segunda-feira, 1 de julho de 2013

Indignação, cidadania e vandalismo nas ruas - Marcus Pestana

Manifestações vigorosas reunindo milhares de pessoas varreram o país. Muito, quase tudo, já foi dito. É preciso ouvir, entender, decifrar a voz das ruas. Nenhum instituto de pesquisa, serviço de inteligência, direção partidária ou cientista social captou o inimaginável potencial que havia no inconsciente coletivo ou no imaginário popular. As manifestações foram uma explosão de indignação e cidadania, difusa, surpreendente, instigante, desafiadora. Quem procurar um sentido único, reducionista, unilateral, teleológico, excessivamente coerente, com reivindicações e comando claros, vai errar feio.

O movimento que explodiu nas ruas é absolutamente diferente dos que vivenciamos em passado recente. As Diretas Já, o impeachment de Collor e o movimento estudantil nas décadas de 70 e 80 tinham uma pauta clara e comando político. No Egito, na Síria e na Tunísia, a população foi ou está nas ruas para derrubar o governo. Não é nosso caso. A ocupação de Wall Street e os indignados na Espanha foram movidos por profunda crise que envolveu o capitalismo central e resultou em níveis de desemprego insuportáveis.

O movimento no Brasil tem dinâmica diversa. Inflação, endividamento, corrupção, tarifas de ônibus impulsionaram. Mas são várias tribos diferentes. Movimento Passe Livre (MPL), jovens independentes e apartidários, punks, extrema esquerda, skinheads, oportunistas, bandidos, vândalos, cidadãos de todas as idades, famílias inteiras, debutantes em manifestações, teceram mobilização social multifacetada e multicolorida, pacifista ou violenta, interessante e contraditória.

As redes sociais mostraram que vieram para ficar. Ninguém é dono e deve querer se apropriar do movimento. O MPL e os R$ 0,20 de São Paulo foram só o estopim. As motivações são variadas. O recado é difuso e para todos os partidos, instituições, lideranças. É claro que o quinhão de cada um é proporcional a sua parcela de poder. Na Federação atrofiada e no presidencialismo quase imperial que vivemos é claro que a maior responsabilidade é de Dilma e seu governo, mas há uma contundente e cristalina provocação a todos os governantes e líderes brasileiros.

Há uma crise universal da democracia representativa. Nessa hora, no Brasil, “menos palavras vãs e mais ações concretas”, como diria o líder russo, ou “os gestos mais que as palavras”, como delicadamente desenhou a memorialista mineira.

É hora de quebrar a inércia e produzir soluções. Combate sem tréguas à corrupção, reforma política, mobilidade urbana, transporte coletivo, transparência na Copa, qualidade nas políticas de saúde, educação e segurança, combate à inflação, reinvenção da política, eficiência no governo e transformação nas instituições.

As ruas querem participar, serem ouvidas, isolar os marginais e vândalos e, longe da violência e da demagogia, construir o diálogo nacional necessário para continuar mudando o país.

Marcus Pestana, deputado federal e presidente do PSDB-MG)

Fonte: O Tempo (MG)

Pobre Dilma! - Ricardo Noblat

"É como se os políticos e os poderes estivessem na era analógica e a sociedade, no sistema digital." Eduardo Campos

Receita simples de um experiente observador da política brasileira para que o governo de Dilma se recupere já e vença as eleições do próximo ano: "É preciso mudar e muito a relação política com a sociedade, o Congresso, os partidos, os governadores e prefeitos, as entidades empresariais, sindicais e populares. Além de mudar sua comunicação e a gestão e execução dos principais programas do governo"

E POR FIM: "É preciso reavaliar prioridades e manter o rumo da política econômica para crescer sem inflação e distribuindo renda. É preciso também ouvir as críticas, demandas e reivindicações da cidadania. Além de ouvir as ruas e ir para as ruas defender e debater com o povo o plebiscito e a reforma política. No mais, é preciso mobilizar a base social e política do governo para defendê-lo e defender a obra do PT"

QUE TAL? Moleza? Apresento-lhes o autor da receita para salvar o governo que mais perdeu pontos de uma única vez desde que pesquisas começaram a ser aplicadas no país: José Dirceu, ex-coordenador da campanha de Lula em 2002, ex-ministro-chefe da Casa Civil da Presidência da República, deputado federal cassado por seus pares, condenado pela Justiça como chefe da quadrilha do mensalão.

EM RESUMO, ele recomenda uma mudança radical de comportamento do governo faltando 15 meses para a eleição que poderá estender o mandato de Dilma por mais quatro anos — ou não. A mudança não é radical porque seus ingredientes sejam. É radical porque implica virar o govemo pelo avesso, a presidente pelo avesso. Mudar a relação com a sociedade... Com os políticos, os líderes sindicais, o povo...

PERGUNTEM A DILMA se ela enxerga problemas na sua relação com a sociedade, os políticos seus parceiros, os líderes sindicais, e o povo que até recentemente a sustentava no mais alto pedestal jamais alcançado por um presidente. Talvez ela admita que enfrente alguns problemas com os políticos, sim, mas por culpa deles. Os políticos querem empregos e dinheiro sem limite. E chantageiam o presidente. Pobre Dilma!

OS SINDICALISTAS se parecem com os políticos, E se ela ceder aos seus apelos será o fim. De resto, não disfarçam seu despreparo. E falam muitas bobagens. Mais de uma vez — pobre Dilma! — ela foi obrigada a mandar alguns deles calarem a boca. Ou a interromper a reunião com eles porque tinha mais o que fazer. Admira a paciência de Lula, mas a dela é menor. Fazer o quê?

JOSÉ DIRCEU propõe a mudança da gestão e da execução dos principais programas do governo. O que quer dizer com isso? Que os programas, verdadeiras joias da coroa do governo, estão sendo mal conduzidos? Até aqui só quem dizia uma coisa dessas era a oposição. Os principais programas do governo são mal geridos e mal executados... Quero só ver Dilma concordar. Caso concorde, assinaria o atestado de óbito de sua administração.

AGORA É FÁCIL falar em ouvir as críticas e demandas das ruas porque elás começaram a gritar. Mas quem foi capaz de prever que todo esse desmantelo ocorreria? Quem foi? Não é justo cobrar das pessoas o que elas não estão preparadas para dar. Jamais passou pela cabeça de Dilma aspirar à Presidência. Ela não pediu para suceder Lula. Acreditou que poderia dar conta do recado se contasse com os conselhos dele.

ENGANOU-SE. Lula não esconde dos mais íntimos que também se enganou. Dilma é candidata a passar à História como a presidente que marcou o fim da era do PT no poder. Pobre Dilma!

Fonte: O Globo

A vez do povo desorganizado - Ferreira Gullar

Os políticos se tornaram uma casta que se apropriou da máquina do Estado em seu próprio benefício

As manifestações de protesto ocorridas nas últimas semanas em numerosas cidades brasileiras são, sem sombra de dúvida, um fenômeno novo na vida política do país, nos últimos 20 anos.

Causou surpresa a muita gente --inclusive a mim-- que o aumento de R$ 0,20 nas tarifas de transporte urbano tenha provocado tamanha revolta e mobilizado tanta gente.

É que essas manifestações traziam consigo outras motivações que não se revelaram no primeiro momento. Logo pôde-se ver que o aumento das tarifas foi apenas o detonador de um descontentamento maior que põe em questão o próprio sistema político que nos governa.

Ouvi e li opiniões segundo as quais trata-se de um fenômeno internacional, uma vez que, em vários países, protestos populares têm se repetido com frequência. Trata-se, creio eu, de uma opinião equivocada, já que as razões desses protestos são diferentes de país para país. O que há de comum neles é a influência das redes sociais, que possibilitam mobilizações em tal escala.

No caso do Brasil, por exemplo, está evidente que a revolta é contra os políticos em geral, sejam de que partidos forem, pertençam ao governo ou à oposição. Isso se tornou evidente em diversos momentos quando militantes deste ou daquele partido tentaram se manifestar: foram vaiados e até espancados. Foi o caso do PT que, oportunista como sempre, tentou tirar vantagem da situação e se deu mal.

Mas de onde vem esse horror aos políticos? A resposta é óbvia: eles se tornaram uma casta que se apropriou da máquina do Estado em seu próprio benefício.

Essa máquina, que é mantida com o dinheiro de impostos escorchantes, eles usam para empregar seus parentes e companheiros de partido, para enriquecer a si e a seus familiares, manipulando licitações e contratos de obras públicas --e usam isso, sobretudo, para se manter no poder.

Essa situação tornou-se particularmente insuportável depois que Lula assumiu o governo e pôs em prática uma política populista que veio agravar ainda mais aqueles fatores negativos da vida política brasileira. Quem nele acreditava viu, decepcionado, que ele ignorou os compromissos éticos assumidos e aliou-se a figuras como Maluf e o bispo Macedo --sem falar na compra, com dinheiro público, de partidos corruptos.

