segunda-feira, 1 de janeiro de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Brasil deve regular Cannabis medicinal com sensatez

O Globo

Não pode haver um ‘liberou geral’, mas questão de saúde pública não deveria ficar a cargo da Justiça

No ano que passou, 430 mil pacientes usaram a Cannabis medicinal para tratar casos de doenças como epilepsia, dores crônicas ou transtornos neuropsiquiátricos. Houve alta de 130% em relação a 2022. A maior parte dos produtos é importada. Somente no primeiro trimestre, o Ministério da Saúde gastou R$ 768 mil para atender a ordens judiciais e fornecê-los aos pacientes, quase o quíntuplo do gasto de 2021. Até outubro, a Anvisa já emitira 114.782 autorizações de importação, 73,4% a mais que no mesmo período de 2022. A maior despesa tem cabido aos estados: seis unidades da Federação gastaram até outubro R$ 39,1 milhões para atender às ordens da Justiça (R$ 25,6 milhões só em São Paulo).

A corrida ao Judiciário acontece porque a atual legislação permite a importação, mas não o cultivo da Cannabis para fins medicinais. O custo é alto — alguns produtos importados podem chegar a R$ 4 mil — a ponto de impedir muitas famílias de usar o tratamento. As estratégias não garantem sucesso. Em geral, os médicos precisam detalhar os motivos para uso do produto e atestar que já tentaram outros tratamentos. Muitos pacientes procuram a Justiça também em busca de autorização para cultivar a planta em casa. Mas isso ainda é proibido no Brasil.

Fernando Gabeira - Uma lista de desejos

O Globo

Meu plano quinquenal, ainda que com muitas derrotas e atropelos, será plenamente vitorioso se chegar ao fim

Desde muito, a virada do ano é marcada por promessas de mudanças pessoais. Imagino como isso deve ter mudado em tempos de hoje.

Vivemos sob um bombardeio de conselhos. Já falei sobre um aspecto deles, uma espécie de terrorismo alimentar que combate tudo, desde açúcar e ultraprocessados até o leite, o pão, a lactose e o glúten. Esse bombardeio fez o pão nosso de cada dia virar o pão que o diabo amassou. Impressionante, a julgar pelas advertências, observar como a humanidade sobreviveu, sobretudo depois de Cristo ter multiplicado o pão.

Outro dia, um desses gurus alimentares confessava na rede que toma dez comprimidos de suplemento alimentar antes do café. Não fica claro para que café da manhã, depois de tanto comprimido. Os suplementos são a outra face do bombardeio: ômega 3, magnésio, cúrcuma, creatinina, vitaminas — é uma lista interminável.

Tenho visto também nas redes sociais o grande número de pessoas dizendo o que fazer para sermos felizes. Há algumas senhoras bem vestidas, gurus indianos com seus turbantes, todos garantindo que existem três, quatro ou às vezes até sete conselhos que mudarão nossa vida. Usando tática muito comum na internet, dizem que o último conselho é o mais surpreendente. Assim tentam reter nossa atenção até o fim.

Miguel de Almeida - A fome do pão e do ouro

O Globo 

É um avanço de várias casas a prisão e condenação dos golpistas bolsonaristas

Numa escala de 1 a 10, ainda não chegaram aos presídios os peixes graúdos do Golpe de 8 de Janeiro. Estamos no 3, no momento. As celas reúnem alguns bagres desatentos, outras tilápias distraídas e um ou outro dourado de olhos estalados. Um ano depois da patriotada, as investigações por enquanto não cercaram o pacu estrelado ou o lambari endinheirado. A piaba da barra permanece em suspensão.

Pode soar frustrante, mas, no Brasil da contemporização e do perdão obsequioso, é um avanço de várias casas a prisão e condenação dos golpistas bolsonaristas. Até então, as tentativas de subversão criminosa vindas da direita — civil ou militar — logo recebiam um tapinha nas costas e alguma anistia em nome da nefasta e covarde concórdia. Como prêmio, e porque ninguém é de ferro, vinha uma aposentadoria especial.

A patuscada de 1935, de cepa de esquerda, resultou na prisão dos líderes, a começar por Luiz Carlos Prestes. Mas tantos documentos depois, discute-se se a Intentona Comunista não surgiu de um ardil de Getúlio Vargas para golpear a democracia em 1937, com a implantação do Estado Novo — e a censura e as mortes que se seguiram em seu rastro de desonra.

