O Estado de S. Paulo
A mobilização lulojanonista não foi espuma
para convertidos. No mundo real, onda convertedora de nulos, arrastadora de
votos para Lula, capaz de tirá-los, aos milhões, de Flávio Bolsonaro; de
explorar a ressaca daquele eleitor que, rejeitando mais o presidente que o
desafiante no primeiro turno, terá passado três semanas diante da própria
escolha, condenado a contemplar o que seria um governo do filho de Jair.
A projeção da imagem do Flávio presidencial – subsidiada por um candidato à vontade para exibir o que é – foi-lhe feia, ao que se somaria a campanha que o apregoava como supressor de direitos, enquanto Lula corrompia a máquina para prometer até Pix de R$ 5 mil. Se a eleição no primeiro turno fora sobre Lula e teve como produto uma advertência ao incumbente, a do segundo foi sobre o medo de Bolsonaro no poder. Considere-se a hipótese de o eleitor ter afinal optado por Lula frente ao que seria o capital político na mão de um Bolsonaro: quase autossuficiente no Senado e a indicar três ministros do Supremo.
Na disputa entre rejeitados, para o que
contaria o desaparecimento tático dos grandes eleitores do STF, o eleitor terá
preferido transferir a rejeição maior de Lula para Flávio. A previsibilidade de
quatro anos ruins à imprevisibilidade de quatro anos ruins.
O exame dos dados do segundo turno comunica
que Lula bateu combinadamente todas as condições – improváveis – para a
vitória. O volume da queda de abstenção informa sobre a ordem de grandeza do
feito: quase 3 milhões de votantes a mais no segundo turno, a imensa maioria
dos quais mobilizada a sair de casa pela blitz lulojanonista. Gente que não
votara antes por acreditar na soberba de que Lula venceria facilmente. Veio o
susto.
Não se tratou de queda de abstenção com
chance de distribuição equilibrada. O colégio eleitoral aumentou
concentradamente em redutos com eleitores potenciais do presidente. Foi ataque
dirigido. Uma enxurrada, e não apenas no Nordeste – que lhe daria 2,9 milhões
de votos a mais. Houve baixa de abstenção em porções lulistas de Estados
bolsonaristas, como São Paulo e Rio. O crescimento de Lula no Sudeste fez – foi
– a diferença. Foram quase 5 milhões de votos a mais, em relação ao primeiro
turno. Houve a virada em Minas, Estado no qual terminaria com 100 mil votos a
frente, depois de um revés por 600 mil. Ganhou cerca de 1,2 milhão de votos. No
RJ, baixou a vantagem de Flávio: de 1,6 milhão para 600 mil. Em SP, com 2,6
milhões de votos a mais, estreitou a margem de Flávio para 2 milhões.
Lula venceu a eleição no Sudeste, região em
que mais tomou votos do adversário – e em que terá consolidado a preferência
dos eleitores de Augusto Cury, Renan Santos e até Ronaldo Caiado, outra
condição fundamental para a virada, eleitores que o marçalismo desprezara.

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