sábado, 26 de abril de 2014

Portugal relembra dividido os 40 anos da Revolução dos Cravos

Nos 40 anos de volta à democracia, país tem militares e governos em lados opostos; racha é expresso até no visual

Jair Rattner – O Globo

LISBOA — Nos últimos cem anos nenhum evento foi mais importante em Portugal que a Revolução dos Cravos, que completou 40 anos ontem. Mesmo assim o país comemorou a data dividido. De um lado ficaram os militares que organizaram e dirigiram o movimento que fez com que Portugal voltasse a ser uma democracia, após 48 anos de ditadura. Do outro, o governo, atual maioria, que segue o programa de resgate financeiro do país, elaborado pela Comissão Europeia, pelo Fundo Monetário Internacional e pelo Banco Central Europeu.

Os militares que fizeram a revolução não compareceram às cerimônias oficiais no parlamento — disseram que só estariam presentes se pudessem fazer discurso, o que habitualmente fica reservado ao presidente e aos partidos políticos. Em vez disso, eles se reuniram na Associação 25 de Abril e organizaram uma celebração no Largo do Carmo, lugar onde os dirigentes do antigo regime se renderam. Vários políticos de esquerda e centro-esquerda, incluindo o ex-presidente e fundador do Partido Socialista, Mário Soares, marcaram presença no evento alternativo e não foram ao Parlamento.

Racha expresso até no visual
A divisão está estampada até nos cartazes de cada um dos lados. Enquanto o símbolo das comemorações da revolução no Parlamento é o cravo vermelho, a Associação 25 de Abril escolheu um cartaz com fundo vermelho e um enorme ponto de interrogação amarelo no centro, uma espécie de questionamento a respeito do futuro. A acusação por parte dos militares é que o governo atual perdeu a legitimidade.

— Temos um poder que se comporta como herdeiro dos vencidos no 25 de abril. Hoje é legítimo o direito à resistência, o direito à desobediência e o direito à insubordinação. Não defendemos um novo golpe militar, mas esta situação é impossível de continuar. Estão vendendo o país por uma ninharia — afirma o presidente da Associação 25 de Abril, o tenente-coronel da reserva Vasco Lourenço.

O atual sentimento de revolta dos militares é fruto do que eles consideram uma traição aos ideais da revolução. O programa do movimento era resumido em três “D”: democratizar, descolonizar e desenvolver o país. O país já deu a independência a sua colônias na África e na Ásia, tem uma democracia parlamentar que funciona com alternância entre partidos no poder e os índices de desenvolvimento do país deram um salto. Mas muitas conquistas do 25 de abril estão sendo questionadas por conta do programa de austeridade que o governo está seguindo — o terceiro resgate do país desde que voltou a ser uma democracia.

Para cada grupo, um significado
Em seu discurso do 25 de abril, Luís Montenegro, o líder parlamentar do partido governista social democrata, afirmou que o governo está fazendo o mesmo que os militares fizeram: “Há 40 anos saímos de uma longa noite de ditadura. Hoje, queremos e vamos sair de uma outra noite, a terceira que vivemos em 40 anos, em que hipotecamos a nossa liberdade e em que fomos obrigados a viver um tempo especial de sofrimento”.

Cada grupo político procura dar um significado diferente à Revolução dos Cravos. Enquanto a esquerda defende que a principal herança do 25 de abril são as conquistas sociais, em um discurso em março deste ano, o primeiro-ministro Pedro Passos Coelho dirigiu-se ao maior partido da oposição, o Socialista, dizendo que a maior homenagem que poderia ser feita à revolução seria um consenso para seguir as metas do programa de austeridade, que tem, entre as propostas, a de reduzir a escolaridade gratuita de 12 para 9 anos, o aumento das taxas para o atendimento nos hospitais públicos e a redução do valor das aposentadorias.

Alguns dados indicam o desenvolvimento ocorrido após a Revolução dos Cravos. O analfabetismo alcançava 33% da população em 1974 e hoje é residual, abaixo de 8% e apenas na população mais idosa. Em 1970, só 7% dos jovens entre 18 e 22 anos estavam na universidade, e no ano 2000 essa cifra chegava a 53%. Em 1970, a mortalidade infantil chegava a 55 por mil em Portugal e em 2012 ficou em 3,4 por mil — uma das dez mais baixas do mundo. Em 1970 a expectativa de vida era de 67,1 anos, já em 2011 chegava a 79,8.

Além desses indicadores, outros direitos foram conquistados: foi abolida a censura, não há mais presos políticos e, até 1974, as mulheres não podiam viajar sem autorização do pai ou do marido. Atualmente, é claro, podem. Marcas do movimento, no entanto, permanecem. Até a revisão constitucional de 1982, o poder civil era tutelado pelo Movimento das Forças Armadas e, ainda hoje, o preâmbulo da Constituição portuguesa afirma que as mesmas Forças Armadas têm como objetivo “abrir caminho para uma sociedade socialista”.

Zuenir Ventura: De volta à terrinha

Em 1974, Portugal estava dividido entre os que já tinham se esquecido da liberdade e os que não a tinham conhecido

- O Globo

Estou voltando a Portugal 40 anos depois. Já vim outras vezes, mas esta é especial, porque foi para as comemorações da Revolução dos Cravos, uma de minhas coberturas jornalísticas mais emocionantes. Escrevi então que desembarcara em Lisboa “em meio a uma saudável confusão que lembrava carnaval, celebração de vitória esportiva e comício político — uma festa cívica como Portugal não via há quase 50 anos e com a qual o Brasil sonhava há dez”. De fato, um mês antes, completávamos uma década de golpe militar. A explosão de alegria dos lisboetas reencontrando o prazer da rua era um “incrível espetáculo para quem chegava de fora. Sem qualquer objetivo definido, eles pulavam, cantavam, corriam e, sobretudo, falavam. Era como se tivessem descoberto a própria voz”, pois o país estava dividido entre os que já tinham se esquecido da liberdade e os que não a tinham conhecido.

Contagiado pela euforia daquele povo que de repente se embriagava de liberdade, eu me sentia como se aquela conquista fosse um prenúncio. Era como se estivesse chegando a hora de derrubarmos também a nossa ditadura. Glauber Rocha, que estava na Itália ainda coberto de lesões morais, foi encontrar-se comigo em Lisboa. No mês anterior ele me dera uma entrevista elogiando Geisel, chamando o general Golbery de “gênio” e afirmando que os militares eram “os legítimos representantes do povo”. Como consequência, sofrera um linchamento simbólico no Brasil e na Europa — era um traidor, vendido à ditadura.

Filmando as festas do 1o de Maio, ele parecia estar indo à forra. Seus detratores iriam ver que ele tinha razão. Com uma câmera emprestada, registrava aqueles acontecimentos como que se preparando para em breve fazer o mesmo no Brasil. O diretor de “Deus e o Diabo na terra do sol” morreu sem ver a liberdade, que de resto não irrompeu aqui da mesma forma intempestiva, mas a conta-gotas. A democracia levou mais uma década para chegar, e chegou cheia de cuidados, como que pedindo licença. Chico Buarque e Ruy Guerra haviam cantado com ironia em “Fado tropical” que o Brasil iria ser um imenso Portugal em matéria de atraso político. De repente, o pesadelo virara sonho, e passamos a querer ser de fato um imenso Portugal pela lição que estávamos recebendo.
Hoje, o país enfrenta uma séria crise econômica, com desemprego, queda de salários e corte de aposentadorias. A austeridade imposta pela Troika (FMI, Banco Central Europeu e Comissão Europeia), em troca de assistência financeira, está provocando uma insatisfação generalizada. Mas, apesar disso, ditadura nunca mais, espera-se.

A democracia que falta, segundo Mário Soares

Mário Soares: "Tenho esperança de que os partidos populistas venham a sucumbir e que a Europa possa voltar a ser o que foi, socialista ou democrata-cristã e de esquerda"

Francisco Góes – Valor Econômico

Mário Soares, ex-presidente e ex-primeiro ministro de Portugal, já foi descrito, em seu país, como "pai da democracia". Em 1974, foi um dos líderes que surgiram com a Revolução dos Cravos, conduzida pelos militares. Em 2014, prestes a completar 90 anos - em 7 de dezembro -, Soares continua em atividade. Escreve todas as semanas no "Diário de Notícias", de Lisboa, e preside a Fundação que leva seu nome. "Apesar de não desempenhar nenhum cargo no PS [Partido Socialista], mantém enorme influência no partido e continua a ser escutado pela opinião pública", diz o historiador David Castaño, autor do livro "Mário Soares e a Revolução".

Nesta entrevista ao Valor, Soares mostra preocupação com os rumos da democracia e o regime de austeridade a que a economia do país foi submetida. "Como diz o papa Francisco, [a austeridade] mata."

Valor: Quais são as principais heranças deixadas pela Revolução dos Cravos quando se olham esses 40 anos em retrospectiva?

Mário Soares: As heranças deixadas pela Revolução dos Cravos foram imensas. Digo por ordem cronológica: a liberdade, a paz, a descolonização, o fim das guerras coloniais, o Estado social, a ciência ao nível de todos, como a cultura e as artes, a concertação coletiva entre empresários e sindicatos, o Serviço Nacional de Saúde, os direitos humanos, o auxílio importante dado aos retornados [portugueses que voltaram das colônias depois da revolução], a adesão à União Europeia e o intercâmbio com todos os Estados democráticos. Foram os militares - e só eles - que fizeram a Revolução dos Cravos, que entusiasmou a Europa e o mundo, e que abriram depois as portas aos partidos políticos. A consolidação democrática foi feita depois do 25 de novembro de 1975 [quando os militares puseram fim à influência da esquerda radical no país]. Portugal nunca poderia ser, como se disse, a "Cuba europeia". Nem os soviéticos nunca o quiseram. Estavam em plena détente [distensão] com os Estados Unidos e a Europa.