Diogo Schelp - Trump e a eleição no Brasil

O Estado de S. Paulo

O que ocorrer com o americano em 2024 será apresentado como um espelho de Bolsonaro e seu grupo

Deve-se sempre ministrar uma dose de ceticismo à ideia de que tendências políticas propagam-se como ondas através das fronteiras, com eleições em um país influenciando votações em outro. Em alguns casos, porém, essa influência pode existir, ainda que apenas pelo simbolismo ou pela imitação de estratégias de campanha.

Em 2015, os venezuelanos foram às urnas para a difícil missão de derrotar o chavismo nas eleições legislativas. No dia do pleito, este colunista ouviu de eleitores em Caracas que eles se sentiram incentivados a sair de casa para votar por inspiração dos argentinos que, uma semana antes, haviam derrotado o kirchnerismo nas urnas.

Em 2016, Donald Trump ganhou a presidência explorando insatisfações do eleitorado americano semelhantes àquelas que levaram os britânicos a decidir pelo Brexit meses antes.

Denis Lerrer Rosenfield* - Escudos humanos

O Estado de S. Paulo

O uso da palavra humanitário serve aos mais distintos propósitos, inclusive para encobrir as ações propriamente inumanas dos terroristas

Já em 2015, Bassem Eid, ativista de direitos humanos e dissidente palestino, declarou: “Quem impôs três guerras a Gaza foi o Hamas. Em todos os países, os governos usam seus mísseis e foguetes para proteger o seu povo, mas o Hamas fez o oposto, usando seu povo para proteger seus mísseis e foguetes” (extraído de Natan Sharansky e Gil Troy, Jamais estive só). Os palestinos se tornam instrumentos de uma organização terrorista voltada para a destruição de seu inimigo primeiro, Israel e os judeus, com o intuito de posteriormente voltar-se contra as outras religiões, mormente as cristãs, e os valores ocidentais em geral.

Compreende-se, assim, melhor o elevado número de vítimas civis entre a população de Gaza, considerando que os terroristas borram qualquer distinção entre civis e militares, até nas estatísticas, não sendo as mortes militares contabilizadas. Procuram, isto sim, produzir o máximo de vítimas entre os civis, pois sabem o impacto dessas mortes na opinião pública ocidental, com o intuito de causar um dano midiático ao seu inimigo principal. Desprezam o Ocidente, mas empregam este mesmo Ocidente para miná-lo desde seu interior. Note-se o papel que conseguiram conquistar nas universidades americanas e nos seus êmulos entre nós, advogando, na verdade, pela destruição dos direitos humanos, considerados ocidentais. O Ocidente cava a sua própria cova.

Felipe Nunes* - A eleição municipal da polarização

O Globo

A nova disputa de torcidas tem tudo para chegar aos pleitos municipais de 2024

Cada eleição acaba contando uma história do momento político, da conjuntura de humores, do desempenho econômico. Se a eleição de 2016 marcou o início dos outsiders na política, se a eleição de 2020 refletiu os efeitos da pandemia, arrisco dizer que a eleição de 2024, sobretudo nas grandes cidades, deverá ficar para a História como a eleição da polarização.

Polarização sempre existiu nas eleições para presidente do Brasil, especialmente nas disputas de segundo turno. Mas, desde 2018, transbordou e deu origem à polarização afetiva, ambiente em que o adversário passa a ser visto como inimigo. Ele se torna uma ameaça à própria existência, o que estimula rompimentos de amizades e até de relações familiares, além de ações de violência política. As pesquisas que temos feito na Quaest têm mostrado uma parcela crescente dos que assumem ter rompido relações familiares ou de amizade em função da política. Que determinam seus comportamentos de compra em função da visão política. Que escolhem escola, restaurante e onde se informar a partir de identidades políticas.

Deborah Bizarria - Propostas para a população de rua

Folha de S. Paulo

Casos no exterior apresentam alternativas para enfrentar desafio da habitação, mas há resistência da sociedade

Com as eleições de 2024, o debate sobre os temas municipais vai se intensificar. Um dos dramas das grandes cidades é o aumento da população em situação de rua. De acordo com relatório do Ministério dos Direitos Humanos, o CadÚnico registra 236.400 pessoas vivendo em situação de rua, em 64% dos municípios brasileiros.

