domingo, 15 de maio de 2016

Os escombros - Merval Pereira

- O Globo

Mais difícil que matar um monstro é remover seus escombros. A frase de Ulysses Guimarães que ouvi várias vezes o Jorge Moreno, seu amigo e assessor, repetir, é muito adequada à situação que o governo Temer está vivendo nos seus primeiros dias. Se já esperava tamanha resistência interna, parece que não se preparou para tamanhas ousadias.

Servidores públicos fazerem manifestação contra a extinção do Ministério da Cultura diante do novo ministro da pasta que unificou Educação e Cultura é compreensível, mas chamar o novo governo de golpista dentro do Palácio do Planalto é um ato político que exige uma reação vigorosa do governo.

A administração aparelhada fará “o diabo” para dificultar o exercício normal do novo governo, e qualquer sinal de fraqueza pode inviabilizá-lo. Já foi vergonhosa a recusa de fazer a transição com os novos ministros, que terão cada qual que abrir a caixa-preta dos ministérios.

Jornalistas contratados pelas empresas de comunicação governamentais estão gastando os últimos dias de contrato para usar seus espaços com críticas duras ao novo governo, como se não houvesse amanhã. A própria presidente afastada já dera o sinal para esses movimentos quando, do nada, afirmou em seus discursos de despedida que o novo governo reprimiria os movimentos sociais com violência.

Ora, não é possível admitir que estradas e avenidas sejam fechadas, e propriedades invadidas e depredadas por manifestantes sem que os governos afetados não reajam, para que a maioria da população possa viver normalmente. Da mesma maneira que os taxistas não podem fechar as ruas em protesto contra o Uber, também os integrantes do MST ou do MTST não têm o direito de perturbar a vida dos cidadãos.

Esses resistentes à nova ordem são capazes de gestos ridículos como o do deputado Jean Willys a pregar a desobediência civil, mas são minoritários na sociedade e no Congresso. Não quer dizer que o governo Temer seja majoritário, pois o presidente interino ainda não é uma figura reconhecida nacionalmente, e dependerá do que fizer a sua popularidade.

Para quem não pode errar, no entanto, já cometeu muitos deslizes desnecessários, como o descuido de não colocar uma mulher ao menos no ministério que substituiu o governo de uma mulher. Essa questão de gênero deveria ser secundária, mas num país que ainda precisa avançar muito no campo da igualdade, sinais simbólicos são importantes.

Quanto ao ministério da Cultura, existem muitos artistas e intelectuais de peso que não consideram sua extinção uma calamidade, ou mesmo discordam da sua existência, e o governo simplesmente não levou em conta essa disputa política que tem muito mais de simbólica do que de real.

Ainda há tempo para rever certos atos, mas a distribuição de ministérios para partidos já está demonstrando a precariedade da solução. O novo ministro da Saúde Ricardo Barros, que substituiu a primeira escolha do médico Raul Cutait por que seu partido, o PP, não aceitou uma designação técnica, já deu declarações no mínimo polêmicas.

Barros disse que a pílula do câncer pode dar resultado, apesar da críticas dos especialistas, porque “a fé remove montanhas”, e admitiu que terá que colocar indicações políticas em setores do ministério, uma das razões pelas quais Cutait acabou sendo rejeitado: ele queria nomear técnicos para as secretarias técnicas, como a sociedade esperava.

Uma coisa é entregar a partidos políticos ministérios, outra é colocar ministros incapazes em lugares estratégicos. O ministério das Relações Exteriores está nas mãos do tucano José Serra, e teve reação imediata à ação dos governos bolivarianos que tentam transformar em realidade a fantasia golpista que veem no impeachment de Dilma.

O Itamaraty, que foi palco nos últimos dias de cenas degradantes como a de um diplomata que enviou mensagens para várias embaixadas brasileiras no mundo denunciando o suposto golpe e não foi punido com o rigor devido, reagiu com firmeza a essa tentativa de desacreditar o país, com o apoio do governo afastado, e reagirá diante da hostilidade do governo venezuelano que retirou seu embaixador para consultas.

Como se vê, o governo já terá muitos problemas com a máquina estatal aparelhada para criar ele mesmo problemas para si. Já será bastante trabalhoso remover os escombros do monstro.

PT não tem plano B - Dora Kramer

- O Estado de S. Paulo

Os fatos e as fotos que registraram a passagem de Luiz Inácio da Silva no último dia de Dilma Rousseff no exercício da Presidência da República, disseram mais que todas as análises de especialistas e discursos de petistas sobre o futuro do partido, em sua volta para a oposição e a necessidade de encontrar o cominho do recomeço a partir da estaca zero.

O silêncio, o retraimento e o semblante desolado do ex-presidente no dia fatídico – para não dizer “histórico”, devido à banalização do termo –, tanto podiam ser vistos como sinais de desnorteio quanto serviriam para traduzir a consciência de que, ao fim e ao cabo, foi ele o grande responsável pelo fim melancólico de um ciclo de glórias.

“Não merecíamos isso”, parecia querer dizer diante da derrota arrasadora de um partido que se acostumou a colecionar vitórias. Na realidade, os petistas não precisariam estar passando por isso, caso tivessem preparado as respectivas cabecinhas para assumir o poder. Partindo do princípio de que é algo que se exerce com moderação, principalmente quando se tem muito dele à disposição. O abuso dessa preciosa matéria-prima, nas democracias, leva à perdição.

Se o constrangimento de Lula, praticamente escondido atrás de Dilma (sua genial invenção) quando iam ao encontro do povo na saída do Palácio do Planalto em clima muito diferente daquele de saudação nacional de janeiro de 2003, decorria da constatação realista sobre os motivos da derrocada, melhor para ele e seu partido.

Há boas chances de recuperação. Afinal, o PT não é um agrupamento de venais. É, antes, uma agremiação que se deixou tomar pelas venalidades da ambição, do DNA firmado na lógica do atrito e pela ideia equivocada de que ao governante vencedor de eleições tudo é permitido.

Agora, a questão não é nem só para onde ir, mas como ir. Seria exagero dizer que o PT acabou, mas é fato que se colocou na trajetória descendente de legendas que se perderam ao longo do tempo. Um exemplo (sempre guardadas as proporções) é o ex-poderoso PFL, hoje reduzido a um acanhado DEM que tentou, mas não soube se reinventar ao querer se livrar da má fama de fisiológico, coronelista e obsoleto.

Dos 91 deputados federais que tiveram no seu auge (a eleição de Lula), os petistas têm hoje 57. Dos 148 deputados estaduais eleitos com Dilma em 2010, restam 96. O número de prefeitos caiu de 818 (em 2004) para 544. Os vereadores aumentaram expressivamente (de 1.977 em 2002 para 5.185). Há, no entanto, uma eleição municipal pela frente na qual todos os partidos terão dificuldades por causa do fim das doações de pessoas jurídicas, mas ao PT vão se apresentar obstáculos adicionais.

A maior delas decorrente da perda do poder central e, com ela, dos instrumentos de mobilização do eleitorado dos pequenos municípios e, nas grandes cidades e capitais, da crescente rejeição ao discurso (aliás, qual?) petista. Raros também serão os candidatos e partidos dispostos a fazer alianças com o PT, que terá um baque em suas contas com o fim do dízimo recolhido dos filiados postos em cargos de confiança. Isso sem falar nos presumíveis efeitos da Lava Jato.

O horizonte não é favorável e as ideias até agora lançadas para o PT se reorganizar indicam a falta de um plano B delineado para atuar como oposição. Das hipóteses cogitadas – caravanas de Lula para animar a militância, montagem de um gabinete de resistência no Palácio da Alvorada, denúncia do “golpe” e não reconhecimento da legitimidade do governo Temer, organização de uma frente de movimentos sociais, defesa de novas eleições já, entre outras – todas foram testadas e devidamente fracassadas enquanto o PT estava no comando e na posse do direito de manejar recursos públicos.

Por mais razão não é crível que o partido consiga executá-las depois de apeado do poder.

Com punhos de renda - Luiz Carlos Azedo

• Pau de dá em Chico, dá em Francisco. Ou seja, o governo provisório de Michel Temer está diante das mesmas contingências que levaram à queda de Dilma Rousseff

- Correio Brazilense

O método mais adequado para destrinchar problemas complexos é desagregá-los em equações simples e resolvê-las uma de cada vez. Isso serve para a política, inclusive para esse período de transição entre o afastamento da presidente Dilma Rousseff e seu impeachment definitivo, que pode ocorrer ou não, dependendo do sucesso do governo provisório formado pelo presidente em exercício, Michel Temer.

Para isso, podemos recorrer à distinção entre a política dos políticos, a da tecnoburocracia e a dos cidadãos, divisão adotada pelo cientista político Marco Aurélio Nogueira, em seu excelente livro As possibilidades da política – Ideias para a reforma democrática do Estado (Editora Scielo), aqui abordada livremente. Digamos que a queda de Dilma Rousseff resulta de um triplo fracasso nessas frentes.

Somente na democracia um governo poderia ser derrubado como foi o de Dilma Rousseff, cujo sistema de poder, ao se exaurir, revelou baixíssima capacidade de mobilização popular, base parlamentar inexpressiva e nenhuma sustentação em nível institucional. A narrativa do golpe de Estado não tem a menor consistência legal, uma vez que, no Brasil, o impeachment é o dispositivo constitucional para remover um presidente eleito e pôr em seu lugar o vice eleito na mesma chapa, pelos mesmos eleitores.

