quinta-feira, 30 de julho de 2015

Dilma libera R$ 1 bilhão em emendas

Daniel Carvalho, Lisandra Paraguassu e Tânia Monteiro – O Estado de S. Paulo

• Na semana anterior ao fim do recesso parlamentar, Palácio do Planalto autoriza pagamento de pendências com os deputados e senadores

BRASÍLIA - Às vésperas do fim do recesso parlamentar, o governo autorizou a liberação de cerca de R$ 1 bilhão referente a restos a pagar de emendas parlamentares de 2014 e anos anteriores. A primeira liberação de recursos a parlamentares neste ano é uma tentativa do governo de acalmar deputados e senadores em meio às crises política e econômica, que devem ser acentuadas neste segundo semestre. Haverá prioridade aos pagamentos de emendas parlamentares para compra de máquinas e equipamentos, mas as verbas para gastos com obras também serão contempladas. "Não tem nenhum milagre. O que tem, pura e simplesmente, é que o governo está cumprindo a Lei Orçamentária.

A nossa esperança é que a base do governo se solidifique mais", disse ao Estado o ministro Eliseu Padilha (Aviação Civil), que atua diretamente na articulação política do governo. "Queremos mostrar que, no embate político, temos que unir forças", afirmou. Um líder partidário disse ter recebido telefonema do ministro das Cidades, Gilberto Kassab (PSD), para comunicar a liberação de emendas. Durante o recesso parlamentar, deputados demonstraram indignação com a dificuldade em obter as verbas do orçamento.

Eles dizem estar sendo pressionados por prefeitos em suas bases eleitorais que, às vésperas das eleições, não têm recursos para executar as obras. Em outra frente para atender à demanda nos Estados, a presidente Dilma Rousseff reúne hoje, em Brasília, os 27 governadores em busca de ajuda para evitar a aprovação de gastos extras previstos em projetos do Congresso, a chamada "pauta-bomba" de despesas para a União, Estados e municípios. Dilma também tentará dar um tom menos pessimista sobre o futuro da economia, mesmo em meio à crise aguda. Os ministros da área econômica devem apresentar dados mostrando que a economia pode começar a reagir já no fim deste ano e, apesar das dificuldades, há uma luz no fim do túnel.

Recuperação. Na reunião de coordenação política, na segunda-feira, o ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, apresentou a seus colegas da área política dados mostrando que há indícios de uma reação e uma recuperação real já no ano que vem. Ontem, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, afirmou, ao sair de uma reunião com empresários, que há sinais de boas notícias, como uma leve recuperação das exportações. Dilma quer que os dois ministros façam a mesma apresentação aos governadores.

A intenção é angariar apoio às medidas que estão sendo tomadas para tentar recuperar a economia e, indiretamente, à própria presidente, em uma tentativa de mostrar que há um projeto de governo e que Dilma é a garantia da solução para a crise econômica. A presidente quer mostrar os caminhos que o governo está traçando para sair da crise, que há viabilidade política nas suas propostas e que todos podem se beneficiar deles, desde que mobilizem suas bancadas para aprovar projetos importantes na recuperação da economia e na repatriação de recursos.

O Planalto afirma que todos os governadores confirmaram presença na reunião de hoje, inclusive os de oposição – apenas no caso de Mato Grosso do Sul deve vir a vice, Rose Modesto (PSDB). Há, também um movimento, mesmo entre os tucanos, de ajudar o governo na tentativa de barrar novos gastos no Congresso para evitar um efeito cascata nos Estados – entre elas, a possibilidade de derrubada do veto ao reajuste do Poder Judiciário, que podia chegar a 78%.

Dilma deve pedir a cooperação dos governadores, por exemplo, para barrar o projeto que altera a correção do FGTS e o equipara à correção da poupança – uma das propostas do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que está rompido com o governo.

"O PT está no fundo do poço", afirma Geraldo Alckmin
O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), afirmou ontem que "o PT está no fundo do poço e temos que evitar que o Brasil vá junto", em visita a Campo Grande, a convite do governador de Mato Grosso do Sul, Reinaldo Azambuja (PSDB). "Nós temos que preservar os empregos no momento de crise. No mês passado, mais de 110 mil brasileiros perderam seus empregos. Temos que preservar e criar empregos. Esse vai ser nosso foco para ajudar neste momento", disse. Alckmin confirmou presença em reunião hoje com a presidente Dilma Rousseff, em Brasília, momento em que promete pedir atenção do governo federal na manutenção e preservação dos postos de trabalho em todo Brasil./ Lucia Morel e Kleber Clajus, especiais para O Estado

Presidente tenta pacto com governadores para se fortalecer

Fernanda Krakovics – O Globo

• Planalto espera que reunião de hoje ajude a barrar pautas-bomba

BRASÍLIA, RIO e SÃO PAULO - Às vésperas do fim do recesso parlamentar, a presidente Dilma Rousseff convidou os 27 governadores para uma reunião hoje em Brasília, numa tentativa de recompor sua maioria no Congresso em meio à crise política e econômica. O governo aposta na influência dos governadores sobre parlamentares de seus estados, principalmente para barrar a aprovação de projetos que elevem gastos públicos, num pacto pela governabilidade.

Preocupados com a situação econômica, que impacta os estados, os governadores se dizem dispostos a colaborar e a discutir uma pauta de interesse nacional. Esperam que sejam consideradas sugestões já feitas para minimizar os efeitos da crise e a abordagem de questões federativas, como a criação do fundo de compensação para a reforma do ICMS, cujo objetivo é acabar com a guerra fiscal.

- Acho que esse pacto pode se efetivar com medidas concretas. Essas medidas (reivindicadas pelos estados) apontam para a melhoria do ambiente econômico, o que significa melhora na governabilidade - disse o governador do Distrito Federal, Rodrigo Rollemberg (PSB).

Entre as medidas citadas por ele está a sanção do projeto de lei que permite a estados e municípios o uso, como receita, de parte dos depósitos judiciais, o que deve ser anunciado por Dilma. Isso dará fôlego financeiro aos estados.

Os governadores reclamam que só são chamados pelo Palácio do Planalto em momentos de crise. Esperam que Dilma não repita o que fez em junho de 2013, no auge dos protestos, quando chamou governadores e prefeitos de capitais para uma reunião e os usou como plateia para anunciar cinco "pactos nacionais", incluindo a convocação de um plebiscito sobre reforma política.

Após um semestre de derrotas no Congresso, o Palácio do Planalto se mobiliza para evitar um cenário ainda pior, após o rompimento do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), com o governo. Teme que Cunha vote uma "pauta-bomba", na volta dos trabalhos legislativos.

Além da conclusão do ajuste fiscal, Dilma quer garantir uma rede de apoio para impedir a aprovação de eventual pedido de impeachment pelo Congresso. Em agosto, o Tribunal de Contas da União (TCU) julgará as contas de 2014, e há risco de rejeição, o que abriria caminho para a tentativa de afastamento da presidente.

Governadores se reúnem
Como a reunião terá governadores de oposição, o julgamento do TCU, as articulações para que Dilma não acabe o mandato e os atos contra o governo marcadas para 16 de agosto não devem fazer parte da conversa. Dilma tentará construir uma agenda positiva conjunta com os estados.

Antes de ir para o encontro com Dilma, os governadores almoçarão juntos em Brasília para aparar arestas e elaborar uma pauta de cobranças. A reunião prévia foi articulada pelos governadores do Rio, Luiz Fernando Pezão (PMDB); de Minas, Fernando Pimentel (PT); da Paraíba, Ricardo Coutinho (PSB); e do Piauí, Wellington Dias (PT). Em dificuldades financeiras, eles vão barganhar medidas que reforcem os cofres estaduais.

Pezão disse que a unificação das alíquotas do ICMS estará entre as demandas. Outro pedido dos governadores será o de apoio do governo federal a um fundo que garanta parcerias público-privadas (PPPs).

- A gente vai ver a parte econômica. Ela também vai narrar as dificuldades que está tendo. Às vezes, ela pode até querer nos atender, mas também tem seu limite - disse Pezão.

Ontem, governadores do PSDB também conversaram sobre a pauta a ser levada à presidente. Geraldo Alckmin, de São Paulo, esteve com Reinaldo Azambuja, de Mato Grosso do Sul. À noite, recebeu Beto Richa, do Paraná. Conversas por telefone ainda aconteceriam durante à noite para construir uma pauta única. (Colaboraram Simone Iglesias, Luiza Damé, Juliana Castro e Silvia Amorim)

Cunha diz que governadores já dividem crise com Dilma Rousseff

• Presidente da Câmara criticou possível aumento na taxa de juros

Júnia Gama – O Globo

BRASÍLIA — Às vésperas do encontro que a presidente Dilma Rousseff irá promover com governadores de todo o Brasil, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), afirmou que o debate sobre a situação econômica dos estados vem com atraso e que os governos locais já estão dividindo a crise com a União devido à queda na arrecadação.

— O resultado da crise eles já estão dividindo, que é a queda de arrecadação e a impossibilidade de cumprir os planos de investimentos. Não só os governadores, mas os prefeitos também já estão sofrendo a crise. Essa discussão já deveria ter sido feita há muito tempo. Os estados estão com muitos problemas e qualquer solução vai passar pela União — disse Cunha.

O presidente da Câmara comentou ainda sobre o possível veto da presidente sobre a proposta de extensão da política de reajuste do salário mínimo aos aposentados do INSS. Segundo Cunha, o veto já era esperado e não deve ser derrubado pelo Congresso. A postura do peemedebista contrasta com a adotada na semana passada, quando previu que o veto à mudança no fator previdenciário seria derrubado pela Casa.

