domingo, 24 de maio de 2015

Dora Kramer - Raios que os partam

- O Estado de S. Paulo

Na hora do aperto e na medida até do impossível, o Palácio do Planalto cede, engole em seco e absorve as derrotas sofridas no Congresso sob a liderança dos presidentes da Câmara e do Senado. Faz olhar de paisagem diante das reiteradas demonstrações de força do deputado Eduardo Cunha e das constantes provocações do senador Renan Calheiros.

Calmaria puramente cenográfica. No relato de dois interlocutores diários da presidente, se pudesse, Dilma Rousseff faria picadinho dos dois. O cargo não lhe permite qualquer gesto de retaliação. Não seria prudente nem conveniente. Nas internas do governo, no entanto, o que se vê é a deterioração completa dessa relação. Principalmente no que tange o presidente do Senado, a quem o Planalto ajudou a eleger. A ele já foi transmitido o recado, por intermédio de representantes autorizados do governo: sua nova postura de oposicionista é tida como uma atitude traiçoeira; se no futuro vier a enfrentar dificuldades decorrentes de seus processos no Supremo Tribunal Federal, que vá pedir apoio aos partidos de oposição.

Não conte com sustentação do Planalto. Ali, no Palácio, a interpretação é a de que Renan Calheiros acredita que possa "crescer" junto à opinião pública nessa fase de impopularidade de Dilma Rousseff. Esquecendo-se, no entanto, de que sua imagem não é das melhores. Para dizer o mínimo e de maneira bastante amena.

Nos bastidores a realidade nua e crua é a seguinte: o governo espera que o Judiciário faça com Renan Calheiros e Eduardo Cunha o que o Executivo não pode fazer.

O Supremo Tribunal Federal, onde o presidente do Senado tem processos, digamos que não tenha adorado o empenho de Renan Calheiros para ver rejeitada a indicação de Luis Edson Fachin, nas mãos de quem caiu o caso da pensão da filha paga por um lobista de empreiteira. No dizer de um governista de muitas estrelas, a disposição do Planalto é "fazer a operação necessária para que Renan se saia mal no Supremo". Qual operação seria essa? "Nada demais. É só pedir que o ministro Fachin seja isento".

Quanto a Eduardo Cunha, a esperança do Palácio do Planalto é de que o deputado venha a ser realmente envolvido nas investigações da Operação Lava Jato. De acordo com as informações de Palácio, a Procuradoria-Geral da República "quer o couro" do presidente da Câmara.

Nesse roteiro, caberia ao Executivo assistir de camarote ao Judiciário promover a derrocada dos dois presidentes do Legislativo e, assim, abrir passagem para o renascimento do Executivo. É um plano de voo no papel. Nada garante na pratica que dê certo.

Fator previdência. O governo tem um acordo com a base aliada e com a oposição para votar o fator previdenciário. Tudo certo, a presidente disse que não iria vetar, mas não é toda a verdade.
Ela vai vetar sim, mas só que o veto será sem efeito. Pelo seguinte: no período entre a aprovação da medida provisória no Senado e a apreciação do veto, o governo apresentará uma fórmula alternativa de cálculo, tornando inócuos tanto o veto quanto a MP.

Mulheres. A bancada feminina da Câmara não está nada satisfeita com o presidente Eduardo Cunha. Elas querem prioridade para a votação de uma proposta pela qual as mulheres tenham direito a 30% das cadeiras da Casa. Ele reluta. Quer pôr em votação depois do sistema de governo, o que a elas não satisfaz. Argumentam que, com isso e mais o distritão, estarão fora do Parlamento.

Radical. A diferença entre o discurso do PT e da oposição de crítica ao ajuste é que o PSDB não pede a cabeça do Joaquim Levy.

Fernando Gabeira - Flamengo e Brasil

• Nos últimos tempos, tenho sentido em relação ao clube as mesmas divisões que sinto em relação ao governo

- O Globo

Sou Flamengo e brasileiro. Nos últimos tempos, tenho sentido em relação ao clube as mesmas divisões que sinto em relação ao governo do Brasil. O Flamengo tem um time de uma mediocridade tão desoladora que me faz hesitar entre torcer para que não caia para a Segundona ou torcer para que caia de uma vez e aprenda com o choque da realidade. Da mesma maneira, a situação econômica me faz desejar que Dilma dê os passos corretos, mas sua performance me faz desejar que caia de uma vez, para recomeçarmos de outro patamar.

O Flamengo não consegue vencer um adversário sem um goleiro de fato. A Pátria Educadora, lembram-se da solenidade com que Dilma anunciou o slogan?, deixou as universidades federais do Rio em estado de miséria. Algumas foram tomadas pelo lixo, outra ameaça desabar. Como dar aulas e estudar numa atmosfera de decadência tão acentuada? O Flamengo fez um ajuste fiscal em 2013, mas até hoje não se viram os resultados no futebol, sua interface com milhares de torcedores. Além da terceirização, algumas medidas idênticas às de Joaquim Levy foram tomadas: aumento das taxas, redução de gastos. E no, entanto, na hora do gol, nada.

No caso do plano de ajuste brasileiro, o gol é a retomada do crescimento. Até o momento, só pensões e salários de pescadores foram atingidos. Esperam-se o corte do governo e aumento de impostos. Como fazer gols com pernas de pau? Como retomar o crescimento, aumentando a carga das pessoas que produzem e consomem? Mesmo deixando barato esse tipo de ajuste fiscal que não enxuga a gigantesca máquina do governo, observamos que as universidades estão assim antes dos cortes orçamentários. A partir de agora, será mais difícil criticá-las porque a incompetência vai se escudar num argumento poderoso: não há dinheiro. Assim como é difícil ganhar um certame nacional sem formar um time, será muito difícil retomar o crescimento com tanta gente mamando nas tetas do governo, uma pesada carga fiscal inibindo empreendedores e o absoluto desprezo pelo conhecimento, vital nas economias modernas.

Não mudo de time nem de país, mas entendo a impaciência de alguns jovens que veem a saída nos aeroportos. Está tudo muito confuso. As grandes expectativas do movimento de rua não têm correspondência no universo político. A oposição que propunha cortes de gastos aumentou as despesas votando o fim do fator previdenciário. E no front da luta contra a corrupção, deixou passar um bom momento para questionar o candidato ao Supremo Luiz Edson Fachin: todos os seus líderes expressivos trocaram a sabatina por uma homenagem a Fernando Henrique em Nova York.

O governo é um monstro de muitas cabeças batendo umas nas outras. A tática de deixar Dilma sangrar não funciona. Ela já perdeu vários quilos e continua dizendo bobagens com a maior tranquilidade. Uma delas é a decisão de manter uma política de partilha no pré-sal. Os chamados defensores da Petrobras criaram uma cláusula que obriga a empresa a participar de todos os projetos da Petrobras, inclusive as canoas furadas. Poderiam criar uma cláusula de preferência, deixando com a empresa a decisão de escolher os projetos em que deva participar, de acordo com seus recursos e a análise de risco.

A própria Petrobras, em documento enviado aos investidores americanos, admite que tem limitações para investir no pré-sal. E agora? Com preços baixos no mercado internacional e imagem negativa da empresa, como o pré-sal vai carimbar nosso passaporte para o futuro? É apenas mais uma promessa da pátria educadora com universidades em ruína. Quando você pondera sobre a política de partilha, a reação mais comum é considerar sua posição reacionária e entreguista. Se pudessem dissipar os véus da ideologia, escolheriam o melhor para o país.

Norberto Bobbio disse no seu livro definindo a esquerda hoje que um sistema estatal de aposentadoria digna é um marco divisor com a direita. No Brasil, sinto que o respeito aos que trabalharam é universal no espectro político: direita, esquerda e centro.

Ideias generosas como aumentar os gastos com os aposentados precisam respeitar as leis do capitalismo. De onde virá o dinheiro para nossas bondades? Joaquim Levy tem uma ideia: impostos que sobrecarregam empresas e trabalhadores ativos.

Tanto essa história do papel da Petrobras no pré-sal como a do fim do fator previdenciário estão cheias de boas intenções: defender a economia nacional, proteger nossos simpáticos velhinhos. Mas, na prática, conseguem o contrário do pretendem: prejudicam a Petrobras e colocam em xeque o fundamento de um sistema previdenciário digno: sua sustentabilidade.

Quando volto da estrada, aos domingos, vejo um futebol. Vou trocar o hábito por um vídeo de clássicos europeus. Você pode dar um tempo na relação com seu time, mas não com o país. Talvez por estar viajando, não conheça bem todos as variáveis em jogo. Mas sempre que paro para ler e pensar, pergunto-me para onde estamos indo como país. Penso na Segundona, aqueles campos meio pelados, a luz fraca dos estádios. É isso que nos espera?

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Fernando Gabeira é jornalista

Eliane Cantanhêde - Crise dentro da crise

- O Estado de S. Paulo

Três acontecimentos muito estranhos, todos na sexta-feira, mexem com os nervos do governo, com a imaginação da oposição e com a curiosidade geral. O clima é tenso, há interrogações demais e respostas de menos em Brasília. A crise econômica, política e a ética estão, aparentemente, descambando para uma crise dentro do próprio governo.

Primeiro acontecimento: antes do anúncio dos cortes no Orçamento, a presidente Dilma Rousseff se reuniu com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva de manhã, fora da agenda e na Granja do Torto, local distante do Palácio da Alvorada e da cúpula política do governo, inclusive do vice Michel Temer. E o chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, participou. Nada disso é usual.

