi feita a pedido do GLOBO pela Orion Consultores, que estima redução nos negócios de R$ 234,1 bilhões, no ano passado, para algo entre R$ 220 bilhões e R$ 225 bilhões até dezembro. Hoje, o setor, diz a associação Telebrasil, responde por 4,2% do Produto Interno Bruto (PIB).


Segundo especialistas, não há pacote de velocidade rápida na internet que resista ao atual momento da economia, com inflação de 8,89% em 12 meses até junho, desemprego em alta, queda de 2,9% na renda real e aumento de juros. Diante desse cenário desfavorável, as empresas estão fazendo o que podem para (tentar) driblar a crise: descontos de até 50% no preço de celulares, planos promocionais e parcelamento das contas em atraso para não perder clientes.

— Setores como o de telefonia estavam conseguindo se manter em patamar de crescimento por terem sensibilidade menor às variáveis econômicas. Antes, o dólar alto e a inflação afetavam o custo das empresas; agora, o desemprego e a menor renda começam a afetar os serviços de telefonia — diz Jason Vieira, economista-chefe da Infinity Asset Management.

Assim, a queda do faturamento vem acompanhada de redução no Ebitda (o lucro antes de serem descontados impostos e juros). Segundo Ronaldo Sá, da Orion, o número deve cair 3,5%, de R$ 36,7 bilhões, em 2014, para R$ 35,4 bilhões neste ano.

Como indicativo, diz Sá, está o recuo no número de linhas em serviço. Segundo a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), o país perdeu em junho 1,7 milhão de linhas, somando 282,4 milhões. A queda de 0,6% foi a maior desde junho de 2006, quando recuou em 0,67%.

Mais inadimplência e queda nas vendas
Mas os números tendem a piorar. Entre as operadoras, a curto prazo predomina uma visão pessimista. O terceiro trimestre vem sendo chamado de “fundo do poço do setor” pelos executivos de teles. Redes varejistas e fabricantes de celulares devem fechar o ano com recuo inédito nas vendas de smartphones. A previsão, diz a consultoria IDC, é de queda de 2%. Por isso, até os badalados iPhone 6 e Galaxy S6 se renderem aos descontos.

Por trás da piora nos números, está a inadimplência no setor. Após aumentar em 39,5% de janeiro a abril, na maior alta desde 2013, o número de clientes com contas em atraso vai continuar subindo até o fim do ano, adianta Julio Leandro, Superintendente do Serasa Consumidor. Segundo ele, o setor ficou na dianteira do ranking, deixando para trás os segmentos de varejo, bancário e não bancário.

— Esse estudo é baseado nas informações repassadas pelas operadoras. A inadimplência maior está ligada ao emprego. Esperávamos uma alta, mas nos surpreendemos. E o serviço de telecomunicações não é tão básico como alimentação. Por isso, as pessoas deixam de pagar primeiro. O que já está difícil, vai piorar — prevê Leandro.

Ronaldo Sá, da Orion, destaca que os clientes de cartão pré-pago são os mais afetados neste primeiro momento, já que têm renda menor:

— Agora, vamos ver isso no pós-pago. O problema é a inadimplência que chegou a 1,8% da receita das operadoras móveis. E vai aumentar nos próximos trimestres.

Por isso, as operadoras vêm recorrendo a negociações com os clientes em atraso. Bernardo Kos Winik, diretor de Varejo da Oi, diz que a companhia tem sido mais seletiva na análise de crédito:

— Estamos sendo flexíveis, parcelando a conta em atraso para não perder o cliente. Também estamos investindo na melhora do sistema de cobrança. O desafio é não encolher neste ano. Por isso, estamos investindo em promoções nos nossos planos de convergência, que permitem economia de até 20% em relação ao valor caso o cliente contratasse os serviços de forma isolada. O dinheiro está mais curto.

Para George Dolce, vice-presidente da Nextel, a empresa decidiu criar novos planos promocionais porque os clientes estão buscando soluções para economizar.

— O nosso setor vinha imune à crise e, de um tempo para cá, sentimos essa desaceleração. A renda disponível está menor. Houve outros fatores como o aumento da energia elétrica, que onerou todo mundo. Por isso, tivemos de nos ajustar às novas necessidades, criando novos planos e aumentando o parcelamento de aparelhos, para até 24 vezes — afirma Dolce.

A Claro decidiu estender o parcelamento dos aparelhos mais caros para 24 parcelas. Até nos planos pós-pagos mais simples, de R$ 100 por mês, o aparelho 4G sai de graça. Segundo Ricardo César, Diretor de Unidades Regionais da Claro, os clientes estão otimizando seus recursos.

— Em todos os planos pós-pagos, ampliamos a franquia de internet, que chegou a dobrar, mas mantivemos o mesmo preço. No caso do pré-pago, mantivemos o valor e aumentamos em 50% a franquia de dados — exemplificou César.

Iphone entra na guerra do desconto
Na TIM, diz Rogério Takayanagi, diretor da empresa, a opção foi criar novos planos e ofertas para “quem está com o orçamento limitado". Por isso, a empresa decidiu não descontar da franquia o uso de redes sociais como o WhatsApp no plano pós-pago.

— A população está preocupada em proteger seus gastos. O desafio é adequar o portfólio em um momento de consumo crescente de dados e renda em baixa.

Essa menor renda disponível derrubou a expectativa de venda de celulares. Se em 2014 foram vendidos 54,5 milhões de smartphones, para este ano o volume pode chegar a 53 milhões de unidades, prevê Leonardo Munin, analista de pesquisas da IDC. Assim, o varejo investe em promoções, com descontos de até 48%. É o caso do LG L8, na Americanas.com, cujo preço caiu de R$ 859 para R$ 443,33. No Fast Shop, o iPhone 6, da Apple, está 10,72% mais barato (passou de R$ 3,499 mil para R$ 3,123 mil), e o Galaxy S6, da Samsung, que caiu de R$ 3,299 mil para R$ 2,723 mil, queda de 17,4%. Munin ressalta que o número final de vendas dependerá do desempenho da Black Friday e do Natal:

— O cliente só vai comprar o que o bolso aceita e não o que deseja.

Fernando Henrique Cardoso - Lobo ou Cordeiro?

- O Estado de S. Paulo

Passei três semanas de julho na Europa, entre o trabalho (pouco) e o descanso (a que reluto a me entregar). Ainda agora escrevo da Sardenha. Caminhando pelos pequenos portos da ilha, assim como pelos da Córsega, sentindo a placidez que ainda hoje envolve a vida dessa gente, não pude evitar a nostalgia pelo nunca vivido por nós metropolitanos. Nostalgia e inveja, mesmo sabendo, pela leitura apaixonante de Fernand Braudel, cujo livro sobre o Mediterrâneo carrego comigo, que a placidez atual mal esconde as agitações do passado, quando sarracenos, fenícios, normandos, gregos, romanos e toda gama de diferentes povos lutava pela conquista do Mare Nostrum. As marcas de tudo isso estão esculpidas nos fortes, torres e casamatas que se espalham pela região, quando não pelas correntes que fechavam literalmente a entrada do Porto de Bonifácio, uma fortificação erguida pelo papa Bonifácio II, incumbido da defesa da Córsega, no final do século 9.º.

Naqueles tempos não havia o furor pela informação em tempo real. É verdade que a notícia de um ataque pirata a uma localidade entre Gênova e Split chegava a Nápoles em três horas, graças aos fogos que, nessas ocasiões, encarregados acendiam nas torres ao longo da costa de Portofino. Mas nenhuma informação, por certo, cruzaria rapidamente o Mediterrâneo de Chipre a Gibraltar, muito menos dali à costa brasileira, do outro lado do Oceano Atlântico.