Não é uma questão trivial de resolver. Diversos fatores contribuem para a situação de rua, como a exclusão econômica, desemprego e déficit habitacional, juntamente com a ruptura de laços familiares e problemas de saúde física e mental. Segundo levantamento do Ipea, problemas familiares ou com companheiros motivaram 47,3% das pessoas em situação de rua a deixarem suas casas. Em comparação, o desemprego foi mencionado por 40,5%; o consumo problemático de álcool e outras drogas, por 30,4%; e a perda de moradia, por 26,1%.

Marcus André Melo* - A profecia de Lima Barreto

Folha de S. Paulo

Há um século, escritor antecipou as patologias políticas que nos afligem hoje

"Os Bruzundangas" foi publicado há 101 anos. Nele Lima Barreto zombou das patologias políticas que afligiam o país. A crítica acerba é surpreendentemente atual. Basta ler o noticiário sobre os Três Poderes. O presidente, que em Bruzundanga se chamava Mandachuva, cooptava todos a sua volta. Não havia oposição.

Lima alertava: "Toda a vez que um artigo desta Constituição ferir os interesses de parentes de pessoas da 'situação' ou de membros dela fica subentendido que ele não tem aplicação no caso". "Na constituinte, todos esperavam ficar na ‘situação’, de modo que o artigo acima foi aprovado unanimemente." E acrescentava: "Se algum recalcitrante, à vista de qualquer violação da Constituição, apelava para a Justiça (que lá se chamava Chicana), logo a Corte Suprema indagava se feria interesses de parentes de pessoas da situação e decidia conforme o famoso artigo."

Ruy Castro - Ta-ra-tã, ta-ra-tã

Folha de S. Paulo

Tentei ler O Estrangeiro, do modernista Plinio Salgado. Parei para não entrar em rigor mortis

Tirei o fim de ano para pagar uma dívida de séculos comigo mesmo: ler "O Estrangeiro", de Plinio Salgado. É um romance de 1926, no apogeu do Modernismo, do qual ele fazia parte. Incrível como a antipatia por alguém faz com que tentemos apagá-lo da história, não? Como se ele não devesse ter existido. O problema é que ele existiu e, pior, continuou existindo.

Plínio Salgado, como se sabe, ficaria famoso pelo integralismo, o movimento político de extrema direita que ele lançou em 1932. Plínio e seus seguidores se fardavam, usavam braçadeiras com um símbolo tipo suástica e se saudavam esticando o braço e gritando "Anauê!", palavra talvez tupi que podia significar "Salve!". Suas ideias se inspiravam no nazifascismo, com o qual ele mantinha cordiais relações. Em cinco anos de existência, o integralismo atraiu centenas de milhares de militantes e esteve muito perto do poder. Bolsonaro foi um sucessor do integralismo.

Tostão - O jogo de futebol

Folha de S. Paulo

Partida vai além da disputa esportiva e envolve sentimentos e contradições humanas

A partida de futebol não pode ser vista somente como uma disputa esportiva de habilidade, criatividade, técnica, estratégia, força física e de acasos. É também um espetáculo complexo, lúdico, teatral, prazeroso e de fortes emoções. Todos os sentimentos e contradições humanas estão presentes.

A estratégia dos treinadores, importante para o sucesso de uma equipe, vai muito além dos esquemas táticos, jogadas ensaiadas e da movimentação dos jogadores. Uma das qualidades importante de um treinador é perceber, observar durante o jogo os detalhes técnicos surpreendentes, objetivos e subjetivos. É o mais difícil. O treinador precisa aceitar que em um jogo há mais duvidas do que certezas.

Na Copa de 2018, contra a Bélgica, Tite demorou a perceber que o centroavante Lukaku se deslocava para direita, acompanhado pelo zagueiro Miranda, deixando espaços pelo meio por onde o meio-campista De Bruyne avançava e fez um dos gols. Não estava previsto. No mundial de 2022, não havia como Tite corrigir a sucessão rápida de erros de vários jogadores brasileiros que levaram ao empate contra a Croácia e depois a eliminação do Brasil nos pênaltis.

Poesia | O Mito - Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Sonho Estranho - Moacyr Luz e Samba do Trabalhador - Part. Chico Alves

 

domingo, 31 de dezembro de 2023

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

A agenda prioritária para 2024

O Globo

Atenção deve estar no corte de gastos, conclusão da reforma tributária, reforma administrativa e pauta ambiental

O ano de 2024 será desafiador para o Brasil. A conjunção de uma economia em desaceleração e eleições municipais exigirá do governo e do Congresso disciplina para não sucumbir ao populismo ou à complacência. Para o país garantir mais crescimento, mais trabalho, mais renda e mais equidade, Executivo e Legislativo terão de trabalhar duro.