Digamos que Dilma fracassou na política dos políticos porque não levou a sério sua aliança principal em nível eleitoral, alijando do centro das decisões de governo o PMDB, um aliado que era maior e mais influente tanto no Parlamento, como na Federação, seja em número de governadores e prefeitos, seja nos legislativos estaduais e municipais.

Em determinados momentos, seu próprio partido, o PT, se sentiu alijado do centro das decisões, a começar pelo ex-presidente Luiz Inácio lula da Silva, seu padrinho político e principal cabo eleitoral.

O colapso do governo Dilma pode ser atribuído também ao fracasso no âmbito da governança administrativa, na qual os efeitos colaterais do modelo de capitalismo de Estado na economia e do populismo, nas políticas sociais e certas decisões econômicas, levaram o país ao maior descalabro da história recente. Não faltaram advertências dos técnicos da alta burocracia federal. E ainda foi preciso a reação dos órgãos de controle do Estado, principalmente do Ministério Público, Polícia Federal e Receita Federal, para que o assalto aos cofres públicos fosse contido.

Finalmente, a catástrofe na política dos cidadãos. A cooptação dos movimentos sociais e aparelhamento de suas entidades e instâncias de participação popular resultaram num tiro pela culatra, no qual a ideia de uma “democracia ampliada”, que incorporasse os cidadãos às decisões, foi inteiramente desvirtuada. Na prática, foram as redes sociais que serviram de canais de expressão para a sociedade, e através delas, à margem dos partidos, o governo acabou sitiado pelos cidadãos, em sucessivas manifestações de caráter nacional. Sem essas mobilizações, a política dos políticos não teria invertido sua direção.

Há que se considerar, porém, que pau de dá em Chico, dá em Francisco. Ou seja, o governo provisório de Michel Temer está diante das mesmas contingências que levaram à queda de Dilma Rousseff. A diferença é que a política dos políticos deslocou o PT do centro de poder e pôs em seu lugar o PMDB. Não foi a oposição que chegou à Presidência, embora tenha sido a força que traduziu o desejo de mudança expresso pelas ruas, ou seja, pela política dos cidadãos, no pedido de impeachment. A oposição apoia e participa do governo Temer como consequência de seus atos, mas é coadjuvante, a hegemonia é dos peemedebistas e antigos aliados do PT.

Por isso mesmo, há muitas incógnitas quanto ao futuro. Seja porque sua política econômica não pode errar a mão e agravar as condições de vida da população, já muito difíceis, seja por causa de envolvimento de alguns integrantes do governo em escândalos, principalmente os investigados pela Operação Lava Jato.

Michel Temer chegou ao poder com punhos de renda. Uma das dificuldades da narrativa do golpe, um discurso ideológico sem base constitucional, é o fato de que a transição de um governo para outro foi feita pelo Congresso, com base legal, pacificamente, sem qualquer interferência dos militares ou potências estrangeiras, às claras, com transmissão ao vivo e em cores das sessões do Congresso e do Supremo Tribunal Federal. Mantê-lo exigirá uma ampla base parlamentar. Será preciso, porém, resgatar a confiança da alta burocracia federal, o que significa subordinar as convicções à legitimidade dos meios de exercício de poder, e se esforçar para conquistar a simpatia popular, o que é a parte mais difícil num ambiente desemprego, inflação, juros altos e recessão, além de ojeriza quase generalizada da sociedade aos políticos.

O acerto e os atrasos - Míriam Leitão

- O Globo

O governo Michel Temer começou com alguns acertos e inaceitáveis atrasos. Na economia, o que os ministros e o presidente interino falaram faz todo o sentido. O país está, de fato, diante de uma emergência fiscal e é preciso buscar o equilíbrio perdido. Outros sinais dados pelo novo governo mostram que ele não entendeu a lógica do mundo atual. Não percebeu sequer o simbólico.

Não ter mulher no Ministério diz muito. Revela que eles nunca olharam como se formam governos em outros países atualmente. É impensável uma administração só de homens brancos, porque é preciso ser preconceituoso para não ver os talentos que a diversidade de um país oferece. Não é um detalhe. Não é para fazer figuração. É que o poder hoje em qualquer lugar do mundo é compartilhado, e a diversidade é um valor. Olhem para fora, senhores. 

Nos governos de François Hollande, Pierre Trudeau, Barack Obama, Angela Merkel e David Cameron há muita diversidade. Na França, a divisão é meio a meio, com 9 mulheres e 9 homens, entre 18 pastas. No Canadá, elas são 14 das 31. Na Alemanha, além da chefe de governo, Angela Merkel, 5 de 15 ministros são mulheres. Na Inglaterra de governo conservador, um terço, com sete dos 21 secretários de Estado, e mais 3 de 8 ministros. Nos Estados Unidos, são 4 dos 15 secretários e 3 dos 7 postos que têm status de ministro. E elas são brancas, negras, diversas, como deve ser. 

Ninguém hoje, exceto em um país árabe, teria uma ideia tão ruim quanto uma composição apenas masculina.

Instalar a Secretaria de Direitos Humanos sob o comando do ministro Alexandre de Moraes, que tem uma coleção de controvérsias exatamente na área de direitos humanos, é demonstrar desprezo por bandeiras que são parte da democracia moderna. Nomear ministros investigados pela Lava-Jato e defender a operação no discurso de posse é, no mínimo, estranho.

A grande batalha será travada na economia. Ela está aos pedaços. Como disse o ministro Eliseu Padilha, é a maior crise econômica do país. Quando o ministro Henrique Meirelles diz que buscará a estabilização da dívida pública, ele está escolhendo um alvo que é síntese de vários outros. Muitas decisões precisam ser tomadas na direção certa para que ela pare de subir; tarefas duras e difíceis. É preciso que o déficit primário volte a ser superávit, o déficit nominal caia, a economia cresça, a arrecadação suba, os gastos sejam reduzidos, e as reformas sejam aprovadas. 

Muita coisa tem que dar certo para que a dívida interrompa a trajetória de alta acelerada do governo Dilma. Parece a história da sopa de pedra. Só fica pronta se houver todos os outros ingredientes.

E é fundamental interromper o crescimento da dívida pública, por um motivo central: os credores somos nós, todos os que aplicam em títulos da dívida pública brasileira. Foi muita irresponsabilidade da presidente Dilma ter deixado a dívida crescer como cresceu. Ela foi alertada e desprezou o alerta. O novo governo fez bem em focar esse ponto.

A última vez que o PMDB foi tão forte quanto agora foi em 1986, quando o sucesso do Cruzado encheu as urnas de votos no partido. Há 30 anos, eles foram beneficiários da abundância e da euforia. Agora serão sócios da penúria. E terão que aplicar remédios amargos. Farão isso?

O Palácio do Planalto estava lotado de políticos, a maioria do PMDB, na quinta-feira de tarde. E quem olhava a paisagem humana ficava na dúvida se as concessões a serem feitas para aqueles políticos todos não iriam revogar as promessas de austeridade no gasto. O que Eliseu Padilha disse na coletiva de sexta-feira é que justamente por ter base ampla e sólida o governo tem condições de fazer o programa difícil, de salvação nacional.

O presidente Temer queria acertar o tom e pediu uma cerimônia discreta e sóbria. E deu errado. Em vez de fazer a posse coletiva dos ministros no Salão Nobre do Planalto, ele escolheu o Salão Leste, mais acanhado. O ar-refrigerado não comportou, o empacotamento das pessoas tirou a visibilidade dos fotógrafos, que se revoltaram. Um pouco antes de começar, gritaram em coro: “Não vai ter foto”. Foi servida apenas água. Foi assim que o governo Temer começou. Com sinais mistos. A austeridade é bem-vinda. O projeto econômico é difícil e necessário. Mas há sinais em descompasso entre este governo e o mundo contemporâneo.

A Confeitaria do Custódio - Cristovão Tezza

- Folha de S. Paulo

Em política, a incompetência é quase sempre criminosa, e pelo menos em um ponto, aos gritos ou sussurros, praticamente todos concordam: o governo Dilma Rousseff foi muito ruim. É claro: se depois de seis anos de poder uma Presidência é incapaz de encontrar 172 deputados que lhe defendam, o problema maior não está nos deputados.

A ideia de que houve um golpe não é só absurda -é ofensiva. Para quem viveu 1964, 1968 e acompanhou a ditadura militar nos anos 1970, chamar de golpe um mecanismo constitucional de que, aliás, nas últimas décadas o Partido dos Trabalhadores lançava mão gozosamente por qualquer "dá aqui aquela palha", agride a inteligência.

Também não houve nenhuma revolução: o Brasil continua do mesmo tamanho, que é, infelizmente, pequeno. Estamos diante da placa da Confeitaria do Custódio, da cena de Machado de Assis no romance "Esaú e Jacó"(1904).

Com a queda da Monarquia, troca-se a inscrição "Confeitaria do Império" por "Confeitaria da República" -mas vamos que dê uma reviravolta?! Um Maranhão qualquer? Melhor colocar "Confeitaria do Custódio", este cidadão brasileiro. Não vou me meter nessa história, ele diria -o país não é meu.

