terça-feira, 17 de novembro de 2015

Bernardo Mello Franco: O balão do PMDB murchou

- Folha de S. Paulo

Até outro dia, um pesadelo perturbava o sono da presidente Dilma Rousseff. Em 15 de novembro, o PMDB faria um grande congresso para proclamar o rompimento com o governo e o apoio à abertura de um processo de impeachment.

O roteiro, traçado por aliados do vice Michel Temer, tem pouco a ver com o que acontecerá nesta terça em Brasília. O evento não cairá no feriado nacional, não será um congresso e não marcará uma ruptura. No que depender de alguns peemedebistas, não será nem grande.

O diretório do Rio, por exemplo, adotou a tática do boicote. O governador Luiz Fernando Pezão, o prefeito Eduardo Paes e o deputado Leonardo Picciani, líder do partido na Câmara, não vão dar as caras. Os três defendem a permanência de Dilma.

O deputado Eduardo Cunha deve aparecer, embora a cúpula do PMDB preferisse o contrário. Para Temer, uma foto ao lado do vendedor de carne moída não será exatamente um reforço na imagem.

O congresso do PMDB foi esvaziado porque o balão do impeachment, inflado por Cunha, murchou junto com o deputado. Sem a perspectiva de um governo Temer, restou ao partido promover um encontro da Fundação Ulysses Guimarães.

"Se fosse um congresso, ia ter pauleira. Como virou um encontro da fundação, não vamos decidir nada. A ideia é discutir um programa para o país", diz o senador Romero Jucá.

A ameaça de rompimento também perdeu força porque o PMDB aproveitou a crise para exigir o de sempre: mais cargos e ministérios.

A ala oposicionista do partido reconhece que o plano do impeachment ficou distante. Mesmo assim, há quem aposte no discurso que o vice fará hoje para provocar mais alguma turbulência para Dilma.

"Toda vez que o Temer fala, cria uma crise danada com os petistas. Se ele discursa é porque está conspirando, e se fica calado é porque quer dar golpe", diverte-se o ex-ministro Geddel Vieira Lima.

Luiz Carlos Azedo: O pêndulo de Temer

• O vice-presidente República movimenta-se entre o governo e a oposição, de acordo com a rotação da crise econômica, ética e política. Engana-se quem imagina que esteja isolado

- Correio Braziliense

O pêndulo de Foucault, idealizado pelo físico francês Jean Bernard Léon Foucault, foi concebido em 1851 para demonstrar a rotação da Terra e a existência da Força de Coriolis (força inercial). Foi um experimento simples e genial: um pêndulo de 30kg foi fixado ao teto do Pantheon de Paris por um fio de 67 metros de comprimento.

Durante o movimento, a areia ia se escorrendo da esfera, com a intenção de marcar no chão a trajetória do pêndulo. O rastro deixado pela areia não se sobrepunha um ao outro, mas sim existia um espaçamento entre um e outro a cada período do pêndulo completado.

Sua originalidade foi o fato de ter liberdade de oscilar em qualquer direção, ou seja, o plano pendular não é fixo. A rotação do plano pendular é devida à rotação da Terra. A velocidade e a direção de rotação do plano pendular permitem igualmente determinar do local da experiência sem nenhuma observação astronômica exterior. Tudo isso pôde ser demonstrado matematicamente.

O PMDB comporta-se na política brasileira como o pêndulo de Foucault. Hoje, faz um congresso para discutir o documento “Uma ponte para o futuro”. É o texto mais badalado da política nacional, porque oferece um programa de saída para a crise que foi bem recebido pelos agentes econômicos. No mundo político, porém, foi interpretado como um de programa de governo para a eventualidade do vice-presidente Michel Temer assumir o poder.

Faz propostas que vão além do ajuste fiscal do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, e a Agenda Brasil, anteriormente anunciada pelo presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL). Suas teses confrontam as concepções econômicas da presidente Dilma Rousseff, as posições do PT e declarações recentes do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O PMDB propõe reformas de natureza estrutural.

Temer quer desindexar a economia do índice da inflação, inclusive o salário mínimo e as aposentadorias. Promover uma reforma trabalhista, atribuindo aos contratos coletivos a regulação das relações entre trabalho e capital, exceto quanto aos direitos básicos. E reduzir o deficit na Previdência Social, ao fixar idade mínima para a aposentadoria de 60 anos para mulheres e 65 para homens.

O vice-presidente República movimenta-se entre o governo e a oposição, de acordo com a rotação da crise econômica, ética e política. Engana-se quem imagina que esteja isolado. Na verdade, se posiciona levando em conta os demais partidos e as correntes internas do PMDB. É um craque nesse vai e vem político, que não repete o mesmo percurso. Eis aí a diferença, na política, entre um pêndulo simples como dos relógios e o pêndulo de Foucault.

Esse comportamento, porém, desgasta cada vez mais sua relação com a presidente Dilma Rousseff, com quem já não tem nenhum diálogo político. Temer procura manter as aparências, como hoje, ao presidir a reunião do conselho político como presidente em exercício, mas a presidente Dilma Rousseff, que está na reunião do G20, na Turquia, nas solenidades oficiais já não faz questão de tratá-lo com as deferências que seus respectivos cargos exigem.

O congresso do PMDB proporá o lançamento de uma candidatura própria à Presidência da República em 2018, esse é o ponto de convergências entre as alas do partido que apoiam o governo e que desejam o rompimento imediato. O programa, porém, leva em consideração a crise econômica e não o calendário eleitoral. O movimento pendular do PMDB é ditado pela correlação de forças na sociedade. Quando, porém, derivar de vez para a oposição, mudará a rotação da política no Congresso e selará o destino de Dilma.

À beira do cadafalso
O deputado Fausto Pìnato (PRB-SP), relator do processo de cassação do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), antecipou em três dias o seu relatório preliminar e pediu a continuidade do processo contra o peemedebista no Conselho de Ética. Segundo ele, fez isso porque já havia analisado a representação contra Cunha e encontrado indícios suficientes para o prosseguimento das investigações. Cunha protestou.

O advogado Marcelo Nobre, que defende Cunha no Conselho de Ética, disse que a antecipação é “injustificada” e “fere o direito de defesa do parlamentar”. Ele argumentou que o direito é “imprescindível” para esclarecer dúvidas do relator e dos integrantes do Conselho. Deve apresentar as alegações a favor de Cunha ainda hoje.

Raymundo Costa: O segundo tempo do impeachment

• Troca de Levy por Meirelles empareda de vez a presidente

- Valor Econômico

O ex-presidente Lula disse a amigos que não fará mais tanta pressão para a presidente Dilma Rousseff trocar de ministro da Fazenda. Vai deixar de falar ao pé do ouvido e dizer de público o que pensa. Lula não quer se indispor com Levy, com quem acha que tem divergências apenas eventuais. Em suas palavras, não quer fazer "uma cruzada contra o Levy". E o ouvido de Dilma, por outro lado, está quente de tanto ouvir os seus argumentos em favor de Henrique Meirelles.

Lula e Dilma tiveram uma longa conversa sobre economia há menos de 15 dias. Nem todos os ministros da Casa participaram da reunião, organizada por Jaques Wagner. Lula falou o que pensa da economia. E educadamente ouviu o que a presidente tinha a dizer - bem diferente dos relatos sobre conversas ocorridas no primeiro semestre. A relação entre os dois está melhor, contam os amigos em comum. O que chamou a atenção foi a ausência do ministro Joaquim Levy, aquele que Lula quer trocar por Henrique Meirelles.

Lula queria mover três peças no governo: tirar Aloizio Mercadante da Casa Civil, trocar Joaquim Levy por Henrique Meirelles na Fazenda e tirar José Eduardo Cardozo da Justiça. Conseguiu o primeiro objetivo, mantém a mesma opinião sobre Meirelles e mais do que nunca gostaria de ver Cardozo longe de Brasília. Na época, posou de vencedor. Agora deixou a conversa "desanimado". Diz que só falará em público, um perigo, pois é justamente quando desata a falar que Lula mais tem ajudado a minar a autoridade de Levy. Outro dia, um petista que defende a saída de Levy reagiu desconcertado quando um colega de partido resolveu brincar com ele: "Cuidado: Vocês podem gritar 'Fora Levy' e ganhar o Meirelles".

