Folha de S. Paulo
Candidato diz que falou simbolicamente sobre
Cristo; é de se perguntar até onde vai sua devoção simbólica ao líder dos EUA
Subordinação do país aos interesses
americanos vai muito além da simples especulação
No ano passado, Flávio
Bolsonaro assistiu a um vídeo divulgado pelo governo Trump que exibia
forças americanas destruindo uma embarcação, acusada de pertencer a
narcoterroristas, na região do Caribe. Um ataque sumário, que feria as leis
internacionais e o bom senso.
O filho de Jair Bolsonaro disse sentir inveja da ação e convidou os americanos a fazerem algo semelhante no Rio: "Ouvi dizer que há barcos como este aqui na baía de Guanabara. Vocês não gostariam de passar alguns meses aqui nos ajudando a combater essas organizações terroristas?", disse ele, apelando ao presidente Donald Trump.
Na terça, 29 de setembro, a campanha de
Flávio respondeu à Folha
sobre outro assunto: sua promessa de, caso eleito, "decretar que o Brasil
é do Senhor Jesus Cristo". A declaração deveria ser entendida, segundo
ele, simbolicamente. Apenas faria uma oração durante a posse.
Aceita a licença semântica —que não elimina o
risco à laicidade do Estado e à diversidade religiosa—, cabe perguntar a quem
mais Flávio estaria disposto a entregar simbolicamente o Brasil.
Trump
é o candidato mais bem cotado.
A submissão política dos Bolsonaros ao
presidente americano antecede a eleição de Jair, em 2018. Depois de vitorioso,
em sua primeira visita bilateral, em 2019, ele declarou na Casa Branca que
sempre fora um grande admirador dos Estados
Unidos —mais ainda após a chegada de Trump ao poder.
Com a derrota dos dois populistas da
ultradireita, o assunto pareceu sair de cena por um interregno, até que o
republicano voltou à Presidência. A família Bolsonaro passou, então, a apostar
na interferência do líder da maior superpotência mundial para livrar o
ex-presidente da cadeia por ter liderado
uma tentativa de golpe de Estado.
O ex-deputado Eduardo
Bolsonaro, que desertou para os EUA, trabalhou pela aplicação de sanções
contra autoridades brasileiras e, quando Trump anunciou seu tarifaço,
comemorou: "Obrigado, presidente Trump. Faça o Brasil livre novamente.
Queremos Magnitsky".
Seria simplista atribuir as tarifas
de Trump à influência de Eduardo, mas é certo que um deputado brasileiro
celebrou medidas de pressão econômica dos EUA contra seu próprio país.
O tiro acabou saindo pela culatra. Lula
empunhou a bandeira da soberania nacional, e Flávio mudou o rumo, chegando a
apresentar aos americanos pesquisas para argumentar sobre o risco de vitória
política do rival.
Mas nada disso afetou a relação com Trump. Em
março, nos EUA, o 01 de Jair apresentou
o Brasil como "a solução" para os americanos quebrarem a
dependência da China em minerais
críticos, especialmente terras raras.
Em julho, levantou suspeitas sobre as urnas
eletrônicas, afirmando que algumas máquinas teriam origem na Smartmatic, ligada
a supostas fraudes na Venezuela.
Mais recentemente, soube-se que o
modelo para o Itamaraty numa gestão bolsonarista seguiria as ideias de Marco Rubio,
o secretário da área nos EUA.
Jair bajulou Trump, e Eduardo pleiteou
sanções contra autoridades e interesses brasileiros. Já o candidato Flávio
desdobrou-se em mesuras, do pedido de intervenção militar contra o tráfico no
Rio às declarações sobre urnas eletrônicas, passando pelos recursos minerais.
Seu padroeiro é homem, loiro e mora na Casa Branca.

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