O Estado de S. Paulo
Número de senadores de oposição e a diferença
entre Lula e Flávio Bolsonaro dirá qual é a capacidade desse grupo de conduzir
a política
O mais atrevido esforço de parte da
burocracia estatal em dirigir o resultado de um pleito terá já no domingo uma
boa apreciação da eficácia de seus esforços. A combinação de número de
senadores de oposição e a diferença no primeiro turno entre Lula
e Flávio
Bolsonaro dirá qual é a capacidade desse grupo de conduzir a política.
Já se enxerga o considerável tamanho do erro político, por parte da ala de força dentro do STF, em fundir a crise interna da instituição com o resultado de uma eleição. Ela dispõe de instrumentos de coerção contra adversários internos, especialmente o comando sobre parte relevante de aparatos de segurança como a Polícia Federal. Mas tem bem menos capacidade de controlar os grandes fatores que pesam na formação do voto.
Involuntariamente, emprestaram a parte das
eleições um ar de plebiscito sobre a própria atuação − num momento crítico de
falta de legitimidade do Judiciário. O motivo para assumir risco de tal
magnitude é bem claro: trata-se literalmente de luta pela sobrevivência. Ela
anulou qualquer prudência na atuação política a partir do STF.
A isso corresponde um outro erro importante
em política, que é a perda da leitura da realidade. Em parte, isso tem a ver
com a arrogância típica de quem vive num ambiente de casta que se julga
intocável, mantém e amplia seus privilégios, forma conluios com outros poderes
como Executivo e parte do Legislativo, sobre os quais dispõe de eficazes
instrumentos de pressão − especialmente o controle de investigações.
Mas em grande parte tem a ver com a recusa em
aceitar que relevante parcela da sociedade brasileira perdeu a confiança no
Judiciário. Os dirigentes da ala de força preferem acreditar numa campanha
“industriada” (a palavra da moda nesses círculos) por agentes financeiros
(tidos como responsáveis pelo escândalo do Master)
e seus dependentes na imprensa – vista ao mesmo tempo como idiota útil de
grupos políticos (visão benigna) e “apparatchik” na luta para destruir o Supremo
(a versão mais corrente).
Nas lutas intestinas dentro do jogo de poder
em Brasília, a ala de força no STF provou ao longo do tempo ser superior a
qualquer adversário. Ampliou seus supremos poderes, tornou-se uma instância
política com enorme capacidade de influência, legisla sem ser muito importunada
e operou instrumentos de exceção pouco contestados. De uma forma ou de outra, o
Executivo e parte do Legislativo viraram seus reféns.
Nesse processo, no qual apagou-se a corrupção
de ontem, alguns integrantes descobriram que podiam ficar muito ricos. Não só
pela sua monumental importância no patrimonialismo brasileiro, no qual grupos
privados se apropriam de pedaços do Estado e dele muito dependem. Mas, também,
pela associação a vigaristas.
O Master prometia e ainda é possível que
termine sendo apenas um tropeço. Não fossem essas eleições.

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