segunda-feira, 8 de setembro de 2008

A prova do salto tríplice


Wilson Figueiredo
DEU NO JORNAL DO BRASIL

Em duas semanas a propaganda eleitoral conseguiu tirar o atraso e mostrar que, nos termos em que está posta, é inaproveitável. Está redondamente enganado quem concorda que a democracia começa realmente no município e melhora daí para cima. Ou geometricamente desatualizado, porque uma boa explicação para os embaraços da democracia, no caso brasileiro, passa antes pelo número exagerado de partidos políticos. Se democracias fossem medidas pelo número de partidos, o Brasil estaria exportando soluções e soja. Chegamos a contar umas trinta legendas, sem atender às necessidades básicas da democracia. A própria justiça eleitoral não deve saber a quantas andamos.

Eleição municipal continua mais para um canteiro de mudas do que para um curso de política. Não custa lembrar a recomendação botânica do velho Octávio Mangabeira, que em 1945 se referia à Constituição como "plantinha tenra". Por enquanto, estamos mais para mandacaru. A distância social e cultural entre o candidato e o eleitor se reduziu, mas na mão contrária. O eleitor é tentado a piorar quando o voto se converte em moeda de troca, seja por amizade ou por pequenos interesses. Os grandes não são para o bico de vereador, que trabalha com o que sobra da mercadoria e, em linguagem de feirantes, se chama de xepa. O candidato pede voto como se pedisse esmola para ser retribuído pelo céu. Isto é, a democracia. O que se subentende como democrático nessa operação de compra e venda acaba explícito demais para a própria democracia fingir que não vê.

A propaganda oficial nos grandes centros urbanos relegou os partidos a peças de museu. Agora se trata de aperfeiçoar a democracia sem eles. É ver para crer, com candidatos que não conseguem salvar as aparências sem comprometer a concordância gramatical. Puxam para baixo o eleitor na esperança de obter-lhe o voto. Não há sofisma que defenda uma campanha eleitoral pela televisão em termos de quermesse de cidade do interior. Pode ser que a República, ou pelo menos o Rio, esteja razoavelmente servida de candidatos a prefeito, mas a carência de idéias e a reincidência de propostas, sem a garantia dos partidos, não melhoram o teor de confiança no voto e nos candidatos a vereador. Pode ser coincidência, mas essa dissociação entre candidatos e partidos esconde alguma coisa. A rigor, o único candidato que destaca o partido é o do PT, mas num monólogo à margem. Molon divide abertamente com o senador Crivella o monopólio de Lula, de um modo que deixa mal os dois, o presidente, a legislação e a aplicação das normas eleitorais. Passam a impressão de promiscuidade. Ninguém se refere a trabalhismo, social democracia, socialismo. Liberalismo, então, nem é bom lembrar. Não há sequer um cantinho para acomodar um centro, ainda que teórico.

Se é votando que se aprende a votar, o eleitor que se arranje como puder com a ressalva democrática sem resultado palpável. O eleitor vota até em candidato com vida pregressa comprometida. No país que aboliu a reprovação escolar para o aluno não repetir o ano letivo, mais cedo o futuro chega ao passado. Garante-se o tempo mínimo para o candidato dizer o nome e o número na televisão, mas não dá para medir o grau de democracia que já alavancamos.

Em eleição municipal deve-se resistir à tentação de querer explicar, com as mesmas razões, a falta de qualidade política daí para cima. São outras. O método de lidar com o eleitor não varia, seja na escolha do representante estadual, seja do federal. Faltam critérios republicanos (no bom sentido) para exercer a preferência na escolha do vereador, desde que os partidos se entregam à intermediação seja lá do que for. Se o eleitor não for capaz de aumentar o nível de exigência de um edil, como se denominava em Roma o vereador, ou de um deputado estadual ou federal, deveria ter suspenso o direito de votar. A democracia não conseguiu equacionar o problema, mas o brasileiro não quer mais a solução, também republicana, de resolver à maneira tradicional o problema oriundo do pecado original. O mandato de deputado federal deveria equivaler ao salto tríplice da representação política numa democracia que se desse ao respeito do eleitor, mas não passa, com honrosas exceções, de vereador de luxo.

O Supremo Tribunal Federal


José Sarney
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


O ministro Gilmar Mendes deve ser apoiado, e não contestado. Se ele não mantiver a autoridade da Justiça, estamos perdidos

NENHUMA instituição é mais importante e mais necessária ao Brasil do que o STF (Supremo Tribunal Federal). As democracias não existiriam sem a Justiça, e é ela que assegura o Estado de Direito, o predomínio da lei. Sem a lei, é a força, é o medo. O mundo chegou à égide da democracia, e foi um longo caminho, assegurado pelo Direito. Daí a expressão de Rui Barbosa: "Fora da lei não há salvação". E a Constituição é a síntese de todos os direitos. Seu núcleo, os direitos individuais, sociais e políticos, é o seu coração.

A soberania popular entregou ao Supremo Tribunal Federal a guarda da Constituição. É essa a mais importante e mais responsável de todas as funções públicas. Dizia Baleeiro que o STF "vela na cúpula do Estado, equilibradora do regime, mantém a ordem jurídica entre direitos individuais e direitos do poder" e conclui que "sua influência estabilizadora está na vida inteira do sistema. Sem ele, ela [a Constituição] não podia subsistir".

No império, havia o Poder Moderador para resolver os conflitos paroxísticos. Na República, os militares se arvoraram em árbitros, recorrendo a incursões "salvacionistas". Na forma americana de democracia moderna, uma sociedade de conflitos, só o Supremo pode ter essa missão estabilizadora. Sem ele, vêm tentações.

A Constituição de 1988, pelos seus defeitos, aumentou os conflitos que só o Supremo pode resolver. Ele interpreta, guarda, defende o espírito da Constituição, o sentido de Federação, de harmonia entre os Poderes.

João Mangabeira dizia que o Supremo nunca poderia falhar ao Brasil.

Os homens que ali estão são os guardiões, apanágios da existência da nação, e não se pode querer desrespeitá-los ou contestá-los. O maior desserviço que se pode prestar ao povo é dizer que o STF tem de ouvir as ruas. Ele deve julgar conforme a Constituição, que é o povo, feita pela sua soberania.

O ministro Gilmar Mendes tem tido coragem, faz o que deve fazer um presidente da corte constitucional.

Deve ser apoiado, respeitado, e não contestado. Se ele não mantiver a autoridade da Justiça, estamos perdidos. A função de juiz é um sacerdócio e, por isso mesmo, impõe sacrifícios.Não pode ter ideologia, nem interesses, nem paixões. Aos juízes são entregues a vida, a liberdade, o patrimônio e a honra dos brasileiros. Por isso, poucos em séculos passam por ali.O presidente do STF representa a corte, símbolo da Justiça, e não deve recuar na tarefa de pôr ordem onde faltar a lei, de buscar o espírito da Constituição e aplicá-lo onde for necessário. O Supremo não está legislando, está cumprindo sua missão constitucional de guardar a Constituição. Ele deve resolver os conflitos que surgem e que nem a sociedade nem os demais Poderes conseguem resolver. É o Poder estabilizador.

Veja-se o exemplo americano. Bush perdeu a penúltima eleição pelo voto popular e foi duvidosa sua vitória no colégio eleitoral. A Suprema Corte vem e diz: o presidente é George Bush. Todos aceitaram, e o perdedor, Al Gore, acatou a decisão, afirmando que mais importante do que ser eleito era a integridade da Suprema Corte.

O mais alto órgão judiciário americano -modelo original do nosso STF-, ao interpretar o espírito da Constituição, evitou a divisão do país, colocando os negros nas escolas e assegurando a liberdade religiosa. Tanto que se diz que o século 20 não será lembrado por suas conquistas científicas, mas como a era do juiz Warren, que comandou esse processo.

Lá, a Suprema Corte e a Constituição são objeto de um culto quase religioso. Nas pesquisas de opinião pública, sua credibilidade é das mais altas; aqui, são os Correios! E, para colocar as feridas expostas, o telefone do presidente do STF é gravado!

É preciso entender a importância do STF. Fiquei estarrecido quando juízes singulares se reuniram para contestá-lo. Meus longos anos assistiram a algumas das incursões para "salvar o Brasil". Criou-se, pelos anos 70, a fórmula de que a solução estava em aliarem-se técnicos, militares e empresários. Daí surgiu a doutrina da Operação Bandeirante (Oban), de trágica memória. O alvo dos salvadores da pátria é sempre a leitura da pureza na vida pública, da desmoralização da política e dos Poderes.

A Constituição não é boa. Fui crítico assíduo em sua elaboração. Uma vez votada, jurei cumpri-la e tive a difícil missão de viabilizá-la. E cumpri meu dever de obedecê-la.Um dos maiores desserviços ao país é desprestigiar o Supremo Tribunal Federal. Minha posição é de solidariedade ao ministro Gilmar Mendes.

Quem melhor falou sobre o que representa o STF foi Rui Barbosa: "Eu instituo este venerando, severo, incorruptível [tribunal], guarda vigilante desta terra, através do sono de todos, e o anuncio aos cidadãos, para que assim seja de hoje pelo futuro adiante".

Nada pior para o povo, para o Poder Executivo, Legislativo, a liberdade de imprensa, juízes, advogados e procuradores do que o Supremo ser alvo de ataques e contestações, o enfraquecimento de sua autoridade. Ele tem, segundo a expressão de Nélson Hungria, sempre repetida pelos ministros, o direito de errar por último. Quem lhe deu esse direito foi o povo que lhe entregou a guarda da Constituição.

JOSÉ SARNEY, 78, é senador pelo PMDB-AP e membro da Academia Brasileira de Letras. Foi presidente da República de 1985 a 1990.

O fato mais grave


Fábio Wanderley Reis
DEU NO VALOR ECONÔMICO


Na terça-feira da semana passada, o noticiário destacava a avaliação feita, em reunião dos ministros do STF, da comprovação de grampos telefônicos envolvendo um membro da corte e um senador como "o fato mais grave das relações institucionais" desde a promulgação da Constituição de 1988. No mesmo dia, circulava a notícia de que o chamado "maníaco de Guarulhos" confessara, com pormenores convincentes, o assassinato de Vanessa Batista de Freitas, e éramos alertados de que três homens de condições socioeconômicas modestas estavam encarcerados pelo mesmo crime há dois anos, sob prisão preventiva que ultrapassava de muito os prazos legais, com denúncia baseada em confissão obtida sob tortura e acolhida pela Justiça, não obstante a alegação dos envolvidos, segundo os jornais, de que teriam informado repetidamente às autoridades judiciais sobre as condições em que teriam sido levados a confessar.

