Folha de S. Paulo
Polarização exacerbada afasta tom celebratório
do dia da eleição
Eleitor balança entre medo e conformismo com
escolha do mal menor
Não muito tempo atrás, ainda era possível descrever o dia da eleição como festivo. Não que não houvesse divergências entre as pessoas, mas elas eram vistas mais como escolhas distintas do que como ameaça existencial. Estava implícito que quem perdesse aceitaria o resultado, parabenizaria o vencedor, e iria para a oposição. Ainda celebrávamos a retomada do direito de escolher nossos dirigentes depois de um hiato de mais de 20 anos imposto pela ditadura militar.
Tudo mudou. Já não podemos contar que o
derrotado aceitará graciosamente o veredicto popular. Mesmo excluindo o cenário
extremo de uma tentativa de golpe, como a que ocorreu após o último pleito, é
possível que o perdedor não reconheça imediatamente o resultado e parta para
algum tipo de judicialização. É preocupante porque seria a democracia deixando
de entregar seu produto principal, que é a transferência não violenta do poder.
Neste domingo, o clima é mais de consternação
do que de festa. A indefinição deverá se prolongar por mais três semanas e,
para os eleitores que não se identificam positivamente com nenhum dos dois
principais competidores, só o que lhes resta é escolher o que consideram ser o
mal menor.
Sou capaz de apreciar a arquitetura
conceitual de autores como Kant, Hannah Arendt e Slavoj Zizek, que rejeitam a
doutrina do mal menor. Conformar-se sempre com ela é de fato um problema.
Movimentos de cordão sanitário tendem a ter efeito transitório. Mas não consigo
rejeitar a argumentação de filósofos mais pé no chão que costumam trazer a
realidade para suas considerações. Até entre a forca e a fogueira há uma
alternativa melhor e outra pior. Podemos pessoalmente nos furtar a uma escolha,
mas fazê-lo não elimina o problema. Mesmo para quem não gosta de nenhum dos
dois candidatos, é difícil que eles empatem em todos os quesitos do eleitor.
Deve haver um que lhe pareça menos ruim. É esse dilema que exige nossa atenção.
Não há clima para festa, mas o simples fato
de estarmos votando já tem significado positivo.
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