quinta-feira, 15 de setembro de 2022

Paulo Fábio Dantas Neto* - Data vênia: o 2 de outubro não será o dia da melhor decisão

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.
(...)

Outros que contem
Passo por passo
Eu morro ontem
Nasço amanhã
Ando onde há espaço
Meu tempo é quando

(Extratos de “Poética I” – Vinicius de Moraes)

Quando o presidente da República, candidato à reeleição, disse, ontem, pela primeira vez, 19 dias antes do pleito, que vencerá a eleição em primeiro turno, a afirmação sinalizou, mais que uma profecia, ou bravata, dita na contramão das pesquisas, que a sua candidatura, afinal, somou-se à do seu principal desafiante numa campanha pelo chamado “voto útil”. Agora tudo indica que o relativo sossego de Simone Tebet como alvo chegou ao fim. Cientes de que ela conquista muitas intenções de voto que, sem ela, iriam para o atual presidente, os capitães da campanha pela reeleição deverão mover sua artilharia para secar a candidatura do MDB/PSDB/Cidadania. Para Simone, um teste de fogo e um belo desafio.

No mesmo dia, pela boca do desafiante principal, que há mais de um ano lidera as pesquisas de intenção de voto, saiu a mesma voz de comando oficial. No caso do líder, sua voz agora apenas formaliza algo que até as pedras já anunciavam, pois sua campanha pelo voto útil começou há várias semanas, por muitas centenas, talvez milhares, de vozes informais espalhadas por redes de militância, mirando eleitores que intencionam votar em Ciro Gomes. Convergem nesse apelo apoiadores em vários setores da sociedade, assim como políticos de outros partidos que se juntaram à frente de esquerda liderada pelo PT.

A pressão, e/ou a convicção, por uma decisão final em primeiro turno tem reunido muito mais gente, além do comitê (ou QG, no jargão bélico da moda) da principal candidatura da oposição. Espalhou-se como fogo no breu pelas redes sociais mobilizadas, penetrou em ambientes onde se faz análises acadêmicas ou jornalísticas e é acolhida com simpatia e mesmo engajamento, por linhas editoriais da grande imprensa (à exceção do “Estadão”), em especial pela mídia televisiva da Globo e da CNN.  

Merval Pereira - Procuram-se votos

O Globo

Campanha de Lula pelo voto útil no primeiro turno mostra incongruência do petista

O ex-presidente Lula está demonstrando, mais uma vez, que é uma metamorfose ambulante. Muda de opinião dependendo de a situação ser favorável a ele ou não. Agora se empenha em pedir o voto útil em seu nome já no primeiro turno da eleição e garante que sempre disputou eleição para vencer direto, o que nunca conseguiu, desde 1989, primeira vez em que concorreu à Presidência.

Mas sua visão sobre voto útil já foi diferente. Em 2020, na disputa pela Prefeitura de São Paulo, o PT se recusou a apoiar Guilherme Boulos, do PSOL, contra o então prefeito Bruno Covas. O candidato petista, Jilmar Tatto, ficou nos 6% dos votos e, mesmo assim, não abriu mão da disputa. Não tinha a menor chance de vencer, como aparentemente não têm hoje Ciro Gomes e Simone Tebet, mas se recusou a retirar seu nome em favor do candidato de esquerda mais bem colocado. Acabou vencendo o então prefeito tucano. O que demonstra que não havia voto suficiente na esquerda para vencer a eleição, no primeiro ou no segundo turno.

Lula justificou-se dizendo que o primeiro turno é para votar no candidato preferido, no segundo faz-se o acordo. Hoje, o PT faz pressão para que eleitores de Ciro e Tebet votem em Lula no primeiro turno, com base em várias presunções: eles não têm chance de vencer; votar neles seria ajudar Bolsonaro a ir para o segundo turno; não votar em Lula é ser bolsonarista.

Conrado Hübner Mendes* - É voto de sobrevivência, não é voto útil

Folha de S. Paulo

Numa eleição incomparável, dar a Bolsonaro chance do segundo turno põe tudo em risco

Política democrática é política do sonho e da frustração. Muita frustração. Impõe escolhas não-ideais e subótimas, mas entrega o que regimes não democráticos sonegam: canais para reivindicação de direitos e controle do poder. Abre portas para reclamar por liberdade e dignidade. Por desenvolvimento econômico e social. Distribui o direito de disputar o passado, o presente e o futuro a partir de regras compartilhadas.

Envolve paixão, mas também requer responsabilidade. Requer disposição de eleitores e candidatos para perderem sem melar o jogo. Requer atenção para reconhecer quando a possibilidade de jogar está em risco evidente, e maturidade para minimizar esse risco.

violação estrutural e contumaz de regras eleitorais sempre foi o modo bolsonarista de competir. Não é apenas traço de caráter, mas projeto orquestrado de mudança regressiva de regime político, também chamado de autocratização. Um projeto tão claro nunca esteve em curso nos 30 anos anteriores.

Míriam Leitão - Bolsonarismo e a violência

O Globo

É um erro tratar como eventos isolados o que é sistêmico. Bolsonaro tem a violência como projeto político e as mulheres e a imprensa são alvos

Nada tem acontecido por acaso. O novo ataque que a jornalista Vera Magalhães sofreu é parte de um contexto muito maior e que põe o próprio país em perigo. O agressor, o deputado do Republicanos Douglas Garcia, usou a mesma expressão jogada contra Vera por Bolsonaro. O presidente da República tem a violência como projeto. Por isso fez o incessante trabalho de ampliar o acesso às armas, vociferar contra pessoas que ele escolhe como alvo e jamais desautorizar ato truculento de seus seguidores. Bolsonaro escolheu a imprensa como um dos alvos, e dentro dela mira pessoas, porque assim é o método. Ao individualizar, ele autoriza o ataque e canaliza a raiva que ele alimenta com fins políticos.

