quinta-feira, 4 de novembro de 2021

Maria Hermínia Tavares* - Em Glasgow, dois Brasis

Folha de S. Paulo

Na COP26, governo capitula diante da resistência interna e da forte pressão internacional à sua política destrutiva

Derrotado, o governo brasileiro chega a Glasgow engatando marcha-a-ré em relação a tudo o que disse —e fez— até aqui em matéria ambiental. Foi-se o tempo em que o então chanceler Ernesto Araújo imprecava contra um fantasmagórico globalismo ecológico, enquanto o seu colega do Meio Ambiente, Ricardo Salles, imaginava fazer bons negócios contando lorotas na COP25.

Os seus sucessores levam à capital escocesa um discurso bem-comportado, as vagas ideias do Programa de Crescimento Verde, o compromisso de reduzir pela metade em nove anos as emissões de carbono do país —sem dizer como. Tudo isso deixa de ponta-cabeça as falas e os atos de Bolsonaro para enfraquecer os instrumentos de controle da aplicação das leis ambientais, ao patrocinar no Congresso projetos que as desfiguravam e ao estimular toda sorte de empreendimentos criminosos contra a Amazônia e seus habitantes.

Mas quando esconde o malfeito e ostenta compromissos com o que não acredita —e por isso não pretenda cumprir—, a extrema direita no poder capitula diante da resistência interna e da forte pressão internacional contra a treva com que recobriu o Planalto.

Ruy Castro - Vadiando pela Itália

Folha de S. Paulo

Para os líderes internacionais, Bolsonaro deixou de ser uma piada; tornou-se um risco planetário

"Vadio. [Do latim 'vagativu', vagabundo.] 1. Que não tem ocupação, não faz nada, ocioso, desocupado, vagabundo. 2. Ver vagabundo. 3. Próprio de gente ociosa". A definição acima é do dicionário "Aurélio". Para a de vagabundo, vamos ao "Houaiss": "Vagabundo [Do lat. tard. 'vagabundu'.] 1, Que ou em quem perambula, vagueia, vagabundeia. 2. Que ou quem leva a vida no ócio, indolente, vadio. 3. Que ou quem age sem seriedade ou com desonestidade. Malandro [ver sinônimos]". Para os sinônimos de malandro, segundo o mesmo "Houaiss": "Mandrião, esperto, preguiçoso, biltre, canalha".

Se o leitor enxergar em tais definições alguma semelhança com Jair Bolsonaro, será por sua conta. Mas, de fato, esses verbetes, escritos há décadas, sugerem uma perturbadora premonição. Outra hipótese é a de que Bolsonaro, lendo-os sem querer um dia, adotou-os como programa de vida. Afinal, o que faz hoje em sua suposta Presidência da República não é diferente do que fez durante 28 anos no Congresso —uma vez eleito, dedicar-se exclusivamente à reeleição, com aparatos e recursos do Estado.

Bruno Boghossian - Um partido em pedaços

Folha de S. Paulo

Votação para escolher candidato ao Planalto tornou públicas as tradicionais puxadas de tapete dos tucanos

De quatro em quatro anos, os chefes do PSDB se reuniam num restaurante requintado qualquer para definir um candidato a presidente. Invariavelmente, a decisão da cúpula criava divisões internas. Em 2006 e 2010, tucanos de Minas Gerais fizeram corpo mole para apoiar Geraldo Alckmin e José Serra. Na eleição seguinte, os paulistas deram o troco em Aécio Neves e, em 2018, políticos do partido abandonaram Alckmin para votar em Jair Bolsonaro.

O método de seleção do presidenciável mudou, mas a sigla tem tudo para enfrentar uma fratura exposta na próxima disputa. A votação aberta pelo PSDB para escolher seu candidato ao Planalto em 2022 antecipou e tornou públicas as conhecidas puxadas de tapete dos tucanos nas corridas eleitorais.

Conrado Hübner Mendes - Pacote pró-corrupção

Folha de S. Paulo

Nem derrota eleitoral de Bolsonaro poderá reverter processo em curso

Democracias precisam de "instituições funcionando" de uma certa maneira, não de maneira qualquer.

Instituições democráticas se orientam por alguma ideia de igualdade política. Buscam domesticar o interesse privado, conter a força bruta e limitar os bens que o dinheiro pode comprar. Maior grau de institucionalização indica, em princípio, maior qualidade da democracia.

Instituições produzem regularidade, um parâmetro de normalidade, uma força gravitacional que constrange decisões. Existem quando se notam padrões estáveis de comportamento, gerados por regras formais ou informais.

Regras jurídicas no papel não bastam para institucionalizar padrões de conduta. São necessários agentes que as respeitem e agentes dispostos a controlar aqueles que as violam. Vale para promotor, juiz, policial, presidente.

Desinstitucionalizar a democracia significa seguir no sentido oposto. Rompem-se arbitrariamente procedimentos e expectativas, faz-se vista grossa para violações, prevalecem casuísmo, voluntarismo, personalismo.

Vale o fio do bigode, o gabinete paralelo, o balcão de negócios. Reduz-se institucionalidade para expandir o arreglo. Uma forma de corrupção da instituição, mesmo quando não qualificada juridicamente como crime de corrupção.

Maria Cristina Fernandes - Começou a transição

Valor Econômico

Congresso e Judiciário se preparam para tirar o máximo do pato manco no poder para poderem enquadrar um próximo presidente fortalecido pelas urnas

Completam-se cinco meses desde que o Cidadania, o PSB e o Psol ingressaram no Supremo Tribunal Federal com três ações contra as chamadas emendas de relator. A paralisia de sua tramitação não guarda relação com o interesse da relatora, que decidiu mantê-las a despeito do titubeio de proponentes. Essas ações, porém, só deverão sair do forno no dia em que se enxergar o rumo da transição.

