terça-feira, 20 de setembro de 2022

Andrea Jubé - Governo não quer a reeleição de Pacheco

Valor Econômico

Planalto vê Supremo blindado pelo Senado

A segunda principal preocupação de uma ala do governo é a sucessão no comando do Senado em fevereiro do ano que vem. A primeira delas é, obviamente, a reeleição do presidente Jair Bolsonaro em outubro. Já a certeza entre integrantes desse grupo de que Arthur Lira será reconduzido para um novo mandado na direção da Câmara é cristalina como a água.

Esta ala governista, que é majoritária, não se conforma com eventual reeleição do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), para mais dois anos no comando da Casa. A avaliação de alguns integrantes do primeiro escalão do time bolsonarista é de que Pacheco “não joga junto” com o Palácio do Planalto, em contraponto ao presidente Arthur Lira, que se tornou um aliado de primeira hora do governo - que em troca, generosamente, viabilizou um “orçamento secreto” de R$ 19 bilhões para 2023.

Pedro Cafardo - Em tempos excepcionais, medidas excepcionais

Valor Econômico

Brasil já foi fulminado por desrespeitar a excepcionalidade

Os mais jovens talvez não tenham consciência do que foi a crise do petróleo dos anos 1970 e do ensinamento que ela deixou ao Brasil. O país vivia os anos do “milagre econômico”, cantado em prosa e verso pela ditadura militar, quando os produtores, unidos na Opep e dominados pelos árabes, fizeram um embargo ao fornecimento a países aliados de Israel na Guerra do Yom Kipur.

A decisão, em 1973, pegou o Ocidente de surpresa. Em cinco meses, a cotação do petróleo, que rastejara por décadas abaixo de US$ 3 o barril, subiu 300%, para US$ 12. O Brasil importava, então, 70% do petróleo que consumia.

Críticos dizem que o país deveria, naquele momento, ter adotado um racionamento do consumo de derivados e lançado programas para substituir a fonte de energia ou aumentar sua produção interna. Foram, é verdade, criados o Proálcool, que viria a ser bem-sucedido muitos anos depois, e os contratos de risco, pelos quais companhias privadas nacionais e estrangeiras assumiam a prospecção de petróleo, até então monopólio da Petrobras. Os resultados dos dois programas, como se previa, não foram imediatos, e o racionamento não foi adotado a tempo.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Editoriais / Opiniões

Comício infame

O Estado de S. Paulo

Incapaz de sentir compaixão por seus compatriotas, Bolsonaro desrespeita o luto dos britânicos, usa funeral da rainha como palanque e, de quebra, volta a duvidar do sistema eleitoral

A pretexto de atender ao funeral de Estado da rainha Elizabeth II, o presidente Jair Bolsonaro viajou a Londres para fazer comício e produzir imagens para sua campanha pela reeleição. Trata-se de evidente abuso de poder político e econômico, o que impõe a aplicação de uma punição exemplar pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Não satisfeito, Bolsonaro ainda ampliou sua extensa folha corrida de crimes de responsabilidade ao difundir – mais uma vez sem provas – suspeitas sobre a segurança do sistema eleitoral do País, dizendo que, se ele não ganhar a eleição no primeiro turno, é porque “algo de anormal aconteceu no TSE”.

Durante essa rápida e infame passagem pela capital do Reino Unido, Bolsonaro envergonhou a grande maioria dos brasileiros, que decerto ainda guarda na alma um senso de decência. Além de usar recursos públicos para fazer campanha eleitoral, o que é expressamente proibido pela lei, Bolsonaro se fez acompanhar de indivíduos que nada têm a ver com a missão de Estado que lhe cabia desempenhar, mas têm tudo a ver com sua campanha eleitoral. Interessado em transformar a eleição numa “guerra santa”, Bolsonaro levou um líder evangélico e um padre. Já em Londres, Michelle Bolsonaro levou a tiracolo um influenciador digital que aproveitou para fazer propaganda, nas redes sociais, dos produtos usados pela primeira-dama – afinal, diante de um presidente capaz de fazer comício num funeral, que mal há em fazer marketing com o luto?

Poesia | Ciência & Letras - João Cabral de Melo Neto, uma fala só lâmina

 

Música | Maria Bethânia - Estado de poesia (Chico César)

 

segunda-feira, 19 de setembro de 2022

Polarização não termina com pleito, diz Valenzuela

Para ex-subsecretário de Estado americano, tendência de setores do centro a apoiar Lula é crucial para evitar cenário de completo autoritarismo no Brasil

Por Marsílea Gombata / Valor Econômico

O alto nível de polarização que há no Brasil hoje continuará, independentemente do resultado da eleição. Para o país sair desse cenário de animosidade, o centro político tem papel crucial, afirma Arturo Valenzuela, professor da Universidade Georgetown e ex-subsecretário de Estado americano no governo Obama.