Hoje, não passa dia ou noite sem que o celular ou o e-mail perturbem a paz do pretendente ao sossego. Não há notícia, boa ou má, relevante ou não, que as tecnologias atuais e a ansiedade por comunicar “novidades” não façam chegar de imediato a quem deseje ou não dela saber.

Assim, tive minha tranquilidade entrecortada, não pela agitação dos mares, mas pelo lento e contínuo noticiário sobre o desmoronar de muito do que se construiu a partir da Constituição de 1988 no Brasil. A desagregação vem de longe, mas parece ter ricocheteado com mais força no mês de julho. Tornou-se claro para a opinião pública que a crise atual nada tem que ver com a “lá de fora”, e que ultrapassa o ridículo insistir em que a culpa é do FHC.

Tornou-se óbvio que há um acúmulo de crises: de crescimento, de desemprego, de funcionamento institucional, moral, de condução política. Tardiamente, círculos petistas se lembraram de que talvez fosse oportuno conversar com os tucanos... Parece a história do abraço do afogado. Calma, minha gente, há tempo para tudo. Há hora de conversar, hora de agir e hora de rezar.

Na ocasião da viagem que a presidente Dilma e os ex-presidentes fizemos juntos à África do Sul, em dezembro de 2013, para assistir ao funeral de Mandela, disse a todos que a descrença da sociedade no sistema político havia atingido limites perigosos. Ainda não era possível antecipar o tamanho da crise em gestação, mas não restava dúvida de que o País enfrentaria dificuldades econômicas e que essas seriam ainda maiores se as suas lideranças políticas não dessem resposta ao problema da legitimidade do sistema político. Disse também que todos nós ali presentes, independentemente do grau maior ou menor de responsabilidade de cada um, deveríamos nos entender e propor ao País um conjunto de reformas para fortalecer as instituições políticas. A sugestão caiu no esquecimento.

Naquela ocasião, como em outras, a resposta do dirigente máximo do PT foi ora de descaso, ora de reiteração do confronto, pela repetição do refrão autorreferente de que antes dele tudo era pior. Para embasar tal despautério, o mesmo senhor, no afã de iludir, usou e abusou de comparações indevidas. Mais uma vez agora, sem dizer palavra sobre a crise moral, voltará à cantilena de que a inflação e o desemprego de hoje são menores do que em 2002, omitindo que, naquele ano, a economia sofreu com o medo do que poderia vir a ser o seu governo, um sentimento generalizado que, em benefício do País, meu governo tratou de atenuar com uma transição administrativa que permitiu ao PT assumir o poder em melhores condições para governar. Sobre a crise de hoje nenhuma palavra...

Perguntado por uma repórter sobre se o ex-presidente Lula me havia enviado emissários para abrir um diálogo, respondi que ele não precisa de intermediários para isso, pois tem meus telefones. E condicionei o eventual encontro: desde que seja para uma discussão de agenda de interesse nacional e pública. Por que isso? Porque não terá legitimidade qualquer conversa que cheire a conchavo ou, pior, que permita a suspeita de que se deseja evitar a continuidade nas investigações em marcha, ou que seja percebida como uma manobra para desviar a atenção do País do foco principal, a apuração de responsabilidades.

Será que chegou o tempo de rezar pela sorte de alguns setores da vida empresarial e política? Talvez. Mas a hora para agir já não é mais, de imediato, do Congresso e dos partidos, mas, sim, da Justiça. Essa constatação não implica dizer um não intransigente ao diálogo. Decidam a Justiça, o TCU e o Congresso o que decidirem, continuaremos a ter uma Constituição democrática a nos reger e a premência em reinventar nosso futuro. Tomara que as aflições pelas quais passam o PT e seus aliados lhes sirvam de lição e os afastem da arrogância e do contínuo desprezo pelos adversários, até agora tratados como inimigos.

É hora de reconhecerem de público que a política democrática é incompatível com a divisão do País entre “nós” e “eles”. Para dialogar, não adianta se vestir em pele de cordeiro. Fica a impressão de que o lobo quer apenas salvar a própria pele. Mais ainda, passou da hora para o lulopetismo reconhecer que controlar a inflação e respeitar a Lei de Responsabilidade Fiscal nada tem que ver com neoliberalismo, senão que é condição para que as políticas sociais, tanto as universais como as específicas, possam ter efeitos duráveis.

Em suma, cabe aos donos do poder o mea culpa de haver suposto sempre serem a única voz legítima a defender o interesse do povo.

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*Fernando Henrique Cardoso é sociólogo, foi Presidente da República

Luiz Werneck Vianna - Antagonismos em Desequilíbrio

- O Estado de S. Paulo

Gentileza gera gentileza, essa foi a frase com letras bem torneadas com que um popular, conhecido como o Profeta Gentileza, grafitou, nas duas últimas décadas do século passado, 56 pilastras que suportam um viaduto na Avenida Brasil, importante via de acesso à cidade do Rio de Janeiro. Além dos seus grafites, o Profeta Gentileza percorria lugares públicos portando estandartes que estampavam seu bordão quando fazia suas pregações por relações amorosas entre os homens. Suas palavras de invocação ao espírito de concórdia comoveram a cidade, que o converteu em personagem cultuado, a ponto de ele ter inspirado o enredo, no carnaval de 2001, de uma escola de samba dirigida pelo famoso carnavalesco Joãozinho Trinta.

Talvez algo desse espírito tenha baixado no vice-presidente da República, Michel Temer - ou por ainda admitir, quem sabe, o velho diagnóstico do brasileiro como homem cordial -, quando, há poucos dias, denunciou em entrevista como imprópria à nossa cultura e às nossas tradições o clima de beligerância que medra sem limites na política e nas redes sociais. Suas palavras, ao que parece, soaram no vazio, uma vez que não há dia sem que o fermento da cólera deixe de envenenar o cotidiano da nossa vida política. Um influente jornal britânico, tratando desse estado de coisas entre nós, em tom hiperbólico, ecoando uma expressão dos idos da Revolução Francesa sob a liderança de Robespierre, chegou à sentença um tanto descabelada de que o País estaria a viver um terror sem fim.

Contudo, ao menos nos dias correntes, ao contrário do sucedido nas chamadas jornadas de junho de 2013, os ódios e o clima de exasperação colérica ainda não ganharam as ruas, embora não faltem, à direita e à esquerda, os que desejam trazê-los de volta - por sinal, o aziago mês de agosto pode ser propício aos seus desígnios malévolos. As ruas e a vida política seguem, como quase sempre entre nós, órbitas distintas entre si, daí que os antagonismos que ora enervam a cena pública têm seu circuito limitado na assim chamada classe política, dizendo respeito às condições de sobrevivência de muitas de suas principais lideranças.

O específico da situação atual, sem o que ela não ganha inteligibilidade, se encontra no fato de importância capital de que, desta vez, o controle da crise não tem como ser exercido apenas pelos políticos, debalde os apelos à concórdia dos bem-intencionados. Fora da arena propriamente política, faz-se presente um tertius, o Poder Judiciário e o conjunto de instituições constitucionalmente criadas a fim de exercer controle sobre a administração pública, como, entre outras, o Tribunal de Contas da União e o Ministério Público Federal, instâncias formalmente autônomas da política e que, nestes 27 anos de vigência da Carta de 1988, têm forjado uma cultura própria. Neste mundo de direitos, princípios e interpretações hermenêuticas, Maquiavel, soberano indiscutível entre os políticos, não entra. Salvo, é claro, pela porta dos fundos.

