quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Panorama Político - Ilimar Franco

Reação à espionagem
O Brasil não pode impedir a espionagem, mas a presidente Dilma quer que empresas, como o Google, prestem contas às cortes brasileiras. Na terça, disse a cinco ministros que é inegociável a obrigação de armazenamento no Brasil dos dados de brasileiros na web. Quer evitar o que ocorreu no STJ, onde o Google se safou alegando que, com os dados armazenados nos EUA, sua obrigação era cumprir a lei americana.

A guerra na rede
O relator do marco civil da internet, deputado Alessandro Molon (PT-RJ), fez objeções à posição da presidente. Ocorre que armazenar dados no Brasil não impede seu arquivamento lá fora. A questão central para empresas do setor é que a exigência implica em custos. A despeito da pressão das empresas de telefonia que atuam no Brasil, a presidente quer que seja mantido o texto original sobre a neutralidade da rede. Essa regra une as emissoras de TV, as redes sociais, os internautas e empresas como o Google e o Facebook. O governo pediu urgência e se o marco civil não for votado em 90 dias, a pauta do Congresso ficará trancada para outros projetos.

“Você acha que eu tenho preguiça. Uma lei de 25 artigos é enxutinha. Já Ii projetos com mais de 100. Quero ler tudo”
Presidente Dilma
Sobre o ministro José Eduardo Cardozo (Justiça) ter se proposto a fazer um resumo do texto da lei do marco civil da internet

O núcleo duro
A Rede, partido de Marina Silva, pode chegar a uma bancada de dez deputados. Hoje, são cinco os que já se comprometeram: Walter Feidman (SP), Domingos Dutra (MA), Alfredo Sirkis (RJ), Reguffe (DF) e Ricardo Trípoli (SP).

A alternativa
O governador Renato Casagrande (ES) optou por apoiar Eduardo Campos (PSB) ao Planalto. Por isso, o PMDB busca apoio para criar um palanque para a presidente Dilma. A chapa em formação teria o senador Ricardo Ferraço, candidato ao governo, e o ex-governador Paulo Hartung (na foto), ao Senado. O PT indicaria o candidato a vice.

O senso do ridículo
A ação (ACO)158, de alienação de bens e imóveis em São Paulo, está à espera de julgamento no STF desde 1969. A ação (AR) 1056, de demarcação de fazenda em Goiás, está no STF desde 1978. São muitas as ações em situação semelhante.

Porta aberta?
O principal líder do Solidariedade, o deputado Paulo Pereira da Silva (SP), almoçou ontem com o vice Michel Temer. Paulinho previu que seu novo partido pode chegar a uma bancada de 30 deputados. Ele afirmou que é sua intenção manter o diálogo com os partidos do governo. E mandou um recado: o embate com o governo Duma não é político, mas de natureza sindical.

Bicudos
O senador tucano Mário Couto (PA) e o líder do PSDB, Aloysio Nunes Ferreira (SP), bateram boca ontem. Couto assumiu o compromisso de votar a MP 615, mas Aloysio discordou. Ambos se acusaram de tentar “desmoralizar “ o outro.

A condição
O PSB namora com a candidatura do presidente da Embratur, Flávio Dino (PCdoB), ao governo do Maranhão. Mas o primeiro secretário do partido, Carlos Siqueira, garante: “O PSB pode apoiar Dino se ele apoiar Eduardo Campos ao Planalto’

NA OPOSIÇÃO. O Sindicatos dos Petroleiros do Rio quer aprovar projeto de decreto legislativo que suspende o leilão do campo de petróleo de Libra.

Com Simone Iglesias, sucursais e correspondentes

Fonte: O Globo

Brasília-DF - Luiz Carlos Azedo

Baila comigo
A presidente Dilma Rousseff confirmou ontem que irá aos Estados Unidos para abrir a Assembleia Geral das Nações Unidas, no próximo dia 23. Em evento no Estaleiro de Inhaúma, no Rio de Janeiro, ela não confirmou, porém, a visita de Estado à Casa Branca, a convite do presidente Barack Obama, que subiu no telhado por causa das denúncias de espionagem da Agência Nacional de Segurança (NSA, em inglês), que teria monitorado conversas da própria Dilma e atividades da Petrobras.
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Hoje, o novo ministro das Relações Exteriores, Luiz Alberto Figueiredo Machado, deve se encontrar com a conselheira de Segurança Nacional dos Estados Unidos, Susan Rice, com o propósito de obter explicações formais sobre as atividades da NSA. O convite feito a Dilma é considerado uma honraria na diplomacia mundial, principalmente em se tratando de uma potência emergente, que mantém posições diplomáticas muitas vezes em desacordo com os EUA.
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Caso se confirme, Dilma Rousseff fará a primeira visita de Estado de um presidente brasileiro aos Estados Unidos em quase duas décadas. A viagem está prevista para outubro, mas depende de uma solução para o impasse . O cerimonial da visita é puro glamour. O ponto alto é um baile na Casa Branca, no qual o presidente Barack Obama convidaria Dilma Rousseff para dançar. Essa é a foto que Dilma não quer tirar enquanto não passar a limpo o que houve.

Desembarque
O deputado José Antonio Reguffe (PDT-DF), em discurso ontem na Câmara, voltou a defender que o PDT devolva os cargos que ocupa no governo Dilma. Disse que política deve ser uma questão de ideias e de convicções, não de negócios e loteamento de cargos. Reguffe parabenizou a Polícia Federal pela operação no Ministério do Trabalho e pelo fato de ter agido como órgão de Estado e não de governo.

Marinou
A propósito do PDT, o deputado Miro Teixeira (RJ) está com um pé na Rede Sustentabilidade, da ex-senadora Marina Silva.

Passagens
Dilma Rousseff sancionará o projeto do deputado Mendonça Filho (DEM-PE) que isenta o transporte público de PIS e Confins. Motivo: quer mostrar que o governo não discrimina a oposição e que está em sintonia com as ruas. O governo calcula que, em algumas cidades, a redução das tarifas possa chegar a 15%

Contrabandos// O presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves, e os líderes de bancada fecharam um acordo para acabar com os penduricalhos nas medidas provisórias. As novas regras valerão a partir da que instituiu o Programa Mais Médicos. As MPs só poderão tratar do assunto principal, e não mais de temas acessórios.

Diplomacia
A delegação de oito parlamentares brasileiros que está em Washington foi muito paparicada pelos diplomatas da Secretaria de Estado dos Estados Unidos, que equivale ao nosso Itamaraty. Na comitiva, os senadores Ana Amélia (PP-RS) e Vital do Rêgo (PMDB-PB), e os deputados Júlio Delgado (PSB-MG), Hugo Napoleão (PSD-PI), Eduardo Azeredo (PSDB-MG), Mendes Thame (PSDB-SP), Cândido Vaccarezza (PT-SP) e Duarte Nogueira (PSDB-SP). Muita preocupação dos EUA com o pré-sal, a China e seus negócios com o Brasil. Sobre espionagem, nada a declarar.

Cassação
O Senado aprovou ontem o projeto de emenda à Constituição que determina a perda imediata dos mandatos de parlamentares condenados, em sentença definitiva, por improbidade administrativa ou crime contra a administração pública. A PEC nº18 é de autoria do senador Jarbas Vasconcelos (foto), do PMDB-PE. A aprovação foi uma resposta à decisão da Câmara de manter no cargo o deputado Natan Donadon (sem partido-RO), preso há mais de dois meses na Papuda.

Sem sufoco
Em clima de “o pior já passou”, a presidente Dilma Rousseff anunciou ontem investimentos de R$ 2,6 bilhões em obras de mobilidade urbana no Rio de Janeiro, ao lado do governador Sérgio Cabral, do PMDB, e do vice, Luiz Fernando Pezão (PMDB), seu candidato a governador. Dilma ressaltou a “parceria estratégica” com os dois.

Futebol/ A Câmara dos Deputados realizará audiência pública para ouvir o ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) Ricardo Teixeira e a atual diretoria da entidade sobre as denúncias de um suposto esquema de desvio de recursos e de lavagem de dinheiro a partir de receitas oriundas de jogos e patrocínios da Seleção Brasileira. O requerimento é do deputado Arnaldo Jordy (PPS-PA).

Bimbinha/ O polêmico vídeo Oh, Meu Deus caiu em desgraça na bancada da mulher, composta por 46 parlamentares. As deputadas Elcione Barbalho (PMDB-PA) e Jô Moraes (PCdoB-MG) querem uma moção de repúdio à obra, na qual a atriz Clarice Falcão vai ao ginecologista e é descoberta com uma imagem de Jesus Cristo na vagina.

Fonte: Correio Braziliense

Painel - Vera Magalhães

Campos abre o jogo
Numa conversa que se estendeu até as 3h de terça-feira, Eduardo Campos (PSB) disse ao governador Cid Gomes (PSB-CE) que, se a eleição fosse hoje, seria candidato a presidente. "Hoje eu sou. Para ganhar, para perder. Para fazer 1% ou 30%." Ressaltando que a decisão só será tomada em 2014, o governador de Pernambuco afirmou ainda que a presidente Dilma Rousseff tem 40% dos votos no país. E emendou: há 60% do eleitorado "à disposição de outros candidatos".

Dois altares A conversa com Cid, a mais clara até agora sobre a eventual candidatura de Campos, ocorreu diante de Fernando Bezerra, ministro de Dilma.

NSA 1 A sinalização coincidiu com o aumento da pressão de aliados para que a presidente demita os nomeados pelo PSB, o que levou eduardistas a concluir que o teor da reunião chegou a Brasília.

NSA 2 Do líder do PSB na Câmara, Beto Albuquerque (RS), sobre o fogo amigo: "Dilma não precisa recorrer ao Obama nem mandar recado para falar conosco. Temos e-mail, telefone e endereço''.