 “[A polarização] provavelmente não acaba com a eleição. O que permitiu que [Joe] Biden fosse eleito foram forças de centro. [No Brasil], vejo certa tendência em direção a setores de centro que poderiam apoiar Lula”, diz, em entrevista ao Valor. “E, no discurso, creio que Lula está tomando uma posição mais centrista.”

Ele alerta que uma vitória do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no primeiro turno pode levar a um governo mais esquerdista. A reeleição de Jair Bolsonaro, por outro lado, pode levar o Brasil, em tese, para um rumo autoritário.

Valenzuela diz, contudo, que a polarização em um país multipartidário como o Brasil é menos preocupante do que nos Estados Unidos, com dois partidos fortes.

Doutor pela Universidade Columbia, onde foi aluno do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, Valenzuela é um dos maiores especialistas em América Latina. Foi subsecretário de Estado para o continente americano além de assessor especial da Casa Branca para segurança nacional e diretor sênior para assuntos interamericanos do conselho de segurança nacional, na presidência Bill Clinton.

No campo acadêmico, é especialista em sistemas políticos, retrocesso democrático e autoritarismo. Entre seus trabalhos mais importantes estão “A Opção Parlamentarista” (1991), em coautoria com referências como Juan Linz, Arend Lijphart e Bolívar Lamounier, e “The Failure of Presidential Democracy” (1994), com Linz.

Valenzuela concedeu a entrevista por Zoom, de sua casa, em Washington. Veja trechos:

Fernando Gabeira - A campanha no funeral da rainha

O Globo

De certa forma, presidente erra de rainha. Ele deveria ir ao funeral de Vitória, uma grande puritana

Na semana passada, escrevi um longo artigo afirmando que a campanha política no Brasil é imprevisível. Mesmo com marqueteiros, estrategistas e análises minuciosas na mídia, os fatos escapam ao nosso controle. Quem diria que o Auxílio Brasil — que atropelou tudo para investir R$ 60,7 bilhões na salvação de Bolsonaro — não teria efeito algum entre os mais pobres?

Retomo o tema da imprevisibilidade, com uma nova pergunta: o que você diria se perguntassem no início do ano qual o papel da rainha da Inglaterra nas eleições do Brasil?

Certamente responderia com uma gargalhada. Proclamamos a República ainda no século XIX, não temos laços com a monarquia. A morte da rainha Elizabeth seria apenas uma notícia de destaque, nada mais.

No entanto, para enfatizar a força do acaso, a passagem da rainha foi terrível para a campanha de Bolsonaro. Ele esperava que o grande esforço e a grande transgressão do 7 de Setembro turbinassem sua posição nas pesquisas. Mas o tema foi ofuscado em seguida pela notícia da morte de Elizabeth.

Agora, Bolsonaro vai aos funerais em Londres para recuperar o prejuízo. Conseguirá? Tenho dito que a única forma de alterar o quadro seria ressuscitar a rainha.

Embora presidente do país do Novo Mundo, Bolsonaro disse que Elizabeth é nossa rainha. Isso certamente a agradaria, mas, se ele se apresentasse como “o imbrochável”, certamente ouviria do fundo do caixão forrado de chumbo:

— I beg your pardon.

Demétrio Magnoli – O reino sem a rainha

O Globo

Elizabeth II perpetuou no presente o passado sem manchas

Dinastias encarnam tradição, continuidade. Charles III, sangue do sangue de Elizabeth II, não precisaria ter prometido seguir o exemplo de sua mãe. Mas, nas democracias modernas, ser não é suficiente; as coisas devem parecer. E, por mais que ele se esforce, nunca poderá ocupar o lugar simbólico da rainha falecida.

No início da Segunda Guerra Mundial, diante da campanha aérea alemã contra Londres, o governo britânico ensaiou um plano de evacuação de Elizabeth, 14 anos, e sua irmã, Margaret, 9, para o Canadá. A rainha-mãe cortou a ideia pela raiz:

— As meninas não sairão se eu não sair; eu não sairei se o rei não sair, e o rei não sairá jamais.

No momento da rendição alemã, em maio de 1945, as duas adolescentes receberam permissão para, anônimas, juntarem-se às multidões que celebravam nas ruas.

Já se registrou, muitas vezes, que Elizabeth II conectava o Reino Unido a seu passado. É mais que isso: a rainha que reinou mais longamente na História britânica perpetuou o passado no presente. Sua figura congelou o tempo da triunfante resistência ao nazismo, ofuscando o declínio geopolítico do reino. O poderoso mito da vitória na guerra cobriu, com seu manto, o inexorável desaparecimento do “Império onde o sol nunca se põe”. Nascido em 1948, Charles III representa exclusivamente uma época de escassas glórias.

Marcus André Melo* - O Jogo dos Tronos

Folha de S. Paulo

Ao enfrentar Executivo, Judiciário se debilitou e abriu espaço para Legislativo

Como explicar que os Poderes Judiciário e Legislativo tenham adquirido enorme importância entre nós? Historicamente, o poder dominante é o Executivo, que se confundia com abuso. Rui Barbosa foi preciso quando o denunciou como "o grande eleitor, o grande nomeador, o grande contratador, (...) o poder da força".