O Repórteres sem Fronteira divulgou relatório do primeiro mês de campanha. Nele ocorreram 2,8 milhões de postagens com ofensas ou agressões a jornalistas, 88% deles contra mulheres. O chavismo fez isso também na Venezuela. Hugo Chávez apontava os jornalistas que ele definia como inimigos. No fim, foram fechados vários jornais e emissoras. O governante autoritário quer eliminar a imprensa e para isso começa intimidando alguns jornalistas.

Bruno Boghossian - A bifurcação do bolsonarismo

Folha de S. Paulo

Aliados de Bolsonaro se dividem diante de ofensa a Vera Magalhães, mas bifurcação leva ao mesmo destino

O bolsonarismo amanheceu partido. "Tarcísio acabou de destruir sua candidatura", sentenciou um fervoroso seguidor do presidente numa publicação nas redes. "Mais um traidor para a lista?", questionou outro apoiador. "O Tarcísio vai negociar tudo. Vai negociar a tua família", afirmou o ex-ministro Abraham Weintraub.

Na disputa pelo governo paulista, Tarcísio de Freitas exibe com gosto as credenciais do ex-chefe Jair Bolsonaro, mas se tornou alvo de eleitores fiéis do presidente. O motivo: Tarcísio decidiu rifar publicamente o deputado estadual bolsonarista que ofendeu a jornalista Vera Magalhães após o debate da última terça-feira (13) entre candidatos ao Palácio dos Bandeirantes.

Vinicius Torres Freire - Uma campanha eleitoral mais podre

Folha de S. Paulo

Discussão sobre eleição é dominada por medo e torpezas do bolsonarismo

Uma das notícias mais comuns desta campanha eleitoral é a violência. Há alguns assassinatos, pancadarias e ataques como esses liderados por Jair Bolsonaro (PL) contra a jornalista Vera Magalhães.

No mais, qual o "debate"? Ganhar eleitores evangélicos; a tentativa do bolsonarismo de apagar décadas de imundícies contra mulheres e a humanidade; a campanha das cartas democráticas, que amorteceu a ofensiva golpista; o efeito do Auxílio Brasil na votação.

Sim, há realidades que determinam resultados, como o voto de classe e fome, a influência dos novos poderes sociais e políticos, uma nova divisão regional do voto, a propensão dos mais velhos e muito jovens a votar em Lula da Silva (PT). Mas o que é tema de conversa?

Maria Hermínia Tavares* - Não à tutela militar das urnas

Folha de S. Paulo

O avanço da farda sobre as urnas significa que a necessária separação entre Forças Armadas e política partidária começa a ruir

Pôr em dúvida o mecanismo eleitoral para desqualificar seus resultados é um dos mais batidos recursos a que apela a extrema direita populista. Netanyahu, em Israel; Fujimori, no Peru; além do notório Trump, usaram e abusaram nas campanhas das quais sairiam derrotados, como talvez temessem.

Bolsonaro, portanto, não inova ao disseminar —dia sim, o outro também— denúncias vazias sobre a votação eletrônica. A sua contribuição original para a corrosão da democracia é outra: a forma como vem tentando envolver as Forças Armadas na contestação antecipada de sua provável derrota.

Já em 8 de agosto de 2021, no mesmo dia em que o Congresso abateu a PEC (Projeto de Emenda Constitucional) que tornava obrigatório o voto impresso, o ex-capitão fez os blindados da Marinha desfilarem na Esplanada dos Ministérios. Agora há pouco, tratou de confundir a parada militar e as exibições da Força Aérea pelos 200 anos de Independência com a mobilização por sua reeleição. Nos dois episódios, o que ele quis foi sugerir que os militares endossam suas investidas —por enquanto retóricas— contra as instituições democráticas.

Eugênio Bucci* - O macho fascista

O Estado de S. Paulo

Liberdade - Nada apavora mais o macho fascista que uma cidadã que pense por si e não se dobre

Itália, 1938. “O homem fascista é pai, marido e soldado.” Esse slogan publicitário circula como propaganda oficial de Mussolini. A frase estampa pôsteres e outros materiais do regime.

Um desses pequenos cartazes pode ser visto numa cena do filme Um Dia Muito Especial (Una Giornata Particolare), de Ettore Scola. A produção de Carlo Ponti, lançada em 1977, narra o encontro improvável de um radialista (Marcello Mastroianni) e de uma dona de casa (Sophia Loren) que, no domingo de 8 de maio de 1938, ficam sozinhos num prédio de apartamentos em Roma. Naquele dia, Hitler e alguns de seus ministros visitam a cidade. Todas as outras pessoas que moram no edifício, vestidas com suas melhores roupas, foram aplaudir o Führer e o Duce, que discursam diante do Monumento Nacional a Victor Manuel II. O radialista não se sente parte dos festejos, uma vez que, além de intelectual, é gay (não é pai, nem marido, nem soldado). A dona de casa tem que lavar roupas e, aos poucos, percebe que o fascismo só lhe reserva um papel subalterno. Ela deseja desejar outra vida.

Brasil, 2022. Aqui não existe fascismo propriamente dito, mas traços do fascismo estão em toda parte. A misoginia autoritária é um desses traços. Falocentrismo armado. O ódio aos intelectuais é outra peculiaridade da mesma doutrina, assim como a repressão às artes, o desprezo pelas universidades e os ataques incessantes contra a imprensa.