Essa aliança, com o submundo político, de um líder que surgiu como uma esperança de renovação, só poderia conduzir as pessoas em geral --e particularmente os que confiaram nele-- à desesperança total quanto ao futuro da nação.

O mais grave é que, somando-se isso à política assistencialista que adotou, tornou-se eleitoralmente imbatível. Assim, sem outra saída, os inconformados foram para as ruas. Nessa rejeição ao poder constituído e aos políticos em geral, o povo descontente pode não saber ainda por onde vai, mas sabe por onde não vai.

Não por acaso, a maioria desses manifestantes é de classe média. Não foram os pobres dos subúrbios que vieram para as ruas protestar, pois recebem Bolsa Família e melhoraram de vida. Quem está insatisfeita e revoltada é a parte da sociedade que só perdeu com o populismo lulista, uma vez que o dinheiro público, em lugar de ser investido em hospitais, escolas e serviços públicos, foi e é usado em programas assistencialistas e demagógicos.

Por outro lado, o lulismo cooptou as entidades representativas dos trabalhadores e dos estudantes (a CUT e a UNE), que, contrariamente a suas origens e à sua história, agora impedem manifestações contrárias ao governo. Desse modo, tanto os trabalhadores quanto os estudantes não têm quem os represente na luta por suas reivindicações.

Por isso, meses atrás, afirmei nesta coluna que a única solução possível seria o povo desorganizado ir para as ruas, já que não conta com as organizações que deveriam representá-lo. É o que acontece agora: o povo desorganizado está nas ruas. Desmascarada, a CUT tentou juntar-se aos manifestantes, mas foi repelida por eles.

Sem alternativa, a presidente Dilma promoveu uma reunião com governadores e prefeitos para aparecer como porta-voz dos inconformados, e propôs medidas que não se sabe quando nem se serão mesmo postas em prática.

Fonte: Ilustrada / Folha de S. Paulo, 30/6/2013.

Acabou o recreio - Denise Rothenburg

Os petistas se apressavam ontem em dizer que a eleição ainda está longe e, portanto, não dá para afirmar que Dilma Rousseff está no pior dos mundos. Mas a queda na avaliação da presidente faz com que ela fique em situação mais delicada do que aquela em que se encontrou o próprio Lula em 2005, quando o mensalão nocauteou a direção do PT. Agora é mais preocupante porque, naquele período, a economia estava bem e não havia, dentro da base aliada, ninguém com condições de seguir carreira solo. E, para completar, o PT e o PCdoB parecem ter perdidos as condições de mobilização para empreender um fica, Dilma da mesma forma que entoaram um Lula.

As manifestações, por mais que os petistas digam não estarem direcionadas à figura da presidente, prejudicam mais quem está no poder, conforme dito por todos os analistas desde o início do processo. Portanto, os petistas têm razão quando classificam o desgaste como natural. Mas o poço é mais profundo e, para percebê-lo, é preciso avaliar como foi a sobrevivência de Lula em 2005 e aplicá-la à situação atual.

Desde o mensalão, o PT se equilibra no poder por conta da popularidade de Lula, dos programas sociais de largo alcance e de um presidencialismo de coalizão que tratou de abarcar todos os partidos, sufocando adversários internos e externos. Esse último item só obteve sucesso à época graças ao carisma do então presidente perante a classe política e uma economia nos trilhos.

Dilma, até aqui, praticamente desprezou os políticos. Chamou-os na semana passada, quando sentiu o calor das manifestações às portas do Planalto. E foi atendida porque, na cabeça deles, dizer não a uma presidente popular pode terminar criando problemas maiores.

Agora que a popularidade dela começa a dar sinais de vencimento, tem muita gente apostando que a vida dela perante os políticos ficará mais difícil ainda, especialmente no que se refere a votações no Congresso. Agora, ou modifica o estilo de não ouve e faz tudo do jeito dela ou passará por uma onda de derrotas. No cenário atual, avaliam alguns, nem a hipótese do volta, Lula parece ser a mais viável para os partidos.

O próprio ex-presidente tem dúvidas em relação a isso, daí o seu silêncio. Afinal, quando ele recebeu Dilma e Fernando Haddad em São Paulo, na segunda semana de junho, foi taxado de copresidente de seus postes. Agora que ele está praticamente calado, todos correm para dizer que Lula torce para que Dilma vire pó e o PT vá buscá-lo para reassumir uma candidatura. Aliados de Lula garantem que não é nem uma coisa nem outra.

O PT vendeu tanto a imagem de Lula-Dilma/Dilma-Lula, que dissociá-los agora soaria falso. Portanto, a candidata ainda é Dilma, e o ex-presidente pretende voltar a campo para reelegê-la. Afinal, ele também, em todas as oportunidades, enfrentou eleição em dois turnos. Para que esse jogo dê certo, a presidente terá que fazer a sua parte em ações combinadas com o partido. Não por acaso, ontem ela reuniu apenas os ministros do PT. Dilma sabe que é o grupo com que mais poderá contar para o que der e vier. Em relação aos aliados, a avaliação dos petistas é a de que a maioria dos partidos segue o próprio rumo, sem hesitar em dar um adeus ao PT, se essa for a jogada que resultará na sobrevivência. A avaliação de muitos é no sentido de que a presidente pode recuperar o terreno se aproveitar esse segundo semestre para se dedicar de corpo e alma a medidas capazes de fazer a economia respirar melhor.

Nesse quesito, está em curso a discussão da reforma ministerial na roda das conversas governamentais, incluindo aí a hipótese de enxugamento da máquina. Afinal, é preciso dar sinais positivos ao mercado e à população, concentrando os recursos nas áreas mais sensíveis, objeto da reunião ministerial de hoje. E, nesse ínterim, calculam os petistas, Lula votará da África para ajudar a segurar a política. Falta, entretanto, combinar com os manifestantes, que continuam nas ruas pedindo melhoria dos serviços; e com a própria classe política, que vai ao Palácio, toma café, conversa, mas a cada dia se sente mais afastada do governo. Será a tarefa de Lula, agora, fazer com que os políticos se reaproximem de Dilma, da mesma forma que fez na campanha presidencial. Afinal, ele ainda continua popular. Embora (ainda) não se apresente como candidato.

Enquanto isso, nos estádios...

Essa Copa das Confederações talvez tenha servido para marcar o fim da carona que muitos na classe política sempre tiveram no futebol e vice-versa. Afinal, desde que Dilma recebeu aquela retumbante vaia no Mané Garrincha, em Brasília, os políticos preferiram não arriscar grandes investidas nessa área. Que receba os vencedores depois, que faça a foto palaciana. Mas posar na arena, parece restrito aos profissionais da área. Já não era sem tempo. O PT vendeu tanto a imagem de Lula-Dilma/Dilma-Lula, que dissociá-los agora soaria falso. Portanto, a candidata ainda é Dilma, e o ex-presidente pretende voltar a campo para reelegê-la

Fonte: Correio Braziliense

Zonzo e dividido - Valdo Cruz

Zonzo com o tombo na pesquisa Datafolha, o governo Dilma finge tranquilidade e difunde o discurso ensaiado com o marqueteiro de que o "terremoto" político atingiu a todos os chefes do Executivo, sem exceção.

Tem lá suas razões, endossadas inclusive pelo tucano Aécio Neves, de que a insatisfação da voz das ruas é contra todo o mundo político.

Só que a queda de popularidade não adveio somente de quem foi para as ruas. Quem ficou em casa, teve a loja depredada, ficou preso no trânsito também está irritado.

O fato é que o governo não está apenas zonzo com o tamanho do recuo na popularidade e na intenção de voto presidencial, mas também dividido sobre o diagnóstico do tombo e a melhor forma de reação.

Uma ala diz que há uma sensação de "falta de pulso e autoridade" vinda da autoridade máxima, que teria sido muito tímida ao condenar os vândalos e arruaceiros. A hora seria de agir com mais energia.

Outra diz que o governo não pode nem pensar em passar a imagem de que irá reprimir a liberdade de expressão. E que é preciso calma quando se está entre dois fogos --críticas ao vandalismo, de um lado, e ao excesso de policiais, de outro.

Há quem garanta que a pesquisa captou tão somente um impacto político-emocional do momento, dado que não teria havido mudança na vida das pessoas, como aumento do desemprego e queda da renda e do consumo no país.

Visão não compartilhada por outro grupo, que defende mudanças na política econômica, inclusive de nomes na equipe, por pressentir que o cenário na economia está desandando e pode se agravar em breve.

Enfim, algo está fora do lugar. Até aqui, Dilma Rousseff não havia sido testada. Agora, fragilizada, mesmo que momentaneamente, terá de ceder e agregar. Caso contrário, vai se isolar. Hoje, a verdade é que há muita gente bem próxima a ela saboreando seu momento ruim.