Resta um Lula se reuniu ontem com o presidente nacional do PT, Rui Falcão, para discutir os cenários para 2014. O ex-presidente é o único que ainda contém a falta de paciência da cúpula petista com o aliado insurgente.

Liberou A Procuradoria-Geral Eleitoral recomendou na semana passada a rejeição de representação do PPS contra Dilma por seu pronunciamento de TV no Dia do Trabalho. Segundo o órgão, não houve viés eleitoral na fala.

Revalida A direção da Rede vai pedir ao TSE a validação de 73 mil assinaturas de apoio ao partido que foram anuladas por cartórios eleitorais sem justificativa.

Na pinta Se a proposta vingar, esse lote pode se somar a 420 mil nomes que a legenda de Marina Silva espera garantir até o fim desta semana, atingindo, por pouco, os 492 mil apoios necessários.

Currículo Sérgio Cabral voltou a dizer a Dilma ontem que deve renunciar em janeiro. Segundo auxiliares presidenciais, o gesto foi entendido como sinal de que o governador quer ser ministro.

Quarteto Marco Aurélio Mello sinaliza que votará com Joaquim Barbosa, contra a admissibilidade de embargos infringentes no mensalão, assim como Luiz Fux e, provavelmente, Gilmar Mendes.

Vai que é tua "Cármen Lúcia e Celso de Mello são incógnitas. Pode chegar a Celso empatado, e aí ele seria o grande perito. Interessante, o decano", diz Marco Aurélio.

Sem fim Caso o STF acolha os embargos, nova polêmica começará: os 13 condenados que não têm direito ao recurso devem cumprir suas penas já? Ministros pró-Barbosa acham que sim. Advogados dizem que o "natural" seria esperar o fim do caso.

#puxado Barbosa e Fux, os dois que votaram contra os recursos até agora, passaram a sessão trocando mensagens pelo sistema de intranet nos laptops do plenário.

Petit... No intervalo da sessão de ontem, Ricardo Lewandowski conversou no plenário com advogados como Leonardo Isaac e Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay. O ministro ouviu elogios de Isaac, defensor de Simone Vasconcelos, a quem condenou.

... comité O revisor do mensalão disse aos criminalistas que será bom para o tribunal se os infringentes forem aceitos, para "oxigenar" a corte. Um dos defensores disse que os recursos serão importantes para acabar com o "frenesi acusatório".

TIROTEIO

"Esse processo demonstra que Dilma é uma faxineira de fachada. Todos aqueles que foram demitidos por corrupção voltaram."
DO PRESIDENTE DO PPS, ROBERTO FREIRE, sobre as suspeitas de desvio de recursos públicos no Ministério do Trabalho, comandado pelo PDT.
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CONTRAPONTO

Canteiro adversário

Em reunião com sindicalistas na terça-feira, o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), demonstrou curiosidade sobre a atuação política do presidente do Sindicato de Trabalhadores da Construção Civil, Antônio Ramalho, que é deputado estadual pelo PSDB.
Ramalho contou que trabalhou em mais de 600 obras, formou grupos de trabalhadores e resolveu se filiar ao PSDB, que tem presença discreta no movimento sindical.
Haddad se virou para um auxiliar e perguntou:
--Como é que o PT pode perder um quadro desses? -- disse o prefeito, provocando gargalhadas.

Com Andréia Sadi e Bruno Boghossian

Fonte: Folha de S. Paulo

Política - Cláudio Humberto

Pedidos para deixar o STF
A expressão "está tudo dominado" tem sido muito utilizada por amigos e interlocutores do presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Joaquim Barbosa, para recomendar, inclusive em mensagens para seu celular, que abandone a Corte em protesto contra os rumos do julgamento do mensalão, com tendência para rever sentenças e livrar da cadeia 11 réus na ação, entre os quais o ex-ministro José Dirceu. Condenado por "chefiar a quadrilha do mensalão", José Dirceu pode se livrar da pena por formação de quadrilha, e escapar do regime fechado. Observadores experientes do comportamento dos ministros do STF acham que o mais provável é que o placar pró-mensaleiros será 6x5. Amigos querem que Joaquim faça mais do que Adauto Lúcio Cardoso em 1971, e explique, em rede de TV, por que não ficaria no STF. Após ver julgada constitucional a lei de censura do ditador Médici, Adauto Lúcio Cardoso despiu-se da capa de ministro e saiu do STF.

O custo-benefício foi ruim
Alvo da espionagem americana, a presidente Dilma Rousseff (PT) confidenciou a ministros detalhes da "desaforada" conversa que teve com o presidente Barack Obama em São Petersburgo, na Rússia. No encontro reservado, Obama reconheceu a bisbilhotice contra brasileiros e que a prática é (e sempre foi) "comum" entre países. Mas admitiu: "O custo-benefício para nós foi péssimo, dada proporção que tomou".

Cara-de-pau
A presidente Dilma, que esperava ouvir um pedido de desculpas de Obama, contou a ministros que ficou embasbacada com a "cara-de-pau" do americano.

Pergunta secreta
Quando será criada a NSN, Agência Não Sei de Nada, para combater a espionagem americana da NSA?

Bateu, levou
Do presidente do PMDB-PR, Orlando Pessuti, sobre Roberto Requião: "Tirou minha candidatura. Quem com ferro fere, com ferro será ferido".

Lobby
Advogados que militam em tribunais superiores afirmam que o ex-presidente Lula "operou" fortemente no STF, junto a ministros nomeados por ele e pela presidente Dilma, pela admissão dos embargos infringentes, para rever o caso.

Fazenda
Na defesa de seu voto a favor dos embargos infringentes que permitem novo julgamento dos mensaleiros, o ministro Teori Zavascki falou até em "quadrúpedes". Ele não se referia ao respeitável público.

Ferraço 2014
Em reunião na terça, o vice Michel Temer e os presidentes da Câmara, Henrique Alves, e do Senado, Renan Calheiros, além de Valdir Raupp (PMDB) acertaram de lançar Ricardo Ferraço ao governo capixaba e Paulo Hartung ao Senado, em 2014. Ao PT sobraria a vaga de vice.

Admiração
A ministra Laurita Vaz, do TSE, não agrada muito a um grupo do Rede, partido em formação de Marina Silva, mas há quem a admire, como o deputado Walter Feldman (SP), que elogia seu equilíbrio e sua firmeza na condução do caso. Feldman é o provável futuro presidente do Rede.

Frase
"Uma revisão criminal simulada"
Ministro Luiz Fux (STF), definindo a admissão de embargos infringentes

Lição de casa
Na mira da extradição por fraudar € 80 milhões de investidores, o advogado irlandês Michael Lynn criou com brasileiros uma tal de Quantum Assessoria, perto do Recife, para investir no complexo do Porto de Suape.

Experiência
Em evento patrocinado pelo Instituto Lula, o ex-presidente questionou a falta de "decisão judicial" para Barack Obama espionar Dilma. O ex-caseiro Francenildo, da conta invadida na Caixa, sabe como funciona.

Fonte: Jornal do Commercio (PE)

Um réquiem para a 'Pax Americana' - Demétrio Magnoll

"Minha credibilidade não está em jogo. É a credibilidade da comunidade internacional que está em jogo." O argumento de Barack Obama cumpre uma função tática de persuasão dos relutantes aliados europeus, mas veicula a falsa noção de que os interesses dos EUA podem ser separados dos interesses da "comunidade internacional". Na tentativa de convencer os congressistas a autorizarem a ação militar, o secretário de Estado John Kerry alertou para o perigo de um "isolacionismo de poltrona", tocando o nervo sensível da crise que está em curso. A "linha vermelha" mais relevante não está na Síria: ela atravessa a sociedade americana.

"Qual mensagem enviaremos se um ditador puder, à vista de todos, matar centenas de crianças com gases sem pagar nenhum preço?", indagou Obama. Um artigo de Charles Blow no New York Times oferecia uma resposta, articulada na forma de outras perguntas: "Algo deve ser feito. Mas devemos ser sempre nós a fazê-lo? Será que proteger os interesses americanos significa reprimir os horrores do mundo? Será a liderança moral dos EUA esculpida pela lâmina de sua espada?". As notas melódicas do "isolacionismo de poltrona" estão todas aí - e refletem um estado de espírito que perpassa tanto a opinião pública dos EUA como sua elite política.

"A guerra deve ocorrer apenas quando os EUA são atacados ou ameaçados, ou quando os interesses americanos são atacados ou ameaçados", disse o senador republicano Rand Paul, um expoente do Tea Party. "Não somos o policial do mundo, nem o juiz e o júri", proclamou Alan Grayson, deputado democrata da ala progressista. No pátio do isolacionismo reúnem-se alegremente a direita e a esquerda. A linguagem isolacionista forma uma tradição, pontuada por um sintomático cortejo de senhas. Em 1940 os dirigentes sindicais antiguerra crismavam os britânicos como "plutocratas" e "imperialistas", acusando-os de arrastarem os EUA para um segundo banho de sangue, enquanto o aviador Charles Lindbergh preferia culpar os judeus pelas inclinações intervencionistas do governo de Franklin Roosevelt.

A História americana pode ser narrada como uma alternância entre ciclos intemacionalistas, inspirados pela doutrina idealista da "reforma do mundo", e ciclos isolacionistas, nutridos por uma obsessão de segurança no envelope das fronteiras da Ilha-Continente. Pearl Harbor, no 7 de dezembro de 1941, assinalou o encerramento do ciclo isolacionista do entre-guerras. O ataque químico contra civis perpetrado pelo regime de Bashar Ássad, um ato abominável, mas comparativamente secundário, tomou-se um momento definidor para a política externa americana e, talvez, um evento decisivo na reversão do longo ciclo intemacionalista. Num país cansado de guerra e traumatizado por um colapso financeiro, Obama foi eleito duas vezes sob o compromisso de direcionar os recursos nacionais para a reconstrução econômica. O dragão adormecido do isolacionismo acorda precisamente nesse cenário. "Muitos pensam que algo deve ser feito", disse o presidente sobre a Síria, "mas ninguém quer fazê-lo". Os americanos tampouco querem - mas isso tem consequências.

