sexta-feira, 30 de outubro de 2026

As peripécias de um Bolsonarinho derrotado, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Flávio se evade para a Flórida e publica carta delirante com efeito cômico involuntário

Família fica isolada politicamente, mas resiliência do clã não deve ser subestimada

Marx errou. Ao menos no Brasil, a história não se repete como farsa, mas como sátira. O pós-derrota eleitoral de Flávio Bolsonaro superou o de Jair no quesito delírio com efeitos humorísticos involuntários.

Ambos optaram por curar a ressaca nos EUA, mas Flávio, em tese o moderado da família, recorreu a uma evasão rocambolesca e publicou uma carta que entrará para os anais da psiquiatria política na qual se declarou "verdadeiro presidente eleito" e que ilustrou com um brasão de armas da República com a inscrição "Estados Unidos do Brazil", que deixou de ser o oficial em 1968. Pensar que a população quase entregou as chaves do Planalto a este homem escancara as vulnerabilidades irredutíveis da democracia.

A peripécia flaviana está em linha com a tradição de autossabotagem da família. Jair, não custa lembrar, precipitou a própria prisão tentando romper a tornozeleira eletrônica que usava e quase perdeu o direito à domiciliar por mandar consertar uma pistola que nem estava quebrada. Eduardo achou que ampliaria a força política do clã atiçando Donald Trump a adotar sanções contra o Brasil.

Até aqui, os cálculos de Flávio deram tão errado que seus principais aliados, incluindo Tarcísio de Freitas, Rogério Marinho e Valdemar Costa Neto, não só não aderiram à iniciativa insurrecionista como cuidaram de se distanciar do ex-candidato.

É aqui que eu paro de achar graça e recomendo cautela. Já vimos esse filme antes. Nos dias que se seguiram ao infame 8 de janeiro, a condenação veio unânime. Eu, em minha ingenuidade, achei que a tentativa de golpe seria o fim dos Bolsonaros. Mas, depois que a coisa esfriou, a direita não pensou duas vezes antes de voltar a apoiar um membro da família. Meu ponto é que, se a direita menos irresponsável não criar uma costura política que de fato aposente a marca Bolsonaro, ela poderá seguir nos assombrando como um zumbi. Ainda restam Michelle, Carlos e Jair Renan.

Não é porque a segunda repetição foi satírica que uma terceira não pode voltar a ser tragédia.

 

 

 

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