terça-feira, 27 de outubro de 2026

Desafio de Lula é corresponder à vitória do esforço coletivo, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Conquista da reeleição foi obra construída a milhões de mãos, às quais será imprescindível retribuir a confiança

Agora o presidente tem dois meses até a posse para dizer realmente o que pretende no quarto mandato

Feita a escolha dos brasileiros, o presidente reeleito terá pela frente pouco mais de dois meses até a nova posse para dizer realmente a que pretende vir em seu quarto mandato, sem a máscara cor-de-rosa das contingências de campanha.

No discurso da vitória, Luiz Inácio da Silva (PT) sinalizou ter absorvido aprendizado dessa eleição ao dizer que mudará "o jeito de governar". Não tendo sido mero reflexo do feito memorável da virada e fruto de alívio diante do susto da sombra da derrota, a frase carrega uma boa mensagem.

Auspiciosa, a nota de autocrítica ainda está para se materializar como diretriz do anunciado novo enredo. A prometida mudança requer revisão de procedimentos, a começar pelo mais difícil: Lula contrariar a própria natureza, renunciar à autoexaltação e reconhecer na prática, além das palavras, que o sucesso da empreitada foi uma obra coletiva.

Indo ao encontro dos fatos, é possível constatar que Lula ganhou apesar de Lula. O governo mal avaliado foi o dele, o tom da campanha até a derrota no primeiro turno quem deu foi ele, bem como foram fruto de sua egolatria os vários equívocos que quase levaram à Presidência da República o Bolsonaro da vez.

Mérito dele, porém, ter aberto espaço a uma correção radical de rumos que levou a uma vitória muito mais ampla que o previsto no retrato das pesquisas.

Sair de uma desvantagem de (em números redondos) 2 milhões de votos para uma vantagem de mais de 4 milhões, com um ganho que ultrapassou 10 milhões de eleitores, é façanha para não se botar defeito.

A proeza demandou esforço, que foi correspondido por uma adesão popular cuja mobilização não se via há muito. Aqui cabe o lugar-comum: Lula é levado de volta à Presidência nos braços de parte significativa do povo.

A partir de agora, o leme está de novo nas mãos dele; para retribuir a confiança dos apoiadores e, sobretudo, ampliar seu campo de visão e atuação para os anseios de todos os brasileiros, sem distinção.

 

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