Se o próximo presidente quiser um Orçamento para chamar de seu vai precisar por fim ao expediente que, na votação da PEC dos Precatórios, mostrou seu limite. Tudo se resume ao preço de cada um. Pelo volume de queixas, traições e insatisfações não custa a aparecer as planilhas do crime que um dia foi mensalão, migrou para as estatais virando petrolão e, ao aportar no Orçamento, produziu o emendão.

Não convém mudar isso agora porque desse mato de Jair Bolsonaro já não sai mais cachorro, dirá acordos. A coisa muda de figura no próximo governo seja este qual for. O deputado Arthur Lira (PP-AL) sabe que, se reconduzido, seu poder de mando não se reproduzirá. Seja porque as emendas de relator estão marcadas para morrer seja porque a Casa terá nova configuração com as fusões e federações partidárias. Com bancadas maiores, o colégio de líderes não será o mesmo joguete nas mãos do próximo presidente da Câmara. Lira, porém, ainda estará no cargo até o fim do próximo ano, quando se definirão a régua e o compasso do presidente a ser eleito em 2022, a começar do seu primeiro Orçamento.

Armínio Fraga* - Linha fina e rede furada

Folha de S. Paulo

Tripé macro é provavelmente o único viável para uma economia moderna e livre

Caro Ciro Gomes, atendo aqui a seu convite feito no artigo publicado terça-feira (2) nesta Folha ("A rede está furada") em resposta ao meu de domingo ("Banco Central age como se estivesse pescando com uma linha fina", 31/10). Mantenho aqui o construtivo espírito de busca de convergências. Digo de cara que, sim, a rede (fiscal) está de fato furada!

Uma resposta mais completa pode ser encontrada em artigo que publiquei nesta Folha em 29 de setembro de 2019 ("No final do arco-íris tem um pote de ouro"). Lá está exposta uma estratégia consistente de combate à desigualdade e aceleração do crescimento. Contém, inclusive, propostas praticamente idênticas às suas para o lado da receita, e apresentadas em mais detalhe na revista Novos Estudos Cebrap em dezembro de 2019. Vale dar uma debruçada lá.

Estamos juntos no entendimento de que responsabilidade social e fiscal se complementam e representam uma base sólida para a construção de um futuro melhor. Concordo com a necessidade da construção de um arcabouço fiscal sustentável no tempo (ou seja, robusto para permitir políticas macroeconômicas e sociais anticíclicas).

Não há política anticíclica sem se acumular gorduras em épocas boas. E mais: não há possibilidade de juros baixos e sustentáveis e, portanto, câmbio competitivo, sem a casa em ordem. Não há crescimento sustentado sem estabilidade e previsibilidade na macroeconomia. Não há país que resista a recorrentes crises cambiais e inflacionárias, como sabemos melhor do que ninguém. Não há investimento em infraestrutura sem regras claras para preços públicos e confiança no longo prazo. Não há renda para o trabalhador no caos da inflação e no escuro da bagunça fiscal.

Luiz Carlos Azedo - O “fogo amigo” do Banco Central e da Petrobras

Correio Braziliense

O custo de vida só aumenta. Na trajetória da economia brasileira, desde o Plano Real até hoje, o controle da inflação foi pré-condição para a preservação do poder. 

Qualquer que seja o desfecho da votação da PEC dos Precatórios, o governo Bolsonaro já foi desenganado pelo mercado. Sua única alternativa, no contexto atual, seria mudar a lógica da atuação: em vez de reeleição a qualquer preço, equilíbrio das contas públicas e controle da inflação, mesmo com o novo mandato em risco. Vozes mais sensatas diriam a Bolsonaro que a segunda hipótese tornaria sua reeleição menos improvável, mas isso é exigir muito do “estado-maior” do Mito. Nem o ministro da Economia, Paulo Guedes, é capaz de sustentar essa posição.

Na trajetória da economia brasileira, desde o Plano Real até hoje, o controle da inflação foi precondição para a preservação do poder. Foi assim na eleição e reeleição de Fernando Henrique Cardoso, no primeiro e segundo mandatos de Lula e no primeiro mandato de Dilma Rousseff. Quando a inflação saiu do controle, a vaca foi para o brejo. Hoje, a inflação está tão descontrolada que a ata do Copom, divulgada ontem, sinalizou para o mercado uma taxa Selic de 12%. Cada ponto percentual na taxa de juros tem um impacto de até R$ 40 bilhões na dívida pública.

William Waack - Tempo trabalha a favor da terceira via

O Estado de S. Paulo

Operadores políticos detectam tendência geral favorecendo uma terceira via

Entre os profissionais que operam na política cresce a convicção de que a candidatura de terceira via é “inevitável” e tem grandes chances contra Bolsonaro e Lula. Conversas mantidas com vários desses operadores – nenhum deles candidato e afiliados a cinco partidos diferentes – indicam uma noção de “timing” quase idêntica.

A saber: as eleições ainda não estão no centro das preocupações da grande massa do eleitorado, algo que, supõem eles, só acontecerá a partir de agosto do ano que vem. Admitem que o quadro “psicológico” dos eleitores hoje é de desânimo e resignação, mas a forte polarização entre os extremos do espectro político não faz parte do grande quadro.

É muito parecida também a linha do tempo traçada por esses mesmos operadores. Acreditam que cerca de oito a dez candidatos disputando uma vaga no centro pontuarão abaixo de dez pontos nas pesquisas até aproximadamente maio do ano que vem, quando três a quatro candidaturas surgirão com mais força. Esse número se afunila em julho, época das convenções partidárias, e um desses nomes já teria então pontuação entre 14 e 16% das intenções de voto estimuladas.