Sem rebuços, é irrefreável a constatação de que estamos diante de mais um caso de judicialização da política - a política que importa, nesta hora, transcorre nos tribunais, com as principais lideranças dos Poderes Executivo e Legislativo expostas aos riscos de um processo criminal, com a eventual perda dos seus mandatos. Com o deslocamento da arena política para dimensões externas a ela, em particular a da magistratura, blindada a pressões políticas por forte sustentação na opinião pública, nada de surpreendente que muitos dos personagens afetados se comportem sob o mote do après moi, le déluge.

Neste mundo de alto risco não há lugar para gentilezas nem há oportunidades para a doação na expectativa de uma retribuição - ninguém está disposto a ceder a outrem seu próprio pescoço. Pressionado por forças que não controla, o sistema político se contorce num abraço de afogados diante de um público até aqui impassível à sua má sorte. Neste circo de horrores que se tornou nossa vida republicana, com o fel da discórdia grassando em toda parte, ainda agravado por uma economia que não concede esperanças de melhoras, desde agora dois cenários se põem diante de nós.

O primeiro, relativamente benévolo, se apoiaria em mais um sucesso das instituições que herdamos da Carta de 1988, com o saneamento exemplar da política de práticas que a corrompem e a consequente apenação dos culpados, sob a aprovação majoritária da sociedade, mesmo que apenas tácita. A seguir, retomar-se-ia, após os abalos de praxe em circunstâncias desse tipo, um curso menos agonístico na cena política, tal como ocorreu no caso do impeachment do ex-presidente Collor. Como é de óbvia conclusão, esse desfecho teria como principal protagonista, talvez único, o Poder Judiciário e demais instituições formalmente neutras quanto ao poder político. Por qualquer critério, em face do tamanho da crise que aí está, esse insulamento olímpico não parece contribuir para uma solução desejável.

Outro cenário, este de altíssimo risco, seria o de uma eventual ampliação irrestrita do antagonismo, caso venham a ser mobilizados por aqueles que têm tudo a perder, os partidos políticos, os movimentos sociais e denominações religiosas, sobretudo se a isso se vierem somar a insatisfação das ruas com os rumos de uma economia que notoriamente se contrai. No caso, os antagonismos em equilíbrio - segundo Gilberto Freyre, uma marca da nossa cultura política, tópica tão bem estudada por Ricardo Benzaquen de Araújo em sua análise da obra desse autor - poderiam perigosamente se desequilibrar.

Aconteça o que acontecer, nada passará ao largo da política. A proteção de valores e princípios, que nos custaram tanto a afirmar, mais a preservação do que já foi conquistado nesta devassa ainda em curso, está reclamando que se tire logo o Maquiavel do armário.

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*Luiz Werneck Vianna é sociólogo da PUC-Rio

Merval Pereira - Provocação

- O Globo

Por mais que os petistas e seus apaniguados nas redes sociais queiram transformar em grave ato terrorista a bomba caseira que atingiu a sede do Instituto Lula em São Paulo, é preciso ter cautela para caracterizá-lo dessa maneira. O filme da explosão, feito por uma câmera de segurança, é impactante. Mas quando se vê o resultado do “atentado”, a sensação é de que o teor explosivo do artefato era mínimo.

O buraquinho na porta de metal da garagem do prédio é tão ridículo que, se não soubéssemos que foi provocado por uma bomba, poderíamos achar que um motorista desastrado causou a mossa ao realizar uma manobra de marcha à ré.

Mas não façamos como o próprio PT que, na campanha eleitoral de 2010, tentou desmoralizar uma agressão sofrida pelo então candidato tucano José Serra, menosprezando uma clara ação contra a pessoa do candidato oposicionista.

Ao agir assim, o PT estimulou a agressividade de sua militância, em vez de coibi-la.
Assim como Lula comparou o candidato do PSDB à Presidência da República ao ex-goleiro da seleção do Chile Roberto Rojas, que simulou ter sido atingido por um rojão em partida válida pelas eliminatórias da Copa do Mundo, em 1989, no Maracanã, adversários do PT já estão comparando a “bomba caseira” a um simples rojão atirado contra o Instituto Lula.

Não importa se foi um rojão ou uma bomba caseira, nem mesmo se o estrago feito foi pequeno ou grande. O que importa é que aparenta ser uma clara agressão a um símbolo do PT e ao próprio ex-presidente Lula, e essa atitude não deve ser tolerada em uma democracia.

A Polícia Federal deve investigar a fundo para identificar os agressores. Mas também não é aceitável querer transformar o episódio em um grave atentado terrorista da direita odienta, nem aproveitá-lo para tentar reverter o ambiente político desfavorável aos petistas.

Se persistirem nessa toada, vão estimular a versão de que se tratou de uma ação auto-infligida justamente com o fim político de angariar apoios num momento em que o PT, e mesmo o ex-presidente Lula, estão em situação delicada diante das diversas delações premiadas que estão em curso.

A negociação que está sendo feita pelo ex-diretor da Petrobras Renato Duque, homem de confiança do ex-ministro todo poderoso José Dirceu, confirmada por seus advogados, é a que mais se aproxima do PT. Enquanto permanece a possibilidade de o ex-diretor da empreiteira OAS Leo Pinheiro realmente fechar um acordo com o Ministério Público Federal para uma delação premiada em que a figura central seria o ex-presidente Lula.

Assim como são minoritários os que seguem o deputado Bolsonaro e pedem a volta dos militares nas manifestações contra o governo da presidente Dilma, também esses “terroristas” de bombas caseiras não representam a imensa massa que saiu às ruas no início do ano, e se prepara para voltar a ela em 16 de agosto.

Fez bem, portanto, o governo de não dar a dimensão política que os petistas gostariam, embora, a começar pela presidente Dilma nas redes sociais, tenha repudiado o indício de intolerância na disputa política. Mesmo que essa intolerância seja uma marca registrada dos militantes petistas, não pode ser a característica permanente de nossa luta política.

Vamos aguardar as apurações policiais para ver onde está a origem desse “atentado”, e circunscrevê-lo ao que realmente representa, uma provocação. Basta ver o “estrago” causado para ter certeza de que o “atentado” não passou de uma ação premeditada para criar uma repercussão política sem causar danos maiores.

Dora Kramer - O franco atirador

- O Estado de S. Paulo

"Eduardo Cunha uma ova, o meu nome agora é Zé Pequeno", poderia ter dito o presidente da Câmara no momento em que oficializou a ruptura com o governo. Quem viu o filme Cidade de Deus entende a referência. A frase marca o momento em que "Dadinho" delimita seu território e anuncia que dali em diante vai barbarizar.

Descontadas todas as diferenças entre pessoas, situações e atividades, o estado de espírito contido naquele aviso faz as ações do político da vida real lembrarem a fala - cujo termo original foi aqui substituído por "uma ova" - do personagem: a declaração de guerra a quem lhe ameaça o poder e se põe em seu caminho.

Eduardo Cunha é, sem sombra de qualquer dúvida, o presidente da Câmara dos Deputados que mais força ostentou - só não se pode dizer "na história" porque pode ter havido algum parecido. Igual, seguramente nenhum. Em termos de controle sobre a Casa nem Ulysses Guimarães teve tanto. Inclusive por circunstâncias e aplicação de metodologias diversas.

Esse aspecto é observado por políticos bastante experientes, que apontam quatro componentes da peculiaridade de Eduardo Cunha. Para o bem e para o mal. São eles: conhecimento sobre os assuntos de que trata, estuda tudo a fundo; habilidade no uso do Regimento da Câmara; ousadia nos enfrentamentos; utilização de métodos heterodoxos na operação do poder. Aqui os colegas do deputado não detalham a natureza da heterodoxia, mas indicam como resultado palpável o fato de Cunha ter sua própria "bancada". Grupo de fiéis seguidores, cujas campanhas eleitorais ele ajudou a financiar.

