quarta-feira, 28 de outubro de 2026

O Zero Um sumiu: para onde vai a direita? Por Vera Magalhães

O Globo

Fuga de Flávio abre vácuo de liderança e expõe dificuldade da oposição a Lula de se desvencilhar do bolsonarismo

Quando parece que o Brasil vai curar a ressaca da comemoração ou do luto, o roteirista surpreende e oferece uma fuga espetacular de Flávio Bolsonaro do país, com plano ainda incerto e em tempo recorde depois da decisão de Alexandre de Moraes para que ele entregasse os passaportes.

E, como tudo no país é passível de interpretações opostas, o filho Zero Um de Jair é, para 64 milhões de brasileiros, um covarde que tem o que temer e, para boa parte dos 59 milhões que votaram nele, um perseguido por Moraes.

Se é verdade que o timing da decisão de Moraes foi coincidente com a eleição e que ela foi tomada sem que ele consultasse o Ministério Público ou que Flávio tivesse sido indiciado, também são concretos os argumentos da Polícia Federal (PF) para pedir a medida preventiva. A PF enumerou os seguintes fatos: o amigo e provável sócio de Flávio, Willer Tomaz, investigado no mesmo inquérito, já está na Flórida; o envio de vultosas quantias de recursos ainda não explicadas aos Estados Unidos pelo ex-candidato a presidente; e a declaração do irmão já foragido, Eduardo, de que, se perdesse, Flávio deveria se juntar a ele.

É bastante ridícula a ladainha segundo a qual os irmãos Flávio e Eduardo, perseguidos pelo implacável Alexandre, criarão um bunker de resistência à reeleição roubada de Lula para, com a ajuda do governo Donald Trump, retomar a normalidade no Brasil. Flávio não é Guaidó, Lula não é Nicolás Maduro, e o Brasil não é a Venezuela.

A eleição foi limpa, acompanhada por observadores internacionais, resultou na eleição de bancadas recordes do PL, que também elegeu o maior número de governadores do país, e foi reconhecida por todos os partidos e proclamada pelo presidente da Justiça Eleitoral, Kassio Nunes Marques, nomeado por Jair Bolsonaro.

Diante de tudo isso, Trump, que enfrenta uma eleição de meio de mandato mais que tensa, tem outras coisas com que se preocupar que não os filhos desterrados de Jair, que deixaram o pai preso para trás para evitar ter o mesmo encontro com a Justiça.

Dado este quadro, será que haverá alguém na direita com coragem de fazer uma análise fria da eleição perdida por Flávio graças às declarações preocupantes quanto a suas pretensões autoritárias, às falas dúbias de sua assessora econômica Daniella Marques quanto ao Bolsa Família, às lambanças da ala dos jovens radicais Nikolas Ferreira, Pablo Marçal e Lucas Pavanato e, sobretudo, ao desempenho tenebroso do candidato nos debates, em que, quando não declamava alguma proposta decorada, agredia o presidente ou desrespeitava a memória de uma criança de 5 anos brutalmente assassinada?

Até aqui, os demais partidos e políticos de direita demonstraram temor servil ao clã Bolsonaro, presos a uma ideia covarde segundo a qual qualquer um que oferecesse outra alternativa a seus desígnios seria visto pelo eleitor como traidor.

A virada épica de Lula, reunindo jovens, idosos, petistas, não petistas e até uma parcela da direita contra os riscos imensos contidos na possibilidade da volta dessa família ao poder, mostra que está na hora de a direita dizer se tem um projeto mais amplo para o país além de apenas tirar Jair da prisão e se vingar do STF.

Os primeiros movimentos de Tarcísio de Freitas depois da derrota, se ausentando discretamente da cena em que Flávio, pateticamente, se recusou a reconhecer a vitória de Lula, depois fazendo um vídeo conclamando uma “oposição responsável”, mostram que ele pode estar ensaiando o grito de independência que não conseguiu dar em 2025. A conferir se conseguirá ou se será atropelado por outra que parece não ter ficado nem um pouco triste com a derrota no domingo: a madrasta de Flávio, Michelle Bolsonaro.

 

Um comentário:

Anônimo disse...

Excelente análise! Parabéns à colunista, e obrigado ao blog por divulgar seu magnífico texto!