Obama não ofereceu um cardápio isolacionista no lugar do desastroso cruzadismo dos neo-conservadores de George W. Bush. Ele sugeriu uma delicada mescla do realismo geopolítico dos tempos de Henry Kissinger com o liberalismo intemacionalista clintoniano, embrulhando-a na linguagem do multilateralismo. Sua meta é reorientar o poder dos EUA para a Ásia, produzindo uma "virada estratégica" de múltiplas dimensões. A erupção da crise síria representa, aos olhos de Obama, uma distração impertinente. Quando, um ano atrás, o presidente pronunciou as 20 palavras que continham a expressão "linha vermelha", ele não buscava um pretexto para o envolvimento na Síria, mas um ponto de fuga digno. Hoje aquela declaração se converteu numa encruzilhada desafiadora.

"Tem importância não fazer nada", disse Kerry, um tanto sombrio diante de sondagens que indicam a oposição de três quintos dos americanos a uma ação militar. Contudo, depois do inesperado veto do Parlamento britânico a uma resposta armada, Obama recuou um largo passo e decidiu solicitar autorização do Congresso, propondo um bombardeio "muito limitado". Sob a tempestade isolacionista, Kerry tentou seduzir os congressistas caracterizando a planejada operação como "inacreditavelmente diminuta" - uma sentença "inacreditavelmente contraproducente", nas palavras do senador John McCain. Os adjetivos selecionados remetem à estranha ideia de uso simbólico do poder militar, escancarando o dilema de um policial do mundo que não consegue esconder seu desejo de passar o domingo em casa.

Na terça à noite, a desolação estampada na face, Obama citou Roosevelt, o antecessor que enfrentou o isolacionismo, para falar dos "ideais e princípios que valorizamos", enquanto circundava uma derrota anunciada no Congresso apontando a improvável hipótese de saída diplomática engendrada pelos russos. A passagem foi precedida por uma indagação, que permaneceu reverberando no ar: "Em que tipo de mundo viveremos se os EUA veem um ditador violar descaradamente o direito internacional com gás venenoso e preferem virar o rosto para outro lado?".

A ordem internacional existente, com suas instituições de segurança coletiva, seus regimes de controle de armas de destruição em massa e seus instrumentos de dissuasão de genocídios, massacres e crimes de guerra, está consagrada nas Nações Unidas e numa coleção de tratados diplomáticos. Mas esse edifício político e jurídico se assenta sobre o chão da História - isto é, no intemacionalismo americano do pós-guerra. Um recuo dos EUA para a casamata do isolacionismo transformaria as instituições internacionais em caixas vazias e os tratados solenes, em palavras inúteis rabiscadas sobre o papel. No fim, é isso que está em jogo na Síria.

*Sociólogo e doutor em Geografia Humana pela USP

Fonte: O Estado de S. Paulo

Enfim, Santiago!!! - Graziela Melo

A travessia da Cordilheira foi uma festa. A brancura da neve e a liberdade eram um espetáculo novo para nós turistas compulsórios. Jamais em minha vida havia visto um pé de maçã ou pêra e há muito não me dava ao luxo de conversar tão espontaneamente com as pessoas, como sempre gostei. Deslumbravam-me os claros daquela montanha tão branca. Os “claros” de que falo eram recantos, espécies de oásis com casinhas de madeira próprias para o frio, animais ao lado presos em cercado, uma ou duas árvores. Passamos o Aconcágua. Aquele mesmo das aulas de geografia, quase chegando no céu. Pequenos lagos se formavam com as águas da neve derretida pelos fracos raios do sol do outono, onde os espaços da montanha permitiam. Eram como espelhos azuis na minha fantasia cor-de-rosa.

Descemos em Los Andes, primeira cidade do Chile para quem escolhe o caminho da cordilheira e pegamos um ônibus para Santiago. Uma hora e meia de percurso, mais ou menos, feito à noite. E era noite avançada quando descemos na velha estação daquela cidade que tanto amaria depois. As ruas estavam desertas e cheias de espaços sombrios, mas eu já não sentia medo.

Silvio Rodriguez, o talentoso compositor cubano, atingiu em cheio o coração de todos nós os ex-exilados da grande e generosa pátria de Salvador Allende, com a letra de sua canção composta após o Golpe Militar:

“Yo pisaré las calles nuevamente
De lo que fue Santiago ensangrentada
Y en una hermosa plaza liberada
Me detendré a llorar por los ausentes” (...)

Uma mulher morena de estatura média, cujo nome não consigo lembrar, membro do Comitê Central do Partido Comunista Chileno, foi a pessoa que, a pedido de Armênio Guedes, marido de Zuleika Alambert, conseguiu um médico (Dr. Pozo) e um hospital para meu filho que necessitava dramaticamente de ajuda naqueles primeiros dias de nosso exílio. O hospital era o Calvo Makeña, onde trabalhava o médico no setor de oncologia.

Meu filho chegara a Santiago no meio de uma crise que se iniciara na Argentina. Internado, apesar do tratamento, piorava a cada dia. Certa ocasião o médico nos avisou que necessitava sangue com urgência. Orientada por chilenos amigos, pus anuncio na rádio Corporación que é muito popular. “NIÑO BRASILEÑO, INTERNADO EM EL HOSPITAL CALVO MACKEÑA, NECESSITA SANGRE ETC ETC...” Muitos brasileiros e chilenos atenderam ao apelo. Segundo as enfermeiras do setor, fez-se uma fila à porta do hospital para doar sangue para “el niño brasileño”.

Outras medidas foram tomadas como a importação de medicamentos pela Lan Chile através da Secretaria de Relações Internacionais do Partido Comunista Chileno. Tudo inútil. Meu filho faleceu na madrugada de 23 de junho de l972, um mês e meio depois de chegarmos ao Chile, no momento exato em que a colônia brasileira em Santiago celebrava a festa junina. Muitos saíram direto da festa para o velório. Pela manhã já havia tanta gente que não se podia mais entrar na capela mortuária. Longe de nosso país e de nossos familiares o carinho daquelas pessoas que quiseram estar conosco naquele momento, fez com que nos mantivéssemos de pé, inteiros, apesar do sofrimento inevitável. Lá estava a figura de Ulrik Hoffman que foi quem deu a cobertura financeira para o funeral. 

Um piauiense, que, abraçado a sua mulher, uma nissei paulista, chorava muito no instante em que o corpo de meu filho baixava à sepultura, é nosso amigo até hoje. É o professor da UFRRJ, Raimundo Santos e sua mulher Akiko Santos.

Deixamos o Cemitério General de Santiago caminhando lentamente sobre as últimas folhinhas que o outono derrubara das árvores. Era o primeiro dia do frio inverno chileno.

In Graziela Melo “Crônicas, contos e poemas, p.57. Abaré Editorial & Fundação Astrojido Pereira, 2008.

O que pensa a mídia - editoriais de alguns dos principais jornais

http://www2.pps.org.br/2005/index.asp?opcao=editoriais

Choro das 3 - Carinhoso (Pixinguinha/João Barros)

O poeta e a lua – Vinicius de Moraes

Em meio a um cristal de ecos
O poeta vai pela rua
Seus olhos verdes de éter
Abrem cavernas na lua.
A lua volta de flanco
Eriçada de luxúria
O poeta, aloucado e branco
Palpa as nádegas da lua.
Entre as esferas nitentes
Tremeluzem pêlos fulvos
O poeta, de olhar dormente
Entreabre o pente da lua.
Em frouxos de luz e água
Palpita a ferida crua
O poeta todo se lava
De palidez e doçura.
Ardente e desesperada
A lua vira em decúbito
A vinda lenta do espasmo
Aguça as pontas da lua.
O poeta afaga-lhe os braços
E o ventre que se menstrua
A lua se curva em arco
Num delírio de volúpia.
O gozo aumenta de súbito
Em frêmitos que perduram
A lua vira o outro quarto
E fica de frente, nua.
O orgasmo desce do espaço
Desfeito em estrelas e nuvens
Nos ventos do mar perspassa
Um salso cheiro de lua
E a lua, no êxtase, cresce
Se dilata e alteia e estua
O poeta se deixa em prece
Ante a beleza da lua.
Depois a lua adormece
E míngua e se apazigua...
O poeta desaparece
Envolto em cantos e plumas
Enquanto a noite enlouquece
No seu claustro de ciúmes.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

OPINIÃO DO DIA – Chile, 40 anos do golpe: - Salvador Allende: último discurso

"Seguramente, esta será a última oportunidade em que poderei dirigir-me a vocês. A Força Aérea bombardeou as antenas da Rádio Magallanes. Minhas palavras não têm amargura, mas decepção. Que sejam elas um castigo moral para quem traiu seu juramento: soldados do Chile, comandantes-em-chefe titulares, o almirante Merino, que se autodesignou comandante da Armada, e o senhor Mendoza, general rastejante que ainda ontem manifestara sua fidelidade e lealdade ao Governo, e que também se autodenominou diretor geral dos carabineros.

Diante destes fatos só me cabe dizer aos trabalhadores: Não vou renunciar! Colocado numa encruzilhada histórica, pagarei com minha vida a lealdade ao povo. E lhes digo que tenho a certeza de que a semente que entregamos à consciência digna de milhares e milhares de chilenos, não poderá ser ceifada definitivamente. [Eles] têm a força, poderão nos avassalar, mas não se detém os processos sociais nem com o crime nem com a força. A história é nossa e a fazem os povos.

