quinta-feira, 23 de maio de 2024

Alex Ribeiro - Haddad assusta mercado no monetário, mas acerta no fiscal

Valor Econômico

Afirmações sobre "fantasminha" e "coro velado" ampliaram pressão nos juros e dólar

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, assustou os mercado financeiro com a afirmação de que “tem um fantasminha” e um “coro velado” dizendo que a inflação está muito alta, contribuindo para a pressão nos juros negociados em mercado e para a alta na cotação do dólar.

Mas, ao longo de horas de depoimento na Câmara dos Deputados, ele fez um dos seus melhores diagnósticos sobre como — na sua linguagem — “harmonizar” a política monetária e fiscal. São necessárias reformas nas instituições fiscais, como a vinculação constitucional de receitas, para aumentar a potência da política monetária e levar a inflação para a meta, definida em 3%.

Vinicius Torres Freire - Haddad e seus fantasmas

Folha de S. Paulo

Ministro critica espíritos que falam mal da economia, mas assombrações têm poder

Fernando Haddad disse ter a impressão de que há um "fantasminha fazendo a cabeça das pessoas e prejudicando o nosso plano de desenvolvimento". O ministro da Fazenda falava sobre política econômica na Câmara dos Deputados, nesta quarta-feira (22).

Haddad listou melhorias econômicas e acertos das previsões oficiais quanto a inflação, emprego, PIB e dívida pública, dados que negam a desinformação fantasmagórica da qual se queixava.

Sob certo aspecto, tinha razão —no caso, é irrelevante. Para piorar, conjurou maus espíritos ao dizer que a meta de inflação é "exagerada".Assim, embarcou no trem dos fantasmas que criticava, colocou lenha na caldeira da locomotiva e chegou a ser tido como um dos culpados por mais um dia ruim na praça financeira.

Alvaro Gribel - Os erros de cada um na economia

O Estado de S. Paulo

De governo a mercado, todos têm de evitar a repetição de velhos erros do passado

O Ministério da Fazenda não apresenta uma agenda de cortes de gastos e derruba iniciativas em estudo no Ministério do Planejamento. O Planejamento, depois de um ano e meio de governo, ainda não conseguiu colocar de pé um programa sólido de avaliação e revisão de despesas. Na Presidência, o que se escuta é o que há de pior em análises econômicas, encabeçadas pela Casa Civil e com apoio do PT e do Ministério de Minas e Energia. Sob Lula, a Petrobras sofre da mesma instabilidade que sob Bolsonaro, enquanto no Congresso “jabutis” de todas as espécies são aprovados com subsídios que distorcem o sistema e encarecem a conta de luz.

Celso Ming - Deterioração das expectativas

O Estado de S. Paulo

Pior do que o negacionismo, que é rejeitar a existência de problemas reais, é a crença ingênua e falsa sobre as condições da economia. Pois isso acontece no governo Lula sobre a questão da qualidade das contas públicas.

Não é que o presidente Lula apenas negue a existência de um preocupante desequilíbrio fiscal no Brasil. Ele entende que a austeridade na condução das finanças públicas não é importante, é coisa do neoliberalismo, do Fundo Monetário Internacional, do mercado financeiro, da elite que ocupa os edifícios da Avenida Faria Lima, onde se concentra grande parte das sedes dos bancos. E entende que aqueles que defendem a responsabilidade fiscal trabalham contra o governo, ou seja, são adversários políticos.

Felipe Salto - Um decálogo para a reforma orçamentária

O Estado de S. Paulo

Gastar é bom. Economizar é ruim. Essa ideia geral não sai da cabeça dos donos do poder e mesmo do imaginário social. É urgente reformar o Orçamento público

O País não consegue superar a desorganização das contas públicas desde a época da contabilidade criativa, iniciada há 15 anos. A literatura de orçamento fala no chamado viés deficitário dos governos. Por aqui, temos algo um tanto distinto: é um vício deficitário. Gastar é bom. Economizar é ruim. Essa ideia geral não sai da cabeça dos donos do poder e mesmo do imaginário social. É urgente reformar o Orçamento público para mudarmos de rumo.

Não somos incapazes de gerar regras fiscais razoáveis. Nosso vício tem sido descumpri-las. Ficamos presos ao curtíssimo prazo, sem tempo para forjar o futuro, sem pensar sobre o financiamento do desenvolvimento econômico do País e o real papel do Estado.

José Serra - Genéricos: 25 anos de política pública

O Estado de S. Paulo

O brasileiro pagou menos R$ 280 bilhões em medicamentos desde que a política de genéricos virou realidade

O excessivo peso dos medicamentos no orçamento das famílias brasileiras sempre foi registrado pelas pesquisas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e diagnosticado por qualquer pessoa atenta ao tema. A comemoração, no último dia 20 de maio, do Dia do Medicamento Genérico me garante que nossa determinação em enfrentar a questão com políticas estruturantes mudou o rumo das coisas.