Fonte: Folha de S. Paulo

Marina Silva e as chances perdidas - Renato Janine Ribeiro

Quem, melhor que Marina e a Rede, poderia dialogar com a moçada nas ruas, propondo-lhe um o caminho adequado a seu mal-estar, a seus desejos? O PSDB pouco tem a dizer e só com muita dialética tenta aproveitar a herança do movimento - mas, para disputar isso, precisa enterrá-lo; não o conseguirá enquanto estiver viva a agitação, enquanto estiver viva a vida que apareceu no País e faz que os logradouros públicos sejam o que deveriam ser: lugares públicos. O PT está desacoroçoado, divide-se entre o sentimento de que o povo é injusto com ele e a nostalgia do tempo em que era dono da rua. Quem, melhor que Marina?

Quando terminei uma aula aberta sobre o que ora acontece nas ruas dizendo que os políticos deveriam, 1º, identificar o que sucede (sem o mutilar para caber em suas velhas concepções), 2º, entrar no registro do utópico, 3º, propor mudar a política, uma pessoa exclamou: "Mas isso é a Marina!" Assim deveria ser. O projeto dos ex-verdes, agora sustentáveis, é o mais próximo dos insatisfeitos que buscam coisa nova. Dos que tomam a estabilidade monetária, herdada dos governos Itamar e FHC, e a inclusão social, façanha dos presidentes Lula e Dilma, como algo adquirido - e querem ir além. E que poderiam ver, na Rede, um projeto de gente perplexa, como eles, insatisfeita como eles com a política da presidenta petista e dos governadores tucanos, à procura de rotas que já não passem pelo bipartidarismo atenuado, com rosto humano, que o Brasil viveu estas duas décadas.

Maio de 1968 teve um único partido já existente com o qual os jovens dialogaram, e cujo papel hoje poderia ser ocupado pela Rede. Era o Partido Socialista Unificado, PSU, respeitadíssimo por suas credenciais democráticas, radicais e honestas. Não tinha o cadáver de Stálin, do qual o PC francês sempre teve dificuldade em se livrar, nem o oportunismo de Mitterrand, o líder socialista, que colaborara com o governo de Vichy e apoiara a repressão aos argelinos. O grande nome do PSU, que elegia um ou dois deputados a cada pleito, era Pierre Mendès-France.

A Rede poderia levar o movimento da rua à política

Mendès, só ele, podia disputar com o general de Gaulle o título de mais digno dentre os políticos franceses. Somente eles mereceram, em seu longo tempo, o elogio de "estadistas". Em 1954-55, Mendès foi primeiro-ministro por meros sete meses, mas isso bastou para firmar a paz na Indochina, pondo fim à guerra francesa do Vietnã, e preparar a independência da Tunísia e Marrocos. Continuasse no governo, a guerra da Argélia teria sido curta, poupando um milhão de vidas. Mas nunca mais voltou ao poder, tornando-se o grande ativo moral da política francesa. Os jovens o admiravam, em 1968; não exercia cargos havia doze anos, não era responsável pelo desastre na Argélia nem pelo regime gaullista que eles contestavam. Era digno na política e na ética.

Marina Silva não chegou a tanto; não chefiou o governo, não associou seu nome a nenhum grande feito como ministra. Mas está na primeira linha de nossos políticos que merecem respeito ético. Também é importante o modo como seu partido está sendo constituído, já porque não se chama "partido" (que evoca divisão - e vem da ideia de uma sociedade partida), mas "rede" - o que clama pela participação de muitas pessoas, sem hierarquia, reforçando os laços entre membros e simpatizantes. Então: por que, com tais trunfos, nem ela nem seu partido ocupam o lugar que tudo lhes oferece?

É a mesma questão que surgiu dois anos e meio atrás, quando Marina teve vinte milhões de votos nas eleições presidenciais para, um mês depois, seu nome sequer ser lembrado quando alguém falava em "oposição". No primeiro turno, um brasileiro em cada cinco votou nela; um em cada três, no candidato tucano. Mas os 20% dela sumiram, enquanto os 33% dados a José Serra bastaram para manter, no PSDB, o monopólio da oposição. Muitos esperavam, na época, que a causa verde ocupasse o lugar designado pelos eleitores. Muitos poderiam esperar, agora, que a proposta sustentável preencha o vazio que tantos sentem na política. Mas nada acontece.

Parece digno Marina dizer, à "Folha", que não quer se aproveitar dos movimentos nas ruas. Mas está errada. O papel do bom político é o de agarrar a oportunidade, o kairós dos gregos - para dar nome ao que está confuso, identidade ao vago, futuro ao novo. Por que ela não fez, não faz isso? Receio que não esteja à altura dos anseios que surgiram. Tem noção deles, mas não sabe o que fazer com eles. Lamento.

"A natureza tem horror ao vácuo", dizia Aristóteles, dois mil e trezentos anos atrás. A política, mais ainda. Um lugar que fica vazio é prontamente ocupado. O espaço que pareceria pronto para um político alternativo e respeitado caberá ao aventureiro, ou à velha política, que lançar mão dele. As instituições - partidos e mídia - correm para sepultar, o mais rápido possível, os movimentos. Querendo ou não, a presidenta Dilma Rousseff contribuiu para isso ao pôr na mesa a reforma política. Já nos vemos, de novo, a falar em partidos, em governabilidade, em voto distrital ou lista fechada. Tudo isso é importante, mas é o plano B da vida social. O Plano A deveria ser aprofundar as insatisfações. Pois há meio século, pelo menos, que as instituições políticas andam muito desgarradas do mundo da vida. Não têm sequer ideia do que a vida atual é. Valeria a pena, pelo menos, aproveitarmos mais algumas semanas este magnífico laboratório da vida ao vivo, antes de retornarmos ao "business as usual". Porque Planos A são como certas paixões fortes e fugazes: não duram muito mas, para darem sentido à vida, merecem ser vividos intensamente.

Renato Janine Ribeiro é professor titular de ética e filosofia política na Universidade de São Paulo.

Fonte: Valor Econômico

Dilma e o ketchup - José Roberto de Toledo

Quando um fenômeno sem precedentes ocorre, faltam parâmetros para analisá-lo. As fórmulas gastas e os chavões não servem. Para entender o que acontece com a popularidade da presidente Dilma Rousseff é preciso combinar a ciência política com a física teórica. É exótico, mas o fato em análise também é.

Desde que se começou a sondar regularmente a opinião pública sobre o desempenho dos presidentes brasileiros, após a ditadura, nunca houve uma queda como a de Dilma. Uns governantes chegaram bem mais baixo, outros perderam mais pontos, mas ninguém caiu tão rapidamente quanto a presidente caiu em três semanas.

Dilma perde dois pontos de sua popularidade por dia, em média, desde o começo de junho. É três vezes mais rápido do que a maior perda de qualquer outro presidente desde o general Figueiredo. Colocada num gráfico (http://blog.estadaodados.com/aqueda), a curva de popularidade de Dilma vira uma queda livre, tão vertical que parece que a tinta escorreu. Não é erro.

É uma avalanche. Começou aparentemente do nada e virou um cataclismo. Na física, esses eventos inesperados de proporções gigantescas são associados ao que se chama de estado crítico: um intenso acúmulo de tensões que acabam liberadas de uma vez só.

É um fenômeno tão ubíquo que ocorre tanto na crosta terrestre (os terremotos) quanto nas garrafas de ketchup. Está presente em todos os lugares, mas é impossível de prever. Ninguém sabe quantos tapas pode dar no fundo cia garrafa antes de ela despejar uma dose indesejada de ketchup no sanduíche. Quando se percebe, é tarde demais. Foi o que aconteceu com a popularidade de Dilma.

Havia estresse acumulado em várias camadas da sociedade brasileira, numa trama propícia ao deslizamento. É a inflação corroendo o poder de compra dos emergentes. É a insatisfação crescente de quem viu os de cima e os debaixo subirem enquanto ele camela no mesmo lugar. É o ônibus que não anda, a escola que não ensina, o hospital que não cura. Os protestos dos filhos da classe média foram apenas o último tapa no fundo da garrafa.

Quem viajou para o exterior no fim de maio e voltou hoje terá retornado a um País diferente do que deixou. E não são só os manifestantes bloqueando o caminho do aeroporto. O Brasil rompeu um ponto crítico. O que parecia um sólido apoio popular derreteu, o que era líquido e certo evaporou.

Uma avalanche, um terremoto, um grande incêndio, uma revolução são fruto de uma sequência de fatos aleatórios que acumula cada vez mais tensão até chegar ao estado crítico. Nesse ponto, um simples grão de areia é capaz de fazer desmoronar uma montanha. É a proverbial gota d"água que transborda e rompe o dique.
Tão mais raro é o fenômeno, maior é ele. Uma avalanche como a que atingiu Dilma só se explica pelo acúmulo por décadas de tensões históricas que não encontram mais na política a sua válvula de escape. Os mecanismos de representação ficaram insuficientes para dissipar o estresse e resolver os conflitos.