Passei meses tentando escapar da histeria que se instalou no vácuo simbólico da Presidência, um vazio que se arrastava penoso. Como ficcionista, o que me interessa são muito mais as pessoas do que as ideias, tomadas abstratamente. Na abstração, com boa retórica, todos têm razão, e quando todos têm razão, é melhor ficar calado.

Pouco se fala do caráter simbólico do poder político, e do quanto ele é importante -sua ausência produz histeria. O vazio estava demasiado e gritou-se muito para preenchê-lo. Tudo bem: virou-se a página -muito parecida com a anterior, o mesmo elenco de sempre, mas pode reservar surpresas, e isso, à falta de tudo, parece provisoriamente bom.

A questão que me interessa agora é mais retrospectiva do que prospectiva: por que Dilma Rousseff, por um mágico estalo de dedos -"fiat Dilma!"- foi eleita duas vezes? Por que uma pessoa tão inextricavelmente inepta para a dimensão do cargo, por todas as evidências mais gritantes, foi ungida à condição de tocar o país?

Duas vezes -na primeira, com sobra de votos; na segunda, raspando o travessão e às custas de uma campanha grotesca. Derrotada na vitória, tentou colocar em prática a política econômica de "direita" (para ficar nesses termos já sem sentido), porque, afinal, um país quebrado precisa com urgência produzir riqueza e a esquerda, infelizmente, ainda não descobriu a fórmula.

Nada deu certo, e uma inesgotável maré de corrupção continua a exalar um invencível mau cheiro em torno do governo que saiu, onde quer que se aponte o nariz.

O chavão diz que o Bolsa Família elegeu Dilma, como se fôssemos uma Suazilândia constituída de hordas de miseráveis atrás de um prato de sopa. Obviamente, não -quem elege presidente no Brasil é a nossa imensa e bruta classe média urbana, rebatedora de opinião, sob o sopro onipresente do que se pode chamar de moderna consciência social.

É uma nuvem difusa, um poderoso Brasil nefelibata que, desde Cabral, de alto a baixo, ama o Estado. Nos auditórios acadêmicos de prestígio, o país vive renitentemente o sonho de Platão. No fundo da caverna de sombras, a realidade é só uma lembrança paradisíaca a ser resgatada, de acordo com um sagrado modelo em sépia.

Boa parte da inteligência brasileira, como o filósofo em Siracusa, achou que havia tomado o poder, doravante seu irmão e seu companheiro, e o fim da história estava próximo, pela confortável força das ideias. O intelectual talvez tenha-se imaginado governo, e viu que aquilo era bom.

O pobre do Custódio da Confeitaria nem precisava se afligir com a mudança -para nossa felicidade, mais uma vez houve apenas o simples triunfo da política sobre o vazio.
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Cristovão Tezza, 63, é escritor. Publicou, entre outros, os romances "Trapo"(1988), "O Fotógrafo" (2004),"O Filho Eterno" (2007) e "O Professor" (2014)

Ordem e progresso - Eliane Cantanhêde

- O Estado de S. Paulo

A marca “Ordem e Progresso” não apenas prestigia o lema positivista da bandeira brasileira como contém uma comparação entre o governo que entra e o governo que sai, por ora, temporariamente. A intenção de Michel Temer é dar “ordem” à bagunça na administração direta, nas estatais, nos fundos de pensão e nas agências, além de tomar medidas duras, mas necessárias, para interromper o ciclo de recessão e retomar um ritmo de “progresso”.

Foi nessas duas direções que Temer montou um ministério que em muitos casos não faz nenhum sentido para a opinião pública em geral (e já apanha de corporações e nichos), mas faz sentido quando ele tem de enfrentar com coragem o problema mais urgente: o rombo das contas públicas. A redução de ministérios, o enxugamento da máquina e sinais de austeridade são apenas sinalizações, mas, quando Temer tenta fazer, a gritaria é ensurdecedora.

Muita calma nessa hora. Itamar, Fernando Henrique, Lula e Dilma tiveram uma trégua ao assumirem a Presidência. Por que não dar uma trégua a Temer, que chega em circunstâncias muito mais difíceis, em meio a um somatório inédito de crises?

Criticar, sim, mas jogar contra, neste momento, extrapola para a irresponsabilidade. A estreia do homem forte da economia, Henrique Meirelles, mobilizou o mundo político e empresarial e o que ficou claro é que a situação fiscal do governo, já dramática, é ainda pior do que se imagina. Vem aí uma auditoria nas contas, para ver o tamanho real do buraco.

Aliás, um dos ralos visados pela equipe de Temer é nos programas sociais, não só para identificar o “mau uso” por incompetência, como disse Meirelles, mas também para descobrir como, quanto e para quem flui, ou pode fluir, o financiamento de CUT, MST, UNE e MTST, que ameaçam infernizar a vida do novo governo. A intenção é secar a fonte, mas distinguindo o que é “programa social” e o que é gás para “grupos articulados” (e inimigos). Um terreno pantanoso.

Em seu derradeiro discurso, enquanto militantes agrediam jornalistas, Dilma acrescentou um novo item na lista para minar a imagem e as chances do presidente interino. Antes, ela dizia que Temer acabaria com os programas sociais e bombardearia a Lava Jato. Na saída, disse que ele também iria “reprimir os movimentos sociais”. Foi uma casca de banana para o sucessor e uma senha para a militância petista.

O governo não pode se expor a cenas de batalha campal, mas também não pode assistir passivamente a um punhado de gatos pintados, numa nova versão dos black blocs, queimando pneus, bloqueando estradas e prejudicando milhares de cidadãos que precisam ir e vir para escolas, fábricas, lojas e escritórios, além de caminhões carregados de mercadorias. Nem pode ser truculento, nem pode ser omisso. Dilma e os militantes trabalham para que seja truculento.

No fim, ela também lançou outra senha: o marketing contra o impeachment “no mundo”. Lula, primeiro, e Dilma, depois, foram lenientes com Cuba, Venezuela, Bolívia, Equador e Nicarágua. Essa brincadeira acabou. Já na sexta-feira, José Serra iniciava o resgate do Itamaraty e a guinada da política externa, lançando notas em tom diplomático, mas duras, contra a ingerência indevida e atrevida desses “bolivarianos” e da Unasul em questões internas.

O grau e a forma da “repressão aos movimentos sociais” podem ser discutíveis, mas a reação brasileira à acusação ou insinuação de “golpe” é inquestionável. E, com certeza, sob aplausos da esmagadora maioria da população, que está cansada dessa lengalenga da esquerda falida da América Latina. A Unasul e os bolivarianos que cuidem da Venezuela, país estraçalhado, onde as pessoas nem têm o que comprar e comer. Aliás, o que anda faltando por lá é um bom, legal e saudável impeachment...

Estrutural horrível, o ciclo ajuda – Samuel Pessôa

- Folha de S. Paulo

O momento atual pode ser caracterizado pela expressão "estrutural horrível, o ciclo ajuda".

A situação estrutural da economia é horrível, pois estamos em plena crise fiscal estrutural e a solução requererá repensar todo o desenho de nosso Estado. A lista de medidas que precisam ser adota- das é longa e interferirá na vida de quase todos.

No entanto, o ciclo ajuda. O elevadíssimo custo social, na forma de desemprego e perda de produto, que a sociedade já pagou até o momento, sugere que nos próximos trimestres o ciclo econômico será favorável: a inflação vai cair, a taxa Selic deve iniciar um ciclo de baixa na virada de 2016 para 2017 e a economia deve voltar a crescer no segundo semestre do ano que vem.

Todo esse cenário otimista tem uma condicionante: o mercado não pode ficar melindrado com a dívida pública testando limites de 75% a 80% do PIB até 2018.

Se o mercado não aceitar a piora do endividamento público, em algum momento à frente o risco e o câmbio serão pressionados e, com eles, as expectativas de inflação. A piora do cenário inflacionário abortaria o ciclo de baixa de Selic, e o espaço para recuperação da economia encolheria.

Essa última possibilidade me parece ser o cenário mais provável. Nele, o governo Temer reproduzirá a trajetória observada na passagem de Joaquim Levy pelo Ministério da Fazenda, iniciada com uma lua de mel.

Conforme se evidenciam os sinais de dificuldades de aprovação de medidas que encaminhem nosso problema fiscal estrutural, os mercados voltam a olhar a evolução do endividamento público. Em algum momento eleva-se a percepção de risco de rolagem da dívida pública. Nessa hora, o câmbio desvaloriza-se e o ajuste cíclico vai para as calendas.

No cenário otimista, Temer consegue aprovar duas ou três medidas importantes, que sinalizam enfrentamento do problema fiscal e que em alguns anos a dívida pública estabilizar-se-á como proporção do PIB. A perspectiva de estabilização da dívida pública mantém o câmbio no patamar atual, e o ciclo, que é favorável, segue seu curso normal: a inflação cai, inicia-se ciclo de queda de Selic e a atividade recupera-se. A economia poderia crescer forte em 2018.

O júri será dado pela política. Ela determinará o espaço que há para aprovações de medidas difíceis, mas necessárias, para encaminhar o problema fiscal estrutural.