Sergio Amaral* - A demolição da política externa brasileira

O Estado de S. Paulo

O que o Brasil ganhou com a série de desfeitas e equívocos gratuitos de seu governo, inclusive em relação aos mais importantes parceiros do País?

O Itamaraty é uma das instituições mais respeitadas do serviço público brasileiro. Seus funcionários são, via de regra, competentes. O concurso de ingresso é rigoroso, a formação e o aperfeiçoamento dos diplomatas estendem-se ao longo de toda uma carreira. Seu compromisso com o País é inquestionável.

Não obstante, a política externa foi um dos desastres do governo de Jair Bolsonaro. De início, o presidente seguiu, em suas linhas básicas, a política externa de Donald Trump, que isolou os Estados Unidos do mundo e fez adversários em todas as partes, inclusive na Europa, onde os Estados Unidos sempre mantiveram alianças estreitas e amigos fiéis. Combateu a ordem mundial concebida e implantada por iniciativa dos Estados Unidos nas conferências de São Francisco e de Bretton Woods, logo após o término da Segunda Guerra Mundial.

As confusas e obscuras visões de mundo de Ernesto Araújo, o primeiro chanceler de Bolsonaro, inspiraram-se nas exóticas teses de Steve Bannon, o influente guru e “estrategista” de Trump, que chegou a criar um “movimento” nacional populista na Europa, com sede no mosteiro medieval de Trisulti, na Itália. Seu objetivo era o de abrigar uma escola para a formação dos cruzados do século 21. Ali eles seriam adestrados para defender os valores da cultura judaico-cristã contra as ameaças dos infiéis e do materialismo ateu. Os alunos do Instituto Rio Branco foram convocados para assistir a palestras nas quais ouviram, perplexos, uma doutrinação em defesa dos valores do cristianismo medieval. Não chegaram a realizar o seu treinamento em Trisulti, mas no auditório do Instituto Rio Branco, em Brasília.

William Waack - Lula precisa dizer

O Estado de S. Paulo

Não está claro se o líder nas pesquisas compreendeu as mudanças dos últimos 20 anos

Lula mantém nos debates e entrevistas uma referência central para dizer como governaria em 2023: o que ele pegou em 2003. Ocorre que o Brasil e o mundo mudaram muito e, para pior, do ponto de vista de um presidente da República. Vamos a algumas mudanças decisivas (a lista não é exaustiva).

A questão fiscal se agravou e virou um sério dilema representado pela quebra de um consenso social, que foi o de criar no Brasil um estado de bem-estar sem a capacidade de financiar crescentes gastos sociais. Lula estaria obrigado a combinar política monetária contracionista (para evitar inflação) com uma política fiscal expansionista (para fazer transferência de renda). Ainda não disse como.

No já ruim sistema de governo, o Legislativo avançou sobre o Executivo de maneira inédita e usurpou instrumentos de poder real. Emendas impositivas e do relator mudaram a característica da relação entre Planalto e Congresso, talvez de forma definitiva. O presidente, reconhece Lula, se tornou refém. Para governar, teria de alterar essa relação, mas não disse como.

Malu Gaspar - A guerra das pesquisas

O Globo

Projeções têm sido usadas como 'armas' para o discurso político na corrida pelo Palácio do Planalto

Tirando a onipresente preocupação com o futuro da nossa democracia, há traços bem marcantes por que esta campanha eleitoral será lembrada. É a primeira vez que dois políticos já testados na Presidência, Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva, disputam o mesmo pleito. Provavelmente por já conhecerem bem os dois personagens, os eleitores manifestam um grau de certeza sobre o voto dos mais altos já registrados, em torno de 80%.

Esse quadro ajuda a explicar outro fenômeno que está se provando tão marcante nesta eleição quanto foi a preponderância das redes sociais em 2018: o uso das pesquisas eleitorais como arma para o discurso político.

Numa disputa polarizada e há meses sem nenhum fato novo que mude substancialmente o cenário geral, estrategistas, analistas políticos e o público têm ido buscar nas pesquisas a fórmula para sair da inércia.

Maria Cristina Fernandes - A combustão bolsonarista

Valor Econômico

Praga do radicalismo, depois de ter sido alimentada pelo presidente, agora se volta contra as campanhas majoritárias do bolsonarismo

Quando duas pesquisas de metodologia reconhecida, como a do Ipec e da Quaest, discrepam para além da margem de erro sobre a distância entre os líderes da disputa presidencial, de 15 pontos para o primeiro e oito para o segundo, nenhuma biruta sinaliza melhor os rumos do que aquela das campanhas. A do bolsonarismo está desgovernada.

O sinal derradeiro disso foi dado pela agressão do deputado estadual Douglas Garcia (Republicanos) à jornalista Vera Magalhães. Foi a espontaneidade do gesto que o torna mais eloquente. Está claro que o parlamentar não foi instruído pela campanha bolsonarista, mas pela expectativa de alavancar sua reeleição.

E é por isso que a reeleição do presidente está em apuros. Se em 2018 ele foi capaz de tirar os radicais do armário para dar combustão a um sentimento difuso que se denominou de antipetismo, esses mesmos radicais hoje fugiram controle. Até podem alavancar candidaturas proporcionais, mas produzem estragos em candidaturas majoritárias. Se servem de combustível para algo hoje é ao antibolsonarismo que move a campanha de 2022.