Seriam apenas características de um político atirado, disciplinado, incansável e de temperamento frio não fossem as acusações que pesam sobre ele. O fato de ser investigado no âmbito de uma operação de desmonte de esquema de corrupção na máquina pública é relevante, mas isso não o torna legalmente incompatível para o exercício do cargo.

É provável que Eduardo Cunha seja em breve denunciado pela Procuradoria-Geral da República ao Supremo Tribunal Federal, mas, se isso acontecer, nada o obriga a se afastar do posto. Afinal, o STF precisaria aceitar a eventual denúncia que, transformada em processo, ainda careceria de julgamento.

Isso é uma coisa. Desta o deputado defende-se acusando seus adversários políticos que dão expediente no Palácio do Planalto de armarem uma conspiração contra ele envolvendo o procurador-geral com delatores, todos combinados na criação de mentiras para prejudicá-lo.

Outra coisa muito diferente e - bem mais grave - é a recente série de reiteradas referências ao suposto hábito que o deputado Cunha teria de ameaçar e constranger pessoas. O processo sobre o envolvimento no esquema da Petrobrás tem seu tempo jurídico, mas o esclarecimento a respeito da conduta do presidente da Câmara precisa obedecer à urgência política.

Os relatos são muitos e não podem ser ignorados. O mais recente feito pela advogada Beatriz Catta Preta, dizendo que resolveu abandonar a defesa de delatores da Lava Jato e a profissão por ter recebido ameaças, segundo ela, da parte de integrantes da CPI da Petrobrás. Isso logo depois de um de seus clientes ter dito que Eduardo Cunha recebeu US$ 5 milhões de propina.

Os advogados que assumiram a causa acusam o deputado de agir "pela lógica de gangue". Antes disso, dois réus do mesmo caso já haviam dito que tinham medo do deputado e que temiam pela segurança das respectivas famílias.

Isso não é normal, nunca aconteceu. Ainda que seja para que fique consagrado o desmentido, a Câmara tem o dever de esclarecer se o presidente tem, ou não, o hábito de ameaçar pessoas e constranger adversários.

Luiz Carlos Azedo- Para onde vamos?

- Correio Braziliense

• Por mais blindados que estejam, o Ministério Público Federal dispõe de meios para processar e levar à condenação os políticos envolvidos na Operação Lava-Jato

Eis uma pergunta que está em todas as cabeças. No turbilhão da crise tríplice que estamos vivendo — econômica, política e ética —, é difícil respondê-la sem antes identificar quais são as linhas de força do processo em curso.

O epicentro da crise está no governo Dilma Rousseff, incapaz de apontar saídas verdadeiras para os impasses que estão se formando na conjuntura, e não no Congresso, que volta a funcionar nesta semana, sob a mira das investigações da operação Lava-Jato.

Essas linhas de forças, digamos assim, ditam os rumos dos acontecimentos, independentemente dos esforços dos principais atores envolvidos para contê-la. A rigor, estamos numa situação na qual a presidente Dilma Rousseff perdeu capacidade de iniciativa política e credibilidade para impor alternativas; e a oposição parlamentar ainda não tem coesão nem força para romper o impasse, construindo uma alternativa de governo, via impeachment.

Como todo empate dessa ordem, ele tende a se resolver com o predomínio de um polo em relação ao outro. De um lado, temos um sistema de poder encabeçado pelo PT, cujo projeto se esgotou, corroído pelo anacronismo de suas concepções em relação à economia e ao mundo, pelo isolamento social e político e pela desmoralização provocada pela cumplicidade com a corrupção; de outro, instituições democráticas que zelam pelo bem comum, como o Ministério Público, a Polícia Federal e o Judiciário, a opinião pública e as forças políticas de oposição, que extrapolam os partidos e agora abarcam movimentos estruturados pelas redes sociais. O choque se dá entre esses dois conjuntos de forças.

Sintomas mórbidos
Uma das linhas de força da crise, talvez a mais robusta, é o desequilíbrio estrutural da economia, que não vai se resolver em curto prazo, pois demanda reformas capazes de redimensionar o tamanho e o papel do Estado, equacionar o conflito distributivo entre os entes federados — União, estados e municípios —, restabelecer o equilíbrio entre a produtividade e a renda em relação ao PIB etc.

A consequência da inviabilidade de ajuste fiscal rápido e eficiente, como seria necessário, será o agravamento dos problemas sociais e o esgarçamento das relações do governo com a maioria da população, principalmente os mais pobres. Ou seja, essa linha de força que opera na economia tende a aprofundar a crise e inviabiliza as pretensões do governo no sentido de retomar o protagonismo político.

Diante do enfraquecimento do governo e de sua incapacidade de construir alternativas — o primeiro passo seria uma reforma administrativa para enxugar a máquina federal e a formação de uma nova coalizão política —, a segunda linha de força é a desarticulação da base política do governo no Congresso. Nunca, desde a Constituinte, a Câmara e o Senado estiveram tão longo tempo fora do controle do Executivo.

Entretanto, isso não ocorre em razão de uma tomada de consciência do Congresso acerca de sua própria independência como poder, mas em função de uma disputa no interior do bloco de forças que compõe o governo, mais especificamente entre o PT e o PMDB. Na medida em que o governo se enfraquece, mais protagonismo legislativo adquire o PMDB, que controla a pauta das duas casas. A recomposição da aliança dos dois partidos passa pela entrega do governo ao PMDB.

Ocorre, porém, que este é um sintoma mórbido da crise, uma vez que os principais caciques políticos governistas, como Eduardo Cunha (PMDB-RJ), na Câmara, e Renan Calheiros (PMDB-AL), no Senado, estão sendo alvos de investigações da Lava Jato e isso muito influencia o comportamento de ambos. O governo opera para domar a rebeldia de sua base pelos métodos tradicionais, que são a liberação de emendas parlamentares ao orçamento e a distribuição de cargos. Esse expediente era eficiente quando a economia navegava em mar de almirante. Agora, já não resolve o problema.

É aí que surge a terceira linha de força do processo: a Operação Lava-Jato, completamente fora do controle do Executivo e do Legislativo. A investigação do escândalo da Petrobras, que se estende a outras estatais, como a Eletronuclear, prossegue de forma inexorável e tende a promover um strike na política nacional. Com amplo apoio da opinião pública, as investigações estão desmantelando um esquema de saque aos recursos públicos em benefício de partidos no poder, seus operadores, empresas privilegiadas por eles e agentes públicos em posições estratégicas.

Por mais blindados que estejam os políticos, o Ministério Público Federal dispõe de meios para processar e levar à condenação os políticos comprovadamente envolvidos no esquema de corrupção. A tradição do Congresso, nesses casos, é purgar seus pecados degolando os que forem flagrados praticando irregularidades. Afinal, existe um suplente para cada deputado ou senador, que pode assumir o seu lugar em caso de cassação. Na hora em que o Congresso começar a cortar na própria carne, porém, buscará uma saída política para a crise no âmbito do Executivo, com ou sem a presidente Dilma.

Eliane Cantanhêde - Bruxas e cachorros loucos

- O Estado de S. Paulo

Agosto chegou, trazendo velhas lembranças do "mês das bruxas", ou "mês do cachorro louco", quando Getúlio se matou, Jânio renunciou, JK morreu. E este agosto de 2015 promete ser um mês chacoalhado por grandes emoções no Executivo, no Legislativo e no Judiciário. Ah! E nas ruas...