Lula não esperou muito tempo para declarar em público que a data de validade do ministro Levy está vencida. Dilma subiu o tom e respondeu que não era forçada a concordar com "avaliações" de pessoas das quais gosta imensamente. Levy que se cuide: Dias antes da demissão de Mercadante a presidente dizia que tirar o ministro da Casa Civil significaria gerar mais "instabilidade" no governo.

Levy vem sendo fritado há tempos. Segundo as fontes palacianas, primeiro foi Mercadante, então chefe da Casa Civil, que estimulava outros ministros a divergir do titular da Fazenda, assim como boicotou o vice-presidente Michel Temer quando este assumiu a coordenação política do governo. Mercadante saiu e agora os líderes no Congresso afirmam que a situação de Levy é insustentável. Tem mais alguém no Palácio do Planalto e arredores incomodado com o ministro.

A receita da fritura é a mesma de todos os governos: o ministro não teria o menor jogo de cintura político, se expôs numa conversa recente com senadores, sem avisar ou combinar nada com a área política do governo. Sua saída, nessas circunstâncias, seria questão de tempo. E por que Meirelles? Para recuperar a credibilidade do governo a partir da economia. É difícil medir a diferença. Numa tradução livre da piada petista: o 'Fora Levy, vive Meirelles!".

O ministro Jaques Wagner, que participou da reunião com Lula, afirma que está "alinhado" com a presidente - ou seja, Levy é um grande servidor público compromissado com o país. "Estou aqui para apoiá-la (a presidente) no que ela quiser", disse, por meio de sua assessoria. Wagner também disse que tem ajudado nas votações relacionadas à Fazenda e nega que tenha tomado partido do ministro Nelson Barbosa (Planejamento) em divergências entre as duas pastas. Alias, acha perfeitamente natural a discussão de projetos antes da tomada de decisão.

Pode ser. Wagner é um político jeitoso, cujos primeiros passos na Casa Civil têm sido elogiados no Congresso, onde habita sua clientela. Mas na prática o apoio do Congresso ao governo caiu, pouco mas caiu sobretudo devido às questões de natureza econômica. Sem uma saída para a questão econômica, dificilmente o governo voltará a ter a paz política de que necessita para retomar os projetos de desenvolvimento econômico.,

Com menos de 10% de popularidade, hoje pode-se dizer que Dilma é a chefe de Estado, mas já não é a chefe de governo. Há quem pense, no PT, em antecipar a votação da proposta de impeachment, por estar seguro de que tem pouco mais de 171 votos necessários para barrar o projeto. Talvez duzentos e alguns trocados. Um governo fraco politicamente. Dilma pode até escapar, mas sofrerá o "impeachment" de Estado, no momento em que Meirelles assumir a Fazenda, se assumir. Mas ao vencedores do PT terá restado mais que as batatas.

Análise de 13 votações realizadas em outubro revela que o apoio ao governo voltou a cair, após ligeira melhoria no semestre, segundo levantamento da empresa de consultoria política Arko Advice. Entre julho e setembro, a média de apoio na Câmara foi superior a 50% e apresentava tendência de alta. Em outubro, esse movimento foi interrompido, o índice ficou abaixo desse patamar e fechou o mês em 49,70%.

O analista Cristiano Noronha atribuiu a queda sobretudo à votação de matérias de natureza econômica. "A queda está relacionada ao número de matéria polêmicas que foram submetidas à votação como, por exemplo, repatriação, urgência para o projeto que revoga o regime de partilha nos leilões do pré-sal e medidas provisórias do ajuste fiscal", disse Noronha..

Na opinião da Arko Advice, essa é mais uma demonstração clara de que a reforma ministerial realizada pelo governo não contribuiu para melhorar "o nivel de coesão da base em matérias de interesse do governo". De qualquer forma, ressalta Noronha, "o percentual é bem maior do que a média de apoio verificada nos meses de março (38,34%) e abril (40,11%). Também é superior que a média que a presidente teve no primeiro mandato (45,24%)".

Sua conclusão: "Apesar da queda, o governo está conseguindo avançar - ainda que com dificuldade e de forma lenta - na agenda do ajuste fiscal".

Apenas um arroubo? – Editorial / O Estado de S. Paulo

O editorial Um crédito a ser preservado, publicado ontem, enaltecia o fato auspicioso de o Poder Judiciário, como instituição, “ter sabido conquistar, nos últimos anos, o respeito e a confiança dos brasileiros”. O texto fazia parte da grade de edição para o fim de semana fechada na sexta-feira, mesmo dia em que o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Ricardo Lewandowski, em palestra a estudantes de Direito em São Paulo, numa atitude que não condiz com o respeito e a confiança que a Suprema Corte tem feito por merecer, formulou uma crítica indireta, mas contundente aos amplos setores da sociedade que defendem o afastamento de Dilma Rousseff. Classificou como “golpe institucional” o exercício do direito constitucionalmente garantido aos cidadãos de pleitear a aplicação dos instrumentos previstos pela Carta Magna para promover o impeachment da presidente da República.

É claro que, como cidadão, Ricardo Lewandowski tem todo o direito de cultivar e defender convicções políticas, mas ele é o chefe do Poder Judiciário, condição da qual, mesmo que queira, não pode se alienar por um momento sequer. Coisas do ofício que ele abraçou. E, nessa condição, não cabe a ele se manifestar sobre questões delicadas que, num ambiente político conturbado como o atual, podem facilmente transformar o debate democrático em mero embate de paixões, como também ressaltado no editorial de ontem.

Não hesitou o ministro-presidente do STF em acenar com a ameaça de o País reviver o pesadelo da ditadura militar – retrocesso contra o qual o Judiciário se tem colocado como sólida barreira –, ao recorrer ao conhecido discurso do medo: “Temos de ter a paciência de aguentar mais três anos sem nenhum golpe institucional. Esses três anos (se houvesse um ‘golpe’) poderiam cobrar o preço de uma volta ao passado tenebroso de 30 anos atrás”.

O presidente do Supremo, com a sua fala infeliz, demonstrou não se ter dado conta de não haver condições para a tal “volta ao passado” que teme. No domingo, aliás, publicamos o editorial Os militares e a democracia exaltando a incondicional adesão dos cidadãos fardados às instituições e aos princípios democráticos.

Para Lewandowski, as duras críticas que o governo de Dilma Rousseff tem recebido de todos os setores da sociedade não passam de “cortina de fumaça” a encobrir desígnios suspeitos. E garantiu: “O STF está atento também, não está se deixando envolver emocionalmente por esses percalços que estamos vivendo. E, insisto, esses percalços são passageiros”.

Certamente, o STF, como instituição, não teria como nem por que envolver-se “emocionalmente” na atual crise política, o que já não se pode dizer de seu presidente, a julgar por suas próprias palavras. Pois não há outra explicação para o fato de Lewandowski agir como porta-voz do Planalto e expor-se ao risco de “insistir” em que “esses percalços são passageiros”. Arroubos dessa natureza comprometem o fundamento do sistema democrático que, ao mesmo tempo, garante a autonomia e a independência dos Poderes da República e delas depende.

Ricardo Lewandowski também revelou uma posição incompatível com a de guardião da Constituição ao criticar o Congresso porque “deixou de lado a sua função legislativa e passou a exercer uma função investigativa”, como se essa função investigativa não fosse decorrência natural da responsabilidade constitucional do Parlamento de fiscalizar os atos do Executivo. Mas ele próprio admitiu aos estudantes ter dúvidas sobre a questão: “Essa ideia de separação tão absoluta de Poderes, hoje, não sei se ainda vigora”. Pelo sim, pelo não, foi a Constituição vigente, que consagra a divisão de Poderes, que o ministro do STF jurou cumprir e fazer respeitar.

Para não deixar dúvidas sobre quais são suas afinidades políticas, o presidente do STF fez coro à desconfiança dos atuais donos do poder em relação à imprensa: “O País está funcionando. Há uma crise, a meu ver artificial. É claro que há uma crise. Mas é uma crise de desconfiança. Também, de certa maneira, insuflada diariamente pela mídia”.

Generoso com seu colega, o ministro Marco Aurélio Mello classificou as palavras de Lewandowski como um “arroubo de retórica”. A Nação, preocupada, espera que tenha sido apenas isso.

Wellington Moreira Franco: Uma ponte para a esperança

- Folha de S. Paulo

Quanto tempo ainda temos até que seja tarde demais? Qual o prazo de que dispomos para esperar desdobramentos das crises política e econômica sem que haja o comprometimento das bases da nossa economia e da relativa paz social ainda existente?