No pós-Guerra, os presidentes continuaram poderosos politicamente, embora possuíssem poderes constitucionais limitados. A Constituição de 1988 delegou amplos poderes ao Executivo como forma de superar deficiências do arranjo anterior (MPs; iniciativas exclusivas em matéria administrativa, tributária e orçamentária; poderes de agenda etc.). Mas a constituinte adotou a estratégia "coleira forte para cachorro grande" e delegou igualmente vastos poderes ao Judiciário e ao Legislativo (embora a este menores).

Celso Rocha de Barros - Bolsonaro contra as mulheres

Folha de S. Paulo

Que 'identitarismo' é esse que Bolsonaro conseguiu vender para parte dos homens brasileiros?

A essa altura, ninguém discute que Bolsonaro tem um problema com as mulheres. Isso ficou evidente em sua agressão à deputada Maria do Rosário, em seu elogio da tortura de Dilma Rousseff na votação do impeachment. O problema ficou ainda mais claro em sua campanha contra jornalistas mulheres, com ataques sórdidos contra Patrícia Campos Mello, Míriam Leitão, Amanda Klein e, mais recentemente, Vera Magalhães.

É cada vez mais claro que Bolsonaro só conseguiu se comportar mais ou menos bem na sabatina do Jornal Nacional porque os hormônios de William Bonner estavam ali, dando segurança psicológica para o presidente por mais que Renata Vasconcellos o questionasse.

Recentemente, aliás, em um discurso em que tentava usar a primeira-dama para melhorar sua imagem diante do eleitorado feminino, Jair resolveu puxar um coro em defesa do próprio pênis.

machismo é parte do problema, é claro, mas políticos machistas, em geral, são capazes de se controlar quando é de seu interesse. O que faz Jair se descontrolar dessa forma?

Lygia Maria - Machismo e política

Folha de S. Paulo

Político deve trabalhar, em vez de assediar jornalista e fazer comentário machista

A jornalista Vera Magalhães foi atacada pelo deputado Douglas Garcia. Filmando com o celular, o deputado acusou a jornalista de receber salário de R$ 500 mil para criticar Bolsonaro (uma falácia já esclarecida diversas vezes) e ainda a chamou de "vergonha do jornalismo brasileiro".

Se o deputado acha que há uso ilegal de verba pública, deve procurar os meios cabíveis para investigação. Deputado não assedia cidadão. Deputado não é influencer, que faz vídeo para ganhar like no Instagram. Deputado deve propor projetos de lei e fiscalizar o Executivo. Ou seja, deputado deve trabalhar.

Ana Cristina Rosa - Nós da desigualdade

Folha de S. Paulo

Brasileiros sabem que progresso está condicionado à redução das disparidades

Será que alguém em sã consciência acredita que haja alguma chance real de desenvolvimento do Brasil sem que seja debelada a extrema desigualdade socioeconômica que caracteriza a nação e sem um projeto continuado de qualificação da educação?

Felizmente, a percepção da maioria dos brasileiros é a de que este é um país que não "vai pra frente" sem encarar com seriedade suas imensas discrepâncias, sendo que 87% consideram obrigação dos governos reduzir a diferença entre os muito ricos e os muito pobres.

Carlos Pereira* - Riscos de retrocesso na democracia mundial

O Estado de S. Paulo

Histórico das instituições explica por que alguns países sucumbem a retrocessos iliberais

Escrevo de Montreal, Canadá, onde participo da conferência da American Political Science Association (APSA), o maior evento de ciência política que reúne cientistas políticos de diversos cantos do mundo.

Um tema que dominou as discussões na APSA (pelo menos 74 painéis) foi o risco de retrocesso que a democracia mundial supostamente vem passando desde o final da Guerra Fria. A ciência política está, de fato, muito temerosa com o chamado Democratic Backsliding.

Essa apreensão parece não ser destituída de razão. De acordo com o relatório do Variety of Democracy (V-dem) de 2022, o nível de democracia global médio declinou a valores anteriores a 1989. O número de democracias liberais caiu de 42 para 34. As autocracias aumentaram de 25 para 30. Autocracias eleitorais passaram a ser o tipo de regime mais comum no mundo – 60 países. O V-dem chama essa tendência de “terceira onda de autocratização”.

Henrique Meirelles – Ideias que não ajudam

O Estado de S. Paulo

Costumo dizer que, por causa do volume de reservas, a economia brasileira aguenta desaforos.

Além de excelente economista, Mário Henrique Simonsen era ótimo frasista. É dele a máxima: “A inflação aleija, mas o câmbio mata.” Ex-ministro da Fazenda, Simonsen se referia à armadilha que fez o Brasil quebrar algumas vezes nas décadas de 1970 e de 1980, a da falta de reservas em dólar para pagar compromissos internacionais. Este problema foi sanado quando fizemos no Banco Central um trabalho de acúmulo de reservas e chegamos a US$ 288 bilhões. Hoje o Brasil tem US$ 336 bilhões. Não há chance de o país quebrar por falta de dólares, como no tempo em que Simonsen cunhou a frase.

