O Globo
Numa eleição da magnitude da atual, não há
mais espaço para o opcional. Após um hiato de quatro anos, o Brasil se vê
novamente às turras
‘Bom dia, democracia. Como é lindo o teu rosto’, postou no 2 de janeiro o imortal da Academia Brasileira de Letras Marco Lucchesi. Assim começava a coluna aqui publicada sobre a posse de Luiz Inácio Lula da Silva como presidente eleito do Brasil dois meses antes. Embora fosse a terceira subida de rampa do candidato do Partido dos Trabalhadores, a apertadíssima vitória sobre o incumbente Jair Bolsonaro (1,8% dos votos) retratava a fenda trevosa que continuaria a dividir o Brasil. Não deu outra: o novo governo mal havia se instalado quando ocorreu a delirante tentativa de golpe do 8 de Janeiro, com o consequente julgamento e condenação do derrotado insurgente a 27 anos e três meses de prisão em regime fechado.
Àquele assalto desvairado, o Estado
Democrático de Direito sobreviveu. E a democracia, esse ideal fugidio
eternamente em mutação e construção, pareceu retomar um curso menos acidentado.
Haveria espaço para o país sair em busca de mais autonomia e igualdade, para
exercer sua fé sem abrir mão do secularismo, expandir os direitos coletivos,
ampliar escolhas individuais em diversas esferas. A ciência e a razão
prosperariam, enquanto a superstição e a disseminação de teorias da conspiração
diminuiriam.
Era uma visão do possível, não fossem o que
são o Congresso, os partidos políticos, o Supremo Tribunal Federal, a Justiça,
o próprio governo: democraticamente mais que imperfeitos. Também temos 58,2
milhões de eleitores que, em 2022, tinham aspirações diferentes, infensos à
prometida lufada de vento democrático. Mas é o que temos. E, como escreveu o
poeta laureado Robert Frost em 1914 , the best
way out is always through (algo como “a melhor saída é sempre
através”). Não adianta fugir ou tentar contornar a dor ou o obstáculo; a única
maneira de se livrar deles é enfrentá-los por completo até conseguir chegar à
outra margem. O famoso verso do poema “A servant to servants” cabe bem ao
cenário em que nos encontramos hoje.
Numa eleição da magnitude da atual, não há
mais espaço para o opcional. Após um hiato de quatro anos, o Brasil se vê
novamente às turras, diante de uma bifurcação talvez até mais consequente que a
de 2022. Desta vez, dependendo de quem for eleito, acrescente-se o potencial de
apropriação externa na condução do futuro nacional. Make America Great Again e
o governo do presidente Donald Trump encontraram terreno fértil no Brasil do candidato
Flávio Bolsonaro.
Num ensaio publicado na revista progressista
CounterPunch, o acadêmico americano-canadense Henry A. Giroux avisa que a noção
de governo como bem público democratizante e instituição de responsabilidade
social — que outrora responsabilizava o poder, protegia os vulneráveis e
cultivava os ideais de justiça e responsabilidade coletiva — vem sendo
metodicamente destruída.
— O bem comum — escreve Giroux, que ocupa a
cátedra de pesquisa em interesse público da Universidade McMaster, de Ontário
(Canadá) —, antes visto como essência da vida democrática, tornou-se o inimigo
do Estado fascista neoliberal. O bem comum não tem sido apenas negligenciado;
tem sido atacado, despojado e deixado apodrecer nas sombras da privatização, da
ganância e da brutalidade. As instituições públicas são esvaziadas, os
tribunais estão sob cerco, os órgãos reguladores são politizados e despojados
de poder, e os mecanismos de governança servem agora apenas às formas mais
implacáveis de poder financeiro e político concentrado.
Giroux, pesquisador emérito Paulo Freire em pedagogia
crítica, não se referia ao Brasil, e sim ao país que reelegeu Trump apesar de
ter tido quatro anos para refletir:
— Vivemos tempos perigosos. As paixões
mobilizadoras do fascismo já não são um eco distante da História, elas estão
aqui, percorrendo os Estados Unidos como uma corrente elétrica. Estamos num
período de expurgo social, ideológico e racial. Essa é uma guerra não apenas
contra as pessoas, mas contra a memória, a imaginação e a própria capacidade de
pensar, estabelecer conexões e sonhar com um futuro diferente.
Ou, como diria Marco Lucchesi, de dar
“bom-dia à democracia”.

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