É essa a reflexão necessária, a se fazer com urgência, posto que a gravidade do momento exige iniciativa para medidas contundentes. O Brasil está acostumado a enfrentar suas fragilidades não com o silêncio, mas com a esperança.

Nesta quarta (17), a Fundação Ulysses Guimarães, do PMDB, realiza seu Congresso Nacional para debater o documento "Uma Ponte para o Futuro", recentemente divulgado com grande repercussão.

A razão disso é que fomos direto ao ponto: é hora de discutirmos o papel do Estado. É hora do Estado eficiente, livre do desperdício, intolerante com a corrupção e obcecado por resultados.

Não vislumbramos um Estado mínimo, pois defendemos o papel indutor das políticas públicas. Algumas delas, entretanto, precisam ser discutidas e adaptadas à realidade dinâmica da economia. Estudo do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação informa que o Brasil, dentre os países de maior carga tributária, é o de pior retorno à população em serviços públicos.

Ou seja, garantir políticas públicas não significa, apenas, distribuir dinheiro entre escaninhos da burocracia. Sabemos que, historicamente, a opção pelo mais fácil abre caminho para o desperdício, a ineficiência e a corrupção.

Afinal, se o dinheiro já está garantido, o gestor não precisa buscar melhores resultados para assegurar a continuidade dos programas que gerencia. Basta procurar manter o emprego.

Elevamos a condição social, profissional e escolar de milhões de brasileiros nos últimos anos. O problema que devemos ter a coragem de enfrentar agora é a grave recessão que pode representar a volta de milhares de brasileiros beneficiados nesse período ao ponto de origem. Ou a um ponto ainda anterior de pobreza e falta de perspectiva.

Precisamos formar uma maioria com iniciativa para enfrentar, certamente, a maior crise econômica da nossa história, uma vez que agora sua origem é interna, provocada por mau uso dos recursos públicos.

Não estamos em ano eleitoral, não se trata de buscar culpados. Mas, sim, de unir brasileiros que façam a nossa economia recuperar um ano que não existiu e possam planejar o futuro.

Coragem não faltou ao PMDB nesses 50 anos em que sempre votamos a favor da nação brasileira. Não faltará para propor e implementar as medidas de que precisamos para fazer o nosso povo se reconciliar com a esperança. Construímos pontes no passado, vamos novamente construir agora.
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Wellington Moreira Franco, 71, ex-ministro da Aviação Civil (2013-2015), é presidente da Fundação Ulysses Guimarães, instituto de formação política do PMDB
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Míriam Leitão: Sombras sobre Paris

- O Globo

Uma nova sombra cerca a economia europeia depois de anos em que o continente se esforçou para sair da crise. O atentado em Paris cria mais incerteza na região que veio saindo devagar da turbulência financeira que teve início no final de 2008. Uma nova sombra cerca as negociações da Conferência da ONU sobre o clima, que começa dentro de duas semanas em Paris.

Eventos paralelos foram cancelados, manifestações de ambientalistas serão coibidas, e o encontro de chefes de Estado será em um momento em que as atenções estão voltadas para a emergência da guerra ao terror. O mundo espera esta reunião de cúpula do clima desde a última que teve chance de chegar a um acordo, em 2009, em Copenhague. Desde então, o atual encontro, marcado para Paris, é o que mais possibilidades reuniu. Que chance tem agora diante do terror imediato que captura todas as atenções? A dimensão da segurança necessária para proteger os mais de 100 chefes de Estado na cidade pode sufocar a Conferência, para a qual estão sendo aguardadas 40 mil pessoas.

Os massacres de Paris criam sombras diversas que se espalham como estilhaços na economia, na política, na sociedade, nas relações entre os países, na vida de imigrantes e na esperança dos refugiados. Não é um inimigo convencional. É uma guerra territorial, porque o EI ocupa partes da Síria e do Iraque, mas ao mesmo tempo não é, porque o grupo camufla seus soldados e os recruta dentro da população dos paísesalvo. A reação ao Estado Islâmico teria que ser inevitavelmente o aumento do contra- ataque com bombardeio aos alvos do grupo terrorista. Mas certas estratégias usadas dentro dos países atingidos vão aumentar o ódio, a xenofobia, o fechamento de fronteiras, a rejeição aos refugiados e tudo o mais que é o ambiente perfeito para a pregação dos radicais islâmicos. Isso aumenta o risco de crescer o recrutamento de novos militantes.

O petróleo é a grande base financeira do grupo e, por mais que o governo americano já tenha estabelecido que o alvo é destruir essa infraestrutura produtiva, eles continuam produzindo petróleo, nos territórios ocupados, e com isso se financiando. Produzem, segundo uma reportagem do “Financial Times”, entre 34 mil e 40 mil barris/ dia, que vendem ao preço de US$ 20 a US$ 45 o barril. Entre seus clientes, segundo o jornal inglês, há inclusive os rebeldes sírios que lutam contra eles, mostrando como a economia tem contradições difíceis de explicar. Alguns dos seus inimigos não têm a quem recorrer para ter a energia necessária.

Havia um temor de que o petróleo subisse fortemente com a incerteza provocada pelo atentado que deixou 129 mortos e centenas de feridos e deixou a França em emergência nacional. Em épocas turbulentas, sobem ouro, petróleo, dólar. O petróleo tem oscilado em altas e quedas conforme a avaliação dos analistas sobre as consequências do atentado na economia. De um lado, aumenta a incerteza, por outro, a economia europeia pode demandar menos se o cenário for de menor crescimento, e ainda há grandes estoques internacionais que fizeram o preço cair 46% no último ano. Ontem, a cotação passou o dia em queda, mas fechou em leve alta. A que preço for, ele remunera o grupo terrorista, sustenta sua operações, e o Ocidente não sabe como fazer para estancar esta fonte de financiamento, nem o que aconteceria com a população de 10 milhões de habitantes que vive em sua área de controle.

O atentado matou e feriu centenas de pessoas, aprisionou a cidade de Paris no medo, espalhou a ansiedade por inúmeros países. Ontem, Harvard esvaziou andares por uma ameaça de bomba. O mundo vai viver assim com os nervos à flor da pele. Além disso, o Estado Islâmico terá conseguido seu objetivo se aumentar — como se espera — a tensão dentro da Europa entre quem tem e não tem origem árabe, quem professa ou não professa a fé islâmica. É no ódio que ele se movimenta com mais desenvoltura; é no ambiente de medo que ele tem a sua vitória. E ambos os sentimentos pairam como sombras sobre o espírito francês e europeu. Serão tempos difíceis os que estão por vir. A economia será afetada, mas o mais importante é que serão colocados em xeque os valores que fundaram a sociedade francesa e europeia. As divisões e as dúvidas vão se propagar como sombras sobre Paris e muito além.

O difícil combate contra o terrorismo do radical EI – Editorial / Valor Econômico

Quando 8 homens conseguem fazer uma cidade como Paris refém do pânico e provocar 129 mortes e 350 feridos, sabe-se que os governos estão diante de um inimigo difícil de ser contido - fracamente coordenados, com células isoladas, tramando ações em guetos da periferia das grandes cidades e dispostos a tudo para atingir seus objetivos. Desde o assombroso ataque às Torres Gêmeas em setembro de 2001, o terrorismo conseguiu algum sucesso em causar destruição em massa. Após a sexta-feira 13 parisiense, autoridades francesas e inglesas disseram que a polícia tem feito progressos e conseguiu impedir 12 ações nos dois países. E, depois de 168 batidas policiais na capital e em cidades da França, foram capturados fuzis Kalachnikovs e até lança-foguetes, com três dezenas de suspeitos presos. São sintomas de uma corrente contínua de pessoas dedicadas à barbárie política e assassinatos em massa.

O Estado Islâmico é um herdeiro ainda mais radical da Al-Qaeda, matriz de grupos terroristas experimentados no laboratório de guerra do Afeganistão, contra a Rússia, muitos armados e treinados pelos EUA. O EI, ao contrário dos demais, que agem nas sombras e não têm endereço, hoje ocupa um território na Síria e Iraque, com duas cidades importantes como quartéis-generais, Raqqa e Mossul. Aproveitando-se de disputas sectárias insolúveis, como a perseguição do governo xiita iraquiano aos sunitas e a guerra cruel movida pelo tirano Bashar al-Assad contra os sunitas na Síria, o EI capturou áreas importantes dos dois países que lhe deu o que em geral falta a grupos terroristas, fontes relativamente estáveis de recursos financeiros.