Costumo dizer que, por causa do volume de reservas, a economia brasileira aguenta desaforos. A prova é tudo o que ocorreu na política fiscal nos últimos três anos. Por isso, vi com curiosidade a ideia do Ministério da Economia de estabelecer uma meta para as reservas internacionais. O Banco Central teria de vender dólares se as reservas estivessem acima da meta e comprar se estivessem abaixo.

Bruno Carazza* - O voto também está mais caro em 2022

Valor Econômico

Fundão turbinou custo nas campanhas deste ano

Nos últimos anos nos acostumamos a analisar cada postagem dos políticos no Twitter e no Facebook, assim como seus vídeos no YouTube, Instagram e TikTok. Mas não há nada igual à boa e velha reportagem de campo, aquela em que o jornalista segue cada passo do candidato no corpo-a-corpo com o eleitor.

Presidente da Câmara e líder do Centrão, posições que lhe permitem manobrar votações e controlar a distribuição de verbas do orçamento, cada declaração de Arthur Lira (PP-AL) em Brasília repercute no meio político e no mercado.

O repórter Raphael di Cunto, do Valor, porém, mostrou uma face diferente do todo-poderoso Arthur Lira que estamos habituados a acompanhar pela TV. O jornalista passou uma semana viajando por Alagoas, cobrindo carreatas, entrevistas a rádios e dezenas de almoços e jantares com prefeitos em apoio à reeleição de Lira.

Sergio Lamucci - Os problemas do Auxílio Brasil

Valor Econômico

O desenho malfeito e a expansão sem planejamento do programa têm causado problemas para a principal política de transferência de renda do país

O desenho malfeito e a expansão sem planejamento do Auxílio Brasil têm causado problemas para a principal política de transferência de renda do país, além de gerar incertezas sobre as contas públicas. O programa que sucedeu o Bolsa Família recebe críticas de especialistas principalmente pelo fato de destinar um valor fixo por família, a despeito do número de integrantes. Isso provoca estragos no Cadastro Único, o banco de dados usado numa série de programas sociais.

O governo de Jair Bolsonaro também atropelou regras fiscais para elevar o valor do benefício e o total de famílias atendidas. A mais recente manobra foi por meio da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) Kamikaze, aprovada em julho. Com a medida, o Auxílio Brasil subiu de R$ 400 a R$ 600, além de terem sido instituídos o bolsa caminhoneiro e o auxílio taxista. A PEC foi o mais recente drible no teto de gastos, com o objetivo de tentar melhorar a qualquer custo a popularidade do presidente, afetada em especial pela inflação alta.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Editoriais / Opiniões

PRF se tornou modelo de polícia do bolsonarismo

O Globo

Corporação que deveria patrulhar estradas vira protagonista de chacinas e investigações de caráter duvidoso

Na antológica reunião ministerial do dia 22 de abril de 2020, o presidente Jair Bolsonaro, ao seu jeito, reclamava que os serviços de inteligência não lhe forneciam informações para proteger família e amigos. Anunciou que faria mudanças. Desde então, houve denúncias de interferência dele na Polícia Federal (PF) e de uso da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) em benefício de seus familiares. Mas foi na Polícia Rodoviária Federal (PRF) que Bolsonaro e seus filhos encontraram o braço policial e de inteligência com que sonhavam.

Uma reportagem da revista piauí narra em detalhes a progressiva transformação da PRF. De uma polícia dedicada ao patrulhamento de rodovias federais, ela se tornou uma corporação a serviço do bolsonarismo, cuja tropa de elite passou a investigar e combater crimes fora das estradas, com envolvimento em operações policiais e chacinas elogiadas nas redes sociais pelo clã Bolsonaro. É um assunto que, pela gravidade, precisa ser investigado pelo Congresso, pelo Ministério Público e demais autoridades competentes.

Poesia | Fernando Pessoa - Quadras ao gosto popular

 

Música | Chico César - Bolsominions

 

domingo, 18 de setembro de 2022

Luiz Sérgio Henriques* - Compromisso histórico à brasileira

O Estado de S. Paulo

O nacional-populismo prospera sobretudo à direita, mas convém evitar a húbris: há na praça versões à esquerda, que só incautos ignoram.

Nestas últimas décadas, nem mesmo a mudança tumultuosa da estrutura do mundo a que, atônitos, assistimos pôde cancelar fatos paradigmáticos do passado, particularmente quando redefiniram modos de ser e de pensar a política. Nos anos 1960 ou 1970, para definir desde logo nosso problema, costumava estar na ordem do dia algum tipo de transição ao socialismo, entendido este último, teleologicamente, como a parada final do trem da História.