Há, portanto, dois cenários pOlíticos. O cenário pessimista lembra que Temer não foi eleito. Não houve um processo de discussão franco e aberto pela sociedade de nossos problemas fiscais. Não há, portanto, delegação para Temer e o Congresso aprovarem medi- das duras, mas necessárias. Quando ficar clara essa incapacidade, o risco-país subirá e, com ele, o câmbio e os juros.

O cenário político otimista assevera que os políticos que votaram favoravelmente ao impeachment da presidente Dilma Rousseff vincularam seu futuro político ao sucesso do governo Temer. Particularmente, um retorno de Lula em 2018 seria muito ruim para eles.

Esses políticos olham o futuro. Se forem convencidos por Temer de que a aprovação de medidas difíceis é necessária para a economia estar bem em 2018, eles as aprovarão. O custo político agora será mais do que recompensado pela elevação da popularidade de um governo Temer, se a economia e o emprego estiverem bem melhores em 2018 do que estão agora.

Façam suas apostas.

Lula e a manipulação do radicalismo - Elio Gaspari

- O Globo

Estava estranho aquele Lula logo atrás de Dilma Rousseff enquanto ela discursava para a militância petista. Ausente, cofiava o bigode, alisava a barba, enxugava o rosto e raramente olhava para ela. Aplaudiu poucas vezes e apressou-se com as palmas quando percebeu que Dilma concluiria. Era um momento penoso, fazia um calor de rachar e sua camisa estava ensopada, mas Lula é um profissional de palanque. Um simples gesto teria cortado esse constrangimento explícito.

A rainha de copas saiu do baralho, mas o rei de paus está na mesa. Gilberto Carvalho, assessor e confidente de Lula durante os dois mandatos em que governou o país, informou: “Ele vai continuar a luta. Vai andar pelo Brasil todo” buscando uma “unidade de ação” contra o governo de Temer.

Lula promete “percorrer o Brasil” desde 2014, quando começou a Lava-Jato. Promete, mas não vai. Já se foi o tempo em que percorreria o Brasil de ônibus juntando multidões e simpatia. Seus últimos percursos deram-se em jatinhos de amigos. Admita-se que ele de fato tente formar uma frente oposicionista ao governo Temer.

Com 13 anos de poder, o comissariado petista tem conhecimentos para fazer oposição parlamentar, tanto a construtiva como a destrutiva. (Tem também um arquivo superior ao do juiz Sérgio Moro, mas deixa pra lá.)

Contudo, no universo político de Lula aparece outro tipo de oposição. Em fevereiro do ano passado, ele avisou: “Quero paz e democracia, mas também sabemos brigar. Sobretudo quando o Stédile colocar o exército dele nas ruas”. (A ver se João Pedro Stédile tem exércitos sem verbas oficiais.) Poderia ser um arroubo de palanque, mas os grampos que captaram suas conversas telefônicas informam que, na noite de 9 de março passado, Lula contou ao presidente da CUT: “Hoje eu disse para os senadores que eu não quero incendiar o país! Eu sou a única pessoa que poderia incendiar este país... Eu não quero fazer como Nero, sabe? Não quero! Sou um homem de paz, tenho família”.

Lula sempre manipulou habilmente o radicalismo alheio. Não é à toa que estão na cadeia grandes empresários, o tesoureiro do PT e José Dirceu, chefe de sua Casa Civil. Todos foram para lá levados pela cobiça, nenhum por delitos decorrentes do radicalismo político.

O imaginário petista parece estar esperando um passo em falso de Temer. Discursando dentro do Planalto, Dilma especulou sobre a conduta de “um governo que não terá a legitimidade para propor e implementar soluções para os desafios do Brasil, um governo que pode se ver tentado a reprimir os que protestam contra ele”. Pouco depois, falando à militância, repetiu a praga.

Assim, são duas as cartas manipuladas. Lula com a ameaça do incêndio e Dilma com o verbo “reprimir”. Se as coisas continuarem no campo da retórica, tudo bem. Desde 2013, o povo vai à rua, o Brasil mudou com muito pouca violência. Além disso, no Brasil de hoje há um professor de Direito Constitucional na Presidência e outro, Alexandre de Moraes, no Ministério da Justiça. Tanto Temer como Moraes são também ex-secretários de Segurança de São Paulo. Moraes mostrou-se um chefe de polícia enérgico nos atos e apocalíptico nas palavras.

Referindo-se a desordeiros que bloquearam estradas, disse que “eles agiram como atos de guerrilha”.

Comparar quem bloqueia rua a guerrilheiro é uma manipulação semelhante à classificação dos assassinos de um marinheiro inglês que visitava o Rio como militantes da causa democrática, combatendo a ditadura do século passado.

Uma nova chave - José de Souza Martins

• O futuro do PT não poderá depender de suas bases de origem, minadas pelos próprios governos petistas. Mas pode se valer de Lula para promover uma rotação de lideranças e recriar o partido, afirma sociólogo

- O Estado de S. Paulo / Alás

O afastamento da presidente Dilma Rousseff da Presidência da República, pelo Senado Federal, e a instalação do processo de seu impedimento, abrem um cenário de dúvidas e de incertezas muito além das urgências de política econômica que devem motivar o novo governo. O partido afastado governou motivado por fatores muito diversos dos fatores que motivam a ascensão do vice-presidente ao poder. Se há um problema de fundo que dinamiza o afastamento da presidente, o das pedaladas fiscais, que justificam as formalidades do processo, há uma trama paralela de problemas que a remoção provisória do governo trouxe à tona. Essa trama é que presidirá a transição e colocará o PT na adversa situação de se insurgir contra o que já não é o governo da fantasia petista do confronto.

O quadro da crise não está claro nem para os protagonistas, de um lado e de outro. Os que saem deram, supostamente, prioridade à solução das questões sociais, ainda que agravando a questão econômica; os que entram propondo prioridade às questões econômicas, ainda que com o sacrifício das soluções para os problemas sociais. Essa diferença pautará o destino do PT agora oposicionista, mas pautará, também, o destino do novo governo e seus aliados. A chave da História pode ter mudado.

A compreensão desse processo pede que as análises se desenvolvam muito além dos quadros mentais próprios do PT, que dominam a narrativa da circunstância atual e a dominarão por longo tempo ainda, quer a presidente retorne ao poder, quer seja afastada definitivamente. Os valores, a visão de mundo e a ideologia petistas não serão banidos nem com o afastamento da presidente ou, mesmo, seu impedimento, nem serão reforçados com seu eventual retorno ao poder. No desconstrutivo julgamento do Senado, a sorte do País foi lançada. Quaisquer que sejam as consequências, o Brasil nunca mais será o mesmo, nem para os petistas nem para seus opositores. Mesmo fora do poder, o petismo se tornou protagonista histórico da nação: sua visão milenarista do mundo domina e dominará as polarizações e antagonismos da sociedade brasileira por longo tempo, até que nos emancipemos do misticismo que domina nossa consciência social e política.

O sistema de categorias interpretativas que os petistas utilizam para explicar seus êxitos e para explicar suas adversidades é um sistema conceitualmente pobre e mecanicista. Não lhes permite, portanto, dar conta das contradições que alcançam e atravessam sua prática porque os priva da consciência da historicidade própria da práxis das categorias sociais em nome das quais falam e agem. Embora Dilma e Lula falem o tempo todo em nome da história. A história ruim, que passou, e a história boa que inauguraram: “nunca antes na história deste País” é um bom exemplo de afirmação dessa concepção de história, a própria e a alheia. Um componente religioso faz o PT conceber-se como protagonista único da história, numa curiosa fusão da concepção marxista vulgar da História, de que o proletariado é o ator final do processo histórico, com a escatologia católica, dos pobres como depositários sem pecado da missão redentora da salvação, personificações de um ideal profético da redenção humana de todas as misérias, mesmo as misérias materiais.

Nessa concepção, o processo histórico é prisioneiro de um movimento pendular e mecânico que oscila entre o bem e o mal, mesmo quando o bem está contaminado pelas células do mal, acobertados pela teatralidade da vida cotidiana, quando já não somos nós mesmos, subjugados mais pela necessidade de fingir do que pela necessidade de ser. Do mesmo modo, o mal submergiu nas profundezas do inautêntico, inocentado e acobertado pelo fingimento por meio do qual nos expressamos. O que as investigações e revelações dos anos recentes tem feito, aqui no Brasil, é levantar esse véu da duplicidade própria da sociedade contemporânea, em busca do autêntico que já ninguém é nem na política nem na vida comum. Os supostamente éticos se surpreenderam por terem sido descobertos como não éticos, acusados e removidos. Os outros, do outro lado, nem se surpreendem, apesar de satanizados e estigmatizados por seus adversários, por terem sido descobertos como úteis e necessários à remoção das contradições para destravar o processo histórico. Cada qual cumpre a missão oposta à dos equívocos ideológicos de sua consciência social e política.

É nessa perspectiva que se pode avaliar de modo abrangente os impasses deste momento, sobretudo seus desdobramentos no que poderá acontecer tanto com o PT quanto com os partidos aos quais o PT se opõe. Os partidos opostos ao PT são doutrinariamente frágeis, sem bases nas massas ativas. Com exceção dos partidos em que a influência evangélica é decisiva, cujas bases estão mobilizadas ativamente em defesa de valores sociais caros às suas doutrinas religiosas. Na aba conservadora do processo político brasileiro, doutrinariamente coesos, tem tido condições de eleger quadros, em todos os âmbitos, que os tornam sujeitos significativos da realidade política.