Na quarta-feira, matéria de Lilian Christofoleti na "Folha de S.Paulo", baseada em dados do Departamento Penitenciário Nacional e em levantamentos da CPI do Sistema Carcerário, especialmente do deputado Domingos Dutra, revelava que o país tem 9 mil presos com pena já cumprida e nada menos de 133 mil em prisão preventiva (30% da população carcerária), não raro há anos. Como comenta o deputado: "Não encontramos nenhum colarinho-branco, só ´colarinho-preto´. Muitos jovens, pobres e negros". A matéria de Christofoleti destaca, como é natural, o contraste da situação descrita com a rapidez da ação do STF, há pouco, ao libertar duas vezes, em menos de dois dias, o banqueiro Daniel Dantas.

A ordem que a Justiça deveria combater

Não há como negar a importância do caso dos grampos. É evidentemente inaceitável, seja qual for o responsável, que agentes policiais ou "arapongas" de qualquer tipo possam dedicar-se a espionar comunicações privadas com a desenvoltura que estamos observando, tanto mais se a espionagem alcança até altas autoridades. Mas pretender atribuir aos grampos a gravidade especial apontada pelos ministros do STF exige a visão paranóica sugerida em fórmulas como "relações institucionais" ou "relações entre instituições" que as notícias sobre o assunto tendem a destacar: a sugestão é, naturalmente, a de que se trataria ou de um enfrentamento entre os poderes constitucionais, com os grampos revelando disposições autoritárias do poder executivo, que agiria ilegalmente contra os outros poderes, ou, quando nada, da movimentação de atores capazes, de algum modo, de efetivamente subverter o quadro institucional.

Mas, além do fato simples de que ministros importantes do governo, segundo se informa, são também alvo dos grampos, é difícil imaginar o que o governo poderia ter a ganhar com o patrocínio de ações de espionagem como as que vieram a público. São muitas as circunstâncias a confundirem toda a história: as disputas entre facções da Polícia Federal e suas ramificações sobre a Abin; o caráter de herança de um órgão sinistro da ditadura que marca esta última e que talvez impregne em alguma medida a perspectiva de seus integrantes, especialmente dada a definição pouco clara do que de fato lhe compete; a frouxidão com que a própria Justiça tem autorizado as escutas; a animosidade de membros da PF e de juízes de primeira instância relativamente ao STF que aflorou com decisões recentes dele; o fato de que até o Congresso, como se revelou, dispõe de aparelhos de espionagem... O que vemos, tudo indica, não passa de nova face da desordem que permeia o Estado brasileiro, ou de nossas precariedades institucionais gerais. Menos mal, diante disso, que venha aparentemente prevalecendo o que caberia esperar de sensato, isto é, a mobilização dos atores decisivos dos diferentes poderes para adotar, em colaboração, as necessárias medidas corretivas.

De todo modo, as precariedades institucionais se tornam mais evidentes diante da mera coincidência da manifestação do STF sobre "o fato mais grave" com as notícias que de novo evidenciam dramaticamente o descalabro do sistema penal e penitenciário do país, a envolver pesadamente o Judiciário. Estamos diante de clara corroboração da relevância da observação a que aqui recorri anteriormente, a propósito de estudos relativos à operação da Justiça na América Latina em geral: ela aponta um Judiciário com frequência preocupado e sensível quanto à dimensão "madisoniana" dos "freios e contrapesos" e do equilíbrio entre poderes, por um lado, e, por outro, na verdade distante e largamente insensível quanto à dimensão "hobbesiana" do acesso geral dos cidadãos à garantia dos seus direitos.

Ao cabo, somos remetidos ao sentido e ao alcance a serem atribuídos à própria idéia do aparato institucional em perspectiva política e mesmo juridicamente ambiciosa. Falei acima de desordem. Há, porém, um sentido sociologicamente denso em que o contraste entre os dois anos de prisão preventiva dos inocentes de São Paulo e a presteza da dupla libertação de Daniel Dantas pelo STF é parte da "ordem" - de uma ordem que há muito conforma a realidade brasileira. E que caberia por certo esperar que uma Justiça institucionalmente enraizada de maneira mais apropriada viesse ajudar a mudar.

Fábio Wanderley Reis é cientista político e professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais. Escreve às segundas-feiras

A vida é um palanque


Alberto Dines
DEU NO JORNAL DO COMMERCIO (PE)

O PT trocou a revolução permanente pela eleição permanente, observou há tempos a atilada colunista Dora Kramer do Estado de S. Paulo.

Todos os projetos políticos são projetos de poder, a noção de alternância e troca de guarda são essenciais na democracia. O governo, o PT e a base aliada – juntos ou separados – fazem muito bem em converter a ampulheta eleitoral num inabalável metrônomo que marca o ritmo da ação política.

Pensar no pleito seguinte costuma ser salutar, sugere programas, estratégias, coerência, continuidade. Ruim é manter o governo empoleirado nos palanques e fazer da retórica eleitoral a substância das suas políticas públicas. O caudilhismo será inevitável.

O presidente Lula trouxe dos tempos da militância sindical uma animada entonação mitingueira, palavra que as novas gerações talvez desconheçam, aparentada com meeting, comício e próxima do sentido de veemência, bravata e fereza. Foi recebido com entusiasmo já que a ditadura ainda não fora banida. Algumas décadas e dissabores depois, a fascinação pelos microfones e alto-falantes já o levou a dizer coisas das quais se arrependeu logo em seguida.

Exemplo: a pesada réplica do goleiro Júlio César aos elogios do presidente ao goleador argentino Messi e à crítica sobre a indolência da nossa seleção, poderia ter sido evitada se a sofreguidão de produzir manchetes popularescas em temporadas eleitorais não fosse tão grande. O goleiro pegou pesado mas estava no seu direito ao optar pela altivez. Futebol é terreno perigoso, altamente explosivo, uma caixinha de surpresas como ainda insistem os comentaristas de rádio. Os 180 milhões de torcedores sabem que o governo está bancando as pretensões do cartola Ricardo Teixeira, presidente da CBF que, por sua vez, é o padrinho do técnico Dunga, artífice dos melancólicos placares nas eliminatórias para a Copa.

A vitória de Marta Suplicy na corrida pela prefeitura de São Paulo é crucial para garantir a vitória do candidato (ou candidata) que Lula apoiará em 2010. Por isso mesmo, as intervenções deste formidável cabo eleitoral deveriam ser menos estabanadas.

A festinha do pré-sal com as mãos lambuzadas de petróleo foi montada para dar visibilidade à ministra Dilma Roussef, mas foi encenada. Puro marketing, por enquanto sem qualquer suporte em matéria tecnológica. Compreende-se: o presidente precisa aparecer todos os dias, dizendo e fazendo coisas para transferir votos nas capitais onde o PT precisa ganhar.

Ganhar eleição é a culminação do jogo democrático, mas não a única maneira de promover mudanças. Governar não é abrir estradas, nem presidir eleições, governar é oferecer alternativas, estimular novas idéias é, sobretudo, dar credibilidade ao aparelho do Estado. Encarapitado em carros de som, o governo pode até anunciar obras faraônicas, mas dificilmente estará avançando em matéria institucional. A decisão de privatizar grandes aeroportos do País na véspera do segundo aniversário da primeira catástrofe aérea (ainda não esclarecida), um ano depois da segunda (idem) e do escarcéu provocado pela troca do ministro da Defesa, desvenda o caráter oportunista do anúncio. O governo sequer decidiu o que pretende fazer em matéria de infra-estrutura para a aviação civil, mas já fabrica manchetes por conta da Copa de 2014 quando Lula estará perfeitamente habilitado para disputar um novo mandato.

Mesmo o recente imbróglio produzido na gramposfera tem visíveis marcas eleitoreiras. A gravação clandestina com o respectivo vazamento produziu resultados porque ocorreu num período de tensão pré-eleitoral. A direção da Abin não seria licenciada se a denúncia ocorresse num ano-ímpar, sem pleitos.

Convém lembrar que o dossiê Vedoin foi um petardo eleitoral lançado em setembro de 2006, véspera das presidenciais. O caso jamais foi esclarecido pela Polícia Federal, então dirigida com o mesmo espírito "republicano" que se pretendia levar para a Abin e malogrou.

O clima de eleição tem algo de folia, inevitável. Sobretudo no tocante às promessas. Deveria ter, ao menos, ligeiras porções de compostura.

Em nota, PPS lamenta morte de Pelópidas da Silveira


Homenagem a um político exemplar
DEU NO PORTAL DO PPS

Pernambuco e o Brasil perderam, neste sábado (6), um dos mais sensíveis e corretos homens públicos de sua história mais recente. Com a morte de Pelópidas da Silveira abre-se um hiato de enriquecedora convivência, durante algumas dezenas de anos, com um político exemplar e de qualidades que, hoje como nunca, fazem imensa falta ao país.

Isso porque foi sensível aos problemas de sua terra e de sua gente, um homem de mão estendida para o diálogo e a cooperação, um gestor competente e simples, um cidadão que consciente do seu dever social não se deslumbrou com o poder, uma pessoa honrada e que não permitiu que sua imagem fosse maculada por qualquer de seus auxiliares, nas várias vezes em que foi administrador público, particularmente quando prefeito do Recife, em distintas oportunidades.

Sua ausência é sentida mais ainda pelo fato de, nos dias correntes, enfrentarmos uma difícil batalha política no país, em torno da afirmação de princípios e valores - caros a Pelópidas e a todos nós, e que hoje lamentavelmente são esquecidos ou jogados na lata do lixo, pelos que fazem política, a começar das principais figuras da República - como o respeito aos adversários e à palavra empenhada, a defesa e a prática dos ideais democráticos e republicanos, a salvaguarda dos princípios éticos, a seriedade na convivência com os cidadãos sem procurar enganá-los com recursos de frases e palavras que beiram a mistificação de que são exemplos constantes o sutil controle dos movimentos sociais, o diversionismo protecionista na defesa de dezenas de agentes públicos envolvidos na malversação de recursos públicos, o informar aplicação de recursos financeiros que não se materializam em sua inteireza, o anunciar projetos como se fossem para hoje ou amanhã e que não se sabe quando se realizarão, tudo isso apresentado de forma acintosa e pouco respeitosa com a verdade.

Face a esse momento sombrio e a esse inesperado último adeus ao amigo e companheiro de tantas lutas é que o Partido Popular Socialista torna mais firme e eloqüente esta sua fraterna e sincera homenagem a Pelópidas da Silveira, ao tempo em que transmite seus mais sentidos pêsames à Marilu, sua querida companheira, e a toda sua família enlutada.

Brasília, 6 de setembro de 2008
Roberto Freire
Presidente do Partido Popular Socialista

O que pensa a mídia

Editoriais dos principais jornais do Brasil
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1080&portal=

domingo, 7 de setembro de 2008

Graziela Melo lançou o livro "Crônicas, contos e poemas" quinta-feira (4/9), em Brasília


Aos amigos leitores deste Blog devo uma explicação. A página ficou alguns dias fora ar, por puro nepotismo explicito, meu. É que estava em Brasília para o lançamento do livro de minha mulher.