Os fanáticos do EI coletam os destroços dos Estados do Oriente Médio desestabilizados pela invasão do Iraque, pela mudança da correlação de forças entre xiitas e sunitas com a derrubada de Saddam Hussein (e Muamar Kadhafi), e, em contraposição ao avanço dos grupos radicais xiitas apoiados pelo Irã, aliado precioso de Assad. Financiados e armados no início pela Arábia Saudita, a mais estável potência do Oriente Médio, os radicais do EI tem ódios óbvios. Na região, tendem a eliminar com crueldade seus rivais religiosos xiitas, como fizeram em atentado recente no Líbano, com 43 mortes. Fora dela, quer punir os imperialistas que invadiram Iraque e os atacam na Síria, como EUA, Reino Unido e França, entre outros.

Com as facilidades da tecnologia, o EI recruta soldados onde há indignação e revolta prontas para serem exploradas - nas periferias de cidades europeias, entre jovens muçulmanos não integrados, que perderam laços com seu país de origem sem criar outros nos países onde decidiram residir. É muito mais difícil para os órgãos de inteligência detectarem movimentos de inimigos "internos" do que radicais estrangeiros se movendo suspeitamente pelas fronteiras da Europa.

É esse grande potencial de recrutamento fora do Oriente Médio que torna a atual guerra ao terrorismo extraordinariamente complexa e impossível de ser ganha a curto prazo.

Ainda assim, reações estão sendo esboçadas, com possibilidades distintas de êxito. Potências ocidentais e Rússia apressaram a busca por uma saída política para a guerra civil síria, ao que tudo indica com a participação de Assad, forte o suficiente para permanecer no poder, fraco o suficiente para vencer o EI e oposição. Os ataques aéreos contra o EI e instalações petrolíferas em seu território já se intensificaram. A França ampliou o estado de emergência por três meses, enquanto que os serviços de inteligência do continente ganharam mais um estímulo para se coordenarem contra a ameaça comum. A guerra na Síria e conflitos no Norte da África provocaram uma migração sem precedentes para a Europa, o que facilita a entrada de terroristas assim como dificulta sua identificação.

É possível fazer mais para cortar a fonte de recursos financeiros a grupos terroristas, assim como restringir ao máximo a entrega de armas ao EI, já que EUA, Reino Unido e França são os maiores fabricantes e vendedores.

A força, porém, não substitui a política, que precisa ser decidida e inteligente para integrar minorias religiosas nas sociedades ocidentais. A exclusão é uma realidade na França e na Inglaterra, por exemplo, embora esses países sigam orientações diferentes, sem muito sucesso. Conter a escalada de violência no Oriente Médio parece ser impossível, mas impedir que ela se dissemine a partir dos subúrbios das metrópoles europeias é tarefa urgente e vital para as democracias sob ameaça.

É inconcebível a relativização da barbárie – Editorial / O Globo

• Não se pode concordar que os crimes em Paris sejam justificados por ações da França no Oriente Médio, um tipo de raciocínio que leva à aceitação de Hitler

O segundo atentado terrorista em Paris no período de onze meses merece, além do repúdio de todos que prezam o avanço civilizatório, uma reflexão sobre a essência dos atos cometidos por grupos forjados no sectarismo religioso de correntes do Islã, no Oriente Médio.

Um aspecto que se tornou mais visível depois dos ataques de assassinos teleguiados pelo Estado Islâmico, na noite de sexta-feira, contra pessoas indistintas na casa de espetáculo Bataclan e em restaurantes, foi o pernicioso viés da tentativa de se relativizar e justificar os crimes. Comentários inaceitáveis neste sentido trafegaram por redes sociais.

No massacre de cartunistas cometido também por “jihadistas”, em janeiro, na Redação do jornal satírico “Charlie Hebdo”, ocorreu o mesmo. Houve quem apontasse “exageros” na linha de humor do periódico, numa caso exemplar de condenação da vítima pelo crime.

Agora, foram lembradas “intervenções” da França no Oriente Médio — no mesmo espírito do comunicado do EI após os assassinatos —, e ainda houve quem responsabilizasse por tudo os Estados Unidos, ao financiarem e treinarem Bin Laden, no Afeganistão, para enfrentar os russos.

Ora, este é um tipo de raciocínio que pode ser aplicado a tudo na História. Até para justificar a trajetória de Hitler e o rastro que deixou milhões de mortos. Afinal, a Alemanha foi sufocada pelo Tratado de Versalhes, marco do fim da I Guerra, de que o país saiu como derrotado, e isso terminaria gerando um ditador nacionalista, racista, populista, autoritário.

Existe, então, quem tenda a ter alguma condescendência diante do nazi-islamismo do EI e similares, porque tudo seria fruto de intervenções ocidentais no Oriente Médio, em particular dos Estados Unidos. Só mesmo o antiamericanismo infantojuvenil do PT explica que meses atrás a presidente Dilma tenha se colocado contra ataques ao EI. Já na reunião do G-20, na Turquia, na esteira dos assassinatos em Paris, Dilma reviu aquela posição, com acerto. Chance para o PT saber ao certo de que lado precisa estar o Brasil nesses conflitos derivados da crise eterna no Oriente Médio.

Não pode haver relativizações quando estão em jogo conquistas inscritas na Declaração Universal dos Direitos Humanos e em incontáveis constituições nacionais, inclusive a brasileira. No Oriente e Ocidente, são cometidos crimes contra a Humanidade, e que, por isso, merecem repulsa e reação da comunidade internacional. Fique claro que, na essência, o Bem e o Mal existem.

Esses últimos atentados em Paris precisam levar, enfim, à montagem de ampla aliança contra o EI, como propôs ontem o presidente francês, François Hollande. Seria bom começo aplicar os estatutos da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), pelos quais o ataque a um dos seus membros, a França, é uma agressão aos demais. A resposta deve e pode ser dada por meio da diplomacia multilateral.

Impeachment pode ser forma de destravar crise, diz Armínio Fraga

Ana Estela de Sousa Pinto – Folha de S. Paulo

Com ou sem Joaquim Levy no Ministério da Fazenda, o Brasil caminha para o "caos profundo" se não mudar de rota. O PT já desperdiçou sua chance e o impeachment —desde que dentro das regras— seria uma solução para destravar a crise, na visão do ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga.

No curto prazo, todos os seus cenários são sombrios: o desemprego vai piorar, a inflação corre o risco de desgarrar-se na esteira do dólar, que ainda pode subir.

Para o economista, o país ainda não está barato o suficiente para compensar o risco de investir e, mesmo superada a crise atual, o crescimento não volta se não for equacionada a dívida pública.

Em duas horas de entrevista, as palavras "crise", "buraco" e "dívida" foram citadas 4 vezes cada uma, e 12 vezes falou-se de "problemas" —entre os principais, Estado inchado e produtividade baixa.

Foram 12 também as menções a "reformas", única saída sustentável na avaliação de Fraga: "Ou vamos mergulhar no caos profundo. É disso que estamos falando. Não é uma aspirina e um suco de laranja que vai resolver."

O economista, um dos formuladores do programa do candidato tucano Aécio Neves em 2014, foi incisivo sobre a necessidade de mudança política. "Chegou a hora. O PT fez essa lambança toda, imperdoável", afirmou, ao defender "uma nova liderança".

"Pessoalmente, preferia que fosse o PSDB, mas pode ser qualquer outra, desde que seja moderna."

Sem pronunciar nem uma vez o nome da presidente Dilma Rousseff —substituído por "ela", "a chefe dele [Levy]" e "para quem ele trabalha"—, Fraga diz que, apesar da atual crise política, existe uma janela para reformas mais amplas.

"Pode-se chegar a um ponto em que o medo domine e, se houver um mínimo de dignidade política e diagnóstico, pode ser que comece o processo."

Um "bom sinal", para ele, foi a apresentação pelo PMDB do documento "Ponte para o Futuro" (lançado em 29/10). O PMDB, aliás, foi citado pelo economista mais vezes que os tucanos: 3 X 2.

