Folha de S. Paulo
Se Flávio Bolsonaro for grato a Kassio Nunes
Marques, mudará a grafia de seu próprio nome
Kassio é hoje tão poderoso que, em breve,
poderá até julgar ministros suspeitos de fazer surubas
No show "Opinião", de 1964, com Nara Leão, Zé Kéti e João do Vale, Zé Kéti tinha esta fala: "Quando eu era criança, minha mãe, que era empregada doméstica, me deixava com a vizinha. Quando ela voltava para casa, a vizinha dizia: ‘Dona Fulana, o Zé ficou quietinho’. Quietinho, quietinho, acabei Zé Quéti. Aí passei a escrever meu nome com K —porque K estava por cima, estava dando sorte! Kennedy... Krushev... Kubitschek... [Referia-se ao presidente americano John Kennedy, ao premiê soviético Nikita Kruschev e ao brasileiro Juscelino Kubitschek. Risos da plateia]. É, meu camaradinha. Parece que a sorte mixou..." (Quando o show estreou, Kennedy já fora assassinado; Krushev, deposto; e Kubitschek, cassado pela ditadura.)
No Brasil, a própria letra K teve seus altos
e baixos. Comum no léxico desde 1500, quando nomeava nossos avós Kayapó, Krenak
e Kariri, foi banida na reforma ortográfica de 1943 e só lhe permitiram uma
sobrevida como símbolo de quilo (kg) e quilômetro (km) e em palavras de origem
estrangeira, como kafkiano, ketchup, know-how, kung fu e Ku Klux Klan. A nova
reforma de 2009, que condenou à morte o trema, enlouqueceu os hífens e despejou
metade dos acentos agudos e circunflexos, teve pelo menos o mérito de trazer o
K de volta à legalidade.
O problema é que, quando o ministro do STF e atual
presidente do TSE
Kassio Nunes
Marques nasceu em 1972, a ortografia de 1943 estava em vigor, e o
uso do K em nomes próprios era ilegal. E, pior, não havia nenhuma atenuante
linguística para se grafar Cássio como Kassio. K é uma letra grega e nunca
houve um Kassio na Grécia. O nome correto, Cássio, vem do latim, uma derivação
de "cassus", que significa oco, vazio, vão, vácuo, raso.
Às vésperas da eleição, Kassio é tão suspeito
de beneficiar o candidato Flávio Bolsonaro que, se Flávio vencer e lhe quiser ser grato,
deveria também passar a grafar seu próprio nome com K.
Kassio é hoje um homem muito poderoso. Talvez
lhe caiba até, em breve, julgar casos de ministros suspeitos de surubas.

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