Eugênio Bucci - Três culpas

O Estado de S. Paulo

Não há mais como ignorar que a responsabilidade pelas fontes das aflições que calcinam o espírito do tempo é integralmente nossa

A angústia que consome os seres sensíveis do nosso tempo tem pelo menos três fontes. A primeira é a destruição acelerada dos recursos naturais do planeta, o que traz aquecimento global, pandemias e alterações climáticas extremas, com mais enchentes, mais secas e mais ventanias. Em segundo lugar, vem a dissolução das paredes da privacidade. Algoritmos extraem dados íntimos de toda gente para abastecer estratégias que desinformam e semeiam medo, preconceito e ódio. A desinformação industrializada, por sua vez, gera a terceira fonte de angústia: o declínio da democracia. Em toda parte, o autoritarismo ganha força, inclusive entre aqueles que, alegando defender as liberdades, são truculentos.

O pior é que a culpa é nossa. Não há mais como ignorar que a responsabilidade pelas três fontes das aflições que calcinam o espírito do tempo é integralmente nossa. Não é mais possível jogar a conta para os “outros”. A culpa não é “da indústria”, não é “da China”, não é “do marxismo cultural”, não é “da ideologia de gênero”, não é “do Google”, não é “do Trump” ou “do Bolsonaro”: é nossa, é minha, é sua, é de todo mundo. Os sujeitos pensantes, que são raros, olham para a frente e enxergam o fracasso. A nossa capacidade de agir coletivamente com base na razão vai malogrando em lances bizarros. A angústia se cristaliza em impotência.

Examinemos os fatos. De início, vejamos o que se passa com a destruição da natureza. Depois da COP-26 (a Cúpula do Clima, em Glasgow, na Escócia), não há mais espaço político, lógico, ético ou científico para dizermos que o ser humano não tem parte no aquecimento global. Não dá mais para disfarçar. Quem pôs fogo no clima fomos nós. Quem leva a humanidade rumo à extinção é a própria humanidade. Tanto isso é verdade que o português António Guterres, secretário-geral da ONU, fez o seu alerta em tom ameaçador: “Basta de cavar a nossa própria cova!”.

Roberto Macedo* - Com 11 nomes, terceira via tem candidatos demais

O Estado de S. Paulo

É preciso que a alternativa a Lula e Bolsonaro em 2022 caminhe para um único candidato realmente viável

A11 meses da eleição presidencial de 2022, é desolador o quadro das pesquisas eleitorais, embora eu tenha a esperança de que se modifique para viabilizar um único candidato da chamada terceira via, que, lutando por efetiva governança do Estado, se mostrasse capaz de tirar o País do desgoverno em que se encontra. E que, também, tirasse o Brasil do baixo crescimento econômico em que se afundou há quatro décadas, com uma saída socialmente inclusiva e sustentável do ponto de vista ambiental.

Quanto às pesquisas de intenção de voto, focarei, aqui, na mais recente do Datafolha, realizada entre os dias 13 e 15 de setembro, que ouviu 3.667 pessoas em 190 cidades brasileiras. Lideraram os resultados os candidatos Lula (PT) e Jair Bolsonaro (sem partido), que não vejo como credenciados para um novo mandato. Entre outros resultados, a pesquisa apresenta quatro cenários de candidaturas estimuladas – ou seja, uma lista é mostrada a quem vai votar –, e em todos os cenários Lula aparece em primeiro lugar, com 42% a 44% dos votos; Bolsonaro em segundo, com 24% a 26%; e Ciro Gomes em terceiro, recebendo de 9% a 12% dos votos.

Além de Ciro, os cenários incluem outros nomes da terceira via, que atualmente são 11: o próprio Ciro Gomes (PDT); João Doria (PSDB), Eduardo Leite (PSDB), Arthur Virgílio (PSDB), Sergio Moro (sem partido), Rodrigo Pacheco (PSD), Luiz Henrique Mandetta (DEM), Simone Tebet (MDB), José Luiz Datena (PSL), Luiz Felipe D’ávila (Novo) e Alessandro Vieira (Cidadania). A estes nomes, a pesquisa somou Aldo Rebelo (sem partido), mas excluiu Virgílio, Moro e D’ávila – os dois últimos só recentemente integrados à terceira via.

Merval Pereira - Fora de controle

O Globo

Além dos dados econômicos, há aspectos político-jurídicos que mostram o absurdo representado por essa emenda constitucional que pretende autorizar o governo a dar um calote em parte dos precatórios já autorizados pela Justiça. Os dados mostram que o governo não precisaria furar o teto de gastos se, em vez de ter cedido às pressões políticas para a reeleição de Bolsonaro, realocasse despesas com, por exemplo, uma reforma administrativa para enxugar um pouco a máquina pública e obter a verba necessária a instituir o Auxílio Brasil.

As “emendas do relator” e os fundos eleitorais milionários são despesas de que os políticos, especialmente os do Centrão, também não abrem mão, criando uma falsa situação de calamidade financeira para fazer com que a sociedade engula decisões desnecessárias. Furar o teto de gastos, um compromisso assumido na Constituição no governo Michel Temer, que coincidia com um compromisso de campanha do ministro da Economia, Paulo Guedes, transformou-se numa “necessidade” inventada.

Malu Gaspar - Sem Trump, Bolsonaro ficou falando sozinho

O Globo

Há dois anos, Jair Bolsonaro chegou ao Japão para participar de sua primeira reunião de cúpula do G20 pressionado por cobranças das grandes potências a respeito de suas políticas ambientais e constrangido pela prisão de um sargento da FAB que transportava 39 quilos de cocaína num avião da comitiva presidencial. Irritado, interrompeu uma entrevista quando perguntaram sobre o caso e foi logo dizendo que não admitiria ser advertido pelos outros chefes de Estado sobre meio ambiente.

Ainda assim, encontrou-se com os presidentes da França e dos Estados Unidos, com o príncipe herdeiro da Arábia Saudita e com os primeiros-ministros da Índia, do Japão, da Alemanha e de Cingapura.

