Em entrevista de Alberto Aggio concedida a Edison Ortiz, historiador e organizador cultural chileno, e publicada no El Clarin (Chile, 28.10.2026). Na entrevista se registram as interpretações do historiador sobre as razões e os eixos de mobilização que marcaram a vitória eleitoral de Lula e os desafios que se abrem doravante. Para Aggio, não há duvida de que a vitória de Lula foi um resgate, em novos termos, do que vem significando, apesar de muitos descaminhos e insuficiências, a construção da democracia, que agora se vê fortalecida.
El Clarin: Tradicionalmente,
a esquerda brasileira baseou sua força na mobilização de rua, nos sindicatos e
nos movimentos sociais. Nesta eleição, contudo, grande parte da disputa ocorreu
no terreno digital, onde a direita e o bolsonarismo costumavam hegemonizar a
narrativa. Você considera que o lulismo conseguiu, finalmente, adaptar-se e
disputar as redes sociais ou o triunfo deveu-se mais a um voto orgânico de
resistência democrática nas ruas?
Alberto Aggio:
De fato, a extrema direita até essa eleição havia dominado amplamente as redes
sociais. Mas a mobilização popular que se formou logo depois da derrota do
primeiro turno junto com a decisão da campanha de Lula em investir
vigorosamente nas redes sociais, por meio do “exército de Lula” comandado pelo
deputado federal André Janones, essas duas coisas conseguiram o feito de
confrontar e ultrapassar a extrema direita comandada por Flávio Bolsonaro. A
vitória de Lula no segundo turno foi dramática e histórica, mas foi mais do que
uma vitória petista, mais do que uma vitória lulista; não foi apenas uma
vitória exclusiva do Nordeste brasileiro, onde Lula ampliou sua votação, já que
Lula também venceu nas duas maiores cidades do país, como São Paulo e Rio de
Janeiro, onde ele havia sido derrotado no primeiro turno. Em termos eleitorais,
Lula venceu porque foi buscar o voto de quem não foi votar no primeiro turno,
especialmente nas grandes cidades do país; e fez isso com mobilizações de rua,
com a juventude e os estudantes à frente, e ações incisivas nas redes sociais.
Mas devemos ressaltar que toda essa ação foi pensada em contraposição ao perfil
de ação política da extrema direita. Não se pode atribuir isso ao lulismo em
si, mas às circunstâncias política da eleição que impuseram uma mudança de rumo
no segundo turno. Foi efetivamente uma vitória que fez reaparecer as crenças
nos valores e direitos de toda a trajetória de redemocratização do país.
El Clarin:
O uso político de algoritmos, fake news e a desinformação em massa
transformaram a discussão política no Brasil. A partir de sua análise sobre a
cultura política brasileira, como essas dinâmicas digitais afetaram o debate
democrático tradicional e que margem resta a um governo de ampla coalizão para
governar em uma sociedade tão virtualmente fragmentada?
A.A.
Penso que deve ficar claro que, num cenário de polarização tão dura como o que
existe no Brasil, o embate virtual não demonstrou capacidade de alterar os
vetores do voto. A votação dos dois polos em disputa permaneceu basicamente a
mesma, marcando suas potencialidades. O que alterou efetivamente foi a decisão
da campanha de Lula de atacar os problemas concretos das pessoas quando ficou
claro o programa prático de destruição da proteção social que o Brasil
construiu desde a Constituição de 1988. A ideia de enfraquecer o SUS, por
exemplo, e instituir um processo claro de privatização da saúde pública no país
indicou claramente o desastre que viria a ser uma presidência de Flávio
Bolsonaro, apenas para citar uma dimensão que se mostrou gravíssima. Ficou
claro que o país estava sendo ameaçado, que a democracia de 40 anos estava sob
grave ataque. Esse foi o eixo em torno do qual a campanha de Lula mudou. Penso
que isso foi decisivo, combinado com as ações incisivas de intervenção nas
redes sociais. A lição que fica para o próximo mandato é que há um coração
democrático que pulsa forte no Brasil e que isso tem que se conectar com formas
mais rápidas e eficazes de difusão dos seus valores.
El Clarin:
O resultado eleitoral revelou, mais uma vez, uma disputa extremamente acirrada
que desafiou muitas pesquisas e análises prévias. Em um contexto marcado pela
força do conservadorismo cultural e evangélico, quais foram as verdadeiras
chaves para o triunfo de Lula? Tratou-se de uma vitória do projeto do Partido
dos Trabalhadores (PT) ou de uma "frente ampla" republicana em defesa
das instituições?