Trabalhadores de minha Pátria: quero agradecer-lhes a lealdade que sempre tiveram, a confiança que depositaram em um homem que foi apenas intérprete de grandes anseios de justiça, que empenhou sua palavra em que respeitaria a Constituição e a lei, e assim o fez.

Neste momento definitivo, o último em que eu poderei dirigir-me a vocês, quero que aproveitem a lição: o capital estrangeiro, o imperialismo, unidos à reação criaram o clima para que as Forças Armadas rompessem sua tradição, que lhes ensinara o general Schneider e reafirmara o comandante Araya, vítimas do mesmo setor social que hoje estará esperando com as mãos livres, reconquistar o poder para seguir defendendo seus lucros e seus privilégios.

Dirijo-me a vocês, sobretudo à mulher simples de nossa terra, à camponesa que nos acreditou, à mãe que soube de nossa preocupação com as crianças. Dirijo-me aos profissionais da Pátria, aos profissionais patriotas que continuaram trabalhando contra a sedição auspiciada pelas associações profissionais, associações classistas que também defenderam os lucros de uma sociedade capitalista. Dirijo-me à juventude, àqueles que cantaram e deram sua alegria e seu espírito de luta.

Dirijo-me ao homem do Chile, ao operário, ao camponês, ao intelectual, àqueles que serão perseguidos, porque em nosso país o fascismo está há tempos presente; nos atentados terroristas, explodindo as pontes, cortando as vias férreas, destruindo os oleodutos e os gasodutos, frente ao silêncio daqueles que tinham a obrigação de agir. Estavam comprometidos. A historia os julgará.

Seguramente a Rádio Magallanes será calada e o metal tranqüilo de minha voz não chegará mais a vocês. Não importa. Vocês continuarão a ouvi-la. Sempre estarei junto a vocês. Pelo menos minha lembrança será a de um homem digno que foi leal à Pátria. O povo deve defender-se, mas não se sacrificar. O povo não deve se deixar arrasar nem tranqüilizar, mas tampouco pode humilhar-se.

Trabalhadores de minha Pátria, tenho fé no Chile e seu destino. Superarão outros homens este momento cinzento e amargo em que a traição pretende impor-se. Saibam que, antes do que se pensa, de novo se abrirão as grandes alamedas por onde passará o homem livre, para construir uma sociedade melhor.

Viva o Chile! Viva o povo! Viva os trabalhadores! Estas são minhas últimas palavras e tenho a certeza de que meu sacrifício não será em vão. Tenho a certeza de que, pelo menos, será uma lição moral que castigará a perfídia, a covardia e a traição."

Salvador Allende, ex-presidente do Chile. O último discurso no dia do golpe de Estado (11/9/1973) que implantou a sanguinária ditadura militar comandada pelo general Pinochet.

STF se divide sobre novo julgamento no mensalão

O STF retoma hoje o julgamento do mensalão discutindo a existência dos embargos infringentes, recurso que garantiria a 11 dos 25 condenados chance extra de redução das penas ou reversão das punições. Até hoje, a Corte nunca julgou embargo do gênero em ações penais. O debate pode se estender para amanhã. Parte dos ministros afirma que, como não está previsto na legislação desde 1990, esse tipo de recurso em corte superior tem de ser recusado. Ontem, o ex-ministro José Dirceu culpou a “mágoa” e a “inveja” da elite por sua iminente prisão.

STF fica dividido sobre possibilidade de novo julgamento para condenados

Felipe Recondo e Mariângela Galucci

BRASÍLIA - O Supremo Tribunal Federal retoma hoje a análise do mensalão discutindo a existência dos chamados embargos infringentes, recurso que garantiria a dos 25 condenados no caso uma chance extra de reduzir penas ou mesmo reverter punições. Até hoje, a Corte nunca julgou um embargo do gênero em ações penais, O tema divide o plenário do tribunal e, em. razão da polêmica, o debate pode se estender para amanhã.

De um lado, parte dos ministros afirma que, como não estão mais previstos na legislação de 1990, os embargos infringentes em ações penais nas cortes superiores têm de ser recusados. Os que são favoráveis à aplicação do recurso lembram, porém, que ele está previsto no regimento interno do Supremo.

Há possibilidade de se recorrer a embargos infringentes quando ao menos quatro dos ministros do STF votam pela absolvição do réu.Um novo julgamento é feito. Caso o tribunal rejeite os pedidos pelo novo julgamento, os ministros passam, a discutir quando os réus começarão a cumprir as suas penas. Em outras ações penais julgadas pelo STF, incluindo a do deputado Natan Donadon (sem partido-RO) o tribunal só determinou a prisão depois de julgados os segundos recursos declaratórios- que podem questionar a própria decisão tomada no julgamento dos embargos anteriores. Se a maioria dos ministros admitir os recursos, o mensalão adentrará 2014.

Os advogados terão novo prazo para entrar com o recurso, o tribunal sorteará um ministro para relatar o caso e novas sessões serão consumidas para julgar os crimes em questão.

O tribunal terá de decidir hoje e amanhã se a lei 8,038 extinguiu os embargos infringentes, que ainda estão previstos no regimento interno do Supremo. A lei, que entrou em vigor em 1990, estabeleceu "normas procedimentais para os processos"" no STF. E o texto não previu a possibilidade de embargos infringentes. No entanto, argumentam advogados e parte dos ; ministros, a lei não revogou o regimento interno, que também tem força legal Além disso, o texto da lei estabeleceu que, nas ações penais, o tribunal deveria julgá-las "na forma determinada pelo regimento interno". Essa referência expressa, conforme advogados de defesa, mostra que a lei não extinguiu o que é" previsto no regimento interno do Supremo.

Argumentam ainda que, se lei anulou o que previsto no regimento, nem mesmo os embargos de declaração julgados até a semana passada seriam admitidos. À lei de 1990 não previu o recurso, maso tribunal continua julgando os embargos tendo como base o regimento interno. Depois de duas ações penais julgadas em 2010 e 2011, o teum permanece indefinido. Nos primeiro dos casos, cinco ministros condenaram o então deputado José Gerardo à pena de 2 anos e 2 meses de reclusão, Dois outros ministros aplicavam penas inferiores, o que gerava a prescri-çãodo crime, e outros três ministros votaram pela absolvição. Portanto, mesmo que o tribunal já tivesse decidido que eram admissíveis os embargos infringem tes, eles não poderiam ser aceitos no caso específico, pois o regimento exige pelo menos quatro votos pela absolvição.

Na outra ação, quando o tribunal condenou o deputado Asdrúbal Bentes, somente o ministro Marco Aurélio Mello votou por sua absolvição .Assim, mesmo pelo regimento interno do STF, o deputado não teria direito a novo julgamento, Mesmo assim, Bentes entrou com seus embargos infringentes.

Senso de ridículo - Ontem, o ministro Gilmar Mendes, que já afirmou ser contrário aos embargos infringentes, disse que admitir novo julgamento teria como consequência o adiamento da solução para o caso, "Eu sempre digo o seguinte: a gente tem que rezar para não perder o senso de Justiça. Mas se Deus não nos ajuda, pelo menos que rezemos para que não percamos o senso do ridículo", disse.

Na semana passada, o presidente do tribunal, Joaquim Barbosa, julgou não existirem os recursos e afirmou que admiti-los seria "eternizar" o processo. E argumentou que seria ilógico levar o mesmo tribunal a julgar :duas vezes o mesmo caso.

"A reapreciação de fatos e provas pelo mesmo órgão julgador é de toda indevida. A Constituição e as leis não veem privilégios adicionais. Esta Corte já se debruçou cinco meses em 2012 e agora no segundo semestre de 2013 já ultrapassamos um mês de deliberação. Admitir embargos infringentes no caso seria uma forma de eternizar o feito", disse o presidente do STF.

O julgamento do mensalão começou em agosto do ano passado. Concluiu que um grupo comandado pelo ex-ministro José Dirceu desviou dinheiro público para comprar apoio de deputados ao governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva entre os anos de 2003 e 2005.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Mensalão - o julgamento: Discussão sobre novos recursos divide STF

Ministros retomam hoje análise de pedidos que podem levar a novo julgamento para 12 dos 25 condenados do caso

Presidente do tribunal teme prolongamento do processo, mas outros ministros querem dar segunda chance a réus

Severino Motta

BRASÍLIA - Com a expectativa de uma decisão apertada, os ministros do Supremo Tribunal Federal retomarão hoje a análise dos recursos do mensalão e devem decidir se 12 dos 25 condenados terão direito a um segundo julgamento.

Com a conclusão do julgamento dos primeiros recursos na semana passada, quando foram mantidas as penas dos principais réus, o STF avalia agora a viabilidade de um tipo de recurso conhecido como embargo infringente.

Se o STF aceitar analisar esse recurso, réus que obtiveram quatro votos por sua absolvição em algum crime poderão pedir novo julgamento. Mas os ministros estão divididos em relação à viabilidade desses embargos.

Embora sejam previstos pelo regimento interno do STF, a lei 8.038 de 1990, que regulou o andamento dos processos no Supremo e no STJ (Superior Tribunal de Justiça), não faz menção a eles.

O presidente da corte, Joaquim Barbosa, votou contra os infringentes dizendo que a lei de 1990, na prática, revogou este tipo de recurso. Para Barbosa, aceitá-lo significaria prolongar ainda mais o processo, que consome o tempo dos ministros desde o julgamento do ano passado.

Ministros contrários aos recursos disseram à Folha que aceitá-los seria abrir uma brecha que permitiria aos réus rediscutir não apenas suas condenações, mas as penas fixadas para seus crimes e até mesmo eventuais decisões contrárias aos seus recursos.

Ontem, o ministro Gilmar Mendes chegou a dizer que aprovar os infringentes não só eternizaria os processos, mas mostraria que a corte perdeu o "senso do ridículo".