— Esse veto não gera desgaste porque já era esperado. Não era para isso aquela Medida Provisória. Acho que o veto está correto, não havia outra possibilidade. Foi um exagero incluir isso na medida — disse Cunha.

Mesmo antes do anúncio da decisão do Copom sobre a taxa de juros, o presidente da Câmara classificou de “absurda” a possibilidade de novo aumento e disse que a medida servirá apenas para aprofundar a recessão.

— Acho absurdo. Esse aumento que está sendo especulado é um verdadeiro acinte à situação que estamos vivendo hoje. Não tem hoje inflação de demanda, só de preços administrados. A economia está em recessão. Não se consegue fazer superavit primário para pagar juros, nem sequer amortizar. 

Esse aumento só vai servir para aumentar a dívida bruta e não tem nenhum efeito na economia, a não ser aumentar a recessão. Na realidade, é um estímulo à não concessão de crédito, porque os bancos não vão correr risco de emprestarem, já não estão emprestando. Com o aumento de taxa da Selic, é muito mais cômodo manter dinheiro na Selic. Aumentar meio ponto, como está previsto, é incompreensível — afirmou.

'Não haverá crescimento até 2018', diz ex-ministro

Vinicius Neder - O Estado de S. Paulo

RIO - Houve exageros na política econômica do primeiro governo Dilma Rousseff, mas a crise política é destaque na forte recessão deste ano, segundo o economista e ex-ministro do Planejamento João Sayad. Com o aumento do risco de perda do grau de investimento junto às agências de classificação de risco, após a decisão da Standard & Poor's (S&;P) de colocar a nota do Brasil em perspectiva negativa na terça-feira, o cenário para a economia fica ainda pior, e não deverá haver crescimento até 2018.

"Fomos colocados em viés de baixa. Quer dizer, o pesadelo está ficando mais real", diz Sayad, doutor pela Universidade Yale e professor da Faculdade de Economia e Administração da USP. A principal consequência da perda do grau de investimento, segundo ele, será uma elevação na cotação do dólar, mas sem permitir ganhos para a indústria exportadora, por causa da fraca atividade econômica.

Como não vê, na situação ou na oposição, líderes políticos capazes de aprovar propostas de mudanças e acredita que uma mudança de governo antes das eleições seria ainda pior para a economia, Sayad descarta uma saída no curto prazo.

"O pessimismo é principalmente político. Temos um País sem lideranças, nem na oposição nem na situação", diz o economista. Há cerca de um mês, o mais recente livro de Sayad, Dinheiro, dinheiro (editora Portfolio Penguin), chegou às livrarias. Na obra, o professor, ex-ministro e ex-secretário municipal e estadual em São Paulo, trata do debate entre "monetaristas" (ou "neoliberais") e "estruturalistas" (ou "desenvolvimentistas"), na interpretação da economia.

Para Sayad, o exagero nos gastos públicos foi um erro do desenvolvimentismo implementado no primeiro governo da presidente Dilma. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Qual a consequência de uma possível perda no grau de investimento?

Pode reduzir o fluxo de investimentos externos no Brasil, diretos e financeiros, e isso pode ter impacto sobre a taxa cambial. Se é que esse impacto já não está revelado na elevação do câmbio (após o anúncio da decisão da S&P de manter a nota do Brasil, mas revisando a perspectiva para negativa). Menos dólares para o País exigirão um juro maior.

O principal efeito é nas contas externas?

O número de investidores para o Brasil vai diminuir. Muitos fundos de pensão não podem investir num país que não tenha grau de investimento.

O que o sr. acha que mais pesou da decisão da S&;P?

Isso já estava sendo esperado há muito tempo. O ministro da Fazenda vem se empenhando para reduzir o endividamento, ou estabilizar o crescimento da dívida, para não perder o grau de investimento. Nós não perdemos, fomos colocados em viés de baixa. Quer dizer, o pesadelo está ficando mais real.

Como o debate entre monetaristas e desenvolvimentistas se apresenta na atual crise?

Houve um exagero quantitativo na tentativa de melhorar a situação dos mais pobres e da infraestrutura do Brasil. Houve um exagero fiscal por parte do primeiro governo Dilma. Não é segredo que a realidade tem limites. O Brasil não podia aumentar sua demanda sem limites. Esse foi um lado "keynesiano" (referência a John M. Keynes, economista inglês cuja obra, na primeira metade do século 20, influenciou a interpretação desenvolvimentista sobre a economia e defendia a importância do estímulo à demanda) errado, ao meu ver. Agora, estamos vendo a reação dos defensores da moeda, que têm um papel a cumprir, porque se a inflação sai de controle, se o dinheiro começa a perder valor sem limites, temos uma crise pior ainda. Com o receio legítimo da inflação, temos uma reação, que não vai adiantar no momento atual.

A culpa pela retração é da política econômica do primeiro governo Dilma?

Essa retração decorre de um exagero de crescimento da demanda do momento anterior, sem a folga internacional que havia, mas não consigo atribuir uma parcela a cada fator.

Isso explica um pessimismo tão grande e a maior retração em 25 anos?

O pessimismo é principalmente político. Temos um País sem lideranças, nem na oposição nem na situação. Um governo que não consegue aprovar propostas, que não concorda com o Congresso. Um Congresso que perdeu o rumo, não sabe ser oposição, só sabe jogar pedradas nos projetos do governo, independentemente do seu mérito ou não. O Brasil está vivendo, antes da crise econômica, uma crise política.

O sr. vê luz no fim do túnel na solução da crise política?

Acho que nas novas eleições, em 2018, esperando que essa solução apareça durante esta tempestade em que estamos.

Solução em termos de aparecer algum líder?

Um líder, um partido, um conjunto de pessoas, que consiga reunir apoio suficiente para um plano de governo e uma solução política dentro do Congresso. Não vejo isso agora, nem no PT, nem no PSDB, nem no PMDB.

Até as eleições de 2018, vamos conviver com a crise?

Sim, com baixíssimo crescimento (da economia). Eu acredito que a inflação vai cair, o que é ótimo. E vai cair porque está aumentando o desemprego, o excesso de capacidade. A forma pela qual ela vai cair é dolorosa, mas, tendo caído, é ótimo. Agora, o déficit público e a estabilidade do crescimento da dívida não se resolve com essa recessão.

Merval Pereira - A 5ª estrela

- O Globo

A história do vice-almirante (engenheiro naval) Othon Luiz Pinheiro da Silva, presidente da Eletronuclear, preso na Operação Lava-Jato acusado de corrupção, é a história de um projeto grandioso de tentativa de domínio por parte da Marinha brasileira do ciclo nuclear, que acabou se transformando em um projeto de poder político e econômico de um governo megalomaníaco, que mistura o público com o privado com a facilidade populista com que manipula os símbolos do país, seja a Petrobras ou o programa nuclear.

O vice-almirante Othon, muito justamente considerado "o pai do programa nuclear brasileiro ", acabou ganhando poder político que o fez poder escolher o comandante da Marinha e os dirigentes do programa nuclear — e, segundo as acusações do Ministério Público, ganhar muito dinheiro por uma empresa de consultoria que funcionava ao mesmo tempo em que comandava a Eletronuclear , que coordena as centrais nucleares brasileiras. No comando da empresa desde 2005, teve de se licenciar em abril deste ano devido a denúncias de irregularidades em contratos na construção da usina de Angra 3. Agora a consultoria está sendo investigada por ter recebido "pagamentos vultuosos" de outras companhias que compõem o consórcio que atua em Angra 3.

Mesmo os companheiros de farda que se recusam a acreditar que Othon tenha cometido crimes se sentem incomodados, não só com o conflito de in ter esses claro, como também com o fato de sua empresa se chamar Aratec, clara alusão ao complexo de Aramar , onde o país desenvolve o altamente secreto projeto de centrífugas nucleares implementado pelo próprio almirante. Ele já havia tido problemas na administração de verbas públicas no governo Itamar , quando o ministro da Marinha Ivan de Silveira Serpa considerou que tinha muita liberdade de gastos no projeto nuclear e exigiu prestação de contas , que acabou não sendo aprovada.

Não chegou a haver acusações contra Othon, mas a seus métodos de trabalho, que não mediam gastos para seus homens, e em 1994, aproveitando que completava seu tempo de serviço militar ativo, deixou o programa, sendo reconhecido por todos como o grande responsável pelo projeto das centrífugas nucleares que deram ao Brasil a capacidade de enriquecer o urânio. Seu retorno deu-se em grande estilo, quando foi convidado por Lula em 2005 para presidir a Eletronuclear . A partir daí, seu poder foi sempre crescente, e é atribuído a ele a ideia da criação do Prosub , organização da sociedade civil de in ter esse público (Oscip) formada pela empresa francesa DCNS e pela Odebrecht, com a Marinha brasileira tendo uma "golden share" .

A escolha da Odebrecht, foi dito na ocasião , obedeceu a pedido formal da empresa francesa, o que provocou polêmica, pois não houve licitação . A Odebrecht acabou criando a subsidiária Odebrecht Defesa, que abriga diversos almirantes e oficiais da Marinha da reserva e reformados. Uma "5ª estrela" no linguajar coloquial da Marinha, comparável a postos no exterior onde os oficiais podem guardar dinheiro para a aposentadoria. O projeto é parte de convênio Brasil-França de 2009, e inclui projeto e construção do Submarino com Propulsão Nuclear (SN -BR); construção de 4 submarinos convencionais; uma Unidade de Fabricação de Estruturas Metálicas; e um complexo de Estaleiro e Base Naval, em construção às margens da Baía de Sepetiba, em Itaguaí.