Valor: Sua vivência naqueles fatos que levaram Portugal à democracia comprova a ideia dos indivíduos como agentes da história? O senhor concorda com essa ideia?

Soares: É evidente. Não as pessoas em si, mas o povo no seu conjunto.

Valor: Sua história política se confunde com a luta pela democracia. Até que ponto essa luta determinou a instauração de um regime democrático em Portugal nos moldes que vemos hoje?

Soares: Eu fiz o que pude. Mas quem determinou uma verdadeira instauração de um regime democrático consolidado foi o Partido Socialista no seu conjunto, e de norte a sul, sem desfazer quanto aos outros partidos democráticos e aos independentes.

Valor: Como vê a democracia hoje em Portugal e também no mundo? Quais são as perspectivas para a democracia?

Soares: Muito mal. Na Europa e no resto do mundo, embora, felizmente, com a exceção dos Estados Unidos e da maioria dos Estados latino-americanos. Tenho esperança, no entanto, de que a Europa possa voltar a ser o que foi e que os partidos populistas, mesmo quando se intitulam falsamente social-democratas, venham a sucumbir e a Europa possa voltar ao que era, socialista ou democrata-cristã e de esquerda.

Valor: Como explicar a baixa satisfação de Portugal com a democracia?

Soares: Por que o atual governo procede de forma antidemocrática, destruindo o Estado social, o Serviço Nacional de Saúde, bem como a Justiça, dado que os corruptos estão todos impunes. As grandes desigualdades sociais são o produto do atual governo, para o qual só conta a Troika [Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional]. Também a União Europeia, que perdeu, com a chanceler [Angela] Merkel [da Alemanha], a solidariedade entre os Estados europeus.

Valor: O que mudou em Portugal em 40 anos?

Soares: Nos primeiros 37 anos, tudo mudou para incomparavelmente melhor. Nos últimos três anos, tudo mudou, do que se conseguiu e foi imenso, com o atual governo, mas para pior.

O ex-presidente reclama a demissão do atual governo, o "desaparecimento" da Troika e o fim da austeridade, que, diz o papa, "mata"

Valor: O que precisa ser feito para Portugal retomar uma trajetória de crescimento econômico, criação de empregos e melhoria das condições de vida dos portugueses?

Soares: A demissão do atual governo, o desaparecimento da Troika e o fim da austeridade, que, como diz o papa Francisco, mata.

Valor: Quais são as razões para a crise enfrentada pelo país?

Soares: A crise começou na América [EUA], que, felizmente, a superou. Mas não na Europa, onde tem ido de mal a pior.

Valor: Em 1970, em Nova York, o senhor afirmou que a democracia era incompatível com o prosseguimento da guerra colonial. Como avalia a situação atual das ex-colônias africanas?
Soares: É verdade. São todos [países] independentes, adotaram o português, têm progredido e pertencem à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, inclusive o Brasil, o nosso país irmão.

Valor: No governo de Marcello Caetano (1968-1974), ainda no Estado Novo, o senhor foi acusado de ter praticado "atos lesivos ao bom nome de Portugal". Enfrentou mais de dez prisões, deportação para São Tomé e o exílio. O que ficou de lembrança desse difícil período?

Soares: É exato. Falta dizer que só uma vez fui julgado. Mas a deportação para São Tomé e depois a expulsão de Portugal foi sempre sem julgamento prévio. Antes, de puro arbítrio.

Valor: Quais as marcas que perduram em Portugal, resultantes daqueles longos meses de transição política entre 1974 e 1975?

Soares: Naquele período, fui [como ministro dos Negócios Estrangeiros] convencer os dirigentes dos países que nos fizeram a guerra que, após o 25 de Abril, íamos, como membros da ONU [Organização das Nações Unidas], a reconhecer a autodeterminação das nossas colônias.

Valor: No livro "Mário Soares e a Revolução", o historiador David Castaño diz que o senhor continua a ser visto, na esquerda, como alguém que se aliou à direita e impediu que se tentasse aplicar em Portugal um projeto alternativo à democracia pluralista do tipo ocidental. A direita, apesar de reconhecer o seu papel em 1975, continua a argumentar que o senhor contemporizou bastante com os comunistas. Concorda com essa visão?

Soares: O livro de David Castaño é excelente, cuja leitura me sensibilizou muito. Agradeci-lhe em público. Quanto ao que disseram outras pessoas, nunca me interessou nada. E não vou gastar o meu tempo com isso.

Valor: O que o senhor espera para Portugal quando está chegando ao fim a ajuda dos programas financeiros da Troika?

Soares: Lá chegará a altura em que a Troika deixará de aproveitar o dinheiro [como o pagamento de juros sobre os empréstimos] que o atual governo, com total subserviência, lhe dá, muito dele tirado do empobrecimento dos portugueses.

Valor: Como os portugueses vão continuar a conviver com as políticas de austeridade impostas pela União Europeia? Quanto tempo mais de austeridade aguenta o povo português?

Soares: A austeridade mata, como disse o bom papa Francisco. Enquanto houver Troika e governo [a coligação PSD-CDS], a austeridade continua a desgraçar o povo português, que realmente não aguenta por muito mais tempo.

Valor: Em artigo recente, o senhor disse que não haverá uma saída limpa para Portugal. Como será a saída, então?

Soares: Não será limpa. Será para o atual governo muito suja.

Valor: No mês passado, o presidente Aníbal Cavaco Silva perguntou, em discurso, se os partidos portugueses só são capazes de se entender em situações de emergência. Ele citou conversações ocorridas em 2013 com vistas a um programa de salvação nacional que permitiria ao país voltar a acessar os mercados. Por que não foi possível chegar a um acordo político interpartidário?

Soares: É óbvio que não há acordo. Parece que quem faz tal pergunta [Cavaco Silva] quer um governo de salvação nacional. Eu também. Mas para isso era necessário que o atual governo se demitisse. Mas o presidente Cavaco Silva até agora nunca teve coragem de demitir o governo.

Valor: No Brasil, a Comissão da Verdade está investigando os abusos cometidos pela ditadura militar. Em Portugal, não houve necessidade de um "acerto de contas" com aqueles que conduziram o país por anos de ditadura? Como avalia a iniciativa brasileira?

Soares: É verdade. Os militares de Abril foram extremamente tolerantes e pacíficos. Sempre os admirei - e admiro - por isso. Quanto aos brasileiros, não posso pronunciar-me. Como grande amigo do Brasil, como sou, devo respeitá-los.

O poeta do espanto

Mesmo quando você escreve sobre algo doído, você cria uma alegria estética. Você escreve para sublimar, superar, não para maltratar mais ainda

Adriana Abujamra - Valor Econômico

Ferreira Gullar vive há mais de 30 anos no primeiro andar de um prédio antigo em Copacabana. De lá não arreda pé. "Nunca! Já pensou na quantidade de livros que teria que transportar? Só a trabalheira já me faz desistir." O poeta, aos 83 anos, mora só. A não ser pela gata siamesa que anda pelos cantos, invade sua cama e suas crônicas.

As paredes estão abarrotadas de quadros. Tem, entre outros, Iberê Camargo, Samico, Niemeyer e um desenho do filho Marcos, que já morreu. Há ainda obras de sua autoria, como os móbiles coloridos, em estilo Calder, e colagens em relevo, que serão expostas na galeria Dan em São Paulo. "Mas eu não sou artista plástico, faço por hobby", vai logo avisando. Pintar, recortar e colar - sobre a mesa de madeira escura que fica no centro da sala - é sua maneira de se abstrair de tudo. "Me delicio em fazer. Não tem corrupção, perdas, filho morto, amigos que se foram. Neste momento eu sou só um cara que lida com cores", costuma dizer.

Mas hoje teve de encarar um vazamento no banheiro que por pouco não dissipou as cores de sua segunda-feira. Depois de passar a manhã às voltas com o contratempo, largou o encanador e a gata, com sua mania de se esconder de estranhos, vestiu uma camisa listrada e veio caminhando para este "À Mesa com o Valor". O poeta é figura conhecida no La Trattoria. Os garçons sabem que o homem come pouco. Qualquer que seja o prato, o freguês traça apenas a metade. A outra ele leva para casa - "é minha quentinha". Vem daí seu apelido de "Meia Porção" - dado por sua namorada, a poeta carioca Claudia Ahimsa, 34 anos mais jovem.

Periquito, conta, é outro de seus apelidos. Mas esse é antigo que só. Vem lá dos tempos de garoto "nordestino/ mais que isso/ maranhense/ mais que isso/ são-luisense..." Moleque, gostava de vagabundear com seus amigos que respondiam pela alcunha de Esmagado e Espírito. O trio costumava jogar pelada, surrupiar copos de botequim e se enfurnar nos cinemas da cidade. Quando o furto era farto, iam ao Éden, a sala de cinema mais pomposa de São Luís, e de lá jantar em qualquer birosca da redondeza.

Cama em casa era artigo de luxo destinado apenas aos pais. Os rebentos dormiam em redes. "Dez filhos! Como ia caber tanta cama?" O quintal era cheio de galinhas, plantas e formigas. "Onde há formigueiro, há ouro", diz a lenda popular de sua terra. Um dia Gullar e suas irmãs encasquetaram com o dito. E se for verdade? Cavaram obstinadamente o chão do quintal de onde brotavam saúvas vermelhas em busca do tal tesouro. No meio da empreitada desabou uma tempestade. Resumo da ópera: formigueiro inundado, molecada enlameada e sonho da fortuna enterrado. O episódio, como tantos outros de sua infância, ficou cravado em sua memória e serviu de mote para um de seus primeiros poemas concretos, "O Formigueiro". Nele, as letras dispersas nas páginas lembram formigas e, como no quintal, traçam ali o mapa do ouro.