Segundo: o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, simplesmente não apareceu na entrevista sobre o contingenciamento gigante, deixando a missão para o ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, seu companheiro de agruras econômicas e adversário de disputas internas.

Terceiro: Lula voltou a São Paulo em tempo hábil, mas não deu as caras na reunião do Diretório do PT que discutiu a convenção nacional do partido, no mês que vem. Ok, a reunião foi um fiasco, com a maior parte das cadeiras vazias, mas Lula não aparecer?

Conclusão: aí tem! E o eixo da crise é Levy, tido por Arminio Fraga como "uma ilha de competência num mar de mediocridade". Mesmo que não seja questão de competência e mediocridade, é questão de turma. Levy não é da turma que gravita em torno do PT e está por toda parte na economia: Planejamento, BNDES, CEF, BC, BB, Petrobrás. Logo, uma ilha ele é, ou um peixe fora d'água.

Ao se atirar na condução da política econômica, nas estafantes discussões internas sobre rumos e nas muitas vezes inócuas negociações do ajuste fiscal com a base aliada, Levy sustenta-se num só pilar: a presidente da República. Se ela lhe faltar, não sobra nada. E ela pode ter começado a lhe faltar.

Quando dois petistas assinaram o manifesto de quarta-feira atacando o ajuste fiscal como recessivo, de certa forma, pediram a cabeça de Levy. Tudo bem com a assinatura de Paulo Paim, porque condiz com o personagem dele. Mas nem tudo bem assim com a de Lindbergh Farias.

Pergunta que não quer calar no Congresso: ele agiu sozinho ou por orientação de Lula?

Mas o pior foi nos cortes do Orçamento. Levy tinha anunciado uma tesourada entre R$ 70 bilhões e R$ 80 bilhões, mas o número final ficou em R$ 69,9 bilhões, estrategicamente abaixo do limite mínimo que ele assumira publicamente. Essa diferença, pequena diante do todo, foi mera implicância? Foi um aceno para as bases petistas? Ou foi um recado para o isolado ministro da Fazenda? Gripado ele estava, mas isso não o impediria de dedicar meia dúzia de palavras ao País, ao mundo, numa hora assim, diante de uma decisão grave como essa.

Afinal, o governo do PT e de Dilma passou a tesoura até mesmo na Saúde e na Educação da tal "pátria educadora", minou os alicerces do tão estratégico PAC e atingiu até mesmo o emblemático Minha Casa Minha Vida. Aliás, depois do esfarelamento dos recursos do Pronatec e do Fies, só faltava cortar os do Minha Casa. É o último bastião da campanha a ruir.

Então, embolou tudo: um corte brutal do Orçamento, a previsão oficial de queda de 1,2% do PIB neste ano, o maior fechamento de empregos formais de um abril desde 1992. E nada de aprovação do ajuste fiscal e do fim das desonerações pelo Congresso. Parece cada vez mais difícil.

Dilma, Levy e Temer só têm esta semana para aprovar as medidas provisórias que mudam regras trabalhistas e previdenciárias e, assim, garantir o ajuste fiscal, ou ao menos algum ajuste fiscal. Como o prazo de vigência de ambas é 1.º de junho, segunda-feira da próxima semana, é agora ou nunca. E há uma dramática coincidência entre o prazo do ajuste e o prazo de vigência do próprio Levy.

PS - Tiro uma semaninha de folga. Até já!

Bernardo Mello Franco - Acabou o dinheiro

- Folha de S. Paulo

Em uma das muitas crises financeiras no Clube de Regatas do Flamengo, em 2009, o então presidente Marcio Braga convocou a imprensa à sede da Gávea e abriu o jogo: "O que está acontecendo aqui é exatamente o seguinte: Acabou o dinheiro. Não tem mais dinheiro".

Dilma Rousseff escondeu a crise na campanha, mas tem uma chance de se redimir da propaganda enganosa. Basta reunir os jornalistas no Planalto e repetir as palavras do ex-mandatário rubro-negro. Acabou o dinheiro. Não tem mais dinheiro.

Essa seria a explicação mais honesta para o corte de quase R$ 70 bilhões anunciado nesta sexta. O governo está na pindaíba, vendendo o almoço para pagar o jantar. O país vive uma nova era das vacas magras, como no segundo mandato de FHC.

A volta ao passado inclui o retorno ao noticiário de outra sigla de três letras: o FMI. Na semana do corte, o Fundo enviou sua sorridente diretora ao Brasil para tirar fotos com autoridades, assistir a uma apresentação de capoeira e elogiar o ajuste fiscal.

A tesourada deve agravar a crise na educação, às vésperas de uma nova onda de greves nas universidades federais. Também atingirá o Minha Casa, Minha Vida, vitrine da gestão petista, e o PAC, que poderia acelerar a retomada do crescimento.

O pacote ainda bloqueará R$ 21,4 bilhões de emendas parlamentares, no momento em que Dilma mais precisa de apoio para aprovar o ajuste no Congresso. Pode ser a senha para uma nova ofensiva de quem só pensa em reciclar as palavras do ex-presidente do Flamengo: "Acabou o governo. Não tem mais governo".

Palavras do ministro Ricardo Lewandowski no dia do corte: "Como cidadão, compreendo as dificuldades pelas quais passa o país. Como chefe do Judiciário, tenho que cuidar dos servidores que estão com vencimentos atrasados". Faltou lembrar que eles receberam o último aumento há apenas quatro meses.

Luiz Carlos Azedo - A dura vida banal

• À crise econômica, política e ética instalada no país desde a reeleição da presidente Dilma Rousseff , não resta dúvida, se somará uma dura crise social

- Correio Braziliense

Não, não se trata de uma crônica sobre o cotidiano, que é a praia de craques como Ferreira Gullar, que, na década de 1990, reuniu em livro os textos que escrevera para O Pasquim e o Jornal do Brasil. No antológico A estranha vida banal (José Olímpio), de 1989, o poeta exalta pequenos detalhes do cotidiano, das garrafas de areia colorida feitas nas praias do Tibau, no Rio Grande do Norte, à observação atenta da aranha que caça uma mariposa.

A inspiração vem do professor Milton Santos, o grande geógrafo brasileiro, para quem um dos grandes problemas da globalização é que as políticas públicas foram capturadas pelos grandes interesses econômicos globais e a chamada vida banal foi ignorada pelo poder público, principalmente nos países periféricos.

Esse alheamento não se restringe aos donos do poder e às elites econômicas, mas abarca também a opinião pública — até a hora em que explodem grandes tragédias humanitárias, como as que ocorrem no Mediterrâneo e, bem mais perto daqui, no Haiti. Ou irrompe violência inopinada e brutal, seja o assassinato de um jovem negro por policiais no sul dos Estados Unidos, seja o latrocínio de um médico, a facadas, que pedalava à beira da Lagoa Rodrigo de Freitas, cartão-postal do Rio de Janeiro, por jovens infratores que roubaram sua bicicleta.

A remissão ao falecido professor Milton Santos, um dos maiores intelectuais negros de nosso país, vem a calhar por causa do corte de R$ 69 bilhões no Orçamento da União anunciado na sexta-feira pelo ministro do Planejamento, Nelson Barbosa. A presidente Dilma Rousseff classificou-o como estritamente necessário, ou seja, nem tão grande que provoque o colapso do governo, nem tão pequeno que não surta o efeito desejado. Sobre os dois aspectos, porém, há controvérsias.

Estima-se que haverá uma contração de 1,2% no Produto Interno Bruto (PIB) em 2015 — o que será o pior resultado em 25 anos. Até então, previa-se que o PIB encolhesse 0,9% neste ano. Os maiores cortes foram efetuados nos ministérios das Cidades (R$ 17,2 bilhões), da Saúde (R$ 1,7 bilhão), da Educação (R$ 9,4 bilhões) e dos Transportes (R$ 5,7 bilhões). Ou seja, o maior impacto do ajuste fiscal será no cotidiano da população, na chamada vida banal.

Sucateamento
Há dois aspectos a considerar. O primeiro, é a política de “focalização” dos gastos sociais nos mais pobres, que se traduziu durante os governos Lula e Dilma na transferência direta de renda para aproximadamente 13 milhões de famílias, uma escala sem precedentes, na qual o corte foi menor: R$ 1,3 bilhão. Essa política social foi eficiente no combate à miséria absoluta e na elevação do padrão de consumo das famílias, mas, em contrapartida, as políticas “universalistas” — na saúde, na educação e nos transportes, principalmente — foram relegadas a segundo plano e sucateadas.

A questão levantada pelo professor Milton Santos ganha ainda mais relevância porque, ainda assim, as políticas universalistas foram aprisionadas por interesses econômicos poderosos. Vêm daí os descalabros da relação entre o SUS e os estabelecimentos de saúde privada; a perversa hegemonia do lobby rodoviário na política de transportes, tanto de cargas como de pessoas; a opção pelo padrão de transporte individual nos centros urbanos em razão dos interesses das montadoras de automóveis; a bolha imobiliária gerada pela especulação nas grandes cidades brasileiras; e a péssima qualidade do ensino brasileiro, cuja expansão se deu em função da acumulação privada e não das reais necessidades do país quanto à formação de mão de obra qualificada e ao exercício da cidadania.