O homem forte do programa nuclear brasileiro é também considerado o responsável pela nomeação do comandante da Marinha Moura Neto , que ficou no comando por sete anos, de 2007 a 2014, nos governos Lula e Dilma; e do almirante José Alberto Accioly Fragelli, que foi coordenador do Programa de Desenvolvimento de Submarino com Propulsão Nuclear . Moura Neto teria sido escolhido por defender o programa de construção do submarino nuclear, ao contrário de outro também cogitado.

Tudo indica que tamanho poder e acesso a verbas praticamente sem controle, com força até para reverter decisões do TCU, e tantas injunções empresariais, desvirtuaram o sonho do vice-almirante Othon. Nunca a frase famosa do escritor e pensador inglês do século XVIII Samuel Johnson "o patriotismo é o último refúgio dos canalhas " teve tanto sentido quanto hoje, quando se tenta melar a Lava-J ato acusando seus membros , a começar pelo juiz Sérgio Moro , de prejudicar a pátria ao investigar a roubalheira na Petrobras , ou o pai do programa nuclear brasileiro.

José Roberto de Toledo - Os inconfiáveis

- O Estado de S. Paulo

Como faz todo ano desde 2009, o Ibope divulgará em breve o termômetro de quanto o Brasil confia em suas instituições. Ou melhor, desconfia. O Índice de Confiança Social de 2015 mostrará queda abrupta do prestígio de tudo relacionado à política. Houve mais quebras de recordes do que nos Jogos Pan-Americanos – todos negativos. Ruim para Dilma Rousseff, a pesquisa mostra o rival e presidente da Câmara, Eduardo Cunha, mal no pódio também.

Congresso Nacional e Presidência da República desmancharam aos olhos do público. Numa escala em que 0 é desconfiança total e 100 implica confiança absoluta, ambos empataram em míseros 22 pontos. A confiança na instituição Presidência, comandada por Dilma, caiu pela metade desde 2014. Tinha 44 e perdeu 22 pontos. Já a nos congressistas chefiados por Cunha e Renan Calheiros perdeu 13 dos 35 pontos que tinha. Uma votação de impeachment da presidente será o roto decidindo o destino do esfarrapado.

É a primeira vez, em sete anos de pesquisa, que a Presidência não é mais confiável para a população do que o Congresso. O auge de ambas as instituições foi em 2010, ainda sob Luiz Inácio Lula da Silva, quando a primeira marcou 69 pontos, e o Legislativo, 38. Em 2013, no pico dos protestos de rua, ambos perderam muita confiança do público e chegaram ao seu patamar mais baixo até então: 42 e 29 pontos, respectivamente. Recuperaram-se levemente em 2014 (foram a 44 e a 35), apenas para cair mais baixo agora.

Dilma quebrou outro recorde. Pela primeira vez, a instituição que representa, a Presidência da República, é menos confiável do que o governo que dirige. De 2009 a 2012, a Presidência ficou de 7 a 13 pontos acima do governo federal. O presidente tinha mais prestígio do que sua equipe.

Após a avalanche das ruas solapar a popularidade presidencial em 2013, essa diferença caiu a um ponto, e permaneceu assim em 2014. Este ano, a confiança no governo está 8 pontos maior do que na presidente: 22 a 30.

A crise de confiança não se limitou a Brasília. Os governos municipais também sofreram desgaste, e não foi pequeno. O aumento da desconfiança fez os poderes executivos locais perderem 9 dos 42 pontos que tinham no índice. Apesar de terem sido reduzidos a 33 pontos, estão menos mal colocados do que quase todas as outras instituições. Mesmo assim, a marca projeta dificuldades para os atuais prefeitos se reelegerem em 2016.

“Houve uma diminuição da confiança nas instituições políticas como um todo”, avalia a CEO do Ibope Inteligência, Marcia Cavallari. Na sua opinião, a causa mais provável é a recente sucessão de escândalos envolvendo políticos. Isso explicaria por que a recuperação parcial da confiança em 2014 não se sustentou.

A corroborar essa hipótese, uma instituição manteve-se como a recordista da desconfiança entre os brasileiros. Mais indigente do que a confiança na Presidência e no Congresso, só a nos partidos políticos. Seu prestígio esfarelou: de 30 para 17 pontos, em um ano. Para cair abaixo disso, só se uma caravana de políticos brasileiros fizer um safári ilegal na África para – como o dentista de Minnesota (EUA) – caçar, matar e esfolar Cecil, o leão-símbolo do Zimbábue. Amantes da bala não faltam.

Em tempos de Operação Lava Jato, o Judiciário é a única instituição, entre os Poderes da República, que conseguiu, a duras penas, manter o mesmo patamar de confiança de anos anteriores: foi de 46 pontos em 2013, para 48 no ano passado, e voltou agora a 46. No seu auge, em 2010, chegou a 53, mas era apenas a 3.ª instituição política que mais inspirava confiança. Agora, apesar da piora do índice, ganhou medalha de ouro. É o que se pode chamar de vitória por W.O. – não tem oponente.

A pesquisa do Índice de Confiança Social foi feita pelo Ibope entre 16 e 22 de julho, em 142 municípios de todo o Brasil.

Luiz Carlos Azedo - A culpa dos outros (ou quanto pior, melhor)

- Correio Braziliense

• Todo mundo sabe que a maior oposição ao ajuste fiscal partiu da cozinha do Palácio do Planalto e das bancadas do PT na Câmara e no Senado

A presidente Dilma Rousseff ensaia um discurso para responsabilizar a Operação Lava-Jato e o Congresso Nacional pelo agravamento da crise econômica. O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, que anda prometendo mais do que pode cumprir, repete a toada, com o argumento de que o fracasso do ajuste fiscal será fruto da irresponsabilidade dos políticos.

Dilma tenta atrair o apoio dos governadores para a reconstituição de sua base de sustentação no Congresso. Promete sancionar o projeto que trata da reindexação da dívida de estados e municípios. A matéria é reivindicada por cidades como São Paulo, cuja dívida triplicou na gestão do petista Fernando Haddad, e Rio de Janeiro, que reclamam do atual indexador.A proposta do senador José Serra (PSDB-SP) de uso dos depósitos judiciais e administrativos pelos estados, que depende da sanção presidencial, é a cenoura para a celebração de um pacto de governabilidade. Mais difícil de colar é a proposta de unificação do ICMS para acabar com a guerra fiscal.

O cálculo do governo é criar um ambiente político novo, que tem duas faces: a simpática é a cooperação administrativa com os estados e municípios, que o governo promete e não tem condições de cumprir; a cruel são as denúncias contra os políticos, pelo Ministério Público Federal, aguardadas para o começo de agosto, que o Palácio do Planalto acredita que conteria o ímpeto oposicionista dos caciques rebeldes do PMDB.

Eis uma equação que não fecha. A crise ética, que avança em direção ao coração do esquema de propina nas estatais, até agora tem funcionado na direção contrária. Ameaçados pelas denúncias, os presidentes da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), são compelidos a jogar para a arquibancada.

Dilma quer apoio dos governadores para barrar os projetos que aumentam os gastos públicos. Exemplos: manutenção dos vetos ao reajuste dos servidores do Judiciário e à mudança no fator previdenciário. Também quer evitar a aprovação da nova alíquota de correção do FGTS, que passaria de 3% para 6%. Alega que a medida atinge o programa Minha Casa, Minha Vida. Não será fácil domar a própria base.

Sem perdão
Governadores e prefeitos, pela natureza dos cargos que exercem, não apostam no quanto pior, melhor. Seria uma espécie de haraquiri administrativo e político. Mas isso não significa que absolvam a presidente Dilma Rousseff de seus pecados à frente da economia. A sucessão de erros na condução do país, principalmente durante a campanha eleitoral passada, é que fez de Dilma uma presidente impopular, rejeitada pelos políticos e sem credibilidade perante os agentes econômicos.

O ex-deputado Delfim Netto, que já foi conselheiro de Dilma, resumiu assim as consequências da “vontade” política da petista para se reeleger a qualquer custo: um deficit fiscal de 6,2% do PIB (contra 3,1% em 2013); uma taxa de inflação de 6,4%, mas que escondeu os efeitos de preços controlados da ordem de 3% a 4%; a relação dívida bruta/ PIB aumentou em 6% do PIB; um deficit em conta corrente de US$ 104 bilhões (4,4% do PIB) e, por fim, uma queda de 0,7% do PIB per capita.

Segundo ele, houve “subestimação dos efeitos deletérios dessa estratégia”. Em nível federal, o diferencial de crescimento entre a receita primária (que depende fundamentalmente do crescimento do PIB) e a despesa primária (que cresce endogenamente pelos “direitos adquiridos” pelos beneficiários do poder) provocou um deficit estrutural, avalia Delfim.

Dilma agora faz o misancene de quem não se sente culpada e responsabiliza a oposição e os aliados do PMDB, mas todo mundo sabe que a maior oposição ao ajuste fiscal partiu da cozinha do Palácio do Planalto e das bancadas do PT na Câmara e no Senado. Em circunstâncias normais, o ajuste proposto por Joaquim Levy seria aprovado até mesmo com os votos da oposição, principalmente do PSDB. Tal não ocorreu porque o ambiente político está completamente empesteado, e a presidente da República, divorciada de sua própria base parlamentar.