O papo está bom, mas poesia não alimenta. Vamos pedir? Gullar vai de suco de laranja e bife grelhado com legumes. "Ah, sem as batatas!", avisa o homem que, magérrimo, está de dieta para controlar o índice de glicose no sangue. "Prefiro não abusar." O garçom se afasta e o assunto volta.

O pai, Newton, depois de uma carreira como jogador de futebol, passou a tocar uma quitanda. Em suas viagens de trem para comprar mercadoria em outra cidade, às vezes, levava junto o moleque. O trem saía de madrugada e, ao amanhecer, cortava um vasto pantanal. Gullar grudava os olhos na janela, deslumbrado - "e como era grande o mundo/ há horas que o trem corria/ sem nunca chegar ao fim..."

"Poema Sujo" - escrito em Buenos Aires, durante seu exílio, depois do golpe de 64 - resgata essa experiência. "Lá vai o trem com o menino/ Lá vai a vida a rodar/ lá vai ciranda e destino/ cidade e noite a girar..." - trecho que virou letra de "Trenzinho Caipira", de Villa-Lobos. A memória, resgatada em vários de seus poemas, diz, é também inventada. A quitanda de seus versos não é exatamente a quitanda de seu pai. "É uma quitanda transformada, transfigurada. É como eu gostaria que fosse."

Depois de um gole de suco, conta que livro era raridade em sua casa, fora um ou outro de história policial. Gullar descobriu a poesia por acaso. Tinha por volta de 13 anos quando escreveu uma redação na escola sobre o Dia do Trabalho, "justamente o dia em que ninguém trabalhava!" A professora, maravilhada, leu em público, na frente de seus colegas. O menino só não ganhou a nota máxima porque cometeu alguns erros de ortografia. Ah, é? Disse para si: "Se eu quiser ser escritor não posso errar no português".

E assim passou dois anos lendo livros de gramática. Um desses livros continha uma antologia de poetas, o que o despertou para esse tipo de produção literária. "Só estranhava que todos já estivessem mortos. A poesia me parecia uma profissão de defuntos", comenta, rindo. Até que conheceu o pai de uma amiga. Esse senhor, metido em sandálias e camiseta, era membro da Academia Maranhense de Letras. "Ele me apresentou uma quantidade de poetas, todos vivos! Aí entrei na vida literária." Abandonou a escola e nunca foi à faculdade. Buscou, por conta própria, as respostas exigidas por sua curiosidade intelectual. Gullar, que havia se formado lendo poesia parnasiana, descobriu que o material para a arte não precisava vir de um universo idealizado, mas da vida banal, cotidiana.

Depois de ganhar um prêmio de poesia concedido por uma revista literária do Rio, decidiu abandonar o cenário provinciano de sua infância e partir para a capital fluminense. Ele não tinha a menor ideia de como atravessar aquelas avenidas com quantidades enormes de carros circulando. Na certa seria atropelado, pensou. Foi quando uma alma boa apareceu em seu socorro e disse: "Rapaz, para atravessar a avenida você tem que ir até a esquina onde está o sinal luminoso". Perdeu o medo das avenidas, mas ganhou outro, de avião. "Viajei por 50 anos de avião. Acho que já dei chance suficiente para ele cair, agora não dou mais."

“Sempre quis me comunicar, não quero ser um gênio maldito”, diz o poeta, que participa do Flipoços, festival literário que ocorre até o dia 4

O garçom aparece com os pratos. O nosso é farto, já o do Meia Porção... Quando o moço se afasta, Gullar fala sobre seu livro "A Luta Corporal", lançado quando ele tinha 23 anos. "A 'Luta' me levou a desintegrar a linguagem. Mas não fiz de propósito. Pelo contrário. Destruí meu instrumento de trabalho, fiquei sem rumo." O poeta percebeu que seria impossível continuar escrevendo daquela maneira, pois ninguém entenderia. "Sempre quis me comunicar, não quero ser um gênio maldito.

Aquilo foi um caminho que eu me meti em função de minhas indagações e foi justamente na época em que a poesia brasileira tinha voltado ao verso rimado e metrificado."

Depois do lançamento de "A Luta Corporal", os irmãos Haroldo e Augusto de Campos e Décio Pignatari procuraram Gullar para falar sobre a destruição da poesia e propuseram o concretismo como um novo caminho poético. O movimento trocou o discurso pela sintaxe visual. "O Formigueiro" é dessa época.

"Mas os irmãos Campos diziam que isso não era poesia concreta!", diz, indignado, mexendo as mãos enormes. "Eles tinham uma concepção que era uma bobagem. Inteligentes, mas muito teóricos, e inventaram que a poesia concreta deveria se feita matematicamente. Coisa de doido, né? Tudo besteira! Matemática é uma linguagem e poesia é outra. Arte não pode ser tão somente uma atividade racional. Aí rompemos." Finda a fala e espeta com gosto um pedaço da carne. "Poesia não é uma coisa que se controle. Ela nasce de algo que se revela inesperadamente."

Como no dia em que, caminhando pela orla da praia, deparou com uma nesga azul no céu. "Linda. Aí falei. Poxa! Meu filho costumava passear por aqui, deve ter visto uma nesga azul como essa. Ele estava dentro de mim vendo o céu. No momento em que pensei isso nasceu o poema. 'Os mortos veem o mundo pelos olhos dos vivos/ eventualmente ouvem com nossos ouvidos'. Mas não é uma coisa deliberada, compreende? Quantas vezes eu andei por aí e nada?" Larga os talheres no prato e diz que a arte é feita para criar alegria, beleza e emoção. "Mesmo quando você escreve sobre algo doído, você cria uma alegria estética. Você escreve para sublimar, superar, não para maltratar mais ainda."

Deixa as palavras ressoando no ar antes de contar como surgiu um outro poema. Estava no centro da cidade, pronto para atravessar uma avenida, quando alguém gritou de longe: "Poeta! Oh, poeta!" Gullar interrompeu os passos e encarou o sujeito que se aproximava. "Cara, te admiro. Adoro sua poesia!" Mas o poeta estava chateado, cheio de problemas de família. "Quando ele foi embora pensei: Pô! Este cara me inveja e mal sabe ele o estado em que eu estou."

Aquilo ficou ruminando em sua cabeça até que surgiu o poema "Traduzir-se", musicado por Fagner e cantado por diferentes intérpretes. "Uma parte de mim é todo mundo/ outra parte é ninguém: fundo sem fundo/ Uma parte de mim é multidão/ outra parte estranheza e solidão." Acaba de recitar e continua olhando para a frente, calado. Abaixa o rosto, ajeita um punhado de legumes no garfo e, antes de levá-lo à boca, diz: "Sabe, uma coisa é o ser público, e outra é você mesmo. A cantora Simone me falou: 'Eu sou isto! Eu canto, centenas de pessoas me ouvindo. E depois? Vou para o quarto sozinha, solitária, angustiada'."

"Com licença" - diz um jovem que se aproxima de nossa mesa. "Vim aqui só para dizer que sigo sendo seu fã." Aperta a mão do poeta, balança umas três vezes e vai embora.

Quando o fã se afasta, o poeta - que neste fim de semana está em Poços de Caldas, como patrono do Flipoços, festival literário que ocorre até o dia 4 - diz que a poesia, ao menos no seu caso, só nasce de algo que o surpreenda. Caso contrário, não escreve. Tanto que seu último livro "Em Alguma Parte Alguma" saiu já faz quatro anos. "Quer dizer que eu decidi não escrever? Simplesmente o espanto não aconteceu, então não escrevo." Já suas colunas semanais no jornal "Folha de S.Paulo" têm de sair de qualquer maneira. Os temas são variados - arte, poesia, política, memórias da infância ou qualquer assunto que esteja na pauta do dia. Um dos temas recorrentes é sobre o tratamento de doentes mentais no Brasil. Gullar teve dois filhos com esquizofrenia. Paulo vive em um sítio em Pernambuco. Marcos, que tinha um quadro mais leve da doença, morreu em 1992, de cirrose hepática. O poeta sempre falou abertamente sobre o assunto.

"O estômago não adoece? O rim não adoece?", pergunta deixando os talheres de lado novamente e liberando as mãos, que acompanham a fala. "Então por que o cérebro não adoece? Ele por um acaso é sublime? A única diferença é que adoecer o cérebro sob alguns aspectos é mais grave. Você pode perder a noção das coisas e fazer até o que o filho do Eduardo Coutinho fez com ele", comenta, referindo-se ao cineasta que foi assassinado pelo filho em fevereiro. "O que digo é que a internação é necessária quando a pessoa entra em surto e se torna um perigo para si e para os outros. Ninguém prega internação para sempre. Mas existe aí um movimento de idiotas antimanicomial", diz aumentando o tom de voz, para concorrer com o "Parabéns" cantado em uma mesa ao fundo e também porque está tomado pelo assunto.

"Ninguém é doente mental 24 horas por dia. No último surto, meu filho ligou para mim e disse: 'Pai, vem me internar porque não estou me sentindo legal'. Eles têm uma consciência. Dói internar um filho, mas às vezes não tem outro jeito." Faz dez anos que Gullar não vê o filho, que vive no sítio de um amigo do poeta em Pernambuco. "Mas a gente se fala todo dia por telefone. Lá não entram drogas, ele toma os remédios. Está feliz, namorando."