Luiz Carlos Azedo - Voto útil não leva ninguém a votar puxado pelo nariz

Correio Braziliense

Quem está votando em Ciro ou Simone não está votando em Bolsonaro, tem uma preferência legítima numa eleição em dois turnos, que foi bandeira de Lula e do PT durante a votação da Constituição

Um card petista em forma de versos destila veneno nas redes sociais. A primeira frase não tem nada demais numa campanha de voto útil: “Se você votar no Lula,/ Lula vence no primeiro turno”. Logo a seguir aparece um gráfico ilustrado com a foto do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e uma barra vermelha, representando 52% dos votos. Ao lado, uma barra amarela, com as fotos, lado a lado, de Simone Tebet (MDB), Ciro Gomes (PDT) e o presidente Jair Bolsonaro (PL), que corresponderiam a 48% dos votos. Essa é a meta da campanha de voto útil iniciada, nesta semana, pelo próprio Lula, com apoio de artistas e formadores de opinião engajados na sua campanha, para vencer no primeiro turno.

A colagem das fotos já é mal-intencionada, mas o veneno mesmo vem logo a seguir: “Mas se votar em Ciro ou em Simone Tebet, quem vai para o segundo turno é ele”, diz o texto, seguido da imagem de uma mão com o indicador apontando para Bolsonaro, com cara de buldogue e faixa presidencial. Como assim? Quem está votando em Ciro ou em Simone não está votando em Bolsonaro, tem uma preferência legítima numa eleição em dois turnos, que foi bandeira de Lula e do PT durante a votação da Constituição de 1988. Porque isso garantiria a possibilidade, como ocorreu, de que o partido de base operária surgido no ABC paulista se tornasse uma alternativa de poder.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Editoriais / Opiniões

O apito de cachorro

O Estado de S. Paulo

Agressão de um deputado bolsonarista contra Vera Magalhães é consequência direta do ataque do presidente à jornalista, que ousou lhe fazer uma pergunta incômoda

O deputado estadual bolsonarista Douglas Garcia (Republicanos-SP) acossou a jornalista Vera Magalhães durante o debate entre os candidatos ao governo de São Paulo promovido anteontem pela TV Cultura. Na ocasião, disse que Vera era “uma vergonha para o jornalismo” – a mesma frase usada pelo presidente Jair Bolsonaro ao agredir a mesma jornalista durante recente debate entre candidatos à Presidência. 

O episódio não serve somente para confirmar o padrão bolsonarista de desrespeito a mulheres, a jornalistas profissionais e à imprensa independente. Foi uma oportunidade para ver, na prática, como o discurso virulento de Bolsonaro se presta a atiçar seus camisas pardas a transformar palavras em ação. É a versão bolsonarista do “dog whistle”, expressão da política norte-americana que pode ser traduzida literalmente como “apito de cachorro” e que serve para definir frases do líder que são entendidas por seus seguidores como uma espécie de comando.

Assim, quando o presidente Bolsonaro ataca violentamente uma jornalista, o apito soa e essa jornalista se torna imediatamente alvo preferencial dos arruaceiros bolsonaristas. Portanto, o deputado que a agrediu não fez mais que emular seu adestrador. Esse truculento parlamentar não teria se sentido à vontade para intimidar uma jornalista, e ainda filmar sua agressão para torná-la pública como se fosse um grande feito, se seu líder, o presidente da República, já não o tivesse feito.

É por isso que aos bolsonaristas que pretendem se desvincular desse episódio, como é o caso de Tarcísio Gomes de Freitas, candidato a governador de São Paulo, não basta condenar o deputado Douglas Garcia. É preciso condenar o próprio presidente Bolsonaro, que soprou o apito. O candidato Tarcísio chamou o deputado de “idiota” e pediu desculpas à jornalista. Mas nada disse sobre a mesmíssima agressão que Bolsonaro cometeu contra Vera Magalhães.

Recorde-se que a jornalista Vera Magalhães se tornou foco dos fanáticos bolsonaristas porque fez uma pergunta que incomodou Bolsonaro durante um debate. Foi o que bastou para sua vida virar um inferno. Agressões contra jornalistas no exercício da profissão, quase sempre mulheres, tornaram-se norma desde que Bolsonaro chegou ao Palácio do Planalto.

Em vez de responder à pergunta – que dizia respeito à campanha de vacinação contra a covid-19 – ou até mesmo, se achasse que era o caso, contestar civilizadamente o modo como a questão foi formulada, Bolsonaro resolveu ofender Vera Magalhães em sua dignidade e profissionalismo. Eis o padrão de comportamento do presidente em relação à imprensa que não lhe presta vassalagem: um misto de agressividade e diversionismo. Diante de perguntas incômodas, Bolsonaro agride e desqualifica quem as formula, sem responder ao que foi perguntado.

Poesia | Carlos Drummond de Andrade - A morte do leiteiro

 

Música | Paulinho da Viola - Pecado capital

 

quarta-feira, 14 de setembro de 2022

Vera Magalhães - Bolsonaro e Lula atacam rejeição na reta final

O Globo

Foi a partir da pandemia que uma parte do eleitorado bolsonarista de 2018 se foi para nunca mais voltar

Sempre se disse que a atual eleição seria uma batalha de rejeições. Na reta final, três semanas até o primeiro turno, tanto Luiz Inácio Lula da Silva quanto Jair Bolsonaro investem em mitigar esse fator na expectativa de cumprir seus objetivos — o do petista, tentar vencer já em 2 de outubro; o do presidente, romper uma barreira que, hoje, torna sua reeleição inviável.

Lula vem enfrentando o antipetismo há mais tempo, de forma mais consistente. Contaram pontos para isso as anulações em série das condenações a ele impostas no âmbito da Lava-Jato e a obra de três anos e oito meses de governo Bolsonaro, como fator de comparação em diferentes setores.