Participou de um encontro de dirigentes do Brics, o bloco de países emergentes, e saiu com um acordo da União Europeia com o Mercosul. O acordo até hoje não foi assinado, e Bolsonaro sofreu uma enxurrada de críticas, mas àquela altura ele ainda estava no jogo.

Míriam Leitão - Os bons passos e a encruzilhada

O Globo

Uma mistura de pressão diplomática, isolamento internacional e posição forte do empresariado fizeram o governo brasileiro adotar posições mais avançadas na COP26. Jair Bolsonaro não mudou, nem mudará, mas o governo está sendo empurrado para posições mais razoáveis. Por isso aceitou assinar o acordo de redução do metano, e o acordo de florestas, que tem a meta de desmatamento zero até 2030. O tema que começou a ser discutido ontem, em Glasgow, o financiamento aos países pobres e em desenvolvimento, deve ser adiado de novo para 2023.

O item financiamento é o mais conflituoso da COP. A conversa começou ontem, mas só deve ganhar força quando ocorrer a reunião de ministros na semana que vem. É promessa velha não cumprida pelos ricos. Eles prometeram, em 2009, na COP15, US$ 100 bilhões por ano entre 2020 e 2025. Depois isso foi confirmado em 2015 em Paris. Não aconteceu. Agora, os países ricos estão querendo adiar para 2023 o começo do desembolso. Esse valor hoje é considerado insuficiente para atingir o objetivo de financiar as ações de adaptação e mitigação dos efeitos das mudanças climáticas nos países pobres e em desenvolvimento. As economias maduras são as que mais emitiram gases de efeito estufa no passado, portanto são as principais responsáveis pelo que está acontecendo hoje e precisam financiar o resto do mundo a se proteger e a fazer a transição para uma economia de baixo carbono.

Vera Magalhães - Bolsonaro e Lira inauguram o vale-tudo eleitoral; Senado vai validar?

O Globo

Arthur Lira inaugurou nesta quarta-feira um vale-tudo nunca visto para aprovar a Proposta de Emenda à Constituição que permite ao governo pedalar para parcelar o pagamento de precatórios e achar um espaço fiscal a fórceps para viabilizar o Auxílio Brasil de R$ 400 para 17 milhões de beneficiários.

Não só o texto da PEC traz toda sorte de estripulias legislativas e fiscais, sob o olhar até aqui bastante complacente dos órgãos de controle e do Judiciário.

As manobras empreendidas por Lira para aprovar a PEC que na prática implode o teto de gastos foram bastante além daquelas já tentadas por ele próprio e até por presidentes da Câmara antecessores que eram famosos por cavalos de pau do gênero, como Eduardo Cunha.

A mais escandalosa delas foi permitir que os deputados votassem remotamente, até mesmo do exterior, rasgando uma deliberação da Mesa que obrigava o retorno presencial. O quórum era, desde a semana passada, o maior obstáculo à aprovação da PEC. Em várias bancadas, deputados estavam se ausentando propositalmente, para não ter de chancelar a medida polêmica e ao mesmo tempo não confrontar o governo diretamente.

Na emenda que fez à própria resolução de voto presencial, Lira adendou que deputados em "missão oficial" poderiam votar por aplicativo, conseguindo assim garantir a participação dos 13 parlamentares que estavam na COP26. Assim, conseguiu diminuir o peso da ausência dos "subitamente gripados" no placar.

Mesmo assim o governo só conseguiu uma vitória no olho mecânico, com 4 votos a mais que os 308 necessários para aprovar a aberração fiscal. Na votação preliminar, para decidir sobre a retirada ou não da PEC da pauta, houve 307 votos só com o governo, e ainda assim Lira resolveu prosseguir, já no comando total das operações para garantir a aprovação da medida.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

De novo, Bolsonaro envergonha o Brasil

O Estado de S. Paulo

No exterior, presidente é motivo de zombaria, descaso e vergonha. No Brasil, ele é ainda uma constante fonte de incerteza e angústia

O presidente Jair Bolsonaro foi a Roma a pretexto de participar da cúpula do G20, grupo formado pelas 20 maiores economias do mundo. A viagem pode ter sido boa para ele e para os membros de sua comitiva. Para o Brasil e para os brasileiros, no entanto, foi péssima. Jamais um chefe de Estado havia envergonhado tão profundamente o País em uma agenda internacional. Mais uma vez, restou evidente que Bolsonaro não está à altura da Presidência da República.

O roteiro da viagem de Bolsonaro pela Itália retratou com exatidão o deserto programático de seu governo, a total ausência de uma agenda do presidente para o País e sua incompreensão do lugar do Brasil no mundo. Como não sabe o que fazer e tampouco separa interesses de Estado e de governo de seus objetivos particulares, Bolsonaro passou longe de reuniões bilaterais produtivas, alinhamento de acordos diplomáticos e comerciais ou simplesmente conversas de alto nível com outros dignitários que pudessem ao menos estreitar laços entre o Brasil e os outros países do G-20. Enquanto chefes de Estado e de governo conversavam entre si sobre temas de interesse comum como vacinação, mudanças climáticas e taxação global para grandes empresas, Bolsonaro se entretinha entabulando conversas sobre futebol com alguns garçons.

O presidente brasileiro se reuniu apenas com o anfitrião da cúpula do G-20, o presidente italiano Sergio Mattarella, encontro meramente protocolar, e com o secretário-geral da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), Mathias Cormann. Como foi noticiado, o encontro entre Bolsonaro e Cormann foi “rápido e inconclusivo”. Bolsonaro reafirmou a pretensão do Brasil de ingressar na OCDE, mas ouviu do secretário-geral da organização que, embora o País seja “grandioso”, “há um processo e o Brasil é um dos seis países candidatos (a ingressar na OCDE)”.

Poesia | Cora Coralina - Aninha e suas pedras

Não te deixes destruir…
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.