"Temos que mostrar que uma alternativa mais transparente e mais liberal, com um Estado melhor, é muito mais progressista que o que tivemos aqui. O modelo atual é um modelo saturado, um Estado que no fundo não atende aos mais pobres. Eles foram beneficiados, sim, com melhorias importantes, mas há um dinheiro enorme indo para outros lugares e sendo desperdiçado. Essa é uma boa briga política."

À mesa de almoço improvisada numa sala de reuniões da Gávea Investimentos, empresa que ele e seus sócios acabam de recomprar do JP Morgan, Fraga afirma que ainda não se "desintoxicou" da "nojeira" da campanha eleitoral e prefere não pensar na possibilidade de voltar à vida pública.

Usando várias vezes o termo "cardápio" para suas propostas de reforma (leia quais são ao final deste texto), ele elogia a comida preparada pela cozinheira de sua casa, que chega em malas térmicas: salada de alface com abacate, arroz integral, feijão, farofa com cebola, frango grelhado e batata doce corada. "Tudo orgânico."

Folha - Já batemos no fundo do poço?

Armínio Fraga - Não acredito, não. Infelizmente, até para estabilizar vai ser preciso trabalhar bastante. Não vou dizer que seja um poço sem fundo, mas não se corrigirá sozinho.

Existe solução econômica que não passe pelo fim da crise política?

Não.

E o fim da crise política virá como?

Precisa acontecer ao mesmo tempo um entendimento de qual é o cardápio, do que é preciso fazer, e um quadro político que permita essa tomada de decisão. Conscientização e execução.

O quadro hoje é caótico. Qual seria a solução? Há muitas possibilidades

A presidente fica? Não fica? É um caminho mais político? O próprio TSE? Difícil prever. Há muita coisa acontecendo com uma dinâmica própria.

É até bom que tenha mesmo.

Mas, em algum momento, é preciso que haja um grupo suficientemente coeso que faça essa aposta. Essa mudança recente de posição do PMDB, com a proposta, foi um passo importante.

O impeachment é uma solução?

Pode ser. Qualquer coisa que aconteça dentro das regras do Estado de Direito vale. O importante é ser feito assim, para que ninguém possa dizer que é golpe. E é assim que está acontecendo.

Se for isso, se os fatos em geral levarem nosso Congresso, democraticamente eleito, a tomar essa decisão, ou nosso TSE tomar uma decisão nessa área, que assim seja. Pode eventualmente contribuir para uma solução.

Mas não é algo em que se possa dizer "eu quero isso". Pode acontecer porque somos um Estado democrático, aberto, e as instituições vão funcionar, e, se for isso, que assim o seja.
Poderia, sim, poderia destravar alguma coisa, com certeza.

A crise política também é agravada pela espada da Lava Jato pairando sobre o Congresso...

Isso preocupa muito. Outro problema é que muitos ainda pensam que as opções são ou fazer o ajuste ou ser feliz. Isso é absolutamente falso.

Tem sido uma crítica recente do PT em relação ao Levy.

Sim, e pegou. Levy desde sempre não fez uma proposta ousada. Fez uma proposta modesta. Mas foi o que se mostrou possível, dado para quem ele trabalha.

Onde Levy deveria ter sido mais ousado?

As metas já eram desde o início muito modestas e muito específicas no tema fiscal. De lá para cá, só piorou.

Não nos esqueçamos de que, falando em fundo do poço, o buraco é muito mais profundo.

Em 2003, quando o PT chegou, a herança era de um saldo primário de 3,2% do PIB. Falam do "grande ajuste": foi de 3,2% para 3,3% do PIB, 0,1 ponto percentual. Como há uma piora vegetativa, podemos falar em ajuste de meio ponto do PIB. Mais ou menos o que está fazendo agora, só que a economia entrou num buraco, houve perda de arrecadação, os números pioraram.

Algum ajuste houve, mas depois de uma deterioração de quatro, cinco pontos do PIB...

Essa foi a herança que ela própria deixou para si mesma, e que Levy foi deixado a administrar sem poder mostrar que tudo o que está acontecendo foi obra da chefe dele.
Deu no que deu.

Faz-se algum aperto, sempre incomoda, mas é totalmente insuficiente e malfeito. Há muito pouco espaço de manobra.

Com juros altos e PIB caindo, a dinâmica da dívida vai ficar pior, não?

Sim, e, com um primário negativo [gastos públicos maiores que as receitas, exceto despesas com juros], as três peças dessa aritmética estão todas apontando na direção errada.

Isso deve levar à perda do grau de investimento por uma outra agência além da S&P. A perda seria muito negativa, ou o mercado financeiro já antecipou?

O mercado deu uma parada, está em compasso de espera. Houve também um certo alento lá fora, o tom mudou. Houve um movimento global de melhora recente que nos beneficiou. Mas não é uma solução. Nosso problema é interno. A situação lá fora ajuda ou atrapalha um pouco, mas não é decisiva.

O sr. propôs, em artigo, retirar todas as amarras do orçamento.

Sim, desvincular tudo, fazer um Orçamento base zero do governo.
Além, claro, de outras reformas, que, caso tivéssemos ido para o governo, acho que consertaria [leia ao final deste texto]. Dessa forma, se faz o ajuste, recupera confiança, muda de mão, muda de ar, e a economia se recupera.

Hoje estamos no pior dos mundos: não há recuperação nem ganho de confiança. Ao contrário, só faz piorar. E o Levy leva a culpa, o que é um certo exagero.

Qual o principal erro de Levy?

Ter ido para o governo.

[Pausa] O segundo erro foi não ter traçado uma linha divisória: "Se não fizer isto não adianta; chama outro, porque não vou ficar aqui enrolando".

O ex-presidente do BC Henrique Meirelles seria alguém que traçaria essa linha? Meirelles em vez de Levy faria diferença agora?

Resolver esta crise requer um entendimento profundo e realista da situação e um quadro político que permita que as reformas passem.

Nesse meio tempo, como pano de fundo, vemos esse pandemônio geral, um número enorme de lideranças tentando se safar, lideranças importantes, a própria presidente da República, o presidente da Câmara.

E mais: a presença do Lula, uma força gravitacional que afeta o comportamento de todo mundo. Não sei como esta equação se resolve. No curto prazo, nos próximos seis meses, parece muito difícil.
Mas não creio que as ideias de Meirelles seriam muito diferentes das ideias de Levy. Dez anos atrás já se falava que o gasto público não poderia continuar crescendo daquele jeito. E continuou, por mais dez anos.

Agora, estamos em um ponto em que a dinâmica da dívida passou a ser altamente relevante e muito preocupante.

A possibilidade de o Lula voltar é um problema?

Qual Lula que vai voltar, né? Depois de tudo o que aconteceu, tudo o que está exposto Ele decepcionou muito, em muitas dimensões. É muito hábil, se defende, mas é tanta coisa que aconteceu...

Se dependesse de mim, preferia que fosse alguém do PSDB, ou de algum outro partido, alguma liderança que surja. É melhor. Chegou a hora. O PT teve a sua chance, fez essa lambança toda, mais até política e ética do que econômica.

A econômica é uma pena, mas o resto é imperdoável.

Seria bom uma mudança.

Uma área em que a oposição perdeu o debate até agora é mostrar que uma proposta alternativa mais transparente e mais liberal, com um Estado melhor, é muito mais progressista que o que tivemos aqui. Esse debate até agora foi perdido, mas a chance agora existe.

Tem coisa melhor aqui. Bem melhor.

O modelo atual é um modelo saturado, um Estado que no fundo não atende aos mais pobres. Eles foram beneficiados, sim, com melhorias importantes, mas há um dinheiro enorme indo para outros lugares e sendo desperdiçado. Essa é uma boa briga política.

Desse ponto de vista, a crise chega a ser favorável para a oposição, então?

Infelizmente, né? Espero que a oposição saiba demonstrar que tem propostas melhores, neste ambiente de populismo e demagogia, como o do ano passado.

O regime populista em geral não perde nas urnas. Ele quebra. Ainda mais com um líder carismático e inteligente como o Lula; é mais difícil ainda.

E ele tinha o que mostrar, justiça seja feita. O Lula 1 foi excelente. Foi em parte uma continuação do que vinha antes, mas isso não é demérito nem mérito. São ideias boas, testadas, que dão certo. É preciso mostrar que uma reforma que tire o Estado da mão de interesses privados e partidários tem um potencial distributivo enorme.

Está otimista ou pessimista?