A Fundação Astrojildo Pereira, a Editorial Abaré e a Leart Editora lançaram, na última quinta-feira (4), o livro "Crônicas, contos e poemas", da poeta Graziela Melo. Pernambucana da Ilha de Itamaracá, viveu exilada no Chile e em Cuba durante a ditadura militar. Atualmente reside no Rio de Janeiro.

O evento foi realizado no Café Literário da Feira do Livro de Brasília, no Pátio Brasil Shopping, a partir das 19h. e teve boa presença de público. Prestigiaram o lançamento amigos do casal, destaques para o presidente do PPS, Roberto Freire, o presidente da Federação Nacional dos Fiscais da Previdência Social, Lupércio Montenegro, o cineasta Wladimir Carvalho, o assessor do Ministro da Saúde, Crescêncio Antunes Neto, as professoras Lucilia Garcez e Akiko Santos. Ademais de outros dirigentes do PPS, como o jornalista Francisco Almeida e a coordenadora das mulheres Tereza Vitali .


E que me perdoem os demais queridos amigos brasilineses que prestigiaram o evento e de cujos nomes não me lembro no momento. Se explica: depois dos 70 a memória já falha.
Finalizo, transcrevendo um dos poemas que constam do livro, dedicado ao nosso filho, falecido no exílio.


Poema para o filho morto

O Filho
Perdido
Na noite
Da eternidade
Estranha
Sem
Que possa
Guardá-lo
No colo


Vive,
No meu
Desconsolo


Como um
Condor
Desgarrado
No alto
De uma
Montanha


Voa!!!
À noite
As estrelas
São
Ternas
Brilhantes
E belas!!!


Voa
Pequeno
Condor!!!


Na infinita
Eternidade
Nas asas
Da minha
Saudade


Nas nuvens
Do meu amor
Nas pedras
Da minha dor!!!

Santiago, ago./1972

Anti-elitismo como arma


Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


NOVA YORK. A entrada em cena da suburbana Sarah Palin fez com que a campanha presidencial dos republicanos reforçasse uma tática que historicamente vem sendo eficaz para o partido, a de carimbar os candidatos democratas de elitistas, colocando-se na posição de defensores dos cidadãos comuns. Mesmo que na prática o programa de cada partido seja a negação dessa tese, com Bush reduzindo os impostos dos mais ricos e Obama querendo taxá-los mais para reduzir os dos pobres e, sobretudo, que McCain seja filho de uma família tradicional de militares e tenha casado com uma milionária e Obama um afro-descendente filho de mãe solteira que lutou contra dificuldades para estudar, o "cosmopolitismo" do candidato democrata é alvo de ataques até mesmo do ex-prefeito de Nova York Rudolph Giuliani, uma das cidades mais cosmopolitas do mundo, se não a mais.

Ao mesmo tempo, o candidato democrata já enfrentou na campanha ataques racistas, como quando foi classificado pelo apresentador John McLaughlin, que comanda um talk-show político muito visto na televisão, como um "Oreo", uma maneira pejorativa de se referir a um negro, que seria preto por fora e branco por dentro, como o biscoito de chocolate recheado de creme popular nos Estados Unidos. No Brasil, seria o mesmo que chamá-lo de "dominó".

Obama é criticado por sua maneira de andar, por seu físico esguio, até mesmo por sua maneira de falar, que traduziria toda a sofisticação de sua formação em Harvard, onde foi o primeiro negro a presidir a revista da Faculdade de Direito.

O professor de História da Universidade de Boston Bruce J. Schulman lembra que, embora essa tática tenha sido aperfeiçoada por Richard Nixon em sua campanha presidencial vitoriosa em 1968, o anti-elitismo sempre foi uma arma política de ambos os partidos, a começar no século XIX, quando Andrew Jackson, que criou a dissidência republicana de onde nasceu o partido democrata, um general próspero dono de escravos, tornou-se um político influente como defensor dos despossuídos, marcando a política americana com o anti-elitismo.

O Brahmin de Boston John Quincy Adams foi derrotado por ele em 1828. Brahmins, a mais alta classe do sistema de castas indiano, é como os estudantes de Yale e Harvard descendentes das famílias wasps (brancos, anglo-saxões e protestantes) são conhecidos. Intelectualmente sofisticados e politicamente progressistas, esses estudantes formam uma verdadeira casta, onde dinheiro não é o mais importante.

O professor de História da Universidade de Boston Bruce J. Schulman destaca que ninguém seria mais vulnerável às acusações de esnobismo do que o democrata Franklin Delano Roosevelt, descendente de aristocratas que foi criado por tutores e freqüentou uma das mais elitistas escolas americanas, a Groton.

Considerado por muitos o maior presidente dos Estados Unidos, assumiu o governo em 1933 com o país arrasado por uma crise econômica que tivera início com a quebra de 1929 e liderou o país durante a Segunda Guerra Mundial.

O único presidente eleito quatro vezes seguidas - morreu no último mandato e provocou a emenda constitucional que impede a reeleição indefinida - Roosevelt denunciava seus companheiros de elite: "Nunca as forças do egoísmo estiveram tão unidas quanto estão agora contra um candidato. Eles são unânimes no seu ódio a mim. Eles odeiam Roosevelt, e eu saúdo o seu ódio".

Mais ou menos o que McCain fez no discurso em St. Paul: "Aos preguiçosos, egoístas, que pensam primeiro em si e não na pátria, aos indolentes, um aviso, a mudança está chegando em Washington".

Quatro dos últimos seis presidentes americanos (George H.W. Bush, George W. Bush, Bill Clinton and Gerald R. Ford) são, como Barack Obama, oriundos de universidades de elite como Yale ou Harvard. Tanto o pai quanto o atual presidente George W. Bush mantiveram uma postura de texanos rudes, apesar da fortuna.

George pai derrotou assim Michael Dukakis, um filho de imigrantes, e George W. Bush derrotou Al Gore e John Kerry, este último um legítimo Brahmin de Yale, a quem Bush atribuía uma atitude arrogante em relação a ele, a mesma que os colegas estudantes tinham na universidade, onde os Brahmins valorizam mais o preparo cultural do que o dinheiro.

Os dois têm raízes na Nova Inglaterra, mas, enquanto Kerry costumava passar férias na casa dos avós, numa cidade do norte da França, Bush nunca havia saído dos Estados Unidos antes de ser presidente.

Também Nixon tinha problemas com a elite intelectual, que julgava que "torcia o nariz" para os valores do cidadão comum americano. Quase a mesma acusação que Sarah Palin fez genericamente aos democratas, que "olhariam de cima para baixo" os prefeitos de pequenas cidades, como ela.

Nixon, em 1968, assumiu a defesa da "maioria silenciosa" da América profunda, que ele chamava de "os esquecidos", uma classe média branca atormentada, como hoje, pelos tempos difíceis e tumultuados.

Assim como os republicanos hoje acusam a mídia de ser elitista e de tratar Sarah Palin com machismo, Nixon e o vice Spiro Agnew classificavam seus críticos de "inúteis nababos do negativismo" e os intelectuais de "esnobes insolentes".

O professor de Harvard Samuel Huntington - que se diz orgulhosamente descendente de doze gerações wasps - fala que a elite americana está se desnacionalizando para se internacionalizar, e por isso já não consegue representar a média da opinião pública americana, que definitivamente não é cosmopolita.

Na eleição de 2004, George Bush aproveitou-se da fama de "europeu" de John Kerry para dizer, em um dos debates, que não se preocupava com o que o resto do mundo, ou mais especificamente a Europa, pensasse sobre suas atitudes, pois olhava primeiro os interesses dos Estados Unidos.

Nesta campanha, a viagem ao exterior de Barack Obama provocou a mesma reação dos republicanos, especialmente seu já célebre discurso para uma multidão em Berlim.

Direção imprudente


Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Longe de estar "ultrapassado", como afirmou o ministro da Defesa, Nelson Jobim, na sexta-feira, o caso das escutas ilegais ganhou corpo justamente depois que o governo tentou uma ultrapassagem arriscada no seu roteiro habitual de administração de crises e, no improviso, acabou se atrapalhando todo.

A semana começou com a celebração da firmeza e da agilidade do Planalto pelo afastamento da diretoria da Agência Brasileira de Inteligência na segunda-feira à noite e transcorreu aos tropeços em bate-boca de ministros, generais, delegados de polícia, cada um tirando uma peça da obra construída para apaziguar a ira do Supremo Tribunal Federal.

No meio da confusão, estranhamente quem menos falou foi o ministro da Justiça, Tarso Genro.

Discreto, entrou em cena já na hora dos remendos, para apresentar uma proposta de aumento da pena de prisão e perda dos direitos políticos aos grampeadores do submundo da espionagem.

Na minuta da proposta não há instruções sobre como proceder para identificá-los e tirá-los da clandestinidade a fim de fazer valer os rigores da nova lei.

O presidente Luiz Inácio da Silva tampouco parou de se movimentar em outras direções, mas nada foi suficiente para abafar o barulho da discussão sobre a denúncia do ministro Jobim de que a Abin teria extrapolado o limite legal de suas funções ao comprar equipamentos de escuta.

Era só um argumento para reforçar junto ao presidente Lula a tese da urgência em apresentar um suspeito ainda no primeiro dia útil da crise para apaziguar os ânimos no Supremo, cujo presidente havia sido comprovadamente alvo de um grampo.

O STF fechou-se unânime em defesa de Gilmar Mendes que cobrava uma atitude mais objetiva que a habitual a formalidade do pedido de abertura de inquérito na Polícia Federal.

Afastava-se temporariamente a direção da Abin "em nome da transparência" das investigações, dava-se uma satisfação ao Tribunal, recolhiam-se os elogios pela pronta reação e tudo resolvido.

Quase deu certo.

O presidente do Supremo continuou a tratar do assunto, mas já sem o tom de cobrança ao presidente da República adotado na hora da pressão, as saudações apareceram aqui e ali, mas na terçafeira mesmo as coisas desandam.

Primeiro por causa da profusão de manifestações de admiração e louvor do primeiro escalão da República ao trabalho do chefe da equipe posta sob suspeita horas antes. A demissão fora, então, injusta, apressada, infundada? A decisão de Lula começa a ser enfraquecida pela própria equipe presidencial, em seu afã de desagravar o lado supostamente ofendido sem perceber que o cobertor era curto demais para abrigar todas as versões.

Ato seguinte, "vaza" a informação de que na reunião de segundafeira no Palácio do Planalto Nelson Jobim apresentara ao presidente indícios fortes para justificar a ação contra a Abin. A agência teria usado o sistema de compras do Exército para adquirir equipamentos de interceptação telefônica.