Música | Ana Costa & Leila Pinheiro - Na lida do amor / Não é não

 

quarta-feira, 3 de novembro de 2021

Vera Magalhães - Depois da Itália, dá para crer em Glasgow?

O Globo

O Brasil surpreendeu e, debaixo de uma tremenda pressão dos Estados Unidos, assinou o Compromisso Global do Metano com outros 96 países, para reduzir em 30% as emissões desse gás, um dos maiores responsáveis pelo aquecimento global, até 2030, partindo dos dados de 2020.

O governo brasileiro também aderiu ao acordo para zerar o desmatamento até 2030, ao lado de mais de cem países, desta vez com Rússia e China, que não integram o tratado do metano.

Duas notícias com potencial bastante positivo, ainda mais diante do retrospecto do governo Bolsonaro noutras cúpulas climáticas desde 2019. Mas, justamente por isso: será que é possível acreditar em tamanha inflexão de um governo que, até aqui, apenas desdenhou a emergência climática e incentivou o desmatamento ao defender garimpos, exploração econômica da Amazônia e fim da demarcação de terras indígenas, além de interromper a política de fiscalização e multas a crimes ambientais? E que tem justamente no setor mais atrasado do agronegócio, aquele dissociado de compromissos ambientais, um dos seus esteios econômicos e políticos?

Elio Gaspari - A diplomacia miliciana de Bolsonaro

O Globo / Folha de S. Paulo

Ele foi a Roma para brigar na rua

As cenas da passagem da comitiva de Bolsonaro por Roma foram um aperitivo do que pode acontecer durante a campanha eleitoral do ano que vem. Ganha uma viagem a um garimpo ilegal da Amazônia quem souber de uma ideia apresentada pelo capitão durante sua passagem pela cidade e pela reunião do G20.

Pisou no pé da chanceler alemã Angela Merkel, teve uma conversa desconexa com o presidente turco, conversou com garçons e, por não usar máscara nem tomar vacina, ficou sem o aperto de mão do primeiro-ministro Mario Draghi.

Bolsonaro aproveitou a viagem para seguir um roteiro sentimental e, na segunda-feira, foi a Pádua. Lá aconteceu um choque de manifestantes com a polícia, que bloqueou uma marcha. Quem viu as cenas testemunhou um encontro de militantes organizados, mesmo agressivos, com forças da ordem civilizadas. A polícia usou canhão de água e cassetetes para conter a passeata. Uma só manifestante foi detida. Usou-se a força sem violência indiscriminada. Isso em Pádua.

Cristovam Buarque* - Casamento irresponsável

Correio Braziliense

Entre 1958 e 1994, o Brasil ganhou cinco Copas do Mundo e teve 10 moedas: somos o país do futebol e da inflação. A vocação para o esporte vem da prática por todos os brasileiros desde a infância, a vocação para desvalorizar a moeda vem do casamento irresponsável entre política populista, sem compromisso nacional, com economia keynesiana mimética, sem adaptação à nossa realidade.

O economista britânico John Maynard Keynes (1883-1946) formulou proposta para países já desenvolvidos, com responsabilidade fiscal entre entes políticos, razoável grau de austeridade entre consumidores e agentes públicos, numa sociedade com distribuição de renda e acesso a serviços públicos, em tempo anterior ao consumismo do pós-guerra. No artigo “Quanto é Bastante”, Keynes especulava sobre limite máximo de renda necessária para vida digna.

Sua formidável proposta de aumentar o gasto público como instrumento para recuperar o emprego e a atividade em economias desenvolvidas com política responsável foi importada para o Brasil sem considerar nossa cultura política populista, num país dividido socialmente, com imensos bolsões de pobreza, tolerante com concentração de renda e ineficiência econômica, com voracidade por consumo e gosto pela ostentação, e fascinado pela possibilidade de sair do subdesenvolvimento caminhando “50 anos em 5”, tendo a ilusão de que é possível beneficiar a todos sem sacrificar ninguém.

Luiz Carlos Azedo - Txai Suruí é a minha candidata ao Nobel da Paz de 2022

Correio Braziliense

A jovem Walelasoetxeige Suruí tem apenas 24 anos e confirma a quebra do monopólio da política internacional de chefes de Estado, diplomatas e militares

Criado em 1901, o prêmio Nobel da Paz não foi capaz de impedir as duas grandes guerras mundiais do século passado, mas contribuiu muito para que a política internacional deixasse de ser monopólio dos chefes de Estado, diplomatas e militares, projetando personalidades que efetivamente contribuíram para que a paz se consolidasse como um valor universal. Ironicamente, seu criador, Alfred Nobel, era um industrial, inventor e fabricante de armamentos sueco. Por sua decisão, um comitê de cinco pessoas indicadas pelo Parlamento da Suécia anualmente escolhe aqueles que se destacaram por trabalhar pela fraternidade entre as nações, pela abolição ou redução de exércitos permanentes e pela paz. Polêmico, nos últimos anos, o prêmio vem sendo destinado a pessoas que enfrentam situações limites em seus respectivos países, como os jornalistas Maria Ressa e Dmitry Muratov, nas Filipinas e na Rússia, respectivamente, os premiados de 2021.

Bernardo Mello Franco – Moro e a vassoura

O Globo

A cada três décadas, o Brasil elege um salvador da pátria que promete acabar com a corrupção. Em 2018, Jair Bolsonaro reciclou o discurso moralista de Fernando Collor em 1989. Os dois seguiram a trilha de Jânio Quadros, fenômeno eleitoral de 1960.

Jânio subia ao palanque com uma vassourinha. Prometia usá-la para varrer a bandalheira da política. Como Collor e Bolsonaro, elegeu-se por um partido de aluguel, o PTN. A sigla foi extinta na ditadura, ressurgiu na democracia e mudou o nome para Podemos. Na semana que vem, lançará Sergio Moro como pré-candidato ao Planalto.

