Revista Será? (nº731)
Há os que vivem em um mar de certezas, por
mais turbulentos e imprevisíveis que sejam os tempos em que vivemos. Em
qualquer situação, estão certos do que está ocorrendo e do que vai acontecer.
E, se não acontece, não foi ele que errou, mas a culpa é de variáveis
imponderáveis que surgiram. A convicção da certeza persiste.
Aos que, desta natureza, se apoiam em pesquisas de opinião, mantêm a mesma postura. Nunca erram. O que ele falou se refere a um momento que passou. A culpa é deste e não de suas opiniões, sempre certas. Em último caso, o erro é do eleitor que mudou de opinião na hora em que se viu em frente à urna e com a consciência acima.
Prefiro pensar que tudo pode acontecer nessas
eleições. O presidente pode ser qualquer um dos que ocupam os dois primeiros
lugares. O Senado e a Câmara tendem a manter a maioria conservadora dos
partidos do Centrão. Porém, não se sabe em que proporção, dentre estes, será da
extrema-direita, esses conservadores que não têm compromisso com as regras
democráticas. Nos estados, a situação é mais plural e complexa, diversa. Quanto
mais perto da vida cotidiana das pessoas, menos valor têm as ideologias. Por
isso mesmo, famílias de forte tradição na vida partidária têm membros em todos
(ou quase todos) os partidos relevantes no local.
Há indícios de vitória de um e de outro lado
no caso das eleições presidenciais, que são aquelas que galvanizam a opinião
pública, a grande mídia e as mídias sociais. O Estadão, este paladino do tradicional conservadorismo
brasileiro, em seus editoriais demarcou uma distância clara da família
Bolsonaro ou da “família de milicianos”, como sugeriu. Já a Globo, aos poucos, foi se parecendo
cada vez mais com aquela que editou o debate Collor x Lula, a favor do
primeiro, influindo no resultado eleitoral de 1989. O debate na quinta-feira
tem algo difícil de ser explicado convincentemente: a ausência de um nome
(Renan) e a presença de outro (Zema), este com menor percentual de intenção de
votos. A Globo preferiu utilizar outro critério que não este. O critico à
Bolsonaro foi preterido em favor de um crítico à Lula. Diante do fato de ter
que debater com quatro adversários, Lula tomou a decisão de ausentar-se; quatro
a um é demais. As consequências desta decisão nas eleições não são conhecidas.
O movimento de grandes grupos empresariais no
campo da informação nunca se faz de maneira gratuita. Seriam as posições
citadas: uma, de medo de um perseguidor da grande imprensa, e outra, de
aproximação deste mesmo perseguidor para se manter viva?
O empate entre Bolsonaro e Lula provavelmente
vai ser resolvido entre sábado e domingo: pelos indecisos, pelo voto útil ou
pelos dois. O voto útil favorece Bolsonaro; os indecisos, por sua vez, podem
ser movidos pelo medo da insegurança do novo ou pelo toque das últimas medidas adotadas
em seu favor, particularmente as mulheres, por parte do governo. Este
sentimento será maior do que o provocado pela carestia ao longo do ano?
O sentimento nas respectivas hostes políticas
também conta.
Aparentemente, o sentimento de “já ganhou” é
maior entre os apoiadores de Bolsonaro. Em parte, pela resiliência demonstrada,
sobrevivendo ao escândalo do banco e seu envolvimento e às medidas tomadas
recentemente pelo governo. Em parte, pela recente ascensão, reduzindo sua
distância do primeiro lugar. O sentimento é de crescimento e de vitória, com a
expectativa do movimento do voto útil por parte dos eleitores dos outros
candidatos conservadores.
Por sua vez, a ascensão de Bolsonaro e o
empate técnico deixam as hostes lulistas inseguras por não verem resultados de
crescimento com as medidas populares adotadas, ou, em alguns casos,
“desesperadas”. Impera um sentimento de que a margem de crescimento se esgotou.
E a derrota, que antes era impensável, agora é uma possibilidade ou, para os
mais pessimistas, uma probabilidade.
Qualquer dos dois resultados não será bom
para o País, sendo a vitória de Bolsonaro muito pior. Pior para os pobres, que
voltarão ao mapa da fome; para os trabalhadores de salário mínimo, que não
terão reajustes acima da inflação; para os ativistas democráticos, que serão
ameaçados e presos; para os negros, com o crescimento do discurso da supremacia
branca; para as mulheres, que terão portas fechadas em sua luta pela igualdade
de direitos; ruim para os nacionalistas, que verão o controle americano sobre
as terras raras, último baluarte de riqueza mineral. E pior ainda será para os
indígenas, com ameaças sobre suas terras e o estímulo governamental ao
agronegócio e à mineração degradadora do meio ambiente. Este sofrerá como
nunca, e os dois anos de redução do desmatamento desaparecerão com o aumento da
derrubada das florestas. Enfim, o risco de ingressarmos em um regime
autoritário, sem respeito pela imprensa nem pelos opositores, é real. Aos
poucos, porque hoje não se derruba a democracia com canhões, mas assiste-se ao
sufocamento e a submissão dos poderes constitucionais (Legislativo e
Judiciário) ao Executivo, assim como, o cerceamento da oposição.
No caso da vitória de Lula, a democracia não
estará imediatamente ameaçada, mas o déficit público vai obrigar a adoção de
medidas pouco populares; as tensões políticas, com um Congresso opositor, vão
dificultar a governabilidade; a polarização será mantida, com repercussões
sobre a paz social; a criminalidade deverá crescer, e a aprovação do governo
será suficientemente baixa para alimentar movimentos de impeachment e
contestação. As instituições democráticas poderão estar ainda mais desgastadas
ao final de seu governo, alimentando o discurso dos neorreacionários.
Por enquanto, a incerteza é a rainha do
pedaço. Sinal de democracia, como diria Przeworski. Hoje, contudo, o risco de
sua destruição gradativa é real. Aqui e acolá, no Brasil e no mundo ocidental.
Domingo será um dia relevante nesta luta.
*Sociólogo, doutor em sociologia, professor associado II da Universidade de Brasília, ex- diretor do Centro de Desenvolvimento Sustentável/UnB (2007/2011).

Nenhum comentário:
Postar um comentário