O ministro da Defesa prontamente confirma a história.

Recapitulando: o governo oferece cabeças ao sacrifício no início de uma crise, depois parte da equipe presidencial defende os demitidos e, em seguida, o ministro da Defesa complica os defendidos confirmando informações passadas ao presidente numa reunião fechada.

Quantas vezes um ministro já deu aval a "vazamentos", ainda mais sobre o conteúdo de conversas com o chefe, envolvendo uma acusação grave contra um órgão ligado diretamente à Presidência? Quantas vezes o governo apresentou suspeitos espontaneamente? Quantas vezes os acusados foram afastados de seus postos para garantir a "transparência" das investigações sobre qualquer uma das denúncias feitas desde o caso Waldomiro Diniz até hoje? Nem uma única mísera vez qualquer das cenas acima aconteceu e foi aí, ao sair do "texto" habitual, que o Palácio do Planalto perdeu a direção.

Como não houve previsão para o segundo capítulo, depois do primeiro cada personagem agiu de acordo com o que julgou mais conveniente e, de repente, o governo se vê sentado na berlinda produzindo acusações contra si.

É quando entra o ministro Nelson Jobim dando o assunto por "ultrapassado" até a conclusão "das investigações da Polícia Federal".

A idéia, pelo jeito, é voltar ao ponto zero da crise.

Difícil será dar por não dito o muito que foi dito durante quatro dias sobre o tenebroso tema da espionagem clandestina possivelmente – como admitiu o chefe do Gabinete de Segurança Institucional – existente nas entranhas do Estado.

Pé de coelho

O presidente Lula fala em sorte, refere-se à "magia" do momento nacional, demora-se nos factóides e passa ligeiro pelos fatos.

Alimenta subliminarmente a crendice de que sua importância vai além da Presidência, apresentando-se como um legítimo amuleto para o povo brasileiro.

Coisas do Senado


Nas Entrelinhas :: Luiz Carlos Azedo
DEU NO CORREIO BRAZILIENSE


A disputa pela presidência da Casa vai esquentar ainda mais porque em 2010 haverá renovação de dois terços dos mandatos dos senadores e a maioria deles, hoje, está em risco eleitoral
A alta política brasileira transita pelo Senado Federal, venerável e vetusta Casa política que surgiu no Império. É um reduto conservador, que já deu muitas dores de cabeça aos governantes, quase sempre quando o parlamento foi afrontado pelo Executivo. É composto por ex-governadores, ex-ministros e lideranças em ascensão, embora tenha uma legião de suplentes sem-votos, que em alguns casos assumiram os mandatos por terem financiado a campanha do titular.

Patronos

Toda vez que se fala em reforma constitucional, surgem propostas para acabar com o sistema bi-cameral e extinguir o Senado. Nada ocorre, entretanto. De dimensões continentais, dele o Brasil não pode prescindir para conter o poder centralizador da União e garantir certa autonomia aos estados. Foi para equilibrar essas relações, aliás, que surgiu a “política de conciliação” no gabinete de Honório Hermeto Carneiro Leão, o Marquês de Paraná, em 1953. Depois de décadas de confronto, saquaremas (por causa da hegemonia dos políticos fluminenses) e luzias ( devido à revolta liberal mineira da Vila de Santa Luzia do Rio das Velhas, em 1842) chegaram a um entendimento. Vem daí a expressão jocosa de que “todo luzia é um saquarema no poder”.

A galeria dos políticos que já passaram pelo Senado e deixaram o nome na história do Brasil por seu talento e coragem é vasta. Feijó, Cairú, Caxias, Pinheiro Machado, Nereu Ramos, Juscelino Kubitschek, Josaphat Marinho, Teotônio Vilela, Nilo Coelho, Afonso Arinos e Mário Covas são alguns deles. O grande patrono, porém, é um político derrotado, cujo nome virou sinônimo de inteligência e cultura, o baiano Rui Barbosa de Oliveira. Advogado, jornalista, jurista, diplomata, sucedeu Machado de Assis na Academia Brasileira de Letras. Foi o principal autor da Constituição de 1891, que Floriano Peixoto afrontou em 1893, com seu presidencialismo golpista, centralizador e autoritário. Rui foi obrigado a se exilar, mas retornou em 1895 e assumiu o mandato no Senado, para o qual sempre foi reeleito. Candidato a presidente da República, foi derrotado nos pleitos de 1910, 1914 e 1919 pelas oligarquias regionais. Faleceu em 1923.

Submundo

A vida no Senado não se restringe aos grandes momentos e grandes personagens. A pequena política e o submundo, com seus atores menores, também tecem a trama política. São as memórias dos políticos, muito mais do que os anais da Casa, que contam seus bastidores. A vida mundana também engendra grandes acontecimentos históricos. Basta ler os relatos do ex-chefe da segurança do Senado, Francisco Pereira da Silva, no livro O Índio sai da sombra, escrito pelo jornalista Carlos Chagas (Editora Dom Quixote). É de rolar de rir. Tem um olhar diferente da crônica política, mas é revelador de como certas coisas funcionam e da personalidade de muitos políticos. Alguns até já morreram, mas outros estão vivíssimos.

A propósito, a disputa pela Presidência do Senado vai esquentar ainda mais porque em 2010 haverá renovação de dois terços dos mandatos dos senadores e a maioria deles, hoje, está em risco eleitoral. Vem aí uma nova safra de ex-governadores, majoritariamente governistas. Dependendo do resultado das eleições municipais, o governo terá força para abrir uma brecha na lei da fidelidade partidária e promover um novo troca-troca partidário. A meta é conseguir maioria absoluta no Senado. Completaria o triunfo político do governo Lula.

Qual é sua Proposta?

Marcos Coimbra
DEU NO ESTADO DE MINAS

Seja por alguma identidade prévia, seja por sentimento partidário, seja porque chegou a uma decisão pelo que sabe dos candidatos e suas alianças, o eleitor escolhe

No senso comum a respeito do comportamento eleitoral, existem coisas verdadeiras e outras não. Uma das mais comuns é dizer que as eleições se travam entre “propostas”, através de seu confronto e avaliação.

Pergunte-se a qualquer eleitor, candidato ou aos profissionais que levam uns aos outros, os marqueteiros, e todos serão unânimes. É preciso apresentar “propostas”, mostrar aos cidadãos que aqueles que pretendem governar têm soluções para os problemas que afligem as pessoas.

Parece a coisa mais óbvia, que dispensa considerações. Sem boas “propostas”, como alguém teria chances em uma eleição, conseguiria convencer os eleitores de que está mais preparado que os demais? Afinal, os eleitores não precisam conhecer o que pensam todos, antes de fazer suas escolhas?

Verdade? Claro que não, como, no fundo, ninguém ignora, do eleitor mais humilde ao Presidente da República. Mas todos gostamos de fingir que é assim que se tomam as decisões de voto, talvez porque acreditar nisso produz em nós uma ilusão de racionalidade.

A idéia de que as “propostas” são a base de uma campanha eleitoral é uma daquelas coisas que os eleitores fingem que é verdade e os candidatos (e seus marqueteiros) fingem que acreditam. Tem tanta substância como qualquer lenda, mas teima em aparecer toda vez que estamos em época de eleição.

Nesta, está presente até demais. O figurino do bom candidato a prefeito em 2008 exige dúzias de “propostas” para exibir na propaganda eleitoral, como belas gravatas ou lindos complementos, jóias, bonitos penteados. É de mau tom aparecer na televisão sem elas.

Em algumas cidades, está em curso um campeonato de propostas. Em Recife, há quem já apresentou mais de cem, apenas nos primeiros dias da propaganda eleitoral. Em São Paulo, Marta, Alckmin e Kassab travam uma batalha diária para saber quem empilha mais propostas na frente do eleitor. Em cada aparição no horário eleitoral, nenhum mostra menos que 10. País afora, o mesmo se repete, com direito a todo tipo de bizarrice. Só de metrôs se diria que vamos ter mais de 100.

Os eleitores confirmam que é isso mesmo, que é assim que escolhem. Quem quiser ouvir o coro que fazem, basta se sentar nas salas de observação de grupos focais, usados em pesquisas qualitativas. Parece coisa ensaiada. Do Oiapoque ao Chuí, só dá “proposta”.

É fácil, no entanto, ver quão pouco a sério os próprios eleitores se levam nesse assunto. Se perguntarmos que propostas conhecem dos candidatos a prefeito de suas cidades, dificilmente teremos mais que uma pequena minoria conseguindo acertar alguma.

Não é difícil explicar o porquê. Com diversos candidatos (11 em São Paulo, 12 no Rio, por exemplo) se sucedendo na telinha, cada um dizendo que vai fazer 10 coisas a cada dia, só um eleitor de memória prodigiosa seria capaz de se lembrar delas no dia seguinte.

Salvo do candidato em quem já decidiu que vai votar. Seja por alguma identidade prévia, seja por sentimento partidário, seja porque chegou a uma decisão pelo que sabe dos candidatos e suas alianças, o eleitor escolhe. Daí em diante, presta atenção, de fato, nas “propostas”, mas apenas nas de seu candidato. Mais para ter argumentos com os quais justificar a opção que fez.

Nem as “propostas” estão no fundamento das escolhas nem são motivo para levar o eleitor a desistir de uma candidatura.

Tudo isso, é claro, para os eleitores normais. Talvez exista quem faça, de verdade, o que os demais apenas dizem fazer: Sentar-se na frente da televisão, atentamente, anotando tudo que dizem os candidatos, para chegar a uma comparação racional da viabilidade, custo e vantagem de cada proposta. Ao cabo disso, escolher.

Mas não é assim que as coisas se dão no mundo real.

O petróleo continuará nosso


Fernando Henrique Cardoso
Sociólogo, ex-presidente da República
DEU EM O GLOBO


Não faz muito tempo, chamei a atenção nesta coluna para os desafios postos pelas descobertas de petróleo no pré-sal e para a necessidade de haver convergência de opiniões que permita, se for o caso, mudanças nas leis que regulamentam sua exploração. Mencionei mesmo a possibilidade de se utilizar os recursos gerados para resolver os problemas educacionais, trocando-se “minérios por neurônios”.

Agora, com o governo capitaneando o alarido, volta-se ao velho refrão: o petróleo é nosso. Entretanto, desde a primeira lei sobre petróleo, de 1953, que respondeu aos justos anseios do que chamávamos de “emancipação nacional”, até a mais recente, enviada ao Congresso por meu governo em 1997, o petróleo jamais deixou de pertencer ao povo brasileiro, por intermédio da União. A diferença entre as duas leis é que, na primeira, a exploração se dava sob exclusividade da Petrobras, enquanto na segunda ela se dá por várias empresas, inclusive a Petrobras, sob regime de concessão e sob regulação da Agência Nacional do Petróleo, a ANP. Não há dúvidas quanto a que a União detém e continuará a deter o monopólio do subsolo.