O presidente da Câmara, Eduardo Cunha, vem aí! E vem armado até os dentes, testando sua tropa na Casa e mirando a presidente Dilma Rousseff, deve chegar camuflado, ora declarando que não usará o arsenal do cargo contra o Planalto, ora descarregando munição no gabinete presidencial, bem ali do outro lado da rua.

Ele pode disparar projetos-bomba que explodam as contas públicas e empurrem Dilma para o desgaste de vetá-los. Também pode utilizar seus homens-chaves na CPI da Petrobrás para detonar inimigos, adversários ou mero desafetos. E, enfim, ele tem em mãos um potente torpedo: os pedidos de impeachment. Mas Cunha é um guerreiro ferido, que tem voz de comando, mas se arrasta no terreno inóspito da Lava Jato. Se, além da delação de Júlio Camargo, houver provas contra ele, vai ter de economizar munição contra Dilma para se defender. Não será fácil.

Nesse clima, eis que a verdade chega nua e crua: depois de tantos bons serviços prestados ao País no impeachment de Collor, nos "Anões do Orçamento" e nas relações incestuosas entre o juiz Lalau e o então senador Luiz Estêvão, as CPIs não têm mais serventia. Perderam iniciativa e instrumentos para o MP e a PF e ficaram a reboque da internet e da mídia. Pior: se servem para alguma coisa, é para fazer o jogo de interesse dos poderosos de plantão no Congresso.

Qual o poder da CPI da Petrobrás? Os procuradores e policiais já estão lá adiante, avançaram para o setor elétrico, rodam o mundo, já têm uma história com início, meio e um fim plausível. A passos de tartaruga, a CPI só passa vexame a cada vez que um delator já está cansado de tanto falar, vai lá e não abre a boca.

Eduardo Cunha, que manda na Câmara e na CPI, parece aproveitar-se disso para fazer investigações, não de interesse da sociedade, mas do seu próprio interesse pessoal. Só isso explica que a empresa de espionagem Kroll esteja focando nos podres do lobista Júlio Camargo. Para tentar desqualificar sua delação contra Cunha? E só isso explica que a CPI insista em convocar a advogada Beatriz Catta Preta. Para ameaçá-la?

Num mundo de grandes criminalistas de cabelos brancos, pagos a peso de ouro, eis que surge aquela mulher, pouco mais que uma menina, e põe o processo, as regras e as tradições de cabeça para baixo ao entronizar esse instrumento tão elementar, mas novíssimo: as delações premiadas. Já são umas 25, 26, e é basicamente isso que torna tudo diferente. Daí vem o fio da meada, que vai se entrelaçando, desvendando, revelando e dando forma à maior roubalheira da história.

Não que Catta Preta seja santa - nem demônio. Por enquanto, ela é um personagem envolto em mistérios. Por que jogou os clientes da Lava Jato para o alto? Por que abandona a carreira no auge do sucesso? Por que a artimanha das insinuações e meias verdades? Em suas entrevistas ao Estado e à Rede Globo, a advogada se limitou a mandar um recado a quem interessar possa. Ela disse que sofre "ameaças veladas", seja por meio da imprensa, seja por membros da CPI. Mas não disse o básico: quem, como, onde e por quê? Deixa um cheiro de pólvora no ar, sem apontar a arma, nem de onde partem os tiros.

E, em agosto, chega finalmente a vez de o Supremo entrar em cena, numa guerra contra o Congresso. Depois de empreiteiros, executivos da Petrobrás, doleiros e paus-mandados de todos eles, a Lava Jato vai pegar os políticos. Isso vai longe e tem potencial explosivo.

É nesse cenário, e com a economia em frangalhos, que o TCU vai julgar as contas do primeiro governo Dilma, e o TSE vai julgar as contas da campanha de Dilma. Ah! E com aquele arremate perfeito: as manifestações do dia 16 vêm aí!

Fernando Gabeira - Piração interna bruta

- O Globo

• Petistas se sentem perseguidos, mas são incapazes de refletir profundamente sobre as causas

O início de agosto vai me colher numa viagem pelo interior do Tocantins. Precária conexão por telefone e internet. Em outros momentos, mergulhar no interior é mais fácil. Mas agora, surpresas acontecem com muita rapidez. Como será o Brasil quando voltar? Minha ligação emocional com o país não me abre alternativas. Plutão? Pequeno, redondinho, uma lua chamada Charon, mas um coração de planícies geladas. Kepler 452-B? Muito longe, e os endereços seriam complicados: Kepler 452-B, SQS, QI 4 casa 2.

Ouço entre os mais jovens e competentes que a alternativa é o aeroporto. Permitam-me lembrar que daqui a pouco os aeroportos podem estar tomados pela Polícia Federal. As concessões para sua exploração foram entregues às empresas do Lava-Jato. Imaginem o que aconteceu?

Agosto talvez coloque algumas coisas no eixo, com a volta das manifestações. Lula e Dilma estão pisando em brasas, e isso ferve seus neurônios. Lula afirmou que os petistas são perseguidos no Brasil como os judeus na Alemanha, os cristãos em Roma, os italianos sob o fascismo. E Dilma garantiu que a operação Lava-Jato é responsável pela queda de 1% no PIB. O restante foi derrubado pelo suspeito de sempre: a situação lá fora.

Não basta contestar Lula mostrando que Curitiba não é Dachau. Nem tentar ajudá-lo mostrando que os leões comiam cristãos na arena, mas aqui o leão é apenas um cara de bigode, anunciando que a Receita Federal já recuperou mais de R$ 200 milhões em impostos das empresas da Lava-Jato.

Compreendo que se sintam perseguidos e queiram buscar aliados confortantes na história: judeus, cristãos, democratas italianos. Ninguém diz abertamente: estamos sendo perseguidos como Al Capone ou a Máfia Siciliana. De um ponto de vista objetivo, gângsteres e a máfia são o melhor exemplo. Foram simultaneamente perseguidos pela polícia e fisco, dentro das normas democráticas que, por sinal, inexistiam no nazismo, no fascismo e na própria Roma antiga.

Dilma resolveu que a Lava-Jato provocou uma queda de 1% no PIB. Como calculou isso? Nunca se devolveu tanto dinheiro roubado, nem se arrecadou tanto com impostos sonegados. Ela queria bater de frente com a operação que desvendou os mistérios das campanhas milionárias. Não teve coragem.

Na opinião dela, o Brasil está devastado por juízes, procuradores e policiais que cumprem sua missão com eficácia. Se deixassem soltos e intocados os empreiteiros e políticos, a magia do crescimento, via corrupção, estaria garantida. Pelo menos 1% do PIB.

Não retomo argumentos de Lula e Dilma para criticá-los. O Lula, para mim, tem habeas-língua, pode dizer qualquer bobagem. E Dilma simplesmente não é do ramo, apesar da juventude na luta armada. Ou talvez por causa dela: muitos na luta armada desprezavam a política.

Retomo apenas para, modestamente, sugerir a mudança de foco. Eles reconhecem que são detestados, petistas se sentem perseguidos, mas são incapazes de refletir profundamente sobre as causas. Comparar militantes de um partido acusado de corrupção e incompetência com seis milhões de judeus mortos nas câmaras de gás só faz aumentar a raiva das pessoas que têm um mínimo de conhecimento do mundo. Atribuir a queda do PIB à mais séria das investigações sobre assaltos que, inclusive, arruinaram a Petrobras significa admitir que a corrupção é o dínamo do crescimento, e quanto mais bandido for o governo, mais chance tem de levar o Brasil ao seu destino glorioso.