Com ou sem razão, Dilma personificou a crise. Estava bem na frente quando tudo deslizou. Acabou servindo de para-choque. Mesmo se a presidente propõe algo que tem o apoio de mais de dois terços dos brasileiros – como o plebiscito e a Constituinte para reformar a política -, isso não melhora a sua imagem.

A consequência imediata é que o drive eleitoral mudou. O desejo de continuidade virou desejo de mudança. Os 25% de simpatia que o PT sustenta apesar da crise possibilitam sonha com um lugar na reta final de 2014, mas são insuficientes para a vitória. Aumenta a pressão para Lula sair da história para voltar à vida.

Na oposição, o cenário passa a ser de briga entre os candidatos pela outra vaga, já que o segundo turno parece garantido. Tudo parece certo, até a próxima avalanche reescrever a história.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Apenas uma mulher

Jeanne Moreau: Atenta aos novos tempos

Protagonista do longa ‘Uma dama em Paris’, em pré-estreia no Rio, a atriz diz não ligar para sua condição de mito do cinema e declara apoio a jovens brasileiros

Rodrigo Fonseca

Eternizada como um ícone da revolução sexual graças a filmes cultuados como “Os amantes” (1958) e “Jules e Jim — Uma mulher para dois” (1962), a diva francesa Jeanne Moreau anda atenta às recentes manifestações no Brasil, país onde fez grandes amigos nos anos 1970. Aqui ela filmou “Joanna Francesa” (1973), de Cacá Diegues, em Alagoas. Voltou em 2009, para o Festival do Rio. Agora, ela poderá ser vista novamente nas telas nacionais à frente da produção “Uma dama em Paris” (“Une estonienne à Paris”), de Ilmar Raag, em pré-estreia hoje (e durante toda a semana) no Estação Rio 3, às 17h50m. Mas, saudades à parte, a atriz de 85 anos encara as passeatas em território brasileiro como o indício de uma corrente de protestos políticos que, nos próximos meses, pode se espalhar em escala global. Essa hipótese ela baseou em suas memórias de 1968, quando viu o mundo inteiro comungar de um sentimento revolucionário iniciado a partir da inquietação de jovens em Paris que, num piscar de olhos, varreu o mundo. Nesta entrevista por telefone, ela dá seu apoio à juventude nas ruas, avalia o cinema francês atual e filosofa sobre a morte.

Nos anos 1960, a senhora simbolizou a liberdade, sexual e afetiva, para a juventude que foi às ruas protestar. Como a senhora vê a juventude de hoje, em especial os jovens brasileiros, unidos em protestos por todo o país?

Se eu não tivesse a idade que tenho e estivesse aí, estaria nas passeatas ao lado deles. O que está acontecendo agora no Brasil, país tão querido para mim, é só um começo de algo que vai se espalhar pelo mundo como uma explosão. Sabe por que acredito nisso? É porque quem manda na política internacional hoje são os bancos. No momento em que o mundo vive sob um “regime bancário” de governo, uma crise econômica, como a vivida hoje na Europa, é uma fonte de desequilíbrio político. Como acreditar em harmonia se os bancos deixam a economia de um país falir? Os jovens foram às ruas porque as pessoas que estão no poder agem em prol do dinheiro e não do bem-estar alheio.

O que houve de diferente nos protestos de 1968?

Muitas coisas, a começar pela afirmação da liberdade sexual. E isso se reflete no cinema. Nos anos 1960, você jamais veria um filme sobre a paixão entre duas mulheres como “La vie d’Adèle — Chapitre 1 & 2” (longa que rendeu a Palma de Ouro ao franco-tunisiano Abdellatif Kechiche no Festival de Cannes, em maio). É um filme maravilhoso, mas que reflete um novo tempo, no qual as relações entre homens e mulheres parecem desinteressantes. Em 1968, o cinema ainda falava da mulher como um objeto do desejo masculino.

A senhora tem medo do que a França possa sofrer se começar a haver protestos por aí?

Eu não tenho medo de nada. Não tenho mais idade para isso.

Nem da morte? Não é estranho para alguém que vive há seis décadas como um mito pensar em morrer?

Não importa o que eu seja no imaginário alheio: mito, diva. Eu sou apenas mulher. E como qualquer mulher, aliás, como qualquer ser humano, vou morrer um dia. Estou me preparando para a chegada da morte. Quero apenas saber que deixei tudo em ordem, na minha casa, na minha vida e mesmo no cinema, antes de partir.

O que significa “deixar tudo em ordem no cinema” para alguém que filmou com diretores como François Truffaut, Louis Malle, Orson Welles? O que a senhora aprendeu com eles?

A cada vez que faço um filme, aprendo muito mais sobre mim do que sobre cinema, ou sobre o mundo. Atuar para um filme é um ato de descobrir mais sobre sua própria natureza projetando-a em um personagem. Eu sou um mistério para mim. Eu filmo para ter uma ideia mais precisa do que sou. Sobre “deixar tudo em ordem”, no cinema, é ter a certeza de que trabalhei com diretores que valorizaram o papel da mulher na sociedade.

Esse é o caso de “Uma dama em Paris”, em que a senhora vive uma imigrante da Estônia às voltas com um amor do passado?

“Uma dama em Paris” são as memórias de uma mulher que deixou a Estônia na pobreza e sobreviveu na França com dificuldade, com a ajuda dos homens que conheceu e daquele por quem se apaixonou. Não penso que seja um filme sobre solidão, como algumas pessoas dizem, e sim um filme sobre a realidade de alguém que deu adeus ao sexo, mas não ao amor.

Há dois filmes seus ainda inéditos para estrear no Brasil: “La Duchesse de Varsovie”, de Joseph Morder, e “O Gebo e a sombra”, de Manoel de Oliveira. A senhora mantém uma produtividade invejável, atuando em uma média de dois longas por ano. Como avalia o cinema feito hoje na França?

Há muita coisa sendo produzida e você se depara como filmes incríveis como “La vie d’Adèle”. Mas o que lamento no cinema contemporâneo, de modo geral, é que as relações sexuais no cinema vêm se vulgarizando num ponto que beira a estética pornô. É assim em todo canto. Quando comecei, os diretores tratavam as mulheres nas telas com mais poesia, mesmo pelo viés sexual. Essa história de me enxergarem como mito só me interessa num ponto: saber que apareci em um momento no qual havia diretores interessados em falar da força da mulher. E eu servi a esses cineastas da forma que pude. Hoje, o cinema se “masculiniza” de uma forma estranha. Você vê mais filmes sobre homens, sobre cobiça, sobre riqueza. Onde fica a mulher nisso?

Fonte: Segundo Caderno /O Globo

Debate sobre Gramsci na UFRRJ

Josimar Teixeira

A Fundação Astrojildo Pereira, o site Gramsci e o Brasil e a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro promovem debate sobre “a vida e o pensamento de Antonio Gramsci” por ocasião do lançamento do livro de mesmo nome, de autoria de Giuseppe Vacca. Reúnem-se em mesa-redonda, sob a moderação do prof. Manlio Silvestre, a reitora daquela instituição, Ana Maria Dantas Soares (Abertura), Luiz Sérgio Henriques (“Gramsci e a democracia brasileira”), Lucilia Augusta Lino (“Juventude e contra-hegemonias”) e Raimundo Santos (“Marxismo brasileiro: programa, política e sociabilidade”).

Dia 2 de julho, às 15h, Auditório Hilton Salles, P-1, 2. andar, no campus de Seropédica.

Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

G. Verdi I Vespri Siciliani Overture C. Abbado Palermo

O escravo – Vinicius de Moraes

J'ai plus de souvenirs que si j'avais mille ans.
Baudelaire

A grande Morte que cada um traz em si.
Rilke

Quando a tarde veio o vento veio e eu segui levado como uma folha
E aos poucos fui desaparecendo na vegetação alta de antigos campos de batalha
Onde tudo era estranho e silencioso como um gemido.
Corri na sombra espessa longas horas e nada encontrava
Em torno de mim tudo era desespero de espadas estorcidas se desvencilhando
Eu abria caminho sufocado mas a massa me confundia e se apertava impedindo meus passos
E me prendia as mãos e me cegava os olhos apavorados.
Quis lutar pela minha vida e procurei romper a extensão em luta
Mas nesse momento tudo se virou contra mim e eu fui batido
Foi ficando nodoso e áspero e começou a escorrer resina do meu suor
E as folhas se enrolavam no meu corpo para me embalsamar.
Gritei, ergui os braços, mas eu já era outra vida que não a minha
E logo tudo foi hirto e magro em mim e longe uma estranha litania me fascinava.
Houve uma grande esperança nos meus olhos sem luz
Quis avançar sobre os tentáculos das raízes que eram meus pés
Mas o vale desceu e eu rolei pelo chão, vendo o céu, vendo o chão, vendo o céu, vendo o chão
Até que me perdi num grande país cheio de sombras altas se movendo...