Qual a razão, então, para o recente surto de “o petróleo é nosso”? É que agora os neonacionalistas querem criar outra empresa estatal, alegando que a Petrobras carreará os lucros da exploração do pré-sal para mãos privadas e, horror máximo, algumas delas estrangeiras. Há razões para um debate sério sobre como utilizar melhor as reservas do pré-sal, mas a exaltação falsamente nacionalista não é o melhor caminho. Diante da provável imensidão das reservas, há questões objetivas a serem enfrentadas. De onde virão os recursos para explorar um óleo que se encontra a 300 quilômetros da costa e a mais de 6 mil metros de profundidade? Hoje o barril de petróleo está acima de US$ 100, continuará nesse patamar? Qual o custo de extração do pré-sal e, portanto, qual o preço de mercado compatível com sua utilização? Só para explorar as primeiras reservas descobertas, fala-se, com exagero, em US$ 600 bilhões no período de 10 anos. Trata-se de muito dinheiro; terão o Tesouro e a Petrobras recursos suficientes para tanto?

Essas são as primeiras avaliações, mas se supõe existir um manancial que pode ser algumas vezes maior. Só novas e dispendiosas perfurações confirmarão a extensão dos achados. Há tempo, portanto, para ampliar o debate. Ele não deve circunscrever-se ao governo e aos interessados economicamente; precisa envolver a sociedade civil, os técnicos e até mesmo considerar a visão de especialistas de fora do país.

Será necessário mudar o marco legal vigente? Olhando o êxito das descobertas no pré-sal e a quase autonomia petrolífera alcançada depois do fim do monopólio estatal, a resposta seria não. Há, contudo, pontos duvidosos. A lei vigente permite aumentar a taxação de várias formas e mesmo elevar o limite de 40% na chamada “participação especial”, que se aplica aos campos com grande volume de óleo e alta rentabilidade. Diante do volume dos novos campos, isso talvez seja insuficiente. Se o for, há pelo menos dois caminhos: aumentar por decreto presidencial esse limite específico ou mudar a regra, transformando em regime de partilha o regime de concessão de exploração (no qual a empresa concessionária, a Petrobras ou outra qualquer, arca com os investimentos, paga as taxas e impostos e fica com os lucros). Na partilha, comprovada a descoberta e feita a extração, a União indeniza os custos às empresas, retém o petróleo e faz com seus lucros o que melhor lhe aprouver.

E há ainda a possibilidade de um sistema misto, mantendo-se o sistema atual para os contratos vigentes e para as reservas fora do pré-sal e instituindo o novo para as reservas dentro do pré-sal. Complicador adicional: mantido o sistema de concessões no pré-sal, haverá a possibilidade de que as empresas “suguem” petróleo além do existente nas reservas concedidas, se houver petróleo em áreas contíguas de posse da União ou já concedido a outras empresas. Será necessário, portanto, que a ANP defina uma regra para resolver o caso, conforme prevê a lei atual.

Mesmo que se admita a necessidade de revisões legais (por exemplo, para redefinir o percentual de participação dos municípios) e que se tome em consideração a eventualidade de um regime de partilha, não seria função da ANP contratar (sempre em regime de licitação pública, espero) as empresas que fariam a exploração? E não é possível que os resultados financeiros fiquem à disposição de uma conta no Tesouro Nacional — um fundo soberano — que cuidará de evitar fluxo de recursos na economia que valorize o real ainda mais e provoque dificuldades para a continuidade da industrialização? Por que então sonhar com um pesadelo, uma estatal inútil? A não ser que se pense na partilha política dela e nos cabides de emprego que possa criar.

Há outras idéias arriscadas no ar. Por exemplo: vender as reservas ao mercado financeiro por antecipação (fazer a chamada “securitização”) e gastar o que ainda não se materializou, o que equivaleria a endividar o futuro do país. A verdadeira solução norueguesa não se resumiu a uma estatal não operativa, mas essencialmente em criar um mecanismo para colocar no exterior os resultados financeiros da exploração do petróleo, limitar os gastos aos rendimentos obtidos e, ao mesmo tempo, incentivar a indústria local de equipamentos e derivados petrolíferos.

Não há dúvidas, portanto, de que o pré-sal abre excelentes oportunidades para o futuro do país. Pode mesmo ser necessário algum ajuste no marco legal. É louvável a preocupação com o destino da renda futura, que se bem aplicada (na educação e na expansão da industrialização, por exemplo) equivalerá à nova “emancipação nacional”, reduzindo o desemprego, a ignorância e a pobreza. Mas tudo terá de ser feito às claras, sem clima eleitoreiro, sem mais clientelismo e falso nacionalismo, que confundem os interesses da nação com os da burocracia estatal ou de partidos. O Brasil merece respeito, convém lembrar no dia de hoje.

O que pensa a mídia

Editoriais dos principais jornais do Brasil
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1079&portal=

Acabaram-se as certezas


Clóvis Rossi
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


SÃO PAULO - Era uma vez o tempo em que um certo grupo de economistas tinha tantas certezas absolutas e definitivas que passavam a impressão de que seriam capazes de dizer, sem pestanejar, quantos milímetros de chuva cairiam no dia 29 de abril de 2011. Pior: os jornalistas acreditávamos neles. A crise financeira iniciada em agosto do ano passado teve ao menos essa formidável qualidade: os economistas já não têm certezas, só dúvidas (e, os jornalistas, idem, idem, salvo um outro que acha que fala com Deus todos os dias). Ah, minto, ainda há uma categoria de economistas, os profetas do apocalipse, que continuam tendo certezas. Dia após dia, prevêem uma catástrofe na primeira curva da esquina. Um dia, acertam e reafirmam-se em suas certezas.

Tome-se, para citar só um dos muitos termos que os economistas inventam para embasbacar platéias, o "decoupling" (descasamento entre os ricos, em crise, e os emergentes, bombando).

Houve momentos de certeza do "decoupling" e, agora, o noticiário está salpicado, aqui e ali, de certeza de "coupling". Na vida real, só houve "casamento" nas Bolsas: nos ricos, como nos emergentes, caíram estrepitosamente. Assim mesmo, a coisa não é linear: se se tomar agosto de 2007 como início da crise, a Bolsa brasileira ainda navegava em águas positivas até agosto de 2008, ao contrário de todas as demais, no mundo rico ou emergente. Só nas últimas semanas é que entrou no vermelho.

A nova moda é falar de "desalavancamento" (pagar dívidas). O "Financial Times" vê até o "grande desalavancamento", que "continua sem pausa globalmente". Significa que não haverá dinheiro disponível na praça, certo? Errado, se a praça for o Brasil, onde o crédito continua se expandindo.

Não dá para entender? Não se preocupe, a era das certezas acabou ou está hibernando.

Recife de luto com morte de Pelópidas


Diego Mendes
DEU NA FOLHA DE PERNAMBUCO

Ex-prefeito da Capital morreu aos 93 anos na madrugada deste sábado

A política pernambucana amanheceu de luto. Ontem morreu, aos 93 anos, o engenheiro e ex-prefeito do Recife Pelópidas Silveira, que estava internado, desde o último dia 15 de agosto, no Hospital Memorial São José (HMSJ), no bairro do Derby. De acordo com a assessoria de imprensa do HMSJ, o político deu entrada na unidade hospitalar para realizar uma cirurgia de obstrução intestinal, mas acabou permanecendo até as 5h50 de ontem, quando sofreu falência múltipla dos órgãos. O corpo do ex-chefe do poder executivo da capital de Pernambuco foi levado para o Cemitério Modara da Paz, em Paulista, na Região Metropolitana do Recife (RMR), onde foi velado das 9h50 até às 16h, quando foi realizado o sepultamento. O governador de Pernambuco, Eduardo Campos, vai decretar luto oficial no Estado de três dias.

De acordo com o genro de Pelópidas Silveira, José Áureo Bradley, a morte do ex-prefeito deixou toda a família entristecida, pois ele era um homem forte e feliz. “Não existem palavras para descrever a dor que todos nós estamos sentindo neste momento. Acreditávamos que ele sairia dessa situação, que começou com um problema no intestino e evoluiu para uma infecção. Infelizmente, não podemos evitar, é o destino”, disse muito emocionado, após amparar a esposa, que preferiu não falar com a imprensa.

Pelópidas Silveira Nasceu no Recife, em 15 de abril de 1915. Formou-se na Escola de Engenharia de Pernambuco, iniciando sua formação técnica, ainda estudante. Trabalhou como assistente, no Porto do Recife, e na construção de estradas no Interior do Estado. Foi professor das Escolas de Engenharia e de Arquitetura, na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE); participou da criação do Instituto Tecnológico do Estado de Pernambuco (ITEP).

No governo do interventor José Domingues, foi prefeito nomeado do Recife, de fevereiro a agosto de 1946, permanecendo no cargo até agosto do mesmo ano. Candidato ao governo estadual pela Esquerda Democrática (depois, Partido Socialista Brasileiro), com apoio do PCB, foi derrotado em janeiro de 1947 por Barbosa Lima Sobrinho (PSD). Apesar disso, venceu na capital e cidades vizinhas com um total de 58 mil votos (contra 91,9 mil do candidato do PSD, e 91,4 mil de Neto Campelo, da UDN.

Na década de 50, continuou ligado à atividade política, participando da campanha O Petróleo é nosso. Em 1955, na primeira eleição popular para a prefeitura da capital, foi lançando candidato a prefeito pela Frente do Recife, coligação que reunia seu partido (o PSB), o PTB e o PTN, com apoio dos comunistas (então na clandestinidade). Foi eleito com 81 mil votos (dois terços do eleitorado) contra Antônio Alves Pereira, candidato conservador do PRT, que recebeu 23 mil votos (19%).

Durante seu governo, priorizou as obras viárias, a instalação do bonde elétrico e a higienização das feiras públicas. Também abriu as Audiências Públicas e estimulou a formação de associações de bairros. Em 1958, antes da conclusão do seu mandato, foi candidato a vice-governador na chapa de Cid Sampaio, lançado pela coalizão UDN/PSB/PTB/PSP/PTN. Mas a vitória de Cid Sampaio criou um problema na prefeitura do Recife, porque Pelópidas recusou-se a deixar o cargo de prefeito para assumir o de vice-governador, o que daria posse ao seu substituto e adversário, Vieira de Menezes. Após um longo processo judicial, Pelópidas deixou a prefeitura somente em dezembro de 1959, mas somente após assegurar a eleição de seu sucessor, Miguel Arraes.