O vice-presidente Michel Temer, cujas articulações garantiram o que foi salvo do ajuste original, acabou fragilizado por causa do histórico litigioso de Dilma Rousseff e seus principais assessores no trato com a bancada do PMDB. Esse cenário não será revertido com a reunião dos governadores, que estão sendo mobilizados para enquadrar deputados de seus respectivos estados. O Congresso vai pegar fogo em agosto.

Marco Aurélio Nogueira - Conversar é preciso, mas o decisivo é promover o diálogo democrático

- O Estado de S. Paulo

Alguém deveria ajudar Lula a encontrar um eixo. O ex-presidente anda oscilando demais. Nos últimos dias, por exemplo, a imprensa especulou que ele está procurando formas de se encontrar com FHC para uma conversa de alto nível. Ao mesmo tempo, soltou o verbo num evento no Sindicato dos Bancários do ABC, sexta-feira à noite, quando disse que “está de saco cheio” e “cansado das mentiras e safadezas” contra Dilma, que sofre uma campanha da oposição que “parece os nazistas criminalizando o povo judeu”, entre “tantas outras perseguições”.

Com a fala no ABC, Lula detonou e provocou os democratas e as oposições. Não fez questão de estabelecer diferenciações, nem muito menos de pacificar os espíritos. Pôs todos no mesmo saco da “elite perversa” que não se conforma com as conquistas sociais dos últimos anos. Acha que há muitas pessoas “que se diziam democráticas e que não aceitaram até agora o resultado de uma eleição que elegeu uma mulher”.

Entre a vontade de se encontrar com FHC e a arenga de sexta à noite, o contraste é enorme. O que leva a que se pondere que a primeira não passa de decisão tomada num momento de desespero e que Lula simplesmente não tem clareza de que estrada seguir.

Quem quer que queira fazer avançar o diálogo democrático pode, claro, buscar o caminho do encontro de personalidades. Acontece que este seria somente um primeiro passo, e certamente não o mais importante. Na melhor das hipóteses, funcionaria como gesto simbólico. Se for um encontro clandestino, a portas fechadas, será pouco democrático. Se for público, encherá as manchetes e, depois de uns dias, desaparecerá. Só terá importância se for acompanhado de outras iniciativas.

Um diálogo democrático não se resume a conversas bem-educadas entre ex-presidentes. Dizem que esta prática é usual nos EUA e em outros países. Não é estranha ao Brasil, mas por aqui nunca passou de ato protocolar. O fato é que nem sempre os presidentes são os principais articuladores, ou os melhores dentre eles, especialmente quando estão no poder ou são candidatos às próximas eleições, fato que lhe tira a isenção necessária.

Além do mais, conversar sobre o quê? Sobre democracia, que não está correndo risco de vida? Para salvar o mandato de Dilma, que não está nem sequer fazendo bem a sua própria parte? Para pedir paz às oposições? Para celebrar a reaproximação socialdemocrática entre PT e PSDB? Melhorar o clima político do País? Ou a ideia é produzir combustível para aumentar a governabilidade e a governança?

Como escrevi no artigo que publiquei sábado passado no Estadão (“Sobre crises, golpes e saídas”), seria interessante que os democratas se articulassem melhor, entre si, para isolar o que há de conservadorismo no País, escantear os retrógrados e impulsionar a própria democracia. Nada disso tem a ver com apoio a governos ou disputas eleitorais. Seria uma operação ético-política, cultural.

Um diálogo autêntico precisa envolver muitas pessoas, quem sabe a multidão, organizações da sociedade civil, partidos e movimentos. Disseminar-se de modo firme. Pouco adianta os caciques se encontrarem enquanto os índios insistem em bater boca e se agredir mutuamente.

Diálogo precisa de gente disposta a dialogar. Necessita de objetivos comuns, propósitos elevados, interlocutores generosos e iniciativas. Tudo isso falta entre nós.

A verdade é que não temos uma cultura democrática suficientemente sedimentada na política nacional. Tivemos bastante disso durante os anos da redemocratização, mas aos poucos fomos perdendo. Pedaços existem, evidentemente, e eles bem que poderiam começar a se manifestar.

Se vigorarem, certamente começarão a produzir insumos para que as pessoas voltem a pensar democraticamente e saiam das polarizações grosseiras em que têm vivido nos últimos anos.

Lula e FHC poderiam dar um exemplo e conclamar seus admiradores a recolher as armas e pararem de se ofender. Isso ajudaria bem mais do que uma conversa entre eles.

O sapo que está hoje enterrado na vida brasileira não é somente o das dificuldades e da impopularidade de Dilma, ainda que estas coisas existam e pesem. A questão é mais o imobilismo das forças democráticas e do sistema político: as primeiras parecem paralisadas pela polarização suicida entre PT e PSDB e o sistema político ficou congelado pela operação Lava-Jato, que o ameaça com uma denúncia por dia.

Se as forças democráticas conseguirem escapar da situação maníaco-depressiva em que se encontram, poderão viabilizar uma espécie de “acordo” que recupere o sistema político e o faça acordar. É difícil, mas não impossível. Seria uma oportunidade para lavar de fato o sistema de suas partes mais podres e problemáticas. Dado, porém, que esse acordo não poderia significar o refreamento da operação Lava-Jato (ao contrário, teria de incentivá-la a ir até o fim), ele poderá esbarrar precisamente na resistência de partidos e parlamentares, temerosos do avanço de uma investigação que os fará sangrar.

A saída, portanto, teria de contar com a adesão de uma sociedade civil encharcada de cultura cívica e politicidade democrática. Isso, porém, não existe. Com o que ficamos a girar em círculos, à procura de algo ou alguém que abra uma porta para o futuro.

--------------------
Marco Aurélio Nogueira é professor de Teoria Política na Unesp

Jarbas de Holanda - Lava-Jato, TCU e TSE, economia, as ruas. As condicionantes básicas dos cenários

Quais os desdobramentos, à frente, das investigações do megaescândalo do petrolão, já estendidas ao setor elétrico, para o Palácio do Planalto – a própria presidente (financiamento de campanhas) e seu estado-maior? Para o ex-presidente Lula (em especial, as voltadas a atividades classificadas de lobismo)? E quais os efeitos deles para as duas casas do Congresso, com o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, já posto em xeque, e com as primeiras denúncias contra deputados e senadores a serem formalizadas nos próximos dias? Bem como quais as implicações institucionais para a chefe do governo dos processos do TCU, na aprovação das “pedaladas fiscais”, e do TSE, no julgamento das contas da campanha reeleitoral? Sobre a Operação Lava-Jato, a presidente Dilma Rousseff (explicitando os próprios receios e os ainda maiores do padrinho Lula, e descobrindo um novo bode expiatório, além da “crise internacional”, para a recessão), qualificou-a como principal responsável pela queda do PIB.

O quadro recessivo se acentua, com aumento do desemprego e persistência da pressão inflacionária, que ameaça chegar este ano aos dois dígitos, forçando o Conselho de Política Monetária – Copom, a determinar no encontro que termina hoje nova elevação da taxa de juros básica, a Selic – segundo os analistas para a alternativa máxima de 0,50%, para 14,25%. A combinação desse quadro com os dividendos dos demais ingredientes macro e microeconômicos do populismo consumista exacerbado nos últimos quatro anos, freia novos investimentos, retardados para “quando a crise passar”. Expectativa essa, dos agentes produtivos, que vai sendo transferida de 2016 – no qual já se projeta mais um PIB negativo – para 2017 ou até 2018. Pois o rombo das contas públicas era muito maior do que o avaliado no começo do ano, e seu enfrentamento (ou tentativa disso) foi estendido até lá pela redução praticamente a zero da meta de superávit primário em 2015. Ou nem será encaminhado, para valer, no caso da continuidade do governo Dilma, com uma reorientação eleitoreira comandada por Lula.

Outra condicionante dos cenários que temos à frente são as respostas do conjunto da sociedade (inclusive dos agentes econômicos) à crise econômica, política e moral que o país vive, através das pesquisas de opinião pública e de grandes manifestações de protesto nas ruas. Ambas terão forte influência nas posturas do mercado, dos partidos e nas decisivas decisões institucionais do Congresso. Um dado novo e significativo, a respeito dessas manifestações, é que o radicalismo inicial dos seus organizadores vai perdendo espaço para interlocução com as lideranças partidárias e com a mesa diretora da Câmara dos Deputados. E, simultaneamente, frustrou-se a tática do governo e do lulismo de conseguir uma divisão das lideranças nacionais do PSDB, buscando contrapor o partido a tais manifestações ou distanciá-lo delas. Tática da qual fez o ensaio de um encontro, “de alto nível”, entre Lula e Dilma com FHC, de pronto rechaçado por este. Enquanto isso, no polo contrário, de um lado a presidente converte em prioridade central do governo o bloqueio no Legislativo, a qualquer preço, de prováveis projetos de impeachment – como desdobramento do processo do TCU, ou como proposta de comissão da Câmara. E, de outro lado, Lula articula objetivo semelhante ao combate ao seu inimigo maior hoje, a operação Lava-Jato. Em ambos os casos tentando reduzir o impacto das manifestações de protesto, por meio de atos dos “movimentos sociais” vinculados ao, ou próximos do PT. Quanto às pesquisas, o previsível é que as próximas mantenham ou até ampliem os índices, baixíssimos, de avaliação popular da presidente e os elevadíssimos de reprovação dela, do governo e de seu partido. Com inevitáveis repercussões nas duas Casas do Congresso.