“Sentia-me dentro de um cerco que se fechava. Decidi então escrever um poema que fosse meu testemunho final”, diz sobre “Poema Sujo”, criado no exílio

Gullar pega novamente os talheres e - enquanto faz pequenas pausas para pegar pequenas porções da comida - conta que a doença surge geralmente na adolescência. No caso de Paulo, o poeta tinha acabado de chegar a Buenos Aires, uma das cidades onde ficou durante os quase sete anos de exílio. "Era um horror. Eu não queria morar fora, aquilo era um castigo para mim." Para evitar que a família toda "pagasse o preço de seu exílio, o que não era justo", a mulher, o caçula e a filha - Luciana - hoje mãe dos seis netos do poeta - retornaram para o Rio. Apenas Paulo ficou com ele. Gullar percebia algo estranho no filho, mas não imaginava o que poderia ser.

"Eu não conhecia a loucura, não conhecia esse troço." Os dois jogavam futebol na sala, de porta aberta, quando a bola caiu pela escada. O rapaz, com 18 anos, foi atrás da bola e não voltou mais. Desapareceu. Gullar saiu feito doido pelas ruas, mas não o encontrou em parte alguma. Desistiu e voltou para casa na esperança de que Paulo voltasse. Nada. Foram duas semanas de desespero até descobrir que o filho estava em uma delegacia. Tinha sido pego tentando roubar um carro. O detalhe é que ele não sabia dirigir. Gullar levou Paulo, que estava magérrimo, para um hospital psiquiátrico, onde ficou internado até que saísse do surto. Em poucos dias Paulo fugiu de lá também. Seu paradeiro só foi descoberto dois meses depois. Conseguiu viajar, sozinho, de Buenos Aires ao Brasil: "Veio de carona, a pé, fez o diabo!"

Foi no meio de tudo isso que Gullar escreveu "O Poema Sujo", considerado sua obra-prima. Além das preocupações familiares, o poeta estava exilado, com passaporte vencido e pavor de morrer. "A cada manhã novos cadáveres eram encontrados" - diz no prefácio do livro. "Sentia-me dentro de um cerco que se fechava. Decidi então escrever um poema que fosse meu testemunho final, antes que me calassem para sempre... Queria resgatar a vida vivida... talvez quem sabe para encontrar amparo no solo afetivo da terra natal."

Quando o garçom leva os pratos, não há mais quase ninguém no restaurante. A não ser uma cliente que almoça sozinha e, antes de ir embora, passa para dizer que admira o poeta. O Meia Porção dispensa sobremesa. E, já mexendo o café, fala sobre sua atuação política na época da ditadura. Gullar se filiou ao Partido Comunista no dia seguinte ao golpe. "Nós estávamos iludidos, como se fosse de fato possível manter Jango no poder, criar o início do socialismo. Era uma ingenuidade." Chegou a ser convidado por Mário Alves - dirigente comunista morto durante a ditadura - a participar da luta armada, mas achou a ideia descabida. Argumentou que aquilo era uma bobagem, um suicídio. Para as próximas eleições, diz sorvendo o café, ainda não definiu o voto. Está entre Aécio e Eduardo Campos. "Só sei que não vou votar na 'presidenta' Lula."

O garçom aparece com a conta e a "quentinha" do poeta. Vamos, fotógrafo e repórter, caminhando juntos até a casa de Gullar, com uma pausa na praia para mais algumas fotos. Passamos por algumas esculturas de areia com formas de mulheres de biquínis cavados deitadas de bruços. "E isto, é arte? Pode ir para um museu?", provoca a repórter de brincadeira. É que o poeta - que há oito anos parou de frequentar as bienais - havia dito no almoço que hoje em dia qualquer bobagem que entra em um museu é chamada de arte. "É uma boa ideia mandar urubu para museu? Outra coisa: por que casal nu no MoMA é obra de arte e na casa da mulher não? Quer dizer que é o museu que faz a besteira virar obra de arte? Um casal nu na rua não é arte, mas no museu é? Hoje tudo é chamado de arte contemporânea, mas a maioria não é arte coisa nenhuma. A 'Monalisa' não precisa de museu para ser arte, mas o casal nu só é arte no museu. Vem cá, não dá!" O artesão da obra de areia se aproxima. Não está interessado na discussão filosófica, mas na "quentinha" que o poeta traz na mão. "Cara, eu não tenho cozinheira, quem vai fazer a comida pra mim?", Gullar diz, sem desgrudar de sua marmita.

No Rio, o poeta não vive desamparado. Conta com Maria, que há 20 anos trabalha para a família. Duas vezes por semana ela - "minha amiga e companheira" - limpa a casa e faz uma comida fresca. Foi Maria quem encontrou Thereza Aragão - mulher de Gullar e mãe de seus filhos - morta na cama em 1994. "Thereza tomou banho, vestiu um roupão branco e se deitou. Não levantou mais." Fumante inveterada que era, teve um enfarte fulminante. O poeta deixou o cigarro há 20 anos, quando descobriu um enfisema.

O fotógrafo pede que Gullar se sente em um banco para as fotos. Ele deixa que eu cuide se sua "quentinha", cruza as pernas e olha para a frente, contemplativo. Uma pomba entra no quadro, rodeia o poeta e arranca-lhe um sorriso.

Chico Buarque:Tanto Mar 1ª e 2ª Versão

Graziela Melo: Arco- íris

O preto
e a cor
da noite

A manhã,
dourado
cintilante,

à tarde
o cinza claro
amortecido

simboliza
o amor
perfeito...

O cinza-escuro
a saudade
do meu peito

que me
atormenta
quando quero
estar contigo...

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Opinião do dia: José Serra

A lei do máximo de palavras para um mínimo de conteúdo está acoplada a três "antileis" afins, a começar pela que estabeleceu que a menor distância entre dois pontos não é uma linha reta, mas alguma curva tridimensional e espiralada, teorema antieuclidiano que o governo Dilma segue à risca. Outra "antilei" sagrada tem origem na volta ao geocentrismo, ou seja, à ideia de que o sol e os planetas giram em torno da Terra, que é o centro do universo. A presidente Rousseff e o PT se comportam como se fossem o centro do universo brasileiro, em torno do qual tudo e todos têm de girar: o conhecimento, a moral, a ética, a Justiça, a imprensa e todos os políticos e seus respectivos partidos.

José Serra, ex-prefeito e ex-governador de São Paulo. “As quatro leis da entropia petista”. O Estado de S. Paulo, 24 de abril de 2014.

Relatório da PF sugere que Alexandre Padilha indicou executivo para laboratório de doleiro

Suspeita é levantada a partir de conversas de doleiro Alberto Youssef com deputado André Vargas

Fausto Macedo e Andreza Matais – O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO e BRASÍLIA – Relatório da Operação Lava Jato da Polícia Federal sugere que o ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha, pré-candidato do PT ao governo de São Paulo, indicou um executivo para o Labogen – controlado pelo doleiro AlbertoYoussef, o Primo – quando o laboratório tentava obter contrato milionário da pasta em 2013.

O documento mostra ainda que Youssef, preso desde 17 de março de 2014, mantinha contatos com outros deputados do PT, além de André Vargas (PT-PR).

A PF suspeita que o doleiro se encontrou com Vargas no apartamento funcional do ex-líder do governo na Câmara Cândido Vaccarezza (PT-SP), em Brasília. Também teria enviado um emissário para participar de reunião com Vicente Cândido (PT-SP), em São Bernardo do Campo, no Grande ABC.

O relatório de 80 páginas, da Delegacia de Repressão a Crimes Financeiros (Delefin) da PF, indica que no período de 19 de setembro de 2013 a 12 de março de 2014, Youssef e Vargas trocaram 270 mensagens pelo aplicativo Black Berry Messenger.

Eles se tratam por “irmão” e se despedem com “beijo”. Para a PF, esse tratamento “indica que a relação não era superficial”.

Ex-ministro. No trecho relativo ao ex-ministro da Saúde, a PF captou diálogos entre Youssef e Vargas – este chama Padilha de “Pad”. No dia 26 de novembro de 2013, Vargas pede ao doleiro que reserve a melhor suíte de um hotel – Blue Tree – que pertence a Youssef, segundo a PF. O deputado diz que falou com o “PAD”. “Ele vai marcar uma agenda comigo”, diz Vargas. O doleiro responde: “ótimo”. E elogia a atitude do deputado. “Precisamos estar presentes.”

A PF diz que o Labogen – com folha de pessoal de apenas R$ 28 mil – planejava arrecadar R$ 150 milhões com o negócio na Saúde, fornecimento de remédio para hipertenso. O contrato não chegou a ser assinado e, segundo o ministério, nenhum pagamento foi feito.

Indicado. O executivo que teria sido indicado por Padilha para os quadros do Labogen é Marcus Cezar Ferreira de Moura. Ele havia trabalhado no Ministério da Saúde entre 26 de maio e 1.º de agosto de 2011. Foi assessor da coordenação de eventos na gestão de Padilha.

O ex-ministro não caiu na malha de grampos da PF e nem é investigado, mas a investigação chegou a juntar aos autos da Lava Jato até uma fotografia de Padilha em um evento. “As evidências indicam que Vargas tinha interesse no processo de contratação do Labogen junto ao Ministério da Saúde”, sustenta a PF.