Com a mesma consistência, na aba de esquerda do processo político, está o PT. A admissão do processo de impedimento da presidente da República está longe de desmantelar seu protagonismo político. Ao contrário, poderá reforçá-lo significativamente. Toda ideologia de base do partido é a da vítima. O PT cresceu em nome dos trabalhadores, mas sobretudo em nome dos pobres, dos historicamente injustiçados, como as mulheres, os negros, os indígenas, os desvalidos. Cresceu como adversário do capital, em particular do capital internacional e sua ideologia neoliberal, pai de todas as injustiças, há 500 anos, desde quando o capitalismo ainda não existia.

A compreensão do futuro do PT depende de compreendermos o que aconteceu com esse legado ideológico. A começar do elo essencial entre o partido e a classe trabalhadora. Desde o surgimento do partido, a industrialização sofreu transformações profundas. O próprio Lula, se decidisse voltar para a fábrica, descobriria que sua profissão de torneiro-mecânico já não existe. Foi substituída por computadores, que não fazem greve, não reclamam, não pedem aumento.

Desde a formação do PT, o capital variável, o do trabalho, encolheu em face do capital constante, o da máquina. O capital mudou de composição à custa da crescente insignificância do trabalho e da pessoa que trabalha. Esta é a sociedade do desemprego, dos que foram descartados pelo sistema produtivo. Para que esta sociedade funcione, é necessário que haja sempre desempregados. Portanto, a classe operária da formação do PT já não é mais a mesma. Os filhos do proletariado dos tempos de Lula ascenderam para a classe média, mergulharam na sociedade de consumo, já não aspiram apenas ao salário, tornaram-se adeptos do capitalismo, conservadores e até reacionários. As eleições no ABC mostram isso cada vez mais.

Um outro setor decisivo na formação do PT foi o setor católico, das comunidades de base e da aguerrida base dos trabalhadores rurais sem terra, informalmente ligados à Igreja. No entanto, esse grupo está muito modificado. O episcopado já não tem pelo PT o mesmo apreço de antes. Em 2003, Lula foi entusiasticamente acolhido na assembleia da Conferência Episcopal. Não há nenhum indício de que os bispos se dispusessem, hoje, a repetir o ato. Ao longo dos últimos anos, não só Lula descartou os militantes católicos do PT que faziam a ligação entre bases sociais do governo e a CNBB, como os bispos reduziram significativamente sua proximidade com o partido. Antes mesmo que o PT surgisse, uma parcela dos agentes de pastoral formou o MST, libertando-se da tutela dos bispos. Foram ativíssimos no enfraquecimento do governo FHC, com as ocupações de terras reguladas pelo calendário eleitoral. Mas foram enfraquecidos pelo surgimento de mais de 70 organizações similares e dissidentes. Foram decisivos na eleição de Lula. Mas quando Lula assumiu a Presidência, tratou, em pouco tempo, de esvaziar o protagonismo dessa organização, xiita, como ele a denominava, sobretudo com a criação da versão petista do Bolsa Família, que acabou instituindo uma tutela sobre 42 milhões de pessoas, capaz de esvaziar um campo decisivo no recrutamento de militantes do movimento.

O futuro do PT não poderá depender da reconstituição de suas bases de origem, que foram as bases do PT radical e demolidor. Elas foram minadas pelos próprios governos petistas, mais por Dilma do que por Lula. O PT se aliou a inimigos históricos dessas bases. Vai ser difícil justificar essas alianças e ganhar novamente a confiança dos que foram deixados para trás. No entanto, Lula tem um carisma próprio e resistente que poderá dar ao partido novas oportunidades, especialmente num cenário em que os outros partidos estão enfraquecidos e desgastados. Talvez uma nova geração de dirigentes possa valer-se de Lula para reconstituir o partido, promovendo internamente uma rotação de elites.

A principal arma que o PT começou a brandir, porém, no dia da condução coercitiva de Lula à Polícia Federal, foi a da ameaça do “posso incendiar esse país”. Pode. Várias demonstrações tópicas da ação de multidões tem se espalhado pelo Brasil, raramente com clareza suficiente para agregar simpatizantes e aderentes. O PT poderá eleger não só o governo Temer como alvo desse ímpeto incendiário. Mas os partidos que historicamente foram escolhidos por sua obsessão antagônica desde a disputa entre Lula e Fernando Henrique Cardoso, em 1998, já não estão desabrigados. Estão munidos e documentados de todos os problemas que o PT deixa, justamente, nos campos mais nobres de suas promessas não cumpridas ou mal cumpridas. O PT de 2016 é um partido desprotegido e frágil, ainda que possa mobilizar multidões para vingar a derrota da eficácia de seu milenarismo, cujo governo está em julgamento. A consigna de considerar que a guerra ainda é a dos éticos do PT contra os maus das oposições não resistirá à metamorfose dialética que converte os opostos no seu contrário.

Recuperar, desarmar – Editorial / Folha de S. Paulo

O impeachment não foi, na opinião deste jornal, a melhor resolução do impasse que paralisava o país havia meses.

Todo o processo vem ocorrendo de forma constitucional, sob supervisão de uma suprema corte insuspeita e assegurando-se amplo direito de defesa à presidente afastada.

A noção de que estaria em curso um golpe de Estado só não é estapafúrdia porque se filia mais à propaganda do que à análise política. Serve à surrada versão (Fernando Collor já a adotava em sua época) de que o PT é vítima de alguma conspiração de elites, e não de seus clamorosos erros e delitos.

Ainda assim, não foi o desenlace ideal. Embora as fraudes orçamentárias que Dilma Rousseff praticou em escala inaudita sejam motivo previsto na Constituição e na lei para impedimento, trata-se de tecnicalidade que a maioria das pessoas ignora.

O impeachment é um juízo jurídico-político; foi este último aspecto que prevaleceu. Pelo descalabro econômico, pela profusão de escândalos comandados pelo PT, sobretudo pela perda de toda capacidade governativa, o afastamento de Dilma Rousseff surgia como pré-requisito de uma recuperação urgente.

Deixa um rastro, porém, de inconformismo numa minoria expressiva (cerca de 25% da população) que o considera ilegítimo. E propiciou a ascensão de um presidente experimentado, mas sem respaldo popular, que executará um programa em muitos aspectos oposto ao conto de fadas que o eleitorado sufragou em 2014.

Por esses motivos, esta Folha teria preferido que a conjuntura dramática forçasse a chapa então eleita a renunciar —ou o Superior Tribunal Eleitoral a invalidar sua eleição, caso se comprovem os indícios de financiamento delituoso da campanha.

A crise que atravessamos é profunda o bastante para tornar desejável um retorno à fonte de onde deriva o poder da autoridade política, por meio de consulta à totalidade dos cidadãos.

Pela Constituição, no entanto, Michel Temer é o presidente interino e deve ser respeitado como tal. Seu governo decepciona pela composição em tantos casos medíocre, mas abriga uma equipe econômica competente que anuncia diretrizes corretas e inadiáveis.

Há algo de pendular nessas mudanças; o governo Temer deveria evitar que a lógica da polaridade o levasse a um rumo demasiado conservador, que o distancie do centro político, preferência constante da maioria do eleitorado.

Seu objetivo maior, além de recuperar a economia, deveria ser desarmar espíritos na sociedade.

As marcas de um novo estilo – Editorial / O Estado de S. Paulo

Realismo, austeridade e eficiência no uso do dinheiro público foram os grandes temas do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, em sua primeira entrevista coletiva. Ao insistir nesses pontos, ele tentou marcar a diferença entre o novo governo e a administração anterior, com suas metas irrealistas e promessas descumpridas. A mesma preocupação ficou clara nas palavras de seu colega do Planejamento, Romero Jucá, logo depois da primeira reunião ministerial conduzida pelo presidente interino Michel Temer. Segundo Jucá, o modelo da nova gestão será “mais estável, equilibrado, menos intervencionista, menos ideológico e menos centralizador”. Na mesma fala, o ministro do Planejamento anunciou a extinção, até o fim do ano, de 4 mil cargos preenchidos sem concurso. Isso corresponde, acrescentou, ao dobro dos cortes prometidos e nunca realizados pela equipe da presidente recém-afastada.

Mudar a meta fiscal para 2016 é uma das preocupações imediatas do novo governo, confirmada, em entrevistas separadas, pelos dois ministros. A administração anterior já havia mandado ao Congresso um projeto de alteração, para tornar admissível um déficit primário de até R$ 96,95 bilhões. Mesmo esse valor já parece inalcançável, observou Meirelles, sem mencionar, no entanto, um alvo diferente. O passo inicial, esclareceu, é tentar conhecer a situação real das contas públicas, para evitar uma nova mudança de objetivo.

O ministro Meirelles confirmou a disposição de rever os gastos e de buscar maior eficiência no uso do dinheiro. O governo manterá os programas sociais, como indicou o presidente Michel Temer, mas deverá reavaliar o uso do dinheiro. A mesma revisão deverá ocorrer no caso das desonerações e outros benefícios fiscais, incluídos no bolo já batizado como bolsa empresário.