Estou muito preocupado. Não gosto de falar em pessimista, porque há um viés. Analiticamente, vejo com enorme preocupação o que está acontecendo aqui.
O quadro econômico pode piorar bastante. E isso tem consequências sociais colossais, possivelmente de longa duração. Nada garante que o país não vai ficar cavando esse poço sem fim. Espero que pare antes de uma fase ainda pior que essa, ou mais prolongada.
O quadro está difícil.

Reformas mais amplas, como as que o sr. propôs, não são mais difíceis numa crise como a atual?

Depende. Pode-se chegar a um ponto em que o medo domine e, se houver um mínimo de dignidade política e diagnóstico, pode ser que comece o processo de reforma. O próprio PMDB ter apresentado a proposta que eles apresentaram é um bom sinal.

Mas é o mesmo Congresso que anulou o fator previdenciário

Claro. Estou tentando preservar uma chama de esperança... [pausa] realista.

Não acredito que o Brasil tenha impedimentos estruturais, que não sejam passíveis de superação. Se você não tem uma perna e quer jogar futebol, é um problema estrutural seríssimo. O Brasil não tem nada disso. O que há somos nós, enquanto sociedade, com dificuldade em organizar nossa vida.

É possível voltar a crescer, mas o país acordou com um buraco fiscal enorme, uma dívida enorme e uma economia muito estragada. Isso requer uma resposta muito caprichada.

É preciso fazer o país voltar a se desenvolver, ou vamos mergulhar no caos profundo. É disso que estamos falando. Não é uma aspirina e um suco de laranja que vai resolver.

O caos profundo é o quê?

É isso que está aí. Estragaram a macroeconomia e a microeconomia. Do lado econômico, é isso. Do lado político, estamos vendo agora ao vivo e em cores, todo dia, uma situação horrorosa, uma doença espalhada por toda a parte, que está sendo processada pelo sistema. Esse é um lado bom. Mas precisa ser resolvido. E daí precisa surgir, provavelmente com uma reforma política, uma base política mais sólida para que se tenha um grupo no poder com uma visão de longo prazo para tomar as medidas.
Não adianta tomar pequenas medidas paliativas.

Há um grupo de pessoas que têm trabalhado em melhorias incrementais, para serem ajustadas aos poucos, em vez de grandes reformas. Há economistas trabalhando nisso...

Sim, e líderes empresariais também, mas acho que estão diminuindo em número. Ninguém pode ser contra melhorias, é melhor do que nada, mas hoje isso não resolve.
Não adianta aprovar a CPMF. Vai aprovar uma a cada três meses? Vamos ficar com um sistema tributário horroroso. Qual a vantagem? Não é por aí.

O fato de que a produtividade do Brasil está estagnada há muitos anos não é tão limitante quanto não ter uma perna?

É o meu ponto. Mesmo depois do ciclo -supondo que ele seja superado e que venha só um ciclo/crise-, há muitos problemas. Mesmo que se supere esse momento de incerteza e medo, nada garante que o país vai crescer do jeito que está. Ao contrário. Tudo indica que não vai.

O país precisa, primeiro, mobilizar mais capital e, segundo, ser mais produtivo. Fazer mais com menos. É uma mudança de mentalidade.

Tem que ter mais concorrência, mais integração, melhor alocação do capital, uma evolução ainda mais pronunciada no mundo da educação. As pessoas estão alfabetizadas, mas a realidade não é boa. O garoto tem seis anos de escola, mas não absorve a leitura.

Pelo menos existe esse debate no Brasil.

Aliás, o debate em geral existe. A mudança no PMDB, em particular, sugere que há possibilidade de uma articulação de ideias que superficialmente seriam um grande sacrifício -eu não acho que são; ao contrário, o sacrifício é ficar do jeito que está- e começam a ser viáveis até no meio político, que em geral opera com um horizonte de tempo mais curto.

O sr. parece bem otimista com o PMDB.

Não. É que acho que foi, pode-se dizer, um pequeno passo. Mas foi. Merece registro. Sou pessimista de que isso vá ser posto em prática. Muito pessimista. Mas hoje o quadro é tal que a chance de isso acontecer é maior.

Exigiria uma mudança maior de concepção de Estado, modelo de economia?

Sim, foi um dos pontos do meu artigo. Este é um Estado gordo, corrupto, ineficaz e quebrado. Esse é o núcleo da questão. Mas as propostas do próprio PSDB, antigas, nossa proposta na campanha, talvez não tão detalhada, porque o momento não permitiu, o próprio PMDB sugerem que isso precisa acontecer.

Há um conjunto de medidas que seriam mais emergenciais, para estancar a sangria, afetar a dinâmica da dívida, as expectativas, e o início de reformas que vão desde lá do setor real, microeconômico, até reforma tributária, integração internacional, educação etc.

O Brasil já está barato o suficiente para compensar o risco de investir aqui?

De maneira genérica, não estou convencido. A taxa de juros está muito alta. Se descontar tudo usando os preços de mercado, diria que não.

Mesmo a taxa de câmbio: como o Brasil passou esses últimos cinco anos por uma perda muito importante de preço de exportação, principalmente, quase toda a depreciação do câmbio veio para compensar isso. Não seria impossível, num momento difícil mais para a frente, o câmbio depreciar bem mais.

A relação de trocas [relação entre preços de exportação e preços de importação] nos oito anos do governo Lula, que coincidiu exatamente com a valorização do câmbio, melhorou 45%. É um ganho enorme. Depois disso piorou o preço do petróleo, do minério de ferro, da soja. O câmbio reage muito a isso, a correlação é grande e há causalidade, não é um acaso.

Mas, perto dos problemas internos, não é tão relevante.

A inflação resistente mesmo com longo desaquecimento é sintoma de quê?

É sinal claro de falta de credibilidade na moeda.

Uma vertente dessa falta de credibilidade é a inflação, outra é o câmbio.

Vejo muitos investidores estrangeiros perguntando: o Banco Central vai aumentar os juros? Isso aqui não é uma discussão tradicional, de curva de Phillips [que relaciona desemprego e inflação]. O Brasil é outra coisa, esse arcabouço de análise não se aplica. Claro que é preciso segui-lo, mas não é só isso, pois está no meio de um contexto de risco enorme, enorme, enorme, bem claro.

Há risco de a inflação sair de controle?

Sim. Está alinhado ao câmbio. O câmbio a R$ 4 de 2002 hoje seria muito mais alto.
Espero que não aconteça, mas é possível.

O BC já comunicou que vai subir juros se a inflação não for em direção à meta em 2017.

Não tem muito jeito. O Banco Central tem que fazer o trabalho dele a essa altura do jogo. Mas não é fácil.

Está difícil subir mais os juros no momento? O Brasil está na chamada dominância fiscal [quando a piora nas finanças públicas limita o uso de juros para controlar a inflação]?

Sim, podemos até dizer que "está" em dominância fiscal. Mas o Brasil não "é" em dominância fiscal. Essas coisas podem mudar.

O que é preciso para mudar?

Fazer as reformas profundas, para deixar o Banco Central trabalhar seguro.

O que o BC faz com o câmbio?

Sou totalmente a favor da flutuação.

Mesmo com a inflação um pouco desgarrada?

Sim. Parece que é muito ter de reserva US$ 200 bilhões -US$ 300 bilhões com um pedaço "swapado" [o BC tem feito contratos de "swap", que funcionam como oferta da moeda]-, mas não é tanto assim no mundo de hoje. Tabelamento artificial do câmbio não dá certo, e mudar o regime para basear em meta cambial já deu errado a vida inteira.

Há algumas semanas, com alta dos juros futuros, começou-se a falar em um risco de choque de crédito e quebradeira.

Está acontecendo já. As empresas já estão quebrando. O crédito secou, para alguns mais que para outros.

Mais para as médias?

Para as grandes, também. É geral. Estamos no meio do processo, ainda. Infelizmente, não terminou. Os balanços dos bancos públicos são menos transparentes, mas até essa encrenca ser processada e, espero, resolvida, muita coisa vai aparecer.

A taxa de desemprego está alta, mas as demissões ainda não aceleraram.

A tendência é piorar. É consenso no mercado que o ano que vem é de nova recessão. Não é um cálculo de engenharia, mas já se fala até em -3% outra vez. Há uma paralisia no investimento bastante grave. Já de algum tempo minha preocupação é que, do jeito que o país está, mesmo depois que esse ciclo se superar... e esse ciclo ainda tem uma dimensão de crise não trivial, em que não fazer nada não é empurrar com a barriga, empurrar com a barriga já exigiria muita coisa.