Aqui é o misterioso reino dos ciprestes...
Aqui eu estou parado, preso à terra, escravo dos grandes príncipes loucos.
Aqui vejo coisas que mente humana jamais viu
Aqui sofro frio que corpo humano jamais sentiu.
É este o misterioso reino dos ciprestes
Que aprisionam os cravos lívidos e os lírios pálidos dos túmulos
E quietos se reverenciam gravemente como uma corte de almas mortas.
Meu ser vê, meus olhos sentem, minha alma escuta
A conversa do meu destino nos gestos lentos dos gigantes inconscientes
Cuja ira desfolha campos de rosas num sopro trêmulo...
Aqui estou eu pequenino como um musgo mas meu pavor é grande e não conhece luz
É um pavor que atravessa a distância de toda a minha vida.
É este o feudo dá morte implacável...
Vede - reis, príncipes, duques, cortesãos, carrascos do grande país sem mulheres
São seus míseros servos a terra que me aprisionou nas suas entranhas
O vento que a seu mando entorna da boca dos lírios o orvalho que rega o seu solo
A noite que os aproxima no baile macabro das reverências fantásticas
E os mochos que entoam lúgubres cantochões ao tempo inacabado…
É aí que estou prisioneiro entre milhões de prisioneiros
Pequeno arbusto esgalhado que não dorme e que não vive
À espera da minha vez que virá sem objeto e sem distância.

É aí que estou acorrentado por mim mesmo à terra que sou eu mesmo
Pequeno ser imóvel a quem foi dado o desespero
Vendo passar a imensa noite que traz o vento no seu seio
Vendo passar o vento que entorna o orvalho que a aurora despeja na boca dos lírios
Vendo passar os lírios cujo destino é entornar o orvalho na poeira da terra que o vento espalha
Vendo passar a poeira da terra que o vento espalha e cujo destino é o meu, o meu destino
Pequeno arbusto parado, poeira da terra preso à poeira da terra, pobre escravo dos príncipes loucos.

domingo, 30 de junho de 2013

OPINIÃO DO DIA - Manuel Castells: os protestos

“É um movimento contra a corrupção e a arrogância dos políticos, em defesa da dignidade e dos direitos humanos - aí incluído o transporte. Os movimentos recentes colocam a dignidade e a democracia como meta, mais do que o combate à pobreza. É um protesto democrático e moral, como a maioria dos outros recentes.

É a primeira vez que os brasileiros se manifestam fora dos canais tradicionais, como partidos e sindicatos. As pessoas cobram soberania política. É um movimento contra o monopólio do poder por parte de partidos altamente burocratizados. É, ainda, uma manifestação contra o crescimento econômico que não cuida da qualidade de vida nas cidades. No caso, o tema foi o transporte. Eles são contra a ideia do crescimento pelo crescimento, o mantra do neodesenvolvimentismo da América Latina, seja de direita, seja de esquerda. Como o Brasil costuma criar tendências, estamos em um ponto de inflexão não só para ele e o continente. A ideologia do crescimento, como solução para os problemas sociais, foi desmistificada.”

Manuel Castells, sociólogo espanhol , in entrevista “ Brasil nas ruas”, O Globo, 30/6/2013

Manchetes dos jornais de hoje

O GLOBO
Governo pode aumentar impostos para compensar novos benefícios
Datafolha: aprovação de Dilma despenca de 57% para 30%
Saúde: A desconstrução da Cura Gay pela ciência

FOLHA DE S. PAULO
Dilma não venceria no 1º turno; Marina e Barbosa sobem
Passeata de evangélicos vira desagravo a Feliciano
Polícia prende dois suspeitos de matar menino boliviano
Planalto não esperava queda tão grande de popularidade
Prefeitura de SP está insolvente, diz Fernando Haddad

O ESTADO DE S. PAULO
Líderes aliados divergem de ideias de Dilma para reforma
Onda de protestos tomou 353 cidades
Paciente de plano tem problemas do SUS
Notas & Informações: A política nas ruas

ESTADO DE MINAS
Valeu a pena?
Manifestantes ocupam a câmara de BH

O TEMPO (MG)
Após onda de protestos, popularidade de Dilma cai 27 pontos
Plebiscito poderá custar R$ 500 milhões aos cofres públicos
Para a oposição, consulta à população é manobra

CORREIO BRAZILIENSE
Como é viver em um país de inflação alta
Porque a reforma política será difícil
Jovens brasilienses mais expostos a perigos

GAZETA DO POVO (PR)
Previdência dos servidores em perigo
94% dos curitibanos aprovam protestos, mostra pesquisa
Paraty começa a festa para reunir novos e velhos escritores
Equador sinaliza que não vai conceder asilo para Snowden

ZERO HORA (RS)
Grêmio surpreende e demite Luxemburgo
Protestos sacodem o tabuleiro da sucessão

JORNAL DO COMMERCIO (PE)
Saiba como ser fiscal atuante do dinheiro público
Dilma: em baixa
“Importação‘ de médicos cria polêmica

O que pensa a mídia - editoriais dos jornais de hoje

http://www2.pps.org.br/2005/index.asp?opcao=editoriais

Líderes aliados divergem de ideias de Dilma para reforma

Levantamento do Estado mostra que financiamento público não teria apoio; foro privilegiado acabaria

Na semana em que a presidente Dilma Rousseff lançou a proposta de realização de um plebiscito para nortear uma reforma política, levantamento do Estado realizado com líderes de bancadas na Câmara e no Senado mostra que as principais propostas defendidas pela presidente sofreriam resistência, até mesmo na base aliada. Entre as ideias estão financiamento público de campanha e voto de lista - no qual os partidos definem os candidatos numa relação preestabelecida e o eleitor escolhe a legenda. Esses líderes, no entanto, apoiariam o fim do foro privilegiado. Um questionário foi enviado aos parlamentares para detectar quais pontos teriam chances de ser aprovados no Congresso caso uma proposta fosse a plenário. Outra possibilidade bem recebida seria a unificação das eleições gerais e municipais, hoje realizadas com intervalo de dois anos.

Líderes no Congresso são contra foro privilegiado e apoiam eleições unificadas

Levantamento do "Estado" indica que financiamento público e voto em lista não seriam aprovados. Oposição estuda temas

Se o Congresso decidisse votar hoje uma reforma no sistema político, os parlamentares acuados pelas ruas, estariam dispostos a aceitar o fim do foro privilegiado e concordariam em unificar a data das eleições. Duas das principais bandeiras do PT, no entanto, dificilmente sairiam do papel. De acordo com levantamento feito pelo Estado com os líderes dos principais partidos na Câmara e no Senado, o financiamento público exclusivo das campanhas eleitorais e o voto em lista fechada encontrariam forte resistência, inclusive na base aliada.

Na semana em que a presidente Dilma Rousseff lançou a ídeia de fazer um plebiscito para nortear a elaboração de uma reforma política, um questionário foi enviado aos parlamentares para descobrir quais pontos teriam chances de ser aprovados no Congresso caso uma proposta fosse a plenário. Temas como o fim das coligações proporcionais e reeleição também foram abordados.

Sobre a ideia de usar exclusivamente dinheiro público para financiar as campanhas eleitorais - o que é prioridade para a presidente o líder do PMDB na Câmara, Eduardo Cunha (CE), diz que a bancada peemedebista não definiu posição, mas ressalta que essa não é uma meta do principal aliado do PT. "O financiamento público não é e não será bandeira do PMDB", afirma o deputado. Maior bancada no Senado e a segunda maior na Câmara, o PMDB é o fiel da balança na hora das votações.

Líder do PSB, que também compõe a base governista, o deputado Beto Albuquerque (RS) diz que o partido não tem posição formada sobre o assunto e que é preciso discutir o sistema de financiamento público. "Os levantamentos preliminares indicam que esse negócio pode custar R$ 3 bilhões ou R$ 4 bilhões de recursos da União, diz. "Vai tirar de onde esses R$ 3 ou 4 bilhões para fazer campanha eleitoral? Da saúde, da educação?", questiona.

No Senado, os líderes dos dois partidos, Eunício Oliveira (PMDB-CE), e Rodrigo Rollemberg (PSB-RJ), afirmam que as respectivas bancadas são a favor de mudar o sistema de financiamento das campanhas, Rollemberg, no entanto, diz que a questão sobre financiamento exclusivamente público não está fechada. "Sinceramente, eu não sei qual seria a posição do partido, mas o PSB é favorável ao barateamento das campanhas eleitorais."

Lista* Uma das principais bandeiras do PT, o sistema de voto em lista - os partidos definem os candidatos numa relação preordenada e o eleitor escolhe a legenda, mas não o candidato - é rejeitado pelos aliados PSB e do PSD no Senado. Já o PMDB, mais afinado com o PT nesse ponto, se posiciona a favor do voto em lista. Na Câmara, no entanto, a sigla não tem uma posição fechada.