O ex-juiz se projetou com a imagem de caçador de corruptos. Depois abandonou a toga, virou ministro e caiu em desgraça ao romper com Bolsonaro e ter sentenças anuladas pelo Supremo. Ontem ele começou a distribuir convites para o ato de filiação. Escolheu o Dia de Finados para tentar ressuscitar na cena política.

Moro disputará espaço na terceira via, que hoje tem muitos candidatos e poucos votos. No fim de setembro, ele apareceu com 5% numa pesquisa do Ipec. Amargou um modesto quarto lugar, bem atrás de Lula (45%) e Bolsonaro (22%) e embolado com Ciro Gomes (6%).

Bruno Boghossian – O candidato veste toga

Folha de S. Paulo

Personagem da arena política, ex-juiz continuará vestindo toga como pré-candidato

Em novembro de 2017, Sergio Moro dizia que migrar para o campo eleitoral seria um movimento inapropriado, tanto naquela época como no futuro. O próprio juiz admitia o problema. "Isso poderia colocar em dúvida a integridade do trabalho que eu fiz até o presente momento", disse, num seminário da revista Veja.

Na ocasião, Moro já era um personagem daquela arena. Ele defendia a decisão de divulgar uma gravação que ampliou a turbulência do impeachment de Dilma Rousseff e chefiava um processo contra o candidato que liderava as pesquisas para a eleição seguinte. O juiz, no entanto, tentava traçar uma linha para afastar a ideia de que buscava um benefício político direto com sua atuação.

Hélio Schwartsman - Como destronar um autocrata

Folha de S. Paulo

Oposição do país fez a lição de casa para enfrentar Orbán

A oposição húngara poderá até perder a eleição do ano que vem para o grupo do premiê Viktor Orbán, mas, se isso ocorrer, não terá sido por falta de coordenação e desprendimento. A coalizão de seis partidos que se opõem a Orbán é um saco de gatos. Inclui desde conservadores religiosos até a centro-esquerda, passando pelos liberais. Mas eles estão fazendo tudo certo para tentar destronar o premiê, no poder desde 2010. Orbán é provavelmente o caso mais bem-sucedido de dirigente que se valeu da democracia para minar as instituições do país e converter-se num autocrata.

Os entendimentos entre os oposicionistas começaram em dezembro passado, quando concordaram em lançar um candidato único. Agora, após a realização de prévias, anunciaram o nome do católico conservador Péter Márki-Zay. Antes mesmo dessa votação, um líder progressista bem cotado para a disputa desistiu da candidatura em favor de Márki-Zay por entender que um conservador tem mais chances de triunfar.

Vinicius Torres Freire – Brasil, só e repugnante como Bolsonaro

Folha de S. Paulo

Presidente faz do país um lugar tão repulsivo quanto seu comportamento

Nos encontros do G20, Jair Bolsonaro se comportou como o grosseirão que é, incapaz de conversas humanas e um provinciano da pior espécie. Foi desprezado (por Mario Draghi, Itália), tratado com tédio desinteressado (por Recep Erdogan, Turquia) ou condescendente (por Angela Merkel, Alemanha).

E daí? Para os interesses do país, tamanho vexame faz diferença? Pouca. Por vezes, a proximidade entre governantes pode ajudar a desembaraçar um aspecto de uma crise grande ou facilitar um início de negociação. No mais, interesses econômicos e projetos nacionais de domínio, paz ou guerra (mesmo por outros meios) determinam o grosso de relações internacionais, tendo como pano de fundo a inércia de história, geografia, cultura ou religião.

Aquelas situações constrangedoras, porém, são sintomáticas. Para começar, lideranças que não sejam amigas de selvagerias não querem aparecer em bons termos com Bolsonaro. É um risco político, ainda que pequeno, além de desagradável. Isso que está na cadeira de presidente do Brasil é um projeto de tirano, um líder da destruição ambiental e um inimigo da diversidade humana.

Maria Celina D’Araujo* - Parlamentarismo numa horas dessas?

O Estado de S. Paulo

Bolívar Lamounier aposta todas as fichas numa reforma política que inclua a mudança do sistema de governo, com voto distrital misto

Este artigo é sobre um importante livro de Bolívar Lamounier e toma como título uma ideia de Luis Fernando Veríssimo. Quando Veríssimo acha que tudo está de pernas para o ar, acrescenta uns versinhos em sua coluna com o título Poesia numa horas dessas?

Lamounier é um cientista político, de recorte parlamentarista, com grande e longa contribuição ao debate sobre ideias e formas na política brasileira. Desde os anos 1970, sua obsessão benigna tem sido o aprimoramento do sistema político, do ponto de vista institucional – eleições e governo. Coerentemente, em sua trajetória, tem insistido na importância de construir instituições, numa perspectiva que remete a Stuart Mill: boas instituições fazem a boa democracia. Seu livro Da independência a Lula e Bolsonaro, dois séculos de política brasileira (Editora FGV), que abordo aqui, é prova cabal disso. Trata-se de reedição de versão anterior (2005), que acompanhava a trajetória política do Brasil até o governo Lula da Silva. Desta feita, há um acréscimo analítico sobre o governo Bolsonaro apontando para o descalabro a que o País chegou: presidente autoritário, inescrupuloso e beócio, sistema partidário pífio, fisiológico e volátil, sistema eleitoral negligente, ausência de projeto de desenvolvimento político e econômico, País à deriva, população empobrecida descrente das capacidades do governo e ricos cada vez mais ricos. País que se acomodou na tese da renda média – na verdade, a melhor armadilha para o retrocesso.

Assis Moreira* - Biden não convidou Bolsonaro em Roma

Valor Econômico

Passagem desastrosa do presidente por Roma indica piora em sua imagem no exterior

O presidente Jair Bolsonaro teve uma passagem desastrosa no G20, no fim de semana em Roma, a ponto de alguns perguntarem se não teria sido melhor ele ter seguido o exemplo do russo Vladimir Putin e do chinês Xi Jinping e ficado mesmo no Palácio da Alvorada. A cara do Brasil no exterior é seu presidente, e a percepção sobre Bolsonaro pareceu só piorar.