À crise econômica, política e ética instalada no país desde a reeleição da presidente Dilma Rousseff — cuja responsabilidade recai sobre a forma como conduziu seu primeiro mandato e sobre a gestão anterior, de Luiz Inácio Lula da Silva —, não resta dúvida, se somará uma dura crise social, em razão do impacto que a recessão econômica e os cortes no Orçamento da União terão sobre a vida da população. No momento, o maior deles é o desemprego, principalmente entre os jovens, que já atinge a casa dos 16%. Esse é o segundo aspecto.

Seus efeitos não se restringirão à órbita federal. Um das perversões da fracassada “nova matriz econômica” do governo Dilma foi a queda de arrecadação de estados e municípios, entre outras coisas, porque as desonerações fiscais feitas pelo então ministro da Fazenda, Guido Mantega, incidiram sobre receitas que eram compartilhadas, uma espécie de cortesia com o chapéu alheio. A crise nas administrações locais, que deixa prefeitos e governadores de pires na mão, deve se agravar tremendamente. São as administrações locais que arcam com as demandas sociais do dia a dia da população, na saúde, na educação, nos transportes, nas condições de moradia, ou seja, cuidam — ou deveriam fazê-lo — da chamada vida banal.

Elio Gaspari - Sai o Trem-Bala, entra o trem chinês

- O Globo

A máquina de propaganda do governo e a doutora Dilma têm um especial carinho por trens. Em 2004 Nosso Guia perfilhou um projeto de ligação ferroviária entre o Rio e São Paulo. Era o trem-bala. Faria percurso de 500 quilômetros em 90 minutos, cobraria o equivalente a R$ 120 e nada custaria à Viúva. Ficaria pronto para a Copa de 2014. Atrasando, era certo que rodasse em 2016 para a Olimpíada. Deu em nada. Ou melhor, deu em parolagem e pariu uma empresa estatal, a EPL. Quando o projeto naufragou, surgiu a palavra mágica ouvida por Machado de Assis em 1883: “lingu”. Ele não esclareceu o que isso queria dizer, mas talvez significasse “investimento”: os chineses bancariam o projeto do trem-bala. Pouco depois um mandarim explicou: “Pedir que uma empresa chinesa assuma um risco tipicamente governamental é uma grande piada”.

Antes do desembarque do primeiro-ministro chinês Li Keqiang, saiu da caixa de mágicas do Planalto o projeto de uma ferrovia transoceânica ligando o Atlântico brasileiro ao Pacífico peruano. Teria 4.400 quilômetros. Nas palavras da doutora Dilma “ela atravessará os Andes”. Custaria entre US$ 5 bilhões e US$ 10 bilhões.

As dúvidas foram desfeitas quando o companheiro Li assinou 53 acordos com a doutora. Na mesa havia apenas o interesse mútuo de começar os estudos básicos da viabilidade do projeto. A ferrovia que iria do litoral brasileiro ao peruano era um exagero. O memorando assinado cuidava apenas da conexão da linha Norte-Sul, que iria de Campinorte, em Goiás, à costa peruana. A linha para o litoral atlântico é uma tarefa brasileira. Se tudo der certo, esse estudo deve ficar pronto em maio de 2016. O que era um estudo básico para analisar a viabilidade do projeto virou uma ferrovia que “atravessará os Andes”.

Cuidando dos seus interesses, os chineses assinaram diversos compromissos, compraram aviões, alugaram navios e arremataram um banco. Todos esses negócios são bons para eles e para o Brasil. Não havia por que botar o “lingu” de Machado de Assis numa ferrovia transoceânica.

A agenda chinesa é sempre precisa. Em geral eles querem recursos naturais e proteínas. Além disso, vendem serviços, bens e máquinas. Jogo jogado. A isso junta-se um interesse do Império do Meio de fornecer sua mão de obra para os projetos onde põe dinheiro. São mais qualificados, conhecem a empresa e às vezes custam menos. Há cinco anos eram 740 mil, de Angola ao Uzbequistão. Obras chinesas no Brasil já tentaram importar operários mas foram barradas. Esse pode vir a ser um bom debate, pois o que é preferível, um pasto goiano com 50 vaqueiros ou a obra de uma ferrovia com 500 chineses e 500 brasileiros?

Esse item da agenda chinesa chamou a atenção de Machado de Assis. Em 1883, quando o andar de cima queria imigrantes para substituir a mão de obra escrava, chegou ao Rio o mandarim Tong King-sing. Veio acompanhado de um secretário negro, fez o maior sucesso com suas roupas e foi recebido por D. Pedro II. O imperador disse-lhe que não tinha simpatia por seu projeto e, no melhor estilo chinês, ele foi-se embora.

À época, comentando a visita do mandarim, Machado de Assis escreveu uma cronica, transcrevendo uma carta que teria recebido dele. Esclareceu que preferiu manter a grafia do autor.

A certa altura, como se fosse hoje, Machado/Tong escreveu:

“Xulica Brasil pará; aba lingu retórica, palração, tempo perdido, pari mamma.”

Uma aula sobre o falecido Trem-Bala
Ainda não se conhecem as fantasias que acompanham a ferrovia Transoceânica, mas está na rede uma detalhada narrativa do que foi a maluquice do trem-bala de Lula e Dilma. É a reportagem “Um trem para Bangladânia”, de Leandro Demori. (A mistura de Bangladesh com Albânia é um neologismo criado pelo professor Mario Henrique Simonsen.)

Ele foi das raízes do sonho do trem de alta velocidade até a morte do projeto da empresa italiana que vendeu a novidade ao governo. Nela havia planilhas mágicas e um roteiro inexplicável, pois o trem não parava ao longo do percurso. O primeiro administrador do projeto, José Francisco das Neves, o “doutor Juquinha”, dormiu umas noites na cadeia, por malfeitos cometidos na ferrovia Norte-Sul, aquela que cruzará com a Transoceânica.

O repórter Leandro Demori trabalhou 11 meses no assunto, conversou com 30 pessoas e colheu documentos brasileiros e italianos. Conseguiu o apoio da Contributoria, uma plataforma independente ligada ao jornal inglês “The Guardian” e seus leitores. Quem quiser pode inscrever seus temas. Os leitores do “Guardian” votam, e quem não for assinante do jornal deve pagar US$ 3 por mês para participar das escolhas. A ajuda é dada relacionando-se o número de votos que o tema recebeu e a quantia que o jornalista pede. Aprovado o financiamento, o beneficiado vai à luta e fica livre para colocar o texto onde quiser. Demori preferiu hospedar seu texto na plataforma Medium, de Ev Williams, o criador do Twitter.

Os repórteres, como o Fantasma das Selvas, são imortais.

Andar de cima
Não se conhece uma só voz saída da banca para condenar o ajuste fiscal enquanto ele avançou sobre despesas que beneficiavam desempregados, pensionistas e aposentados.

Agora que a doutora acrescentou ao ajuste a pimenta da taxação dos lucros bancários, será interessante entender a reação dessa tão fiel torcida.

Renato Duque
A entrada do filho de Renato Duque na roda do dinheiro e das investigações da Lava-Jato assustou o comissariado.

O ex-diretor de serviços da Petrobras seria o arquivo que guarda as conexões do PT e de alguns de seus comissários com as petrorroubalheiras.

O “amigo Paulinho” só concordou em colaborar com o governo quando os investigadores mostraram-lhe que envolvera familiares em práticas criminosas. Até então, o PT considerava “satisfatórias” as patranhas que ele contava.

A Lava-Jato já custou a Renato Duque uma coleção de arte de novo rico e o equivalente a R$ 68 milhões depositados em Mônaco. Sua defesa diz que esse dinheiro não é dele. Amanhã, Eremildo, o Idiota, pretende se habilitar à sua titularidade.

Choque à vista
O senador Renan Calheiros e o deputado Eduardo Cunha, ilustres figuras da lista de parlamentares investigados pelo Ministério Público, decidiram jogar pesado contra a possível recondução de Rodrigo Janot ao comando da Procuradoria Geral da República.

Rejeitá-lo, caso seja indicado pelo Planalto, além de ser uma imensa carapuça, poderá levar a uma inédita mobilização do Ministério Público, refletindo-se em setores do Judiciário, inclusive em seus gaveteiros.

José de Souza Martins - A circunstância de Fachin

• Para sociólogo, novo ministro do STF será sensível a valores sociais na interpretação da lei e das contradições entre o legal e o legítimo

- O Estado de S. Paulo / Aliás

A celeuma quanto à indicação do professor Luiz Edson Fachin para a vaga do ministro Joaquim Barbosa no Supremo Tribunal Federal esconde os aspectos históricos do caso. É importante que a Suprema Corte tenha um ministro com seu perfil. O jurista gaúcho radicado no Paraná não representa, nem pode, um partido político ou uma facção partidária. Ele representa, antes de tudo, uma tendência histórica que só aos poucos se evidencia e ganha presença no cenário social e político do País. É de se presumir que ele será um ministro sensível aos valores sociais dessa tendência na interpretação da lei e das contradições entre o legal e o legítimo à luz do advento histórico de novos sujeitos de direito na cena brasileira.

Frequentemente nos esquecemos de nossos débitos históricos, dos problemas criados e não resolvidos até no passado distante e que, mais cedo ou mais tarde, clamam por solução. Quando são reunidas as condições históricas da solução, independente de pessoas e vontades, as pendências emergem e se resolvem numa direção ou noutra.