O líder do PTB na Câmara, deputado Jovair Arantes (GO), também da base aliada, diz ser contra esse modelo, porque, segundo ele, o sistema favorece as siglas com maior representação no Congresso. "Além disso, o eleitor está habituado em votar em candidatos, não em partido. Isso vai desequilibrar o jogo democrático", considera.

Oposição* Se na própria base aliada há dúvidas sobre os itens da pauta petista, na oposição há críticas frontais. O líder do PSDB, Aloysio Nunes (SP) não respondeu à pesquisa porque, segundo ele, ainda não há uma resolução da bancada sobre alguns temas, mas afirmou que a pauta de reforma política é uma preocupação do PT, não da sociedade e muito menos do PSDB. "Não está hoje na nossa preocupação dentro do Congresso, fazer uma grande reengenharia política do Brasil. No fundo o que existe é a intenção do PT e da presidente Dilma de implantar um projeto para se perpetuar no poder", afirma. Na Câmara, a liderança do PPS se manifestou a favor do financiamento público exclusivo e contra o voto em lista. O DEM disse que vai reunir as bancadas na terça-feira para discutir reforma política e preferiu não se manifestar.

Foro privilegiado» Há temas, no entanto, que conseguiriam mais apoios nas duas Casas. Em suas respostas, nenhum dos líderes se posicionou a favor da manutenção do foro privilegiado. Há partidos, porém, que disseram ainda não ter definido uma posição.

Pela Constituição, autoridades políticas possuem a chamada prerrogativa de função e não podem ser processadas ou julgadas criminalmente pela Justiça de primeira instância. O presidente da República, deputados federais, senadores e ministros de Estado, por exemplo, são sempre julgados pelo Supremo Tribunal Federal.

O tema pode entrar na pauta do Congresso. Na Câmara, há uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que pede o fim do privilégio, mas há algumas semanas a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara adiou a discussão da proposta.

O líder da bancada do PSD na Câmara, Eduardo Sciarra (PR), se diz a favor do fim do foro, mas faz uma ponderação: ele deve continuar valendo para crimes de natureza política. "Um deputado pode sofrer perseguição política e acabar prejudicado", argumenta.

Dilma prevê retaliações no Congresso

O govemo federal já se organiza para enfrentar ma batalha política dentro do Congresso. Em reuniões com seus principais auxiliares, a presidente Dilma Rousseff já foi prevenida que integrantes de sua base de apoio - aliados à oposição "preparam retaliações contra o govemo, insatisfeitos com a relação com o Palácio do Planalto.

Para esses parlamentares, Dilma aumentou a pressão da opinião pública contra eles ao tentar "empurrar" a culpa pelos problemas do País para o Congresso, após propor uma reforma política por meio de plebiscito.

As retaliações que o Planalto tentará neutralizar são pesadas. Incluem a ameaça de criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Copa, que investigaria gastos para o evento, e também alterações no sistema eleitoral. Nesse último caso, um grupo de parlamentares do PP passou a defender abertamente o fim da possibilidade de reeleição já para as próximas eleições, o que tiraria a chance de Dilma concorrer a um novo mandato.

Num cenário extremo, as propostas de retaliações poderiam incluir emenda que impeça que governantes ocupem cargo no Executivo por mais que dois mandatos. Isso tiraria do jogo também o ex-presidente Lula e deixaria o PT sem opções claras de candidatura presidencial. Por causa disso, o governo passou os últimos dias recebendo líderes aliados e mandando recados na tentativa de abrir diálogo até com a oposição. Existe a avaliação que o maior foco de insatisfação está na Câmara e que é preciso reatar as pontes de ligação com a base de sustentação dentro do Congresso. As conversas e reuniões deflagradas na semana passada têm o objetivo de garantir pelo menos a reabertura de um canal de negociações.

Sem recuo. Mesmo sabendo do tamanho da encrenca que será enfrentar uma Câmara com até abase aliada enfurecida, Dilma não recuará novamente na ideia de reforma política. Mas é por pura falta de opção. Não há dentro do governo nenhuma outra carta na manga para conter a onda de insatisfação que levou milhares de manifestantes às ruas. A petista aposta todas as fichas em ajustes pontuais nos serviços públicos e na reforma como respostas definitivas para aplacar o clamor das ruas.

Conforme interlocutores da presidente, caso os parlamentares se recusem a realizar o plebiscito, Dilma prevê que ainda assim poderia sair ganhando nestabatalha, pois publicamente mostraria que suas boas intenções esbarraram na má vontade do Legislativo. Para se ter ideia da lógica presidencial, ela tomou como vitória pessoal a aprovação no Senado do projeto que tipifica corrupção como crime hediondo, na quarta-feira. Embora a votação tenha sido realizada pelos senadores, Dilma contabilizou a fatura em sua conta, pois foi a primeira a retomar a ídeia em seu discurso na segunda-feira passada.

Não que a presidente esteja otimista, pois está ciente de que enfrenta a pior crise nesses dois anos e meio de poder. Mesmo assim, ela pediu que uma pesquisa de opinião fosse encomendada para tomar a temperatura entre futuros eleitores. Foi aconselhada pelo marqueteiro João Santana a esperar, pois o clima estaria, “contaminado” e não representaria o real sentimento da população. Até porque, na avaliação do governo, as manifestações das mas já perderam força. O protesto programado para a última quarta em Brasília foi considerado pelo Planalto um completo fracasso.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Dilma não venceria no 1º turno; Marina e Barbosa sobem

Dilma perde apoio, e eleição de 2014 iria para o 2º turno

Assim como a popularidade, intenção de voto na petista desaba 21 pontos em três semanas, revela o Datafolha

Num dos cenários em que tem nome listado, Lula venceria no 1º turno; taxa de eleitores sem candidato dobra

Fernando Rodrigues

BRASÍLIA - Depois de três semanas de manifestações de rua em todo o país, a presidente Dilma Rousseff é a pré-candidata que mais perdeu apoio na corrida pelo Planalto.

Sua taxa de intenção de votos caiu até 21 pontos percentuais. Embora ainda lidere a disputa de 2014, a queda indica que hoje ela teria de enfrentar um segundo turno.

Para piorar a situação da presidente, seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva, se mostrou bem mais resiliente à insatisfação geral dos eleitores com os políticos.

Além de ter perdido só dez pontos percentuais, o petista ainda ganharia no primeiro turno a eleição hoje em um dos cenários apresentados.

Há um crescente movimento dentro do PT que pede a volta de Lula em 2014.

O Datafolha foi às ruas na quinta e na sexta-feira. Entrevistou 4.717 pessoas em 196 cidades. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos.

O cenário hoje mais provável para a sucessão inclui Dilma, Marina Silva (Rede), Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB). Nessa simulação, a petista tinha 51% das intenções de voto nos dias 6 e 7 deste mês. Agora, desceu para 30%. Esse é o mesmo percentual da aprovação de seu governo, apurada no mesmo levantamento e divulgada ontem pela Folha.

Nesse mesmo cenário, Marina Silva subiu de 16% para 23%. Aécio Neves foi de 14% para 17%. Campos oscilou de 6% para 7%.

Os três adversários juntos pularam de 36% para 47%. Nessa hipótese, seria realizado um segundo turno entre a petista e Marina.

Impressiona o aumento de eleitores sem candidato --que dizem não saber quem escolher ou que afirmam votar em branco, nulo ou nenhum. No início do mês, eram 12%. Agora, são 24%.

No outro cenário no qual Dilma aparece como candidata é incluído também o presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa --que tem negado intenção de disputar eleições. Nessa hipótese, a petista tem 29% e há três nomes empatados em segundo lugar: Marina (18%), Aécio e Joaquim (15% cada um). Campos pontua 5%.

Lula é testado em duas simulações. Numa delas, vai a 45%. Nesse cenário, Marina, Joaquim, Aécio e Campos somam juntos 43% e ficam empatados tecnicamente com o ex-presidente. Haveria possibilidade de segundo turno.

Em outra cartela, quando o nome de Joaquim não é incluído, Lula tem 46% contra 37% de Marina, Aécio e Campos somados --aí o petista venceria no primeiro turno.

No geral, é possível dizer que os votos perdidos por Dilma foram, em parte, herdados por Marina e Joaquim. Um outro segmento de ex-dilmistas preferiu fazer um "pit stop" no grupo dos que não têm candidato. Aécio e Campos não se beneficiaram da desidratação de Dilma.

Outro indicador duro com a atual presidente é na pesquisa espontânea, aquela na qual o entrevistado não é confrontado com uma lista de nomes. A petista já havia caído de 35% para 27% de março para o início de junho. Agora, bateu em 16%. Lula se manteve estável, com 6%. Joaquim Barbosa, que nunca aparecia na pesquisa espontânea, surge com 2%.

Há oscilações nas intenções de voto quando se comparam as taxas do interior do país e de áreas urbanas. Dilma vai melhor no interior.