Em 1962, candidatou-se a deputado federal pelo PSB, mas conquistou apenas a suplência. No ano seguinte, foi chamado pelo governador Miguel Arraes para ocupar a secretaria de Viação. Ainda em 1963, foi lançado novamente como candidato à prefeitura de Recife, pela aliança PSB/PTB, obtendo uma nova vitória eleitoral. No entanto, não permaneceu até o fim do mandato porque, como aliado do governador Arraes, foi preso em 2 de abril de 1964 (em função do golpe militar de 1964) e seu mandato foi cassado pela câmara de vereadores de Recife. Seria libertado somente em dezembro do mesmo ano, mas no ano seguinte foi aposentado compulsoriamente da UFPE.

Em 1965, foi aposentado pelo regime, juntamente com outros professores, da UFPE. Filiou-se ao Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB). Beneficiado pela Lei da Anistia, em 1980, foi reintegrado à Universidade. Em 2002, foi um dos agraciados com o título de “Expoente de Pernambuco”, pela Assembléia Legislativa de Pernambuco.

Depoimentos

"A perda de Pelópidas empobrece Pernambuco e o Brasil. Foi nos últimos 50 anos uma das maiores referências políticas da luta do povo. Ao lado do meu avô Miguel Arraes, ele fundou a Frente do Recife, movimento que até hoje coloca sua marca de coerência e de compromisso com as aspirações populares, com a luta dos menos favorecidos e com um Brasil que se firma independente . Não era só um lider que se afirmava com suavidade e coerência, era alguém que tinha o pensamento estruturado e que ajudava a estruturar as idéias de muitos companheiros. Extremamente próximo a mim, sofro muito a sua perda."

Eduardo Campos, Governador do Estado

"Foi uma das maiores perdas para o Estado de Pernambuco e, particularmente, a sua capital. Pelópidas iniciou um dos grandes eixos da nossa gestão, que é a inclusão social com participação popular. Executou várias obras para melhorar a qualidade da vida da população pernambucana. Pelópidas Silveira era um gestor competente, digno, ético, de luta e de esquerda. É um símbolo da luta do povo brasileiro. O que mais encantava nele é que nunca abriu mão das suas convicções políticas e ideológicas."
João Paulo (PT), Prefeito do Recife

"Para a gente é um profundo pesar o falecimento de Pelópidas Silveira. Ele foi o primeiro prefeito do Recife eleito pelo voto direto. Criou políticas de participação popular, em uma gestão democrática. Cuidou da cidade e cuidou das pessoas. Foi um marco, uma referência para nós. Depois de muito tempo, quere-mos dar continuidade ao seu projeto de uma cidade mais humana e solidária. Ele deixa um exemplo para todo cidadão que quer construir uma cidade mais justa e entra para História com grande pesar. E nós quisemos, eu e Milton Coelho, com o nome de nossa coligação, fazer uma homenagem. Vemos seu falecimento com muita tristeza."

João da Costa (PT), candidato a prefeito da Frente do Recife

"A morte dele deixa uma lacuna na política não apenas de Pernambuco, mas de todo o País. Por mais de 60 anos, foi uma referência para todos que administraram o Recife após sua passagem pela prefeitura. Pelópidas influenciou gerações de políticos e de gestores públicos por sua ética, competência administrativa e coerência. Por isso conquistou o respeito e admiração até dos seus adversários. Ele foi um prefeito ousado, com uma imensa visão do futuro. Mostrou que era possível gerir uma cidade complexa como o Recife, tendo compromissos com os mais pobres, mas sem deixar de lado a infra-estrutura municipal. Durante o período militar, Pelópidas exerceu um papel importante e isso se estendeu após a volta da democracia. Essa influência se manteve intacta, mesmo sem ele voltar a ocupar um mandato ou cargo público novamente."

Jarbas Vasconcelos (PMDB), Senador

"Pelópidas representava o que havia de melhor na política de Pernambuco. Homem de convicções firmes e extremamente generoso, Pelópidas era um administrador público dos mais competentes e quase unanimidade entre os pernambucanos. Espero que sua memória vá servir de inspiração para novas gerações de políticos do nosso Estado."

Sérgio Guerra (PSDB), Senador

"Pelópidas foi uma das figuras mais importantes do Estado, um homem muito firme nas suas convicções políticas, mas que nunca permitiu que isso resvalasse para o terreno pessoal. Era generoso e considerado a única unanimidade que Pernambuco teve até hoje. Era amigo pessoal, que freqüentava a minha casa e eu a dele. Bem-humorado e de bem com a vida."

Raul Henry (PMDB), candidato a prefeito

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

O fator Palin


Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


ST. PAUL, Minnesota. A política americana, que girou nos últimos meses em torno do democrata Barack Obama, agora tem outro parâmetro, a governadora republicana do Alasca, Sarah Palin. Diante das posições políticas dos dois, pode-se dizer que houve um retrocesso no processo, que antes era polarizado entre o progressista Obama e o conservador liberal McCain. O fato de dois políticos novatos e inexperientes terem condições de vir a ocupar a Presidência da maior potência mundial pode ser um sinal de decadência, mas pode também significar uma ansiedade por mudança, uma necessidade de começar de novo. Obama e Palin são políticos distintos entre si, e aparentemente é descabido compará-los. Mas só aparentemente. Na verdade, a escolha de Sarah Palin não apenas minimizou os previsíveis efeitos do sucesso da convenção dos democratas em Denver como dominou a cena política, a ponto de o próprio Obama ter caído na armadilha de discutir quem era mais experiente.

Ele já havia ganhado um inesperado presente com a escolha de Palin, que retirou da campanha de McCain a tese da inexperiência. Mas quis ir além, e foi infeliz. Comparou sua experiência nos últimos dois anos de campanha com a de Palin à frente da prefeitura de Wasilla: a pequena cidade do Alasca tem cerca de 50 empregados na prefeitura, e Obama tem 2.500 na sua campanha. O orçamento de Wasilla é de US$12 milhões, enquanto Obama tem o triplo disso por mês na sua campanha.

Uma disputa "risível", respondeu a campanha de McCain, lembrando que Palin está à frente de um estado que tem um orçamento de US$10 bilhões e uma reserva estratégica de petróleo, ampliando a importância de um estado que tem, na definição do "The New York Times", um quarto da população do Brooklin.

O "fator Palin", como está sendo chamada a chegada ao protagonismo político nacional da governadora do Alasca, seria "uma rajada de ar fresco" na política republicana, da mesma maneira que os democratas se referiam a Obama no início das primárias.

Palin é uma espécie de "caçadora de marajás", que derrotou no Alasca a velha guarda da política republicana, corrupta e ineficiente, e assumiu o governo como um trator, enfrentando o lobby das petrolíferas, obrigando-as a pagar mais impostos, mas em troca defendendo a ampliação das áreas de exploração.

Se sua maneira desassombrada de fazer política lhe valeu um lugar destacado, trouxe-lhe também problemas, que agora ameaçam a meteórica carreira e podem trazer problemas para a campanha conservadora. Ela está respondendo a um processo de abuso de poder por supostamente ter demitido o comissário de segurança pública, Walter Monegan, que não teria querido demitir um subordinado, ex-cunhado de Palin que estava em litígio com a irmã da governadora num processo tumultuado de divórcio.

Membro destacada da igreja evangélica Assembléia de Deus, militante antiaborto e a favor da abstinência sexual antes do casamento, Palin trouxe para o debate político suas posições morais e questões familiares, como seu filho Trig, que tem Síndrome de Down, e a gravidez de sua filha de 17 anos.

Sua defesa da manutenção da gravidez pode lhe trazer bons frutos eleitorais, ao mesmo tempo em que está revivendo a dubiedade de Obama com relação ao aborto.

Quando foi questionado sobre sua posição sobre o aborto pelo pastor Rick Warren, da Saddleback Church, num debate que foi televisionado, Obama tentou contornar o tema delicado: "Penso que, tanto da perspectiva teológica quanto da científica, está acima das minhas possibilidades responder especificamente".

Da mesma maneira que Obama tinha um pastor polêmico, Palin também tem, só que, enquanto o democrata teve que ser ágil para se livrar do reverendo Jeremiah Wright, da Igreja Batista da Trindade Unida de Cristo, de Chicago, para não se contaminar com seu radicalismo, Palin não parece querer se distanciar do pastor Ed Kalnins, da Assembléia de Deus de Wasilla, que diz que os críticos do presidente Bush "serão enviados para o inferno"; que a Guerra do Iraque é uma guerra "pela fé" contra os terroristas da Al Qaeda; e que Jesus também utilizava a guerra para defender seus princípios.

A governadora do Alasca também gosta de misturar política e religião. Falando recentemente para uma turma de formandos na Assembléia de Deus de Wasilla, ela disse que a Guerra do Iraque era "messiânica" e que os Estados Unidos agem com a bênção de Deus.

Para Obama, aceitar as críticas de Wright aos Estados Unidos traria prejuízos políticos em parte junto aos seus eleitores, mas sobretudo daria munição aos seus adversários. O pastor Jeremiah Wright disse, por exemplo, que os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 foram uma retaliação à política externa dos Estados Unidos, e pediu que as pessoas presentes na igreja falassem "Deus amaldiçoe a América" no lugar do tradicional "Deus abençoe a América", num sermão gravado e que passou várias vezes na televisão.

Mas Sarah Palin só ganha politicamente entre os republicanos grudando sua voz à do pastor de sua igreja, reforçando o eleitorado evangélico que estava descontente com McCain. Esse ganho político para os republicanos, no entanto, pode ser menor do que a perda de credibilidade. As pesquisas de opinião mostram que, até o momento, os eleitores consideram que McCain é uma escolha menos arriscada do que Barack Obama.

Com a possibilidade de Sarah Palin assumir a Presidência, em caso de McCain, que fez 72 anos semana passada, vir a ter problemas de saúde, a escolha de Palin torna-se pelo menos tão arriscada quanto, no quesito falta de experiência, sem levar em conta a qualidade da proposta dos dois. Resta saber de que lado a maioria do eleitorado está em questões como a Guerra do Iraque ou o aborto.

O tablóide brasileiro


Nas Entrelinhas :: Luiz Carlos Azedo
DEU NO CORREIO BRAZILIENSE


Aparentemente, há interessados em flagrar as mais altas autoridades do país em atividades pouco recomendáveis, não se sabe com quais propósitos

James Ellroy é um dos grandes escritores do gênero policial noir , autor de Los Angeles, Cidade Proibida, romance adaptado com sucesso ao cinema. Seu nome me veio à memória por causa de outros livros de sua autoria, Tablóide Americano e Seis Mil em Espécie (Editora Record), que misturam a ficção com a história dos Estados Unidos. O assassinato do presidente J. F. Kennedy, em Dallas, marca o final do primeiro romance e o começo do segundo. Ambos desnudam o papel da CIA e do FBI na política norte-americana das décadas de 1960 e 1970.

