terça-feira, 27 de outubro de 2026

O movimento que venceu a eleição, por Míriam Leitão

O Globo

A avalanche que entregou 10 milhões de votos a mais a Lula foi a verdadeira frente ampla. Não a dos partidos, mas a das ruas e das redes sociais

Foi épico e educativo. Nunca se viu uma vitória eleitoral assim. A estratégia do segundo turno não nasceu no comitê de campanha do presidente Lula. Brotou nas ruas. Um movimento espontâneo de estudantes em Niterói, que se espalhou pelo país, comandado por jovens nascidos digitais. Terminou sendo confirmado pelos mais velhos, que foram votar, muitos levados por seus netos. A reeleição de Lula tem muito a ensinar sobre tendências, política, comunicação, sociologia.

Na economia, no primeiro dia, o mercado desabou como era de se esperar. E aí não há mistério. Os operadores estavam com posições montadas para o cenário de vitória de Flávio Bolsonaro. O desmonte está sendo tão grande quanto a aposta. Durante alguns dias, o mercado continuará assim em queda, depois a volatilidade diminuirá naturalmente, mas deve impactar, por exemplo, os próximos boletins Focus, que refletem as expectativas dos gestores do dinheiro. Seria prudente reduzir incertezas fiscais e econômicas. De fato, existem e precisam ser enfrentadas, com esclarecimento sobre o futuro das contas públicas. Se o dólar ficar em alta por muito tempo, eleva a inflação, a queda das bolsas fragiliza empresas, a instabilidade financeira pode ter consequências adversas e aleatórias.

Na política, o presidente Lula terá que atravessar um deserto. Ele já fez muitas travessias difíceis. Lula terá que, para bem governar, construir uma coalizão partindo da situação mais desfavorável em que já esteve pelo crescimento da oposição direitista. Mas é importante entender que ele poderá atrair parlamentares dessa base oposicionista para apoiar diversos projetos do governo. Partidos de direita e de centro-direita que estavam na campanha de Flávio Bolsonaro, no segundo turno, não necessariamente ficarão na oposição. Podem eventualmente estar numa coalizão de governo. Não há coesão ideológica que os ligue ao bolsonarismo. Muitos são aliados de ocasião.

O que salta aos olhos no quadro partidário hoje é como o PL vem crescendo, engolindo a direita, o centro, o centrão. O MDB, que um dia foi o partido que encarnava a luta democrática, viu seu presidente Baleia Rossi apoiar Flávio Bolsonaro. O candidato Ronaldo Caiado apoiou Flávio, mas o PSD ficou neutro. Os dois, e vários outros, vêm sendo espremidos, vendo suas bancadas diminuírem pelo crescimento do PL. O PSD tinha 14 senadores, terá quatro. O MDB elegeu, em 2006, 90 deputados. Vinte anos depois elegeu 36. Se a direita ou o centro quiserem sobreviver terão que deixar de ser satélites do bolsonarismo e mover-se para uma posição independente.

O PL, com o tamanho que alcançou, será cada vez mais beneficiado pelas regras do jogo. Por ter feito uma grande bancada, recebe a maior fatia dos fundos eleitoral e partidário e grande parte das emendas. Por isso, terá mais dinheiro para investir na campanha seguinte. Como o PL é o hospedeiro do bolsonarismo, essa derrama de dinheiro só fortalece o vírus da extrema direita. Portanto, não é a esquerda que está sob ameaça, é o centro e a direita que tenha, ou teve, princípios democráticos. Aliás, em um projeto autocrático, esses partidos estão sob perigo existencial.

A esquerda também tem muito a aprender com o vendaval de emoções e eventos das últimas três semanas. O próprio Lula disse no discurso da vitória que tinha aprendido muito com essa campanha. Ela é mesmo de ser estudada. O que ficou claro é que o movimento que ganhou ruas e redes foi orgânico, espontâneo e defendia valores que estavam sob ameaça. O mais precioso deles, a democracia. O pior que o governo pode fazer agora é, na soberba da vitória, se encastelar.

O que se viu nessa avalanche que entregou 10 milhões de votos a mais a Lula no segundo turno foi a verdadeira frente ampla. Não aquela formalizada por partidos ou figuras notórias numa foto ou documentos assinados. Foi muito mais forte, foi movimento. Nas ruas, nos 14 quarteirões da Paulista, na Candelária, em Copacabana, em Brasília, pelo país inteiro, inclusive cidades do interior, em todas as redes sociais através de vídeos criativos e tocantes, o que vimos foi se formar uma corrente de contenção contra o risco autoritário e o retrocesso. Lula disse que foi a democracia que venceu. Sim, foi. Como fazer um governo que contenha tantos sonhos espalhados em tantas praças será o grande desafio dos próximos quatro anos.

 

Nenhum comentário: