segunda-feira, 15 de junho de 2015

Convenção do PSDB de São Paulo se transforma em ato pela candidatura de Alckmin a presidente em 2018

Germano Oliveira – O Globo

• Novo presidente do PSDB-SP diz que o Brasil está doente e que precisa de um médico, como Alckmin, para salvá-lo

SÃO PAULO — O anúncio da eleição do deputado estadual Pedro Tobias para presidente do Diretório Estadual do PSDB de São Paulo neste domingo foi transformado em ato pelo lançamento da candidatura do governador Geraldo Alckmin a presidente da República em 2018. Tobias, que é ligado a Alckmin, disse que o Brasil está doente, atacado pela corrupção, e que precisa de "um médico para salvá-lo". Alckmin é médico anestesista.

— O governador, como médico, gosta de gente. Esse é o nosso governador, que cuida de São Paulo. O país precisa de um médico, porque está doente, corrompido — disse Tobias, ao ser escolhido presidente do Diretório Estadual do PSDB. Para ele, o país quer "Geraldo presidente". Tobias vai comandar o partido em São Paulo nos próximos dois anos.

Presente ao evento, Alckmin fez discurso em defesa de seus programas de governo e atacou o PT, criticando os escândalos de corrupção e o desempenho da economia, dando sinais claros de que pretende disputar a vaga de candidato a presidente com o senador Aécio Neves (PSDB-MG). No ano passado, Aécio disputou a presidência contra Dilma Rousseff e perdeu por pequena margem de votos.

— A política se exerce essencialmente com ética. O PT pode ser tudo, menos um partido político, porque um partido político se faz com ética — disse Alckmin.

O governador afirmou também estar triste com o atual quadro econômico.

— Não é possível pagar com o futuro do Brasil as contas dos malfeitos da última década — disse Alckmin.

Perguntado se sua candidatura a presidente em 2018 era uma possibilidade, Alckmin desconversou.

— Agora é hora de trabalhar. Fazer o melhor governo da história, enfrentar esse momento difícil que o país está atravessando — disse Alckmin.

Também presente à convenção, realizada na Assembleia Legislativa de São Paulo, o senador José Serra disse que "não há a mais remota hipótese" dele disputar a prefeitura de São Paulo no ano que vem. Quando foi perguntado se cogitava, então, disputar a presidência da República em 2018, o senador foi reticente.

— O que nós percorremos até agora, não chegou a um oitavo do nosso mandato — disse Serra, ao se referir ao mandato de senador, cargo para o qual se elegeu no ano passado.

A escolha de Pedro Tobias para presidente estadual do PSDB teve o empenho pessoal de Alckmin. 

Ele não queria que a disputa para o diretório estadual repetisse o desentendimento acontecido na escolha do presidente do Diretório Municipal, Mário Covas Neto, o Zuzinha. Por isso, o único adversário de Pedro Tobias, Evandro Losacco, desistiu da disputa e aceitou ficar com uma das vice-presidências do diretório estadual. Bruno Covas, neto do ex-governador Mário Covas, ficou com o cargo de secretário-geral e Marcos Monteiro, secretário de Planejamento de Alckmin, foi aclamado como tesoureiro.

PT no divã

Ludmilla Amaral - Revista IstoÉ

• Aos 35 anos, o partido promove o Congresso da contradição. Para agradar suas bases, faz ressalvas ao governo, mas não quer largar as benesses do poder nem admitir seus erros

O Partido dos Trabalhadores (PT) sai de seu 5º Congresso Nacional, que aconteceu em Salvador entre os dias 11 e 13 de junho, mergulhado num clima de tensão e contradição em meio à maior crise de seus 35 anos de história. Hoje, o partido encontra-se numa encruzilhada. Ao mesmo tempo em que precisa dar sustentação ao segundo mandato de Dilma Rousseff, que ainda está em seu início e cujo fracasso pode jogar por terra as pretensões eleitorais de Lula, o seu principal líder, em 2018, é também conveniente ao PT manter uma distância regulamentar do Palácio do Planalto para não ser totalmente contaminado pelo seu eventual infortúnio. Foi como o partido se comportou durante o encontro que reuniu as principais correntes petistas. Apesar de atenuar o tom das críticas sobre as medidas adotadas pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, o PT fez questão de realçar suas diferenças em relação ao governo Dilma.

Atualmente, no momento de deterioração da popularidade de Dilma, em que a presidente adota políticas contrárias às teses sempre defendidas pelo PT na tentativa de tirar o País de uma crise econômica legada por ela mesma, estar associado ao governo não é um bom negócio para quem será submetido ao teste das urnas nas eleições municipais do próximo ano. Por isso, antes mesmo do início do encontro, as principais correntes do PT já planejavam divulgar um documento recheado de petardos contra a política econômica de Levy. Graças à intervenção de Dilma, que ameaçou não comparecer ao Congresso do PT, mas foi demovida da ideia em cima da hora, e do ex-presidente Lula, o tom dos ataques é amenizado.

As maiores tendências petistas, o "Partido que Muda o Brasil" (PMB) e o "Mensagem ao Partido", que juntas possuíam 74% dos 800 delegados do Congresso são as que mais recuam na artilharia contra o governo. Inicialmente, a ideia era dizer que "o ajuste fiscal recaiu mais sobre os trabalhadores do que outros setores das classes dominantes." O novo texto diz que eles prometem se fiar "na determinação e competência do governo da presidente Dilma para nos liderar nessa travessia." Mesmo assim, os petistas, alegando que o governo perdeu a conexão com a classe trabalhadora e com os ideais que o partido sempre defendeu, propõem uma guinada à esquerda da atual gestão e criticam a adoção do que chamam de medidas "neoliberais" para tirar o País da crise. Outro recuo oportunista diz respeito ao financiamento das campanhas. Há dois meses, o presidente do PT, Rui Falcão, disse que a legenda não mais aceitaria doação de empresas. O Congresso petista determinou que tudo permanece como antes.

Ou seja, o partido continua a receber recursos privados. Durante discurso, Dilma pediu união e que militantes "não se submetam aos que torcem pelo fracasso do governo e do partido". Disse ainda que as medidas tomadas foram "fortes" e "conscientes" para que o governo "preserve os direitos dos mais pobres e daqueles que mais precisam do apoio do Estado." Apesar dos apelos, na lateral do auditório, um grupo de militantes estendeu uma faixa onde se lia "abaixo o plano Levy".

O PMB defende ainda a taxação de fortunas e a volta da CPMF. Já o Mensagem cobra a reformulação da política de alianças e, por meio de um de seus principais líderes, o ex-governador Tarso Genro, prega o fim do atual arranjo com o PMDB. "Não serve mais", diante da "situação de alta complexidade que vive o governo", afirmou Genro. "Se o PT não refundar imediatamente seu sistema de alianças, dificilmente terá credibilidade para se apresentar com força política em 2018", disse. A ala mais radical, a Articulação de Esquerda, que engloba a Esperança é Vermelha, de Valter Pomar, é a única que mantém as duras críticas a Levy. "(O ajuste) Coloca o PT contra a classe trabalhadora e as camadas populares", diz o texto.

Engana-se quem pensa que há algo de ideológico nas proposições das principais correntes do PT. Com exceção das tendências à esquerda, que perderam a batalha interna ainda no longínquo ano de 1995, quando José Dirceu, então deputado, assumiu o comando da legenda, as principais alas do PT seguem o receituário pragmático do líder mensaleiro. Para eles, que não se constrangeram nem em aplaudir de pé e por três minutos o ex-tesoureiro João Vaccari, apanhado pela Lava Jato,vale tudo para triunfar nas próximas eleições. Por isso, a bandeira da guinada à esquerda e mesmo a da taxação de grandes fortunas são mais uma retórica eleitoral num esforço para se reconciliar com setores da sociedade que se desencantaram com o PT do que propriamente uma tese que, para eles, deve ser seguida à risca.

Tome-se como exemplo a taxação de grandes fortunas. Como levar a sério uma proposta que vai atingir diretamente empresários que hoje são os principais financiadores das campanhas petistas e que, nos últimos anos, distribuíram dinheiro a ex-dirigentes, como Dirceu, a pretexto de pagamento de serviços de consultoria? Do mesmo modo, cheira a forte oportunismo a crítica das alas dominantes do partido à política de alianças adotada pelo governo. Foi graças a ela que o partido alcançou e se manteve no poder nos últimos 12 anos.

A arca do ex-presidente...

Robson Bonin – Revista Veja

• As investigações da Polícia Federal revelam que Lula e seu instituto receberam uma fortuna de empreiteiras envolvidas no escândalo de corrupção da Petrobras

Quando deixou a Presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva criou um instituto com o objetivo de divulgar pelo mundo as políticas sociais desenvolvidas durante os seus dois mandatos. Sua prioridade seria tirar da pobreza as populações carentes da África e da América Latina. Valendo-se de seu prestígio internacional e de seu gosto pelo palanque, Lula queria atravessar o Atlântico para dar palestras a chefes de Estado, sobretudo africanos, interessados em seguir a experiência brasileira de combate à fome e à desigualdade social. Sem fins lucrativos, o Instituto Lula seria movido pelo mais nobre dos propósitos. Na semana passada, documentos em poder das autoridades que investigam o petrolão, o maior esquema de corrupção da história do país, revelaram que essa cruzada do ex-presidente já rendeu frutos generosos — para a conta bancária do próprio Lula. Dados extraídos da contabilidade da Camargo Corrêa, uma das construtoras suspeitas de participar do desfalque de 6 bilhões de reais dos cofres da Petrobras, mostraram que o ex-presidente recebeu 4,5 milhões de reais da empreiteira por palestras e a título de doação a seu instituto.

Em setembro de 2011, Lula viajou a Portugal com o objetivo de levar a empresários uma mensagem de otimismo em relação à crise econômica mundial. Autor da tese da "marolinha" econômica, ele embolsou cerca de 340 000 reais da Camargo Corrêa pela palestra. Em novembro de 2012, Lula partiu para a Africa do Sul e Moçambique. Na versão oficial, trabalharia por "cooperação em políticas públicas e ampliação das relações internacionais". A Camargo Corrêa pagou pela missão 815 000 reais. Extraoficialmente, Lula operou para reduzir resistências dos moçambicanos à atuação da empreiteira naquele país. Quem tinha fome, no caso, era a própria construtora. Já em junho de 2013, Lula viajou a Colômbia, Peru e Equador como parte de um esforço pela união dos países andinos na construção de uma "América Latina mais justa e igualitária". Mais uma vez, a Camargo Corrêa patrocinou a viagem, pagando 375 000 reais ao ex-presidente.

Todos os desembolsos foram realizados em nome da empresa LILS Palestras Eventos e Publicidade, que Lula abriu em sociedade com o presidente do Instituto Lula, Paulo Okamotto, notório pagador das contas pessoais do ex-presidente. Na semana passada, os integrantes da CPI da Petrobras convocaram Okamotto. Já os investigadores da Operação Lava-Jato querem saber se há vínculo entre os pagamentos recebidos pelo Instituto Lula e o dinheiro roubado dos cofres da Petrobras. Em depoimentos formais às autoridades, dois ex-executivos da Camargo Corrêa já admitiram o pagamento de propina em troca de contratos com a estatal. Em entrevista a VEJA, Okamotto, o braço-direito de Lula, rechaçou essa suspeita (veja a entrevista acima). Nascido numa família pobre, retirante e torneiro mecânico, Lula chegou ao poder depois de empunhar a bandeira da redução da pobreza e da desigualdade social.

Até hoje, apresenta-se como a reedição do pai dos pobres, o Messias que acabou com a fome no Brasil.

É inegável que houve melhora significativa em indicadores sociais, muitos dos quais agora retrocedem devido ao descalabro da economia. É inegável também que o padrão de vida de Lula mudou — para melhor, muito melhor. O ex-presidente só viaja em jatos particulares e exige hotel cinco-estrelas em todas as suas estadas. Para cultivar esses e outros hábitos, recorre a uma rede de amigos poderosos cultivada enquanto comandava a República. Outra empreiteira investigada na Operação Lava-Jato, a OAS reformou um sítio usado por Lula em Atibaia, no interior de São Paulo. Cliente das palestras de Lula e comandada por Léo Pinheiro, amigo do ex-presidente, a OAS também construiu o luxuoso tríplex que a família do ex-presidente tem no Guarujá. De quebra, assumiu a obra de alguns apartamentos que deveriam ter sido construídos por uma cooperativa ligada ao PT, a Bancoop, que deu o cano em seus clientes. O ex-presidente dessa cooperativa e patrono do calote é o ex-tesoureiro petista João Vaccari Neto, preso sob a acusação de coletar propina das empreiteiras investigadas no petrolão. A OAS também é uma das clientes da empresa de Lula. E ainda tem a Odebrecht, a maior empreiteira do país. Na semana passada, o jornal O Globo revelou que o Itamaraty pretende manter em segredo documentos oficiais que podem ligar o ex-presidente à empreiteira. Por quê? Há milhões de hipóteses.

Além das palestras que renderam cerca de 1,5 milhão de reais a Lula, a PF descobriu na contabilidade da Camargo Corrêa três repasses de 1 milhão de reais ao Instituto Lula.

O ex-presidente e a empreiteira alegam que esses 3 milhões de reais seriam "ajuda institucional" da empresa para a entidade. Na contabilidade da Camargo Corrêa, no entanto, pelo menos uma parcela é registrada com um nome diferente — e bem mais sugestivo: "bônus eleitoral". É exatamente o significado disso que as autoridades querem desvendar.

Na quinta-feira, na abertura do 5- Congresso do PT, Lula zombou indiretamente das denúncias de corrupção, lembrando à platéia amiga que o partido venceu as quatro últimas disputas presidenciais. Sob o pretexto de ter sido orientado "a não falar com o fígado", ele não mencionou, no entanto, o petrolão, a prisão de companheiros nem os pagamentos recebidos da Camargo Corrêa. De bobo, Lula não tem nada. Ele sabe que não é hora de provocação desnecessária às autoridades que estão em seu encalço.

Meu petista favorito

Leandro Loyola – Revista Época

• Ele recebeu R$ 4,5 milhões de uma empreiteira do petrolão. Está cada vez mais acuado. Mas continua senhor de seu partido.

Era perto das 21h30 da quinta-feira, dia 11, quando o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a presidente, Dilma Rousseff, chegaram ao 5" Congresso do PT, em um hotel em Salvador, na Bahia. Uma locutora procurava criar o clima de animação necessário à recepção dos dois, com incentivos para que a militância se incendiasse com os surrados cantos de torcida. "PT, PT, PT, PT, PT, PT, trabalhadores no poder!" e "Olê, olê, olê, olá, Dilmá, Dilmá..." Mas não dava muito certo. Está muito desanimado! Nosso presidente e nossa presidenta estão aqui!"", disse a locutora. Não adiantou muito. Mas Lula e Dilma sentaram-se depois de cumprimentar uma infinidade de pessoas. Era só o começo.

Lula tem missões difíceis a cumprir. Os destinos de Lula e do PT, apesar da devastação provocada pelo mensalão e pelo petrolão, permanecem indissociáveis. Lula e sua turma, mesmo desfalcada — dois tesoureiros e dois presidentes do partido cumpriram, ou cumprem, temporada na cadeia —, mandam como nunca no PT. E os poucos adversários internos choram como sempre. — bem baixinho. Hoje, Lula precisa evitar que seu partido se descontrole. Precisa evitar que integrantes do PT dentro do governo desestabilizem ainda mais as relações com o PMDB, o principal parceiro do governo. Precisa evitar que o mau desempenho de sua pupila, a presidente Dilma Rousseff - 75% de ruim e péssimo e apenas 7% de ótimo/bom em pesquisa nacional recente, recebida e guardada pelo Palácio do Planalto comprometa de vez suas chances de ser candidato em 2018. Precisa evitar que o PT desestabilize o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, que comanda um duro, impopular e indispensável corte de gastos públicos, em meio a uma séria crise econômica criada pelos descontroles adotados pela própria gestão Dilma. Precisa, ao mesmo tempo, desancar um pouco Levy para não dar as costas ao PT e a sua base de eleitores, que não estão muito preocupados com responsabilidade fiscal Vida dura essa de dono de partido.

Para piorar, o mundo lá fora não ajuda. Na semana passada, mais um golpe acertou Lula. Documentos apreendidos pela Polícia Federal na sede da Camargo Corrêa mostram que a empreiteira deu R$ 3 milhões ao Instituto Lula, divididos em três contribuições anuais. A Camargo pagou ainda mais R$ 1,5 milhão à LILS, empresa de palestras de Lula. Não há nada de ilegal nisso. Qualquer empresa pode contribuir com os institutos de ex-presidentes como Lula e Fernando Henrique Cardoso. Pode também contratar a empresa de palestras de um ex-presidente. Mas, desde que a Operação Lava Jato desnudou o esquema de empreiteiras e políticos para sangrar bilhões de reais da Petrobras, é um incômodo um político que teve comando sobre a Petrobras aparecer em relações comerciais próximas com empresas desse ramo. Na quinta-feira, a CPI da Petrobras passou por cima dos parlamentares petistas e aprovou a convocação de Paulo Okamotto - que, além de presidente do Instituto Lula, é amigo de Lula, fiador de uma dívida sua com o PT e seu companheiro de muitas viagens e estadias no exterior.

No congresso, Lula encontrou seu caminho ante a platéia petista. Discursou com a veemência costumeira. Evitou os temas complicados que o congresso do PT gostaria de discutir, como as críticas ao ajuste fiscal do governo Dilma, o imposto sobre grandes fortunas, a volta da CPMF e se o partido deve receber dinheiro de empresas nas campanhas eleitorais, entre outros. Lula jogou no campo mais seguro. Dedicou boa parte do tempo a atacar a oposição e a imprensa e a defender os governos petistas. Fez uma defesa disfarçada de Joaquim Levy, sem ser incomodado pela platéia. "O povo está dizendo que temos de manter o combate implacável à inflação. O povo está dizendo que temos de arrumar a casa, como o governo da presidente Dilma está fazendo para inspirar confiança e continuar recebendo investimentos"", disse. Ficou tão animado, que até pediu à militância mais contribuições financeiras ao partido. Saiu, como sempre, ovacionado.

Muitos petistas ajuizados preferiam que o evento nem tivesse acontecido. A ocasião era ruim. O PT é acusado de ser o principal artífice e beneficiário do esquema que desviou bilhões de reais da Petrobras para bolsos alheios ela via da propina* Seu ex-tesoureiro está na cadeia. O PT governa o Brasil na pior crise financeira na história recente e seus parlamentares tiveram de defender o ajuste fiscal.

Graças à atuação de seus aliados> Lula não foi muito incomodado. Lula defende uma volta às origens, uma guinada para a esquerda onde o PT nasceu, para sobreviver ao cenário mais desfavorável em 20 anos, A principal ideia agora é a formação de uma frente com partidos de esquerda e movimentos sociais, para disputar a eleição de 2018. É hora de fingir que nada aconteceu - um nada que, claro, nada teve a ver com Lula. Que nada tem a ver com o governo Dilma. Lula, provável candidato em 2018, parece acreditar que será possível concorrer como candidato de oposição, Voltará a se apoiar na turma que, desde 2002, o PT deixou meio de lado para vencer eleições e se manter no poder. Lula viu o presidente do PT, Rui Falcão, defender a regulamentação do imposto sobre grandes fortunas, uma bandeira defendida por ele e pelo PT desde a década de 1980 até chegar ao poder. Desde então, Lula e o PT esqueceram o imposto. Desde que deixou o poder, em 2011, Lula, o candidato franciscano, passou a trabalhar para as grandes fortunas das empreiteiras financiadas pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, em especial a Odebrecht, como ÉPOCA mostrou.

Para ter chance de ganhar em 2018, Lula terá de sobreviver às investigações abertas contra ele em Brasília (tráfico internacional de influência em negócios da Odebrecht) e no Paraná (petrolão)* Conforme crescem as suspeitas de que o petista está envolvido em esquemas de corrupção, aparece a rede de proteção montada pelo PT no governo. Na sexta-feira, o jornal O Globo revelou que o Itamaraty quer tornar secretos documentos públicos, referentes aos negócios da Odebrecht durante o governo Lula. O objetivo, como mostrou um memorando publicado pelo jornal, é impedir que ÉPOCA tenha acesso aos documentos, os quais foram pedidos mediante a Lei de Acesso à Informação.

Antes de Lula falar, Rui Falcão citou uma frase do papa Francisco sobre o desemprego. "Ê o resultado de uma escolha mundial, de um sistema que tem em seu centro um deus falso, um deus chamado dinheiro." Foi esse "deus chamado dinheiro" que, de acordo com as investigações da Lava Jato, alguns integrantes do PT veneraram no caso da Petrobras. Um deles, o ex-tesoureiro João Vaccari, está preso* Todos os dirigentes fizeram menção à prisão de Vaccari, E a platéia cantou para ele o refrão que ficou famoso com José Dirceu: "Vaccari, guerreiro, do povo brasileiro!". Lula pode ficar sossegado.

Charge - Entreouvido entre Lula e Lupa

Charge de Chico Caruso / O Globo

CUT diz não a apelo da presidente por ajuste

Ricardo Galhardo - O Estado de S. Paulo

Articulador de algumas das posições mais radicais contra a política econômica do governo Dilma Rousseff apresentadas durante o 5.º Congresso do PT, o presidente nacional da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Vagner Freitas, disse ao Estado que a ala sindical do partido, espinha dorsal da legenda, não apoiará o ajuste fiscal levado a cabo pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, apesar dos apelos de Dilma.

"Os trabalhadores não podem dar apoio a uma política econômica em que eles não têm aumento de salário", afirmou.

Na quinta-feira passada, a presidente participou do evento do partido, encerrado no sábado, em Salvador, no qual pediu amparo do PT ao governo. Durante o discurso de Dilma, integrantes da central mostraram uma faixa que dizia "Fora plano Levy", o que fez a presidente engasgar.

O presidente da CUT condicionou o apoio ao governo a duas medidas: vetar o projeto de lei que amplia a terceirização e sancionar a alternativa ao fator previdenciário chamada de fórmula 85/95. "A presidenta precisa fazer duas coisas importantes para ter o apoio que ela solicitou da área petista do movimento sindical. Vetar o PL 4330 (projeto de lei da terceirização) e sancionar o 85/95. Com estas duas medidas ela vai ter nosso apoio irrestrito", garantiu.

Segundo ele, o PT também não pode endossar a política econômica do governo, sob risco de perder o que resta de sua base política original, mesmo que os sindicalistas petistas tentem impor às suas bases o apoio a Dilma. "O efeito político para o PT desta orientação econômica é a diminuição do seu apoio e base social", disse Freitas.

"O que o PT tem de mais importante é o apoio popular. Quando você tem uma política econômica que vai em desencontro do que pensa a maioria dos sindicatos, vai perdendo sua base de sustentação social. Aí, não adianta o dirigente sindical petista querer se impor porque o trabalhador passa por cima disso", afirmou o dirigente.

Manifesto. Durante o congresso partidário, Freitas, da mesma corrente do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a moderada Construindo um Novo Brasil (CNB), cumpriu o papel que sempre coube aos chamados radicais petistas, ao apresentar manifesto intitulado "PT de volta para a classe trabalhadora". Embora não seja um documento oficial da CUT, ele é assinado pelos 31 integrantes da cúpula da central.

O manifesto classifica as medidas propostas no ajuste fiscal de "ataques diretos aos trabalhadores", acusa o governo Dilma Rousseff de tentar implantar uma "agenda neoliberal" e de colocar o PT "contra a classe trabalhadora".

Ao fim dos três dias de congresso, o PT desistiu de fazer críticas mais fortes ao ajuste fiscal após pressão do governo. Em um aceno à base sindical, resolução diz apenas ser preciso retomar o crescimento e defender o emprego e os direitos dos trabalhadores.

Mercado financeiro piora projeção de inflação e prevê 8,79% no ano

Após IPCA acima do esperado, analistas elevam com força projeção de inflação

• Estimativa para a taxa foi de 8,46% para 8,79%. Mas estimativa para os juros básicos no fim de 2015 continua a 14% ao ano

O Globo

SÃO PAULO - Economistas de instituições financeiras pioraram pela nona semana seguinte a perspectiva para o IPCA neste ano, segundo a pesquisa Focus, feita semanalmente pelo Banco Central (BC) e divulgada nesta segunda-feira. Desta vez, a previsão para 2015 piorou com força e subiu de 8,46% para 8,79%, após sinais de resistência da alta dos preços. Para 2016, a estimativa segue em 5,50%.

O IPCA, indicador oficial do governo que orienta o sistema de metas de inflação, surpreendeu em maio ao acelerar a alta a 0,74% na comparação mensal, chegando a 8,47% em 12 meses, maior taxa acumulada desde dezembro de 2003. O índice em maio ficou acima da expectativa do mercado financeiro, que previa 0,55% no mês passado.

O objetivo central do governo é manter a inflação em 4,5%, podendo chegar a 6,5%, o que não deve ser cumprido este ano. O próprio BC reconhece que não deve entregar a inflação na meta este ano, ao projetar o IPCA em 7,9%.

Diminuir o ritmo da atividade é o remédio usado pelo BC para controlar os preços. Para isso, o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC vem elevando a taxa básica de juros, a Selic. No último dia 3, o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC elevou a taxa pela sexta vez seguida para 13,75% ao ano. Com o reajuste, a Selic retornou ao nível de janeiro de 2009.

Na ata da última reunião do comitê, o BC afirmou que aumentou a probabilidade de reverter a alta de preços e fazer com que o IPCA alcance a meta de 4,5% no fim do ano que vem. Mas admitiu que os “sinais de avanços” ainda não são suficientes e indicou que mais altas de juros podem vir por aí. A ata mostrou ainda que os perigos para inflação neste ano são vários como a alta esperada de nada menos que 41% da conta de luz e de 9,1% da gasolina. O BC admitiu ainda que o aumento do desemprego, causado pelo freio na economia, já começou.

Na pesquisa Focus desta semana, no entanto, a estimativa para a taxa básica de juros (Selic) no fim de 2015, porém, continuou em 14%. Já a expectativa das instituições financeiras para a retração da economia em 2015 passou de 1,30% para 1,35%, a quarta piora seguida na estimativa para o Produto Interno Bruto (PIB).

Para o próximo ano, a projeção de crescimento caiu de 1% para 0,9%. Na avaliação do mercado financeiro, a produção industrial deve ter uma queda de 3,20%, este ano e crescimento de 1,6%, em 2016.

A pesquisa do BC também traz a projeção para o Índice Geral de Preços - Mercado (IGP-M), que passou de 6,88% para 6,94%, em 2015. Já a previsão projeção para a cotação do dólar segue em R$ 3,20, ao fim de 2015, e em R$ 3,30, no fim de 2016.

Desilusão carioca

Ricardo Boechat – Revista IstoÉ

Brasil
Vem do Instituto Gerp, do Rio de Janeiro, a mais recente pesquisa de avaliação do Governo Federal. De 4 a 7 de junho foram 400 entrevistados na capital: 81% desaprovaram o trabalho de Dilma. Numa escala onde 1 é péssimo e 5 ótimo, a petista obteve média de 1,72, o que demonstra uma crise em sua gestão. Se as eleições fossem agora: 41% optariam por Aécio, 15% Dilma e 39% "nenhum deles". O instituto quis saber ainda se o entrevistado acha que a presidente mentiu "muito" na campanha: para 68% sim e 89% opinaram que ela ignorou as promessas feitas.

Rio de Janeiro
Contra o tempo
A pedido da IstoÉ, o levantamento do Gerp - que a partir de agora será mensal - indagou os cariocas se eles acreditam que a cidade está capacitada para acolher as Olimpíadas: 74% acham que não e 22% sim. Os problemas mais sérios do Rio de Janeiro na ótica de quem vive na cidade são violência/falta de segurança/policiamento (72%), falta de médicos/profissionais da saúde (54%) e insuficiência de hospitais/postos de saúde (29%).

Ricardo Noblat - PT sem petismo

- O Globo

“O PT nasceu para mudar o Brasil, e esta continua sendo a razão da existência do nosso partido” - Lula

A história do PT guardará o nome de João Vaccari, ex-tesoureiro do partido, preso por envolvimento com corrupção na Petrobras.

Ele foi citado na abertura e no fechamento do 5º Congresso do PT, em Salvador.

Na quinta-feira à noite, lembrado por um militante, Vaccari ganhou três minutos de aplausos.

No sábado à tarde, elogiado por Rui Falcão, presidente do partido, foi de novo demoradamente aplaudido.

Nenhum dos 720 congressistas mencionou os nomes de José Dirceu, ex-ministro de Lula, e Delúbio Soares, ex-tesoureiro do PT, ambos condenados como mensaleiros. Foi como se jamais tivessem existido.

Quanto à corrupção, assunto incômodo para petistas de todos os matizes, nada se discutiu no congresso. Por isso ficou de fora da “Carta de Salvador”, documento com 3.834 palavras.

Um anexo à “Carta” reuniu as 13 resoluções aprovadas pelo congresso. Com 4.730 palavras, dedica à corrupção menos de 600. Dessas, 415 se ocupam do que os governos do PT fizeram para combatê-la.

As demais informam que o partido promoverá uma campanha de comunicação a respeito. E criará um grupo de "juristas progressistas" para refletir sobre o papel da Justiça “na criminalização da política, dos partidos e dos movimentos sociais”.

O congresso ensinou ou reforçou duas coisas: o PT está longe de morrer como querem seus adversários. E longe de voltar a se parecer com o que foi.

Congresso de partido por aqui se resume a aclamar seus líderes e a deliberar sobre o que eles propõem.

Em Congresso do PT, a discussão corre solta. Quem tem mais votos, leva. E, salvo Lula, os demais líderes não escapam a duras críticas.

Entenda-se por petismo um conjunto generoso de valores, princípios e boas ideias que foram desprezadas tão logo o partido chegou ao poder.

Ou antes, quando Lula concluiu que para o PT chegar lá precisava jogar conforme as regras do jogo. Para tal orientou Dirceu.

O partido fez concessões reprováveis. Desfigurou-se. Mergulhou na lama. E está ameaçado de perder sua base social.

O PT não está apenas “machucado” como admite Lula. Atravessa a pior crise dos seus 35 anos.
Reelegeu Dilma pelo pau do canto. E à custa de um formidável estelionato eleitoral. N
em Fernando Collor, deposto por corrupção, foi tão impopular quanto Dilma é.

Os 30% dos brasileiros que preferiam o PT se reduziram a 5%. O partido perdeu o monopólio das ruas desde 2013.

Parte dos petistas que não se reconhece no atual PT alimentou o sonho de que o 5º Congresso pudesse marcar o início da reconciliação entre o partido e o petismo. Pois sim...

Obediente a Lula, a tendência majoritária impôs sua vontade sem ceder em absolutamente nada. De resto, algemou o partido ao governo. Optou assim pela paralisia.

Foi o triunfo da insolência burra.

Envelhecido, o PT avisou aos eventuais interessados: “Quem quiser venha conosco pelo que fizemos até aqui, e que já foi muito”.

Não acenou para eles: “Quem quiser venha conosco pelo que já fizemos e pelo que ainda pretendemos fazer”.

A saber: isso, aquilo e aquilo outro. Tópicos de uma nova agenda capaz de atrair uma nova esquerda e de agradar aqueles à procura de uma ideologia.

Na véspera da instalação do congresso, a propósito de meios para financiar campanhas, Jaques Wagner, ministro da Defesa, disse que o PT não é melhor do que os outros. Portanto, não deve recusar dinheiro de empresas privadas.

Ora vejam! O PT que há 12 anos se apresentava como um partido diferente dos outros suplica, agora, para ser tratado, pelo menos, como igual aos outros.

José Roberto de Toledo - Fala, Excelência!

- O Estado de S. Paulo

Excelência! Excelência! Estamos ao vivo transmitindo a votação da reforma política. O senhor poderia explicar para o nosso telespectador o que foi aprovado?

- A que horas vai ao ar?

- Está no ar. É ao vivo.

- Então espera um pouco, deixa eu passar um pente no cabelo.

- As pessoas já estão vendo o senhor, Excelência. É ao vivo.

- Mas a essa hora? É tão tarde. Não era para ter ninguém assistindo…

- Excelência, por que os mandatos de presidente, governador e prefeito vão aumentar para cinco anos?

- Porque nós acabamos com a reeleição, e quatro anos é muito pouco tempo para fazer tudo o que precisa ser feito.

- E se o governante for ruim e estiver fazendo tudo errado, ele vai melhorar e passar a fazer tudo certo no quinto ano?

- Veja bem… Não se pode criar uma lei pensando em casos específicos. Isso seria casuísmo. A Constituição só deve estabelecer regras universais, que valem para todos.

- Se vale para todos, deputados e senadores não vão mais poder se reeleger?

- Quem falou essa barbaridade? Esconjura! Pé de pato, mangalô, três vezes!

- Calma, Excelência!

- Deputados e senadores continuamos podendo nos reeleger quantas vezes quisermos.
- Quantas vezes o eleitor quiser…

- Você me entendeu.

- Se a reeleição não acabou para os deputados, por que eles também vão ter seus mandatos aumentados?

- Como eu disse, cinco anos é uma regra universal. Você não pode discriminar o deputado, entende?

- Não seria bom ter uma eleição exclusiva para o Congresso? Dar mais atenção ao voto em deputados e senadores?

- Se fosse assim ia ter eleição quase todo ano. O eleitor não aguenta mais votar tantas vezes.

- Foi por isso que os senhores acabaram com o voto obrigatório?

- Está louco! Voto facultativo é coisa de comunista neoliberal. O voto é um dever cívico! Todo mundo continua obrigado a votar e cumprir sua parte na festa da democracia.

- E por que não aprovaram a coincidência de todos os mandatos? Não era para economizar e fazer uma eleição só a cada cinco anos?

- Que ideia de jerico! Quem ia conseguir decorar número de candidato a presidente, a governador, três de senador, de deputado federal, de deputado estadual, de prefeito e de vereador? Iam votar mais errado do que já votam.

- Foi pensando só no eleitor, então?

- Sempre!

- Nada a ver com o político que não se elegesse e que ficaria sem chance de disputar outro cargo por cinco anos?

- Isso nem tinha me passado pela cabeça.

- E por que os senhores diminuíram a idade mínima para alguém se eleger deputado?

- Os jovens estão muito precoces. Veja o meu filho, por exemplo: tem só 18 anos, mas já está seguindo os passos do pai. É vereador. Por que não posso colocar ele de deputado, de uma vez?

Precisamos dar chance à juventude. Tudo começa mais cedo, hoje em dia. É uma tendência, entende?

- Por isso que os senhores querem reduzir a maioridade penal?

- Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

- E o financiamento empresarial, por que os senhores resolveram aprovar uma emenda constitucional sobre algo tão específico? Não era para colocar apenas princípios universais na Constituição?

- Por que senão aqueles ministros do Supremo, com a mania que eles têm de legislar, iam proibir a gente de arrecadar dinheiro junto às empresas. Você tem ideia de quanto custa para eleger um deputado?

- Não é o quanto aparece na prestação de contas oficial?

- Você me entendeu.

- Há quem diga que os senhores estão legislando em causa própria…

- Dá licença, meu filho. O chefe está indo embora e preciso falar com ele. Eduardo! Eduardo!

Valdo Cruz - Salvem o futuro!

- Folha de S. Paulo

Vivemos tempos muito estranhos para o nosso futuro. Estamos em recessão, com inflação elevada, juros nas alturas e, por tudo isso e muito mais, com um governo vivendo uma fase de fragilidade.

Ambiente propício para se repensar o modelo de país, mas que, hoje, virou terreno fértil para proliferação de ideias voltadas para interesses específicos em vez de coletivos.

É o caso da mudança no fator previdenciário, aprovada pelo PT, PSDB e PMDB. Partidos que brigam por tudo, mas se uniram contra o Tesouro. Pior, contra o futuro do modelo de aposentadoria no país.

A fórmula criada para substituí-lo é um ponto de partida, mas como foi aprovada quebra a Previdência. Beneficia apenas quem está prestes a se aposentar, mas inviabiliza o sistema para nossos filhos e netos.

Cálculos apontam que, em 2060, o gasto extra da Previdência seria de R$ 3,2 trilhões. Durmam com o barulho dessa conta trilionária batendo na porta das futuras gerações.

Tem mais. A cada medida provisória aprovada no Congresso um novo jabuti é colocado no texto, elevando os gastos públicos. Como o que beneficiou igrejas evangélicas com milionária anistia tributária.

Acreditem, o espaço aqui é pequeno para listar todos os ataques feitos ou em curso contra as contas públicas, alguns deles indecorosos.

Aí, para pagar a conta criada por corporativistas de plantão, ressurgem velhas ideias de aumentar impostos. Como o retorno da CPMF e a taxação de grandes fortunas.

Depois, reclamam de o Brasil ter baixo crescimento e afugentar investidores diante de um cenário de contas no vermelho, carga tributária elevada e ausência total de reformas nos últimos anos de bonança.

Agora, em tempos de crise, Dilma Rousseff terá de enfrentar a reforma da Previdência. Pensa em fixar uma idade mínima para aposentadoria. A dúvida é se terá força para tal. Mas diz que se pautará pela defesa das gerações futuras. Ponto para ela.

Denis Lerrer Rosenfield - O respeito a acordos

- O Globo

  • Brasil, infelizmente, tem desenvolvido uma cultura de conflitos

Toda sociedade alicerçada na liberdade, em direitos e na segurança jurídica preza e respeita os seus acordos. Em situações deste tipo, demandas e interesses em conflito entram em processo de negociação e conciliação, em que as partes se reconhecem mutuamente enquanto portadoras de direitos. O progresso mede-se, assim, pela capacidade que cada um desenvolve de aceitar o outro como igual e em honrar o que foi acordado. Conflitos devem ser equacionados, sem o que o Estado termina vivendo em uma situação de completa instabilidade. Ninguém sabe o que esperar do dia de amanhã.

O Brasil, infelizmente, tem desenvolvido toda uma cultura de conflitos, como se pretensões de direitos devessem se resolver pela exclusão dos direitos de outros. Não apenas se aceita o conflito como, em alguns casos, chega-se a fazer o elogio da violência como um meio adequado de pressão. Tribunais são frequentemente deixados à mercê e, em seu lugar, surgem invasões de propriedades como se estas fossem um instrumento legítimo de pressão entre outros.

Fugindo a essa cultura, ocorreu no Paraná, em particular no município de Guarapuava, um conflito de direitos envolvendo a Cooperativa Agrária Agroindustrial, altamente produtiva e com todos os seus títulos de propriedade em ordem, e uma comunidade quilombola, reivindicando direitos sobre uma mesma área desta cooperativa.

O conflito durava anos e os ânimos só se acerbavam, quando ocorreu uma mediação entre as partes, feita, no último ano, pelo Incra e pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA). Procurou-se a negociação e o envolvimento direto entre as partes envolvidas. Estava se desenhando um novo projeto, capaz, mesmo, de ser um exemplo nacional, um case, como se diz em linguagem empresarial.

A demanda quilombola inicial era, vou arredondar os números, de três mil hectares, demanda essa não aceita pela cooperativa. De um lado, títulos de propriedade legalmente registrados; de outro, um relatório antropológico determinando a mesma área como território quilombola. Nada que aproximasse as partes.

Após intensas negociações, que começaram com desconfianças mútuas, elas acordaram uma área a ser demarcada de aproximadamente 1.500 hectares, dando uma satisfação de direito a ambas. Houve um efetivo processo de reconhecimento, algo raro quando se trata de conflitos que envolvem movimentos sociais.

O acordo, ressalte-se, foi patrocinado pelo Incra e pelo MDA, que tiveram uma participação ativa em todo esse processo, contribuindo, decisivamente, para que fosse levado a bom termo. Em nenhum momento apostaram no conflito, mas na solução do problema. Muito particularmente, o Incra agiu como órgão de Estado que é, e não como defensor de uma das partes. Sua preocupação foi o Brasil, que está, evidentemente, acima de todos nós. Procurou, isto sim, avançar rumo a um novo modelo de resolução de conflitos sociais, baseado em decisões técnicas.

Foi editada uma portaria, de nº 5445, que selou esse acordo. Houve uma solenidade, no interior do Paraná, com a participação do ministro do Desenvolvimento Agrário, do presidente do Incra e do diretor de ordenamento fundiário. O clima era de cordialidade, com as partes já vencendo a desconfiança anterior. A coroação, por assim dizer, deste processo foi um abraço de confraternização entre o presidente da Cooperativa Agrária, Jorge Karl, e a líder quilombola, Dona Ana. Para quem presenciou, foi um ato emocionante.

Tudo pacificado, ficaram as partes aguardando o decreto presidencial, pronto para assinatura desde dezembro do ano passado. Frise-se que assinatura do decreto é uma demanda de ambas as partes, sendo de seu comum interesse que tudo se resolva rapidamente. A cooperativa seria indenizada pelo justo valor de suas terras e os quilombolas entrariam em posse de, doravante, seu território. Nada aqui os distancia. Não há nenhum obstáculo à publicação deste decreto. Contudo, nada ocorreu depois.

No dia 31 de maio, um domingo, uma área da cooperativa foi invadida. A surpresa e a indignação não poderiam ser maiores, pois não foi este o desfecho almejado. O acordo foi violado e, em vez de uma negociação que tinha sido um sucesso, voltou-se ao velho esquema do conflito. Pode-se entender que as lideranças quilombolas já estivessem cansadas de esperar, porém, isto é de responsabilidade do governo e não da cooperativa. Logo, em vez da invasão da propriedade de um parceiro de acordo, poderiam ter invadido o Incra, o MDA ou o Palácio do Planalto. A cooperativa, observe-se, não tem nenhuma culpa nesta demora, que também lhe prejudica.

A demora governamental está produzindo um clima de insegurança para todas as partes e uma estranha sensação de que os respectivos direitos estão, de certa maneira, suspensos. O que era para ser um case nacional está se tornando um “contracase”! Quem se engajará em uma negociação se o seu resultado não for respeitado?

Para se ter uma ideia de quanto se havia avançado nas negociações, chegou-se a cogitar que os quilombolas poderiam tornar-se cooperados, uma vez cumpridos os critérios das cooperativas, o que lhes asseguraria as condições de seu desenvolvimento socioeconômico. A sua sustentabilidade estaria assegurada. Como fica agora o clima de confiança?

Urge que o governo retome a iniciativa, publicando o decreto correspondente e procedendo às etapas seguintes de indenização e emissão de posse do território, de modo que os diferentes direitos sejam efetivamente assegurados. Urge, igualmente, que a área invadida seja desocupada, restabelecendo o Estado de direito que foi violado.

Trata-se um caso individual, porém emblemático da situação nacional. Em vez do acirramento dos conflitos, devemos nos dirigir para o seu equacionamento. Em vez de processos de mútua exclusão entre as partes em disputa, o seu reconhecimento recíproco. Para isto, deve ser o governo rápido em suas decisões e equânime em suas decisões. Não é o que está acontecendo.

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Denis Lerrer Rosenfield é professor de Filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Marcus Pestana - Maioridade penal: polêmica e distorções

- O Tempo (MG)

Em 2015, iniciamos o ano com um fato político novo. Em função da rápida deterioração do apoio à Dilma, fruto da crise econômica, das investigações da Lava Jato, da sensação de um verdadeiro estelionato eleitoral e do reposicionamento do PMDB, a Câmara dos Deputados assumiu um protagonismo inédito e desencadeou discussões de uma agenda própria de interesse da sociedade.

Emergiram discussões sobre a regulamentação do trabalho terceirizado, a reforma política, o pacto federativo, a chamada PEC da Bengala, a revisão do Estatuto do Desarmamento, a lei de responsabilidade das estatais e a redução da maioridade penal.

Em relação à maioridade penal havia uma enorme expectativa social em torno de respostas novas e firmes a crimes violentos, alguns com requintes de crueldade, cometidos por menores de 18 anos, com grande repercussão na mídia e na opinião pública.

De pronto, é preciso esclarecer que, embora as estatísticas sejam precárias, as evidências apontam que o número de crimes cometidos por adolescentes são um percentual muito pequeno do total. E que os crimes hediondos cometidos por eles, que revoltam a todos nós, são a exceção.

Não podemos ainda esquecer as determinantes sociais da criminalidade e a trágica situação de nosso sistema penitenciário. Não podemos misturar jovens que furtam um celular ou são reféns do tráfico de drogas, e que podem ser recuperados, com jovens extremamente violentos e com graves deformações comportamentais que praticam assassinatos revoltantes. Levar indiscriminadamente adolescentes para o enquadramento no Código Penal e matriculá-los nas “universidades do crime” do sistema prisional será grave equívoco.

Hoje, os adolescentes que cometem crimes são punidos pelas regras previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que foi um avanço. O problema é que sua implementação encontrou graves limitações gerenciais e financeiras, e não deu conta de punir adequadamente os jovens que cometeram crimes graves e violentos.

Diante da cobrança da sociedade, a discussão se instalou. Três campos se delinearam. O PMDB e muitos representantes parlamentares ligados às forças policiais defendem a redução linear da maioridade penal para todos os jovens infratores maiores de 16 anos. O PT e várias entidades são refratários a qualquer mudança substantiva.

Diante da ameaça de configuração de um ambiente maniqueísta, tipo Atlético x Cruzeiro, e considerando, como muitos já disseram, que, na maioria das vezes, “a virtude está no meio”, o PSDB apresentou a proposta de redução da maioridade apenas para crimes hediondos e graves, nos termos da PEC do senador Aloysio Ferreira Nunes, somada à mudança do ECA, tornando suas regras mais rígidas, dentro da configuração proposta pelo governador Geraldo Alckmin, conjugadas com o projeto do senador Aécio Neves que triplica a pena para adultos que usarem menores para a prática de crimes.

Essa será a discussão nas próximas semanas.

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Marcus Pestana é deputado federal PSDB-MG)

A democracia se exerce à luz do dia – Opinião da revista Época

• Por que é tão grave quando um funcionário do Itamaraty impede o acesso de um jornalista a um documento público - no caso, envolvendo as relações entre Lula e a Odebrecht

Para alguns setores do Itamaraty, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva não se tornou um cidadão comum no Brasil ao deixar o poder, como é normal e razoável em países civilizados. No mês passado, o repórter de ÉPOCA Filipe Coutinho requisitou, pela Lei de Acesso à Informação, documentos públicos relativos a negócios envolvendo a empreiteira Odebrecht. São documentos que já deveriam estar disponíveis para consulta por qualquer pessoa. Pelos critérios legais, o prazo para atendimento é de 20 dias corridos, prorrogáveis por mais dez. Quando os dois prazos se esgotaram, o Itamaraty informou ao repórter que precisaria de mais dez dias úteis para atendê-lo. A justificativa era que "a consolidação dos dados demandará trabalho adicional". Na sexta-feira passada, o jornal O Globo revelou a verdade: a documentação já estava pronta, mas um diplomata tentava manipular as regras para torná-la inacessível.

O Globo mostrou um documento no qual o diplomata João Pedro Costa toma por base reportagens de ÉPOCA relativas às ligações entre Lula e a Odebrecht e escreve a um superior: "Estes documentos já seriam de livre acesso público", diz. E complementa: u(...)o fato de o referido jornalista já ter produzido matérias sobre a empresa Odebrecht e um suposto envolvimento do ex-presidente Lula em seus negócios internacionais, muito agradeceria a Vossa Excelência reavaliar a anexa coleção de documentos e determinar se há, ou não, necessidade de sua reclassificação para o grau de secreto." Pelo que se depreende do documento, um funcionário do Itamaraty queria driblar a lei com o intuito de preservar Lula.

A atitude demonstra que, pelo menos para uma facção de servidores, as atividades empresariais de Lula estão acima da transparência obrigatória devida pelo Itamaraty - e por todo governo — ao público que paga por seus serviços e salários. É temerário para a democracia que um burocrata se sinta à vontade para driblar a lei mediante a simples possibilidade de dados públicos criarem constrangimento a um político. Lula é um cidadão comum. Suas atividades privadas estão sujeitas ao escrutínio público porque seus passos como prestador de serviços da Odebrecht em viagens ao exterior contaram com o apoio da diplomacia brasileira. Como ÉPOCA noticiou em reportagem de capa em maio deste ano, o Ministério Público Federal abriu investigação sobre tais viagens. Não houve, até agora, abertura de inquérito - mas, para o Ministério Público, Lula é suspeito de tráfico de influência internacional.

A Lei de Acesso à Informação é um avanço civilizatório. Estabelece critérios para que o cidadão possa saber o que o governo, eleito com seus votos e sustentado por seus impostos, faz em seu nome. Documentos são classificados de acordo com seu grau de sensibilidade e liberados em prazos definidos; os mais delicados, que tratam de questões de segurança nacional, ficam ocultos por mais tempo. Uma reclassificação de documentos segue critérios e é feita por uma comissão. É difícil imaginar que as viagens de Lula toquem em alguma questão de segurança nacional. Funcionários do Itamaraty não podem, por critérios políticos pessoais, sugerir que a lei seja subvertida para preservar a imagem de quem quer que seja.

Muitas autoridades ainda não se acostumaram com a transparência que está no cerne da democracia. O então ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio e hoje governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel, classificou como secretos os acordos entre Brasil e Cuba para construção do Porto de Mariel - outra obra da Odebrecht. A desculpa é o sigilo empresarial, mas a atitude é no mínimo questionável. No episódio revelado pelo Globo na semana passada, um representante do Itamaraty tentou decidir o que o público pode saber a respeito das relações entre Lula e a Odebrecht. A censura oficial terminou com a Constituição de 1988. Como disse a ministra Carmen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal por ocasião do julgamento das biografias, na semana passada (leia a reportagem a partir da página 44), Cala a boca já morreu, quem disse foi a Constituição"

O filósofo italiano Norberto Bobbio descreveu a democracia como "o governo do poder público em público"". Exercer a democracia à luz do dia é a tarefa dos órgãos de Estado. Guardada a exceção da segurança nacional, atos realizados longe dos olhos e do escrutínio dos eleitores são, por definição, antidemocráticos. Só seremos uma democracia de verdade quando nossos diplomatas e políticos incorporarem essa verdade simples.

Marcos Nobre - Junho à espreita

- Valor Econômico

• Fica a sensação de que junho pode voltar a qualquer momento

Dois anos atrás, o dia 15 de junho de 2013 caiu em um sábado. Foi dia de intenso tráfego de posts sobre a repressão policial às manifestações contra o aumento de tarifas de transporte das semanas anteriores, especialmente aquela do dia 13, em São Paulo. Os comentários e trocas de mensagens vinham já com a convocação para a manifestação do dia 17, que, no calendário muito especial de junho, viria a ser "a segunda-feira", um dia da semana com identidade própria e inconfundível.

Já dava para perceber ali que o caldo tinha entornado para o lado de qualquer autoridade instituída. Foi para a rua toda uma geração que não tinha conhecido de política nada além da encenação entre PSDB e PT pela liderança do paquiderme pemedebista instalado no coração do sistema político. Junho abriu o horizonte antes invisível de um aprofundamento da democracia, para além do arrastado e interminável processo de redemocratização.

Junho foi como uma enorme reunião de movimentos de protesto, abriu um amplo leque de insatisfações e de aspirações. Como essa amplitude não cabia em uma única reivindicação ou movimento, dirigiu-se contra o sistema político tal como funciona. Até aquele momento, a política oficial parecia tão blindada contra a sociedade que toda ação transformadora parecia inútil. Foi isso que mudou.

Junho ainda não acabou, porque instituiu a sensação permanente de que pode voltar a qualquer momento. O sentido do que aconteceu em junho continua em disputa. Pertence a qualquer pessoa que se reivindique dele, seja qual for sua posição política. Essa é a sua força e o que o projeta para além de 2013. É uma ameaça cidadã, que parece remota, até que eclode novamente.

O que falta de água em reservatórios e rios sobra em energia nas ruas e no cotidiano. Mas faltam redes de transmissão para fazer a energia produzir transformação institucional. Continua a persistir o fosso entre as aspirações da rua e o modo de funcionamento do sistema político. Nas poucas oportunidades que conseguiu ganhar cara institucional, a energia de junho não faltou. Produziu uma polarização na campanha presidencial de 2014 como não se via há muito tempo. Encontrou na Operação Lava-Jato um canal de expressão institucional inédito. Depois que o governo Dilma deu uma banana para a própria polarização que produziu na eleição, ondas de protesto e de apoio ao governo se formaram.

O único resultado institucional visível desse choque de democracia até agora foi desorganizar o sistema político tal como funcionou até o primeiro mandato de Dilma. E o específico da situação atual é que essa desorganização tem servido justamente como muro de contenção do potencial de transformação liberado em junho. A desorganização serve hoje para bloquear qualquer avanço institucional efetivo. A atual dominância pemedebista é a forma presente do conservadorismo. É a resposta (conservadora) ao declínio do arranjo político (conservador) que vem desde a década de 1980.

Não apareceu ainda uma frente política capaz de catalisar as energias em favor de um projeto político que, durante muitos anos, teve no PT o seu polo aglutinador histórico. E esse bloqueio se deve em grande parte à força declinante, mas ainda ativa, do próprio PT. Não apareceu ainda uma frente política capaz de vocalizar os protestos de março e de abril de 2015 contra o governo Dilma. E esse bloqueio se deve em grande parte à liderança declinante, mas ainda ativa, do PSDB como polo de referência histórico de um projeto alternativo ao petista.

PT e PSDB desempenham hoje o papel de bloqueadores de uma reorganização partidária inevitável. PT e PSDB não conseguem mais liderar o sistema político, mas ainda dispõem de força suficiente para bloquear sua reorganização em novos termos. A desorganização que daí deriva é o habitat natural do PMDB. O que significa também: é o habitat natural do conservadorismo político nacional.

E, como não podia deixar de ser, a dominância pemedebista vem sempre sob a forma da chantagem. E sua fórmula é tão simples quanto eficaz: estão querendo algo muito diferente? Podem acabar tendo de lidar com algo ainda pior do que o que existe hoje. Ou o PMDB ou o caos, especialmente o caos que pode vir de ruas descontroladas. Como se manter o PMDB no comando efetivo do país fosse o único elemento estabilizador possível em tempos de um arranjo político em declínio.

Com a sobrevivência ameaçada em vários níveis, a maioria das pessoas parece de fato intimidada pelo "ruim comigo no comando, pior sem mim". Mas o que há de específico no momento atual é que mesmo forças conservadoras relevantes que aceitaram sem piscar a chantagem pemedebista estão apreensivas. E com boas razões. Basta ver o ornitorrinco que o presidente da Câmara dos Deputados insiste em chamar de reforma política. Ou o disparate de um Banco Central que ameaça jogar a taxa Selic nas imediações de 17% ao ano.

A preocupação é especialmente fundada porque as energias de junho continuam soltas, mesmo que temporariamente intimidadas pela chantagem pemedebista. Não vão se transformar em força produtiva enquanto um novo e convincente rearranjo do sistema político não surgir. Mas nem por isso permanecer latentes por quatro anos. Basta pensar que, em 2013, a situação era incomparavelmente menos dramática que a de hoje para ver que a calmaria atual nas ruas é apenas aparente.

Um começo de reorganização pode vir com um realinhamento do sistema partidário que consiga se conectar com a energia das ruas. Para que isso possa começar a acontecer, PT e PSDB terão de sentir efetivamente o risco da irrelevância de que estão ameaçados. Terão de repensar suas estratégias e táticas políticas para além do que fizeram nos últimos vinte anos. Terão de deixar o papel de bloqueadores da transformação que hoje desempenham. Do contrário, o jogo poderá acabar reduzido a uma alternativa entre o sequestro pemedebista da política e a insatisfação ruidosa das ruas.

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Marcos Nobre é professor de filosofia política da Unicamp e pesquisador do Cebrap. Escreve às segundas-feiras

Aécio Neves - Carta a Fernando Brant

Fernando, querido amigo:

Se eu soubesse que aquele encontro em Belo Horizonte há pouco mais de um mês, junto a alguns bons amigos, seria o último a nos reunir, certamente eu teria me despedido de você de um outro jeito. Teria dito o que nunca cheguei a dizer em toda a sua extensão: você foi um dos melhores e nos fará uma falta sem tamanho.

Falo aqui do homem, do artista, do companheiro. Foram mais de 30 anos de convivência desde a memorável campanha de Tancredo para o governo de Minas, em 1982. Ali me aproximei do poeta que ajudava a compor a trilha sonora da minha geração. Para tantos jovens que amavam os Beatles e os Rolling Stones, a música do Clube da Esquina era o ingresso sem volta na beleza e na inquietude de um som brasileiro, sendo antes de tudo mineiro e sendo acima de tudo universal. Suas letras, Fernando, vinham de algum lugar que era alma e era também terra, era sentimento e era geografia.

Foi um privilégio essa convivência que a vida me deu na esteira dos sonhos de fazer uma política melhor para um mundo melhor. Eu entendi o que lhe movia e alimentava, o que estava inscrito em todas as suas letras: o amor sem fim pelo ser humano, a confiança no outro, a dignidade e o respeito como faróis, a paixão pela vida vivida em cumplicidade, afeto e alegria. E pude ver como a delicadeza e a generosidade conviviam com a sua bravura e a intransigência na defesa de princípios.

Sua vida foi um permanente exemplo de como ser coerente e íntegro mesmo nos momentos mais difíceis. Nos vários enfrentamentos políticos a que nunca renunciou, nos embates em torno da preservação do direito autoral, na celebração emocionada que suas letras fazem de uma identidade brasileira e latino-americana, em tudo era o mesmo homem clamando por justiça e por maior igualdade. E tudo isso sem nunca deixar de ser o que sempre você foi: um poeta maior. Um homem de palavra. E de palavras.

Fernando, talvez você não soubesse o quanto sua amizade e confiança me honraram. Sei como é difícil para um artista se expor em disputas políticas. Isso só acontece quando se acredita verdadeiramente em um caminho. Vou guardar para sempre, "no lado esquerdo do peito", seu sorriso franco e suas palavras de apoio e coragem, especialmente as manifestadas publicamente durante a nossa campanha ano passado, em defesa de um novo e ousado projeto de país.

Obrigado, amigo. É triste que você tenha partido tão cedo, quando há ainda tantas coisas por fazer e sonhar, mas é com a alma plena de reconhecimento que lhe digo: sua passagem não foi breve, foi intensa, admirável.

Os que ficam sabem o quanto você vive em todos nós.

Saudades,

Aécio.

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Aécio Neves é senador e presidente nacional do PSDB

Mario Vargas Llosa - González na Venezuela

- O Estado de S. Paulo

Estão equivocados os que afirmam que a visita do ex-primeiro-ministro espanhol Felipe González à Venezuela foi um fracasso. Diria que foi um sucesso e nos dois dias nos quais ele permaneceu em Caracas prestou um grande serviço à causa da liberdade. É verdade que não conseguiu visitar o líder da oposição Leopoldo López, recluso na prisão militar de Ramo Verde, e também não assistiu à audiência em que o tribunal decidiria sobre a abertura de um processo contra o prefeito metropolitano de Caracas Antonio Ledezma, pois as duas sessões foram adiadas pelos juízes exatamente para impedir que González tivesse acesso a elas. Mas isso serviu para mostrar a total falta de independência da Justiça venezuelana, cujos tribunais e magistrados são meros instrumentos de Nicolás Maduro, a quem servem e obedecem como cachorro.

Por outro lado, o que foi de fato um absoluto fracasso foram as tentativas do governo e burocratas do regime de mobilizar a opinião pública contra González. Num ato tão ridículo quanto ilegal, o Parlamento presidido por Diosdado Cabello - acusado por perseguidos pelo chavismo nos Estados Unidos de dirigir a máfia do narcotráfico na Venezuela - declarou o líder socialista persona non grata, mas as manifestações de rua convocadas contra ele foram insignificantes, apenas com a presença de grupos de sequazes do governo, ao passo que, em todos os lugares públicos onde González apareceu, ele foi aplaudido entusiasticamente e acolhido calorosamente por um público que agradecia o apoio que significava a sua presença para os que lutam para salvar a Venezuela da ditadura.

Seu comportamento, nesses dias, foi impecável, isento de qualquer demagogia ou provocação. Reuniu-se com líderes da Mesa de Unidade Democrática (MUD), que congrega as principais forças da oposição, e exortou-os a esquecerem suas pequenas querelas e diferenças e se manterem unidos no grande objetivo comum de vencer as próximas eleições e ressuscitar a democracia venezuelana que o chavismo tem corroído sistematicamente até reduzi-la a escombros.

Embora todas as pesquisas indiquem que o apoio a Maduro não passa de 20% da população e os 80% restantes estão contra o regime, o triunfo da oposição não está assegurado em razão das possibilidades de fraude e de que, no desespero para se manter no poder, Maduro e seus correligionários recorram ao banho de sangue, diante dos muitos sinais observados desde a matança de estudantes no ano passado. Por isso é indispensável, como disse González, que todas as forças de oposição estejam solidárias nas próximas eleições que o regime, diante da pressão popular, prometeu para antes do fim do ano.

Mas talvez o efeito mais importante da visita de Felipe González à Venezuela, além da coragem pessoal que significou ir ao país e solidarizar-se com a oposição democrática sabendo que seria injuriado pela imprensa e pelos jornalistas do regime, foi o exemplo que deu à esquerda latino-americana e europeia. Porque há no meio dela, e não só entre grupos e pequenos círculos mais radicais e contra o sistema, setores que, apesar de tudo o que tem ocorrido nesses anos de chavismo, ainda acalentam simpatias pelo regime e resistem em criticá-lo e reconhecer o que ele é: uma crescente ditadura cuja política econômica e a corrupção generalizada empobreceram terrivelmente o país, hoje com a inflação mais alta do mundo, índices tenebrosos de criminalidade, insegurança nas ruas, onde desapareceu a liberdade de expressão e os abusos contra os direitos humanos se multiplicam a cada dia.

É verdade que alguns dos defensores do regime de Maduro, como os presidentes Rafael Correa, do Equador, Evo Morales, da Bolívia e Dilma Rousseff, do Brasil, o fazem com hipocrisia e duplicidade, elogiando-o em discursos demagógicos, defendendo-o nos organismos internacionais, mas evitando sistematicamente imitá-lo em suas políticas econômicas e sociais, conscientes de que, se seguirem o modelo chavista precipitarão seus países numa catástrofe semelhante à da Venezuela.

Na Europa, o socialismo transformou-se cada vez mais numa social-democracia, tornando seus os valores liberais tradicionais de tolerância, coexistência na diversidade, respeito à liberdade de opinião, eleições livres, uma Justiça independente, compreendendo que o controle estatal da economia são incompatíveis com o desenvolvimento e o progresso. Apesar disso, na América Latina ainda persistem os mitos do estatismo.

Felipe González prestou um enorme serviço à Espanha, contribuindo para a modernização do socialismo espanhol que, antes de dele, estava ainda impregnado de marxismo, e não havia assumido resolutamente a cultura democrática. Seu adversário de sempre, José María Aznar, realizou algo parecido com a direita espanhola, que impeliu no sentido da democratização.
Graças a essa convergência de ambas as forças para o centro, a Espanha, a uma velocidade que ninguém imaginava, deixou de ser uma ditadura anacrônica para se tornar uma democracia moderna.

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É prêmio Nobel de literatura

Luiz Carlos Mendonça de Barros - Hayek x Keynes: o debate revisitado

- Valor Econômico

• A presença do governo na dinâmica econômica é um elemento necessário, apesar dos riscos envolvidos

Com o fim do keynesianismo da Unicamp e do PT, o debate econômico no Brasil está se dirigindo para uma nova polarização. A briga agora será entre os valores corretos de Keynes e o quadro ideológico clássico de Frederik Hayek. Na última semana tivemos um primeiro confronto explícito de ideias tendo a mim como um dos participantes - entrevista no Valor - e Luis Stuhlberger do lado do economista austríaco. Como sei que poucos tomaram conhecimento deste primeiro confronto vou hoje explorar este conflito de visões tão diferentes.

Começo pelos comentários sobre um livro interessantíssimo que li nas últimas semanas. Chama-se "Keynes versus Hayek, The Clash that defined Modern Economics". Escrito por Nicholas Wapshott, descreve os quase 30 anos em que estes dois gigantes conviveram no mesmo espaço temporal.

Hayek defendia que o governo deveria manter-se fora do jogo econômico, deixando as forças de mercado agir com total liberdade. Nesta situação, a tendência natural das economias seria a de viver eternamente em equilíbrio. Já Keynes negava a existência desta ordem natural do equilíbrio e ponderava que o risco de graves crises cíclicas estaria sempre presente sem a intervenção do governo. Não acreditava em racionalidade econômica estrutural dos mercados e pregava que, em momentos de desequilíbrio, uma ação dos governos, por meio principalmente de uma política fiscal ativa, é necessária para compensar a falta de demanda privada adequada.

Keynes nos ensinou que não existe a tal ordem natural das economias, mas que elas operam dentro de um espaço influenciado pelo ser humano, tanto ao nível do indivíduo como do coletivo. E o Homem econômico de Keynes tem todos os defeitos e qualidades do cidadão comum e a política econômica tem que ser construída em um mundo imperfeito e sujeito a desequilíbrios periódicos.

Já Hayek trabalha com a ideia de que o perfeito é possível e que, por isto, deve sempre ser buscado. Em outras palavras, tem uma visão radical de que não há saída possível fora de seu quadro teórico de uma economia racional e livre de qualquer interferência do Estado. Sua posição idealista sobre a natureza do homem econômico se contrapõe à visão mais cínica de Keynes em relação ao ser humano e seu funcionamento em sociedade.

Trazendo estas diferenças para o Brasil de hoje é que se pode entender minha entrevista no Valor e o negativismo de Luis Stuhlberger em relação ao Brasil nas páginas amarelas da "Veja".

Para não ficar apenas no nível da abstração, um exemplo das nossas divergências é o BNDES e sua função na economia brasileira. Esta instituição financeira é para mim - que fui seu presidente por três anos - um dos instrumentos importantes do desenvolvimento brasileiro das últimas décadas. Para os seguidores de Hayek, como Stuhlberger, é um dos demônios a ser extirpado de nosso arranjo institucional.

Inicio este debate fazendo a defesa vigorosa desta instituição financeira, apesar de críticas que tenho sobre alguns aspectos da gestão Luciano Coutinho. E para ser bem específico nesta defesa cito logo uma questão central que hoje está presente na mídia brasileira: o apoio do BNDES à indústria de processamento de carnes, principalmente à empresa JBS.

Este programa começou na minha gestão com o objetivo de trazer este segmento para o setor formal da economia. Em 1996, quando começou o apoio do BNDES, quase 70% dos frigoríficos brasileiros viviam na informalidade total, sem pagar impostos - principalmente o ICMS - e fora do controle sanitário do setor público. À época quase 50% do abate de animais no Brasil era realizado clandestinamente.

O BNDES iniciou um programa com um grupo restrito de empresas do setor e que tinham à época uma estrutura operacional mais organizada. Não havia outra forma de iniciá-lo sem esta etapa inicial de escolha de certo número de empresas, identificadas segundo critérios objetivos.

Decorridos vinte anos, o setor de frigoríficos no Brasil está quase que totalmente formalizado, com rigoroso controle sanitário, exportando para os mercados mais importantes do mundo. O chamado abate informal representa hoje apenas 8% do total. A JBS e a Marfrig têm presença internacional marcante e suas ações são negociadas na Bovespa, o que é um indicador importante da mudança na governabilidade destas empresas. Com este novo arranjo institucional, a pecuária brasileira transformou-se em uma das líderes mundiais, com um volume de exportações expressivo e crescente.

Outro exemplo exitoso da ação do BNDES é a Embraer, uma das empresas líderes no sofisticado mercado de aeronaves civis e mesmo de aviões militares. Colocada em uma posição de destaque na indústria brasileira, representa um caso único na nossa história, dada a fragilidade tecnológica de nossas empresas. Não tenho dúvidas em afirmar que a Embraer não existiria sem a presença do BNDES em nosso sistema financeiro.

Poderia citar outros momentos em que, como presidente do BNDES, vivenciei a importância dessa instituição. Mas o importante é trazer de volta um dos ensinamentos que Keynes deixou para todos nós: a presença do governo na dinâmica econômica é um elemento necessário nas economias modernas apesar dos riscos envolvidos, e que podem aparecer em função de erros na sua gestão.

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Luiz Carlos Mendonça de Barros, engenheiro e economista, é diretor-estrategista da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações.

Estácio, Holly Estácio - Luiz Melodia e Diogo Nogueira

Carlos Drummond de Andrade - Campo de Flores

Deus me deu um amor no tempo de madureza,
quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme.
Deus-ou foi talvez o Diabo-deu-me este amor maduro,
e a um e outro agradeço, pois que tenho um amor.

Pois que tenho um amor, volto aos mitos pretéritos
e outros acrescento aos que amor já criou.
Eis que eu mesmo me torno o mito mais radioso
e talhado em penumbra sou e não sou, mas sou.

Mas sou cada vez mais, eu que não me sabia
e cansado de mim julgava que era o mundo
um vácuo atormentado, um sistema de erros.
Amanhecem de novo as antigas manhãs
que não vivi jamais, pois jamais me sorriram.

Mas me sorriam sempre atrás de tua sombra
imensa e contraída como letra no muro
e só hoje presente.
Deus me deu um amor porque o mereci.
De tantos que já tive ou tiveram em mim,
o sumo se espremeu para fazer vinho
ou foi sangue, talvez, que se armou em coágulo.

E o tempo que levou uma rosa indecisa
a tirar sua cor dessas chamas extintas
era o tempo mais justo. Era tempo de terra.
Onde não há jardim, as flores nascem de um
secreto investimento em formas improváveis.

Hoje tenho um amor e me faço espaçoso
para arrecadar as alfaias de muitos
amantes desgovernados, no mundo, ou triunfantes,
e ao vê-los amorosos e transidos em torno,
o sagrado terror converto em jubilação.

Seu grão de angústia amor já me oferece
na mão esquerda. Enquanto a outra acaricia
os cabelos e a voz e o passo e a arquitetura
e o mistério que além faz os seres preciosos
à visão extasiada.

Mas, porque me tocou um amor crepuscular,
há que amar diferente. De uma grave paciência
ladrilhar minhas mãos. E talvez a ironia
tenha dilacerado a melhor doação.
Há que amar e calar.
Para fora do tempo arrasto meus despojos
e estou vivo na luz que baixa e me confunde.