Em breves pinceladas, o quadro da assistência farmacêutica e do acesso aos medicamentos era caótico em meados dos anos 1990. As empresas do setor abusavam do uso de seu poder de mercado na marcação de preços dos medicamentos que produziam, logicamente com baixa concorrência, dada a especialização dos produtos por patologias. Os inúmeros casos de falsificação e roubo de carga contribuíam para piorar o ambiente onde a assistência farmacêutica enfrentava dias críticos.

Bruno Boghossian – Estrela brilhante da ultradireita

Folha de S. Paulo

Crise fabricada por presidente argentino na Espanha exibe a proporção de suas ambições

Javier Milei cruzou um oceano para participar de um comício organizado pelo Vox, partido espanhol de ultradireita que se sustenta no ressentimento contra imigrantes e em assombrações da esquerda. Além do argentino, discursaram Viktor Orbán, Marine Le Pen e José Antonio Kast. Donald Trump foi citado como herói.

A viagem foi uma jogada típica de populistas dessa espécie. Milei não teve reuniões com o governo espanhol para discutir os interesses de seu país. O argentino abraçou a ala hidrófoba da oposição, declarou guerra ao socialismo, citou suspeitas de corrupção sobre o premiê Pedro Sánchez e voltou para casa. A Espanha retirou sua embaixadora de Buenos Aires.

Guga Chacra - Qual a alternativa a um Estado?

O Globo

Sem um Estado palestino, ou Israel dá cidadania a todos eles ou mantém o fracassado status quo, que levará à continuação da violência

A posição correta para as nações adotarem em relação ao conflito entre israelenses e palestinos é a reconhecer tanto Israel quanto a Palestina. Reconhecer um, mas não o outro, demonstra a rejeição a milhões de pessoas terem direito ao seu próprio Estado. Portanto Espanha, Noruega e Irlanda acertaram ao reconhecer a Palestina, ainda que tardiamente, seguindo outros mais de 140 países, incluindo o Brasil.

O reconhecimento por outros países de Israel, mas não a Palestina, implica defender a manutenção do status quo, no qual 3 milhões de palestinos na Cisjordânia e outros 2 milhões na Faixa de Gaza não têm um Estado e tampouco o direito à cidadania de Israel, que controla ambos os territórios. Esses palestinos são um dos raros casos de um grupo nacional de apátridas no planeta — vale somar também as centenas de milhares de refugiados palestinos no Líbano e na Síria, que tampouco têm cidadania dos países onde vivem. É distinto dos curdos, que, por exemplo, podem não ter Estados, mas são cidadãos da Turquia, do Iraque ou do Irã. Catalães e bascos, por sua vez, são cidadãos da Espanha.

Maria Hermínia Tavares - Erguendo as balizas morais

Folha de S. Paulo

Karin Khan pediu prisão de três líderes do Hamas e de Netanyahu

Visitando uma amiga querida, bati o olho em um de seus ímãs de geladeira. Ao lado de um mapa que juntava, numa única mancha vermelha, os territórios de Israel, a Faixa de Gaza e as disputadas áreas da Cisjordânia, uma palavra de ordem: "Palestina livre".

Essa a versão compacta do slogan desafiador "Do rio ao mar, a Palestina será livre" que me impede de simpatizar com as manifestações contra a guerra que sacodem universidades americanas, europeias e, como seria de esperar, a brasileira USP.

Todos quantos se horrorizam, seja com a violência indiscriminada da resposta de Tel-Aviv à abominável incursão do Hamas em outubro passado, seja com a ambiguidade dos protestos que incluem juras de morte a Israel —seja, enfim, com as cenas explícitas de antissemitismo—, devem ter recebido com alívio as notícias vindas do TPI (Tribunal Penal Internacional).

Thiago Amparo - Palestina é, sim, um Estado

Folha de S. Paulo

Se a lei vale algo, Netanyahu e líderes do Hamas deveriam ser presos

Não há dúvidas legais de que a Palestina seja um Estado. Seja pela teoria constitutiva —que prega que o reconhecimento por outros Estados é imprescindível (mais de 140 países a reconhecem)—, seja pela teoria descritiva —que prega que ser um Estado é uma situação de fato (a Palestina possui território, governo e população)—, o Estado palestino existe. Nem Israel tinha território pleno definido quando foi aceito na ONU; à época os EUA disseram que não havia problema algum.