A demanda de impeachment deverá predominar nas manifestações de protesto (a serem retomadas em 16 de agosto), de par com as palavras de ordem de apoio à operação Lava-Jato. Mas, para as lideranças dos maiores partidos (excluído o PT), para os meios empresariais e para a maioria dos grandes veículos da mídia, em seus editoriais, as respostas adequadas a essas crises são bem mais complexas. O que segue sendo até agora dominante é a cobrança do restabelecimento de condições de governabilidade por um Executivo dotado de legitimidade social, de credibilidade junto à iniciativa privada e de boas relações com o Legislativo. Capaz de enfrentar a enorme crise da economia com as medidas de emergência que ela impõe e o desencadeamento de reformas estruturais indispensáveis. E que combine uma gestão eficiente com o avanço e as conclusões da operação Lava-Jato. Essa cobrança aponta para uma troca, não traumática, de governo, baseada num amplo entendimento político-partidário com esses objetivos. A viabilização deste cenário passaria pela renúncia da atual presidente e sua substituição pelo vice Michel Temer. Em lugar do primeiro, que é o de continuidade dela, com a persistência das distorções e limitações de sua gestão, e de um terceiro – o de afastamento dos dois e novo pleito presidencial, com provável eleição do senador Aécio Neves. Cabendo assinalar que a hipótese de renúncia só terá possibilidade de configurar-se com grande fortalecimento no Congresso do apoio ao impeachment. O que, porém, pode abrir espaço – sob pressão das ruas – para o terceiro cenário.

--------------
Jarbas de Holanda é jornalista

Monica Baumgarten de Bolle - A morte da borboleta azul

- Folha de S. Paulo

• Sobrou a lagarta vermelha, aquela que se transforma, na melhor das hipóteses, numa mariposa cinza

A redução da meta fiscal para 2015, de 1,1% do PIB para mísero 0,15%, não é vitória dos refratários à austeridade, tampouco derrota de Levy. Como bem disse o ministro da Fazenda em recente entrevista, a revisão da meta foi fruto de um Congresso que "não ajuda", um Congresso em crise.

O que o ministro não disse é que o Congresso hostil reflete o repúdio à sua chefe, além da completa falta de habilidade política da presidente. Contudo, não é de hoje que o país está sem meta. Há quatro anos e sete meses, o Brasil escolheu o caminho que desaguou na pior crise econômica em 20 anos.

A recessão, o desemprego, a inflação, nada disso é fruto do ajuste fiscal que nem sequer foi implantado. Os problemas que assombram os brasileiros são o resultado nefasto de desmandos sobrepostos na condução da política econômica.

Ao longo dos últimos anos, antes de ser colunista deste jornal, escrevi muitos artigos sobre a má gestão da economia brasileira. Em um deles, publicado no "Globo a Mais" de setembro de 2012, tratei da triste história da borboleta azul.

Fim dos anos 1970, sul da Inglaterra. Infestação inédita de coelhos ameaçava os prados verdejantes e as plantações das fazendas da região, levando os produtores a declarar que uma crise ambiental estava prestes a ocorrer e a pedir socorro ao governo.

Para evitar um massacre possivelmente infrutífero de coelhos, já que a taxa de reprodução dos animais é quase inigualável na natureza, as autoridades encontraram uma solução "brilhante". Inocularam os bichinhos com um vírus que os deixava letárgicos, mais suscetíveis aos seus predadores naturais, menos libidinosos.

Inicialmente, o experimento foi um sucesso. A população de coelhos caiu, preservando as plantações e evitando a temida catástrofe. Contudo, a estrada para o inferno é pavimentada de boas intenções, como diz o famoso aforismo.

Com menos coelhos, ervas daninhas proliferaram e a grama cresceu mais do que o normal. O crescimento da grama acabou aniquilando a população de um tipo de formiga que só sobrevivia alimentando-se da grama mais baixa. Infelizmente, essa formiga tinha laços estreitos com a borboleta azul, carregando seus ovos para o formigueiro e cuidando de suas larvas até que se tornassem lagartas adultas. Sem a proteção das formigas, os ovos da borboleta azul ficaram expostos aos predadores. Um dia, a borboleta azul sumiu para sempre do sul da Inglaterra.

A presidente Dilma Rousseff passou quatro anos inoculando a economia com o vírus da letargia. Fez transformação radical na condução da política macroeconômica brasileira, assessorada por renomados "heterodoxos". Introduziu medidas protecionistas, piorando a conhecida falta de competitividade das empresas nacionais. Turbinou o crédito público desarrumando os mercados e enfraquecendo os juros como instrumento de combate inflacionário. Obliterou a credibilidade fiscal do Brasil ao permitir "pedaladas" e outras formas sórdidas para mascarar a implosão dos alicerces das contas públicas brasileiras. Matou a borboleta azul.

Ao falar sobretudo isso em 2012, afirmei que mataríamos a borboleta azul e sobraria a lagarta vermelha, aquela que se transforma, na melhor das hipóteses, apenas numa mariposa cinza. Dito e feito.
-----------------
Monica Baumgarten de Bolle, economista, é doutora pela London School of Economics e pesquisadora do Peterson Institute for International Economics.

Maria Cristina Fernandes - Passaporte para o dinheiro

- Valor Econômico

• Corredor polonês aguarda a repatriação de ativos

A repatriação de ativos é desses projetos que reúnem todos os elementos para se entender a crise e as dificuldades para superá-la.

Nascido do projeto de um senador do PSOL, Randolfe Rodrigues (AP), foi encampado pelo Ministério da Fazenda e tem um substitutivo mais ameno do líder do governo no Senado, Delcídio Amaral (PT-MS).

Integrante da CPI do HSBC, o senador do PSOL encara o projeto como a primeira tentativa de o Brasil taxar fortunas, enquanto a Fazenda prefere situá-lo no rol de alternativas para fazer caixa. A inusitada aliança é alvo da oposição do presidente da Câmara dos Deputados, que justifica sua resistência com o argumento de que o projeto não é pauta do Legislativo.

O deputado que se orgulha de ter dado celeridade a projetos de iniciativa legislativa prefere que o governo mande o seu. É uma maneira de a tramitação ser reiniciada nos moldes a serem estabelecidos pelo presidente da Câmara para sua negociação.

Ao longo dos últimos anos, o Brasil aderiu a vários acordos internacionais que, na tentativa de combater a lavagem de dinheiro, permitem a troca de dados entre fiscos.

A partir dessas informações, o governo estima que os ativos não-declarados de brasileiros no exterior podem chegar a US$ 400 bilhões. É mais do que o Brasil dispõe para enfrentar turbulências financeiras, as chamadas reservas internacionais.

Aí se misturam desde o dinheiro do tráfico até o de investidores que fizeram remessas sem declará-las ou de executivos que trabalharam alguns anos no exterior e voltaram ao Brasil sem trazer o dinheiro. O projeto exclui o dinheiro do crime, mas PSDB o obstrui sob a alegação de que os recursos da corrupção ganharão sinal verde para entrar no país. Questiona ainda o projeto como fonte de recursos para a compensação da desoneração do ICMS, cuja duração extrapola a da repatriação.

Quem aderir se livra de ser processado por sonegação, mas terá impostos e multas a pagar que comprometem 35% dos recursos repatriados. A arrecadação teria potencial de chegar a R$ 100 bilhões, mas a Fazenda parece estar conformada com um teto de R$ 30 bilhões. O substitutivo do senador Delcídio Amaral (PT-MS), líder do governo, estima que as pretensões brasileiras são modestas para padrões internacionais. Na Itália, o instituto da repatriação conseguiu recuperar cerca de € 100 bilhões, e a Turquia, € 47,3 bilhões.

Está previsto que metade da arrecadação vá para o fundo de compensações da unificação do ICMS e a outra seja repassada a Estados e municípios, mas tributaristas sugerem descontar em 50% o pagamento à vista da taxação devida.

Ainda está para começar a queda de braço pela vinculação desses recursos a gastos pré-determinados. O risco de ver o projeto tão desidratado quanto o foram as medidas provisórias da desoneração foi o que levou o Planalto a buscar a ajuda dos governadores na reunião de hoje.

Há quem veja pouca responsabilidade dos bancos na identificação da origem dos recursos repatriados. Teme-se ainda que quem já estiver sendo processado no Brasil por sonegação e evasão de divisas pode se sentir no direito de questionar a anistia àqueles que aderirem à repatriação.

Há margem, ainda que estreita, para a redução da alíquota do imposto previsto, mas tributaristas têm recomendado a seus clientes que a repatriação foi a saída que restou ao cerco cada vez mais fechado das autoridades financeiras internacionais sobre o dinheiro sem carimbo.

Na visita que fez aos Estados Unidos a presidente Dilma Rousseff assinou o acordo de bitributação que havia sido aprovado pelo Congresso no ano passado. Por esse acordo, o brasileiro que tiver conta nos Estados Unidos e não declará-la corre o risco de ser processado por evasão de divisas e sonegação. Até a Suíça está prestes a perder o grau de paraíso fiscal.

No convescote empresarial da semana, o presidente da Câmara se disse muito empenhado em evitar o rebaixamento do Brasil, mas bombardeou a proposta de repatriação. Em contrapartida, sugeriu o corte de ministérios e cargos comissionados, reconhecendo que a medida, de pouco impacto fiscal, contribuiria no 'plano simbólico' para mostrar o compromisso do país com a moralidade pública.

Foi muito aplaudido nesta e em todas as ocasiões em que demonstrou estudada afinidade com a pauta empresarial. Disse estar mais do que comprometido com o ajuste fiscal, mas justificou a manutenção de desonerações que não geraram emprego mas o mantiveram.