Deixou de negar a ocorrência da corrupção, principal fator negativo associado a ele e ao PT, e passou a dizer que a apuração só foi possível graças à autonomia de que seus governos e os de Dilma Rousseff dotaram os órgãos de controle.

Bolsonaro resolveu se dedicar a tentar reverter a aversão que gera em pelo menos 50% do eleitorado na última hora, e o resultado é menos crível. O teatro começou a ser encenado num podcast transmitido em pool por influenciadores evangélicos na segunda-feira.

Com ar compungido, o presidente se disse arrependido de ao menos uma das dezenas de declarações de desdém com a pandemia que deu ao longo dos últimos dois anos e meio: a de que não era “coveiro”, proferida quando havia 2.500 mortos.

Bernardo Mello Franco – Tempos perturbadores

O Globo

Nova presidente do Supremo citou "tempos perturbadores" e frisou necessidade de conter o ameaças autoritárias

A síntese é da ministra Rosa Weber, nova presidente do Supremo Tribunal Federal. No discurso de posse, ela usou 12 palavras para definir o momento brasileiro. “Vivemos tempos particularmente difíceis da vida institucional do país. Tempos verdadeiramente perturbadores”, afirmou.

Rosa disse que a prioridade de sua gestão será proteger a democracia e o Estado de Direito. O enunciado seria dispensável numa situação de normalidade. Não é o caso do Brasil de 2022.

A ministra registrou que o Supremo tem sido alvo de ataques “injustos e reiterados”. Lembrou as investidas contra a separação de Poderes e o incentivo ao discurso de ódio. Prometeu vigilância permanente em defesa da Constituição.

A oradora não precisou nomear o líder da ofensiva autoritária. Falava de Jair Bolsonaro, que quebrou o protocolo e faltou à cerimônia, em nova demonstração de desprezo pelo Judiciário.

Desde que vestiu a faixa, o capitão conviveu com dois presidentes do Supremo preocupados em não contrariá-lo. Dias Toffoli o cortejou com visitas ao palácio e agrados aos militaresLuiz Fux pareceu mais interessado em garantir reajustes e penduricalhos para os juízes.

Elio Gaspari - Em Londres e NY só há riscos

O Globo

Bolsonaro viajará para pousar em campo minado

Fosse qual fosse o plano de Bolsonaro para o 7 de Setembro, a pesquisa do Ipec revelou que deu errado. Seja qual for o plano anexo às viagens a Londres e Nova York, tem tudo para dar mais errado. Em Londres, será recebido cordialmente, mas, para quase todos os chefes de Estado presentes ao funeral de Elizabeth II, ele será uma companhia radioativa. Ninguém ganha se aproximando dele.

Isso em Londres. Em Nova York, na Assembleia Geral da ONU, a coisa piora. Os militantes de organizações ambientalistas crescem ao hostilizá-lo. Como deverá discursar, o que já seria ruim piora. Se ele repetir a retórica anterior, soprará as brasas de um eleitorado hostil à sua política ou ao seu triunfalismo irracional. Se abrandar a fala, ficará mal com os agrotrogloditas.

Como disse Fernando Gabeira, diante dos números do Ipec “o jacaré bocejou”. No entorno de Bolsonaro sonhava-se com uma redução da distância entre ele e Lula. Aumentou.

O 7 de Setembro de Bolsonaro queimou óleo. Não foi coisa dos marqueteiros, pois eles recomendavam moderação. O presidente aceitou o conselho, mas o capitão saiu da pauta com uma tirada vulgar, factualmente desmentida pelo próprio Bolsonaro numa entrevista à falecida revista Playboy, em 2011.

Seus colaboradores explicam que ele às vezes é capaz de aceitar argumentos racionais, mas seu fusível queima em momentos de empolgação. Assim foi no 7 de Setembro com a vulgaridade. Mesmo que ela não tivesse acontecido, horas antes, no Alvorada, ele disse que 1964 “pode se repetir”. Sabendo que os presidentes são julgados pelo que fazem em pé, essa fala foi mais tóxica.

Bolsonaro foi o único militar da reserva com patente de capitão que se elegeu presidente da República. Antes dele, dois oficiais-generais perderam três eleições. O brigadeiro Eduardo Gomes, duas vezes, e o marechal Juarez Távora uma. Nenhum dos dois contestou os resultados. Mais: nenhum dos dois fez isso antecipadamente.

Luiz Carlos Azedo - Lula assume narrativa do voto útil na reta de chegada

Correio Braziliense

O ambiente eleitoral se tornará mais volátil, porque a maioria dos eleitores começará a consolidar ou mudar o voto. A possibilidade de uma vitória de Lula no primeiro turno é real, mas é muito difícil

“Eu nunca fiz eleição para ganhar no 2° turno. Eu, que tenho 46%, tenho que acreditar que é possível, nos próximos dias, conquistar a porcentagem que falta, sem desprezo a ninguém”, postou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ontem, no seu Twitter oficial, Lula 13. Iniciou, assim, uma arrancada de 20 dias, cujo objetivo é volatilizar nas próximas semanas as candidaturas de Ciro Gomes (PDT) e Simone Tebet (MDB). Com isso, pretende transformar uma ameaça, o risco de perder para o presidente Jair Bolsonaro (PL) no segundo turno, na oportunidade de vencer no primeiro turno. Na pesquisa Ipec/TV Globo de segunda-feira, Lula aparece com 51% de votos válidos, o que significa a chance de vitória no primeiro turno.