Atenho-me ao débito que maiores tensões têm provocado na história brasileira, o da propriedade da terra. Fachin foi questionado quanto à reforma agrária e seus vínculos com os que a reforma defendem. Esse é um tema que abala os nervos dos que veem na proposição da reforma uma ameaça esquerdista ao direito de propriedade. A verdade é que a reforma agrária é uma proposição política conservadora. Nosso Estatuto da Terra e a legislação decorrente foram-nos outorgados pelo regime militar e anticomunista inaugurado em 1964, com o fundamental objetivo de assegurar a ordem em relação ao direito de propriedade. Na direita e na esquerda, enganam-se os que não compreendem a função social e política da reforma.

Longe de ameaçar a instituição do direito de propriedade, a reforma propugna a multiplicação do número de proprietários. Reforça, portanto, a propriedade privada, ao mesmo tempo em que estabelece limites à concepção da propriedade absoluta e abusiva da terra ao introduzir o pressuposto da sua função social, o que já estava na Constituição de 1946. Enganam-se tanto os que combatem o agrorreformismo, na pressuposição de que o direito de propriedade fundiária tem no Brasil uma sólida existência de 500 anos; quanto os que o defendem, especialmente no PT e no MST, supondo que a propriedade privada da terra é entre nós uma iniquidade de 500 anos.

O regime fundiário no Brasil, desde o descobrimento, foi o das sesmarias, cuja lei é de 1375, uma portuguesa lei de reforma agrária, que aqui teve vigência até 1822, substituída em 1850 pela nossa Lei de Terras. No regime sesmarial, mantinha o Estado a propriedade eminente do solo, cabendo ao particular a posse útil. Na ausência de uso produtivo da terra, caía a concessão territorial em comisso, ficando a terra disponível para ocupação por outra pessoa. As iniquidades históricas relacionadas com o chamado latifúndio deviam-se não ao regime sesmarial, mas à escravidão.

A República oligárquica dos coronéis do sertão confirmou essa opção fundiária, em 1889, justamente na medida em que transferiu aos Estados a regulação do acesso às terras devolutas. Pode-se entender o que isso significou quando se tem em conta que a República entre nós nasceu como ditadura militar em oposição aos senhores de terra. Duas tendências históricas opostas marcadas por grande tensão. O que, aliás, foi no básico assinalado justamente por um ministro do Supremo, Victor Nunes Leal, num clássico da Ciência Política brasileira, Coronelismo, Enxada e Voto.

A Revolução de Outubro de 1930 abriu o caminho para relativizar a concepção de propriedade, com o Código de Águas, de 1934, que separou as águas e a propriedade privada da terra, restituindo-as ao domínio do Estado. Abriu, assim, caminho para o princípio jurídico que relativiza até mesmo a propriedade do solo, no caso das terras de marinha, das reservas florestais e das reservas indígenas, aquelas terras em que a extensão e o uso da terra colidem com a função social da propriedade e o interesse público.

Quando se toca nessas pendências históricas toca-se em complexos de problemas não resolvidos. Movida uma peça no tabuleiro de xadrez da História, outras peças acabam sendo movimentadas. A relativização da concepção de propriedade restaura a eficácia moral e dá estatura política à concepção de pessoa (e ao familismo e comunitarismo correspondentes), em oposição ao crescente predomínio da concepção de indivíduo (e ao individualismo e à coisificação da pessoa resultantes).

Luiz Edson Fachin parece identificar-se com o humanismo da primeira tendência, que reflete as orientações do personalismo, de Emmanuel Mounier, o pensador católico que fundou e dirigiu a revista Esprit. Ele não inaugurará essa tendência no STF. Em anos recentes a Suprema Corte tem sido chamada a opinar sobre questões como a dos territórios indígenas, o consequente direito à diferença e a própria concepção de nacionalidade brasileira.

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José de Souza Martins é sociólogo. Professor emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Entre outros livros, autor de a Política do Brasil lúmpen e místico (Contexto)

Vinicius Torres Freire - O trem do Peru e o filho de Levy

• Plano de arrumação das contas do governo prevê mais aumento de receita do que corte de gasto

- Folha de S. Paulo

Joaquim Levy não foi assistir ao parto do seu filhote querido, o plano de controle de gastos do governo, o ajuste fiscal. Disseram que o ministro da Fazenda estava gripado. Pode ser. Pode ser também que Levy tenha achado que o filho não fosse bem dele. Gente do Planalto fazia esse tipo de fofoca escarninha, no final da sexta-feira.

Essa foi a primeira e a menos importante das esquisitices da divulgação do Orçamento federal de verdade, o plano de gastos e arrecadação que deve valer até o final do ano.

Segunda esquisitice: os gastos de 2015 não serão equivalentes aos de 2013 nem nas promessas de papel orçamentário, como Levy dizia desde fevereiro.

Terceira: o governo espera que a arrecadação de impostos cresça uns 5% neste ano, em termos reais. Mas a receita real até abril caiu quase 3%. Puxado.

Quarta: o governo fez essa estimativa otimista mesmo enquanto o Congresso ainda talha e diminui o pacote fiscal.

Quinta, tendo se arriscado a essas pequenas temeridades, não enfatizou que talvez seja necessário aumentar ainda os impostos.

De mais previsível, o governo indicou que vai cortar mesmo uns 30% da despesa de investimento (em relação a 2014, pelo menos no que diz respeito ao PAC. Imagine-se no resto). Tende a ser mais.

Enfim, em relação a 2014, a promessa é baixar a despesa em 1%, se der tudo certo (em termos reais). Parece pouco, muito menos do que a promessa inicial de cortar 6%. No entanto, mesmo essa redução de 1% é rara. Nos três anos em que foi responsável pelo Orçamento, o governo Dilma 1 elevou o gasto em mais de 6% ao ano, em média.

Trem do Peru
A presidente Dilma Rousseff tem uma queda esquisita por trens. Não por um "trem bão", como dizem alguns de seus conterrâneos. Mas pelo "trem da alegria" de quem gosta de torrar dinheiro em "viagens".

Antes, viajara na ideia doidivanas do trem-bala, aquele que estaria pronto para ligar São Paulo e Rio já na Copa de 2014. O negócio era um disparate tão grande que, nem com dinheiro quase dado, essas empreiteiras Lava Jato quiseram embarcar.

Agora, a presidente veio com a história do trem do Peru, que ligaria o centro do Brasil ao Pacífico passando em parte pela Amazônia e pelos Andes, "corredor da exportação agropecuário" por onde nem os agropecuaristas querem correr.

O Brasil não consegue terminar a obra de quase 30 anos da Ferrovia Norte-Sul. Não consegue nem começar direito as obras essenciais de ferrovias que ligariam a Norte-Sul a Goiás e ao litoral da Bahia.

O governo não consegue ligar à rede elétrica usinas de eletricidade prontas a fios. Não consegue colocar trilhos nem no sertão desértico da Bahia, por incompetência básica, rolos ambientais e outras burocracias. Mas quer fazer o trem da floresta do Peru. Um negócio da China.

De onde teria vindo essa mania de trens? De uma infância feliz passeando em marias-fumaça mineiras? Da vontade de imitar mais um desastre econômico da ditadura, como a Ferrovia do Aço? Da ideia desenvolvimentista vulgar de que os EUA cresceram porque fizeram ferrovias "coast to coast" no século 19, do Atlântico ao Pacífico?

Trem das Onze? Trem Azul?

Miriam Leitão - Governo sem rumo

- O Globo

Os números e fatos ruins têm feito fila. É um por dia, e, às vezes, mais de um. Na semana passada, houve aumento de gastos sendo decididos pelo Congresso, desemprego de jovens de 16,2%, quase 100 mil demitidos do mercado formal em abril, e o Banco Central informou que a economia encolheu durante o primeiro trimestre. A ressaca de uma campanha eleitoral equivocada ainda não passou.

Foi tão falsa a campanha da presidente que diariamente o país fica de frente com a contradição entre o projetado e o acontecido. Quando o governo foi explicar, na sexta-feira, os cortes no Orçamento, ficou claro que os ex-ministros Guido Mantega e Miriam Belchior já sabiam — só não diziam — que haveria mudança no seguro-desemprego e no abono salarial. Então calcularam um gasto R$ 10 bilhões menor com esses dois benefícios. Durante a campanha, a presidente repetiu inúmeras vezes que não era necessário ajuste fiscal, porque isso seria o mesmo que cortar direitos de trabalhadores. Agora, a propaganda do governo repete que o ajuste está sendo feito para garantir as conquistas anteriores. Não é verdade, ele está sendo feito porque é preciso corrigir os inúmeros erros cometidos no governo anterior pela presidente Dilma.

A equipe econômica faz o que pode para tentar salvar algo deste grande naufrágio a que nos levou as antigas escolhas do governo, mas há um clima de crise no país, que enfraquece qualquer indício de recuperação. Ela pode vir, mas será lenta. Antes, será preciso conquistar a credibilidade no projeto do atual governo para a economia.

Nada faz muito sentido no governo. Ele fala agora em transparência, e a equipe econômica tem praticado isso, mas o projeto de quebrar o sigilo do BNDES foi vetado pela presidente Dilma com o argumento de que a medida “feriria sigilos bancários e empresariais”das empresas tomadoras de recursos. É um espanto esse argumento. Obviamente, um banco cuja única fonte de recursos é o Tesouro e fundos coletivos, como o Fundo de Amparo ao Trabalhador, não pode esconder as condições, garantias, custos e prazos dos empréstimos que concede argumentando que é preciso proteger o tomador do crédito. O único argumento que faria sentido seria respeitar a legislação do mercado de capitais que manda resguardar algumas informações temporariamente. Publicado o balanço, tudo pode ser divulgado. E o que dizer de empréstimos para obras no exterior? Não há explicação plausível até o momento para se esconder as informações do que é feito do dinheiro do contribuinte até dos órgãos fiscalizadores.