Conspiração

Grandes eventos e personagens históricos são devassados do ponto de vista de policiais e criminosos, no que o autor classificou de “pesadelo privado da política pública”. O magnata da imprensa Howard Hughes, o todo-poderoso diretor do FBI J. Edgar Hoover e o sindicalista Jimmy Hoffa são algumas das personalidades reais que desfilam nos romances. Ellroy dá nomes aos bois, descrevendo-os como homens de carne e osso, cujos vícios da vida mundana se misturam às atividades públicas. O “grampo” de um diálogo de Kennedy com o cantor Frank Sinatra sobre Marilyn Monroe , por exemplo, é impagável.

Pete Bondurant, um antigo xerife, Kemper Boyd, um agente federal corrupto, e Ward Littell, um ex-seminarista que virou agente do FBI, são os heróis da história. Bisbilhotam a vida alheia com propósitos de chantagear, desmoralizar e intimidar. A fracassada invasão da Baía dos Porcos em Cuba e a crise dos mísseis com a antiga União Soviética, no primeiro romance; a guerra do Vietnã e o tráfico de heroína, no segundo, servem para descrever a ação de políticos, magnatas, artistas, sindicalistas, gêngsteres, policiais e agentes secretos. Narram a conspiração para o assassinato de Kennedy e operação para acobertar os verdadeiros criminosos, desnorteando as investigações.

É incrível como a vida política no Brasil começa a descambar para um terreno que lembra os romances de Ellroy. Banqueiros, advogados, magistrados, parlamentares e autoridades do governo surgem como personagens de escândalos mal explicados. Investigações às vezes fazem muito barulho para não chegar a lugar algum.

Bagunça

Supostamente, arapongas da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), o serviço secreto do Palácio do Planalto, grampearam os telefones de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), o seu presidente, Gilmar Mendes, e o colega Marco Aurélio Mello, além de dois ministros de Estado e cinco senadores da República. Quem o fez, quem mandou? Não se sabe ainda. O que estará por trás de tudo isso? Uma conspiração? Não, simplesmente, o aparelho coercitivo do Estado começa a agir por conta e risco com o propósito aparente de moralizar a vida pública, mas com métodos clandestinos que não justificam tais fins e que podem muito bem servir a outros objetivos.

O certo é que há uma “crise de governança” nas áreas de inteligência e de segurança, que estão uma bagunça: seus agentes e respectivas ações se misturam. Não há certeza de que as escutas ilegais tenham sido patrocinadas pela cúpula da Abin, embora o seu diretor-geral, Paulo Lacerda, ex-diretor da Polícia Federal (PF), que acabou de ser afastado, venha defendendo o restabelecimento e legalização desse tipo de prática na agência. Além disso, os equipamentos de escuta disponíveis — dos mais sofisticados e potentes aos mais simples e primitivos — estão fora de controle, seja nos órgãos de segurança pública, seja no mercado paralelo de espionagem. O jogo bruto no mundo dos negócios e na luta política regional, infelizmente, há muito incorporou a escuta clandestina.

O pior é que agentes públicos que têm legalmente o monopólio da violência, no Ministério Público e até no Judiciário, também começam a exorbitar na utilização da escuta eletrônica e outros recursos de investigação. Veteranos do Serviço Nacional de Informações (SNI), um dos pilares do regime militar, mantêm ativa a velha “comunidade de informações”. Aparentemente, há interessados em flagrar as mais altas autoridades do país em atividades pouco recomendáveis, não se sabe com quais propósitos. É disso que se trata quando os presidentes do Congresso e do Supremo Tribunal Federal (STF) e a Presidência da República são alvos de escutas clandestinas.

Fortemente constrangido


Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


O envio da diretoria da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) para o altar dos sacrifícios já no primeiro dia útil da crise instalada no fim de semana, quando a revista Veja exibiu prova da existência de uma usina de invasões de privacidades em Brasília, foi entendido como um sinal de rigor e agilidade por parte do presidente Luiz Inácio da Silva.

Houve, de fato, uma alteração no padrão habitualmente adotado no Palácio do Planalto para a administração de escândalos. Mas nada que autorize entusiasmos com a rapidez e a austeridade da “ação” do presidente da República.

Primeiro, porque não foi uma ação, foi uma reação. Segundo, não foi rápida e, terceiro, não revelou o vigor e sim a fragilidade de Lula diante de um Supremo Tribunal Federal unido e disposto ao combate, caso se repetisse o roteiro de sempre.

Aquele velho conhecido: surge a denúncia, uma sindicância interna é aberta, a Polícia Federal inicia inquérito para investigar “a fundo”, ministros produzem versões contraditórias sobre o episódio, o Congresso põe o caso em alguma CPI e o presidente Luiz Inácio da Silva queda-se em mutismo absoluto esperando a passagem do vendaval.

Se a coisa fica muito feia, toma-se a corda em seu lado mais fraco, providencia-se ali uma punição a título de satisfação ao público e assunto encerrado.

Desta vez, o governo fez uma passada meteórica pelas preliminares e apresentou logo um suspeito. E por que fez isso? Porque se viu diante de uma emergência: ou fazia alguma coisa logo, apresentava um alvo qualquer, ou se arriscaria a se tornar ele mesmo o alvo de uma artilharia pesada.

A cobrança pública por providências, desde sábado, não partiu de um Congresso desmoralizado, nem de uma oposição acuada ou de uma opinião pública difusamente indignada.

Quem pressionava era a cúpula do Poder Judiciário, a guardiã da Constituição, dona da palavra final sobre as leis, a única instituição com poder e credibilidade suficientes para, em determinado momento - não precisava nem dizer, bastava insinuar que o presidente da República hesitava na defesa do Estado de Direito -, levar Lula às cordas.

Daí a necessidade de alterar a programação habitual e começar pelo fim: a apresentação do suspeito. Um ato inédito. O governo sempre se recusou a adotar o método consagrado no governo de Itamar Franco, quando seu então braço direito, Henrique Hargreaves, foi afastado do Palácio em função de denúncias envolvendo irregularidades nos Correios e reconduzido ao posto depois de inocentado.

Não que tenham faltado cobranças nesse sentido, ao contrário. As inúmeras foram rechaçadas pelo governo Lula sob o argumento da presunção de inocência e que demissões, mesmo temporárias, equivaleriam a condenações antecipadas.

A regra, até agora seguida sem exceção, levaria à suposição de que o governo agiu agora de forma diferente porque já dispunha de base sólida para apresentar o suspeito sem correr o risco de transformá-lo em réu injustamente.

A reação das autoridades ontem em Brasília mostrou que, quem chegou a essa conclusão, precipitou-se. Do vice-presidente da República, José Alencar, ao ministro das Relações Institucionais, José Múcio Monteiro, passando pelo chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência, general Jorge Felix, saíram todos em defesa do diretor demitido da Abin, Paulo Lacerda.

Um homem inatacável, um profissional bom e confiável, uma vítima de armação de gente interessada em desmoralizar a agência foi o mínimo que se ouviu a respeito da pessoa apresentada na noite anterior como chefe dos principais suspeitos.

Junto a esses elogios, ganharam reforço também as versões sobre a possibilidade de as escutas ilegais não terem sido produzidas dentro do aparelho de Estado, mas por quadrilhas de “ouvidores” (no mau sentido) do setor privado, vale dizer, Daniel Dantas.

Uma hipótese nem de longe a ser jogada fora, dada a trajetória de obscuridades protagonizadas pelo esquisitíssimo rapaz.

Agora, se vai nessa direção a desconfiança mais forte e se no dia seguinte o governo inteiro põe a mão no fogo por Paulo Lacerda, por que o afastamento em regime de exceção?

Por qualquer caminho que se vá, chega-se ao mesmo lugar: para proteger o presidente Lula de uma confrontação com o Supremo Tribunal Federal no âmbito onde este é autoridade máxima e àquele cabe submissão absoluta jurada no ato da posse: a legalidade.

Enaltecido o presidente poderia ser caso tivesse sido dele a iniciativa de compreender o significado da disseminação dos grampos. Mas tal entendimento não havia ainda se apresentado à cena, a despeito das várias denúncias (inclusive do próprio presidente do Supremo) sobre a propagação da invasão de privacidade da capital da República.

Apareceu apenas quando a situação foi traduzida para o idioma de Lula, um ás na distinção entre o que pode lhe render benefícios ou lhe causar prejuízos políticos no exercício do poder.

Paulista de Garanhuns


Rosângela Bittar
DEU NO VALOR ECONÔMICO

Um dos principais eixos da campanha da ministra Dilma Rousseff a presidente da República, definidos no governo, é fixar nela a marca de candidata não paulista. O staff político que assessora o presidente Lula vem, há meses, formulando argumentação para o fato de que o eleitorado do Brasil não suporta mais votar em um presidente de São Paulo. Ouve-se isto no Palácio do Planalto, nas direções dos partidos da aliança lulista e de políticos petistas nascidos na Bahia, em Sergipe, em Minas Gerais ou Rio Grande do Sul. Um ou outro cientista político alimenta o raciocínio, que parlamentares repassam, com o prazer de inexistente rigor científico. Todos estão falando de forma empírica.

Não há pesquisa ou estudo que alimente como possível, muito menos provável, este desejo. E há exemplos da falta de eficiência da tese. As candidaturas de Ciro Gomes, por exemplo, foram sempre embaladas por esta estratégia que evidentemente não lhe rendeu votações extraordinárias ou vitórias.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, porém, mostrou esta semana que está engajado mesmo nesta linha de campanha. Teria, entre outros sinais, tentado desinflar o balão da candidatura a presidente de Marta Suplicy, que seu grupo político considera um projeto óbvio caso seja eleita prefeita de São Paulo. Lula teria sido inspirador de mensagem à ex-prefeita sobre não alimentar a idéia de uma candidatura do PT de São Paulo. Não foi por acaso que, antes da chegada do presidente à sua campanha, no último fim de semana, Marta declarou que a candidata do PT em 2010 é Dilma.

A fim de fazer fermentar essa tese é que na aliança governista se exalta, como adversário mais perigoso, no PSDB, o governador Aécio Neves. Pela mesma razão, a lista de presidenciáveis do PT, até há bem pouco tempo, incluía os governadores Jaques Wagner, da Bahia, e Marcelo Déda, de Sergipe, além do ministro da Justiça, o gaúcho Tarso Genro.

Há quem veja na estratégia realmente o que ela é, uma competente maneira de posicionar a candidatura de Dilma no ângulo de competição com a candidatura mais forte do PSDB, a do governador José Serra. Mas pode ter efeitos inesperados. Os marqueteiros podem conseguir firmar bem a condição não paulista da ministra pelos palanques Nordeste afora, ainda que São Paulo tenha a segunda maior população nordestina do país e milhares de famílias nordestinas tenham pelo menos um parente em São Paulo. E apesar de, recentemente, em 2006, há menos de dois anos, portanto, o país votou maciçamente, no segundo turno, em um candidato de São Paulo, o atual presidente Lula. Os especialistas dão ênfase ao fato de que, para ser bem sucedida, de fato, a campanha contra o candidato paulista depende da forma como for retrucada.