A.A.
Nenhuma pesquisa poderia acertar o resultado porque este se produziu com a
diminuição da abstenção, dos votos nulos e brancos. O resultado veio como uma
definição clara de fortalecimento do que se quer impedir e do que se quer
manter. Como se viu, esses fatores pesaram mais para a ampliação da votação de
Lula do que para Flávio Bolsonaro. A campanha de Lula convocou persistentemente
os eleitores a comparecer e defender os direitos sociais e culturais que a
candidatura de Bolsonaro abertamente ameaçava. O mapa eleitoral revela que a
vitória eleitoral tem um caráter transversal em termos sociais. Do ponto de
vista político, é uma vitória da mobilização popular que se forjou depois do
primeiro turno e avançou com uma força impressionante. Como afirmou a colunista
Mirian Leitão de O Globo, “a estratégia do segundo turno não nasceu no
comitê de campanha do presidente Lula. Brotou nas ruas. Um movimento espontâneo
de estudantes de Niterói, que se espalhou pelo país, comandado por jovens
nascidos digitais. Terminou sendo confirmado pelos velhos, que foram votar,
muitos levados por seus netos”. Com o passar dos dias de campanha, essas
mobilizações ganharam um eixo claro, isto é, vencer o terror que significaria a
possibilidade de retorno da família Bolsonaro ao poder, com a perda de direitos
e uma insegurança pessoal e coletiva generalizada. Enfim, politicamente isso
significava defender Constituição de 1988, defender os direitos nela
estabelecidos e tudo o que foi conquistado depois dela. Com a vitória dessa
extraordinária campanha eleitoral, retorna ao centro da política a visão de que
a democracia muda a vida. Uma visão que a ultradireita despreza. A vitória
eleitoral tem uma imagem cristalina: Lula com a bandeira do Brasil numa mão e a
Constituição na outra. Recuperou-se enfim o que o bolsonarismo nos tinha
tirado: as ruas e a defesa do povo brasileiro, e com isso retomamos o verde e o
amarelo das cores dos nossos símbolos nacionais.
El Clarin: A
mobilização cidadã durante a campanha oscilou entre o entusiasmo militante do
PT e a adesão pragmática de setores de centro e de esquerda moderada. A partir
de sua análise sobre o desenvolvimento do populismo e da democracia na América
Latina, como Lula deve gerenciar a tensão entre atender às demandas dessa base
social mobilizada e a necessidade de firmar pactos com o Centro no
Congresso?
A.A.
A vitória de Lula no segundo turno carrega muitos ensinamentos que devem ser
incorporados. Creio que houve espaço tanto para a militância da esquerda quanto
para a adesão de outros setores democráticos que se opõem ao estilo do
bolsonarismo. Por isso, o novo governo não poderá ser um governo apenas petista
ou de esquerda. A vitória eleitoral tem um lastro de apoio amplíssimo. Do meu
ponto de vista, o novo governo deve buscar ser um governo de frente ampla e
democrático. E o que significa isso? Não ser apenas um governo com ministros
petistas e não petistas, mas com partidos políticos, movimentos e
personalidades que possam ajudar o presidente a governar e também influenciar o
Parlamento e a sociedade civil. Não se deve cair na ilusão de que é chegada a
hora da confrontação social, de um governo de movimentos sociais, de “conselhos
populares”, imitando tardiamente o chavismo. No Brasil isso não é rigorosamente
possível, a nossa “americanização” já é um fato vigoroso entre “os de baixo”. A
visão deve embasar o novo governo é a de que a democracia não deve bloquear a
luta social, racial, regional ou cultural, mas, ao contrário, o governo deve
promover consensos diante desses conflitos e institucionaliza-los por meio da
legitimidade e eficiência das instituições democráticas do Estado brasileiro. O
novo governo não deve se assumir como condutor da luta social no sentido da sua
mobilização social. Ele deve promover a melhoria social, como vem fazendo, com
muito controle e equilíbrio, ambos fundados na legitimidade democrática. Não há
outra forma de enfrentar democraticamente os problemas econômicos e os desafios
do aggiornamento do Brasil ao mundo interdependente em que vivemos. Com
a vitória de Lula, a democracia brasileira conseguiu se sustentar
historicamente e aparecer ao mundo como uma expressão fulgurante de avanços
civilizatórios.
