domingo, 4 de outubro de 2026

Eleições 2026: Um bom pedaço do atual regime de poder está em jogo, por William Waack

O Estado de S. Paulo

Número de senadores de oposição e a diferença entre Lula e Flávio Bolsonaro dirá qual é a capacidade desse grupo de conduzir a política

O mais atrevido esforço de parte da burocracia estatal em dirigir o resultado de um pleito terá já no domingo uma boa apreciação da eficácia de seus esforços. A combinação de número de senadores de oposição e a diferença no primeiro turno entre Lula e Flávio Bolsonaro dirá qual é a capacidade desse grupo de conduzir a política.

Já se enxerga o considerável tamanho do erro político, por parte da ala de força dentro do STF, em fundir a crise interna da instituição com o resultado de uma eleição. Ela dispõe de instrumentos de coerção contra adversários internos, especialmente o comando sobre parte relevante de aparatos de segurança como a Polícia Federal. Mas tem bem menos capacidade de controlar os grandes fatores que pesam na formação do voto.

Involuntariamente, emprestaram a parte das eleições um ar de plebiscito sobre a própria atuação − num momento crítico de falta de legitimidade do Judiciário. O motivo para assumir risco de tal magnitude é bem claro: trata-se literalmente de luta pela sobrevivência. Ela anulou qualquer prudência na atuação política a partir do STF.

A isso corresponde um outro erro importante em política, que é a perda da leitura da realidade. Em parte, isso tem a ver com a arrogância típica de quem vive num ambiente de casta que se julga intocável, mantém e amplia seus privilégios, forma conluios com outros poderes como Executivo e parte do Legislativo, sobre os quais dispõe de eficazes instrumentos de pressão − especialmente o controle de investigações.

Mas em grande parte tem a ver com a recusa em aceitar que relevante parcela da sociedade brasileira perdeu a confiança no Judiciário. Os dirigentes da ala de força preferem acreditar numa campanha “industriada” (a palavra da moda nesses círculos) por agentes financeiros (tidos como responsáveis pelo escândalo do Master) e seus dependentes na imprensa – vista ao mesmo tempo como idiota útil de grupos políticos (visão benigna) e “apparatchik” na luta para destruir o Supremo (a versão mais corrente).

Nas lutas intestinas dentro do jogo de poder em Brasília, a ala de força no STF provou ao longo do tempo ser superior a qualquer adversário. Ampliou seus supremos poderes, tornou-se uma instância política com enorme capacidade de influência, legisla sem ser muito importunada e operou instrumentos de exceção pouco contestados. De uma forma ou de outra, o Executivo e parte do Legislativo viraram seus reféns.

Nesse processo, no qual apagou-se a corrupção de ontem, alguns integrantes descobriram que podiam ficar muito ricos. Não só pela sua monumental importância no patrimonialismo brasileiro, no qual grupos privados se apropriam de pedaços do Estado e dele muito dependem. Mas, também, pela associação a vigaristas.

O Master prometia e ainda é possível que termine sendo apenas um tropeço. Não fossem essas eleições.

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