PF suspeita que Padilha indicou diretor de laboratório de doleiro

Labogen foi escolhido pelo Ministério da Saúde ainda na gestão do ex-ministro para firmar negócio de R$ 31 milhões

Jailton de Carvalho – O Globo

BRASÍLIA - Relatório da Polícia Federal sobre uma parte da Operação Lava-Jato pode complicar a situação do ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha, pré-candidato ao governo de São Paulo pelo PT, e do deputado Cândido Vacarezza (PT-SP). Segundo relatório, existem indícios de que o ex-ministro indicou o executivo, Marcos Cezar Ferreira de Moura, para a diretoria do Labogen, laboratório que tem entre seus sócios o doleiro Alberto Youssef, o principal alvo da investigação da PF.

O documento mostra ainda que Vacarezza participou de uma reunião em Brasília com Youssef e André Vargas para tratar de negócios com o doleiro. As informações têm como base conversas entre Vargas e Youssef, gravadas com autorização judicial. Teria também participado do encontro Pedro Paulo Leoni Ramos, ex-ministro do governo do ex-presidente Fernando Collor de Mello.

Numa das conversas com Youssef, em novembro passado, Vargas menciona o nome de Marcos Ferreira, que trabalharia na diretoria do Labogen e diz que a indicação seria de Padilha. Pouco tempo depois da conversa, o Labogen foi escolhido para firmar um contrato de R$ 31 milhões com o Ministério da Saúde, pasta chefiada à época por Padilha. As negociações com Labogen só foram suspensas depois que as relações suspeitas entre Vargas e Youssef foram tornadas públicas.

Numa outra conversa, em setembro passado, Youssef fala sobre uma reunião com entre eles e Pedro Paulo Leoni no apartamento de Vacarezza.

Em nota, Padilha negou que tenha indicado funcionários para o Labogen. "O ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha repudia o envolvimento do seu nome e esclarece que não indicou nenhuma pessoa para a Labogen. Se como diz a Policia Federal, os envolvidos tinham preocupação com as autoridades fiscalizadoras, eles só poderiam se referir aos filtros e mecanismos de controle criados por Padilha dentro do Ministério da Saúde justamente para evitar ações deste tipo. A prova maior disso é que nunca existiu contrato com a Labogen e nunca houve desembolso por parte do Ministério da Saúde.”

O deputado Cândido Vacarezza (PT-SP) disse, por telefone, conhecer Alberto Youssef por causa de sua relação com o deputado André Vargas (PT-PR), de quem é amigo, mas afirma que "nunca fez qualquer reunião com o doleiro'.

- Nunca fiz nenhuma reunião com o senhor Youssef, nem na minha casa e nem em lugar nenhum. Sou amigo do deputado André Vargas, que ia à minha casa duas ou três vezes por semana. Se ele foi à minha casa com esse cidadão, não me recordo - disse Vacarezza.

PF liga ex-ministro Padilha a empresa de doleiro preso

Relatório sugere que petista indicou ex-assessor para empresa sob investigação

Suspeita da polícia é baseada em mensagem do deputado André Vargas; ex-ministro nega ter feito indicação

Mario Cesar Carvalho – Folha de S. Paulo / EBC

CURITIBA - Novo relatório da Polícia Federal sugere que o ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha indicou no ano passado um ex-assessor para dirigir o laboratório farmacêutico Labogen, controlado pelo doleiro Alberto Youssef.

A suspeita da PF é baseada numa mensagem enviada pelo deputado André Vargas (PT-PR) ao doleiro por telefone celular no dia 28 de novembro e interceptada pela PF. Segundo o relatório, Vargas deu o nome e o número do ex-assessor e escreveu: "Foi Padilha que indicou".

A PF diz que o Padilha citado é "possivelmente" o então ministro da Saúde, que deixou o cargo neste ano para se candidatar ao governo de São Paulo pelo PT. Padilha negou ontem ter indicado o ex-assessor para o Labogen.

Segundo a polícia, o dono do telefone indicado na mensagem interceptada é Marcus Cezar Ferreira de Moura, que em 2011 foi nomeado por Padilha para a função de coordenador de promoção e eventos do Ministério da Saúde.

Na época em que essa mensagem foi interceptada, o Labogen negociava sua entrada numa parceria com o ministério para produzir um medicamento considerado estratégico pelo governo, um projeto que poderia render até R$ 31 milhões em cinco anos.

Vargas e Youssef estavam à procura de um executivo para o laboratório e, de acordo com o relatório da PF, queriam achar alguém que "não levantasse suspeitas das autoridades fiscalizadoras".

No projeto analisado pelo Ministério da Saúde, o Labogen associou-se ao laboratório da Marinha e a outro laboratório privado, o EMS, por sugestão do próprio ministério, de acordo com outras mensagens interceptadas pela PF.

A parceria foi aprovada pelo ministério em dezembro e cancelada em março, antes que fosse assinado um contrato, depois que a Folha revelou a ligação do doleiro com o Labogen e os indícios de que André Vargas tinha usado sua influência política para patrocinar a parceria.

Alberto Youssef está preso desde março, acusado de comandar um esquema de lavagem de dinheiro que pode ter movimentado ilegalmente R$ 10 bilhões nos últimos anos.

Nesta semana, ele se tornou réu numa ação em que é acusado de ter usado o Labogen e outras empresas de fachada para enviar US$ 444,7 milhões para o exterior ilegalmente.

Em outra mensagem interceptada pela polícia, de 26 de novembro, André Vargas disse ao doleiro: "Falei com pad agora e ele vai marcar uma agenda comigo". Segundo a PF, "Pad" pode ser Padilha.

O relatório da PF cita também contatos que o doleiro teve com os deputados Cândido Vaccarezza e Vicente Cândido, do PT de São Paulo. Segundo a polícia, Youssef era esperado por Vaccarezza numa reunião que ele teve em sua casa em Brasília com Vargas e o ex-ministro Pedro Paulo Leoni Ramos, que fez parte do governo Fernando Collor e tinha interesse em comprar o Labogen.

Vaccarezza disse ontem que Vargas pode ter ido a sua casa com Alberto Youssef porque ele é vizinho do deputado em Brasília, mas negou ter se reunido com o doleiro.

Em outra mensagem analisada pelo relatório da polícia, de setembro de 2013, Vargas diz ao doleiro que precisa "captar". Youssef conta que um executivo que trabalhava com ele esteve com Vicente Cândido em São Bernardo, mas diz que a prospecção "não andou". Vargas responde então que "vai atuar".

Cândido afirmou ter conhecido o doleiro numa viagem a Cuba, mas afirma não se lembrar de ter encontrado seu emissário em São Bernardo.

Segundo a PF, seis dias antes de ser preso, Youssef representou Vargas numa reunião no Funcef, o fundo de pensão da Caixa Econômica, que tem patrimônio de R$ 52 bilhões. Quem recebeu o doleiro foi Carlos Borges, diretor de participações. Não se sabe do que conversaram.

Colaboraram Flávio Ferreira e Lucas Ferraz, de São Paulo

Documentos revelam que Petrobras sabia de graves problemas em Pasadena antes da compra

Equipe técnica identificou uma série de deficiências nas instalações, como “vários equipamentos com corrosão externa

Chico de Gois, Vinícius Sassine e Danilo Fariello – O Globo

BRASÍLIA - A refinaria de Pasadena, pela qual a Petrobras pagou mais de US$ 1,2 bilhão, apresentava em 2008 — quando teve início a disputa judicial entre a estatal e a companhia belga Astra Oil — sérios problemas de segurança, que causaram acidentes e prejuízos de quase US$ 100 milhões, como consta em documento interno obtido pelo GLOBO. Parte dos problemas já eram conhecidos pela empresa brasileira em 2005, quando as negociações para a aquisição da refinaria tiveram início.

Antes da compra da refinaria, entre os dias 29 e 31 de março de 2005, uma equipe de oito técnicos da Petrobras visitou as instalações de Pasadena para conhecer o ativo que fora oferecido pela Astra como sociedade. Durante a visita, eles estiveram em contato com o CEO da refinaria, Alberto Feilhaber, que tinha sido funcionário da Petrobras entre 1976 e 1995. A equipe técnica identificou uma série de deficiências nas instalações, como “vários equipamentos com corrosão externa, pintura deficiente, presença de detritos e material de sucata deixado sobre o piso, pouca sinalização de segurança e identificação de equipamentos”. Por outro lado, foram vistos poucos vazamentos de vapor e hidrocarbonetos na área industrial.

Feilhaber, no entanto, que chegou a exercer cargos de supervisor e chefe de setor na Petrobras, deu boas informações à empresa brasileira sobre Pasadena. Antes de a Petrobras decidir pela compra, os técnicos escreveram, em auditoria, que “segundo o CEO (Feilhaber), em termos de mecânica a refinaria está ‘pretty good’ (muito boa), faltando, entretanto, mais instrumentação e controle.”

De acordo com os técnicos, um dos focos da gestão naquele momento era exatamente “aumentar a confiabilidade da planta”. O relatório aponta que, segundo informação dada por um funcionário que estava há 25 anos na empresa, “nesse período só tiveram uma fatalidade”. Se a informação era verdadeira, a Petrobras acabou atraindo toda sorte de problemas depois.

Quando os sócios entraram em conflito, em 2007, a Astra Oil praticamente abandonou a administração de Pasadena — o que, de acordo com relatos feitos à diretoria executiva da Petrobras, contribuiu para o estado de deterioração dos equipamentos da refinaria.

Uma apresentação feita em setembro de 2008 aos diretores da Petrobras, à qual O GLOBO teve acesso, dizia: “Vários incidentes aconteceram nos últimos meses, provocando paradas de emergência, acidentes pessoais e prejuízos”. Os diretores da Petrobras mostravam-se preocupados com a situação porque, para eles, se os problemas viessem à tona poderiam provocar a “exposição da imagem da Petrobras em caso de inspeção da Osha (Occupational Safety and Health Administration) ou de acidente com repercussão externa”.