Noruega, Irlanda e Espanha reconhecem Estado palestino, e Israel convoca embaixadores em repreensão

Por O Globo, com agências internacionais 

Oficialização foi anunciada esta quarta-feira pelos chefes de governo dos três países

Em um anúncio coordenado, os governos de EspanhaIrlanda e Noruega anunciaram nesta quarta-feira que vão reconhecer o Estado palestino como um membro soberano da comunidade internacional a partir de 28 de maio. A decisão dividiu opiniões da Europa ao Oriente Médio, com acenos de aprovação e condenações de outros governos nacionais. Em reprimenda, Israel convocou seus embaixadores nos três países para consultas. O Hamas comemorou a decisão e convidou outros países a fazerem o mesmo.

O primeiro-ministro norueguês, Jonas Gahr Store, foi o primeiro a anunciar a decisão em Oslo, onde foram negociados os acordos históricos — e atualmente ignorados — sobre a coexistência pacífica entre israelenses e palestinos e dois Estados independentes. Ao anunciar que o país reconhecerá a Palestina, Store fez um "forte apelo" para que outros países sigam o mesmo caminho.

— Não pode haver paz no Oriente Médio se não houver reconhecimento [da Palestina] — disse o premier norueguês.

Em Dublin, o primeiro-ministro da Irlanda, Simon Harris, fez o anúncio poucos minutos depois, chamando o dia de "histórico e importante". Pouco tempo depois, o chefe de governo da Espanha, Pedro Sánchez, anunciou a decisão ao Parlamento espanhol, em Madri.

Poesia | Fernanda Montenegro -Macbeth, de William Shakespeare

 

Música | Maria Bethânia - Viramundo, de Gilberto Gil e Capinan

 

quarta-feira, 22 de maio de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Combate a armas ilegais está no rumo certo

O Globo

PF desbaratou quadrilha que falsificava registros para fornecer armamento ao crime organizado

A oferta farta de armas a organizações criminosas está associada aos altos índices de violência no Brasil. Pistolas, revólveres, fuzis ou metralhadoras à disposição é tudo o que querem os bandidos. Nos últimos meses, o governo tem demonstrado estar no caminho certo ao combater a venda ilegal de armamento. Nesta terça-feira, uma força-tarefa comandada pela Polícia Federal (PF) prendeu mais de 15 suspeitos de envolvimento com o crime organizado nos estados de Alagoas, Bahia e Pernambuco. Entre os alvos dos mandados de busca e apreensão, diversos policiais militares, lojistas e CACs (categoria formada por colecionadores, atiradores e caçadores).

Em ação que contou com 320 agentes de forças policiais e do Exército, a operação adotou a estratégia mais eficaz para desbaratar organizações criminosas: inteligência financeira. Um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) apontou movimentação de R$ 2,7 milhões na conta de um policial militar. Outro investigado e sua mulher enviaram Pix a um comerciante de armas somando R$ 185 mil. Os rastros desses pagamentos foram cruciais para entender o modus operandi dos suspeitos.

Vera Magalhães - Governos tateiam e esperam a água baixar

O Globo

Divergências falam mais que as concordâncias neste momento em que as decisões começam a ser tomadas no RS

A enormidade da tragédia que se abateu sobre o Rio Grande do Sul está todos os dias nas telas, nas páginas, nas ondas do rádio, mas quando você passa alguns dias em solo gaúcho é possível sentir o cheiro, ver o estrago a olho nu e compreender as muitas camadas de iniciativas que serão necessárias por parte do poder público e que estão longe de estar sequer iniciadas.

É salutar que palavras como reconstrução, união, cooperação e outras rimas estejam na boca das autoridades há mais de 20 dias, quando as chuvas começaram a dizimar o estado, mas as divergências falam mais que as concordâncias neste momento em que as decisões começam a ser tomadas.

A questão fiscal, como sempre, é uma delas. O governador Eduardo Leite (PSDB) negou no Roda Viva que tivesse feito uma contraposição, em entrevista à Folha de S.Paulo, entre a prevenção a calamidades climáticas e “outras agendas” prioritárias, como colocar as contas do estado em dia. Mas acabou reafirmando que seus primeiros anos de mandato foram dedicados a reformas para recuperar a capacidade de investimento do Rio Grande do Sul.

Em seguida, engatilhou uma nova estratégia: passar a tratar o ministro extraordinário para a reconstrução do estado, Paulo Pimenta, como “aliado” ou “embaixador”, dois termos que usou, para defender os interesses rio-grandenses junto ao presidente Lula. Em vez de um concorrente, ou “interventor” branco, Pimenta passaria a ser visto como alguém a quem pressionar em nome do melhor interesse do estado. No caso, a favor da quitação da dívida do Rio Grande do Sul com a União, algo que não passa pela cabeça do Ministério da Fazenda e que poderia levar a um precedente explosivo caso fosse aceito, pois automaticamente passaria a ser pleiteado por outros estados, mesmo que não assolados por intempéries.