Tanto Lula e Dilma estão preocupados com a tolerância e querem reduzir a tensão na política brasileira. No entanto, seus passos são provocativos. Quanta tinta não vai se gastar para mostrar que Dilma agiu de má fé ao atribuir a queda do PIB à operação Lava-Jato? No caso de Lula, sua frase é de uma ignorância tão contundente que ninguém vai se dar ao trabalho de escrever sobre ela.

De qualquer maneira, o essencial está aí: Dilma, Lula e o PT, através da negação do assalto e das críticas aos procuradores e PF, são uma das causas da rejeição ao governo e ao PT. O interessante é que se vestem de laranja, sujam as mãos de óleo, enrolam-se na bandeira para defender a Petrobras, mas quando se revela como ela foi aniquilada pelos saqueadores, colocam-se contra a polícia que investiga.

É difícil transmitir a eles a ideia de que truques do PT não colam mais. Dilma vai fritar ovo na televisão, sujar o avental, pedalar, beijar o netinho, abraçar Lula no dia do amigo e estranhar a rejeição a uma presidente “tão humana”. A mulher do empreiteiro talismã do PT, Marcelo Odebrecht, diz num bilhete ao marido, sobre o jantar com sindicalistas: “Espero que não suje minhas toalhas de linho. Vou pirar”.

Não se preocupe cara Odebrecht. Caiu um PIB mas aumentou um outro: Piração Interna Bruta. Vocês já piraram lá atrás, no começo de tudo.

Elio Gaspari - O dilema de Dilma

- O Globo

• Não há agenda positiva possível enquanto o governo estiver sitiado pelas roubalheiras que hospedou, tolerou e finge desconhecer

A doutora Dilma parece perdida como cego em tiroteio. Sua reunião com os governadores foi mais um exercício de perda de tempo. Admitindo-se que ela consiga desviar-se da ruína econômica, resta-lhe uma decisão: o que fazer diante da Lava-Jato?

Até agora ela se deixou corroer porque supõe que pode ficar numa posição de neutralidade contra. “Eu não respeito delator” será uma frase que a acompanhará pela vida.

Ou ela se alista publicamente na Lava-Jato, ou está frita. Lula deu meios passos ao tirar José Dirceu da Casa Civil e Antonio Palocci da Fazenda. Faltou dissociar-se do mensalão, e o resultado está aí.
Fernando Collor teria terminado o mandato se, na primeira hora, tivesse rifado o tesoureiro Paulo Cesar Farias. O general Figueiredo arruinou seu governo e sua biografia acobertando o atentado do Riocentro.

Não há agenda positiva possível enquanto o governo estiver sitiado pelas roubalheiras que hospedou, tolerou e finge desconhecer. Pactos são coisa para patos. Um rompimento com os conluios será coisa difícil, até porque, enquanto a doutora está neutra-contra a Lava-Jato, a oposição está a favor, desde que ela pare, limitando-se na amplitude e no tempo.

A doutora deve reler o que diz. Na reunião com os governadores, informou:

“Nós, como governantes que somos, não podemos nos dar ao luxo de não ver a realidade com olhos muito claros”.

Quem souber o que isso quer dizer ganha um fim de semana em Miami.

Samuel Pessôa - As razões da nova matriz

- Folha de S. Paulo

• O PT é social-democrata; não é claro o motivo de o partido ter embarcado na aventura intervencionista

A nova matriz econômica, o regime de política econômica vigente de 2009 até 2014, conjuntamente com o esgotamento do contrato social da redemocratização, causou a crise econômica atual.

A nova matriz econômica teve como elemento central tornar o setor público o principal protagonista no processo de desenvolvimento do país. O PT é um partido social-democrata. Não é claro o motivo de ter embarcado na aventura intervencionista.

A social-democracia defende Estado grande para prover os seguros sociais básicos. O intervencionismo estatal –BNDES, desonerações, fechamento da economia, novo marco regulatório do petróleo, recriar indústria naval etc.– não faz parte necessariamente desse pacote.

Como tenho argumentado, a adoção desse pacote de política econômica foi obra dos intelectuais e economistas petistas.

O posicionamento dos intelectuais e economistas petistas foi influenciado por uma literatura produzida em departamentos americanos de ciências humanas aplicadas, com ênfase no desenvolvimento.

Dois autores foram particularmente influentes: Alice Amsden, com escritos sobre o desenvolvimento sul-coreano, e Robert Wade, sobre Taiwan. Esses autores documentaram que houve fortíssimo intervencionismo estatal nas experiências de desenvolvimento desses países.

Lamentavelmente, a absorção pela nossa academia dessa literatura foi acrítica. Os trabalhos de Amsden e Wade têm várias limitações.

Nada indica que o intervencionismo tenha sido o responsável pelo crescimento econômico daqueles países asiáticos. Simultaneamente, essas sociedades faziam um monte de outras coisas! Desenvolveram sistemas públicos de educação universais de elevada qualidade. Foram economias que não toleraram bagunça na macroeconomia e sempre apresentaram taxas de poupança doméstica elevadíssimas.

Atribuir o desenvolvimento ao intervencionismo e desconsiderar o papel desempenhado pela altís- sima qualidade da educação, pelas elevadas taxas de poupança e pe- la estabilidade macroeconômica constituem um erro daqueles autores que nossa academia heterodoxa reproduziu.

Mesmo que o intervencionismo tenha sido fundamental para o desenvolvimento espetacular que essas sociedades experimentaram, é possível que a estabilidade macroeconômica e a elevada qualidade da força de trabalho, em razão da qualidade da educação pública, tenham sido um requisito essencial para o sucesso do intervencionismo.

Por exemplo, as altas taxas de poupança levavam a baixas taxas de juros, o que tornou bem mais barato crédito subsidiado pelos bancos públicos ao crescimento dos Chaebols, as campeãs nacionais sul-coreanas.

Finalmente, mesmo que o intervencionismo tenha sido essencial e mesmo que as diferenças que há entre nós e eles não sejam decisivas para o sucesso da estratégia intervencionista, é necessário saber se o setor público brasileiro tem capacidade gerencial para implantar com um mínimo de eficiência essa agenda.

No caso sul-coreano, o Estado sempre se preocupou em desenhar a política pública com incentivos corretos e sempre foi claro que have- ria punição se as metas não fossem cumpridas.

A desconsideração desses condicionantes e a aceitação acrítica do intervencionismo "porque todos fazem" ajudou em muito a cavar nos últimos seis anos o buraco no qual nos encontramos hoje.
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Samuel Pessôa, formado em física e doutor em economia pela USP, é pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da FGV.

Amir Khair - Há que trilhá-lo

- O Estado de S. Paulo

• Em resumo, tem-se 80% da inflação que não depende do Banco Central

A equipe econômica apostava num ajuste fiscal como ponto de partida para estimular os empresários a investir e daí viria o crescimento econômico. A fraqueza política do governo aliada a um Congresso e Judiciário gastadores frustrou a expectativa da equipe na aprovação do pacote de redução de despesas e elevação de tributos considerados necessários ao ajuste pretendido. De sobra o Congresso aprovou bombas que se não desarmadas explodiriam as despesas da Previdência Social. A presidente as vetou.

O que essa equipe não esperava foi a frustração de arrecadação devida à recessão em curso. Esse o golpe que fez reduzir o esforço fiscal de R$ 66,3 bilhões (1,1% do PIB) para R$ 8,7 bilhões (0,15% do PIB). Em artigo anterior (Recessão x Ajuste de 19 de julho) procurei mostrar que sem crescimento não há possibilidade de sucesso em qualquer tentativa de ajuste fiscal, pois a perda da receita supera em cerca de 2 a 3 pontos a queda do PIB devido ao aumento da inadimplência. Assim se a recessão for de 2% a queda de arrecadação será de 4% a 5%.