A relação com o Congresso é um tormento diário e uma sucessão de surpresas. A cada dia pode surgir uma novidade que provoque aumento de gastos. Há duas semanas ocorreu a queda do fator previdenciário, com a inclusão de uma nova fórmula de aposentadoria sem qualquer cálculo, antes, que informasse quanto isso custará a curto prazo e no futuro. Na semana passada, uma comissão aprovou aumento de salários para servidores do Judiciário, que o governo disse que custará R$ 25 bilhões, e avançou também um projeto para a Câmara construir um prédio que pode ser até comercial.

O governo decidiu fazer um ajuste que corta investimentos e aumenta impostos. Duas más soluções para o problema. O argumento da equipe econômica é que é muito difícil cortar em outros gastos que não o investimento. Durante a semana, governadores foram a Brasília para uma reunião com os presidentes da Câmara e do Senado sobre pacto federativo. Normalmente, esse seria o papel da presidente da República. Na omissão, agiram os presidentes das duas Casas que andam em conflito com o Executivo. Os governadores se queixaram de que só são propostos aumentos de impostos cuja arrecadação é toda do governo federal e que isso é o antipacto federativo.

Na semana passada, senadores da base governista, até petistas, se rebelaram contra a política econômica. Argumentaram que não foi isso que foi dito na campanha e pediram a demissão do ministro da Fazenda. O ex-presidente Lula foi a Brasília para se reunir com a presidente e passar de novo a impressão de que a tutela. A sensação ainda é de um governo sem rumo, no final do quinto mês do segundo mandato.

Rolf Kuntz - O tamanho do estrago, um balanço inacabado

- O Estado de S. Paulo

O maior mistério da economia brasileira, neste momento, ainda é o tamanho do estrago produzido no primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff. Ninguém sabe, portanto, quanto ainda custarão os danos causados pelos erros e desmandos cometidos nos últimos quatro anos nem a extensão do conserto necessário. O governo anunciou na sexta-feira o corte de R$ 69,9 bilhões do Orçamento, a ação mais espetacular, até agora, para diminuir o buraco nas contas públicas. Na véspera, a Moody's, uma das três mais importantes agências de classificação de risco, havia rebaixado a Eletrobrás do grau de investimento para o grau especulativo. Isso resulta, normalmente, em crédito menos acessível e, portanto, mais caro. Esse novo dano imposto a uma das maiores estatais é mais uma consequência das bobagens cometidas no mandato anterior.

Em termos mais diplomáticos, mas inequívocos, um analista da agência, José Soares, mencionou a fragilidade de caixa da Eletrobrás e a perspectiva de piora de suas condições financeiras no próximo ano. A entrada de caixa foi severamente prejudicada pela contenção política de tarifas. A indústria de etanol, prejudicada igualmente pela política de preços dos combustíveis, ainda está em recuperação.

Também no caso da Petrobrás, devastada pela interferência do Palácio do Planalto, os efeitos da política voluntarista, do aparelhamento e do loteamento continuam aparecendo. Na última terça-feira, fundos de investimento e de pensão de oito países e uma associação de caridade americana abriram mais um processo contra a empresa num tribunal de Nova York.

Desde dezembro, segundo informou o correspondente Altamiro Júnior, nove ações judiciais foram abertas nos Estados Unidos, todas ligadas à Operação Lava Jato. As investigações de corrupção têm revelado, no entanto, apenas uma parte dos males causados pela ingerência na administração da empresa. De toda forma, a Operação Lava Jato é uma história ainda sem conclusão e a lista dos problemas da estatal pode alongar-se.

Sem poder esperar, o governo tem de avançar no conserto sem conhecer a dimensão dos danos e até as condições de execução da nova política. O chamado contingenciamento de verbas - provavelmente para valer durante todo o ano - será complementado por outras medidas. Os bancos poderão pagar uns R$ 4 bilhões a mais com o aumento de sua Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL). Parte da arrumação fiscal ainda vai ser decidida no Congresso. Há muita resistência, até entre parlamentares da base do governo, a mudanças, propostas pelo Executivo, nas condições de acesso a benefícios trabalhistas e previdenciários e na desoneração da folha de salários. Sindicalistas e dirigentes de entidades empresariais, como a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, participam dessa resistência.

O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, tem estado na linha de frente das negociações. Também o ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, tem trabalhado em defesa do pacote de ajuste.

Eles definiram os objetivos do governo, mas é muito difícil dizer, neste momento, se a estratégia fixada para os próximos meses será suficiente. A arrecadação federal continua muito ruim. A receita de abril, R$ 109,24 bilhões, foi 4,62% menor que a de um ano antes, descontada a inflação. Em termos reais, foi o pior resultado para o mês nos últimos cinco anos. No quadrimestre o governo arrecadou R$ 418,62 bilhões, 2,71% menos que entre janeiro e abril de 2014. A perda reflete essencialmente as más condições da economia. A atividade, muito baixa no ano passado, ainda se enfraqueceu neste ano, mesmo antes de qualquer medida de arrocho orçamentário.

Comparando números de janeiro-abril deste ano com os do ano passado, o relatório da Receita Federal aponta deterioração das grandes fontes de tributos. A lista das "divisões econômicas" inclui dez áreas de atividade. Em todas a arrecadação foi menor que a de 2014. O resultado poderia ter sido melhor se o governo tivesse conseguido eliminar pelo menos uma parte das desonerações, assunto ainda na dependência do Congresso.

De toda forma, a retração econômica e seu efeito na arrecadação mais uma vez confirmam o fiasco da política de benefícios fiscais improvisados. A desoneração da folha de pagamentos, tanto quanto os demais incentivos tributários a setores selecionados, simplesmente falhou como estratégia de crescimento. Esse fato evidente foi mais de uma vez apontado por analistas nos últimos dois anos, mas o governo insistiu no equívoco. Duplo equívoco, de fato, porque recorreu a remendos tributários e, além disso, deu mais atenção ao consumo do que à produção. Além disso, jamais ofereceu, com sua política improvisada, um rumo bastante claro para gerar confiança e estimular o investimento privado.

Discursando no Rio de Janeiro na sexta-feira, a diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, apoiou o compromisso de ajuste anunciado pelo governo e usou cinco vezes a palavra "credibilidade", uma no título e quatro no texto apresentado. Não foi por acaso. Ela conhece muito bem os erros cometidos nos últimos anos e a desmoralização da política econômica no mandato anterior da presidente Dilma Rousseff. Com a gentileza esperada de uma funcionária internacional, ela falou sobre as prioridades para o Brasil e mencionou a importância de cuidar, agora, das condições da oferta e do potencial de crescimento. Não precisaria renunciar à elegância e comentar diretamente o acúmulo de erros políticos.

Em pesquisas divulgadas pela CNI e pela Fundação Getúlio Vargas durante a semana, empresários voltaram a manifestar pessimismo e desconfiança em relação à economia. Também isso é parte da lista de estragos ainda inacabada.

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Jornalista

Remendos e derramas – Editorial / Folha de S. Paulo

• Corte de despesas divulgado pelo governo atinge uma situação emergencial; ainda falta um plano para conter gastos de forma permanente

O governo divulgou na sexta-feira (24) o Orçamento real para 2015, números mais próximos da realidade do que a fantasia de costume aprovada pelo Congresso.

Embora mais realistas, as estimativas da equipe econômica evidenciam esperanças que, no momento, parecem excessivas quanto à arrecadação de impostos.

Além disso, ainda que a intenção manifesta de conter R$ 69,9 bilhões em despesas seja de um arrojo inédito ao menos neste século, o corte de gastos deve ocorrer, e nisso não há novidade, sobretudo nos investimentos públicos --redução de cerca de 30% do valor desembolsado em 2014, a julgar pelos números anunciados.

Mais do que mau hábito, a contenção emergencial desse item crucial ressalta um problema antigo da administração pública brasileira. O gasto federal cresce há décadas em ritmo superior ao da produção de recursos para financiá-lo. Como se não bastasse, muita despesa é obrigatória e cresce à revelia do governo, de modo vegetativo.

Apesar de ainda não terem sido apresentados detalhes da nova programação financeira, o governo parece esperar um crescimento real da receita da ordem de 5%. Nos primeiros quatro meses do ano, a arrecadação caiu 2,7%.

A baixa prevista da despesa está, grosso modo, em linha com o realizado pelo governo nos primeiros meses do ano. No entanto, tais projeções lançam alguma dúvida sobre a capacidade do Executivo de poupar o que promete.

Ainda é desconhecida a reação da receita de impostos à recessão que se aprofunda. Não se conhece o efeito real da alta de tributos e do endurecimento da concessão de benefícios sociais, até porque algumas dessas medidas estão em tramitação no Congresso.
Se o corte improvisado de gastos decorre de problemas crônicos do Estado e da irresponsabilidade do primeiro governo Dilma Rousseff (PT), a correção de rumos não tem contado com a ajuda do Legislativo.

Não se pode nem se deve esperar do Congresso a mera chancela de atos do Executivo. Mas os parlamentares têm votado com descaso pela oportunidade de formular alternativas sérias ao plano do governo e com desprezo pela ideia de promover reorganização duradoura do padrão de gasto público.