Na sua avaliação, o prolongamento do processo criaria o risco de prescrição dos crimes pelos quais os réus foram condenados, o que poderia deixá-los livres de punição.

"Isso leva exatamente à duração indefinida de processos com todas as consequências", disse Gilmar. "Começa a ter discussão sobre prescrição, não faz sentido."

Ministros que defendem a viabilidade do recurso dizem que a Constituição de 1988 deu ao regimento do STF força de lei, por isso, os infringentes estariam assegurados.

Além disso, argumentam que, se a intenção da lei de 1990 tivesse sido revogar os infringentes, isso deveria ter sido dito especificamente na legislação, o que não ocorreu.

O plenário do STF aceitou analisar embargos infringentes em outros processos no passado, mas nunca numa ação iniciada no próprio Supremo, como é o caso do mensalão. Mesmo assim, alguns dos atuais ministros já se manifestaram antes a favor da aceitação desses recursos em outros processos, como pedidos de habeas corpus.

Com a corte dividida, a expectativa é que a votação sobre a viabilidade dos recursos seja concluída num placar de seis a cinco ou de sete a quatro.

Folha de S. Paulo

Na véspera do julgamento, Dirceu desafia Supremo

Um dia antes da sessão em que o Supremo Tribunal Federal pode concluir o julgamento do mensalão, que começou há mais de um ano, o ex-ministro José Dirceu, condenado a dez anos e dez meses de prisão, desafiou o tribunal ao afirmar que a decisão dos ministros não será "o último capítulo” do caso e que vai recorrer a cortes internacionais para tentar anular a sentença. "Evidentemente que cometi muitos erros e sou responsável por muitos desses erros, mas não os de que me acusam”, alegou

Dirceu: decisão do Supremo não será ‘o último capítulo’

Na véspera de sessãô que pode concluir julgamento, petista desafia STF e ameaça ir a cortes internacionais

Tatiana Farah

SÃo PAULO- Um dia antes da sessão em que o Supremo Tribunal Federal (STF) pode finalizar o julgamento do mensalão, se os ministros decidirem que não vão sequer analisar os embargos infringentes, que podem mudar a sentença de 11 dos 25 réus, o ex-ministro José Dirceu, principal personagem do processo, desafiou ontem o tribunal e afirmou que a decisão do STF não será “o último capítulo” do caso.

O petista disse que vai pedir a revisão do processo e recorrer a cortes internacionais para tentar mudar a sentença que o condenou a dez anos e dez meses de prisão, pelos crimes de corrupção passiva e formação de quadrilha. Ele se disse o alvo principal “do ódio e da inveja de setores da elite do país” em relação ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao governo petista. — Amanhã (hoje) ou quinta-feira, teremos mais um capítulo, talvez o último. Não o último, porque temos a revisão criminal depois, os recursos às cortes internacionais.

Eu vou continuar me defendendo, defendendo o PT e nossos governos. Mais do que isso: eu é que tenho que provar minha inocência — disse Dirceu. — Isso não vai acabar com a sentença definitiva do Supremo. Nós temos uma luta para travar ainda: a revisão criminal e as cortes internacionais. A declaração foi feita durante entrevista à Fundação Perseu Abramo, uma entidade petista.

O presidente da fundação, o economista Márcio Pochmann, foi o entrevistador do evento, que foi transmitido ao vivo pela internet. Por mais de uma hora, Pochmann conduziu a entrevista fazendo perguntas sobre economia e sobre o desempenho da esquerda no mundo e no Brasil.

Um entrevistador reverente

Apenas nos minutos finais, o economista abriu espaço para perguntas da audiência, e acabou perguntando a Dirceu como ele se sente depois de oito anos sendo “exposto em praça pública’ Com reverência, Pochmann o chamou de “um homem de projeto, um homem de partido e um homem de Estado’ — Acabei sendo escolhido para ser um pouco o símbolo de todo esse ressentimento, uma mágoa que existe, uma inveja, um ódio que procuram disseminar na sociedade contra nós. Porque não é natural — respondeu Dirceu. — Eu lutei esses oito anos.

Não parei de lutar um minuto. Fizeram tudo para eu não poder trabalhar, para eu viver como um exilado dentro do Brasil. Fui obrigado a ser consultor e advogado, que nunca foi a minha profissão. Para o ex-ministro, sua cassação como deputado federal, em 2005, “é uma nódoa, uma mancha na História da Câmara dos Deputados e a denúncia de sua participação no mensalão, recebida pelo Supremo, “foi inepta e vazia’ — Evidentemente que cometi muitos erros e sou responsável por muitos desses erros, mas não os de que me acusam.

Esses, jamais — disse Dirceu. As declarações do ex-ministro petista foram condenadas pela oposição. Vice-presidente do PSDB, o senador Cássio Cunha Lima classificou as críticas de Dirceu como “proselitismo eleitoral”: — A um ano das eleições, ele repete os mesmos discursos que o PT faz em toda campanha. Isso tudo não passa de arrogância e proselitismo eleitoral. Dirceu é um animal político e não deixa de ser até nessas horas em que o foco da atenção está em outro lugar, o resultado do julgamento do mensalão.

Cunha Lima disse reconhecer a combatividade do ex-ministro, mas apontou que o momento do Brasil é diferente do que foi descrito por Dirceu na entrevista a Pochmann. — Há um cenário de baixo crescimento, uma crise ética gravíssima, uma ineficiência de gestão — disse. Condenado a dez anos e dez meses de cadeia e a pagamento de R$ 676 mil de multa pelos crimes de corrupção ativa e formação de quadrilha, Dirceu ainda se permitiu falar de política na entrevista, como se ainda tivesse papel importante no governo e no PT.

Ao falar sobre a esquerda, Dirceu negou que o PT seja “refém do conservadorismo da coalizão” que comanda o país. Nesse momento, ignorou o PMDB, partido do vice-presidente Michel Temer, ao nomear o núcleo da coalizão. — Nosso núcleo tem de ser, deve ser PT, PCdoB, PSB e o PDT. O núcleo.

Porque é uma coalizão de centro-esquerda. As coalizões não podem ser dirigidas pelas forças que são mais conservadoras. o presidente nacional do PMDB, o senador Valdir Raupp (RO), minimizou a omissão do partido entre aqueles que Dirceu considera integrantes do núcleo central da campanha petista. — Ele não citou o PMDB porque a aliança com o PT em 2014 já está implícita. Em todas as conversas que temos mantido com Lula, Duma e Rui Falcão ( presidente nacional do PT), isso não tem sido motivo de discussão.

Estamos acertando, neste momento, apenas as alianças regionais — disse Raupp, negando ter sabido de qualquer articulação de Dirceu em oposição à aliança do PMDB com o PT. Sem ser contestado por Pochmann em nenhum momento, o petista não poupou críticas aos adversários do PT: — A direita brasileira está sem discurso neste momento.

Está com um discurso do passado. Não consegue pensar o Brasil como ele é agora. Tem, sim, complexo de vira-latas. Falta a ela esse sentimento nacional — disse Dirceu, afirmando que a coalizão em torno do PSDB não vê a importância do país na política regional e que também não tem “sentimento popular”: — É avessa ao povo, é elitista. O governo (do ex- presidente Fernando Henrique) não fez a revolução social que fizemos nos últimos 11 anos.

Críticas ao baixo crescimento

Dirceu afirmou que o ex-presidente Lula assumiu o governo com um país em crise e com grandes dívidas externa e interna, sem reservas internacionais, e com alto desemprego, e “ainda ameaça de privatização da Petrobras e dos bancos públicos’ Para ele, o “Estado não estava à altura das necessidades do país’ — Mudamos isso — disse o ex-ministro, afirmando que o PT proporcionou uma “revolução social” no Brasil, com melhorias, desenvolvimento, programas sociais e geração de emprego.

Apesar dos elogios, Dirceu admitiu que o baixo crescimento da economia no governo Dilma não é resultado apenas de fatores externos, como a insegurança em relação à cotação do dólar. Segundo ele, “seria falso” afirmar isso. — Mas estamos enfrentando esse problema — afirmou. Dirceu defendeu a reforma política e disse que o “grito das ruas” pede o plebiscito, ideia aposentada pela presidente Dilma depois da má repercussão no Congresso, até mesmo entre políticos aliados do governo.

Para o ex-ministro, apesar de avanços do governo, a população pede novos direitos sociais. Neste ponto, Dirceu preferiu não lembrar que os manifestantes também pediram a prisão dos mensaleiros.

(Colaboroa Thiago Herdy)

Fonte: O Globo

Faxina malfeita – Editorial / O Estado de S. Paulo

Na espetaculosa "faxina" que fez no reinício de seu governo para combater a corrupção, a presidente Dilma Rousseff, pelo jeito, varreu só por onde o padre passa. Investigações policiais levantaram o tapete e flagraram desvios de recursos públicos para organizações não governamentais (ONGs), em escândalos cujo padrão é o mesmo que, há não muito tempo, levou Dilma a arregaçar as mangas para acabar com os "malfeitos , segundo dizia na época a propaganda oficial.

Uma operação da PF acaba de desmontar um esquema de fraudes no Ministério do Trabalho que resultou na prisão de 22 pessoas. Outras 11 tiveram de prestar depoimento de forma coercitiva - uma delas é Paulo Roberto dos Santos Pinto, o número dois do Ministério. Tanto Pinto quanto o atual ministro, Manoel Dias, que é secretário-geral do PDT, são ligados ao ex-ministro Carlos Lupi, um dos demitidos por Dilma na tal "faxina".

A PF e a Controladoria-Geral da União acreditam que o esquema tenha desviado até R$ 400 milhões, dinheiro entregue a uma ONG chamada Instituto Mundial do Desenvolvimento e da Cidadania, que diz prestar serviços de qualificação profissional e atua em 11 Estados e no Distrito Federal, Pinto teria facilitado a atuação da entidade, segundo as investigações. Apesar disso, ele continuava no cargo, até se exonerar no final da tarde de ontem.