Se não houver uma mudança bastante radical em como essa economia funciona, não vai ter muito crescimento mesmo após o ciclo.

O quadro é desolador.

O Brasil tem problemas sérios do lado macroeconômico e também setoriais, microeconômicos.
Sem uma solução definitiva do lado macro, as taxas de juro continuam altas, a incerteza, a inflação voltou a ser um problema.

Do lado micro, há o exemplo do setor elétrico, que virou um caos. Não fosse a recessão, provavelmente estaríamos em racionamento.

No setor de petróleo, eles quebraram a Petrobras.

Nosso sistema tributário é outro problemaço.

E o Brasil está desconectado do mundo. Há uma depreciação do câmbio grande, mas, para um país desconectado, o impacto é muito menor. As empresas não se animam; o esforço que elas têm que fazer é muito grande.

Do que não falamos?

De um tema muito complicado, que é cenários. Não quero ficar imaginando cenários de crise e o que fazer a respeito, mas todos têm uma característica em comum: são todos muito difíceis, muito desagradáveis, e todos incluem um buraco fiscal e a perspectiva de que ele cresça junto com a dívida.

Sem mexer na trajetória da dívida, não tem jeito, mas seria também preciso mexer no resto, para que o crescimento volte. Todos os cenários de crise sugerem que algumas dessas peças não foram reposicionadas, o fiscal principalmente. Sem um saldo primário de 3% a 4% do PIB e uma redução do gasto como proporção do PIB, nada resolve. E, sem as reformas, o caminho é muita incerteza, menos investimento, gente indo para fora.

E por outro lado o sr. está recomprando seu negócio [a gestora de recursos Gávea Investimentos, da qual parte havia sido vendida à gestora do J.P. Morgan].

Sim, estou redobrando a aposta. Mas tenho medo. Não sou pessimista, sou até otimista nas minhas decisões, mas nem sempre as coisas tendem a dar certo.

E também seu ramo de negócios não tem barreira geográfica.

Sim, mas a parte importante do nosso negócio é investir no Brasil. Das duas áreas que vamos ficar, a maior é a de participações, em empresas do Brasil. Nossa carteira vai bem, mas é sempre melhor estar em um país que cresce do que em um que cai 3%. Agora, se não resolver o fiscal, o jeito é insistir no modelo que está aí. Porque o resto é uma aventura heterodoxa com um histórico longo no Brasil absolutamente unânime de fracasso. Não há espaço para nada muito diferente.

O programa de leilões de concessão é opção para criar um círculo virtuoso?

A ideia é boa e em tese tem chances de sair.

Mesmo sem o BNDES?

Alguma coisa o BNDES terá que dar. Se as regras forem bem desenhadas, o capital vem. Muita coisa é viável. Algumas não são tão viáveis mas valem a pena assim mesmo porque gera um ganho adicional que a empresa poderia capturar, como em casos de desenvolvimento regional, por exemplo.

Neste caso, estamos com o tanque vazio no momento, mas dá para fazer muita coisa. Parte do atraso no investimento em infraestrutura, que já chega a dez anos, tem problemas operacionais e parte é ideologia. A ideologia parece estar sendo superada pela adversidade.

Parece? Não está convencido?

Não, em muitos casos não. Mas falta também ainda a capacidade de execução. Isso demora. O Brasil perdeu muito tempo numa área que deveria ser a locomotiva, pela necessidade. E faz sentido licitar, para que o Estado possa se preocupar com outras coisas. Onde for o caso, regula. É bom que seja assim.

Os investidores estrangeiros já estão menos inseguros?

Nosso histórico com regras é razoavelmente bom. Houve um ou outro caso mais ou menos complicado, como o do setor elétrico, mas a regra tem sido que o contratado vale.

E o controle de preços?

Isso afeta também. O caso mais grave foi o do setor elétrico e combustíveis, que resvalou no setor de etanol. Está muito longe de ser o paraíso, mas ainda tem muito espaço para as concessões no Brasil e seria uma locomotiva extraordinária, porque tem muita necessidade, o que eleva a chance de acontecer.

O sr. defendeu também rediscutir a Constituição para transformar o Brasil numa economia de mercado, em que qualquer intervenção do Estado tivesse que ser justificada, com meta a ser cobrada.

Isso sinalizaria uma mudança de mentalidade, onde se adquire uma postura mais rigorosa em relação ao Estado, mas um pouco mais cética, também. Não sou um liberal radical, mas é saudável ser cético com o funcionamento do Estado. Como aliás, é saudável ser cético em empresas também.

Já que o Estado recolhe tanto, cobra tanto Não tenho uma meta específica de tamanho para o Estado, mas pelo menos é preciso pensar no assunto. Há países com Estado maior ou menor, mas os que dão certo têm um Estado bom, com igualdade perante a lei, preocupação em entregar o que se propõe.
No nosso caso teria que ter uma preocupação distributiva, pois continuamos muito desigual. Mas feita com espírito mais de buscar igualdade de oportunidades. É nisso que acredito. E exige ter mais concorrência, mais integração, um certo grau de simplicidade nas coisas, no sistema tributário, por exemplo.

Parece uma mudança tão grande quanto a reforma da natureza de Monteiro Lobato.

É um pouco, sim, mas pode estar ficando maduro. Seria um sinal.

É possível num país muito desigual como o Brasil implantar uma competição de economia de mercado? Há igualdade de oportunidades para isso?

Não, claro que não. Nem perto. Esse é o problema.

Eu próprio não creio em uma ideia de Estado mínimo. Não me passou pela cabeça.

Mas hoje o Estado está crescendo sem parar, sem pensar no resultado. Sem reflexão, e com péssimos resultados.

Não defendo nada de muito radical. Vários de nós aqui temos falado há muito tempo da importância de aprender o funcionamento do Estado, avaliando, repensando, experimentando. Hoje se vê muito isso em algumas áreas.

Na educação, por exemplo, há discrepâncias muito grandes entre os resultados que as melhores prefeituras conseguem versus o que um número muito grande ainda consegue. Vamos olhar o que se faz lá em Sobral [CE], o que a [ex-secretária municipal da Educação] Claudia Costin fez aqui no Rio.

A Folha publicou no dia 12 um caderno sobre ilhas de excelência em educação no Brasil.

Acho isso fantástico, porque mostra que é possível. O Rio teve bastante sucesso nessa área, tanto na educação básica quanto no ensino médio, com o [secretário estadual da Educação, Wilson] Risolia e a equipe dele. Vem gente do país inteiro ver. Como eles foram a outros Estados ver o que se faz, a outros municípios. É bom estudar tanto casos de sucesso quanto os mais problemáticos. A gente aprende muito também com a análise dos casos de fracasso.

Não defendo uma obsessão com métricas, resultados, feita de maneira superficial. Pode e deve ser bem profundo. Mas é preciso ter disciplina, transparência, analisar como rotina. Se toda política pública, antes de ser posta em prática, já nascer pensando que terá que passar por avaliação, ajuda muito. No Brasil isso é muito pouco feito. Como agora, com o BNDES abrindo informações, isso é bom. Mais que bom, é imprescindível.

Há um consenso de que os governos do PT promoveram redução da pobreza e queda da desigualdade. Esse ganho pode se perder com a crise?

Acho que é preciso deixar esse experimento chegar ao fim para termos uma conclusão final. Espero que chegue, o mais rápido possível.

A parte de combate à pobreza, principalmente a extrema, foi muito bem-sucedida. Começou com Fernando Henrique, teve uma grande impulso do Plano Real e depois o presidente Lula turbinou esses programas com muito sucesso. A nova classe média teve ganho de renda também, mas não se sabe até que ponto foi sustentável.

Uma parte veio muito além do ganho de produtividade, o que impõe um limite.

E há trabalhos que mostram que uma parte importante das melhorias na pobreza e distribuição veio do próprio crescimento, que parou. Agora está caindo, mas já vinha muito pior que a região: nos quatro primeiros anos da presidente Dilma o Brasil cresceu 2%, a metade da América Latina.

Uma parte desse crescimento de consumo veio pelo crédito, o que é ótimo. Várias gerações de governo trabalharam para isso. Mas ancorar o crescimento do consumo no crédito tem limite, ainda mais com um crédito tão caro quanto o nosso.