Na postagem, Lula foi elegante. Vencer no primeiro turno seria um feito inédito. Em 2022, a disputa contra José Serra (PSDB-SP) foi para o segundo turno; em 2006, contra o ex-tucano Geraldo Alckmin (PSB), que hoje é seu vice, também. As vitórias de Dilma Rousseff em 2010, no auge de seu prestígio como presidente, e em 2014, também foram para o segundo turno. Ou seja, não existe precedente de os candidatos do PT vencerem a eleição de roldão. Dessa vez, porém, Lula está animado. Bolsonaro não consegue baixar a sua rejeição, a avaliação de seu governo continua ruim, a distância entre ambos no eleitorado feminino permanece abissal. A fala mansa do presidente da República nos últimos dias mostra que a estratégia bolsonarista de confrontação ideológica esgotou-se no 7 de Setembro.

Vinicius Torres Freire - Dá para baixar dívida das famílias?

Folha de S. Paulo

Governo pode até bancar parte da conta, mas dinheiro iria para quem mais precisa?

Talvez seja possível criar um meio de renegociar dívidas, como propõem Ciro Gomes (PDT) e Lula da Silva (PT), não necessariamente nos termos sugeridos por esses candidatos. É assunto complicado, para financistas, microeconomistas e entendidos em programas de redistribuição de renda.

Sim, redistribuição, transferência de renda, "programa social". É difícil imaginar um plano desses sem subsídios. Isto é, sem que o governo banque parte da conta.

Se o dinheiro dos impostos ou de dívida pública extra vai bancar a conta, qual o critério para escolher o beneficiário? Apenas ter dívidas bancárias em atraso? Haveria gente em situação pior do que ser inadimplente? É quase certo que sim.

Isto posto, é fácil lembrar dos programas de perdão de dívidas de impostos de empresas (na média, um Refis ou coisa parecida a cada dois anos, neste século). É fácil lembrar dos empréstimos de bancos públicos com taxas de juros subsidiadas para empresas também imensas, alguns dos quais financiaram, direta ou indiretamente, fusões e aquisições, formação de oligopólios e coisa ainda pior.

Ainda assim, é difícil fazer.

Bruno Boghossian - A bandeira do primeiro turno

Folha de S. Paulo

Mesmo com incerteza, petista fala em expectativa de vitória para reduzir abstenção e buscar impulso final

Há pouco mais de um mês, coordenadores da campanha de Lula hesitavam diante da possibilidade de uma vitória em primeiro turno. O petista aparecia com 52% dos votos válidos nas pesquisas, mas seus aliados diziam que a tendência era que a corrida ficasse mais apertada e que, por isso, era melhor manter os pés no chão e pensar no segundo turno.

De fato, a vantagem do ex-presidente sobre os adversários diminuiu nas semanas seguintes. A última sondagem do Datafolha mostra que Lula manteve uma liderança confortável, mas a lenta subida de Jair Bolsonaro e a variação de outros candidatos empurraram o petista para 48% dos votos válidos, no limite da margem para liquidar a corrida.

Hélio Schwartsman - Indulgência como dever

Folha de S. Paulo

Marina Silva superou desavenças com PT; Ciro Gomes, não

Dizem que a ingratidão é dever dos políticos. A indulgência, também. Quem tem a espinha muito dura e não consegue superar desavenças pretéritas tende a ter problemas nesse meio. Marina Silva parece ter sido capaz de deixar o passado para trás; Ciro Gomes, não.

Ambos têm motivos para guardar mágoas do PT. Marina militou por três décadas no partido. No governo Lula, foi ministra do Meio Ambiente, cargo do qual pediu demissão após um processo de fritura explícita. Em 2014, já fora do PT, quando disputava a Presidência e aparecia bem nas pesquisas, sofreu, da campanha de Dilma Rousseff, ataques abaixo da linha da cintura. Há quem identifique no episódio o início do processo de deterioração da política brasileira.

Mariliz Pereira Jorge - Bolsonaro, coveiro da rainha

Folha de S. Paulo

Presidente indiferente a mortos no Brasil vai à Inglaterra se aboletar com líderes mundiais para tentar ganhar votos

O sujeito que disse não ser coveiro, para justificar sua incompetência diante de uma crise mundial, vai atravessar o Atlântico para enterrar a rainha da Inglaterra. Em mais de dois anos da pandemia que deixou quase 700 mil mortos no país, Jair Bolsonaro nunca visitou um hospital abarrotado de pessoas à beira da cova. Jamais demonstrou solidariedade a uma família brasileira. Mas vai se aboletar com líderes mundiais, com quem nem se dá, para tentar ganhar votos.

Prestes a ser derrotado nas urnas, segundo projeção das pesquisas, ele se comporta como o típico calhorda que bate na mulher e, na iminência de ser abandonado, diz que se arrepende. Mentira. São dois anos da mais profunda indiferença, de negacionismo, de negligência com o povo do país que desgoverna.

Marcelo Godoy - Voto do eleitor de SP

O Estado de S. Paulo

Eleição no Estado vai decidir o destino da Presidência e das principais forças políticas até 2026

Enquanto as pesquisas consolidam o cenário de uma disputa entre Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva pela Presidência, outro confronto deve selar o destino das principais forças eleitorais do País. Trata-se da eleição para o governo de São Paulo.

Não só a rivalidade entre o antipetismo e o antibolsonarismo terá um encontro decisivo no Estado, mas também o futuro do centro político. Todos precisam garantir um lugar no segundo turno e, depois, vencer. Aqui a sorte dos padrinhos se mescla à de seus herdeiros. Se o ex-ministro Tarcísio de Freitas não chegar ao segundo turno, dificilmente Bolsonaro conseguirá bater Lula, assim como Haddad só vencerá o pleito se reunir o voto lulista e o alckmista, historicamente um eleitorado muito maior que o petista.