Do auditório surgiram perguntas, de executivos filiados a movimentos que organizam a manifestação de 16 de agosto, sobre a condução da Câmara em eventual processo de impeachment mas nenhuma relacionada à investigação do Ministério Público Federal sobre as acusações que lhe foram feitas ao presidente da Casa na Operação Lava-Jato. Face à presidente Dilma Rousseff, Eduardo Cunha foi tratado como um mal menor.

No evento, os economistas Roberto Giannetti da Fonseca e Paulo Rabello de Castro expuseram o resumo de um documento em que listam as alternativas para o Brasil sair do que chamam de 'Estado de Desconfiança'.

O texto advoga o redesenho do ICMS, sem revogar os incentivos já concedidos, a despeito de não ter uma única linha sobre o projeto de repatriação com o qual o governo pretende arrumar crédito para os Estados. As propostas são anunciadas como "algo mais abrangente, que não fique adstrito ao mundo de Brasília, onde o fim de mês sempre termina no dia 30 e com um cheque na mão para cada um dos 60 milhões de recebedores de proventos, benefícios ou auxílios regulares do governo".

Ao final do encontro, participantes fizeram eco à resistência de Eduardo Cunha ao projeto de repatriação. Duvidavam da arrecadação pretendida. Afinal, disse Rabello de Castro, vai ser difícil convencer quem tem um apartamento em Miami que deve vendê-lo para pagar imposto no Brasil.

Carlos Alberto Sardenberg - Dois métodos: a Lava-Jato e o chinês

- O Globo

O governo chinês informou ontem: de 2012 até aqui, recuperou US$ 6,2 bilhões que haviam sido roubados por "centenas de milhares" de funcionários e membros do Partido Comunista. Isso dá pouco mais de R$ 19 bilhões, valor desviado apenas da Petrobras, segundo estimativas dos procuradores da Lava-Jato.

A campanha anticorrupção na China é uma iniciativa do presidente Xi Jinping, aplicada pela temida Comissão Central para Inspeção Disciplinar. Trata-se de uma ditadura, de modo que eles frequentemente passam por cima do que chamam lá de formalidades judiciais - isso de não poder prender sem uma consistente acusação formal ou de precisar de processo para recuperar o dinheiro roubado.

Claro que isso permite ao governo escolher seus alvos, transformando o combate à corrupção em ação política para apanhar adversários. Por aqui, a Lava-Jato segue nos termos da lei e da democracia. Não foi politizada nem instrumentalizada por grupos ou partidos. Ainda bem.

O método chinês vai mais rápido. Sabe aquela situação na qual todo mundo sabe que fulano está roubando, mas ainda não deu para dar o flagrante? Pois é, lá na China a Comissão Disciplinar pode prender e, então, sabe-se lá com quais pressões, procura as provas.

Aqui, muita gente ainda diz que a Lava-Jato frequentemente avança o sinal. É que não sabem como se faz nas ditaduras. A Lava-Jato vai muito depressa em comparação com os velhos padrões brasileiros - quando as "formalidades judiciais" garantiam a impunidade.

Era assim: o sujeito trabalha numa estatal ou no governo ou no partido do governo e está associado a uma consultoria privada; a empresa tal ganha um contrato com a estatal e faz um pagamento à consultoria privada. Diziam os envolvidos e pegava: são contratos separados, coisas diferentes, com coincidência fortuita de pagamentos. Qual é?

Vai um advogado dizer isso hoje para o juiz Moro.

Por outro lado, há uma novidade histórica que devemos ao governo americano. Na busca do dinheiro do terrorismo e do tráfico, as autoridades dos Estados Unidos simplesmente acabaram com o sigilo fiscal e bancário lá e no mundo.

Quer dizer, não acabaram propriamente. Mas se criou uma legislação, hoje universalizada, que torna mais simples e rápido quebrar sigilos quando há fundadas suspeitas, descobertas nos termos da lei.

Era praticamente impossível achar uma conta de um banco suíço. Hoje é até fácil. Os banqueiros têm pavor de serem acusados de acobertar fortunas roubadas ou do tráfico.

A mudança brasileira foi a introdução da delação premiada. O sujeito confessa, indica a conta em que recebeu e o banco dá a sequência do dinheiro.

Tudo considerado, duas observações: primeira, o método chinês vai mais rápido, mas o método Lava-Jato é mais seguro para as pessoas e as instituições; segunda, e terrível para nós, a roubalheira aqui foi maior que na China, cuja economia é quatro vezes maior.

Reparem de novo: depois de três anos de dura campanha, os chineses recuperaram o equivalente a R$ 19 bilhões. Dado o sistema deles, é provável que já tenham apanhado a maior parte da corrupção. Ora, só na Petrobras, os procuradores acreditam ter havido roubo de R$ 19 bilhões, dos quais R$ 6 bi já admitidos formalmente pela estatal, em balanço. E está começando só agora a fase do setor elétrico, o segundo da lista.

Conclusão: estamos apanhando aqui os maiores escândalos corporativos do mundo. No sistema formal, demora mais para recuperar a propina distribuída, mas a coisa está andando nessa direção.

Finalmente, há outro ponto em comum. Aqui e na China, a corrupção começa no governo e suas estatais, nas tenebrosas relações com empresas privadas.

A presidente Dilma andou dizendo que a Lava-Jato subtraiu um ponto percentual do PIB. Nada disso. A corrupção estatal/privado subtraiu muitos pontos ao gerar desperdício, perdas e ineficiências. Ou seja, o combate à corrupção precisa de um complemento: uma ampla privatização e um bom ambiente de negócios para quem quer ganhar dinheiro honestamente - um sistema impessoal que privilegie a eficiência, a competitividade, a produtividade.

Enquanto conseguir uma vantagem qualquer em Brasília for mais barato e mais fácil do que investir no negócio para ganhar produtividade, o país não vai crescer. Nem será justo.

Celso Ming - Mais arrocho nos juros

- O Estado de S. Paulo

Não sobrou outra opção ao Banco Central (BC) a não ser aumentar em mais meio ponto porcentual os juros básicos, que agora estão no nível dos 14,25% ao ano. Além disso, a decisão foi de não permitir nova trinca à credibilidade da autoridade monetária. A convergência da meta de inflação de 4,5% está mantida para o final de 2016.

O plano era aparentemente pingar mais uma ou duas doses de alta de 0,25 ponto porcentual e parar por aí. Mas as coisas mudaram substancialmente e o Comitê de Política Monetária (Copom) teve de recalibrar sua política de juros para adequá-la à mais frágil política fiscal.

Tudo havia sido montado no pressuposto de que o governo federal cumprisse o prometido: que retiraria do mercado R$ 66,3 bilhões (superávit primário de 1,1% do PIB) para pagamento da dívida. Agora, reconhece que não conseguirá retirar mais do que R$ 8,7 bilhões (0,15% do PIB). E só aí, a diferença já vai para R$ 57,6 bilhões. Mesmo assim, não garante que cumprirá a meta, estabeleceu novo limite de estouro sobre os R$ 8,7 bilhões, de até R$ 26,4 bilhões.

Como o governo parece em voo cego, aumenta a incerteza. O resumo da ópera é o de que, em vez de encolher, a dívida se expandirá. Mais dinheiro levantado com dívidas do Tesouro circulará na economia e o BC não poderá contar com jogo a favor da política fiscal, como esperava, para controlar a inflação. Sobrou mais trabalho para a sobrecarregada política de juros.

A inflação não sofrerá apenas com o impacto da atuação mais frouxa do Tesouro. Será puxada para cima também pela alta do dólar, que, apenas em julho, deu um salto de 7,11% e concorre para encarecer em reais os importados.

Outra vítima do novo quadro econômico é o discurso mantido com o objetivo de conduzir as expectativas. O BC vem repetindo que o impacto da política fiscal sobre a inflação tende a ser neutro, ou seja, que não aumenta nem diminui os preços. Agora se vê que a mais desejada do que real neutralidade do setor fiscal ficou mais distante. O que se espera é que também o Copom reconheça que já não conta com ela. Sem esse reconhecimento, há prejuízo para a credibilidade da autoridade monetária, um capital abalado durante o primeiro período Dilma.

O comunicado emitido após a reunião do Copom deixou as explicações para a ata a ser editada na próxima quinta-feira. É lá que deverão estar as razões pelas quais o BC optou por prolongar o arrocho monetário, apesar da recessão, da queda do consumo e da nova "ola" de flexibilização do governo Dilma.

Será inevitável que a nova carga de juros dos títulos do Tesouro seja incorporada ao principal da dívida. Como o nível da dívida é indicador da qualidade da saúde das contas públicas, aumentará a probabilidade de que os títulos do Brasil percam o grau de investimento e passem a ser considerados junk bonds (títulos lixo), como uma das agências de rating, a Standard & Poor"s, avisou anteontem.

Se os juros básicos subirem e outros subsídios praticados no crédito, como a TJLP e os que compõem as prestações habitacionais, ficarem nos mesmos níveis de hoje, a política monetária perderá ainda mais eficácia contra a inflação.

Desvio
O Tesouro explicou nesta quarta-feira por que as projeções da dívida pública expostas por ocasião da revisão da meta fiscal ficaram tão diferentes das apresentadas pelos bancos. A divergência está nas projeções da economia usadas para os cálculos. O Tesouro adotou números excessivamente otimistas, como a queda do PIB neste ano de apenas 1,5% e uma Selic de 14,0% ao ano. O otimismo irrealista é um desvio persistente do governo. O resultado é a perda de credibilidade.