Essa bolsa, de acordo com o ministro da Fazenda, é muito mais custosa que os chamados programas sociais. Bater nesse ponto é especialmente importante, como esclarecimento. Segundo a presidente afastada, as pedaladas fiscais ocorreram porque o governo insistiu em manter o apoio aos beneficiários daqueles programas – uma alegação contrária à evidência dos números.

O ministro poderia ter mencionado, ainda, a ineficiência da bolsa empresário como instrumento de política econômica, um ponto evidenciado pelo baixo desempenho da economia nos últimos cinco anos.
O controle de gastos deve ser, segundo o ministro da Fazenda, o caminho principal da arrumação das contas. Mas ele recusou descartar um aumento de impostos, se a política de austeridade for insuficiente. Se houver aumento, esclareceu, será temporário. Mas também preservou a possibilidade de retorno, por tempo limitado, do imposto do cheque, a CPMF. Se o governo recorrer a isso, será a parte negativa do programa de ajuste, especialmente se a receita for dividida com os Estados. Neste caso, a marcha a ré será muito mais difícil, até porque o ministro promete ser duro na renegociação das dívidas estaduais. Conseguirá negociar dessa forma sem ceder, por exemplo, na manutenção da CPMF?

Conter o avanço da dívida pública, para reduzir seu peso na fase seguinte, deve ser um dos objetivos da política fiscal. A nova estratégia deve incluir, segundo o ministro da Fazenda, mecanismos de limitação dos gastos. A estratégia deverá incluir, antecipou Meirelles, a fixação de metas nominais, sem, portanto, indexação de valores. Mas essas medidas estão sendo maturadas, admitiu.
A política deve incluir, para efeito de prazo mais longo, a reforma da Previdência, com fixação de idade mínima e de uma regra de transição. O debate já avançou e o governo deve aproveitar o ambiente inicialmente favorável para propor inovações desse tipo.

O ministro ainda marcou a mudança de estilos ao anunciar critérios profissionais para a seleção de diretores dos bancos públicos. Mas será preciso muito mais para reduzir a influência partidária nas estatais e na administração. Por esse caminho o Brasil acabará chegando ao século 21.

Impeachment mostra que Brasil não é Venezuela – Editorial / O Globo

• Estranho golpe este em que a vítima recorre à Justiça, seu afastamento do poder é decidido com transparência pelo Legislativo e ela ainda pode voltar ao cargo

É possível que a campanha de agitação e propaganda (Agitprop) desfechada pelo lulopetismo também no exterior, para difundir a delirante versão de que o processo de impeachment da agora presidente afastada Dilma Rousseff é um “golpe”, tenha induzido a se pensar lá fora que o Brasil passa por um preocupante retrocesso político-institucional.

Nada mais falso. As instituições republicanas, mais consolidadas do que em 1992, quando houve o primeiro impeachment de um presidente, Fernando Collor, funcionam bem, e os pesos e contrapesos característicos de uma democracia representativa atuam a contento.

A patranha de denunciar um “golpe” no Brasil é facilmente desmontada se forem feitas algumas perguntas simples: por que a presidente suposta vítima desta ruptura da ordem institucional não busca asilo no exterior? Em vez disso, por que recorre com frequência ao Supremo Tribunal Federal, quando, em golpes, o Poder Judiciário, junto com o Legislativo, é sempre manietado?

Estranho golpe este, em que o Congresso funciona livremente, a ponto de admitir o processo de julgamento do chefe do Executivo, por crimes de responsabilidade. E o Judiciário medeia divergências entre Executivo e Legislativo em torno do assunto, e suas deliberações são, estranhamente, obedecidas.

Tivesse ido o Brasil no mesmo caminho da Venezuela chavista — bem que alguns seguidores do lulopetismo gostariam —, a presidente Dilma estaria imune a qualquer ação do Legislativo e do Judiciário.

Porque uma característica básica dos regimes da onda nacional-populista que começou a varrer a América Latina a partir do início da década de 90 — e já perde força, felizmente — é eles serem verticais. O chefe do Executivo detém todos os poderes, e a ele se subordinam o Legislativo e o Judiciário.

A Venezuela chavista, em crise terminal, é exemplar. A assembleia nacional só recentemente passou a ter maioria oposicionista, mas, como resposta, o regime, com Nicolás Maduro à frente, passou a governar com o tribunal superior, aparelhado de juízes militantes. Uma excrescência. O que a oposição aprova na assembleia é revogado pela Corte.

É uma evidência gritante que o Brasil nada tem a ver com a Venezuela. E por isso é possível o Congresso processar um presidente, e puni-lo. Não importa a votação que tenha obtido nas urnas.

Este aspecto tem sido de difícil compreensão para petistas e em especial a presidente afastada. Ela costuma citar os 54 milhões de votos que amealhou na reeleição como se pudessem torná-la inimputável. Ideia equivocada. Nenhuma quantidade de votos coloca o governante a salvo de preceitos constitucionais e de leis. Afinal, por suposto, Brasil não é Venezuela.

Rua Prado Júnior, 16 – Ferreira Gullar

- Folha de S. Paulo

Moro em Copacabana, na rua Duvivier. Para quem vem de Botafogo pelo Túnel Novo, duas ruas antes é a Prado Júnior. Embora eu more ali perto, raramente caminho até lá, como fazia antigamente.

Melhor dizendo, muito antigamente, já que se passaram mais de 60 anos do tempo em que com frequência andava por ali. Vinha do Catete, onde morava numa vaga da pensão de Dona Hortência, na rua Buarque de Macedo.

Ainda não havia o Aterro do Flamengo, embora já houvesse o Túnel Novo. Saindo do túnel, os ônibus tomavam, em seguida, a rua Barata Ribeiro, entrada de Copacabana, onde eu descia e seguia pela Prado Júnior. E sabem por quê? Porque nela morava, num prédio de esquina com a avenida Atlântica, minha amiga Lygia Clark.

Isso foi no começo da década de 1950, quando se iniciou no Brasil o movimento da arte concreta. O foco, porém, daquela nova tendência estética era o apartamento de Mário Pedrosa, que ficava na rua Visconde Pirajá, em Ipanema. Lá conheci Lygia Clark, Franz Weissmann, Amilcar de Castro, Aluísio Carvão, Lygia Pape e Hélio Oiticica, então um garoto, que iniciaram o movimento concretista.

Mas era no apartamento de Lygia Clark –onde ela morava com seus três filhos– que também nos reuníamos para ver seus trabalhos e trocarmos ideias.

Foi lá que, de certo modo, nasceu a arte neoconcreta, em começos de 1959. De fato, o movimento concretista, além do grupo do Rio, tinha também seus adeptos paulistas, liderados por Waldemar Cordeiro. A esse grupo de pintores se juntariam os três poetas paulistas que comigo, no Rio, inventaram a poesia concreta.

Sucede que, no grupo paulista, tanto Cordeiro quanto os poetas eram mais teóricos que os concretistas cariocas, voltados prioritariamente para a intuição e a inventividade.

Essa diferença provocou a ruptura entre os dois grupos, especialmente entre os poetas. Tal divergência já era sintoma da evolução particular do grupo carioca, que se tornava cada vez mais distante da herança europeia, maxbiliana.

Foi então que, certa noite, durante um jantar em seu apartamento, Lygia sugeriu que o grupo do Rio fizesse uma exposição de seus últimos trabalhos, reunindo tanto os artistas plásticos como os poetas. E eu escreveria a apresentação da mostra.

A ideia foi aceita, e então tive que ver as obras de cada um para escrever o texto de apresentação.

Depois de vê-las, pedi uma nova reunião do grupo e, lá, no apartamento da Lygia, afirmei que, na verdade, o que estávamos fazendo já não era a arte concreta, era outra coisa. Por isso, propus que, em vez de escrever uma apresentação, escreveria um manifesto, definindo o que inventávamos como arte neoconcreta.

O grupo concordou, e assim teve início o movimento, cujo lançamento se deu em março de 1959, no Museu de Arte Moderna do Rio, com a exposição de nossos trabalhos e o manifesto que então redigi. Mário Pedrosa, que estava de viagem ao Japão, quando voltou, deparou-se com essa novidade: a arte concreta, que ele introduzira no Brasil, virara outra coisa.

Nessa época, Lygia passou a namorar Jean Boghici, que se tornaria mais tarde marchand de tableaux. Com maior constância, passei a frequentar a casa de Lygia que, além do mais, era uma pessoa afetuosa e engraçada.

Lembro-me de um dia em que um de seus filhos, ouvindo nossa conversa, perguntou: "Mamãe, o que é 'psicanagem'?". E ela respondeu: "Meu filho, é a mesma coisa que sacanagem". Sim, mas ela própria se tratava com um psicanalista.

Pois bem, se escrevo agora essas coisas é porque nesta semana saí caminhando pela avenida Atlântica e, quando dei por mim, estava na esquina da rua Prado Júnior, em frente ao edifício número 16, em que Lygia morara. Ergui a vista e me fixei no oitavo andar, onde ficava o apartamento dela.

Uma estranha sensação tomou conta de mim ao pensar que agora, naquele apartamento, moram outras pessoas, que possivelmente nada sabem dessas coisas de que falo aqui.

Nem Lygia, nem Mário, nem Weissmann, nem Amilcar, nem Oiticica existem mais. E, naquelas salas e quartos, onde outrora conversávamos e ríamos, não resta qualquer traço de nós nem daquele tempo.

