Folha de S. Paulo
Flávio se evade para a Flórida e publica
carta delirante com efeito cômico involuntário
Família fica isolada politicamente, mas
resiliência do clã não deve ser subestimada
Marx errou. Ao menos no Brasil, a história
não se repete como farsa, mas como sátira. O pós-derrota eleitoral de Flávio
Bolsonaro superou o de Jair no quesito delírio com efeitos
humorísticos involuntários.
Ambos optaram por curar a ressaca nos EUA, mas Flávio, em tese o moderado da família, recorreu a uma evasão rocambolesca e publicou uma carta que entrará para os anais da psiquiatria política na qual se declarou "verdadeiro presidente eleito" e que ilustrou com um brasão de armas da República com a inscrição "Estados Unidos do Brazil", que deixou de ser o oficial em 1968. Pensar que a população quase entregou as chaves do Planalto a este homem escancara as vulnerabilidades irredutíveis da democracia.
A peripécia flaviana está em linha com a
tradição de autossabotagem da família. Jair, não custa lembrar, precipitou a
própria prisão tentando
romper a tornozeleira eletrônica que usava e quase perdeu o direito
à domiciliar por mandar consertar uma pistola que nem estava quebrada. Eduardo
achou que ampliaria a força política do clã atiçando Donald Trump
a adotar sanções contra o Brasil.
Até aqui, os cálculos de Flávio deram tão
errado que seus principais aliados, incluindo Tarcísio de
Freitas, Rogério
Marinho e Valdemar
Costa Neto, não só não aderiram à iniciativa insurrecionista como
cuidaram de se distanciar do ex-candidato.
É aqui que eu paro de achar graça e recomendo
cautela. Já vimos esse filme antes. Nos dias que se seguiram ao infame 8 de janeiro,
a condenação veio unânime. Eu, em minha ingenuidade, achei que a tentativa de
golpe seria o fim dos Bolsonaros. Mas, depois que a coisa esfriou, a direita
não pensou duas vezes antes de voltar a apoiar um membro da família. Meu ponto
é que, se a direita menos irresponsável não criar uma costura política que de
fato aposente a marca Bolsonaro, ela poderá seguir nos assombrando como um
zumbi. Ainda restam Michelle,
Carlos e
Jair Renan.
Não é porque a segunda repetição foi satírica
que uma terceira não pode voltar a ser tragédia.
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