As famílias ficaram saturadas, têm que pagar ao menos os juros, que são muito altos, o que é outro problema.

Em geral, a ênfase em distribuição, antipobreza, do PT veio para ficar. Já existia com o Fernando Henrique, que redirecionou o Estado e fez o que precisava no lado macro. Deu certo até um certo ponto. Mas agora estamos numa ressaca monumental. Vai ser preciso organizar a casa para voltar a essa trajetória.

O modelo de transferência é o mais eficiente para reduzir a desigualdade?

O modelo é bom para a pobreza, mas é preciso ter mais ênfase em igualdade de oportunidade e produtividade.

Igualdade de oportunidade inclui sistemas de cotas?

De forma limitada, sim. Mas há soluções melhores a longo prazo. As cotas são mais emergenciais. O ideal é ter educação pública decente para a maioria, saúde pública, vida urbana mais civilizada, com transporte público decente, praias e lagoas limpas. A cota é classicamente emergencial.

O sr. falou em melhoria na economia internacional. Está se referindo aos EUA?

Estava falando de uma melhoria no mercado.

Na economia, os EUA estão bem. A Europa, com o petróleo baixo e o câmbio mais fraco, também está melhorando, mas é uma sociedade mais madura, com outra demografia, outros objetivos. A Europa é um bem de luxo, se comporta de outra forma. Alemanha vai muito bem, mas Itália e Espanha, embora estejam se recuperando, estão longe de ter chegado ao ponto de antes da crise.

A China desacelerou e é um fator importante. E tem, claro, essa saída da política de juro zero nos Estados Unidos, próxima.

Espera para o mês que vem?

É o cenário mais provável.

O pêndulo no mundo já começou a voltar para uma visão mais liberal da economia?

Acho que não, ainda. A China está passando por um processo que tem uma dimensão de mercado. O desenvolvimento deles foi voltado para fora, mas há partes muito grandes da China ainda no modelo antigo, com estatais, bancos públicos e governos locais, um tripé cheio de problemas. Estão pagando o preço por isso agora.

O que acho que aconteceu, não é de hoje, foi uma mudança na direção de um mundo não tão róseo como o de [Francis] Fukuyama, de "Fim da História", em que o mundo teria chegado à conclusão de que a democracia, a sociedade e o mercado eram o único caminho.

Isso mudou. Houve a ascensão da China, com um regime autoritário e outros lugares, como a Turquia e a Rússia, dando sinais. São países grandes. Se pegamos os Brics, só falta Brasil e Índia. E aqui houve uma guinada dirigista claríssima, com certo esforço na área política também. O governo fez algumas tentativas de controlar a imprensa, e o modelo mais recente, a partir do mensalão, de corromper a democracia.

Isso é antidemocrático.

A partir da crise de 2008, que foi mais dos países desenvolvidos, tem havido mais protecionismo. A abertura comercial parou um pouco. Acho que a China vai acabar voltando ao mercado, mas não sei como será na política. Lá dentro, há muito debate. As pessoas não podem se organizar, mas nas universidades há muito mais debate do que se imagina.

O sr. já se desintoxicou da campanha?

Não [risos]. Sou muito de bem com a vida, e não me arrependo de ter me dedicado boa parte do ano passado para ajudar o Aécio, mas não é da minha natureza estar permanentemente engajado nisso. Eu e meus sócios acabamos de recomprar nosso negócio. Ainda não foi concluído mas está em fase avançada. Tenho uma pequena vida acadêmica, estou trabalhando em dois ou três temas.

Está pesquisando que temas?

Taxa de juros. Um trabalho bem completo, histórico, do Brasil, com o professor Tiago Berriel, da PUC-RJ. É um tema enorme, e há pouco escrito sobre isso. Estamos fazendo um trabalho comparativo com outros países e olhando nossa história. Mas tem mais um ano pela frente ainda.

O sr. já esteve duas vezes no governo, voltou nas eleições passadas. Gosta da vida pública?

Se me perguntarem 'Você gosta de ficar indo para Brasília toda semana, indo e voltando', a resposta é não. Saio da minha zona de conforto. Mas alguma coisa aconteceu na minha vida que me meti nisso, e acho que é algo de que poucos têm a chance. Ter a chance de poder pôr em prática boas políticas e tentar fazer o país se desenvolver com D maiúsculo é gratificante. Considero que fui três vezes, porque passei o ano passado não só em campanha, mas preparando o governo.

Mas o ônus foi na campanha, não?

Tem o ônus de tempo, também. Eram 16 horas por dia.

Não foi o tempo que o intoxicou, certo?

Não, foi a nojeira da campanha, a mentirada geral, isso, sim. Que agora está exposta. Mas é muito frustrante, um horror.

Mas voltaria, num governo em que acreditasse?

Prefiro não pensar. Nessas coisas, para valer a pena, ao menos para mim, é preciso que os astros se alinhem um pouco, que haja condições de trabalho. E há muita gente qualificada no Brasil.

Nem se lhe derem a chance de implantar o seu cardápio?

Não sei. Não estou pensando nisso agora, não.

O cardápio de Armínio Fraga
Principais problemas apontados
• Estado incompetente e endividado
• Sistema tributário complexo
• Aparato regulatório desprestigiado
• Elevado grau de dirigismo
• Claro desprezo pela eficiência em geral, e pelo mercado em particular
• Isolamento do mundo
• Má alocação do capital
• Políticas setoriais mal desenhadas

Medidas emergenciais sugeridas
• Metas de saldo primário de 1%, 2% e 3% do PIB para os próximos três anos, baseadas em premissas realistas e receitas recorrentes (as metas atuais não estão sendo cumpridas e, de qualquer forma, são insuficientes).
• Aprovação da idade mínima de 65 anos para a aposentadoria de homens e mulheres (para gerações futuras) e reaprovação do fator previdenciário.
• Desvinculação do piso da Previdência do salário mínimo (essa vinculação é cara e regressiva).
• Introdução de um limite para a dívida bruta do governo federal como proporção do PIB.
• Reforma do PIS/Cofins e ICMS já proposta, acrescida da unificação e simplificação das regras do ICMS (por muitas razões, inclusive a integração interna do país).
• Mudança das regras trabalhistas também na mesa (onde o negociado se sobrepõe à lei).
• Aumento da integração do Brasil ao mundo (um primeiro passo seria transformar o Mercosul em zona de livre comércio).

Medidas mais fundamentais relativas ao Estado:
• Discussão sobre o tamanho e as prioridades do Estado (requer limite ao crescimento do gasto, o que, por sua vez, demanda as reformas abaixo).
• Fim de todas as vinculações e adoção de um orçamento base zero (sem prejuízo de espaços plurianuais, nunca permanentes).
• Meritocracia e a boa gestão no setor público.
• Revisão da cobertura da estabilidade do emprego no setor público.
• Revisão do capítulo econômico da Constituição (adotar a economia de mercado. Qualquer interferência do Estado deverá ser justificada e seus resultados, posteriormente avaliados).

Hier - Música francesa

Vinicius de Moraes: Receita de Mulher

As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental. É preciso
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
Qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então
Que a mulher se socialize elegantemente em azul, como na República Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível. É preciso
Que tudo isso seja belo. É preciso que súbito
Tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflita e desabroche
No olhar dos homens. É preciso, é absolutamente preciso
Que seja tudo belo e inesperado. É preciso que umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Éluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como o âmbar de uma tarde. Ah, deixai-me dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos, então
Nem se fala, que olhem com certa maldade inocente. Uma boca
Fresca (nunca úmida!) é também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar as pernas, e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é porém o problema das saboneteiras: uma mulher sem saboneteiras
É como um rio sem pontes. Indispensável
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A mulher se alteia em cálice, e que seus seios
Sejam uma expressão greco-romana, mais que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas.
Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal!
Os membros que terminem como hastes, mas bem haja um certo volume de coxas
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem
No entanto sensível à carícia em sentido contrário.
É aconselhável na axila uma doce relva com aroma próprio
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!)
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos
Discretos. A pele deve ser fresca nas mãos, nos braços, no dorso e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior
A 37º centígrados, podendo eventualmente provocar queimaduras
Do primeiro grau. Os olhos, que sejam de preferência grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da terra; e
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro de paixão
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta
Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que se fechar os olhos
Ao abri-los ela não mais estará presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ela não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.