No Chile de Allende, por exemplo, a aposta era seguir viagem pelo caminho das eleições, do Parlamento e demais instituições que muitos de nós, mal-avisados, chamávamos “burguesas”. O contexto, porém, era o da guerra fria, e para adeptos do “realismo político”, como Nixon e Kissinger, uma segunda Cuba nas Américas era algo impensável, ainda quando viesse não pela “luta armada”, o voluntarioso lema da época. A decisão de derrubar Allende viu-se facilitada pelo seu isolamento tanto no Congresso quanto no eleitorado: a maioria relativa de que dispunha não era suficiente para vencer as dificuldades políticas e econômicas da transição. Para não falar da ferocidade com que a direita militar armava o golpe de 1973, neste fatal mês de setembro – bem ao estilo da época.

Cristovam Buarque* - Voto de Responsabilidade

Blog do Noblat / Metrópoles

Será melhor para o Brasil decidir a eleição logo no dia 02 de outubro

Em 2006, disputei a eleição presidencial. Junto com Heloisa Helena, tivemos os votos que forçaram o segundo turno entre Lula e Alckmin, com propostas diferentes para o governo, mas com intenções parecidas para o futuro do país. Desta vez, um segundo turno será com um candidato sem compromisso com a verdade, com a democracia, com a ciência, com os pobres, nem com os doentes. Por isto, tudo indica que será melhor para o Brasil decidir a eleição logo no dia 02 de outubro. Não se retrata de apelar para o voto útil, mas para o voto responsável do eleitor. Cada eleitor deve votar com consciência ideológica, de qual candidato ele considera o melhor, mas também com a responsabilidade de como evitar riscos para o pais, neste momento.

Isto depende, em primeiro lugar, dos próprios eleitores que em 2018 preferiram eleger o atual presidente. Tinham razões que justificavam o voto que deram em 2018. Não o conheciam e estavam indignados com o quadro político naquele ano. Queriam renovação e Bolsonaro, apesar de ser um político profissional medíocre por 26 anos, viciado em práticas corruptas como rachadinhas e sem propostas para o Brasil. Mesmo assim conseguiu encarnar a imagem de ser o contrário aos políticos tradicionais. Agora, vocês sabem que ele é do mesmo time, usa os mesmos métodos e beneficia os mesmos grupos e além disto demonstrou que é irresponsável e despreparado para governar o Brasile representar nosso país no mundo.

Merval Pereira - Coalizão propositiva

O Globo

Agenda ambiental entra definitivamente na pauta das eleições, com a união entre Marina Silva e Lula

A questão ambiental ganhou definitivamente protagonismo na campanha eleitoral com a adesão de Lula a um programa apresentado por Marina Silva em nome do partido Rede Sustentabilidade. Foi o primeiro passo para um governo de coalizão baseado em programas de ação, e não em distribuição de cargos ou benesses fisiológicas.

O mesmo aconteceu recentemente na Alemanha para a formação da nova aliança que dá sustentação ao sucessor de Angela Merkel, o primeiro-ministro Olaf Scholz. A Alemanha será governada pela primeira vez a nível federal por uma coalizão de três partidos, o que já está sendo conhecida como uma "coalizão semáforo", devido às cores dos partidos social-democrata (vermelho), liberal (amarelo) e verde.

O acordo de coalizão prevê mudanças significativas na política ambiental da Alemanha, com grandes investimentos em energias renováveis. Os verdes, o terceiro partido mais votado na eleição de setembro, conquistaram 14,8% dos votos, já o SPD foi o mais votado, com 25,7%, e os liberais ficaram em quarto, com 11,5%. O Partido Verde terá cinco ministérios (Exterior, Economia e Clima, Agricultura, Família, Meio Ambiente).

Elio Gaspari - A rejeição de Bolsonaro

O Globo

Bolsonaro precisa mudar para reduzir a sua elevada taxa de rejeição. Vá lá. Como? Para quê?

Em 2018, o capitão foi eleito numa onda antipetista propondo um governo conservador nos costumes, liberal na economia e independente na política.

Para explicar como armaria sua independência política, prometia basear-se no que chamava de “bancadas temáticas”. Eleito, ele ainda não tinha tomado posse, e o deputado Alceu Moreira (MDB-RS) ensinava:

“Quem disser que sabe qual é o resultado que esse novo modelo produzirá, de duas uma: ou é adivinho ou está mentindo”.

Não havia adivinhos no pedaço, e o modelo foi o de sempre: o governo aninhou-se no colo do Centrão.

O governo liberal na economia fechou o Posto Ipiranga e passou a vender picolés de carestia. Restavam dois temas: o conservadorismo nos costumes e o antipetismo. Conservador não é miliciano, não ofende mulheres e repele atitudes vulgares. Sobrava o antipetismo.

Ele existe, mas foi abalado por dois fatos. Uma foi a transformação da Lava-Jato em poeira pela desmistificação de seus cavaleiros. O juiz Sergio Moro começou prometendo liquidar o arranjo corrupto dos partidos políticos, tornou-se o todo-poderoso ministro da Justiça e Segurança de Bolsonaro e acabou comprando bermudas com dinheiro do Podemos.