Indefinição
Não ficou claro no comunicado do Fed divulgado nesta quarta-feira quando, afinal, começará o processo de alta dos juros básicos nos EUA. O Fed não vê melhoras significativas no mercado de trabalho nem avanço da inflação. Essa situação se prolonga por meses, o que sugere que a alta pode não começar em 2015. Se assim for, a valorização do dólar diante das outras moedas também pode ser adiada. A definição é aguardada em todos os mercados porque servirá de base para grande número de decisões de investimento e de administração de carteiras.

Míriam Leitão - Os outros cálculos

- O Globo

A Operação Lava-Jato afetou o PIB? Talvez. Mas, antes de fazer uma afirmação numérica tão exata, a presidente Dilma Rousseff poderia calcular com a mesma métrica os eventos que precederam a Lava-Jato. Qual foi o custo para o PIB dos desvios da Petrobras? Qual foi o tamanho do peso para o contribuinte do sobrepreço nas obras e das propinas das empresas aos políticos e aos partidos da base?

Há muitas contas a fazer. Quanto custou a política de campeões nacionais do BNDES? Quanto foi retirado dos cofres públicos com os programas de subsídios a setores empresariais? Quanto custou a "Nova Matriz Macroeconômica" implantada em seu primeiro governo? Qual foi o custo exato da política energética imposta pela MP 579? Quanto a Petrobras teve de prejuízo com a intervenção no sistema de preços para subsidiar o combustível fóssil?

A presidente Dilma deveria parar e fazer estas contas porque isso a ajudaria a não repetir alguns dos muitos erros que cometeu no primeiro mandato e que estão na raiz do encolhimento do PIB este ano. Por causa da tal "Nova Matriz", o país está em recessão, com taxa de inflação chegando perto de dois dígitos, e com dez pontos percentuais do PIB a mais de dívida interna.

Quem olha a trajetória dos indicadores fiscais, de dívida, crescimento e inflação conclui necessariamente que foi por má condução da política econômica que se chegou ao ponto em que estamos. Nem o mundo é o culpado, como a presidente repetiu durante a campanha. Nem a Operação Lava-Jato está agora tirando o crescimento em exato um ponto percentual do PIB, como afirmou a presidente em reunião com seus ministros.

Primeiro, como todo brasileiro já entendeu, a Lava-Jato é tratamento contra a doença. Não é culpada pela doença que trata. Segundo, não dá para dizer que foi a investigação das irregularidades na Petrobras que reduziu os investimentos. O que exauriu os cofres da estatal e aumentou seu endividamento foram os altos custos da corrupção e da má administração de projetos e negócios como a Refinaria Abreu e Lima, o complexo petroquímico Comperj, as refinarias abandonadas, Premium I e II, Pasadena, associados à política de preços. A Lava-Jato nos fez o enorme favor de estancar essa sangria e forçar a empresa para políticas mais transparentes.

Há um custo em paralisia de alguns projetos de infraestrutura, por causa da prisão de empreiteiros. Talvez haja, sim. Mas qual seria o preço, como perguntou o juiz Sérgio Moro, recentemente, de se tocar as obras superfaturadas, com acordo entre empreiteiras, com o pagamento de propinas aos políticos e aos partidos? Isso sem falar em custos intangíveis.

Há também a incapacidade administrativa de projetos. Na última terça-feira, 28, o "Valor Econômico" publicou dados conseguidos pela Lei de Acesso à Informação mostrando que quase nada foi executado dos bilhões de investimentos em mobilidade urbana que estavam no plano logístico lançado em 2012 ou nas promessas aos governadores feitas após as manifestações de junho de 2013. Mesmo antes da Lava-Jato, esses investimentos não estavam acontecendo.

Quanto a crise energética tirou do PIB? Essa é outra conta que deveria ser feita pela presidente. Foi ela que planejou, anunciou, comemorou e usou como propaganda eleitoral a intervenção no setor. As distribuidoras quebraram e tiveram que ser socorridas inicialmente pelo Tesouro e depois por empréstimos de emergência que foram pagos pelos consumidores. As geradoras estão encalacradas. As famílias enfrentaram um gigantesco tarifaço que reduziu a renda disponível e elevou a inflação.

Quanto custou aos bancos públicos transferir para eles o preço do pagamento de programas sociais que são obrigações orçamentárias? A Caixa acaba de informar que os atrasos chegaram a 21 meses e ao valor de R$ 34 bilhões.

O país está em recessão este ano e com inflação alta. Os juros, que subiram ontem novamente, são dos maiores do mundo. Nada disso é por causa da Lava-Jato. Na raiz dos problemas está a má gestão da política econômica. As ações da Polícia Federal, do Ministério Público e da Justiça Federal no Paraná abrem a preciosa chance de um crescimento do PIB com mais qualidade no futuro. É isso que conta.

Ribamar Oliveira - Aumento da carga tributária no horizonte

- Valor Econômico

• As despesas obrigatórias crescem mais que a receita

Não teve a repercussão que merecia o alerta feito na semana passada pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, sobre o atual desequilíbrio entre o crescimento das despesas obrigatórias e o da receita da União. Levy disse que o desequilíbrio é "estrutural" e observou que ele precisa ser resolvido no futuro. A atenção da maioria das pessoas ficou presa ao tamanho da redução da meta fiscal deste e dos próximos anos e poucas se deram conta de que a mudança anunciada é apenas a ponta do iceberg.

Cauteloso, Levy fez apenas o diagnóstico do problema e não se atreveu a antecipar os remédios que terão que ser ingeridos pela sociedade em futuro próximo. O crescimento das despesas obrigatórias não cabe no Orçamento da União, que está sendo fechado todo ano com receitas atípicas ou extraordinárias cada vez maiores. É compreensível que o ministro da Fazenda não tenha dito que a sociedade deve aceitar reduzir o ritmo de aumento das despesas obrigatórias ou aumentar a carga tributária. É provável que, no ponto a que as finanças públicas brasileiras chegaram, as duas coisas terão que ser feitas.

Para entender o que está se passando, basta observar que o gasto total da União neste ano vai crescer em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) e em termos reais, na comparação com o ano passado, que foi de grande gastança, mesmo com todos os cortes anunciados até agora pelo governo. De janeiro a maio deste ano, a despesa total da União cresceu 0,2% em termos reais, na comparação com 2014, segundo dados do Tesouro Nacional. Enquanto a receita total caiu 3,5% no mesmo período. Os dados de junho deverão ser divulgados hoje, mas não devem alterar essa realidade.

A explicação para isso é que as chamadas despesas obrigatórias não param de subir. De janeiro a maio, os gastos com benefícios previdenciários aumentaram 4,5% em termos reais, na comparação com o mesmo período de 2014. O aumento real das despesas com benefícios assistenciais (Loas e RMV) foi ainda maior, de 6,8%. O único gasto obrigatório que não cresce é o pagamento dos servidores ativos e inativos. No período considerado, esse gasto caiu 1,4% em termos reais na comparação com o ano passado. Deve-se incluir nessa relação as despesas com saúde e com educação, que aumentam por determinações constitucionais. Cerca de 90% de toda a despesa da União é obrigatória por algum tipo de determinação legal.

Para tentar equilibrar essa conta, o governo promoveu neste ano mudanças em algumas despesas obrigatórias, como o seguro-desemprego, o abono salarial, a pensão por morte, o auxílio-doença e o seguro ao pescador. Mesmo assim, o relativo controle que está sendo realizado nas contas da União resulta de um forte corte nos investimentos públicos. De janeiro a maio, de acordo com os dados do Tesouro, o governo reduziu os pagamentos dos investimentos feitos no âmbito do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) em 40% em termos reais, na comparação com o mesmo período de 2014. Os pagamentos do programa Minha Casa, Minha Vida caíram 33,6% em termos reais.

Os cortes nos investimentos e as medidas de controle dos gastos obrigatórios não serão suficientes para equilibrar as contas da União neste ano. O governo projeta uma receita atípica ou extraordinária neste ano que será recorde histórico. Apenas a Receita Federal estima obter uma receita extraordinária de R$ 51,6 bilhões nos tributos que administra de julho a dezembro. Se forem incluídos os R$ 4,6 bilhões já obtidos em fevereiro, o valor ultrapassará R$ 56 bilhões. Além disso, o governo conta com arrecadação com concessões de serviços públicos de R$ 18,2 bilhões.

Mesmo esse recorde de receitas extraordinárias, se vier a se concretizar, não será suficiente para garantir o equilíbrio das contas da União neste ano. Por isso, o governo reduziu a meta de superávit primário de 1,13% do PIB para 0,15% do PIB. Na verdade, ele fixou uma "banda informal" para a meta fiscal, pois o resultado poderá ser um déficit primário e ainda assim a meta será cumprida.

Como já foi informado nesta coluna, o governo está cada vez mais dependente das receitas extraordinárias ou não recorrentes, como preferem os economistas, para fechar as contas. Assim, não é possível, como imaginam alguns, alcançar, apenas com receitas recorrentes, um superávit primário que mantenha estável a relação entre a dívida pública bruta e o PIB. Não na situação atual, em que as despesas obrigatórias crescem muito em termos reais e as receitas tributárias da União não aumentam no mesmo ritmo.