El Clarin:
Historicamente, o lulismo funcionou como uma mediação entre as elites
econômicas e os setores populares. No entanto, a sociedade brasileira atual
está atravessada pelo fenômeno do empreendedorismo, pelo ecossistema digital e
pela precarização do trabalho. O carisma de Lula mantém a mesma capacidade de
articulação social ou estamos presenciando um novo tipo de liderança, obrigado
a dialogar com uma cidadania hiperconectada e individualizada?
A.A.
Uma das principais características da liderança de Lula e que acabou definindo
o PT e o lulismo é a sensibilidade de identificação com “os de baixo” e, a
partir dai, negociar com os “de cima”. A origem é a experiencia sindical
transplantada para o campo da política. No contexto da ditadura e da transição,
com erros e acertos, o PT e Lula se fortaleceram com base na “cultura do
rechaço”, em relação a todas as elites, e na “economia do afeto”, selando a sua
identificação com as classes populares. Isso ainda permanece com mediações e
gradações. Ao adentrar ao sistema político e aos postos de comando na esfera
pública, ou seja, no Estado, Lula e o PT assumiram a cultura da “escolha
racional” para compor e fazer alianças políticas. Na mescla dessas três
dimensões, Lula e as lideranças políticas assumiram, direta ou indiretamente, a
figuração de uma “metamorfose ambulante”, que muitos analistas identificam ao
“pragmatismo”, uma expressão que explica pouco. Contudo, eu penso que tudo
continua sendo operado dessa forma. Mudar e alterar o perfil da ação política
não corresponde a uma obrigação para vencer eleições e sustentar governos.
Podemos dizer, numa analogia com a ecologia, que faz parte da “natureza do
animal”. O que coloca a questão, um tanto paradoxal, de que, no caso atual,
esse último êxito do lulismo poderá significar também seu esgotamento
histórico. Em outras palavras, as razões que lhe deram origem já não existem
mais e, guardando o patrimônio que se construiu, tudo tem que mudar para mantem
o êxito desse movimento uma vez que as condições históricas e políticas estão
mudando vertiginosamente. É, enfim, uma maneira muito interessante de
superar-se a si mesmo, ainda que não se saiba muito bem o que virá em seguida.
Creio que é assim que estamos.
El Clarin:
Apesar da derrota no Executivo, o movimento conservador mantém uma força
considerável nas redes sociais, nos governos estaduais e no Poder Legislativo.
Como reconstruir o tecido social e a convivência democrática no Brasil quando
os canais de comunicação cotidiana de milhões de pessoas continuam operando sob
lógicas de polarização extrema?
A.A.
Se o primeiro turno representou uma vitória eleitoral sem precedentes da
extrema direita, especialmente na Câmara e no Senado, no segundo turno essa
vitória se desvaneceu com a derrota de Flavio Bolsonaro, com a sua postura de
mau perdedor e, por fim, com a fuga do país. É evidentemente falsa a narrativa
de que ele é um político que buscou exilio no exterior por ser um perseguido
político. O projeto de Flavio era, dentre outras coisas, ocupar a presidência
para se safar das condenações que certamente viriam em função de suas
atividades ilícitas, especialmente a lavagem de dinheiro. Suas ligações com o
crime organizado são públicas. Pois bem, a liderança dos bolsonaros agora perde
força e sustentação, pela derrota, pelo desprezo aos seus eleitores e, por fim,
pela fuga do país. Tudo parece indicar um enfraquecimento político na
vinculação entre a extrema direita e os outros setores de direita. Esse enfraquecimento
levará certamente à divisão do movimento e a novos protagonismos. Todos esses
desdobramentos da derrota no segundo turno parecem indicar que a polarização
entre petismo e bolsonarismo podem estar com os dias contados, mas não se sabe
ainda se esse novo cenário será o berço de novas composições, especialmente
porque Michele Bolsonaro venceu para o Senado, por Brasília, e Carlos Bolsonaro
também se tornou senador pelo Estado de Santa Catarina. Eles tomarão posse no
inicio de 2027. Ultrapassar o protagonismo dos bolsonaros será, enfim,
fundamental para se abrir uma nova fase. Só assim se poderá pensar em abrir
espaço para uma nova vitalização, mais plural e livre, da esfera pública.
(Acesse o link da entrevista em espanhol:

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