Dias antes, a PF havia prendido oito pessoas suspeitas de participação em um esquema para favorecer outra ONG de qualificação profissional, o Centro de Atendimento ao Trabalhador (Ceat) - que já levou 475 milhões do Ministério Trabalho desde 2009.

Entre os presos está um assessor do Ministério, Gleide Santos Costa, pego com R$ 30 mil que teriam sido pagos pelo Geat como suborno para facilitar o aditamento de um contrato com o governo. Além disso, segundo a polícia, a direção do Geat comprou mercadorias chinesas para revender na Rua 25 de Março e, assim, lavar o dinheiro.

Ainda não foram encontrados elos entre esses casos e o que derrubou Lupi em 2011, mas o novo episódio indica a permanência de práticas que, se fosse sério o discurso de Dilma sobre a "faxina", já deveriam ter sido abolidas no Ministério do Trabalho.

Em outro escândalo, um inquérito da Polícia Civil do Distrito Federal mostrou que a Fundação Banco do Brasil, controlada pelo PT, firmou convênios de R$ 36 milhões com ONGs ligadas ao partido.

Um dos investigados é Jacques Peña, petista do Distrito Federal. Segundo a polícia, Pena, quando presidiu a Fundação Banco do Brasil, repassou ao menos R$ 5,2 milhões para uma certa Associação de Desenvolvimento Sustentável do Brasil, que é dirigida por seu irmão, Joy de Oliveira Pena, outro petista. Joy participa também da ONG Rede Terra, de apoio à agricultura familiar, que já recebeu R$ 7,5 milhões da fundação. A Rede Terra, por sua vez, é chefiada por Luiz Carlos Simion, irmão de Vib mar Simion, chefe da ONG Programando o Futuro, de inclusão digital, que recebeu repasses de R$ 4,9 miIhões. Como se vê, o emaranhado de conexões suspeitas é grande. Conforme mostrou a revista Época, a denúncia sobre a Fundação Banco do Brasil partiu de Maria Suely Fernandes, senadora da entidade cuja função era fiscalizar o repasse.de recursos para projetos sociais. Embora apadrinhada de Pena, Suely levou seu trabalho a sério e passou a informar seus superiores sobre os muitos desvios que encontrava. Gomo ninguém tomou nenhuma providência para conter a sangria de dinheiro, Suely foi à polícia. O resultado é que o inquérito foi aberto, mas ela e sua família foram ameaçadas de morte, levando a polícia a colocá-la sob proteção.

Esses tantos casos mostram que não é apenas demitindo ministros foram três defenestrados graças ao scândalo das ONGs no passado nem supostamente endurecendo as regras para os convênios do governo com essas entidades que Dilma combaterá a praga da corrupção. Os desvios continuarão a vicejar enquanto o Estado for aparelhado pelos partidos governistas e explorado como se fosse propriedade de seus caciques e agregados.

Em sua posse na ABL, FHC diz que democracia no país está em crise

Solenidade no Rio atraiu Aécio, Alckmin e Serra; ex-presidente vai ocupar a cadeira nº 36

Também estavam presentes o ministro do STF Marco Aurélio, o ex-senador Marco Maciel e Gilberto Gil

Marco Aurélio Canônico

RIO - Na cerimônia de posse mais concorrida dos últimos anos na Academia Brasileira de Letras, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, 82, assumiu ontem a cadeira nº 36, sucedendo a João de Scantimburgo (1915-2013), com um discurso no qual apontou as insuficiências da democracia no Brasil.

Entre os convidados estavam o ministro do Supremo Tribunal Federal Marco Aurélio Mello, o cantor Gilberto Gil e os principais nomes do PSDB: o governador Geraldo Alckmin (SP), o senador Aécio Neves (MG) e o ex-governador José Serra (SP).

"Fernando Henrique não é um escritor, é um professor que tem uma obra muito importante, impecável do ponto de vista intelectual, com todas as condições de integrar a Academia", disse Serra. "Foi uma belíssima escolha, ele tem uma contribuição efetiva a dar, é um sociólogo, um homem internacional, um humanista", afirmou Mello.

O evento aconteceu no salão nobre do Petit Trianon, o prédio histórico que serve de sede para a Academia, no centro do Rio. Vestindo o fardão de acadêmico, o ex-presidente iniciou seu discurso falando sobre a "importância dos rituais", como aquele de que tomava parte, e fazendo referência a sua mulher, Ruth Cardoso (1930-2008).

Seguindo a praxe, Fernando Henrique também homenageou cada um dos ocupantes da cadeira 36, como o poeta Afonso Celso (1860-1938) e o filósofo José Guilherme Merquior (1941-1991).

Na segunda metade de sua fala, FHC repassou sua trajetória e suas ideias: "Desenvolvimento, democracia, liberdade e igualdade eram e continuam a ser nossa obsessão. A esses objetivos dediquei meus esforços como intelectual e tentei alcançá-los em minha prática política".

O ex-presidente elogiou os avanços democráticos das últimas décadas, mas afirmou que ainda falta "alma democrática" aos cidadãos: "Nossa cultura de favores e privilégios, de retraimento da responsabilidade pessoal e atribuição de culpa aos outros, principalmente ao governo e às coletividades, desobriga o cidadão a fazer sua parte, a sentir-se comprometido".
O novo acadêmico fez ainda referência aos protestos de junho. "A ampliação da democracia e da liberdade de informação choca-se com as insuficiências da República. À inadequação das instituições acrescenta-se sua desmoralização, agravada por episódios de corrupção. Esboça-se entre nós, como em outros países, uma crise da democracia representativa."

Ao fim do discurso, FHC assinou o livro de posse e recebeu os tradicionais adereços que compõem o figurino da ABL: o colar com uma medalha, entregue por Nélida Piñon; o diploma, entregue pelo historiador José Murilo de Carvalho, e a espada, dada por Eduardo Portella --que substituiu na função o decano da ABL, José Sarney.

Fonte: Folha de S. Paulo

'Imortal', FHC fala em reinventar democracia

Ao tomar posse na Academia Brasileira de Letras, ex-presidente faz autocrítica, lamenta a falta de "alma democrática" no País e chama corporativismo de "cupim

Luciana Nunes Leal

Em discurso de posse na Academia Brasileira de Letras (ABL), ontem à noite, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso apontou uma crise nas instituições, criticou o corporativismo e os partidos políticos e fez uma autocrítica ao citar os vícios da relação entre os poderes Executivo e Legislativo.

"Os partidos desdenham da relação direta com a comunidade.Abdicam da função fiscalizadora do Executivo, abrem espaço a ações do tipo rolo compressor do Executivo. Quantas vezes eu fiz isso",afirmou o ex-presidente para uma plateia que incluía companheiros tucanos como o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, o ex-governador José Serra e o senador e provável candidato à Presidência Aécio Neves (MG).

Eleito em junho, com 34 dos 39 votos possíveis, para o lugar de João Scantinburgo, Fernando Henrique criticou a falta de alma democrática", o excesso de burocracia e os interesses fragmentados de sindicatos e outras instituições. "O corporativismo que renasce e passa do plano político ao social é o cupim da nossa democracia. Se somarmos impulsos populistas, temos um sistema político enfermo", discursou. Ele chamou atenção para as ondas de protesto que tomam conta do País e do mundo e para a incerteza de seus efeitos. "A agenda pública se encolhe e as ruas sequer são ouvidas (...). Ou reinventamos a democracia contemporânea ou poderá haver a manipulação por formas de autoritarismo".

Pouco antes da cerimônia, já vestido com o tradicional fardão dos imortais, Fernando Henrique afirmou que a situação do País ainda "é tensa" por causa dos protestos, e disse ser contra as máscaras e outros recursos usados pelos manifestantes. "Não vejo vantagem nenhuma em cobrir o rosto, estamos pedindo transparência para tudo e para todos", afirmou.

Em seu primeiro discurso como "imortal",Fernando Henrique condenou também o vandalismo, mas disse que também não concorda com atitudes radicais para evitar a presença de mascarados. "Não acho que seja o caso de fazer um carnaval. Na Europa houve tanta discussão por causa da burca, que não acho que ofenda nada. O que ofende é o vandalismo. Com ou sem máscara, o vandalismo não leva longe".

Aparato. Durante a cerimônia, a Polícia Militar montou forte aparato de segurança e fechou a rua em frente à sede da ABL, para prevenir eventuais manifestações. Um helicóptero sobrevoava a região e a polícia se manteve atenta à possibilidade de que um pequeno grupo que protestava na porta da Assembleia Legislativa.

Entre os convidados estava o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Marco Aurélio Mello, que viajou ao Rio na véspera de uma importante sessão do mensalão. "Convidei os ministros (do Supremo) que conheço", disse Fernando Henrique. O ex-presidente do Banco Central na gestão FHC Gustavo Franco e o cantor Gilberto Gil também estavam na plateia.

Em tom de brincadeira, Fernando Henrique disse que o fardão é "um pouco incômodo". Ele disse sentir constrangimento em ser candidato à Academia na condição de ex-presidente. "Não queria que confundissem meu status de presidente com minha qualidade de intelectual. Agora já passou tanto tempo, todo mundo sabe que não tenho e não quero ter poder, que estou em outra."

Políticos. Fernando Henrique é o terceiro presidente da República a vestir o fardão da Academia. Em 1941, Getúlio Vargas impôs sua presença no grupo. Em 1980,José Sarney foi acolhido. Entre os atuais colegas de Academia, ele terá a companhia, nas reuniões do grupo, de velhos companheiros de governo como o ex-vice-presidente Marco Maciel, o ex-chanceler Celso Lafer, e Rosiska Darcy de Oliveira, que presidiu o Conselho dos Direitos da mulher.