Assim, a meta de superávit primário de 2% do PIB anunciada pelo governo para 2018 é mais ambiciosa do que pode parecer à primeira vista. Esse objetivo só será alcançado se o governo conseguir reduzir o ritmo de crescimento das despesas obrigatórias e continuar obtendo receitas extraordinárias em grande monta. O ingrediente que coloca mais dramaticidade na situação é que, segundo alguns economistas, o superávit primário anual necessário para estabilizar a dívida bruta em proporção do PIB é da ordem de 2,5% do PIB. Ou seja, o esforço fiscal precisa ser maior.

Para conter o crescimento do gasto obrigatório, o governo precisa propor ao Congresso medidas que são politicamente difíceis de aprovar. A regra para o aumento anual do salário mínimo, por exemplo, terá que ser modificada, provavelmente com a adoção do aumento real equivalente à variação do PIB per capita. A nova regra reduziria as despesas da Previdência e da assistência social.

É imprescindível também que o governo encaminhe ao Congresso uma proposta de reforma do Regime Geral de Previdência Social (RGPS), definindo uma idade mínima para a requisição da aposentadoria. Além de garantir, é claro, a aprovação do projeto de lei que reverte a desoneração da folha de pagamento das empresas.

Mesmo essas medidas podem não ser suficientes. Por isso, devem vir acompanhadas de propostas para aumentar a carga tributária. A medida mais provável, pois conta com apoio no Congresso e de governadores, é a recriação da CMPF, o imposto dos cheques. Há informações também sobre estudos oficiais para a tributação mais pesada de heranças e doações e de grandes fortunas.

É hora de agir, lembra a S&P – Editorial / O Estado de S. Paulo

O mundo gira, o tempo passa e nenhum investidor vai ficar sentado, pacientemente, à espera de uma solução sem prazo para os enormes desarranjos da economia brasileira. Se a presidente Dilma Rousseff, seus companheiros e aliados e as figuras mais influentes do Congresso tiverem captado esse fato, a ameaça de rebaixamento do Brasil pela Standard & Poor’s (S&P) terá sido muito útil. Se o País perder o grau de investimento, seus títulos serão classificados como “junk bonds”, isto é, como lixo, e o Tesouro Nacional, já sobrecarregado, terá de pagar juros maiores para se financiar. A dívida consumirá mais dinheiro e sobrarão menos recursos para os programas econômicos e sociais e até – os malandros deveriam pensar nisso – para as jogadinhas com o orçamento. Por enquanto, o rebaixamento é só um risco, mas muito próximo. A S&P manteve a nota do Brasil no nível mais baixo do grau de investimento, mas a perspectiva caiu de estável para negativa.

O alerta é claro para qualquer pessoa razoavelmente informada, mas ainda foi traduzido com todas as letras, em Nova York, pela analista responsável pela avaliação do Brasil, a economista Lisa Schineller. Sem sinal de melhora, o próximo lance vai ser o rebaixamento para o grau especulativo. Técnicos do mercado logo acrescentaram um detalhe assustador: outras agências poderão em pouco tempo seguir a iniciativa da S&P.

O anúncio da agência foi inesperado. O noticiário recente esteve concentrado nos contatos do pessoal da Moody’s com funcionários brasileiros. Não haveria surpresa se essa missão resultasse, em pouco tempo, em uma reavaliação do País. Mas o lance da S&P surpreendeu somente pelo momento. A mudança da perspectiva da nota para negativa estava dentro das expectativas.

A perspectiva mudou para pior, segundo a Moody’s, porque os riscos para a execução da política de ajuste aumentaram. Os técnicos da agência aplaudem a correção de rumo no segundo mandato da presidente Dilma Rousseff, mas chamam a atenção para o agravamento dos problemas econômicos e políticos. Não se trata do rebaixamento da meta fiscal anunciado na semana passada, mas do aumento dos obstáculos. As investigações de corrupção, com envolvimento de políticos e grandes empresas, deve tornar mais difícil a aprovação das medidas de ajuste no Congresso, de acordo com a agência.

A probabilidade de novos escorregões da política de ajuste é agora superior a um terço, por causa dos obstáculos políticos e do retorno mais demorado a uma trajetória de crescimento firme, de acordo com a análise divulgada. Mas a nota chama a atenção para um dado positivo: as investigações são um testemunho a favor das bases institucionais do Brasil, “em contraste” com o observado em outros emergentes.

Esse aspecto pode ser positivo, mas a consequência imediata das investigações é uma incerteza maior sobre as condições políticas e econômicas. Também esta mensagem é explícita no documento divulgado pela S&P, e as autoridades brasileiras deveriam considerá-la. Para começar, a presidente e sua equipe deveriam explicar esses fatos à opinião pública e aos parlamentares aliados.

A tarefa pode ser complicada, como se pode ver pela reação do líder do governo na Câmara, deputado José Guimarães (PT-CE). Segundo ele, as agências de classificação de risco deveriam cuidar de sua vida e deixar de se meter nos assuntos brasileiros. “Não têm de ficar dando pitaco na vida interna do Brasil”, disse o coordenador da bancada governista.

Em outra circunstância, essa opinião seria apenas patética e irrelevante, mas o caso é diferente. Se esse é o líder governista, quem defenderá a política econômica? Outros parlamentares reagiram como se o governo estivesse empenhado em usar a decisão da S&P para pressioná-los. Alguém terá entendido o problema? A S&P talvez tenha sido otimista ao classificar apenas como “desafiadoras” as circunstâncias políticas. “Assustadoras” talvez fosse uma palavra melhor.

O significado do avanço da Lava-Jato – Editorial / O Globo

Irônico e arrogante, o tesoureiro do PT Delúbio Soares profetizou que o mensalão viraria uma "piada de salão". Não virou, e ele continua a cumprir pena de mensaleiro condenado. Há outro tesoureiro do partido, detido como já esteve Delúbio: João Vaccari Neto, preso devido ao petrolão, o assalto à Petrobras em dimensões muito maiores ao do que foi praticado no Banco do Brasil pelo mensaleiro Henrique Pizzolato, trancafiado na Itália, à espera da definição sobre sua extradição para o Brasil.

Não é coincidência que os dois golpes tenham nascido no PT, e até transcorrido de forma paralela. No petrolão, um dos beneficiários do regime de delação premiada, o gerente da estatal Pedro Barusco, corrupto confesso, disse, na CPI da Petrobras, que a diferença entre roubos na estatal no governo tucano e na Era PT é que a corrupção na empresa, depois da posse de Lula, em 2003, ganhou método, passou a ser sistêmica.

Os desdobramentos da Lava-Jato no setor elétrico confirmam o depoimento de Barusco, um especialista, pois ele roubou na Petrobras quando os tucanos estavam no Planalto e com o PT no poder. Constatou, digamos, por dentro, as diferenças.

A extensão da Lava-Jato começa a confirmar a suspeita de que, além de sistemática, a prática de desvio de dinheiro para partidos (PT, PMDB, PP e outros) e bolsos privados se generalizou em canteiros de obras de estatais. Pode-se dizer, houve um PAC da corrupção, um subterrâneo paralelo ao Programa de Aceleração do Crescimento.

Em recente entrevista à "Folha de S.Paulo", o deputado Miro Teixeira (PROS-RJ) lembrou que, na condição de ministro das Comunicações de Lula, em 2003, no início do governo, esteve numa reunião, em companhia do também ministro Antonio Palocci, para discutir formas de se obter apoio parlamentar ao Planalto. Segundo Miro, venceu a posição "orçamentária", ou seja, a defesa de que literalmente se comprasse o apoio. Não revelou os outros participantes da conversa.

E assim foi feito, comprovam o mensalão e o petrolão. Numa escala tal que, tudo indica, a intenção deixou de ser o azeitamento de votos no Congresso, mas a sustentação indefinida do projeto de poder do lulopetismo. Isso custa caro, constata-se hoje nas estimativas de quanto foi surrupiado da Petrobras.

Da operação policial feita na Eletronuclear resultou a prisão do presidente licenciado da estatal, vice-almirante Othon Luiz Pacheco da Silva, engenheiro responsável pelo chamado programa nuclear paralelo. Ele teria recebido propinas de empreiteiros em função das obras da usina nuclear de Angra 3.

As investigações começaram com a delação premiada do ex-presidente da Camargo Corrêa, Dalton Avancini, sobre corrupção na estatal. Esta vertente da Lava-Jato parece promissora, porque o grupo Eletrobras - também sob investigação nos EUA - é formado por 15 empresas, donas de ativos e obras bilionárias. São precondições para novas histórias escandalosas.

Fagner - Jura Secreta (Suely Costa)

Carlos Pena Filho - Olinda, do alto do mosteiro, um frade vê

(A Gilberto Freyre)

De limpeza e claridade
é a paisagem defronte.
Tão limpa que se dissolve
a linha do horizonte.

As paisagens muito claras
não são paisagens, são lentes.
São íris, sol, aguaverde
ou claridade somente.

Olinda é só para os olhos,
não se apalpa, é só desejo.
Ninguém diz: é lá que eu moro.
Diz somente: é lá que eu vejo.

Tem verdágua e não se sabe,
a não ser quando se sai.
Não porque antes se visse,
mas porque não se vê mais.

As claras paisagens dormem
no olhar, quando em existência.
Diluídas, evaporadas,
Só se reúnem na ausência.

Limpeza tal só imagino
Que possa haver nas vivendas
das aves, nas áreas altas,
muito além do além das lendas.

Os acidentes, na luz,
não são, existem por ela.
Não há nem pontos ao menos,
nem há mar, nem céu, nem velas.
Quando a luz é muito intensa
é quando mais frágil é:
planície, que de tão plana
parecesse em pé.