Teresa Cristina - Senhora tentação

Tabacaria – Fernando Pessoa

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo.
que ninguém sabe quem é
( E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes
e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.

sábado, 14 de maio de 2016

Opinião do dia – Roberto Freire

“A gravidade da hora não nos permite fugir de nossas responsabilidades com o Brasil e com os brasileiros. A estrada será longa, o caminho pode ser tortuoso, mas não devemos ter medo da mudança, da história ou do futuro que já se apresenta bem diante dos nossos olhos. É hora de virar a página e recuperar o país, tão castigado nos últimos 13 anos. Que venha o novo governo, que venha um novo Brasil!”

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Roberto Freire é deputado federal por São Paulo e presidente nacional do PPS. ‘Sem medo do futuro, por um novo Brasil!’ – Artigo no Blog do Noblat/ O Globo, 13/5/2016

Itamaraty repudia críticas de países vizinhos ao impeachment

• Nota diz que os governos da Venezuela, Cuba, Bolívia, Equador e Nicarágua estariam 'propagando falsidades' sobre o processo político interno do Brasil; Maduro chamou embaixador de volta

Isabela Bonfim, Ricardo Galhardo e Tânia Monteiro - O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - O Ministério das Relações Exteriores, já sob a gestão do tucano José Serra (SP), repudiou nesta sexta-feira, 13, declarações dos países vizinhos que criticaram o processo de impeachment. Em nota, a assessoria de imprensa do gabinete criticou a União das Nações Sul-Americanas (Unasul) e governos da Venezuela, Cuba, Bolívia, Equador e Nicarágua. O posicionamento inaugura a nova política externa do governo Michel Temer.

No mesmo dia, o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, anunciou, durante a reunião do Conselho de Ministros, que solicitou o retorno a Caracas do embaixador venezuelano no Brasil, Alberto Castellar, em razão do afastamento da presidente Dilma Rousseff.

Um dos alvos das críticas feitas pelo Itamaraty é o secretário-geral da Unasul, Ernesto Samper, que, segundo comunicado, qualificou de maneira equivocada o funcionamento das instituições brasileiras. "Os argumentos apresentados, além de errôneos, deixam transparecer juízos de valor infundados e preconceitos contra o Estado brasileiro. Além disso, transmitem a interpretação absurda de que as liberdades democráticas, o sistema representativo, os direitos humanos e sociais e as conquistas da sociedade brasileira se encontrariam em perigo. A realidade é oposta", diz a nota.

Desde que o processo ainda tramitava na Câmara dos Deputados, o secretário-geral da Unasul lança notas em críticas ao afastamento da presidente Dilma Rousseff. "Se se continuar neste processo, poderíamos chegar a uma ruptura que seria preciso levar os países a analisar a aplicação ou não da cláusula democrática", disse o ex-presidente colombiano no dia da aprovação do impeachment no Senado, durante coletiva de imprensa na sede do organismo, nos arredores de Quito.
Segundo a assessoria de imprensa do gabinete do Ministério de Relações Exteriores, os juízos e interpretações de Samper são "incompatíveis" com as funções que exerce e com o mandato que recebeu na Unasul.

Em outra nota, o Itamaraty critica diretamente alguns países vizinhos, além da Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América. De acordo com o comunicado, os governos da Venezuela, Cuba, Bolívia, Equador e Nicarágua estariam "propagando falsidades" sobre o processo político interno do Brasil.
"Como qualquer observador isento pode constatar, o processo de impedimento é previsão constitucional; o rito estabelecido na Constituição e na Lei foi seguido rigorosamente, com aval e determinação do STF; e o Vice-Presidente assumiu a presidência por determinação da Constituição Federal, nos termos por ela fixados", diz o documento.

Reação. O Ministério das Relações Exteriores disse que não foi informado oficialmente sobre a retirada do embaixador da Venezuela no Brasil. O Itamaraty sabe, no entanto, que a imprensa daquele País está noticiando que o governo venezuelano mandou que seu embaixador retornasse a Caracas, em represália à nota divulgada pelo Itamaraty.

Diplomatas ouvidos pelo Estado disseram que quando um País age desta forma em relação ao Brasil, o Itamaraty reage com decisão semelhante. Com isso, caso a retirada se confirme oficialmente, a qualquer momento, Brasil poderá retirar seu embaixador de Caracas. Na linguagem diplomática, a retirada do representante diplomático de um País é um sinal grave de estremecimento das relações e o primeiro passo em relação a um afastamento entre os países que, em última instância pode levar até ao rompimento entre as nações.

Governos. Após tomarem conhecimento da decisão do Senado de afastar a presidente Dilma temporariamente, representantes dos governos latino-americanos divulgaram notas de apoio à presidente afastada. Maduro, da Venezuela, qualificou a saída de Dilma como um “golpe de Estado” e um “sinal grave e perigoso para o futuro da estabilidade de todo o continente.”

Em carta enviada a Dilma, o presidente da Nicarágua, Daniel Ortega se disse “indignado” com o “processo antidemocrático”. O governo cubano falou em “contraofensiva reacionária do imperialismo”. Evo Morales, da Bolívia, considerou um “atentado contra a democracia e a estabilidade política do Brasil e da região”, enquanto O governo colombiano disse esperar que a “estabilidade" brasileira se preserve.

Maduro chama embaixador venezuelano no Brasil de volta ao país após afastamento de Dilma

• O sucessor de Hugo Chávez classificou como uma 'canalhada' o afastamento da petista

Ricardo Galhardo - O Estado de S. Paulo

O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, anunciou nesta sexta-feira, durante a reunião do Conselho de Ministros, que solicitou o retorno a Caracas do embaixador venezuelano no Brasil, Alberto Castellar, em razão do afastamento da presidente Dilma Rousseff.

“Estamos revisando o que acontece na América Latina, o golpe de Estado parlamentar que se deu contra a presidente constitucional do Brasil, Dilma Rousseff. Pedi ao embaixador no Brasil, Alberto Castellar, que viesse para uma reunião junto com a chanceler (Delcy Rodríguez) e o vice presidente executivo (Aristóbulo Istúriz). Estamos avaliando esta dolorosa página da história do Brasil”, disse Maduro em cadeia nacional de TV.

O anúncio aconteceu no mesmo dia em que o Itamaraty, sob comando do novo ministro das Relações Exeteriores, José Serra, divulgou nota criticando as declarações feitas por autoridades da Venezuela, Equador, Bolívia, Cuba, Nicarágua e a direção da União das Nações Sul Americanas (Unasul) sobre o processo de impeachment de Dilma.

Maduro, no entanto, não mencionou a nota de Serra na sua argumentação. O sucessor de Hugo Chávez classificou como uma “canalhada” o afastamento de Dilma e se disse preocupado com a possibilidade de que a queda da petista traga instabilidade a toda a região.

“É uma jogada totalmente injusta contra uma mulher que é uma grande patriota brasileira que teve coragem de enfrentar a ditadura. Uma canalhada contra ela, contra sua honra, contra a democracia. Temos de dizer isso a todo o continente”, afirmou o presidente venezuelano.

Maduro manifestou preocupação com a possibilidade de que o impeachment da presidente do maior país sul-americano possa trazer de volta à região o “vírus do golpismo” e reações violentas como a “luta armada da juventude”.

Brasil pode retirar embaixador de Caracas se confirmado que venezuelano foi chamado por Maduro

• De acordo com diplomatas consultados, quando um país age desta forma em relação ao Brasil, o Itamaraty reage com decisão semelhante

Tânia Monteiro - O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - O Ministério das Relações Exteriores disse que não foi informado oficialmente sobre a possível retirada do embaixador da Venezuela no Brasil. O Itamaraty sabe, no entanto, que a imprensa venezuelana está noticiando que o governo de Nicolás Maduro mandou que seu embaixador retornasse a Caracas, em represália à nota divulgada pelo Itamaraty "rejeitando enfaticamente as manifestações dos governos de Venezuela, Cuba, Bolívia, Equador e Nicarágua, assim como da Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América/Tratado de Cooperação dos Povos (ALBA/TCP), que se permitem opinar e propagar falsidades sobre o processo político interno no Brasil".

Diplomatas ouvidos pelo Estado disseram que, quando um país age desta forma em relação ao Brasil, o Itamaraty reage com decisão semelhante. Com isso, caso a retirada se confirme oficialmente, a qualquer momento, Brasil poderá retirar seu embaixador de Caracas.

Unasul e governos latino-americanos dizem temer que 'instabilidade' no Brasil afete a região

• Segundo o secretário-geral do organismo, Ernesto Samper, há atores políticos no País 'que estão fazendo política sem responsabilidade política'; governantes demonstram apoio a Dilma

- O Estado de S. Paulo

QUITO (EQUADOR) - A União de Nações Sul-Americanas (Unasul) e governos latino-americanos se mostraram temerosos com a instabilidade que o afastamento da presidente Dilma Rousseff pelo Senado, aprovado na manhã da quinta-feira, 12, possa trazer para a região.

Em entrevista coletiva em Quito, sede permanente da Unasul, o secretário-geral do organismo Ernesto Samper se pronunciou logo depois de o Senado aprovar a abertura de processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff. Segundo o secretário-geral, há atores políticos no País "que estão fazendo política sem responsabilidade política".
Para a Secretaria-Geral da Unasul, acrescentou Samper, esses atores "estão comprometendo a governabilidade democrática da região de uma maneira perigosa".