Bernardo Mello Franco – A eleição do medo

O Globo

Sete em cada dez brasileiros temem ser agredidos por razões políticas; clima de violência favorece a extrema direita no poder

O bolsonarismo vai mal nas pesquisas, mas já garantiu uma vitória: transformou a eleição da fome na eleição do medo. O debate sobre a carestia perdeu espaço na corrida presidencial. Agora o país discute se o capitão aceitará uma possível derrota, se os militares apoiarão uma tentativa de golpe, se o eleitor poderá votar em paz e segurança.

Sete em cada dez brasileiros temem sofrer agressões por causa de sua opinião política. A informação é do Datafolha, em levantamento encomendado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e pela Rede de Ação Política pela Sustentabilidade.

O medo tem razão de ser. Em 60 dias, dois eleitores do PT foram assassinados por bolsonaristas — um a tiros, outro a facadas. Casos de intimidações e ameaças se acumulam pelo país. Jornalistas e funcionários de institutos de pesquisa são hostilizados no exercício de suas funções.

Luiz Carlos Azedo - A violência pode aumentar na reta final do primeiro turno

Correio Braziliense

Na reta final da campanha eleitoral, clube de tiros estão virando comitês eleitorais e muitos de seus integrantes fazem uso ostensivo de suas armas em eventos públicos

A pistola G2C 9mm tem carregadores de 12 munições e uma bala na câmara, para pronto emprego, sendo atualmente a arma compacta de porte velado mais vendida no Brasil. Custa em torno de R$ 3,8 mil no mercado legal de armas e pode ser comprada pela internet, parcelada em até 12 vezes no cartão de crédito. Nos Estados Unidos, custa US$ 200, pouco mais de R$ 1 mil. Quase todo bolsonarista raiz que se preza tem uma arma: as mais populares são as pistolas Taurus da linha G, a arma mais vendida no mundo.

Considerando o repasse da inflação, a receita da Taurus com a venda de armas cresceu 47,4% no primeiro semestre deste ano em relação ao mesmo período do ano passado. Sua participação no mercado brasileiro de armas passou de 21,3%, no primeiro semestre de 2021, para 28,6%. Foram 186 mil armas vendidas no Brasil de janeiro a junho, um aumento de 17,7% em base anual.

Míriam Leitão - Um olhar positivo sobre a Amazônia

O Globo

Projeto Amazônia 2030 apresenta soluções para o desenvolvimento econômico sustentável da floresta, com ganhos em múltiplas áreas para o país e o mundo

O país está chegando ao fim destes quatro anos de governo com a sensação de que está tudo perdido em relação à Amazônia. Porém, o olhar por outro ângulo surpreende. O desmatamento cresceu, mas essa área vazia permite expandir a agropecuária sem derrubar novas árvores. O fim do desmatamento criará enormes oportunidades, e renda, para o Brasil. A população amazônica é mais jovem do que a do resto do país, mas a taxa de desemprego chega a 40% entre 25 e 29 anos. Com um bom projeto, esses jovens podem ser a força propulsora do desenvolvimento sustentável da Amazônia.

Esse outro olhar, para as chances que ainda temos, está num estudo inédito que a coluna conseguiu de três grandes especialistas. Beto Veríssimo, co-fundador do Imazon, Juliano Assunção, economista da PUC-Rio e diretor do Climate Policy Initiative, e Paulo Barreto, pesquisador do Imazon. O texto se chama “O paradoxo Amazônico” e faz parte do projeto Amazônia 2030, que tem estudado profundamente inúmeros aspectos da região com profissionais de diversas áreas.

Muniz Sodré* - Um medo visceral

Folha de S. Paulo

A esse medo tenta-se contrapor a grotesca exaltação do falo

É antigo o histórico da baixa taxa de natalidade na maioria dos países europeus. Mas notícia recente da Hungria traz uma perspectiva francamente rasteira para o problema.

Na opinião do primeiro-ministro ultradireitista Viktor Orbán e de seu partido, Fidesz, educação muito elevada tornaria as mulheres húngaras superiores aos homens, desestimulando a procriação. Misógino e racista, ele é também inimigo ferrenho da imigração.

Essa questão aparece quando os dirigentes húngaros começam a preocupar-se com a precariedade demográfica nacional, pois a xenofobia institucionalizada é uma barreira prática ao incremento populacional por parte de imigrantes. O ultranacionalismo sonha com húngaros "puros".

Por outro lado, o fato de 82% dos professores serem do sexo feminino é interpretado por Orbán como causa do desinteresse das mulheres pela maternidade. Quanto mais educadas, menos afeitas seriam à execução de tarefas tradicionais como cuidar dos filhos e da casa.