Caso o ajuste proposto seja levado a cabo e caso o Congresso não solape tal esforço, o programa econômico deve ao menos estabilizar a atual situação crítica.

Feito isso, é imperativo que governo e Congresso trabalhem em planos de cortes perenes de despesas, de aumento da eficiência da máquina pública e de limitação do endividamento. O país está cansado de remendos e derramas.

Empregos e salários se curvam à realidade – Editorial / O Globo

• Aumento do desemprego e redução do poder aquisitivo dos salários já eram uma tendência devido ao esgotamento do modelo do ‘novo marco macroeconômico’

As propostas dos “desenvolvimentistas” podem ser apresentadas de maneira mais sofisticada ou não, mas se baseiam na suposição central de que o dirigismo do Estado — sempre conduzido por clarividentes líderes políticos — é capaz de perpetuar ciclos de crescimento do emprego e dos salários. E com inflação baixa. A indução de investimentos por agentes oficiais (BNDES) e o turbinamento do consumo privado por meio de gastos públicos perenes e ascendentes geram o consumo a ser atendido pela capacidade de produção ampliada por tais investimentos, e assim cria-se um circulo virtuoso de desenvolvimento constante. Algo como o “moto-contínuo”, a máquina que geraria a sua própria energia.

Trata-se de uma impossibilidade, mas, no mundo das ideologias, economistas “desenvolvimentistas” continuam a sonhar com ela. Seria algo inofensivo se, volta e meia, não tentassem aplicar a teoria ilusória do “moto-contínuo” em países reais. É o que Lula e Dilma I fizeram, a partir do final do segundo mandato do ex-presidente, quando a crise mundial, agravada em final de 2008, foi usada como pretexto para a criação do “novo marco macroeconômico” — gastos em alta, injeção de bilhões de dívida pública no BNDES etc. Fazia sentido por um período, mas não eternizar a política. É o que foi feito, apesar dos alertas.

O desastre que o “novo marco” produziu é conhecido. Como previsto, a inflação disparou, também porque preços públicos congelados (combustíveis, tarifas de energia), com intenções eleitoreiras, tiveram de ser corrigidos logo no início do segundo mandato da presidente.

Salários e emprego já sinalizaram de maneira forte a ressaca da embriaguez do modelo “desenvolvimentista”. O acompanhamento de acordos salariais fechados no primeiro trimestre mostra que aumenta a proporção de reajustes acertados entre patrões e empregados em níveis inferiores ao INPC (Índice Nacional de Preços). De janeiro a março, 11,9% dos acordos foram fechados com índices aquém da inflação, três vezes mais do que há um ano.

Não era mesmo possível manter os salários em alta para sempre. Bem como o emprego — uma coisa tem relação com a outra. Na média, nas seis maiores regiões metropolitanas, o desemprego chegou a 6,4% em abril, contra 4,9% em mesmo mês de 2014, e deve subir mais, infelizmente.

Ressalte-se que esse início de ajuste independeu da nova política econômica adotada por Dilma, imposta pela realidade. Ele já vinha ocorrendo devido às próprias forças de mercado: apesar de todos os estímulos, o PIB fechou 2014 praticamente estável, cresceu 0,1%, sem fôlego.

Um ajuste selvagem já estava em curso, causado pelos equívocos do “novo marco”. Já o aperto proposto pelo segundo governo Dilma, além de ser uma autocrítica, visa a recuperar o controle da economia e preparar as bases para a retomada. Mas piorará antes de melhorar. A grande diferença é que passa a haver a perspectiva de melhoria.

Como nunca antes – Editorial / O Estado de S. Paulo

Na falta de melhores argumentos, o PT continua se defendendo das acusações de estar enterrado até o pescoço na corrupção alegando que seu maior adversário, o PSDB, cometeu "inúmeros malfeitos e ilicitudes" durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. É possível que isso seja verdade, embora em escala certamente bem menor do que se viu depois de 2003. E ainda resta provar. Mas a culpa do PT está provada pelo julgamento do mensalão, que, como agora se sabe, foi só o começo. O escândalo da Petrobrás está aí para demonstrar que Lula fala a verdade pelo menos quando proclama que veio para fazer as coisas como nunca antes na história deste país.

A corrupção, nunca é demais repetir, não é uma invenção do PT, mas o produto da mentalidade patrimonialista que domina o País desde os tempos coloniais. E foi também para combatê-la ferozmente e sem tréguas, como parte de um espetacular programa de redenção nacional, que Lula & Cia. se dedicaram por mais de 20 anos ao ataque feroz "contra tudo o que está aí". O final da história todo mundo conhece: o PT cansou de dar murro em ponta de faca e optou por aliar-se ao inimigo. E não fez cerimônia no aperfeiçoamento dos métodos políticos que antes condenava com tanta contundência.

Soa no mínimo ridículo, portanto, a direção nacional do PT reagir agora ao recente programa do PSDB na televisão com a ameaça de ir à Justiça para exigir que os tucanos sejam punidos por promoverem contra eles - o PT, seus membros, seu governo - uma "campanha suja, odiosa e reacionária". Qualificativos perfeitamente adequados a uma outra campanha, aquela que o PT colocou no horário dito gratuito da televisão durante a campanha presidencial, acusando a oposição de ambicionar o poder para tirar a comida do prato dos pobres e prometendo - na voz da própria Dilma Rousseff - que jamais tocaria nas conquistas dos assalariados.

Hoje, menos de seis meses depois, o PT que triunfou nas urnas de outubro está mergulhado nas suas próprias contradições, assistindo impotente à demolição de sua hegemonia política pela ação de seus próprios aliados e contemplando a perspectiva de, se chegar até lá, ser apeado do poder em 2018 pela vontade das urnas até agora manipulada por seu populismo sem escrúpulos.

Nesse cenário que anuncia o ocaso de um projeto de poder que se esgota por ter-se transformado em um fim em si mesmo, a triste figura do antes todo-poderoso Luiz Inácio Lula da Silva ainda se esforça para se manter em evidência. Confinado a ambientes fechados em que se mantém protegido de manifestações hostis, Lula tenta preservar a pose, apelando, entre outros truques nos quais se tornou especialista, ao imodesto recurso de referir-se a si mesmo na terceira pessoa, como se se tratasse de um ente superior, acima da mediocridade dos mortais.

Durante um seminário promovido em São Paulo há dias pela Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf), Lula classificou de "bobagens" as declarações de FHC sobre corrupção, depois de sugerir, com a habitual ironia, que os tucanos o atacam agora com medo de enfrentá-lo nas urnas: "Eu estou assustado. Gente do céu! Agora eles já não querem mais atacar a Dilma. Agora eles já estão pensando é que têm que balear o Lula, pensando que o Lula vai voltar em 2018. Eu nem sei se vou estar vivo!". A quem Lula pensa que engana?

Se Dilma Rousseff está politicamente enfraquecida a ponto de ter-se tornado refém das lideranças peemedebistas que comandam o Congresso Nacional, Lula se revela igualmente impotente para impedir que seu partido continue se debatendo no potencialmente catastrófico dilema existencial entre ser governo ou oposição. E isso é péssimo para o País, porque quando não se sabe quem é quem na cena política a porta está aberta para os aproveitadores mal-intencionados.

Lula continua pescando em águas turvas, falando mal de Dilma pelas costas e tentando salvar as aparências em público, o que revela que está tão perdido quanto sua pupila, esta cada vez mais refratária aos desígnios de seu criador. Mas num ponto ele está certo: politicamente, hoje a oposição precisa prestar mais atenção nele do que numa chefe de governo cuja credibilidade diminui a cada dia que passa.

Espanha vai às urnas em prova de fogo de Podemos e Cidadãos contra bipartidarismo

• Eleições locais medem força de novas legendas diante de tradicionais

Priscila Guilayn – O Globo

MADRI - Há uma unanimidade sobre as eleições municipais e autonômicas deste domingo: é o pleito local mais importante desde a morte, há quatro décadas, do ditador Francisco Franco. Depois das eleições de 2011, na qual o governista Partido Popular (PP) teve um resultado excepcional, ganhando quase todas as capitais, regiões e cidades importantes, este poder, provavelmente, será rompido. Entram em cena dois novos partidos, Podemos e Cidadãos, que mostrarão sua verdadeira força, enquanto os tradicionais, PP e Partido Socialista (PSOE), passarão pela prova de fogo de manter, de alguma forma, sua hegemonia.

— Antes, o que o PP perdia, o PSOE ganhava. Agora se dividirá em quatro. Isso nunca aconteceu antes. É a primeira vez na História da Espanha que quatro partidos de tamanho similar de votos, não de deputados, por conta do sistema eleitoral espanhol, podem se consolidar — explica José Juan Toharia, presidente do instituto de pesquisa de opinião Metroscopia.

A erosão causada pela longa crise econômica em um país onde surgem novos escândalos de corrupção ou detalhes sobre velhos casos são a razão da saturação dos espanhóis, que passaram a ser mais exigentes com a ética ao vivenciar o aumento das diferenças sociais e uma taxa de desemprego de 23% — que, entre os jovens, sobe para 50%.

— Vão votar por uma decisão conjuntural, e não por tradição ou por inércia — explica María José Canel, especialista em Comunicação Política da Universidade Complutense de Madri.

O descontentamento e o desejo de castigar os dois principais partidos, o Socialista e o Popular, que nestes 40 anos de democracia vêm se alternando no poder em uma dinâmica bipartidarista, foi descarregado inicialmente no Podemos, surgido três anos depois do nascimento do movimento dos indignados, o 15-M, em 2011.