Fonte: Folha de S. Paulo

Convulsão nas ruas sepultou ideia de que 2014 é jogo jogado

Datafolha mostra que, hoje, o grande vitorioso é o 'não queremos ninguém', reflexo tanto da 'rua' como da 'casa'

Igor Gielow, diretor da Sucursal de Brasília

Há um mês, vivíamos em um país com problemas econômicos e de gestão. Nele, os índices de aprovação da presidente eram tão altos que lhe era permitido o luxo de solapar todo tipo de aliado. Oposição, nem havia de fato. A reeleição, salvo imprevistos, estava dada para 2014.

Agora, a fotografia feita pelo Datafolha do impacto da convulsão das últimas semanas congelou essa narrativa.

Ressalve-se: a pesquisa mostra o presente. As ruas podem se acalmar. A desaprovação a Dilma entre os que são afetados na prática pelos protestos, que a identificam genericamente como o "poder" que não garante "ordem", pode baixar na mesma intensidade.

Há, portanto, tempo para o governo recompor-se caso a situação desanuvie. Todo mundo ouviu a voz da rua, mas talvez não tenham prestado atenção suficiente à voz dos que ficaram em casa.

Serão meses, contudo, de turbulência para tal tentativa de recuperação, mesmo que os protestos se diluam.

Primeiro, parece inevitável uma reorganização política do governo. Se Aloizio Mercadante aparece como figura de proa dessa nova etapa, é bom lembrar que muitos setores do PT, e ainda mais na base aliada, não o toleram.

Lula terá de agir, mas não afetar intervencionismo. O queremismo tardio pode vir a ser central nas pressões sobre aquele que ameaça tornar-se o grande tiro do pé de toda a estratégia dilmista até aqui: a reforma política.

Como o Datafolha mostrou, o plebiscito tem apoio, mesmo que ninguém saiba o que é um "distritão".

Só que uma coisa é tentar passar a agenda do PT (voto em lista etc.) com uma presidente dona de 65% de aprovação. Outra, fazê-lo com o governo no seu pior momento --e com o maior aliado, o PMDB, sedento de sangue pelos contínuos maus-tratos a que foi submetido por Dilma.

O fim da reeleição, por exemplo, é cogitado por aliados e o "Volta, Lula" pode tornar-se ensurdecedor.

Para piorar, o cenário econômico é turvo. A recuperação americana e a consequente alta do dólar pressionam a inflação, central para a percepção popular de crise.

A cantilena do pleno emprego, repetida por Guido Mantega por esses dias, já não segura eleitor, como o tombo na aprovação da gestão econômica demonstra.

O governo trabalhava com uma queda na aprovação/intenção de voto de Dilma. Mas nada desse tamanho. E havia a suposição de que Marina Silva, que se vende como antipolítica, capitalizaria toda a queda. Não foi bem assim.

O grande vitorioso hoje é o "não queremos ninguém", que reflete tanto a "rua" como a "casa". O crescimento de Joaquim Barbosa pode estar atrelado a isso. O surgimento de terceiras vias, também. Se até há um mês o jogo de 2014 parecia duro, mas jogado, agora é incógnita.

Fonte: Folha de S. Paulo

Sinal amarelo para Dilma

Datafolha: aprovação de Dilma despenca de 57% para 30%

Pesquisa Datafolha mostra que, após protestos, aprovação do governo caiu de 57% para 30%

BRASÍLIA E SÃO PAULO - A queda acentuada na popularidade da presidente Dilma Rousseff, mostrada na pesquisa Datafolha divulgada ontem pelo jornal "Folha de S. Paulo", acendeu um alerta entre políticos do PT e de partidos da base. A opinião de aliados ouvidos pelo GLOBO é que uma diminuição já era esperada, mas a dimensão da queda preocupa. Alguns já questionam, reservadamente, a viabilidade da candidatura de Dilma à reeleição em 2014.

Os números indicam a queda de 57% para 30% na aprovação do governo Dilma. O percentual dos que acham que a inflação vai aumentar passou de 51% para 54%. A pesquisa foi realizada em 27 e 28 de junho, depois da onda de manifestações no país. E são comparados com pesquisas dos dias 6 e 7 de junho. É a maior queda na aprovação de um presidente, entre uma pesquisa e outra, desde o plano econômico do ex-presidente Fernando Collor de Mello, em 1990, quando houve o confisco da poupança.

O senador Wellington Dias (PT-PI), líder do partido no Senado, que faltou à última reunião da presidente com os líderes da base, deu o tom de como as pesquisas de popularidade afetam as decisões do partido em relação às eleições. Wellington lembrou que os ex-presidentes Fernando Henrique e Lula só foram apoiados por seus partidos à reeleição porque, no ano da disputa, encontravam-se bem avaliados.

- A eleição é daqui a um ano e vamos considerar a conjuntura. Assim como Fernando Henrique e Lula estavam bem posicionados no período da eleição e foram candidatos à reeleição, a Dilma é presidente e, se ela estiver bem posicionada em 2014, será a nossa candidata. Isso é o que estamos sentindo nas reuniões do PT - disse.

O senador ressaltou que as manifestações contêm reação contra políticos e instituições em geral e que, no caso de Lula, não haveria resistência direta, já que ele não exerce mandato.

O líder do governo na Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), admitiu que o PT foi surpreendido com o nível da queda na popularidade de Dilma. O deputado ressaltou que é preciso, agora, tentar interpretar o que a população quer, mas descartou possível volta de Lula, no caso de Dilma não se recuperar do desgaste.

- A pesquisa surpreende no percentual da queda. Não há o que comemorar, mas a presidente e o governo agora têm de ouvir o recado das ruas e continuar trabalhando. É evidente que quem está no governo sofre desgaste maior, e Lula sempre foi muito bem avaliado, mas qualquer relação sobre isso agora é pura especulação, 2014 ainda está muito longe - afirmou o deputado.

O deputado André Vargas (PT-PR) destaca que Dilma tem 30% de aprovação e que cerca de 40% dos entrevistados consideram o governo regular. Para ele, a queda de Dilma na preferência popular não fortalece o movimento "Volta, Lula".

- A presidente Dilma é a candidata e Lula é o grande cabo eleitoral - disse Vargas.

O deputado Lúcio Vieira Lima (PMDB-BA), um dos parlamentares da base que reclamam do tratamento recebido pela presidente, aponta que chegou ao fim o "favoritismo" em que Dilma se apoiou nestes primeiros anos de governo. Com isso, diz, ela será forçada a ouvir mais sua base:

- O que logicamente acabou foi o favoritismo que havia sobre ela, que todo mundo considerava imbatível. Em três semanas, tudo mudou, o quadro ficou mais difícil para ela e o PT. É inegável que, quando um político perde a aprovação popular, fica menos independente em relação ao Congresso.

O presidente do PT, Rui Falcão, recusou-se a comentar uma possível candidatura de Lula. Ele diz que a pesquisa foi "feita no olho do furacão":

- Era previsível que pudesse ocorrer queda.

Falcão destaca que a pesquisa aponta um sinal, na sua avaliação, contraditório, ao mostrar aprovação da população às propostas de plebiscito e reforma política apresentadas por Dilma:

- A aprovação a essas iniciativas traduzem a possibilidade de recuperação. O processo está em andamento. As iniciativas políticas que ela tomou neste momento, tanto o plebiscito como a reforma política, têm ampla aprovação.

Fonte: O Globo

Aécio vê insatisfação com 'classe política'

Beneficiada, Marina não quis comentar pesquisa

Provável adversário de Dilma Rousseff nas eleições de 2014, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) afirmou ontem que a queda da popularidade da presidente mostrada na última pesquisa Datafolha é reflexo de uma insatisfação dos brasileiros com a classe política em geral. Num tom cauteloso, Aécio declarou, por meio de nota, que a população está reagindo à falta de respostas efetivas aos problemas enfrentados ao longo de anos e que o quadro deve ser analisado com humildade e responsabilidade por todos.

"As pesquisas indicam o que os protestos que mobilizam o país já mostravam: uma insatisfação dos brasileiros que, acredito, não seja apenas com relação à presidente Dilma, mas com a classe política como um todo, em razão da ausência de respostas efetivas aos problemas enfrentados pelas pessoas. São déficits acumulados ao longo de anos. Cabe a todos nós analisarmos com humildade e responsabilidade esse importante recado", disse o senador, em nota.

O senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP) afirmou que a queda da popularidade da presidente deixa claro que o cenário eleitoral de 2014 não está resolvido.

- Quem imaginava que 2014 estava resolvido errou. E quem acha que a queda na popularidade de Dilma significa uma alternância da polarização entre PT/PMDB e DEM/PSDB também está errado. As ruas querem participação direta nas decisões do país - afirmou o senador.

Em tom bem mais duro, o líder do PSDB no Senado, Aloysio Nunes Ferreira (SP), disse que a queda na aprovação da presidente Dilma Rousseff indica que chegou a hora de ela começar a governar.