A Osha é uma espécie de secretaria de administração de Saúde e Segurança do Trabalho, vinculada ao Departamento (Ministério) do Trabalho dos Estados Unidos.

O documento aponta que mais de 50 acidentes com pessoal já tinham ocorrido até setembro de 2008 (apesar de não ser explícito, o texto dá a ideia de que todos os fatos ocorreram naquele mesmo ano), com oito queimaduras com ácido e três acidentes com tempo perdido. A situação era tão grave, diz o texto, que até mesmo “exposição radioativa” já tinha sido reportada durante a manutenção da unidade de coque.

Tudo isso provocou algumas paralisações da refinaria: houve, segundo o informe, uma parada completa em fevereiro de 2008, após a explosão de uma subestação; outra parada parcial em agosto de 2008, por conta de um curto-circuito em painel eletrônico; e duas paradas não programadas, com mais de 60 dias perdidos — tudo escrito no informe.

Todas essas paralisações na produção causaram prejuízos. O documento aponta que, por conta de todos esses problemas, “oportunidades de negócios foram perdidas da ordem de US$ 68 milhões”, e houve “gasto de US$ 30 milhões com paradas não programadas”.

O informe também destaca que, com a disputa mais acirrada entre os dois sócios, a Astra praticamente teria abandonado sua atuação na administração de Pasadena. De acordo com o texto, foi identificado um “aumento no risco humano: ambiente de trabalho ruim e se deteriorando rapidamente. Astra cada vez mais ausente na gestão da refinaria”.

Além disso, a diretoria da Petrobras foi informada de que estava havendo perda de pessoas-chave para o dia a dia da refinaria, além da saída de técnicos qualificados.

Sobre a preocupação da Petrobras com uma possível inspeção da Osha e sua repercussão negativa para a imagem da empresa, o informe dá a entender que a entidade americana já havia apresentado anteriormente um relatório no qual apontava a “não conformidade” com algumas irregularidades.

Para os diretores da Petrobras, a Astra não estava se importando muito com o assunto, porque, segundo o documento, a belga apresentava apenas sugestões de ações de baixa eficácia.

Outros documentos internos da Petrobras mostram que, para a refinaria de Pasadena continuar a funcionar, em qualquer cenário, seriam necessários investimentos de US$ 275 milhões em meio ambiente, segurança e paradas programadas, dinheiro que seria gasto de 2009 a 2013. Somente modificações no sistema de esgoto, por exemplo, demandavam US$ 5 milhões. Os documentos apontam, inclusive, a necessidade de remoção de pessoal de áreas de risco, a um custo de US$ 12 milhões.

Outras auditorias no controle de estoques da refinaria, obtidas pelo GLOBO, revelam mais falhas graves. O sistema prevê que o cadastramento de todos os negócios realizados pelas empresas da Petrobras deve ocorrer em até 48 horas. Mas, em Pasadena, foi encontrado um atraso de 281 dias nesse cadastramento.

O consultor legislativo da Câmara dos Deputados para Petróleo e Gás Paulo César Ribeiro Lima afirmou que o prejuízo e a quantidade de acidentes registrados em Pasadena são altos. Ele destacou que é normal enfrentar problemas ao comprar uma refinaria antiga como Pasadena — que, na definição do consultor, era uma sucata.

— Esse prejuízo é alto, mas, quando você compra uma sucata, tem que estar disposto a investir. A Petrobras deve ter feito os investimentos. E um dos motivos para fazer os investimentos deve ter sido esses acidentes, essas paradas programadas. Uma coisa é você ter uma refinaria nova, ter um problema na unidade e ter que parar. Isso não é uma coisa que você espera. Mas, numa sucata daquela, é mais do que provável que, se você quiser operá-la, vai ter problemas — afirmou Lima.

Segundo ele, a exposição radioativa às vezes ocorre em refinarias no Brasil.

— Essa questão de exposição radioativa às vezes ocorre aqui também, porque você faz uma solda no equipamento, e você vai ter que fazer uma inspeção. Aí você usa raio gama, por exemplo. Você tem que cercar uma área, e ninguém pode entrar. E, às vezes, alguém passa na área. Aquilo realmente é um negócio complicado — disse o consultor.

A Petrobras afirma que a refinaria de Pasadena opera normalmente e, assim, está obedecendo às “condições estabelecidas pelas autoridades locais quanto aos aspectos de saúde, meio ambiente e segurança”. Segundo a estatal, desde janeiro de 2013 não há acidentes com afastamento de trabalhadores.

“A Petrobras aguarda as conclusões dos trabalhos de sua comissão interna para melhor esclarecer outras questões levantadas”, informou a empresa, por meio da assessoria de imprensa. (Colaborou André de Souza)

Em visita ao Pará, Eduardo Campos comenta CPI da Petrobras e critica o governo

Pré-candidato pelo PSB à Presidência afirmou que país retrocedeu com Dilma

Laís Menezes - O Globo

BELÉM - O pré-candidato pelo PSB à Presidência, Eduardo Campos, em visita a capital paraense nesta quinta-feira teceu comentários sobre a decisão liminar proferida pela ministra do Supremo Tribunal Federal (STF), Rosa Weber, quanto a CPI da Petrobras.

— Eu acho que ela tomou uma decisão coerente com o que já se falava que era a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal — afirmou.

Ao longo de sua estada em Belém, Campos também fez duras críticas ao governo Dilma e promessas de reforma política, caso seja eleito.

Em sua estratégia para se tornar mais conhecido pelo eleitorado brasileiro, o ex-governador de Pernambuco chegou ao Pará, quarto estado a ser visitado somente esta semana, para cumprir uma enorme agenda de coletivas e reuniões, visando às próximas eleições.

Durante um almoço com empresários dos setores do comércio, indústria e agricultura, realizado na sede da Federação das Indústrias do Estado do Pará (FIEPA), Campos afirmou que o governo retrocedeu com Dilma.

— Nós não assistimos uma gestão como parecia que iria ser feita. Ao invés do desafio de animar os investimentos no país, eles foram desestimulados — e acrescentou — Aqueles mesmos que cercaram o Fernando Henrique e o Lula, que parecia que a Dilma iria afastar, ela efetivamente trouxe para muito próximo e chocou todos do Brasil que apostavam tanto nos primeiros momentos do seu governo.

No evento, onde também estavam os dirigentes estaduais do PSB, PPS, PPL e de movimentos da Rede Sustentabilidade, Eduardo Campos disse que veio ao Pará a fim de conhecer a real situação do estado e não para fazer alianças. Segundo o ex-governador, seu projeto é caminhar por 150 cidades e ouvir a população para construir um “novo pacto social e político”.

O pré-candidato à Presidência também criticou o governo federal pela falta de comprometimento e lentidão nas votações do congresso.

— Nada de importante ou relevante foi votado no 2º semestre de 2012 e no 1º de 2013. Quando o povo foi para a rua o congresso produziu em quinze dias o que não produziu em um ano.

Campos declarou que, se for eleito, não distribuirá os ministérios por troca de apoio político, mas sim por competência. Prometeu também “reduzir o número de ministérios à metade”, sendo sua primeira medida, caso ocupe a presidência, uma reforma política.

Após o almoço, Eduardo Campos se reuniu a portas fechadas com o governador do Estado, Simão Jatene e o prefeito de Belém, Zenaldo Coutinho para uma “visita de cortesia”, já que conheceu Janete quando também era governador.

Depois de conceder entrevistas a emissoras locais e coletivas de imprensa, Eduardo Campos teve um encontro com militantes do PSB, no Hangar Centro de Convenções da Amazônia, fechando sua agenda em solo paraense.

Governo busca neutralizar CPI, e oposição pede instalação imediata

Renan vai recorrer ao pleno do STF, e PT articula investigação da Alstom

Paulo celso Pereira, Junia Gama, Cristiane Jungblut e Washington Luiz – O Globo

BRASÍLIA- Com a decisão da ministra Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal (STF), de garantir a instalação da CPI exclusiva para investigar a Petrobras, o governo começou a preparar sua estratégia, e a linha definida pelo ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, se distribui por três frentes: recurso ao plenário do STF para tentar mudar a decisão de Rosa, criação de uma CPI para investigar o cartel no metrô de São Paulo, e a inclusão de denúncias envolvendo o Porto de Suape no rol de assuntos que serão investigados na CPI da Petrobras. A oposição, por sua vez, anunciou que irá pressionar o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), pela instalação imediata da CPI exclusiva. Os líderes da oposição na Câmara e no Senado querem se reunir com Renan na manhã de terça-feira, quando ele voltar de Roma, para pedir que, entre as duas CPIs exclusivas aprovadas, seja dada preferência à instalação da mista, composta por deputados e senadores.

A primeira medida traçada pelo governo, o recurso ao pleno do STF, ficou a cargo do presidente do Senado, que, de Roma, publicou nota, anunciando que irá recorrer da decisão de Rosa, e que não cabe ao Supremo “controlar preventivamente o processo legislativo”.

Renan defende que prevaleça a CPI com “espectro mais abrangente” e que, por se tratar de matéria inédita, irá recorrer ao plenário do Supremo:

“Se fatos podem ser acrescidos durante a apuração, entende- se que muito mais eles são possíveis na criação da CPI”.

Controle da investigação
A segunda medida, que é a criação de uma CPI para investigar a Alstom, já está sendo executada pelos senadores Humberto Costa e Gleisi Hoffmann (PTPR), que estão recolhendo assinaturas para a nova comissão. A intenção é atingir governos tucanos e o presidenciável Aécio Neves (PSDB-MG).