Mostrei ainda que o principal golpe contra o ajuste vem do Banco Central ao elevar seguidamente a Selic. Ocorreu um crescimento de R$ 106 bilhões (!) em juros no primeiro semestre deste ano em relação a igual período do ano passado. Essa perda fiscal supera com folga a piora ocorrida na reprogramação da meta de superávit primário de R$ 57,6 bilhões (66,3 menos 8,7).

Essa dicotomia entre Tesouro Nacional e BC não é enfrentada pela equipe econômica que vem apoiando as sucessivas elevações da Selic. Esse grave erro é que está explodindo a relação dívida bruta/PIB, que entre o início e o fim do ano passado passou de 53,3% para 58,9% e ao final de junho já pulava para 63,0%. Nessa toada de elevada Selic e recessão não será de admirar que fure o teto de 70% neste ou no máximo em 2016. Tudo isso é observado pelas agências de classificação de risco e o rebaixamento do País é iminente.

Há que observar o efeito devastador para o equilíbrio fiscal da despesa com juros. As análises têm passado ao largo dessa questão e só olham o que ocorre com o superávit primário que não considera juros na despesa.

O governo se encontra numa sinuca de bico. Manter a Selic em 14,25% até o final do ano é caminho certo para estourar a relação dívida/PIB e perder o grau de investimento com sérias consequências. Reduzir a Selic vai levar o BC a uma situação delicada, pois deveria ter parado de elevá-la a mais tempo. Além disso, será acusado pelo mercado financeiro, que lucra com a Selic alta, de ser leniente com a inflação.

O que fazer? Creio que sem políticas voltadas ao crescimento com níveis de taxas de juros caminhando para o que fazem a maioria das principais economias, o insucesso é certo. Há que reduzir rapidamente a relação dívida/PIB e duas ações se impõem: a) substituir a emissão de títulos por moeda (quantitative easing) como fazem os Estados Unidos, Europa e Japão entre outros e; b) vender US$ 100 bilhões das reservas atualmente em US$ 380 bilhões; isso faria uma redução de R$ 330 bilhões na dívida bruta, ou seja, 9,3%.

Essas reservas estão superestimadas; no auge da crise de 2008 estavam em US$ 200 bilhões. O custo anual de carregamento dessas reservas é dado pelo diferencial entre as taxas de juros Selic e de remuneração dos títulos do Tesouro americano de 12 pontos aplicado sobre o estoque de US$ 380 bilhões que dá US$ 46 bilhões ou R$ 150 bilhões!

A anomalia que caracteriza a macroeconomia do País é a taxa de juros. As economias avançadas têm a relação dívida/PIB acima de 100%, mas como praticam taxa básica de juros ao nível da inflação, a despesa com juros se situa normalmente abaixo de 2% do PIB, bem distante dos 7% a 8% que causam nosso rombo fiscal.

Estranhamente o debate econômico não foca os juros. É como se fosse sagrada a decisão do BC de operar com taxa Selic anormal. Esse o problema a ser enfrentado. Pode o BC gozar de plena liberdade e praticar a Selic que bem entender? Não creio. A Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) foi um marco nas finanças públicas estabelecendo princípios e regras que objetivam o equilíbrio fiscal (despesa igual a receita). Enquadrou todos os poderes da União, Estados, Municípios e o Ministério Público, mas infelizmente na fase de sua concepção não houve o enquadramento da responsabilidade fiscal para o BC. Assim, a despesa com juros suplantou sempre o resultado fiscal, impondo os déficits ocorridos.

O fato é que pela legislação compete exclusivamente ao BC o controle da inflação. Mas, se formos adentrar no miolo da inflação e decompor seu medidor oficial, o IPCA, vamos constatar que 80% da inflação não passa pela porta do BC. Vejamos.

A inflação de serviços é comandada pelo mercado de oferta e demanda, pois são milhões de ofertantes e de demandantes, se assemelhando a um mercado perfeito, havendo livre escolha para os consumidores de serviços. O legado do governo Lula ao acrescentar cerca de 40 milhões de novos consumidores na calasse C fez crescer a demanda em velocidade superior à oferta, mas aos poucos isso se ajusta com a entrada de novos ofertantes. Assim, o que regula a inflação de serviços é o mercado. Não é o governo, nem o BC. Só aí temos 35% do peso na composição do IPCA. Nos últimos quatro anos a inflação de serviços foi em média de 8,5% ao ano.

Outro componente do IPCA são os alimentos que respondem por 25% dos preços no IPCA e o que comanda os preços é o clima. Nos últimos quatro anos tivemos sempre problemas sérios de excesso de chuvas ou seca prolongada, fazendo com que a inflação média de alimentos atingisse 9,0% ao ano.

O terceiro componente do IPCA, com peso de 20%, são os preços administrados pelos governos federal, estadual e municipal, que não dependem do BC. Em resumo tem-se 80% da inflação que não depende do BC e atribuir a ele a responsabilidade exclusiva pela inflação faz com que ele use a Selic para influir nos 20% do IPCA que sobram, que são os bens sujeitos à concorrência externa. Para isso usa Selic elevada para atrair dólares especulativos que vem em procura de títulos do governo federal, que oferecem juros reais de 8,4% ao ano, sem risco e com liquidez imediata.

Não vejo outro caminho para voltar a crescer senão posicionar o mais rápido possível a Selic ao nível da inflação como fazem a maioria dos países que enfrentaram a crise externa. Com isso: a) avança-se rumo ao equilíbrio das contas públicas; b) posiciona-se o câmbio no lugar (ao redor de R$ 4,50/US$) permitindo o crescimento das exportações rumo ao equilíbrio externo e; c) abre-se a possibilidade de retomar o crescimento em bases sólidas diante de um quadro macroeconômico saudável. Felizmente esse caminho não passa pelo Congresso e depende só do governo. Há que trilhá-lo!

Miriam Leitão - Acordo sim, pacto não

- O Globo

A notícia boa da semana passada foi a capacidade de os governadores e a presidente Dilma se reunirem e concordarem sobre algo. Há clima para acordos em alguns pontos, mas não há possibilidade de pacto, resumem participantes do encontro. O país continuará em muita incerteza política. Dilma fez, na reunião, um diagnóstico claudicante da crise e, de novo, não admitiu seus erros.

A presidente disse que as promessas da campanha foram feitas em outra conjuntura, diferente da atual, e culpou a crise internacional, a alta do dólar e a queda das commodities pelo aumento da inflação e piora do quadro fiscal. Não houve qualquer alteração brusca nestes meses. Os dados divulgados pelo Tesouro na quinta-feira e pelo Banco Central na sexta mostram que a despesa que mais aumentou (108%) foi a rubrica subsídios e subvenções porque o Tesouro está “despedalando”. Foram gastos postergados no ano passado e que estão sendo quitados agora. Quanto à inflação, há impacto do dólar, mas ele está longe de ser a razão para o salto deste ano. As commodities têm o efeito baixista nos preços. O fator mais relevante é o tarifaço da energia elétrica, feito para corrigir as distorções criadas pelo próprio governo.

A dúvida é a seguinte: em algum momento a presidente Dilma fará um diagnóstico sincero da crise ou continuará apostando que seus interlocutores e o país não têm memória ou discernimento? O que ela recebe de herança maldita ela mesma plantou no mandato passado. O país sofre as consequências dos erros da política econômica e do adiamento, por razões eleitorais, das correções de rumo.