O representante do bloco sul-americano reiterou que não existem acusações sobre a conduta da governante brasileira e, quanto às "acusações administrativas" feitas contra Dilma, considerou que não justificam "um processo de cassação como o que se iniciou".

Segundo Samper, se for aceito que tais acusações têm valor para isso, qualquer presidente poderia ser cassado "por uma simples atuação administrativa que se considere equivocada".

O ex-presidente da Colômbia, que governou entre 1994 e 1998, declarou ainda que o procedimento aberto no Brasil poderia violar "o princípio de separação de poderes" ao outorgar ao Congresso "a possibilidade de criminalizar atos administrativos".

No Brasil, "maiorias políticas parlamentares, de alguma maneira, desafiaram as maiorias cidadãs que se expressaram de maneira clara" em favor de Dilma, salientou Samper.

"Nós acreditamos que enquanto este processo seguir adiante ela segue ostentando o título de presidente constitucional do País", disse Samper, que solicitou, em nome da secretária-geral da Unasul que se garanta o direito de defesa da governante e que seja julgada com as garantias próprias de um Estado de Direito.

Governos. Após tomarem conhecimento da decisão do Senado de afastar a presidente Dilma Rousseff temporariamente, representantes dos governos latino-americanos divulgaram notas de apoio à presidente afastada.

O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, classificou a saída de Dilma como um “golpe de Estado” e um “sinal grave e perigoso para o futuro da estabilidade de todo o continente.”

Em carta enviada a Dilma, o presidente da Nicarágua, Daniel Ortega se disse “indignado” com o “processo antidemocrático”. O governo cubano falou em “contraofensiva reacionária do imperialismo”.

Evo Morales, da Bolívia, considerou um “atentado contra a democracia e a estabilidade política do Brasil e da região”, enquanto O governo colombiano disse esperar que a “estabilidade" brasileira se preserve. / EFE

Em editoriais, jornais estrangeiros discordam sobre afastamento de Dilma

• Financial Times dá confiança na equipe econômica de Temer; Guardian fala que reforma política deveria acontecer, não impeachment, e New York Times afirma que Dilma paga preço 'desproporcionalmente alto' por seus erros

Agência Estado - O Estado de S. Paulo

LONDRES - Jornais estrangeiros dedicaram espaço em seus editoriais para falar da situação política no Brasil nesta sexta-feira, 13, um dia depois de Michel Temer assumir interinamente a Presidência da República. Os britânicos "Financial Times" (FT) e "The Guardian" trouxeram visões diferentes sobre o processo de impeachment da presidente afastada Dilma Rousseff. O FT classificou o afastamento como "longe de ser perfeito", mas destacou que, se Temer conseguir colocar a economia de volta aos trilhos e continuar com a luta contra a corrupção, "deixará um legado considerável". Já o Guardian publicou duro editoral, criticando o processo e avaliando que o sistema político é que deveria ser julgado, e não a presidente da República.

FT. O editorial do FT diz que Temer enfrenta uma "tarefa assustadora" na presidência da República com uma crise tripla: econômica, ética e política. No topo das prioridades, o FT diz que está a situação da economia. A nomeação de Henrique Meirelles para o Ministério da Fazenda e o rumor de que Ilan Goldfajn pode ir para o Banco Central são "encorajadores", diz o jornal, que avalia a equipe econômica como "digna de confiança".

O editorial argumenta que nomes como Meirelles e Goldfajn podem gerar um choque positivo nas expectativas, o que já ajudaria a reduzir os prêmios de risco e o custo do crédito para o Brasil. O FT diz que é um bom começo, mas ainda muito longe das reformas estruturais que o Brasil precisa executar para religar a economia.

Sobre a crise ética, o FT lembra que a Operação Lava Jato pesa sobre boa parte do Congresso e até sobre o próprio Temer. Por isso, o editorial defende que o presidente em exercício "deve permitir que as investigações continuem seu curso". "Mesmo se isso o deixar exposto. Qualquer coisa diferente vai correr o seu já magro apoio popular".

O editorial diz ainda que é preciso enfrentar o problema político que torna o Brasil "uma das democracias presidenciais mais fragmentadas e complexas do planeta".

Sobre esse tópico, porém, o FT diz que essa é uma tarefa para o próximo presidente da República que será eleito em 2018.

Ao reconhecer a controvérsia sobre a argumentação jurídica que baseia o processo de impeachment, o FT reconhece que o resultado do desdobramento da crise política visto na quinta, 12, "está longe de ser perfeito". "Se ele conseguir colocar a economia em uma trajetória mais segura e deixar que o combate à corrupção continue, deixará para trás um legado considerável. Há muitos 'se', mas não é inconcebível que ele conseguirá transformar em realidade".

Guardian. O editorial do The Guardian defende que o Brasil deveria ter uma profunda reforma para tornar a política mais funcional e honesta, mas lamenta que a equipe apresentada na quinta mostra que é "muito duvidoso" que o governo Michel Temer dará esse salto.

O Guardian diz que o sistema político brasileiro é tão disfuncional que a corrupção é "praticamente inevitável" para a governabilidade. "Dilma herdou esse legado infeliz e começou a perder o controle em um período de declínio econômico e quando a corrupção, graças à polícia e a promotores independentes, começava a se tornar um escândalo de proporções crescentes". O texto também cita que também houve preconceito machista e ressentimento da direita que nunca aceitou a ascensão de Luiz Inácio Lula da Silva e do PT.

"O elemento tóxico final na crise foi a percepção de muitos políticos que os procuradores poderiam pegar mais e mais deles e uma maneira de evitar ou minimizar essa possibilidade poderia ser distrair a atenção e tomar o controle político com o processo de impeachment da chefe de Estado", cita o editorial. O Guardian diz que "a ironia é que muitos dos acusadores são acusados e por pecados piores". O texto cita Eduardo Cunha e lembra que Dilma não é acusada, nem investigada por corrupção.

Diante desse quadro, o Guardian defende que "o que deveria estar em julgamento acima de tudo é o modelo político brasileiro que falhou". O texto lembra da infinidade de partidos políticos e a incongruência de um sistema que elegeu Dilma como presidente com a maioria dos votos, mas deu 20% dos assentos ao partido do chefe do Executivo.

Para conseguir governar, então, o Executivo oferece cargos para atrair partidos, o que dificulta a formulação de políticas, já que muitas vezes os grupos políticos indicam nomes incompetentes, cita o texto. "Para piorar, até mesmo os grandes partidos não podem levantar dinheiro suficiente das fontes legítimas para fazer a campanha em um país enorme e com muitos níveis de governo. As eleições brasileiras são tão caras como as norte-americanas", diz o editorial, que menciona que, no caso do PT e outros partidos, a Petrobras foi usada como fonte de recursos.

"O novo governo brasileiro deveria iniciar uma mudança constitucional radical que pudesse fazer a política mais funcional e honesta. Mas saber se o novo governo que o vice-presidente Michel Temer está montando será capaz de dar esse salto é, infelizmente, muito duvidoso", diz o Guardian.

New York Times. Em um editorial publicado nesta sexta-feira, o jornal The New York Times afirma que Dilma Rousseff paga um preço "desproporcionalmente alto" por erros administrativos que cometeu, enquanto vários de seus maiores detratores são acusados de crimes mais flagrantes. Com o título "Fazendo a crise política piorar", o editorial do maior jornal dos Estados Unidos defende que os brasileiros deveriam ter o direito de eleger um novo presidente.

O Times avalia que Dilma pode ter sido uma governante "ruim" e uma líder "decepcionante", mas foi eleita duas vezes nas urnas e não há evidência de que ela usou seu cargo para enriquecimento pessoal, enquanto outros políticos que a acusam e orquestraram a saída da presidente estão envolvidos em escândalos de corrupção e recebimento de propinas. Muito da ira destinada a Dilma pode se voltar agora para os políticos em Brasília acusados de corrupção, ressalta o texto.

Para o Times, o ideal seria que fossem realizadas novas eleições. "O Brasil está se recuperando da pior recessão desde 1930 e agora a crise política está reduzindo a fé na sua jovem democracia", afirma o jornal no editorial. O texto ressalta que o presidente em exercício Michel Temer foi condenado pela Justiça eleitoral e está inelegível por oito anos e que o então presidente da Câmara, Eduardo Cunha, que aceitou o pedido de impeachment de Dilma, foi afastado por denúncias de corrupção.

A foto de Dilma aparece na capa do New York Times nesta sexta-feira, em uma reportagem contando os acontecimentos de ontem no Brasil, com a posse de Temer. O jornal dá destaque para o fato de o ministério do peemedebista ser composto apenas por homens e que seu governo pode representar uma guinada para a direita, como tem acontecido com outros países da América Latina, casos de Argentina e Paraguai.

O Times dedica duas páginas da edição de hoje para falar da situação política do Brasil. Em uma das reportagens, conta a história do PT, destacando que o impedimento põe fim a 13 anos do partido no poder. O texto destaca a alta popularidade do partido durante o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que despencou em seguida após uma sucessão de escândalos e a crise econômica. / Colaborou Altamiro Silva Junior