— Seguiremos determinados a investigar a fundo outros fatos assombrosos de má aplicação de dinheiro público, como é o caso do escândalo do metrô de São Paulo, sobre o qual começamos hoje a recolher assinaturas na Câmara e no Senado para uma CPMI sobre a Alstom — disse Costa.

O terceiro front ainda não foi aberto, mas o governo já articula para garantir o controle da CPI. A ideia é indicar nomes de extrema confiança para o comando — presidência e relatoria — da CPI, como forma de monopolizar o debate político e evitar que as investigações sobre a estatal se aprofundem.

No entanto, já são dados como certos depoimentos de dirigentes e ex-dirigentes da empresa, como a atual presidente Graça Foster e seu antecessor José Sergio Gabrielli, além do ex-diretor Nestor Cerveró, que articulou a compra da refinaria de Pasadena, nos EUA.

— Como não há clima para se pensar em pizza total, vamos ter chumbo trocado — explicou um integrante do governo.

O ministro da Secretaria Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, disse que o governo e o PT não podem ter medo das investigações:

— Tivemos muita CPI ao longo dos últimos 11 anos, ao contrário de outros governos que
não tiveram nenhuma CPI. A gente não pode ter medo. Só esperamos que a CPI seja palco de investigação e não palco de pura política.

O recuo do PT de recorrer contra a decisão de Rosa não foi bem recebido pelos peemedebistas, que acusaram o partido de transferir para as costas do presidente do Senado o desgaste com a opinião pública. Caciques do PMDB irão tentar demover Renan do recurso ao STF.

— Renan Calheiros não está falando pelo PMDB. Em nome da bancada do partido, eu digo que o PMDB não irá recorrer ao Supremo e que na hora que houver solicitação de indicação dos nomes para compor a CPI, estaremos prontos para indicar — afirmou o líder do PMDB, Eunício Oliveira.

Na oposição, o entendimento é que a decisão da ministra Rosa Weber não tem efeito suspensivo para indicação dos membros da CPI e para a instalação e o início imediato dos trabalhos. Aécio Neves afirmou que, com a decisão da Corte, não há como adiar mais a CPI, e que Renan não tem outra alternativa a não ser cumprir a liminar.

— Não há mais como procrastinar.

A decisão está tomada, o respeito ao direito das minorias foi garantido pelo Supremo Tribunal Federal, e agora é hora de fazermos as investigações — afirmou Aécio.

O líder do PSDB no Senado, Aloysio Nunes (SP), disse que seu partido não resistirá à criação de CPI para investigar o metrô de São Paulo. Ele afirmou que as investigações, nesse caso, podem atingir também o governo federal.

— Eu queria dizer aqui, em alto e bom som: nós não nos intimidamos com isso. Promovam as investigações que quiserem.

Aliás, por que não as promoveram antes? Será que por que têm receio dos negócios que a Alstom fez no setor elétrico do governo federal?

Têm receio de investigarmos os cartéis que ocorreram nos empreendimentos da CBTU?

— provocou Aloysio.

Decisão do STF não permite mais temas

- O Globo

BRASÍLIA- Ao contrário do que especularam parlamentares governistas, a decisão da ministra Rosa Weber, do STF, que determinou a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar exclusivamente irregularidades na Petrobras não abre brecha para a inclusão de outros temas.

Segundo a ministra, a minoria tem o direito de ver a CPI instalada de forma restrita. No texto, entretanto, mostra que a situação pode ser revertida se o tribunal derrubar a liminar no julgamento de mérito, que ocorrerá no plenário em data ainda a ser definida.

Na decisão, a ministra deixou claro que o direito das minorias deve ser respeitado, daí a necessidade de instalação da CPI mais restrita. “Mostra-se incompatível com o estatuto conferido pela Constituição aos grupos políticos minoritários, ao consagrar o pluralismo político como fundamento do Estado Democrático de Direito, a conduta que tem como resultado efetivo a negação de direitos por eles titularizados”, escreveu a ministra.

Rosa lembrou que o STF já se intrometeu em assuntos internos do Congresso quando o direito das minorias esteve ameaçado. O caso mais emblemático foi em 2005, quando o tribunal determinou a instalação da CPI dos Bingos, que investigou o envolvimento do ex-assessor parlamentar da Casa Civil Waldomiro Diniz com empresários de jogos de azar. O relator, ministro Celso de Mello, afirmou que, se a comissão não fosse instalada, o direito das minorias seria suprimido.

— Uma injusta e indevida obstrução frustrou a investigação parlamentar, prevista na Constituição — disse o ministro.

Senado vai recorrer ao plenário do Supremo contra CPI exclusiva da Petrobrás

Marcelo de Moraes – Agência Estado

Em nota oficial, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), acaba de anunciar que vai recorrer ao plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) contra a liminar concedida pela ministra Rosa Weber que garantiu à oposição o direito de abrir uma CPI exclusiva para investigar irregularidades na Petrobrás. O governo e sua base aliada, que tem Renan como um dos principais integrantes, são contra essa decisão. 

Preferem que a CPI seja ampla, incluindo investigações contra o cartel dos trens de São Paulo, que poderia afetar o PSDB do senador mineiro Aécio Neves, e problemas de Suape, que poderiam atingir o ex-governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB). Os dois são candidatos à Presidência contra a petista Dilma Rousseff.

Na sua nota, Renan alega que procurou um entendimento em torno do assunto, e argumenta que procurou respeitar “o sagrado direito da minoria”. Diante da decisão da ministra, ele entende que o recurso contra a liminar é a única maneira de “pacificar o entendimento em torno da matéria”.

Eis a íntegra da nota de Renan Calheiros:
“A independência dos poderes é um pilares das democracias modernas. Tal preceito tem sido observado ao longo dos anos e, em 2013, o pleno do Supremo Tribunal Federal, após a paralisia processual derivada de uma liminar, decidiu, em última instância, que não lhe cabia controlar preventivamente o processo legislativo.

A compreensível divergência acerca da amplitude das Comissões Parlamentares de Inquérito caracteriza uma situação inédita. Ela obriga a reflexão de todos os poderes a fim de evitarmos um precedente que implique em futuras investigações seletivas, restritivas ou mesmo persecutórias a serviço de maiorias circunstanciais.

Os regimentos internos do Congresso Nacional, leis internas do Parlamento, são importantes instrumentos para elucidar a matéria. O regimento interno da Câmara dos Deputados, por exemplo, explicita que na ocorrência de requerimentos com objetos coincidentes, prevalecerá aquele de espectro mais abrangente. É uma premissa bastante sensata e que se aplica ao caso.

Desde o primeiro momento, busco o entendimento sobre o alcance das CPIs respeitando o sagrado direito da minoria. Se fatos podem ser acrescidos durante a apuração, entende-se que muito mais eles são possíveis na criação da CPI. O poder investigatório do Congresso se estende a toda gama dos interesses nacionais a respeito dos quais ele pode legislar.

Diante da imperiosidade de pacificar o entendimento em torno da matéria, o Senado Federal recorrerá da liminar ao plenário do Supremo Tribunal Federal”.

PT desiste de recorrer ao Supremo e diz que irá apoiar CPI da Petrobras

No entanto, mais cedo em Roma, Renan Calheiros afirmou que vai recorrer da liminar concedida por Rosa Weber

Washington Luiz e Cristiane Jungblut - O Globo

BRASÍLIA - O líder do PT no Senado, Humberto Costa, afirmou na tarde desta quinta-feira que o partido não irá recorrer contra a decisão liminar da ministra Rosa Weber para impedir a criação da CPI exclusiva sobre a Petrobras. O posicionamento do PT contraria a do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-RN), que está em Roma e mais cedo afirmou em nota que irá recorrer da liminar concedida à oposição no plenário do Supremo Tribunal Federal (STF).

No plenário do Senado, Costa afirmou que o PT irá contribuir para que a CPI da Petrobras seja instalada o mais rápido possível:

- Dada a perda do objeto pela expedição da liminar, nós do PT, resolvemos acatá-la integralmente e abrimos mão de recorrer para fazer andar mais rápido o processo de instalação da CPI aqui no Senado Federal. De nossa parte, estamos aptos a começar a discutir os membros que comporão a CPI da Petrobras, como todos os partidos que compõem a base de nosso governo, tão logo a Comissão seja instalada pelo presidente Renan Calheiros.

O líder ainda ressaltou que irá trabalhar para instaurar investigações contra o metrô de São Paulo:

- Seguiremos determinados a investigar a fundo outros fatos assombrosos de má aplicação de dinheiro público, como é o caso do escândalo do metrô de São Paulo, sobre o qual começamos hoje a recolher assinaturas na Câmara e no Senado para uma CPMI sobre a Alstom.

Na Câmara, o líder do PT, Vicentinho (SP), disse que o governo está "tranquilo" em relação à gestão da Petrobras. Ele voltou a insistir na tese de que deve haver uma investigação ampliada, sobre as obras do Metrô de São Paulo, por exemplo.

— O importante é que estamos tranquilos. Sabemos da segurança e do zelo com que a Petrobras é administrada. Vai ficar muito feio tentar ligar a questão de Pasadena, que foi em 2006, com a presidente Dilma Rousseff — disse Vicentinho.

O petista disse que já estão sendo acolhidas assinaturas para uma CPI da Alstom, que prejudicaria o PSDB. Mas o líder não quis dizer quando esse pedido seria apresentado.

— Quando você quer fazer uma galinhada, você não faz ‘xô galinha’, ou seja, a gente vai falar na hora certa — disse Vicentinho.