Também o PSDB, que patrocina a candidatura do novo tucano Rodrigo Garcia, tem o seu destino como força política de relevo nacional atrelado à reeleição do governador. Mais do que isso. É o centro que dependerá de seu sucesso nas urnas para saber o papel que terá no País nos próximos quatro anos, seja qual for o futuro presidente – Lula ou Bolsonaro.

Paulo Delgado* - A banalização do desamparo

O Estado de S. Paulo

O impacto nocivo da tecnologia digital sobre a vida de crianças e adolescentes está destruindo, na atual geração, a aptidão para a liberdade.

Com escassos dois séculos, a história breve brasileira continua carregada de desrespeito e crueldade. Os fatos, e seus coadjuvantes, estão aí. Difícil de desassociar a linguagem violenta divulgada nas redes da violência que a ela se segue.

Sem querer condescender à amizade e à razão, a tecnologia coopera para aumentar a força do erro na educação e destrói a sociabilidade humana. O Brasil não colocou freio na soberba e nos malefícios dos dispositivos digitais, e vai tocando a eleição como videogame.

A campanha eleitoral – que passa ao largo da discussão sobre o consumo digital, antes o festeja e venera – escancara o desafio que se agrava. Não há no horizonte uma solução sábia e tranquilizadora capaz de deter o mal ostensivo e oculto da internet e das redes sociais viciadas. Que solidão, que desapontamento faz jovens e suas famílias ficarem tão perdidos assim, sem ter ninguém que se importe com eles antes de chegarem aos seus limites e baterem em hospitais, delegacias e nos tribunais?

Que paixão indomável os prende a tudo que os impressiona, em competição aberta com álcool, droga e associação criminosa, já bem conhecidas. Quantas análises são prejudicadas por quem prefere falar do óbvio que são as vantagens da tecnologia. Vamos nos concentrar nas desvantagens, no sofrimento, para não precisar nos arrepender, como Alfred Nobel se arrependeu de ter criado a dinamite.

Nicolau da Rocha Cavalcanti* - Covardia e arrependimento

O Estado de S. Paulo

Mesmo depois de dois anos, Bolsonaro nem sequer começou a intuir como suas atitudes na pandemia foram desumanas

Na entrevista ao Jornal Nacional, o presidente Jair Bolsonaro não pediu desculpas à população brasileira por suas falas e, principalmente, por suas atitudes no enfrentamento da pandemia. Agora, vendo que a rejeição à sua pessoa não diminui, mudou o tom. “A questão do coveiro eu retiraria”, disse na segunda-feira em entrevista a um conjunto de podcasts evangélicos. Em abril de 2020, após ser questionado sobre o número de mortes por covid, disse: “Não sou coveiro”.

“Dei uma aloprada (na questão do coveiro). Aloprei. Perdi a linha. Aí eu me arrependo”, falou Jair Bolsonaro aos entrevistadores evangélicos.

O arrependimento é uma das atitudes humanas mais admiráveis. Ele permite reconciliar-nos com o nosso passado e com as pessoas que possamos ter ferido ou magoado ao longo da vida. Há um ditado africano, de grande realismo, que relaciona a maturidade com a descoberta da nossa capacidade de magoar – de fazer sofrer – os outros. De fato, a vida ganha outra dimensão quando se descobre como as nossas ações, nossas ausências, nossas falas, nossas distrações, nossos silêncios, nossas piadas e até mesmo nossos olhares podem afetar os outros de uma maneira muito diferente do que havíamos originalmente pensado. É simplesmente espetacular a descoberta do outro, de sua alteridade.

Roberto DaMatta - De qual Brasil falamos?

O Globo

Nossos amados ou odiados ‘políticos’ não vieram de Marte, Pasárgada, inferno ou céu, mas são nossos amigos, filhos e compadres

O da Colônia ou o do Império, o do republicanismo elitista ou o democrático, o do sertão ou o do litoral, o dos aristocratas ou o Brasil polarizado e sectário de hoje?

No meu trabalho, distingo um Brasil lido como sociedade (costumes e cultura) de um Brasil representado como nação e Estado nacional. O primeiro seria governado por hábitos do coração, conforme diriam Rousseau e Tocqueville; o segundo, administrado por uma legião de leis e procedimentos jurídicos.

Nossas sociologias e politicologias falam do Brasil como Estado nacional e pouco do Brasil como um sistema de valores. E menos ainda dos diálogos, dilemas e paradoxos dos encontros entre esses Brasis.

Um encontro responsável pela emergência de estadolatria, estadomania e estadopatia. Sem perceber que não há governo sem sociedade e que povo e governo não podem ser inimigos, numa polarização em que um “Estado forte” (ou uma “Nova República”) deveria corrigir uma sociedade velha e fraca, a solução tem sido a adoção de “estadolatrias” messiânicas. Despotismos, entretanto, destinados a se desfazer porque os hábitos relacionais do “Brasil sociedade” acabam englobando e criando uma inércia histórica promotora de retornos aterradores, das tais leis que não pegam.

Fernando Exman - Campanha eleitoral na tribuna da ONU

Valor Econômico

Oposição pode acionar TSE novamente, se Bolsonaro extrapolar

Seguindo a tradição, ao ter o nome anunciado, logo dirigiu-se à inconfundível tribuna de mármore verde de onde discursaria para mais de uma centena de chefes de Estado ou governo.