Além deles, os 40 imortais incluem figuras políticas de outros governos, como Eduardo Portela, que foi do gabinete de Juscelino Kubitschek e coordenou os assuntos de educação na Assembleia Constituinte- e ainda dois integrantes do governo Fernando Collor, Sérgio Rouanet, na Cultura, e Hélio Jaguaribe, na Ciência e Tecnologia.

• Horizontes
"Ou reinventamos a democracia ou poderá haver a manipulação por formas de autoritarismo".

"O corporativismo que renasce (... ) é o cupim da nossa democracia. Se somarmos impulsos populistas, temos um sistema político enfermo" Fernando Henrique Cardoso Ex-Presidente da República.

Ritual. FHC é o terceiro presidente da República a vestir o fardão e integrar a Academia

Fonte: O Estado de S. Paulo

Vem aí o 31º partido político

Maioria dos ministros do TSE aprova registro do PROS, que deve lançar candidaturas já na disputa do ano que vem. Outras três legendas têm pedido em tramitação na Justiça Eleitoral

Bertha Maakaroun

Com a maioria dos ministros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) manifestando-se pela aprovação do registro do Partido Republicano da Ordem Social (PROS) ontem à noite, serão 31 legendas em atuação no país aptas a lançar candidaturas no ano que vem. A enxurrada de siglas, porém, não se encerra antes que, em 5 de outubro, finalize o prazo formal para a criação de partidos políticos interessados em concorrer ao pleito de 2014. Estão em tramitação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pedidos para a obtenção do registro a Rede Sustentabilidade – que a ex-senadora Marina Silva luta para criar –; o Solidariedade (SDD), da segunda maior central sindical, a Força Sindical; e a Aliança Renovadora Nacional (Arena). Um outro pedido, do Partido Liberal Brasileiro (PLB), está com a tramitação suspensa a pedido dos próprios fundadores.

"A multiplicação de partidos no país é um exagero", afirma o cientista político e professor da UFMG Carlos Ranulfo. Embora a representação proporcional em vigor seja uma técnica interessante por garantir que os partidos tenham presença no Parlamento segundo o peso dos seus votos, ela não exige que as legendas sejam consistentes, ideológicas, explica Ranulfo. Para ele, como a legislação brasileira oferece muitos benefícios, estimula a criação de legendas. "O resultado é muito ruim. O eleitor quando assiste no horário gratuito esses partidos que aparecem um minuto, firma a convicção de que são todos iguais. Defendo a representação proporcional, mas o Brasil foi além da conta. É preciso adotar mecanismos mais rigorosos para frear essa proliferação de legendas", acrescenta.

Dos 30 partidos formalizados na Justiça Eleitoral – e serão 31 assim que for concluído o julgamento do registro do PROS, que já alcançou maioria jurídica, com cinco dos sete votos em plenário –, 23 têm representação na Câmara dos Deputados. Entretanto, diferentemente do que ocorre por exemplo na Espanha, quando as legendas só recebem verbas públicas após a formação de uma bancada, no Brasil, mesmo aqueles sem parlamentares eleitos têm direito à participação no Fundo Partidário Nacional. Só nos primeiros seis meses deste ano, o Partido Pátria Livre (PPL), criado em outubro de 2011 e sem nenhuma cadeira no Congresso, recebeu R$ 318,4 mil do bolo de R$ 363,8 milhões partilhado entre as 30 legendas que no período estavam registradas.

No julgamento, votaram a favor da criação do PROS os ministros Laurita Vaz, Henrique Neves, Castro Meira, Gilmar Mendes e Cármen Lúcia. A ministra Luciana Lóssio pediu vista do processo para analisar a documentação do partido. O ministro Dias Toffoli preferiu aguardar a retomada do julgamento para votar.

Carlos Ranulfo afirma ser necessária a diferenciação entre partidos pequenos e partidos que têm um dono. "Há legendas que têm um dono, como é o caso do PSDC, do PTdoB. Isso é diferente de ser pequeno e ideológico, como é o caso do PSOL, do PCO, entre outros", salienta. No primeiro caso, estão os chamados partidos "nanicos" que se aproveitam do mercado eleitoral brasileiro. "É fundo partidário, é tempo de televisão, enfim, o mercado eleitoral oferece acesso a recursos públicos e há quem os utilize para projeção pessoal", avalia o professor, considerando candidatos que se lançam a eleições majoritárias, negociando o seu tempo para enfrentar determinado concorrente. "Dominar uma sigla no Brasil é algo importante", sustenta Ranulfo.

Também para o cientista político Manoel Leonardo Santos, professor da UFMG, é exagerado o número de agremiações no Brasil. "Já tínhamos tomado a decisão sobre a cláusula de barreira, que entraria em vigor em 2006. O Supremo Tribunal Federal (STF) derrubou o dispositivo. Foi um desserviço para o sistema eleitoral", afirma. Segundo ele, a principal consequência da alta fragmentação partidária relaciona-se ao custo da governabilidade. "As coalizões para montar o governo envolvem negociações com grande número de atores. E boa parte deles, são representantes de siglas que as utilizam como moeda de troca na composição das coligações e no arranjo eleitoral, para maximizar as chances dos candidatos", salienta.

Uma medida que poderia minimizar o sucesso eleitoral dos novos nanicos, segundo os especialistas, seria a aprovação do fim das coligações partidárias para as eleições proporcionais. Mas, para eles, qualquer tema relacionado à reforma política tem um destino conhecido na Câmara dos Deputados. "No limite o associativismo político não seria um mal para a democracia. O problema é que há em vigor uma regra eleitoral que permite coligações e com voto individualizado, o que produz essa alta fragmentação", diz Manoel Leonardo.

Saiba mais
PROS
O Partido Republicano da Ordem Social anuncia como sua principal bandeira a redução de impostos e se define como uma agremiação de centro. O seu número na urna eletrônica será 90. Ainda mal foi formalizado, entretanto, o partido já é sondado para operar como "janela" para parlamentares interessados em migrar de suas legendas de origem sem risco de perder o mandato. O presidente do PROS, Eurípedes Júnior, calcula que 20 deputados federais devem se filiar na nova sigla. Em sua campanha para arrebanhar assinaturas necessárias à criação do partido, o PROS trabalhou também em encontros nacionais de prefeitos, em Brasília. "Insatisfeito com seu partido? Quer sair dele sem perder o mandato? O PROS é a mais nova opção", diziam os panfletos distribuídos.

Fonte: Estado de Minas

Eduardo Campos: "Ninguém precisa esperar o PSB"

2014 Cobrado pelo PPS e o PSDB a antecipar definição sobre a candidatura presidencial e pelo PTB a sinalizar o nome à sua sucessão, Eduardo Campos demonstra não ter pressa

Beatriz Albuquerque

O governador e presidenciável Eduardo Campos (PSB) declarou, ontem, que não antecipará o anúncio da definição sobre sua candidatura ou não à Presidência da República, em 2014, em razão de pressões de dirigentes políticos de partidos - da base governista e na oposição -, que cobram uma posição imediata do socialista. O recado foi entendido como resposta aos deputados federais e presidentes do PSDB em Pernambuco, Sérgio Guerra, e do PPS nacional, Roberto Freire (SP), mas também ao PTB estadual, que tem o seu presidente estadual e senador, Armando Monteiro Neto, candidato ao governo do Estado. Os petebistas têm forçado uma definição sobre o nome à sucessão de Eduardo na Frente Popular, decisão que está diretamente subordinada à sucessão residencial. "Ninguém precisa esperar o PSB", afirmou o governador, ao ser indagado sobre as cobranças dos dois lados.

O pós-comunista Roberto Freire o tucano Sérgio Guerra cobraram do líder socialista uma posição agora sobre o seu futuro político em 2014. Freire condiciona o apoio do PPS ao projeto presidencial de Eduardo à decisão de assumir de imediato a candidatura, enquanto Sérgio Guerra pediu que o governador assuma e adote um discurso de oposição à presidente Dilma (PT). Um dos principais interlocutores entre PSB e PSDB, o tucano mantém relação de amizade com Eduardo, mas, em entrevista ao Valor Econômico, afirmou que "ele precisa resolver se é oposição ou governo".

Após o ato de assinatura da ordem de serviço para restauração da PE-63, na sede do governo, no Centro de Convenções, Eduardo demonstrou irritação com a cobrança. "Sérgio é dirigente de um partido da oposição. É meu amigo, tenho com ele uma relação pessoal preservada, mas ele sabe da minha posição. Há muito tempo não estamos no mesmo palanque", rebateu.

Ao presidente do PPS, Roberto Freire, que condicionou o apoio a seu nome em 2014 ao anúncio imediato da candidatura - o pós-comunista estipulou prazo até 20 deste mês, sob pena de aderir a Aécio Neves (PSDB-MG) -, Eduardo foi seco, reafirmando a dinâmica própria dos socialistas. "Respeitamos a posição de cada partido. Tem gente que acha que devo decidir amanhã, tem gente que acha que devo decidir no próximo mês e tem gente que acha que precisa cuidar do Brasil, cuidar de fazer estrada, escola e da saúde. Eu fui eleito para cuidar dessas coisas e eu vou cuidar disso agora", concluiu.

Em relação ao PTB e ao senador Armando Monteiro Neto, Eduardo tem evitado recados direitos, deixando as respostas nas entrelinhas.

Fonte: Jornal do Commercio (PE)

Campos se irrita com cobranças sobre candidatura

RECIFE - O governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), demonstrou irritação com as cobranças feitas por lideranças partidárias sobre sua real disposição para concorrer à Presidência da República em 2014.

"Ninguém precisa esperar o PSB", disse ele em resposta aos deputados federais Sérgio Guerra (PSDB-PE) e Roberto Freire (PPS-SP), que cobraram pela imprensa uma definição do pessebista.