Em Roma, além das imagens mostrarem um presidente praticamente ignorado por seus colegas no G20, Bolsonaro tampouco foi chamado para outro evento de líderes, esse organizado pela Casa Branca. O governo dos Estados Unidos deixou de fora o Brasil de um encontro para tratar das disrupções nas cadeias globais de abastecimento, para buscar soluções a esse problema que entrava a economia global e tem provocado alta de inflação em diferentes regiões do mundo.

Logo depois da cúpula do G20, o presidente Joe Biden promoveu uma espécie de cúpula paralela “sobre resiliência da cadeia de abastecimento mundial” no mesmo centro de convenções La Nuvola. Isso foi quase ao mesmo tempo em que, a 15 quilômetros dali, o presidente Jair Bolsonaro fazia um passeio pelo centro de Roma marcado por agressão de seguranças a jornalistas.

Participaram do evento de Biden a União Europeia e 14 países “like-minded” (com disposição e propósitos semelhantes), conforme os termos da Casa Branca: Austrália, Canadá, Alemanha, Indonésia, Índia, Itália, Japão, México, Coreia do Sul, Cingapura, Espanha e Reino Unido. Além da Holanda e da Republica Democrata do Congo, que tinham acompanhado o G20 como convidados da Itália.

Tiago Cavalcanti* - A meritocracia inclui a diversidade?

Valor Econômico

Aumentos da diversidade deveriam vir apenas através de melhoras no sistema educacional público

Fundada em 1209, a universidade de Cambridge é a segunda mais antiga do Reino Unido. Assim como a universidade de Oxford, é formada por uma confederação que agrega dezenas de colleges, que são entidades com gestão independente e fazem a admissão dos alunos da graduação. Os colleges oferecem também os tutoriais, que são discussões em grupos pequenos dos temas centrais lecionados nas grandes aulas ou seminários, oferecidos de forma centralizada pela universidade. Os membros de cada college, ou os fellows, são os acadêmicos que oferecem os tutoriais.

O Trinity College, do qual faço parte, foi fundado em 1546 pelo rei Henrique VIII. É o college mais rico entre todos, tanto de Cambridge quanto de Oxford. O Trinity, muito antes disso virar moda, investiu em startups que nasceram na universidade de Cambridge e criou o primeiro centro de negócios ligado à universidade. No refeitório do Trinity College tem um quadro com o retrato de Henrique VIII e a seguinte mensagem em Latin: Semper Eadem, que significa Sempre o Mesmo.

Fábio Alves - Inflação em fuga

O Estado de S. Paulo

Com as expectativas para o IPCA subindo, BC terá de endurecer o aperto monetário

O repique inflacionário, mais persistente e em maior magnitude do que se imaginava, segue surpreendendo o mercado a ponto de as projeções de analistas para o índice de preços ao consumidor em 2022 ameaçarem superar o teto da meta de inflação também no ano que vem. Para 2021, já se espera que esse teto seja estourado por larga margem.

A preocupação é que o choque nos preços causado pela pandemia de covid, que provocou interrupções nas cadeias produtivas globais, gerando gargalos na oferta de bens, não arrefeceu o suficiente para acomodar a crescente pressão nos preços de setores ligados à retomada da economia com o avanço da vacinação, como serviços.

No último índice de inflação, o consenso das estimativas ficou muito aquém do resultado final: o IPCA-15 de outubro subiu 1,2%, enquanto o mercado esperava alta de 1%. Após esse índice, houve uma rodada de revisões para cima das estimativas da inflação para o ano de 2021, com várias projeções ao redor de 10%. É bom lembrar que o teto da meta de inflação deste ano é 5,25%.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

2022 pode ser diferente de 2018

O Estado de S. Paulo

É um erro transformar as eleições em disputa de quem grita mais alto contra a corrupção. Que os bons nomes apresentem boas propostas de governo

Segundo mostrou o Estado, ao menos onze pré-candidatos já se apresentaram para as eleições presidenciais do ano que vem. Excetuando Lula da Silva e Jair Bolsonaro – cuja nociva passagem pelo poder deveria bastar para que a perspectiva de vitória de um ou de outro no ano que vem cause apreensão –, há nomes bastante razoáveis, com passagens muito positivas pela administração pública, à disposição do eleitorado.

Ainda há tempo para que surjam outros candidatos honestos e competentes, além dos que já lançaram sua pré-candidatura. De toda forma, é alvissareiro constatar que não será por falta de bons postulantes que o País será impedido de ter, a partir de 2023, um presidente da República responsável, equilibrado e com espírito democrático.

Deve-se reconhecer, no entanto, que isso não basta. Em 2018, havia bons nomes na disputa presidencial e, mesmo assim, o segundo turno das eleições foi entre aquele que fazia às vezes de Lula da Silva – então preso, em razão de condenação criminal – e Jair Bolsonaro – deputado medíocre, conhecido pela renitente falta de decoro parlamentar. Com três décadas de vida política, o ex-capitão não tinha nenhuma realização ou legado a apresentar. Vale notar que a mudança para o Palácio da Alvorada não alterou o quadro. A incivilidade e a incompetência continuam sendo características de sua atuação.

Poesia | Mario Quintana – O Tempo

A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são 6 horas: há tempo…
Quando se vê, já é 6ª-feira…
Quando se vê, passaram 60 anos!
Agora, é tarde demais para ser reprovado…
E se me dessem – um dia – uma outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio
seguia sempre em frente…

E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.