Pode estar ai um equívoco precoce do marketing

Se apesar de tudo conseguir enraizar a tese no eleitorado nacional, a propaganda tem o risco do efeito paradoxal. Pode representar um problema para o futuro tanto de Marta Suplicy, quanto de outros politicamente paulistas do PT, como Antonio Palocci, sempre lembrado como opção quando saltar os obstáculos judiciais que hoje o impedem de retomar os planos. E, pior, pode dificultar o retorno do próprio Lula, seja em 2010, se vingar a proposta do terceiro mandato, seja em 2014.

Como Washington Luis, que foi chamado de "paulista de Macaé", numa alusão à cidade do Rio onde nasceu, Lula pode ser chamado, para evitar os efeitos da estratégia sobre si, de "paulista de Garanhuns", sua cidade pernambucana natal, mesmo que não saiba de lá um só nome de rua.

Tradição mantida

O general Jorge Félix, chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência, a quem a Abin está subordinada, manteve a tradição de dar explicações estapafúrdias e inverossímeis, arranjadas no órgão que comanda, para justificar os descontroles e desmandos praticados por espiões da Agência Brasileira de Inteligência, o antigo SNI. No governo Fernando Henrique, o general que então chefiava o GSI informou ao Brasil que fitas de grampos feitos no BNDES, que gravaram até conversas do presidente da República, tinham sido encontradas sob um viaduto, em Brasília, e levadas ao governo. Agora, o general do GSI do governo Lula apresenta suspeitos para o grampo contra os presidentes e dois poderes e autoridades do Executivo que, a seco, não ficam em pé. A não ser que Jorge Félix volte ao assunto para dar razões da sua convicção.

São três os seus suspeitos para a espionagem dos presidentes do Supremo Tribunal Federal e do Congresso Nacional, além de autoridades do Executivo cujos nomes não foram ainda revelados: o banqueiro Daniel Dantas, a central de grampo do Senado Federal, e agentes da Abin fora do controle da direção. A imprecisão da revelação do general, praticamente uma denúncia, atesta que tanto tempo de escuta das conversas de Daniel Dantas e seus funcionários, advogados, parlamentares e jornalistas que conversaram com qualquer um dos investigados na operação Satiagraha não foi suficiente para a Abin e a Polícia Federal comprovarem que o banqueiro estava grampeando os três Poderes.

Não se sustenta em pé, também, a suspeita de que esteja na central de inteligência do Senado a autoria do grampo. O general Félix falou desta hipótese tão de passagem que a Polícia Federal terá dificuldades em reunir elementos para aprofundar a investigação. Da suspeita de que tenham sido agentes da Abin, fora do controle da direção, o que tem parecido mais provável para os grampeados, o general Félix ensaiou um recuo, em seu depoimento de ontem.

Apenas um dos três suspeitos do general chefe do Gabinete Institucional da Presidência da República, porém, tem nome e sobrenome - Daniel Dantas - e sobre isto ele continua devendo à sociedade as informações que devem ter balizado sua convicção.

Rosângela Bittar é chefe da Redação, em Brasília. Escreve às quartas-feiras

Quem atira a primeira pedra?


Villas-Bôas Corrêa
DEU NO JORNAL DO BRASIL


Veio mesmo a calhar, como se fosse encomenda com data marcada para a entrega, a festança cívica que acaricia os nossos maltratados brios patrióticos, da abertura pelo presidente Lula da produção do pré-sal na área do campo de Jubarte, em Vitória, com a promessa de miraculosa reserva de petróleo nas profundezas do oceano.

As dúvidas dos técnicos forradas de cautelas quanto às dificuldades a serem vencidas em prazo calculado em anos não empanam o feito da Petrobras nem tisnam a euforia presidencial.

Mas, na retaguarda, fermenta a crise inédita da denúncia confirmada do grampeamento clandestino do telefone do gabinete do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Gilmar Mendes, com a publicação da sua conversa com o senador Demóstenes Torres (DEM-GO).

A esperada reação do presidente do STF, com o apoio unânime dos ministros, envolveu os três poderes, em graus diferentes de suspeição, com todos os riscos de evoluir para uma crise institucional. Ao Congresso chegou com a imediata reação do presidente do Senado, Garibaldi Alves (PMDB-RN), e o apoio do plenário. E transbordou para a Câmara dos Deputados.

Sob pressão e com o senso político da sua esperteza, o presidente Lula cedeu às indignadas exigências do STF e do Congresso, com a demissão da cúpula da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) acusada de responsável pelos grampos, demitindo toda a sua diretoria, a começar pelo diretor-geral, Paulo Lacerda.

Muita água suja vai correr pelos vazamentos das suspeições que já se ampliam no jogo de desmentidos e na troca de farpas entre os suspeitos.

Mas, no fundo da cisterna, ainda intocada, pousa a crise institucional que lavra nos três poderes, em níveis variados de culpas.

O Supremo foi surpreendido quando desfrutava o merecido reconhecimento pela ousada decisão de derrubar a farra do nepotismo que, desde sempre, campeia à larga em todo o mastodôntico monstrengo burocrático, a começar pela intumescência do patusco ministério de 37 titulares com tão pífios resultados setoriais.

E como o desequilíbrio do tropeço quase sempre provoca novo escorregão, a toga não resistiu à tentação de entrar no forró da criação de milhares de cargos, muitos de livre nomeação, sem o democrático concurso público.

O Legislativo está sendo exposto ao ridículo do horário de propaganda eleitoral para a eleição de prefeitos e vereadores. Dos programas que tenho assistido por penoso dever profissional, o desfile dos pretendentes ao sacrifício da administração dos municípios, com as devidas ressalvas, não chega a espantar o voto e envergonhar o eleitor. Mas, o que os partidos oferecem à escolha do eleitorado para as câmaras municipais, francamente, parece deboche. Há exceções, poucas que não chegam para compor o plenário do Legislativo de um município médio. Ora, a base de partidos finca a sua estaca nos municípios, como é de veneranda evidência.

O governo é o que estamos enxergando a olho nu no emaranhado da sua bagunça com altos índices da popularidade de Lula. Êxitos setoriais importantes são por ele valorizados – seu melhor e mais aplicado divulgador. Com os delirantes exageros que atropelam a forçada euforia da badalação de cada dia.

A gravidade da escuta clandestina dos telefones dos presidentes do Supremo e do Senado, de senadores e, provavelmente, de deputados, dependendo da sua evolução, pode incendiar a crise institucional que chamusca a autoridade do presidente da República.

Alguém precisa atirar a primeira pedra.

Como acontecem os fenômenos


Marcos Coimbra
DEU NO ESTADO DE MINAS


Não há nada parecido em nossa história eleitoral. Crescer mais de 30 pontos porcentuais em oito dias é o mais rápido e mais forte crescimento que já tivemos em eleições brasileiras

No final da semana passada, logo após a divulgação da mais recente pesquisa do Ibope sobre a sucessão em Belo Horizonte, a candidata do PCdoB Jô Moraes deu uma declaração que revelava todo seu desapontamento com o que está acontecendo na cidade. Política experiente, não se conteve na expressão da surpresa perante um fato que, temos que concordar, é mesmo surpreendente.

Segundo suas palavras, era preciso entender “um fenômeno meteórico eleitoral nunca antes visto numa campanha eleitoral”. Estava se referindo, é claro, ao crescimento da candidatura de Márcio Lacerda à prefeitura da cidade. E, embora tentasse fazer uma certa ironia, parodiando o modo de falar de Lula, suas palavras nada tinham de brincadeira.

Nas pesquisas feitas antes do início da propaganda eleitoral pela televisão e o rádio, que começou no dia 19 de agosto, o candidato da coligação capitaneada pela dobradinha PSB/PT, que tem o apoio de Aécio Neves, alcançava modestos 8% a 9%. Era aonde tinha chegado crescendo lentos 3 pontos porcentuais, vindo dos 6% que obtinha na segunda quinzena de julho.

Ou seja, levara quase um mês para ficar ainda abaixo de 10%.

Na primeira pesquisa após o início da propaganda, Márcio Lacerda, de acordo com dados do Datafolha, mais que dobrou esse patamar, saltando de 9% para 21%. Entre os dias 13 e 22 de agosto, subiu 12 pontos, perto de 1,5% ao dia, em média.

Na verdade, como mostram outras pesquisas internas, praticamente todo esse crescimento aconteceu em dois ou três dias, de 19 de agosto em diante. Em outras palavras, a taxa de crescimento esteve mais próxima de 4% ao dia, em média.

Tem, portanto, alguma razão Jô Moraes quando fala em meteorito. Ela, provavelmente, esperava que Lacerda crescesse depois que a propaganda começasse, mas não na velocidade que apresentava.

O problema, para ela, é que Lacerda continuou em forte crescimento. Entre os dias 26 e 28 de agosto, o Ibope fez nova pesquisa, na qual ele chegou aos 40%. Se tomarmos o último dia da pesquisa do Datafolha como referência, ele voltou a dobrar suas intenções de voto, de 21% para 40%, em apenas seis dias, entre 22 e 28 de agosto. Outra vez, sua taxa de aumento ficou próxima de 4% ao dia.

Não há nada parecido em nossa história eleitoral. Crescer mais de 30 pontos porcentuais em oito dias é o mais rápido e mais forte crescimento que já tivemos em eleições brasileiras.

Onde não existe televisão, isso nem sequer é possível. Nas que tivemos em cidades maiores ou em estados, nunca aconteceu, ou, pelo menos, não há registro. O que está acontecendo este ano em Belo Horizonte deixa longe os casos conhecidos de “fenômenos eleitorais”.

A explicação do crescimento de Márcio Lacerda é aparentemente simples e está na ponta da língua dos eleitores da cidade. Todos dizem que “com os apoios que tem”, não há mistério algum.

Mas é mais que isso. Apoio, todo candidato tem ou diz ter. Liderança, muitos políticos têm e a empregam para impulsionar seus correligionários. Todos os governadores têm candidatos, assim como a maioria dos prefeitos.

Aécio e Pimentel estão mostrando que têm mais que isso. Têm a admiração e o respeito de quase toda a cidade, como mostram as pesquisas. Tanta que o candidato que apresentaram merece um crédito sem precedentes, em Belo Horizonte ou qualquer outro lugar.

Jô Moraes só se equivocou em uma coisa: os meteoritos caem.

Márcio Lacerda não dá nenhuma mostra de que vá cair.