O líder do PSDB na Câmara, deputado Antônio Imbassahy (BA), disse que o PT terá que aceitar a decisão da ministra Rosa Weber. O PSDB deve indicar o deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP) para integrar uma CPMI.

— Vai ter CPI, e os petistas terão que ficar resignados — disse o líder do PSDB, em Plenário.
A senadora Gleisi Hoffman (PT-PR) seguiu o pronunciamento do colega de partido e cobrou que a oposição assine os requerimentos de CPIs que serão criados por parlamentares que apoiam o governo:

- Há uma decisão judicial. Agora, a ela nos submetemos e vamos, sim, indicar os membros, para fazer a apuração. E acho oportuno também instalar a outra CPI, até porque era uma proposição da própria oposição, que dizia que não poderia ser uma CPI única, que nós teríamos de fazer uma CPI para cada assunto. Então, espero, de fato, que a oposição possa assinar a CPI - argumentou.

Um dos responsáveis pelo pedido de liminar para instaurar a CPI da Petrobras, o senador Aloysio Nunes (PSDB-SP) rebateu a promessa dos parlamentares da oposição e garantiu que o PSDB não vê problemas em investigar a suspeita de cartel no metrô de São Paulo:

- Podem investigar o que quiserem. Nós em São Paulo não temos medo de nada. Quem tem medo de investigar as coisas são eles (PT), que não querem a instalação da CPI da Petrobras - disse.

O posicionamento de Renan Calheiros também foi criticado pelos senadores. Para Álvaro Dias (PSDB-PR), os acontecimentos mostram que o Senado perdeu a competência:

- Infelizmente não temos tido competência para resolver nossos impasses internos e temos que recorrer à Suprema Corte. A decisão da ministra Rosa Weber já era esperada. As circunstâncias recomendam o aplauso, valorizando sua postura de independência como ministra indicada recentemente pela presidente da República - ressaltou.

Oposição pressiona Renan e cobra instalação imediata de CPI da Petrobras

Pré-candidato pelo PSDB, Aécio Neves diz que presidente do Senado não tem outra opção

Cristiane Jungblut e Junia Gama - O Globo

BRASÍLIA – O presidenciável Aécio Neves (PSDB) elogiou na manhã desta quinta-feira a decisão da ministra Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal (STF), que acatou mandado de segurança impetrado pela oposição contra a ampliação da CPI da Petrobras para inclusão de Suape e Alstom. Segundo o tucano, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), terá que instalar a comissão.

- Renan Calheiros não tem outra opção a não ser instalar a CPI da Petrobras - afirmou Aécio.

O tucano afirmou que, com a decisão da ministra Rosa, não há como “procrastinar” mais o início das investigações. Aécio cobrou de Renan,que está na Itália, as providências para a CPI.

- A decisão da ministra Rosa Weber faz cumprir a Constituição e garante algo que é sagrado, o direito de as minorias atuarem no Parlamento fiscalizando as ações do governo federal. Nesse instante, a partir da notificação a essa Casa, cabe ao presidente Renan Calheiros, ou a quem estiver respondendo pela Presidência do Senado, solicitar aos líderes a indicação dos membros que irão compor a CPI para que ela inicie seus trabalhos imediatamente – disse o senador acrescentando:

– Não há mais como procrastinar, não há mais como adiar. A decisão está tomada, o respeito ao direito das minorias foi garantido pelo Supremo Tribunal Federal e agora é hora de fazermos as investigações - completou,

O senador afirmou ainda que o governo irá tentar atrapalhar as investigações com a indicação da presidência e da relatoria da CPI, mas defende que, ainda assim, é melhor ter a CPI do que não investigar nada.

– O governo até agora fez de tudo, de forma equivocada, para impedir essa investigação. É claro que a maioria do governo vai tentar adiar depoimentos, não aprovar requerimentos de oitivas, mas essa é uma disputa democrática, é uma disputa que é natural que ocorra dentro de uma CPI. O que foi grave, e eu sempre alertava para isso, é, para impedir a investigação, extirpar, retirar do Parlamento uma prerrogativa fundamental e que iria valer para casos futuros, não apenas para esse.

Aécio avalia que a decisão de Rosa Weber vale também para a CPI mista, que já foi lida em sessão do Congresso e teve sua instalação adiada até que o Supremo se manifestasse sobre o tema. O senador afirmou que a oposição está pronta para fazer as indicações dos parlamentares que comporão a CPI e que, se Renan Calheiros compreender que esta decisão se estende à CPI mista, esta será a que consensualmente terá preferência. Os nomes, segundo o tucano, já estão definidos e serão anunciados pelo líder do PSDB, Aloysio Nunes (SP).

Sobre possibilidade de a decisão da ministra Rosa Weber ser alterada pelo plenário do Supremo, o senador defendeu que, pelo fato de não haver efeito suspensivo na liminar proferida pela ministra, a CPI deve ser instalada de imediato, enquanto não houver a decisão do plenário do Supremo.

A respeito da abertura de outras CPIs para investigar governos comandados pelo PSDB e pelo PSB de Eduardo Campos, Aécio disse considerar legítimo e afirmou que, se preciso, dará sua assinatura para apoiar as investigações:

– Não tememos investigação sobre absolutamente nada – disse.

DEM já indicou nomes para comissão mista
Líderes da oposição vão pressionar Renan para que ele cumpra imediatamente a decisão de Rosa Weber e determine a instalação da CPI. Para o líder do PPS na Câmara, deputado Rubens Bueno (PR), mesmo que o PT entre com recurso para submeter a decisão ao plenário do STF, não há motivo para o presidente do Senado retardar a instalação da comissão.

- O recurso não tem efeito suspensivo. É apenas uma tentativa de modificar a decisão da ministra, o que acho muito difícil, já que ela garantiu o direito das Minorias de pedir instalação de CPIs, o que está claramente previsto na Constituição - afirmou o deputado.

Na decisão, a ministra também suspendeu qualquer decisão do Congresso, sobre as CPIs, até o julgamento do mérito do mandato da oposição.

O líder do DEM, deputado Mendonça Filho (PE), também cobrou de Renan a instalação imediata da CPI Mista da Petrobras. O pedido de criação já foi lido na última sessão do Congresso. O DEM indicou hoje seus dois membros e pediu que o PSDB faça o mesmo.

São os deputados Rodrigo Maia (RJ) e Onyx Lorenzoni (RS). Para Mendonça Filho, Renan corre o risco de cometer crime de responsabilidade, caso não instale imediatamente a CPMI.

- A ministra do Supremo mostrou independência. Já indicamos os nomes e a oposição como um todo deve fazer o mesmo. Renan tem que cumprir a decisão, ele pode recorrer ao Pleno do STF. Mas tem instalar, porque não vai desmoralizar o Congresso. Ter que esperar cada decisão judicial para criar uma CPI na Casa é o pior dos mundos. Prefiro entender que ele vai respeitar a decisão, ou pode ocorrer crime de responsabilidade - disse Mendonça Filho.

No Pará, Eduardo decidirá se PSB mantém aliança com PSDB

Maioria do partido defende o lançamento de uma terceira via para forçar a realização de segundo turno

Andrea Pinheiro - Diário de Pernambuco

Depois de passar pelo Sul do país, o pré-candidato à Presidência da República Eduardo Campos (PSB) chega ao Norte nesta quinta-feira (24). Ele vai cumprir uma extensa agenda em Belém, capital do Pará, durante todo o dia. No estado, o PSB ainda vai definir se permanece na base de apoio do governador Simão Jatene (PSDB) ou se lança candidatura própria. A decisão deverá ser tomada até o fim de maio.

A maioria dos socialistas paraenses defende o lançamento de uma terceira via. O governador Simão Jatene, que tem como vice Helenilson Cunha Pontes, do PSB, concorrerá à reeleição. No campo adversário, está o PMDB numa aliança com o PT, com a pré-candidatura de Helder Barbalho. Na avaliação dos socialistas, a disputa entre os dois é equilibrada. "Os dois têm uma rejeição muito alta", cita o presidente estadual do PSB, Ademir Andrade. O lançamento de um outro nome para a disputa estadual, acreditam os socialistas, poderia levar a eleição para o segundo turno.

Segundo Ademir Andrade, o nome do partido para concorrer ao cargo seria o deputado estadual Sidney Rosa, ex-prefeito de Belém. "Ele é muito bem avaliado", assegurou. Em mantendo o apoio a Simão Jatene, o PSB poderia ocupar a vaga ao Senado como o mesmo nome. A legenda, no Pará, conta com dois deputados estaduais. Nestas eleições, pretende dobrar a bancada na Assembleia e eleger um ou dois federais.

Ao chegar no estado, Eduardo Campos concede entrevistas para veículos de imprensa locais. Em seguida, almoça com dirigentes das federações de Indústria, da Agricultura e do Comércio. São esperadas 80 pessoas. À tarde, o presidenciável visita o governador Simão Jatene. E, à noite, se reúne com lideranças e militantes do PSB e da Rede no estado. O evento será realizado em um auditório com capacidade para 1,5 mil pessoas sentadas. "Ao vir ao estado, Eduardo vai sentir o clima, conhecer a nossa militância e esperamos que ele decida pela terceira via", afirmou Ademir Andrade.

A ex-senadora Marina Silva, ao contrário do que era esperado, não participará da agenda no Pará. Ela já tinha firmado um compromisso em Brasília e não pode se juntar à comitiva.

Nesta sexta-feira, Eduardo Campos irá a Manaus (AM), onde realiza mais um seminário para discutir as diretrizes programáticas para a elaboração do programa de governo. Na cidade, ele também recebe o título de cidadão, concedido pela Câmara de Vereadores