Bernardo Mello Franco – As desculpas de Leite

O Globo

Governador se desculpa por falas desastradas, mas insiste em defender mudanças que afrouxaram legislação ambiental

A declaração causou espanto no início da semana passada. Em entrevista à rádio BandNews, o governador Eduardo Leite disse que o alto volume de doações ao Rio Grande do Sul poderia prejudicar as vendas do comércio local.

“O reerguimento desse comércio fica dificultado na medida em que você tem uma série de itens que estão vindo de outros lugares”, afirmou.

A frase repercutiu tão mal que o tucano precisou se retratar. Disse que não quis desprezar os donativos nem esnobar a ajuda ao estado.

“Meu mais sincero pedido de desculpas pela confusão que possa ter causado no entendimento de algumas pessoas”, escusou-se.

Sem tirar o colete laranja da Defesa Civil, que passou a vestir até em solenidades no palácio, Leite argumentou que “ninguém está livre de errar”. Pode ser, mas ele parece estar exagerando no marketing — e abusando da boa vontade alheia.

Bruno Boghossian - Leite e a hora do julgamento

Folha de S. Paulo

Governador comete erros graves ao encarar causas e precedentes da tragédia no RS

Eduardo Leite conhecia o tamanho do desastre gaúcho quando disse que não era hora de "procurar culpados". Naqueles primeiros dias da tragédia, ele tentava deixar em segundo plano um inevitável julgamento da população do estado sobre o desempenho de seus governantes. Semanas depois, o próprio tucano parece ter precipitado esse momento.

O governador vinha concentrando esforços em ações de socorro. Ele se aliou a outras autoridades para organizar uma resposta imediata a uma calamidade com poucos precedentes no país. O ineditismo e o drama talvez tenham dado a Leite a ilusão de uma absolvição sumária.

Luiz Carlos Azedo - Marcha dos Prefeitos é largada pré-eleitoral

Correio Braziliense

Neste ano, por causa dos vetos às desonerações da folha de pagamento com a Previdência dos pequenos municípios, Lula enfrentou uma plateia mais difícil

Não foi à toa que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi recebido na Marcha dos Prefeitos com um misto de vaias e aplausos. O evento ocorre num ano eleitoral, no qual governo e oposição se digladiam em busca de apoios políticos e votos. Prefeitos em dificuldades financeiras e eleitorais gostam de terceirizar seus problemas e transferir responsabilidades. Se as dificuldades de Lula com o Congresso resultam do fato de que o PT somente elegeu 70 deputados, em todo o país, o partido de Lula, nas eleições de 2020, elegeu 183 prefeitos e 258 vice-prefeitos, num universo de 5.567 municípios.

Os cinco partidos que mais elegeram prefeitos foram MDB (772), PP (680), PSD (649), PSDB (512) e DEM, hoje União Brasil (459). Das 95 cidades com mais de 200 mil eleitores no país, o PSDB venceu a eleição em nove delas, seguido de MDB (6), DEM e PSD (5), PP (4) e PL (2). Cidadania, PDT, Podemos, PSB, PSC e Solidariedade elegeram um prefeito cada. Entretanto, com a eleição de Lula, em 2022, para seu terceiro mandato na Presidência, inicia-se um processo de migração de prefeitos de outras legendas para o PT. O partido conta, agora, com 265 prefeituras.

Fernando Exman - Uma fábula sobre a relação Lula-Centrão

Valor Econômico

Autoridades do governo Lula não confiam no Centrão e acreditam que em 2026 as legendas que integram o grupo terão uma candidatura de oposição

A fábula “O homem e a raposa”, de Esopo, poderia ter sido escrita sob a inspiração da relação do governo Lula com o Centrão. Diz que um homem estava possesso com uma raposa. Ele então pegou esse animal que vinha prejudicando-o e, como queria “infligir-lhe um bom castigo”, amarrou à sua cauda uma estopa embebida de óleo e ateou fogo. Depois o homem a soltou em pleno campo, mas a esperteza da raposa a fez correr para a lavoura de seu carrasco.

Ao acompanhar os seus passos, o homem ia se lamentando diante da colheita perdida. A moral da história está no desfecho do pequeno texto, seguindo o padrão do célebre autor grego: “Calma! Não te deixes levar pela desmedida: tua raiva poderá te causar um grande mal”.