Janio de Freitas - Na má hora de Bolsonaro

Folha de S. Paulo

Medo da derrota nas urnas pode gerar ataque desvairado da criminalidade

1 — O período entre a eleição e a posse está propenso a ser alarmante, mas não por desatinos militarescos. Três meses a mais da matança já em curso de chefes indígenas, invasão das terras de reserva, maior desmatamento, novos e urgentes garimpos ilegais —um ataque desvairado da criminalidade em tempo de aproveitar a licenciosidade que Bolsonaro lhe proporciona, por sua própria criminalidade. A ofensiva apressada pelo medo da derrota eleitoral.

É o que está havendo em grande parte do Brasil, não só na Amazônia. E sem providência alguma nos muitos braços do governo destinados a esses problemas. Onde consta haver ou ter havido algum olhar da Polícia Federal, sempre por apelos desesperados, nada de resultante se registra contra a ilegalidade armada e endinheirada. Nas informações imprecisas, as mortes de chefes indígenas já estão entre sete e dez.

A única maneira de talvez conseguir-se algumas providências é maior atenção da imprensa para as situações agudas, ao menos essas. Não seria generosidade. É um dever historicamente muito mal cumprido pela imprensa. Como se não compreendesse que relegar a dimensão humana e moral do extermínio de indígenas e da exploração ilegal de riquezas públicas é, no mínimo, também conivência com essa criminalidade.

Bruno Boghossian - Momento da decisão

Folha de S. Paulo

Impopularidade do presidente cria barreira para onda de migração de apoio nesse grupo

Qualquer mudança nos ponteiros da corrida presidencial antes do primeiro turno depende do comportamento de um grupo formado por um de cada cinco eleitores. São aqueles que têm candidato ou declaram voto nulo, mas dizem que podem rever a escolha nas próximas semanas.

A conexão de muitos desses eleitores com o voto é relativamente frágil: 45% deles não conseguem apontar um candidato de forma espontânea, antes de ver uma cartela com as opções. Entre aqueles que se dizem totalmente decididos, 95% já têm um nome na ponta da língua.

As campanhas tentam mover o primeiro grupo, mas o espaço para grandes variações parece limitado. Os números são particularmente complicados para quem espera uma onda de migração de votos a favor de Jair Bolsonaro na reta final.

Vinicius Torres Freire - A eleição dos distraídos em SP

Folha de S. Paulo

Eleitor mal conhece tucano e bolsonarista, e petista tem menos voto que Lula

Quase metade dos eleitores de São Paulo não sabe quem é o governador candidato à reeleição, Rodrigo Garcia (PSDB), nem o enviado do bolsonarismo ao estado, Tarcísio de Freitas (Republicanos). São desconhecidos por 44% do eleitorado, lê-se no Datafolha. Fernando Haddad (PT) é desconhecido por 7%.

A indiferença e o desconhecimento do eleitor são dos assuntos mais importantes para esta quinzena restante de campanha. Também importante, o voto para governador não tem diferenças de "classe" (de renda, de escolaridade) como é o voto para presidente no estado.

De relevância histórica, mas ainda não se sabe se política, faz mais de 20 anos que a capital e o estado não elegem extravagâncias daninhas —um eufemismo diplomático. O malufismo acabou em 2000 na capital, e o quercismo acabou em 1995 no estado.

Eliane Cantanhêde - Uma muralha atrás da outra

O Estado de S. Paulo.

Sem munição, Bolsonaro enfrenta rejeição, má avaliação, dificuldade em SP e MG e... ele mesmo

O presidente Jair Bolsonaro terá de implodir várias muralhas para vencer em outubro, mas, seja qual for o resultado, já garantiu ineditismo. Se perder, será o único presidente derrotado na disputa pela reeleição. Se vencer, será o primeiro candidato a superar uma rejeição de mais de 50% a duas semanas das urnas.

E tem mais. Para derrotar o favorito nas pesquisas, Luiz Inácio Lula da Silva, Bolsonaro teria de implodir as muralhas que bloqueiam seu caminho com a mesma força com que detonou o teto de gastos, a responsabilidade fiscal e a lei eleitoral.

Ah! E sem apoio do Centrão, que foi uma mão na roda para aprovar a PEC da reeleição e os R$ 41 bilhões para comprar votos, mas não tem sido de grande valia para arrancar votos de Lula e dar para ele no Nordeste, por exemplo.

Celso Lafer* - Sobre a Fundação Fernando Henrique Cardoso

O Estado de S. Paulo

Cabe-nos seguir com seminários e pesquisas que enfrentam, no qualificado debate das ideias, a agenda da atualidade do Brasil e do mundo.

A convergência dos atributos de grande intelectual e de notável homem público assinala a identidade de FHC. Integra o capital simbólico da Fundação Fernando Henrique Cardoso (FFHC), por ele criada e concebida como instituição apartidária voltada para pesquisar e debater a agenda do presente na perspectiva do futuro. Alinha-se à sua recorrente preocupação intelectual em captar o novo que aflora na dinâmica dos processos sociais, econômicos e políticos.

Assumi este ano a presidência do Conselho da fundação, por indicação de FHC e com o apoio da governança da instituição. FHC avaliou que, nesta fase de sua vida, precisava diminuir os encargos de suas atividades, permanecendo na fundação com a auctoritas de presidente de honra.