Durante os primeiros seis meses do ano, em que sua popularidade se liquefez e o Congresso aprovou medidas lesivas aos cofres públicos, Dilma nunca procurou os governadores. Recebeu conselhos e os ignorou. Seria normal uma reunião em começo de mandato com todos os governadores para conversar sobre a pauta comum. Dilma só saiu do seu isolamento quando recentemente foi procurada por um grupo pequeno de governadores que mostrou a ela que o diálogo entre os membros da Federação faz parte da rotina republicana. Não há clima agora para a formação de nenhum pacto, mas felizmente ainda há espaço para entendimentos em pontos específicos.

Um acordo possível é contra a insensatez do Congresso, principalmente da Câmara, de criar despesas públicas. Os parlamentares legislaram no primeiro semestre como se não houvesse amanhã, aprovando despesas como o fim do fator previdenciário, o subsídio ao diesel, o reajuste das pensões e aposentadorias pela fórmula do salário mínimo, o aumento dos servidores do Judiciário. O presidente da Câmara, Eduardo Cunha, ameaçado pelas revelações da Lava-Jato, promete se vingar na pauta do poder que preside. A ameaça enfraquece o legislativo. A Câmara não pode ser usada para uma vingança pessoal. O aumento de despesas não afeta apenas o Executivo. Põe em risco a estabilidade econômica.

Uma conversa entre os chefes dos executivos federal e estaduais tem a chance de criar uma barreira contra esse risco. Se o pacto pela governabilidade é impossível, pelos erros da presidente Dilma e pelo tamanho da fissura entre os grupos políticos, pelo menos que haja o bom senso de ver que os tesouros, federal e estaduais, têm que ser protegidos. É do nosso bolso que sai o dinheiro para cobrir as despesas públicas.

O segundo semestre tende a ser tenso na política e na economia por inúmeros fatores. O TCU terá que se manifestar sobre as contas da presidente Dilma de 2014. São tantos e tão volumosos os atrasos na transferência para os bancos públicos que não são apenas atrasos contratuais, mas sim operações de crédito proibidas pela Lei de Responsabilidade Fiscal. Se recomendar a rejeição das contas da presidente Dilma, o TCU pode dar munição para uma briga política, mas o órgão tem que ser técnico e reprovar os absurdos praticados pelo governo Dilma nas contas públicas. É com isso que o TCU tem que ter compromisso, sob pena de sepultar o mais importante ordenamento fiscal existente no país. O país terá novas manifestações populares. Não há sinais de melhora na situação econômica. O ano continuará difícil, mas acordos podem desanuviar um pouco o ambiente.

Ferreira Gullar - Notícia no papel

- Folha de S. Paulo / Ilustrada

• No final da década de 1950, o jornalismo impresso foi revolucionado; hoje, corre o risco de deixar de existir

Ainda no final dos anos 1950, os jornais brasileiros usavam, na redação das notícias, o que se chamava "nariz de cera".

Era o seguinte: a notícia propriamente dita era antecipada por considerações efetivamente desnecessárias. Por exemplo, se a notícia era um assassinato, antes de contar o que ocorreu, chamava a atenção para o aumento da criminalidade.

Naqueles anos, a única exceção era o "Diário Carioca", que adotara a técnica do "lide" e do "sublide", inventada pelo jornalismo norte-americano. Tomei conhecimento disso em 1957, quando fui acolhido pelo simpático matutino, no qual trabalhavam Carlos Castelo Branco, Pompeu de Souza e Prudente de Morais Neto, entre outros.

Se o clima da Redação era de brincadeira, as notícias eram redigidas objetivamente, pois consistiam em responder às seguintes perguntas: o que, quem, quando, onde e por quê.

Considerações críticas ou opiniões o leitor encontrava na página editorial do jornal, não na notícia, que devia informar ao leitor o que efetivamente ocorreu.

Esse tipo de jornalismo moderno só havia no "Diário Carioca", até que a Condessa Pereira Carneiro, dona do arcaico "Jornal do Brasil", decidiu modernizá-lo. Ela tomou essa decisão influenciada pelo suplemento dominical de seu jornal, inventado por Reynaldo Jardim e que se tornara um exemplo de criatividade na imprensa do país.

Para efetivar a modernização do "JB", chamou Odylo Costa Filho, que era maranhense, como seu falecido marido. A renovação efetivamente se deu quando foi para lá o trio que já tentara renovar a revista "Manchete": Jânio de Freitas, Amilcar de Castro e, modéstia à parte, eu.

Tínhamos sido demitidos daquela revista por insistirmos em valorizar o espaço em branco nas páginas. Adolpho Bloch, dono da "Manchete", ficou furioso, o que levou o cartunista Borjalo a escrever num quadro negro que havia na Redação: "Preconceito de cor: guerra contra o branco".

Já Odylo, ao contrário de Adolpho, era tolerante. Não só aceitou o uso do "lide" e "sublide" como permitiu as mudanças drásticas na feição gráfica do jornal. E veja que se tratava de um jornal de anúncios classificados, que nem corpo de repórter e redatores possuía, antes da mudança.

Pois bem, uma das inovações foi retirar o fio negro que separava as colunas de textos nas páginas, já que, para Amilcar, bastava o espaço em branco entre elas. Disso resultou uma leveza visual que nenhum jornal tinha.

Outra inovação, que se deveu ao Jânio, foi o modo de usar a primeira página. Até então, no "JB" como nos demais jornais, as notícias mais importantes começavam na primeira página e continuavam em alguma página de dentro.

Jânio mudou isso: as notícias importantes eram postas resumidamente na primeira página e integralmente numa página de dentro reservada àquele assunto: se fosse política, ia para a página de política, fosse economia, para a página de economia.

Isso significava uma revolução no modo de estruturar o jornal e que ia se impor no futuro.

Hoje, todos os jornais têm páginas específicas para diferentes assuntos, o que facilita ao leitor encontrar o que deseja ler e também ajuda na composição do jornal, tanto do ponto de vista gráfico quanto redacional. Mas começou ali, no "JB".

Naturalmente, as mudanças verificadas na imprensa não se limitam a essas a que me referi. Minha intenção, ao falar delas, foi sobretudo informar o leitor de hoje daquele momento marcante do jornalismo brasileiro.

De lá para cá, muitas mudanças ocorreram, particularmente devido à televisão e, sobretudo, à internet. Os jornais já não têm o monopólio da informação. Pode-se dizer mesmo que nenhuma notícia importante, que os jornais publicam, não terá sido difundida antes por aqueles meios de comunicação.

Por outro lado, todos os jornais publicam as mesmas notícias, o que os obrigou a se valerem das colunas assinadas por nomes destacados, nem sempre jornalistas, que oferecem ao leitor algo que ele só pode encontrar ali, naquele jornal.

É o que a imprensa escrita está fazendo para sobreviver, não se sabe até quando, pois, ao que tudo indica, os atuais leitores deixarão as páginas de papel impresso pela tela dos computadores e dos celulares

Clara Nunes - O último bloco (Candeia)

Joaquim Cardozo - Alucinação em branco

Nessas barracas em branco
Quem misteriosamente teria se escondido?
São barracas de campanha,
ou de passar todo o verão no campo.

Lembram também cordas de mastros
Dos quais as velas se ausentaram.
Pois as velas voaram enfunadas e suspensas
No ar, que é – sonho das asas –
Todo o branco do contorno,
Navegam em limpas atmosferas.

São panos estendidos ao sol
Para secar, no quintal de alguma casa;
Grandes lençóis ondulantes
Ao vento que vem e vai,
Ao vento que não pára de agitá-los.

Há um jogo de pontas nesses mastros,
Pontas dirigidas em todos os sentidos.
E as linhas e as sobre-linhas,
Se orientam como se fosse possível
Substituir definitivamente,
Todo o branco do papel.