Marcelo Godoy - O exemplo alemão e o desafio a Moraes

O Estado de S. Paulo

Defesa de Martins apresenta novas provas de que o ex-assessor não se ausentou do País

O príncipe Heinrich XIII Reuss, a juíza Birgit Malsack-Winkemann, ex-deputada do Alternativa para a Alemanha (AfD), e o tenente-coronel Rüdiger Von Pescatore, ex-comandante do 251.º Batalhão Paraquedista, começaram a ser julgados em Frankfurt. O trio acusado de liderar uma organização de extrema direita que planejava um golpe de Estado na Alemanha acreditava que um estado paralelo controlava Berlim e pensava que a morte da rainha Elizabeth II era um sinal secreto para seu movimento agir. Acabou preso. Um gaiato pode dizer: “Se isso acontece na Alemanha, imagina no Brasil”.

Reuss, Winkemann e Pescatore não tinham a capacidade de mobilizar o exército alemão para a ação. Isso, porém, não tornava o crime impossível, tampouco limitava a conspiração a atos preparatórios. Pode-se pensar em um certo paralelo do caso alemão com o 8 de Janeiro. Aqui como lá, os conspiradores não contavam com apoio da cúpula militar, mas teriam o dolo, a intenção, de tomar as sedes de poder para dar o golpe.

Hélio Schwartsman - Tabus petistas

Folha de S. Paulo

Interdição a discussões como desvincular benefícios previdenciários de salário mínimo dificulta busca por equilíbrio fiscal

Nas últimas semanas, economistas vêm mostrando, em colunas e entrevistas, que existem inconsistências graves no arcabouço fiscal brasileiro. As várias vinculações e indexações ao lado da política de valorização do salário mínimo fazem com que o Orçamento caminhe para tornar-se uma quimera. E isso ocorreria mesmo que o governo conseguisse aumentar "ad libitum" suas receitas.

Pelo sistema vigente, mais arrecadação resulta automaticamente em incremento dos gastos em educação e saúde; ganhos reais para o salário mínimo se transformam em fatias cada vez maiores de despesas obrigatórias. Não importa o que se faça, os gastos carimbados tomarão o espaço de todos os demais, incluindo aqueles que, sem ser obrigatórios, são indispensáveis, como pagar as contas de luz da administração. O crescente apetite de parlamentares por emendas só agrava o problema.

Wilson Gomes – O paradoxo da intolerância

Folha de S. Paulo

Os 'crentes', mesmo se inflexíveis, podem não ser aceitos na democracia?

A tolerância é um princípio fundamental de convivência em sociedades pluralistas, nascido da convicção de que grupos antagônicos só podem viver juntos se aceitarem que suas crenças sobre a verdadeira fé não podem ser a base do contrato social.

Cada grupo pode continuar acreditando que cultua o único Deus, adota a única ideologia autêntica e os melhores valores, mas isso não pode influenciar as leis ou as instituições que organizam a vida em comum.

É impressionante que, nestes dias em que todos parecem ter crenças democráticas profundas, aumente o número de grupos que dizem que nem todos cabem em sua democracia ideal. É comum que ultraconservadores, teocratas e extremistas de direita façam listas de pessoas que deveriam ser expulsas da República ou, no mínimo, despojadas de direitos e respeito. Já faziam isso muito antes de se julgarem os verdadeiros democratas.

Arnaldo Niskier* - Presença da filosofia

Correio Braziliense

É saudável que a filosofia ocupe a mente dos homens, para que haja melhor uso da inteligência. Queremos também melhor compreensão do papel da ciência, das letras e das artes na vida humana

A filosofia é matéria de que não se pode abrir mão no ensino médio. É fundamental para a compreensão do fenômeno da educação. Ela unifica as diversas descobertas da ciência, supera crenças e enfoques empíricos. Todos se questionam, hoje em dia, sobre o conhecimento, o ser, a existência, os valores, com a missão de encontrar respostas ou mostrar o que é possível entender.

A educação trata da natureza do conhecimento e de como este é ensinado e organizado. Sua abrangência é uma concepção da verdade e da liberdade com aquilo que é ensinado. Assim, procuramos fazer uma visão crítica daquilo que é ensinado. O objetivo não poderia ser outro senão o crescimento e a evolução da sociedade.

Vinicius Torres Freire - Dois meses de más notícias

Folha de S. Paulo

Juros nos EUA, contas do governo, ruído no BC e na Petrobras e RS pioram ânimos

Notícias ruins desde meados de março têm comido pelas bordas o otimismo relativo a respeito de um ano que começou bem.

Além da tristeza horrível com as mortes e da apreensão com o futuro das vidas arrasadas, a catástrofe no Rio Grande do Sul turva ainda mais o cenário. Vamos ter pelo menos três meses de trimestre de incerteza ruim, se tivermos alguma sorte e cabeça no lugar.