Quatro cidades como termômetro
De maneira meteórica elevada aos céus, esta nova formação de esquerda, liderada por Pablo Iglesias e que prefere não definir-se como tal, foi surpreendida por outra de centro-direita: Cidadãos. Novos no panorama nacional — mas não novatos, como insiste o líder Albert Rivera, por levarem quase dez anos na Catalunha — o Cidadãos vem ascendendo, desde janeiro, enquanto Podemos cai. O partido de Rivera passou de 5% a 14% em três meses, enquanto o de Iglesias despencou de 24% a 16%, segundo o Centro de Investigações Sociológicas sobre as intenções de voto para as eleições gerais no final do ano.

— Há uma desconfiança e uma decepção forte com o PP e o PSOE, e uma esperança e confiança, embora cautelosa, em relação aos novos partidos — opina Toharia.

As eleições deste domingo estão sendo consideradas uma espécie de primeiro turno da votação que, provavelmente em novembro (a data ainda não foi definida), formará o Parlamento espanhol e decidirá o novo presidente do Governo.

Outra figura usada para ressaltar a importância do pleito é tratá-lo como primárias, já que tanto o PP como o PSOE ainda não têm candidatos para a chefia do Executivo, e um mau resultado poderia pôr em dúvida a liderança de seus secretários gerais Mariano Rajoy, chefe de Governo, e Pedro Sánchez, com o qual os socialistas tentam passar a imagem de regeneração do partido.

Mas as charadas não serão solucionadas com a apuração das urnas, que devem contar com mais de 40% de abstencionistas e indecisos. A partir de segunda-feira começarão a ser analisados os resultados nos mais de 8.100 municípios e nas 13 das 17 comunidades autônomas que, embora sejam a maioria das regiões, representam menos da metade da população, já que Catalunha, Andaluzia, Galícia e País Basco, que não escolhem este domingo seu parlamento regional, somam mais de 20 milhões de habitantes em uma Espanha de 47 milhões. Madri e Valência, redutos do PP, além de Barcelona e Zaragoza — as quatro cidades com maior orçamento e mais povoadas — servirão de termômetro para prever o clima dentro de seis meses.

Uma das perguntas que provavelmente não terá resposta é se realmente chegou o fim do bipartidarismo. Alguns coincidem que, dependendo dos resultados, poderá se dizer que já está em andamento uma mudança estrutural, mas é prematuro julgar a resistência da dinâmica bipartidarista.

— Poderá surgir um novo bipartidarismo corrigido. O PP pode ser um dos dois, e o outro pode ser o PSOE, mas também pode ser Cidadãos, ou Podemos. Com o sistema eleitoral espanhol é impossível que quatro tenham número similar de deputados, mesmo que o número de votos seja parecido. Dois partidos prevalecerão — explica Toharia.

Também ficará por evidenciar o real poder do Podemos, que não competirá nas municipais, embora apoie candidaturas fortes à prefeitura, como a da juíza Manuela Carmena, de Agora Madri. Ela poderia obter um empate técnico com Esperanza Aguirre, do PP, ou a da ativista antidespejos Ada Colau, do Barcelona em Comum, que está lado a lado com o candidato nacionalista Xavier Trias, de Convergência e União. Podemos estará, contudo, na disputa nas autonômicas.

— Haverá muitas pistas, embora não possamos comparar o poder de Podemos em todo o país. Sobre Cidadãos, porém, a radiografia será mais completa. Mas há muita volatilidade — afirma o analista político Ignacio Molina, da Universidade Autônoma de Madri.

Trasladar os resultados deste domingo às gerais, portanto, pode ser precipitado. Molina ressalta que os eleitores costumam considerar as eleições locais menos importantes, e, portanto, pode ser que a encarem como um castigo, mas que revisem seus votos no final do ano:

— A incógnita é total. Mesmo que o resultado das urnas de Podemos ou de Cidadãos seja fantástico, não significa que nas eleições gerais o PP vá perder, ou que os eleitores dos dois novos partidos terão o mesmo comportamento.

A esquerda sem rumo na Europa

• Partidos perdem terreno no continente diante da falta de novas ideias para crise econômica

Fernando Eichenberg – O Globo

PARIS - Na Europa, com raras exceções as urnas têm sido pouco generosas com os partidos socialistas e sociais-democratas. As glórias da esquerda moderada dos tempos das históricas vitórias de Felipe González, na Espanha; de François Mitterrand, na França; da Terceira Via do britânico Tony Blair e do alemão Gerhard Schroeder, ou mesmo dos exemplares modelos escandinavos, parecem esquecidas em empoeirados sótãos do passado. O presente se tornou um lugar inóspito para as esquerdas, em falta de ideias e de um projeto crível e atraente para seduzir e reconquistar um eleitorado perdido em meio à globalização, aos abalos de crises econômicas, ao crescente populismo e xenofobismo e à insegurança face à ameaça terrorista.

O recente êxito dos conservadores no Reino Unido revelou que a esquerda trabalhista ainda não encontrou um rumo para sair da crise existencial acentuada desde que deixou o governo em 2010. Apesar de estar atualmente no poder na França, o Partido Socialista amarga uma profunda crise de identidade, com cisões internas acrescidas da baixa popularidade do presidente François Hollande em um quadro de alto desemprego e de fortalecimento da extrema-direita. Na Alemanha, o Partido Social-Democrata (SPD) não vence há mais de uma década, e sua coalizão com a União Democrata-Cristã (CDU), de Angela Merkel, desnorteou seus mais fiéis militantes.

Na Europa meridional, o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) tenta retornar ao poder, espremido entre o Partido Popular (PP) e as novas formações políticas Podemos e Ciudadanos. Em Portugal, os socialistas perdem fôlego nas pesquisas para as legislativas de setembro e outubro, e sofrem os efeitos da prisão no ano passado do ex-premier José Sócrates, acusado de corrupção. A social-democracia sueca, além de não alcançar a maioria parlamentar em 2014, testemunhou o avanço da extrema-direita. Na contramão, o premier italiano, Matteo Renzi, assumiu o poder no ano passado como um sopro de esperança para as esquerdas moderadas europeias.

Projeto ideológico em questão
Para o analista francês Marc Lazar, especialista em movimentos de esquerda do Instituto de Estudos Políticos de Paris (Sciences-Po), tanto partidos conservadores tradicionais como socialistas e sociais-democratas enfrentam problemas no contexto europeu deste início de século, mas admite que as dificuldades são maiores para os dois últimos. Na sua análise, cinco fatores contribuem para o enfraquecimento da esquerda tradicional no continente. O primeiro seria uma crise mais grave de um “projeto ideológico”, da definição de esquerda e de socialismo:

— Grande parte dos partidos acreditou ter achado a solução com a Terceira Via de Blair e Schroeder, que funcionou por um tempo, mas a partir de 2008 se viu frente ao aumento das desigualdades sociais e de tensões nas sociedades. Mantém-se a ideia de que a esquerda deve participar da economia de mercado, mas a grande questão é como conciliar a competitividade das empresas com a redução das desigualdades sociais.

Outro fator apontado pelo analista é uma “crise de estratégia”: com quem governar?

— É algo que depende muito dos sistemas políticos e dos partidos. Fazer aliança com a esquerda radical hoje é algo complicado para a social-democracia. Se aliar com o centro? Pegue-se o caso do SPD que participa do governo da CDU e é hoje criticado por sua ala esquerda.

Lazar assinala ainda uma crise sociológica, de descomposição da base eleitoral diante do temor do desemprego e da imigração. Socialistas e sociais-democratas perdem uma importante fatia de seu apoio popular constituído de uma classe média urbana, de alto nível de educação e de funcionários públicos. Já as classes populares tendem cada vez mais ao abstencionismo eleitoral ou ao voto populista, sem que os partidos da esquerda consigam convencer o eleitorado mais jovem do setor privado.

Por fim, Lazar lista crises organizacional e de liderança: o coletivo não opera mais como elemento de sustentação dos movimentos, e há uma falta de leadership.

— É o caso do trabalhista britânico Ed Miliband, que não conseguiu se impor na campanha eleitoral nem no seio de seu próprio partido. Não há mais um Blair ou um Schroeder. E o caso da França é emblemático, há um real problema François Hollande.

A exceção, na sua opinião, é Matteo Renzi, “um jovem que se apresenta como uma verdadeira alternativa” em meio à crise da direita após a saída do Cavaliere Silvio Berlusconi, que dominou a política italiana por duas décadas.

— Renzi concentra sua ação em torno de sua imagem, e há quem tema o risco de autoritarismo. Ele tem uma política de comunicação bastante forte. Berlusconi se comunicava pela TV, e ele tuíta; compreendeu a comunicação moderna e se adaptou às transformações da democracia.

Para o espanhol Ignacio Urquizu, do Centro de Estudos Avançados em Ciências Sociais do Instituto Juan March, a esquerda tradicional e o socialismo-democrático estão em uma situação dramática na Europa, incapazes de formular projetos coerentes com a globalização, a implantação do euro e as mudanças dos instrumentos de políticas econômicas. Segundo ele, do ponto de vista econômico, as diferenças hoje entre esquerda e direita são de matizes, e seria necessário repensar o atual projeto político e econômico.