Abordado ontem por jornalistas ao final de um evento no Recife, Campos resistiu em comentar o assunto.

"Por que essa preocupação? Eu estou tranquilo. Essas pessoas [que] tomem a posição que entenderem que devem tomar", afirmou.

O governador disse que cada líder tem "total liberdade" para conduzir as políticas de seus partidos no ritmo que quiser.

"O PSB tem uma dinâmica própria, tem uma discussão própria e vai decidir as coisas num tempo que é próprio. Ninguém precisa esperar o PSB. Nós respeitamos a posição de cada partido."

Fonte: Folha de S. Paulo

Na TV, Aécio recorre a temas dos atos de junho

Senador tucano afirma em inserções do PSDB que é possível melhorar o transporte coletivo e que é o cidadão, não o político, quem muda o Brasil

João Domingos

BRASÍLIA - Como parte da estratégia de se tornar conhecido em todo o País, o presidente do PSDB e provável candidato à Presidência, senador Aécio Neves (MG), utilizou as inserções de 30 segundos do partido apresentadas na TV ontem à noite para criticar o governo da presidente Dilma Rousseff e se apresentar aos brasileiros. "Eu sou Aécio Neves, Vamos conversar?", propôs o senador tucano no fim de cada uma das inserções. Ele foi também o apresentador de todas elas. .

Nas gravações mostradas ontem Aécio focou sua atenção em três temas: quem muda o Brasil não é o político, mas o cidadão; é possível melhorar o transporte coletivo, por exemplo, abrindo mão do trem-bala; e que a inflação não está controlada. No dia 19, o PSDB levará ao ar no rádio e na TV o programa do partido, com dez minutos. A estrela principal será de novo Aécio Neves. Nos dias 21, 26 e 28 serão apresentadas novas inserções. Mais uma vez, tendo o senador como protagonista.

Nas inserções, o senador tucano disse que tem muito político que adora dizer que mudou o Brasil "Mas quem muda o Brasil todo dia é você. Você que acorda cedo para chegar ao trabalho,que economiza no mercado para pagar as contas no final do mês. Você que ainda estuda, mas já está ali dando aquela força em casa. Tudo o que o Brasil consegue é graças ao seu esforço. E agora, o que você merece é ser ouvido e respeitado. E ter um governo que leve o para a frente e que ajude você a dar o próximo passo", disse o senador, para, em seguida, se apresentar aos eleitores.

Num outro filmete, o senador disse que o governo federal quer gastar R$ 38 bilhões com o trem-bala entre o Rio e São Paulo. "Enquanto isso, o paulistano leva em média duas horas para chegar ao trabalho", criticou ele. "Em vez de desperdiçar R$ 38 bilhões, a gente quer esse dinheiro investido em transporte. Em todos os brasileiros."

Inflação - Em uma terceira inserção, Aécio disse que, apesar de o governo afirmar que a inflação está controlada, isso não ocorre. "Você que vem ao mercado sabe que não está. Os alimentos subiram muito no último ano. E pagar a prestação está complicado. A gente precisa enfrentar esse problema agora. Para voltar a ter confiança no futuro. A primeira coisa a fazer é arrumar a casa, é ter tolerância zero com a inflação. É ter um governo que não jogue dinheiro fora", afirmou o senador.

As gravações são apenas parte de uma ampla estratégia de divulgação do tucano, que inclui ainda viagens pelo País. A ideia é fazer encontros regionais nas cinco regiões brasileiras e colher informações para a elaboração de uma agenda social e econômica que servirá de base para a elaboração de seu programa de governo.

O primeiro desses encontros ocorrerá no dia 14 de setembro, em Curitiba, no Paraná. No mês passado, ele foi até Ribeirão Preto (SP) e Barretos (SP), ocasião em que seus correligionários praticamente lançaram sua candidatura a presidente.

É no PSDB de São Paulo que está o único foco de resistência interna à sua candidatura, tendo em vista o interesse do ex-governador paulista José Serra em também participar da disputa presidencial.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Junho acabou no sábado - José Neumanne

Em junho as multidões ocuparam as ruas das grandes cidades brasileiras, assustando os políticos governistas e surpreendendo os da oposição, acendendo o sinal de alerta do Poder Judiciário e dando à sociedade a ilusão de que o gigante tinha acordado e o monstro da opinião pública devoraria os inimigos do povo.

Tudo começou com uma manifestação contra o reajuste das tarifas dos transportes coletivos, que logo se tomou reclamação contra a péssima qualidade da mobilidade urbana. A classe média engrossou o caldo para gritar contra as óbvias mazelas de um Estado que arrecada muito para que os donos do poder fiquem com praticamente tudo, quase nada restando para a gestão decente dos serviços públicos. A corrupção prejudicato dos os que não são corruptos e só beneficia ladrões e traficantes de drogas. Basta ver que, como publicou este jornal anteontem, a caça aos larápios totalizou 20,7% as missões desencadeadas pela Polícia Federal de janeiro a agosto deste ano nos Estados e em Brasília, enquanto ações contra o tráfico de drogas somam bem menos -16,9% dos casos. A inflação atinge diretamente o bolso do pobre, a primeira vítima da péssima gestão pública em educação, saúde è segurança.

Agora, dois meses depois, percebe-se que quem confiou na revolução direta das mas, ao contrário de Chapolim, não contava com a astúcia de quem domina as manhas do regime patrimonialista. Este, na prática, nunca se renova, desde os tempos da colônia, do Império, da República Velha, das ditaduras de Vargas e dos militares e dos interregnos democráticos que as substituíram.

Após algum tempo de mutismo, decerto provocado pela perplexidade da inexperiência, Dilma Rousseff convocou rede de televisão para, em seu estilo "balança, mas não cai", tentar convencer seus críticos de que o povo queria dar-lhe e a seu partido instrumentos para não largarem o suculento bife do poder, deixando o osso da eterna oposição para os adversários: financiamento público de campanha, voto em lista, etc.

O Congresso Nacional, composto por macacos velhos mais espertos do que ela, adotou o sistema Vampeta de agir. O volante baiano definiu assim sua relação trabalhista com o clube : de futebol mais popular do País: "O Flamengo fingia que nos pagava e nós fingíamos que jogávamos". Deputados e senadores repetiram essa malandragem até que a falseta foi desmascarada na votação secreta em que os primeiros deram ao colega Natan Donadon (ex-PMDB-RO) ocupação inusitada de legislador-presidiário. Logo depois, o mesmo plenário inventou - no país onde há leis que vingam *e outras, não - a norma aprovada para nunca ler, ao tomar abertas quaisquer votações em parlamentos.

A onda junina da raiva popular virou esgoto em que chafurdam ratos oportunistas e covardes. Assim como se espantaram com a explosão de raiva da população contra as escolas de lata, os pacientes morrendo nas macas em corredores de hospitais públicos e outros flagelos nacionais e fingiram que nada tinham que ver com essas queixas, governantes, parlamentares e magistrados temeram o Dia da Pátria. Tratava-se do mais apropriado feriado, pensaram, para o monstro voltar às ruas e despertar o gigante adormecido em berço esplêndido. Mas junho acabou no sábado.

Como aconteceu muitas vezes na História e foi registrado com clareza e estilo por Karl Marx em 18 Brumário de Luís Bonaparte, a onda da indignação de todos contra tudo se dissolveu num esgoto povoado pelos ratos oportunistas de sempre. O Executivo brinca de médico cubano, dando um dinheirinho aos tiranos Castro de
Cuba e fingindo que com a caridade resolve os problemas perenes dos prontos-socorros sem penicilina, macas e gaze. O Legislativo abre uma sucursal no presídio, enquanto os petistas do governo distrital em Brasília têm de ser obstados por um juiz para não concluírem um puxadinho de luxo para mensaleiros condenados. E no Judiciário prima a lerdeza, em vez da justiça, como de hábito.

Das manifestações de junho sobrou o que há de pior: a destruição generalizada dos anarquistas mascarados, que deixaram no caminho seu rastro ofensivo de ódio, sem relação alguma com a ira defensiva popular; e a covardia dos gestores públicos, que preferem perder a autoridade a arriscar-se a perder a eleição. Nada foi feito para debelar a inflação, a corrupção e a péssima gestão pública em geral, principalmente no que toca a educação, saúde e segurança. Nenhum mecanismo institucional foi criado para favorecer o encurtamento da distância abissal entre o representante e o representado.

E a Justiça permanece lerda e caolha, surda para quase todos e muito sensível aos melindres dos privilegiados que têm alguma proximidade com a toga.

O rescaldo negativo da bela manifestação popular, contudo, recende a matéria orgânica apodrecida. Nenhuma autoridade foi exercida para garantir que o cidadão comum se locomova em seu hábitat. Ao contrário, quaisquer grupelhos de gatos-pingados com uma palavra de ordem continuam a impedir o trânsito de ambulâncias em vias como a Paulista, em São Paulo, e a Rio Branco, no Rio, entre outras. Com a mesma estridência com que reclamam, com justiça, dos parlamentares escondidos sob o sigilo do voto, querem que mascarados sigam promovendo quebra-quebras nas ruas. Até o inefável baiano Caetano cobriu o rosto com uma camiseta em defesa desse direito e pedindo paz, equiparando os predadores vândalos a inocentes foliões de máscara nos blocos de sujos do carnaval.

Essa mixórdia resultou no triste Dia da Pátria de 2013. Com medo da violência, o povo ficou em casa, faltando aos protestos convocados nas redes sociais e aos desfiles da comemoração da Independência. Mas os grupelhos de vândalos deixaram sua marca nada simbólica por onde passaram, chamando a atenção geral para o pesadelo do monstro adormecido em catre mísero e para a perda da noção da data nacional - e um símbolo maligno destroçou um símbolo benigno.

Jornalista, poeta e escritor

Fonte: O Estado de S. Paulo