Refleti sobre o desafio desta incumbência em relação aos caminhos da fundação com o lastro de quem dela participou desde o início e no espírito de parceria e da amizade que desde sempre me une a FHC.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Editoriais / Opiniões

É natural haver divergência entre pesquisas eleitorais

O Globo

Disparidades decorrentes de técnicas de amostragem distintas exigem maior transparência dos institutos

A campanha eleitoral foi tomada nos últimos dias por intenso debate a respeito da discrepância no resultado de pesquisas de opinião promovidas por diferentes institutos de reputação reconhecida no mercado. Chamou a atenção, entre pesquisas com metodologias semelhantes, uma diferença muito além daquilo que se convencionou chamar de “margem de erro”, aquela que os institutos afirmam abarcar a realidade com uma confiança acima de 95%.

O exemplo mais eloquente está na divergência entre as pesquisas realizadas na última semana por IpecDatafolha e Quaest — três institutos que fazem entrevistas cara a cara, metodologia tradicionalmente considerada mais confiável pelos estatísticos. Na corrida presidencial, a distância entre os candidatos Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro foi de 15 pontos percentuais no Datafolha, 12 no Ipec e oito no Quaest. Na disputa pelo governo mineiro, a diferença entre o líder Romeu Zema e o desafiante Alexandre Kalil é de 28 no Datafolha, 18 no Quaest e 16 no Ipec. No Rio, o governador Cláudio Castro livra 15 pontos sobre Marcelo Freixo no Ipec, dez no Quaest e apenas quatro no Datafolha (na prática, um empate). São números desconcertantes para quem quer conhecer os fatos.

Poesia | Edgar Allan Poe - O palácio assombrado

 

Música - Jorge Aragão, Jorge Vercilo - Encontro das águas

 

sábado, 17 de setembro de 2022

Luiz Werneck Vianna* - Após o pesadelo, que tal uma primavera?

A longa noite de pesadelo que por tanto nos afligiu, expostos à ameaça do ressurgimento do fascismo, patologia política preservada em estado latente a partir do Estado Novo de 1937 – este, claramente fascista – manifesta também no regime do AI-5 e reanimado pela apropriação do Estado por um golpe de fortuna de um aventureiro que se impôs a missão de devolver a vida essa infausta experiência, encontra seu fim nesses dias que anunciam a primavera. A sociedade ainda mal desperta desses momentos de amargura que viveu indefesa, em meio a uma cruel pandemia, pela criminosa omissão de um governo que conscientemente, por cálculos políticos canhestros, ignorou a gravidade da situação e nos deixou o legado macabro de quase 700 mil mortos.

Decerto que o desenlace da tragédia política que nos acometeu ainda ronda o terreno da imprevisibilidade, e poderosas resistências já se antepõem aos anseios democráticos que animam cada vez mais vastos setores da vida social, especialmente entre os jovens, as mulheres e os que procedem do mundo do trabalho, particularmente estes atingidos diretamente em seus direitos e no rebaixamento de suas condições de vida. O patriarcalismo com que nascemos como sociedade está ferido de morte, e de nada importam os esforços do atual governo em lhe assegurar continuidade, uma das peças do arsenal autoritário desde sempre.

Merval Pereira - Eleição parece estar decidida

O Globo

Pesquisas apontam quadro praticamente definido. Nenhum candidato parece ter capacidade de mudar alguma coisa

Nunca houve uma eleição em que os eleitores estivessem tão definidos. Não há nenhuma perspectiva de mudança na campanha daqui pra frente. Dificilmente Bolsonaro vai crescer no primeiro turno, muito menos ultrapassar Lula, que também parou num patamar e não consegue subir para definir no primeiro turno.

Ciro e Simone Tebet estão estacionados e nada indica que poderão substituir Bolsonaro no segundo turno. E ele também não cai do patamar de 30%; se acontecesse, poderia haver um voto útil em Simone ou Ciro.

A não ser que aconteça algo extraordinário, o resultado deve ser um segundo turno entre Lula e Bolsonaro; e Bolsonaro sem a menor condição de vencer. Bolsonaro cometeu erros fundamentais e nunca se preocupou muito com trabalho social, sempre foi metido com valores regressivos da sociedade. Pegou um vácuo na sociedade que até hoje não se explica e se elegeu presidente da República.

Mas não preparou o caminho para se reeleger, se descuidou de todas as coisas importantes que aconteceram no país, principalmente a pandemia, que foi a gota d’água. Querer convencer, nos últimos seis meses, que é bom e pensa nos pobres, não adianta.

Não é possível querer ganhar uma eleição fazendo tanta bobagem e absurdos, como a farmácia popular cortar remédio de pobres nesta reta final de campanha. Há uma incompetência muito grande na gestão desde o início do governo – foram cinco ministros da Educação – e não houve estabilidade nos setores mais importantes – a exceção foi o Paulo Guedes, mesmo com Bolsonaro sempre forçando a mudar posições.