- É um sinal amarelo, um alerta. Um sinal de que está na hora de ela governar - disse o tucano.

Para Aloysio, a presidente deve mudar a sua agenda e deixar de lado encontros com marqueteiro para se preocupar com os problemas reais que afligem o país, como a situação da economia:

- É a hora de trabalhar.

Maior beneficiária na pesquisa de intenção de voto para presidente, a ex-senadora Marina Silva se recusou a comentar o resultado do levantamento. Um de seus principais aliados, o deputado federal Alfredo Sirkis (PV-RJ) afirmou ser "muito cedo" para fazer prognósticos para a eleição.

Fonte: O Globo

Vantagens e desafios de Marina

Se Marina Silva desponta como a candidata que mais poderá se beneficiar com as manifestações devido ao seu perfil, Aécio Neves (MG) tenta resgatar as bandeiras do PSDB para recuperar o terreno perdido. Unânimes em apontar boas perspectivas para a ex-senadora, especialistas avaliam que o possível crescimento não se dará pela defesa ambiental, algo que pouco apareceu nos protestos.

– Não é pela sustentabilidade, mas pela sinceridade do discurso dela. O que transparece para a população é uma nova maneira de fazer política – afirma o cientista político Manuel Sanches, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

A ex-senadora pelo Acre, entretanto, terá barreiras para superar. Está presa ao processo de criação da Rede, contará com pouco tempo de TV e alianças políticas escassas. Outro complicador é o posicionamento diante de temas como aborto, homossexualismo e drogas. Em 2010, Marina foi conservadora ao abordar as pautas.

– O desempenho da Marina dependerá de como irá lidar com a questão religiosa – diz Sanches.

A situação de Aécio divide opiniões. O cientista político Valeriano Costa faz avaliação pessimista:

– A oposição está encurralada, limitada a desqualificar propostas do governo, espremida entre o Planalto e os manifestantes, com os quais não encontrou diálogo.

Uma outra vertente aponta que Aécio pode crescer na abordagem da economia, assunto em que Marina não costuma obter destaque.

– Aécio está com uma pauta muito clara de combate à inflação. E isso coincide com a avaliação das pessoas, que percebem o aumento do custo de vida – diz Hermilio Santos, da PUCRS.

Fonte: Zero Hora (RS)

Porque a reforma política será difícil

No que depender do Congresso, temas como financiamento de campanha e fim das coligações tendem a avançar pouco, dizem especialistas consultados pelo Correio. O motivo é prosaico: quem se beneficia do jogo não está disposto a mudar as regras.

Planalto minimiza reprovação a Dilma

Para os governistas, a queda de 27% na avaliação positiva da presidente é um mero reflexo da onda de protestos.

Por que os políticos não querem mudar

O nó que amarra a reforma política no Brasil nunca foi desatado. O motivo é simples. Não há interesse. Historicamente, parlamentares só mudam as regras em benefício próprio. Quem tá dentro do jogo não quer sair. Agora, com o empurrão que veio das ruas, o país se questiona: as mudanças no sistema político e eleitoral serão levadas adiante? Financiamento de campanha, fim das coligações, unificação do calendário eleitoral e ampliação da participação popular são os principais pontos. O Correio ouviu ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), cientistas políticos e advogados.

O cientista político da Universidade de São Paulo (USP) Rubens Figueiredo diz que é bastante difícil modificar regras que atrapalhem os políticos. "É muito difícil o meio político gestar uma reforma que seja contra os seus interesses. O que tivemos até aqui foram aperfeiçoamentos a exemplo da Ficha Limpa, fidelidade partidária e proibição de distribuição de brindes", afirma.

O ministro aposentado do STF Carlos Velloso atesta que nunca houve real vontade política do governo em realizar as transformações. "Bastaria que tivesse firme vontade política por parte do líder maior da maioria no Congresso, que é o presidente da República, principalmente num governo, como o atual, que se apoia numa coalizão de partidos", alega.

Na opinião de Carlos Velloso, a pressão popular assume papel determinante. "O Congresso votou, em menos de 60 dias, a Lei Complementar 135, a denominada Lei da Ficha Limpa, que foi de iniciativa popular. A matéria, uma ampla reforma política, nunca foi posta num projeto em que o chefe do Executivo tivesse manifestado vontade política na sua aprovação. Pesquisem os anais do Congresso nos últimos 10 anos", declara.

Para muitos, um dos maiores responsáveis pela deformação é a livre coligação nas eleições proporcionais. O ex-ministro do TSE Torquato Jardim alega que a maneira mais eficaz e prática de melhorar o sistema político brasileiro é impedi-las. "Plebiscito é golpe de estado no melhor estilo Hugo Chávez. As opções são muito técnicas para o povo se posicionar. Escapa ao controle. Basta proibir a coligação proporcional. O resto é consequência", opina.

Um dos idealizadores da Lei da Ficha Limpa, o juiz Márlon Reis, diz que, agora, a situação é insustentável. "A reforma política só anda com pressão popular. Há um sentimento claro e generalizado pela sociedade de que o sistema eleitoral brasileiro é uma fábrica de corrupção. Não alterá-lo neste momento corresponderia a uma omissão imperdoável", diz.

De acordo com ele, o Congresso nunca quis uma reforma política de verdade. "Nunca houve interesse real das maiorias parlamentares. Um deputado federal me disse recentemente que não houve impasse sobre a reforma política, mas uma decisão consciente do Congresso de manter as coisas como elas estão."

Senador pelo Rio Grande do Sul, Pedro Simon (PMDB) também critica a classe política. "Não espere reforma política do Congresso, do governo ou do Supremo Tribunal Federal. Ninguém faz. Não há coragem. A verdade é essa", comenta. O parlamentar diz, no entanto, que chegou o momento. "A hora é essa. O Congresso só se movimenta quando o povo empurra. Temos que aproveitar." Ele defende um grande entendimento pluripartidário. "Só vai funcionar se for assim. Itamar Franco, quando assumiu a Presidência da República no lugar de Fernando Collor, chamou todos os partidos para o Palácio do Planalto. Disse que estava ali por uma decisão do Congresso e queria governar com todos. A reforma só vai adiante se houver um entendimento nesse nível", diz.

Limites de gastos

Se todos concordam que o momento da reforma política é este, não existe consenso nem mesmo dentro dos partidos em relação ao conteúdo das transformações. Sobre o sistema eleitoral, há quem defenda modificações na proporcionalidade dos votos. Hoje, para cargos executivos, o sistema é majoritário. Ganha aquele que tiver mais votos. No legislativo, há um sistema proporcional com lista aberta por meio de um quociente eleitoral. Uma das propostas é acabar com esse mecanismo.

Em relação ao financiamento de campanha, existem pelo menos três propostas. Hoje, no Brasil, há o sistema misto. Empresas ou pessoas físicas podem realizar doações para os candidatos. As siglas dos concorrentes também recebem dinheiro público via fundo partidário. Uma das propostas de modificação prevê o financiamento público exclusivo com um teto de gastos. Há a sugestão de que o mecanismo seja atrelado a um fundo nacional. Nesse caso, empresas não poderiam realizar doações diretamente. O dinheiro seria depositado numa conta gerida pelo Tribunal Superior Eleitoral. Alguns segmentos querem que pessoas físicas possam doar desde que se respeite um limite estabelecido.

"Já não há deputado ou senador que não saiba que o sistema se esgotou. Não é possível para o povo ser obrigado a voltar às urnas por uma só vez sob as regras vigentes. O sistema eleitoral brasileiro está morto", ressalta o juiz Márlon Reis.

A legislação eleitoral permite atualmente que os partidos façam coligações nas eleições para deputados e vereadores. Muitos criticam essa fórmula porque estimula o surgimento dos chamados partidos de aluguel. Alguns defendem a proibição das coligações e outros acham que seria possível a coligação desde que seja respeitado um tempo mínimo estabelecido. Outro ponto bastante debatido é o calendário eleitoral. O objetivo é unificar todas as eleições em apenas uma data de quatro em quatro anos. Uma das saídas é ampliar, em 2016, o mandato de prefeitos e vereadores para seis anos. A unificação só ocorreria em 2022.

"A hora é essa. O Congresso só se movimenta quando o povo empurra. Temos que aproveitar o momento"
Pedro Simon, senador da República

"Bastaria que tivesse firme vontade política por parte do líder maior da maioria no Congresso, que é o presidente da República"
Carlos Velloso, ministro aposentado do Supremo Tribunal Federal

"Basta proibir a coligação proporcional. O resto é consequência"
Torquato Jardim, advogado e ex-ministro do Tribunal Superior Eleitoral

"O sistema construiu uma armadilha: uma vez dentro do parlamento, passaram a fazer regras para assegurar sua permanência"
Márlon Reis, juiz, um dos idealizadores da Lei da Ficha Limpa

Fonte: Correio Brazilirnse