- Valor Econômico
É ridículo chamar velhice de melhor idade ou favela de comunidade
Bora alinhar nossas posições, porque as turbulências deste mundo disruptivo nos obrigam a forjar narrativas pedestres. Precisamos focar em performar cada vez melhor.
Assustou-se com as frases acima? De fato, são esquisitas. Lá estão algumas palavras e expressões da moda, inadequadas ou que denotam um certo despreparo do redator. O bom-senso recomenda que sejam evitadas.
“Narrativa” está na moda. Ninguém mais conta uma história, explica uma situação, rememora um evento ou expõe uma opinião. Faz sempre uma narrativa, termo que tem um sentido um pouco mais pomposo do que o empregado pelo povo da moda. É algo que contempla em geral introdução, desenvolvimento e conclusão.
Há alguns clichês muito usados na mídia tradicional e nas redes sociais. “Mais cedo”, por exemplo, está o tempo todo na imprensa. Em vez de dizer a hora, uma informação precisa, o repórter diz apenas que “mais cedo” aconteceu um acidente etc, etc. E depois completa: “No fim do dia”, os envolvidos deixaram o hospital etc., etc.
Vale comemorar se o repórter usar “fim do dia”, porque na maioria das vezes ele vai dizer ou escrever “final do dia”, trocando o substantivo pelo adjetivo, algo que dói no ouvido. Basta ligar o rádio numa sexta-feira para ouvir sem parar a expressão “final de semana” no lugar de “fim de semana”. Dicionários até admitem “final” como substantivo, mas a palavra é primordialmente um adjetivo. Se o fim de semana fosse final de semana, o início dela seria inicial.
Mas vamos em frente. “Bora” é uma peste que se espalha nas redes sociais, no lugar de “vamos” ou “vamos em frente”. Sim, trata-se de uma simplificação e as línguas precisam aceitá-las, porque isso é sinal de que estão vivas. Ninguém muda nada no latim, por exemplo, porque é uma língua morta. Mas, convenhamos, não dá para aguentar “bora” sendo repetido a todo o instante.
O “alinhar” pretende ser chique. Em qualquer reunião corporativa, alguém solta esse verbo, que virou quase intransitivo e significa que todos devem pensar e falar a mesma coisa, ter o mesmo discurso, ou “narrativa”.
Muitas manias vêm do inglês. “Disruptivo”, por exemplo, vem de “disruptive”, embora a palavra tenha origem no latim. Tem sinônimos como destruidor, mas não aceitos pelo modismo. E não pode ser aplicado em qualquer situação. Disruptivo é um produto ou serviço que cria um novo mercado e mata ou desestabiliza os concorrentes que dominam o setor.
Outra que veio do inglês é “performar”. Ela não está nos dicionários, mas é dita com frequência também em reuniões corporativas. Neologismos são bem-vindos, mas quando não há substitutos no português, o que não é o caso de performar, anglicismo cafona que, nestes tempos autoritários, poderia ser vetado por decreto. Entre outros substitutos, há funcionar, executar, desempenhar.
Há muito tempo observa-se um cacoete entre economistas e gente do mercado financeiro. É o “de novo”, usado para repetir um argumento. O vício vem do “again”, muito utilizado por acadêmicos americanos. Nada contra, mas o excesso de “de novo” indica que o discurso é redundante.
No ramo dos cacoetes, “então” é imbatível. Ao responder uma pergunta a pessoa começa assim: “Então..., eu acho...”. Fica evidente que esse “caco” foi colocado pelo entrevistado para ganhar alguns segundos para pensar.