— Socialistas e sociais-democratas se viram aprisionados neste novo cenário. A esquerda tradicional tem um sério problema de criatividade. Não é capaz de imaginar coisas novas. É um problema de audácia e de valentia. É uma esquerda conservadora, que fala em recuperar o que se perdeu, quando deveria ambicionar um mundo melhor. Ela quer retornar aos anos 1980-90, mas o mundo mudou.

Los partidos miden hoy sus fuerzas para pactar o avanzar en solitario

• La campaña ha deparado muchas propuestas a los rivales y pocas ofertas a los ciudadanos

Javier Ayuso - El Pais

MADRID - Los cuatro principales partidos políticos (PP, PSOE, Podemos y Ciudadanos) concurren hoy a las elecciones municipales y autonómicas para medir sus fuerzas reales y decidir si negocian pactos de gobernabilidad o apuestan por andar el camino en solitario. La campaña electoral ha tenido muchos mensajes a los partidos competidores y pocas propuestas a los ciudadanos, aunque unos y otros se han guardado muchas cartas en la manga sobre qué o con quién pactar. Izquierda Unida y UPyD se juegan la supervivencia y los nacionalistas tienen una nueva competencia en los partidos emergentes.

El viernes por la noche, los líderes nacionales de los principales partidos políticos llegaron a sus casas agotados. Han sido 14 intensos días en los que han recorrido prácticamente toda la geografía española en busca de votos para sus candidatos a alcaldes o presidentes autonómicos. Un esfuerzo que les llevó a celebrar actos en tres ciudades o dos comunidades distintas cada día, porque son conscientes de la importancia de estas votaciones.

No son solamente unas elecciones locales y autonómicas: son unos comicios en los que los dos partidos hegemónicos desde 1982 (PP y PSOE) se juegan su continuidad en el poder y la autoridad del bipartidismo de alternancia; los dos emergentes (Podemos y Ciudadanos) tienen que demostrar que no son solo partidos bisagra sino que pueden alcanzar algunas alcaldías o gobiernos autonómicos; las fuerzas asaltadas por los emergentes (Izquierda Unida y UPyD) saben que pueden desaparecer del mapa político; y los nacionalistas tienen nuevos competidores, frescos e inconcretos, que les pueden hacer mucho daño.

La campaña ha estado marcada por los mensajes entre líderes políticos, más que por las propuestas de los candidatos a los posibles electores. Y en el centro de todos los mensajes una sola idea: pactar. Una palabra con distintos significados para unos y para otros, como se ha visto en la negociación para votar o abstenerse en la investidura de la presidenta de la Junta de Andalucía, Susana Díaz, que sigue empantanada a la espera de los resultados de esta jornada.

Para PP y PSOE pactar significa conseguir aliados que les permitan ganar o mantener el poder en determinados Ayuntamientos o gobiernos autonómicos, con la menor pérdida de poder posible. Para Podemos y Ciudadanos, negociar quiere decir vender caro su apoyo a cambio de que se acepten sus propuestas y no sufrir en las últimas elecciones, posiblemente las generales de noviembre, de un año especialmente intenso. Por eso, los planteamientos de campaña de unos y otros han sido muy diferentes.

¿Estamos mejor o peor? La estrategia del Partido Popular ha sido muy clara: vender la mejoría de la situación económica y alertar sobre los males que pueden suceder si vuelve el PSOE o sube Podemos. Los populares tienen mucho que perder tanto en las municipales como en las autonómicas, porque parten de un poder inédito en la democracia española. Por eso, el presidente del Gobierno, Mariano Rajoy, ha echado el resto con una pregunta implícita (muy a la americana) en todos sus mítines: ¿estamos mejor o peor que hace cuatro años?; y una advertencia explícita: tal como vuelva la izquierda, perderemos todo lo que hemos conseguido con tanto esfuerzo.

Rajoy ha pasado de puntillas sobre los posibles pactos que tendrán que empezar a negociarse desde mañana mismo, como dando a entender que se pueden valer por sí solos tras los resultados de hoy. Aunque, eso sí, desde Génova dieron la orden de criticar a Ciudadanos pero dejar todas las puertas abiertas a acuerdos poselectorales con ellos.

El PSOE, por su parte, empezó con “el cambio seguro” y en seguida se pasó a “gobernar para la mayoría”, en un intento claro de pedir el voto útil y ocupar el mayor espacio posible entre el centro y la izquierda. Pedro Sánchez es el líder nacional que ha realizado más mítines y que más se ha mezclado con la gente, buscando además los temas del día para pescar en cada caladero de votos. Sánchez ha tenido muy claro que su adversario es el PP y contra él ha dedicado la mayoría de sus energías.

Los candidatos y el aparato del PSOE han hablado de pactos, dejando la puerta abierta a derechas e izquierdas, incluso a los nacionalistas, con dos excepciones: prohibidos los acuerdos con Bildu y descartados con el PP. Son sus líneas rojas; la primera por motivos obvios y la segunda como arma defensiva ante posibles ataques de los emergentes contra los “pactos de la casta”. Sánchez y sus asesores saben que cualquier coqueteo con el partido de Mariano Rajoy le puede provocar una sangría de votos en las elecciones generales de fin de año.

Podemos ha tenido una campaña a dos velocidades. Empezó fuerte, con un macromitin en Madrid para presentar un programa con más de 200 propuestas electorales y, poco a poco, Pablo Iglesias fue perdiendo fuelle al conocer que las encuestas ya no les iban tan bien y que la salida de Juan Carlos Monedero les había abierto una vía de agua en su navegación hacia el “asalto al poder” . Lo que sí han cuidado los candidatos de Podemos, sobre todo los que se presentan a las municipales en candidaturas ciudadanas, es su disponibilidad para llegar a acuerdos con otros partidos de izquierda para echar al PP del poder. Sus buenas intenciones negociadoras se han topado, sin embargo, con la realidad de Andalucía, donde no han facilitado la investidura de la candidata socialista.

Ciudadanos ha hecho una campaña surfeando la ola de su rápido ascenso en las encuestas, mezclando propuestas concretas con ideas atrevidas (algunas han quedado en simples ocurrencias) y jugándose todo a una carta: la popularidad de Albert Rivera. Algo arriesgado a largo plazo, pero que aparentemente está dando buenos resultados. Ciudadanos sabe que tiene la llave para formar gobiernos locales y autonómicos apoyando bien al PP, bien al PSOE y su líder ha dicho que puede llegar a acuerdos con todo el mundo, hasta con Podemos.

Pero, en mitad de campaña, Rivera tensó demasiado la cuerda de los posibles pactos al imponer una condición que disparaba directamente sobre el PP: “no pactaremos con partidos que no elijan a sus candidatos en primarias”. Una exigencia que ha recordado a muchos lo que dijo respecto a Andalucía: “como no dimitan Griñán y Chaves, ni siquiera cogeré el teléfono a Susana Díaz”.

Podemos y Ciudadanos tienen llaves que pueden hacer o deshacer alcaldes y presidentes autonómicos de un signo o de otro y saben que si la utilizan para abrir o cerrar puertas pueden ganar o perder votos en las elecciones generales de noviembre. PP y PSOE defienden sus posiciones hegemónicas que, hasta ahora, les han permitido alternar en el poder durante más de treinta años.

Dispersión del voto
Pero las encuestas, y la propia evolución del voto en los últimos años, muestra una tendencia clara hacia la dispersión del voto. En las municipales de 2007, el bipartidismo se llevó el 70,54 % de los votos, en las de 2011 la cifra cayó hasta el 65,30 % y en las elecciones de hoy se estima que no superará el 55 %, incluso menos. El ejemplo más reciente es el de las europeas, en las que PP y PSOE no consiguieron llegar al 50 % de los votos. Hoy se eligen 8.122 alcaldes y 67.640 concejales, por lo que serán necesarios varios miles de pactos para formar los gobiernos municipales.

En cuanto a las elecciones en las 13 comunidades autónomas convocadas para hoy, el PP tiene que defender 11 gobiernos y las encuestas no le auguran mayorías absolutas más que en una o dos autonomías. El PSOE podría mantener Asturias y recuperar Extremadura, aunque sin mayoría absoluta. Por eso, la palabra pactar tendrá que empezar a conjugarse mañana mismo.

PP, PSOE, Podemos, Ciudadanos y en menor medida los nacionalistas, Izquierda Unida y UPyD, miden hoy sus fuerzas en la segunda vuelta de un año electoral en el que los partidos tendrán elegir entre llegar a acuerdos para compartir el poder o intentar andar el camino en solitario hasta la última cita electoral, en noviembre.

Casuarina - Jornal da Morte + Senhora Liberdade + Súplica Cearense

Carlos Drummond de Andrade - Lembrança do mundo antigo

Clara passeava no jardim com as crianças.
O céu era verde sobre o gramado,
a água era dourada sob as pontes,
outros elementos eram azuis, róseos, alaranjados,
o guarda-civil sorria, passavam bicicletas,
a menina pisou a relva para pegar um pássaro,
o mundo inteiro, a Alemanha, a China, tudo era tranqüilo em redor de Clara.

As crianças olhavam para o céu: não era proibido.
A boca, o nariz, os olhos estavam abertos. Não havia perigo.
Os perigos que Clara temia eram a gripe, o calor, os insetos.
Clara tinha medo de perder o bonde das 11 horas,
esperava cartas que custavam a chegar,
nem sempre podia usar vestido novo. Mas passeava no jardim, pela manhã!!!
Havia jardins, havia manhãs naquele tempo!!!

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In, Carlos Drummond de Andrade, Sentimento do Mundo