Durante quase o primeiro trimestre inteiro, as perspectivas para a economia melhoraram. Como ocorre desde 2021 e, em particular, desde 2022, o PIB andava em ritmo melhor do que o estimado.

A receita do governo aumentava bem, consequência da atividade econômica melhor, mas também de mais impostos e dinheiros de petróleo etc. Aliás, até o fim de abril, a arrecadação federal continuou a crescer: mais de 8% maior do que no ano passado, descontada a inflação.

Lu Aiko Otta - Abuhab, o “pai” do “split payment”

Valor Econômico

Ideia surgiu em 2003, em Santa Catarina, e já passou por Palocci, Mantega e Levy

Depois de dedicar toda sua carreira política pela aprovação da reforma tributária, o deputado Luiz Carlos Hauly (PODE-PR) estava fora do Congresso Nacional na atual legislatura. Numa reviravolta do destino, ganhou uma cadeira na Câmara dos Deputados em junho de 2023, quando o procurador Deltan Dallagnol perdeu seu mandato. Assim, pôde participar das votações históricas que mudaram o sistema tributário brasileiro.

As contribuições de Hauly, do já falecido deputado federal Mussa Demes (1939-2008) e do engenheiro Miguel Abuhab no debate da reforma tributária foram reconhecidas pelo secretário extraordinário da Reforma Tributária, Bernard Appy, em audiência na Câmara dos Deputados no início deste mês.

Abuhab é o “pai” do “split payment”, a base tecnológica em que se ancora toda a reforma dos tributos sobre o consumo que o Brasil adotará. É o sistema que vai recolher os tributos automaticamente, além de transformar o complicado sistema de créditos e débitos tributários em algo parecido com uma conta corrente.

Zeina Latif - Presente de grego para o próximo presidente do BC

O Globo

Vários fatores, somados, aumentam as dificuldades futuras do BC. Elas seriam maiores se o corte de juros tivesse sido mais ousado

O trabalho dos bancos centrais de manter a inflação baixa ou na meta é influenciado por sua reputação, ou seja, pela crença de que serão capazes de cumprir sua missão. Ocorre que muitos fatores externos afetam essa construção de credibilidade. No Brasil, a política econômica do governo tem jogado contra.

Um termômetro da credibilidade do Banco Central é o comportamento das expectativas inflacionárias, e elas estão aumentando. As projeções de inflação do mercado estão em 3,74% para 2025 e 3,5% para os anos seguintes.

Independentemente do seu grau de acerto (na verdade, com frequência os analistas subestimam a inflação), há efeitos práticos da desancoragem das expectativas, como a tendência de repasse mais intenso de aumentos de custos ao consumidor, como mostra a pesquisa de Carlos Carvalho e outros economistas.

Roberto DaMatta - O que os desastres ensinam?

O Globo

O cataclismo no Rio Grande do Sul demanda uma reação inesperada porque não é ‘político’. Não tem nem lado de ‘direita’ nem de ‘esquerda’

Desastres ensinam o óbvio infalível dos inesperados que reafirmam nossa ignorância, desmazelo e onipotência. Alertam sobre o que precisamos aprender e chamam a atenção para os limites de nossas certezas. Para o fato de não haver rotina, treinamento, regra, programa ou costume que não tenha a sua contraparte no acidente, no esquecimento, na mentira, na ausência e na surpresa do que está aquém ou além da plausibilidade do aqui e agora, garantidores da concretude do real.

São os imprevistos humanos ou naturais que nos obrigam a parar para pensar. O imprevisto força a desconfiar do previsto. Coage a tomar consciência do exagero ou da intrigante falha que promoveu o inesperado. Do inesperado que desmanchou a cena, o roteiro, o plano, esquema ou rotina, obrigando a realizar o grave e difícil exercício de “ouvir, parar e olhar”, como dizem os avisos americanos nas encruzilhadas ferroviárias.

Tedros Adhanom Ghebreyesus* - Acordo pandêmico

O Globo

Segurança sanitária mundial depende da garantia de que não existem elos fracos na cadeia de defesa 

Durante mais de dois anos, países de todo o mundo vêm trabalhando juntos em prol de um objetivo histórico: garantir que estaremos mais bem preparados para a próxima pandemia, aprendendo as lições da devastação causada pela Covid-19. Numa altura em que conflitos, política e economia provocam destruição, discórdia e divisão, governos de mais de 190 nações colaboram para forjar um novo acordo global, protegendo assim o mundo contra futuras e inevitáveis pandemias.