Música | Canção pra Amazônia

 

terça-feira, 2 de novembro de 2021

Merval Pereira - Seleção natural

O Globo

A tese de que o eleitor fará a seleção natural para escolher quem será capaz de derrotar Bolsonaro e Lula no ano que vem tem mais credibilidade para esta eleição do que em 2018, quando a maioria queria mesmo era impedir que o petismo voltasse ao poder. Hoje, a maioria quer que apareça algum candidato capaz de derrotar o presente infame e o passado recente que não quer ter de volta.

Bolsonaro surgiu do nada para derrotar o candidato petista Fernando Haddad porque, naquela ocasião, o eleitorado votou com sangue nos olhos. O PT inaugurou a política do “nós contra eles”, sem se dar conta de que “eles” tinham a maioria depois que o predomínio petista foi sendo corroído pelas acusações de corrupção, do mensalão ao petrolão. Não que os extremistas de direita sejam, ou fossem naquela ocasião, a maioria do eleitorado, mas porque Bolsonaro surgiu como uma novidade que não era, mas parecia ser, pela linguagem desabrida, pela suposta coragem de encarar os poderosos, de ir contra “o sistema”.

A maioria não percebeu, apesar das demonstrações públicas de que era misógino, racista, miliciano, fariseu, que Bolsonaro era a face mais obscura do próprio sistema, um falso Messias. Hoje, é diferente. Já se sabe o que é ser um Bolsonaro, e, mesmo entre os que o apoiam ainda, a maioria está à espera de um(a) candidato(a) que seja capaz de derrotar não apenas o farsante que nos governa, como o que quer voltar para repetir os mesmos erros, com as mesmas pessoas.

Míriam Leitão - Governo diminui um país gigante

O Globo

O Brasil empatou com o passado. É assim que Márcio Astrini, coordenador do Observatório do Clima, explica a mudança anunciada ontem, em Glasgow, das metas brasileiras. “Esse empate vem depois de um ano de enorme prejuízo para a imagem do Brasil”, diz. O Brasil havia dado uma pedalada climática, e agora, ao subir de 43% para 50% a redução das emissões em 2030, em relação a 2005, o país atinge o mesmo efeito líquido. Na verdade, não elevou as metas, fingiu aumentar as ambições, para voltar ao que se comprometeu quando assinou o Acordo de Paris.

— O Brasil é o único país entre os grandes emissores que havia retrocedido em suas metas climáticas e por isso estava sendo enormemente criticado — diz Astrini.

O Brasil é o quinto maior emissor de gases de efeito estufa, atrás da China, Estados Unidos, Índia e Rússia. Se considerar a União Europeia como um país, é o sexto, informa o coordenador do MapBiomas, Tasso Azevedo. E ele concorda com Astrini. O que aconteceu ontem foi um não evento.

— Sobre a nova meta, o governo brasileiro tirou o bode da sala. Com a meta de 50% sobre a emissão de 2005, com números do quarto inventário, o resultado é o mesmo: o Brasil vai reduzir para 1,2 bilhão de tonelada de carbono. E tem mais, em 2015, quando se fez a meta, o Brasil já havia reduzido em 40% as emissões de 2005. Só que de 2016 para cá o país só fez crescer as emissões e em 2020 aumentou 4,6% sobre 2015. Estamos na trajetória errada — disse Tasso Azevedo.

Zuenir Ventura - No papel de penetra

O Globo

A imagem que simboliza o isolamento do Brasil na cúpula do G20 está no vídeo em que Jair Bolsonaro aparece perambulando pelo amplo salão onde os principais líderes confraternizavam em vários grupos. Completamente deslocado, ele parece um penetra. Só se sente mais à vontade quando se refugia no bar e passa a puxar conversa com os garçons por meio do intérprete.

Em seguida, fica em pé e, apontando com o dedo os grupos, parece perguntar quem é quem. Estão ali alguns conhecidos, como Boris Johnson. Mas nenhuma das lideranças se dignou a dirigir-lhe sequer um cumprimento. A cena é patética.

Bolsonaro deve agradecer a quem teve a ideia de arranjar-lhe um de seus raros interlocutores, este sob medida: o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, considerado pela organização Repórteres sem Fronteira “o inimigo número um da liberdade de imprensa”. Os dois têm, portanto, muita afinidade.

Carlos Andreazza - Finados

O Globo

Ao passar a Presidência para (o de súbito pacificado) Hamilton Mourão (qual será o acordo?), Jair Bolsonaro falou em folga. É como o chefe de Estado brasileiro — um destruidor infeliz, agente dilapidador que não gosta de trabalhar, despreza a República e a democracia representativa — compreende uma viagem oficial: folga. Escape. Talvez mesmo liberdade.

Liberdade para — segundo a compreensão bolsonarista de direito individual — forjar inimigos artificiais, difundir conspirações, apregoar desconfianças, investir contra a estabilidade institucional e — por que não? — distribuir pancadas.

Garanto que se divertiu em Roma; especialmente ao ver seus cachorros mordendo jornalistas. Ele não precisaria ter ordenado a caçada para haver ordenado a caçada. Apito soprado faz tempo; e todos os dias. A palavra de um presidente, tanto mais a de um líder personalista que se mitifica, resulta. São anos de pregação até um arranjo autoritário em que jornalistas tenham de agradecer quando apenas intimidados.

Não nos enganemos: aquilo — o que se viu na blitz da milícia de Bolsonaro contra a imprensa — é biscoito para a base social extremista há semanas chateada com o presidente cujas barbaridades restringiram-se, reduziram-se, à desqualificação de vacinas. Como!? Somente isso!?

Não nos enganemos: o assalto contra jornalistas foi o gozo entre bolsonaristas. Desqualificar vacinas já é pouco. A turma quer — acostumou-se com — mais. Quer conflito. E aqui convém projetar, com bastante segurança, o que será o ano eleitoral a vir: uma campanha violenta, materialmente violenta, de riscos sem precedente, e não apenas para profissionais de imprensa, em que as pessoas — como gangues — sairão no braço. Briga de rua, sob o espectro da forra pela facada.