quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Guerra santa é apenas sintoma do vale-tudo da política de um país sob ameaça de golpes, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Campanha de 2010 também teve questão religiosa oportunista; 2026 é muito pior

Selvageria que tira carne e medula do osso das instituições é a nova regra do jogo

A eleição para presidente de 2010 teve "guerra santa". Era um indício de que o caldo político começava a azedar. A gente não sabia então que se tratava do começo do caminho para o fim da picada.

Uma campanha odienta, início de desarranjo econômico, mudança institucional quase parando e corrupções eram problemas, mas talvez transitórios —até para um pessimista. A "guerra santa" de 2026 é aspecto menor do buraco em que nos metemos.

Dilma Rousseff (PT) foi chamada de "abortista" na campanha de 2010. Anos antes, dissera que a interrupção voluntária da gravidez era assunto de saúde pública. A campanha de José Serra (PSDB) se valeu do rótulo que ajudou a carimbar na adversária.

Sacerdotes católicos distribuíam panfletos ou faziam sermões contra o aborto. Havia correntes de e-mails sobre o assunto. Perto do que se vê hoje, parecia até querela teológica.

A campanha de Dilma na TV passou a ressaltar a "formação moral e religiosa" dela. Serra fazia caminhada com padres e beijava terços. No segundo turno, Dilma e Serra foram a Aparecida. Serra dizia que o PSDB não inventara a "questão religiosa" na eleição; que o governo do PT havia criado suspeitas ao aprovar o Terceiro Plano Nacional de Direitos Humanos (de 2009), prato cheio para conservadores e oportunistas, além de cheio de disparates de fato.

Na "guerra santa" de 2026, uma mentira diz que Flávio Bolsonaro (PL) apoiaria um projeto para tirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. No mais, é verdade que rumores exploram o fato de que certos grupos evangélicos, alguns aliados do bolsonarismo, fazem campanha contra a igreja católica e suas formas de culto (e contra o candomblé e a umbanda também). Lulistas são acusados de instigar conflito religioso a fim de tirar voto do adversário, assim como bolsonaristas. É verdade.

O comentarismo observa a suposta ironia da situação, de bolsonaristas "provarem do próprio veneno" das "fake news" —é verdade. Condena lulistas dizendo que não existem "fake news" do bem —é verdade. Mas é parte pequena da verdade saber quem prova qual veneno ou começou a usar gás mostarda nas trincheiras. O que não implica dizer que a balança da desrazão está equilibrada. Jair Bolsonaro colocou Deus acima de tudo no seu mote político, fez da propaganda e da mentira digitais o núcleo de seu movimento político. Presidente, dizia que haveria eleição apenas de acordo com sua vontade e tentou um golpe.

Importante é que o padrão da disputa política se tornou o vale-tudo. Quem ignorar as novas regras do jogo se arrisca a perder a eleição, voto do Supremo ou as graças podres do Congresso. Não se trata de dizer que "bonzinhos" apenas reagem, essa conversa infantil. Trata-se de atitude que transforma instituições em esqueleto sem carne e sem medula. Daqui a pouco, pode ser que nem mais esqueleto exista.

O vale-tudo foi a tônica da República até a Constituição de 1988. Sempre haverá quem queira esticar a corda. Mas, com boa vontade, se pode dizer que houve alguma contenção de 1992 (impeachment de Collor) a 2014.

Vale-tudo haverá até que a selvageria perca eficácia, o que é difícil de acontecer sem reconstrução política. Isto é, forças sociais que criem ou influenciem movimentos e partidos políticos que reajam ao projeto de destruição institucional e democrática, o que não está no horizonte. "Guerra santa" é pouco. É outro sintoma de coisa muito pior.

 

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