O Brasil sempre abre a Assembleia Geral das Nações Unidas desde que, em 1947, o ex-chanceler Oswaldo Aranha, então chefe da delegação nacional, presidiu a primeira sessão especial da organização. Desta vez, contudo, aliados e adversários já esperavam que suas palavras fossem dirigidas mais para os eleitores brasileiros do que à comunidade internacional. Afinal, poucos dias separavam o aguardado evento da ONU e o primeiro turno da disputa presidencial.

 “Abro este debate geral às vésperas de eleições, que vão escolher, no Brasil, o presidente da República, os governos estaduais e grande parte de nosso Poder Legislativo. Essas eleições são a celebração de uma democracia que conquistamos há quase 30 anos, depois de duas décadas de governos ditatoriais. Com ela, muito avançamos também na estabilização econômica do país”, disse logo no início do discurso.

A partir daí, passou a listar realizações de seu governo, entre elas iniciativas de modernização da economia e de apoio à população mais pobre. Contabilizou empregos criados, e destacou que estava ocorrendo um aumento do poder de compra das famílias.

Com ataques de Ciro a Lula, PDT cogita ficar neutro em eventual segundo turno

Cresce entre aliados do pedetista a possibilidade de o partido, oficialmente, se declarar neutro, mas liberando filiados a apoiar o petista

Por Camila Zarur / O Globo

A três semanas do primeiro turno e sem reação do ex-ministro Ciro Gomes (PDT) nas pesquisas de intenção de voto, pedetistas já discutem o caminho que tomarão num eventual segundo turno e se será possível o partido repetir 2018, quando se aliou ao PT contra Jair Bolsonaro. Ainda não há um martelo batido sobre o assunto, mas integrantes da sigla concordam que, diante dos frequentes ataques do ex-ministro ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, está ficando cada vez mais difícil a legenda engrossar a candidatura petista sem soar incoerente. A hipótese de Ciro se aliar a Lula também já é descartada por aliados.

Neste cenário, começa a crescer entre aliados do pedetista a possibilidade de o partido, oficialmente, declarar neutralidade, mas liberando filiados a apoiar o petista. Essa possibilidade é defendida nos bastidores por integrantes dos diretórios do Rio Grande do Sul e entre alguns membros do partido em São Paulo. O único veto seria o apoio a Bolsonaro.

— Com Bolsonaro jamais. Mas não dá para falar de segundo turno agora, porque isso seria enfraquecer a nossa candidatura. Tudo pode mudar até lá, e nós faremos o possível para isso — afirma o presidente do PDT, Carlos Lupi.

Lula traça plano e tem obstáculo pelo voto útil

Ex-presidente enfrenta o desafio de convencer alguns segmentos do eleitorado, como aqueles de camadas de renda média e alta

Por Marlen Couto e Sérgio Roxo / O Globo

Ao deixar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com pouco mais da metade dos votos válidos (51%), o resultado da última pesquisa Ipec/TV Globo deu novo fôlego ao debate sobre a possibilidade de o petista vencer a disputa presidencial no primeiro turno. Para atingir o objetivo e evitar mais quatro semanas de eleição contra o presidente Jair Bolsonaro (PL), a campanha de Lula já se movimenta e mira o chamado voto útil, fenômeno que, para pesquisadores, foi observado na reta final de pleitos anteriores, mas deve enfrentar o desafio de convencer segmentos do eleitorado, como aqueles de camadas de renda média e alta, com menor adesão ao ex-presidente e nos quais o antipetismo é mais forte.

O Ipec e Datafolha indicam que, embora 80% e 77%, respectivamente, dos eleitores brasileiros digam estar decididos em quem irão votar para presidente, a alta convicção está restrita a quem já apoia Lula ou Bolsonaro. Os dados apontam que mais da metade (52%, no levantamento Ipec e 54% no Datafolha) dos eleitores de Ciro, que tem 7% dos votos, dizem que ainda podem mudar de candidato. Nos casos dos demais nomes, sem considerar Lula e Bolsonaro, o índice chega a 60% no Ipec. 

A pesquisa espontânea, modalidade de pergunta em que não são apresentados os nomes em disputa, aponta ainda que 12% dos eleitores não têm um candidato na ponta da língua e afirmam não saber em quem votar, no caso do Ipec. No último Datafolha, esse índice foi estimado em 17%.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Editoriais / Opiniões

Para conquistar a maioria, Lula tem de fazer concessões

O Globo

Acordos programáticos como o fechado com Marina são essenciais para fazer faxina em plano de governo

À medida que Luiz Inácio Lula da Silva mantém a vantagem nas pesquisas, impõe-se uma pergunta: como seria seu eventual governo a partir de 2023 em caso de vitória? Dado o histórico dele na Presidência, são improváveis ameaças à democracia comparáveis às do presidente Jair Bolsonaro. De modo astuto, o PT tem usado tal argumento para se apresentar como guardião da democracia e defender o voto útil em Lula no primeiro turno, na tentativa de encerrar a disputa já no dia 2 de outubro. É compreensível que a campanha petista lance mão do que está a seu alcance para tentar vencer. Mas uma vitória de Lula sem clareza a respeito de seu programa de governo não seria o melhor para o país.

Foi, por isso, uma novidade alvissareira o encontro dele com a ex-ministra Marina Silva, da Rede Sustentabilidade. Em troca de apoio, o PT prometeu acatar propostas da Rede para a agenda ambiental. Na carta-compromisso entregue por Marina, há uma lista de ações específicas, como recomposição e ampliação dos quadros técnicos dos órgãos de fiscalização e a implementação de um mercado de carbono.