Essa colaboração começou durante o acontecimento mais devastador das nossas vidas. Oficialmente, a Covid-19 causou mais de 7 milhões de mortes. Mas o número real é provavelmente muito mais elevado. A doença trouxe prejuízos de bilhões de dólares à economia global.

Poesia | Não Desistas, de Mario Benedetti

 

Música | Mariana Aydar e Mestrinho - Filho do Dono

 

terça-feira, 21 de maio de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Adiar eleição abre precedente perigoso

O Globo

Apesar da tragédia no Sul, medida só deveria ser tomada em casos excepcionais, por razões logísticas

Enquanto o Rio Grande do Sul conta mortes e prejuízos das enchentes que afetaram 90% de seus municípios, pode parecer prematuro discutir o adiamento das eleições para prefeito e vereador marcadas para 6 de outubro. Mas o debate é inexorável devido ao tempo exíguo para tomar as decisões. O calendário eleitoral já está aí. Em junho, começa a pré-campanha. No mês seguinte, entre 20 de julho e 5 de agosto, partidos e federações realizarão suas convenções. A propaganda começa em 16 de agosto.

Entre os políticos, não há consenso. “Ainda é um pouco cedo, mas também não vai poder retardar muito a discussão. Junho já é momento pré-eleitoral, e em julho se estabelecem as convenções”, afirmou ao GLOBO o governador gaúcho Eduardo Leite (PSDB). Ele argumenta que a troca de governo nos municípios e o próprio debate eleitoral podem atrapalhar a reconstrução. O prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo (MDB), é mais reticente. Diz que um eventual adiamento precisa ser avaliado com critério, apenas quando tiver passado o auge da catástrofe e for possível avaliar seus impactos. O presidente do PL gaúcho, Giovani Cherini, defende o reagendamento do pleito para o primeiro semestre de 2025, depois que a população voltar para suas casas. Outras lideranças gaúchas são favoráveis ao adiamento argumentando que muitos locais de votação, como escolas, foram destruídos e que não há ambiente para a campanha eleitoral.

Míriam Leitão – Unindo as forças pelo Rio Grande

O Globo

Exército fazia um exercício de prontidão em Santa Maria quando a chuva caiu como uma parede. A missão real começou imediatamente

No dia 30 de abril, o comandante do Exército, Tomás Paiva, estava em Santa Maria (RS), onde serviu no início da carreira. Ele estava lá por acaso. Havia chegado com o ministro José Múcio no dia 29, para acompanhar um exercício militar na Brigada de Santa Maria. Este específico exercício tem o nome de “Apronto Operacional da Força de Prontidão”. Nele, 1.500 militares simularam a preparação para uma missão iminente. Na ida, quando estavam chegando, caiu um raio no avião. Não houve maiores problemas, mas quando isso acontece a aeronave tem que ser enviada para manutenção e substituída. Logo após o exercício militar, a chuva caiu como se fosse uma parede, descreve quem estava lá. Ficou claro que não era uma chuva normal. O avião que pegaria o ministro e o comandante teve dificuldade de pousar na tarde daquele dia. A missão para a qual as tropas haviam se preparado, em simulação, começaria imediatamente.

Felipe Krause* - A esquerda é vítima do próprio sucesso?

O Globo

O PT não conseguiu processar um fato: muitos que se beneficiaram de suas políticas têm valores conservadores

No dia 4 de março, o presidente Lula enviou ao Congresso um ambicioso Projeto de Lei para regulamentar o trabalho por meio de aplicativos de transporte, o PL dos Aplicativos. O texto contém dispositivos sobre salário mínimo, jornada de trabalho, sindicalização e contribuições para a Previdência. Ao anunciar o projeto, o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, afirmou que os motoristas sofrem de “falsa sensação de liberdade”, e que são “escravizados por longas jornadas e baixa remuneração”.

A reação do público-alvo do PL, no entanto, revelou uma realidade mais complexa. Motoristas realizaram protestos em várias cidades, e o projeto enfrenta uma batalha difícil no Congresso. Os manifestantes alegam que as novas medidas são dispensáveis e provavelmente prejudiciais. Embora reconheçam as difíceis condições de trabalho, são céticos quanto à introdução pelo Estado de novas regras que podem, no final das contas, afetar seus ganhos.

Andrea Jubé - Negar a crise do clima pode custar caro

Valor Econômico

Um oceano separa a catástrofe climática que atingiu o Rio Grande do Sul do comício do partido espanhol Vox, com lideranças da ultradireita internacional, como Javier Milei, realizado em Madri nesse domingo (19). A verdade, contudo, é que a distância entre esses dois eventos, um geográfico, outro político, é tão estreita que seria possível cruzar esse oceano com uma pinguela.

Isso porque no mesmo dia em que os principais nomes da extrema direita mundial reuniram-se na Espanha para reforçar, entre outras pautas, o negacionismo climático, os brasileiros - do outro lado do Atlântico - assistiam, estarrecidos, à fúria das águas arrastando carros, móveis, pessoas, animais, sobre cidades inundadas, um cenário de guerra, uma atmosfera de desespero e desalento. Tão longe, e tão perto.

Daniela Chiaretti - A Mata Atlântica, o desastre no Sul e as velhinhas suíças

Valor Econômico

É preciso um olhar integrado para todos os biomas brasileiros, para zerar o desmatamento e priorizar a restauração -ou as crises do clima e da biodiversidade continuarão a se intensificar

Ao menos 70% da população brasileira vive na Mata Atlântica. Metade da comida que se come no Brasil é produzida no bioma. Um quarto do rebanho bovino do país está ali. Um quarto da produção de soja brasileira, também. A Mata Atlântica permite a produção de brócolis, couve, tomate, bananas, além de commodities como café e açúcar. Uma grande parte do PIB do agro está na região. É ali que o país vai alcançar o desmatamento zero primeiro -porque é o bioma que os brasileiros mais destruíram, onde os serviços ecossistêmicos mais fazem falta, onde as tragédias ambientais estão acontecendo com maior intensidade e onde a restauração só trará ganhos.

Rana Foroohar - Nem todas as tarifas nascem iguais

Valor Econômico

A pandemia, a guerra na Ucrânia, a ameaça de conflito em torno de Taiwan, as interrupções no transporte no Mar Vermelho e os vários desastres naturais que provocaram caos nas cadeias de suprimentos não mostraram que é péssima ideia para o mundo manter todos os seus ovos de produção em uma única cesta?

Há diferentes tipos de americanos. E há diferentes tipos de estratégias de tarifas. Essa é a principal mensagem a ser tirada das novas tarifas de importação do presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, sobre várias mercadorias chinesas. Embora alguns as vejam como uma prova de que esta Casa Branca quer uma desglobalização tão rápida quanto a desejada pelo governo Trump, nada poderia estar mais longe da verdade.

Trump usou as tarifas como uma ferramenta de força, em uma estratégia com um uma única frente, a de reduzir o déficit comercial dos EUA com a China. Para Biden, no entanto, elas fazem parte de um plano muito mais amplo. O plano almeja não apenas combater o mercantilismo chinês, as suas repercussões econômicas e políticas no mundo e a incapacidade do sistema comercial existente para resolver isso, mas também expandir a capacidade produtiva em áreas fundamentais, como as de semicondutores e tecnologia limpa.

É uma estratégia comercial que também almeja construir uma verdadeira aliança democrática - entre ambientalistas e sindicatos, tanto em Estados republicanos quanto em democratas e, em última análise, entre aliados no exterior, em torno à transição para energia limpa. Tudo isso é algo que a Europa e outras democracias liberais não apenas deveriam apoiar, mas também imitar.

Pedro Doria - A IA está quase humana

O Globo

O que chama mais a atenção é o GPT 4o, capaz de conversar como se fosse gente

OpenAI e Google lançaram as novas versões de seus modelos de inteligência artificial (IA) na semana passada, e em ambos os casos representam um novo salto. O que chama mais a atenção é o GPT 4o, capaz de conversar como se fosse gente. Pois é: ficou difícil se comunicar com Alexa, Google Assistente e Siri. Ficaram primitivas demais num estalar de dedos. Mas, do ponto de vista técnico, o relevante é que os dois modelos agora são multimodais. Mais uma palavra importante para nosso vocabulário neste mergulho que a humanidade está dando, agora de mãos dadas com IAs.

Hélio Schwartsman - Pessoas imaginadas

Folha de S. Paulo

Pessoas jurídicas se assemelham às naturais em muitos aspectos, mas há situações em que o elemento humano é irredutível

Contra fake news, o governo Lula processa um influenciador de direita por ofensa à honra da União. A pergunta é se o Estado tem honra que possa ser ofendida ou se essa palavrinha que já causou tantas brigas, homicídios (pense nos duelos) e até guerras se aplica apenas a humanos?

Lidamos aqui com o que talvez seja a maior realização da linguagem, que é criar realidades imaginárias compartilhadas por tantas pessoas que se tornam instituições altamente motivadoras. Estamos falando de coisas como religião e dinheiro (a maior parte da moeda em circulação não existe nem como pedaço de papel, apenas como registros contábeis digitais). Estamos também falando de entes públicos, organizações, empresas e tudo aquilo a que chamamos de pessoas jurídicas.