A agenda prioritária deveria contemplar cinco itens: 1) controle dos gastos públicos para evitar uma crise fiscal; 2) votação de leis complementares à reforma tributária para garantir o mínimo de exceções e a simplificação do novo sistema de impostos; 3) aprovação da reforma administrativa para elevar a eficiência do Estado; 4) atenção à agenda ambiental, em especial ao mercado de carbono e ao combate ao desmatamento; 5) legislação para coibir manipulação por inteligência artificial na campanha eleitoral.

Que ninguém duvide. O maior desafio está na economia. A dívida pública brasileira estará perto de 75% do PIB quando saírem os números oficiais de 2023, percentual alto para um país emergente. Pelos cálculos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), ao final de 2024 deverá estar perto de 80% do PIB nos governos federal, estaduais e municipais. Dívida alta significa mais gasto com juros, menos dinheiro para investimentos e menor capacidade de crescer.

Míriam Leitão - O ano em que o mercado falhou

O Globo

Números de 2023 foram melhores do que os previstos e ainda tiveram outras surpresas positivas

O que marca 2023 é o fracasso das projeções econômicas. Até economistas do mercado financeiro estão olhando com desconfiança para os próprios modelos. O ano terminou com números muito melhores do que os previstos. Houve também erro na sequência de eventos projetados para a economia.

Comparando-se os dados das duas pontas, o país iria crescer pouco mais de 0,5%, e cresceu 3%, iria ter uma inflação de 6% e ela termina em torno de 4%. Não cumpriria a meta e ela foi cumprida. Houve um momento do ano em que os analistas diziam que só haveria queda da inflação de serviços se houvesse forte aumento do desemprego. A inflação de serviços caiu com aumento do emprego.

O que mais cresceu no Caged foram vagas formais no setor de serviços e a Pnad Contínua mostrou que o desemprego até novembro foi o menor para o período desde 2014, com mais de cem milhões de brasileiros empregados, um recorde.

Elio Gaspari - O golpe sonhava com o caos e uma GLO

O Globo

Não lembrar o 8 de janeiro é mais que uma injustiça

O 8 de janeiro de 2023 buscava o caos para obter um decreto de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), colocando tropas nas ruas, sob o comando de algum militar. Uma semana depois da posse de Lula, a insurreição precisava da desordem, situação com a qual Jair Bolsonaro sonhou várias vezes durante seus quatro anos de governo.

Nas mensagens trocadas nos dias que antecederam os ataques, falava-se em bloqueios de estradas, paralisação de refinarias e, finalmente, a “Festa da Selma”, com a invasão do Planalto, do Congresso e do Supremo Tribunal Federal (STF). O golpe dependia da decretação da GLO.

O ex-vice-presidente, general e senador eleito Hamilton Mourão disse, às 17h10m: “Repito que o governo do Distrito Federal é responsável, e caso não tenha condições, peça ao governo federal um decreto de GLO.”

O texto do decreto havia sido preparado no Ministério da Defesa, e a proposta foi levada a Lula. Ele recusou-a e, às 17h50m, de Araraquara (SP), decretou a intervenção federal na Secretaria de Segurança de Brasília.

Luiz Carlos Azedo - O pior já passou, feliz ano novo

Correio Braziliense

Há possibilidade de a economia crescer acima das previsões, como ocorreu neste ano. De onde pode vir esse crescimento? Da nova economia verde e do aumento do salário mínimo

Há possibilidade de a economia crescer acima das previsões, como ocorreu neste ano. De onde pode vir esse crescimento? Da nova economia verde e do aumento do salário mínimo

Os balanços de fim de ano são unânimes: 2023 terminou muito melhor do que começou. Os aspectos determinantes dessa conclusão são: na economia, a queda da inflação, o crescimento acima do esperado, a redução do desemprego a patamares que há muito tempo não se via, a elevação da renda e a reforma tributária; na política, a normalidade institucional, ameaçada pelo golpismo, graças à firme atuação dos Poderes; na questão ambiental, o combate ao desmatamento, às queimadas e ao garimpo ilegal; e na política internacional, em que pese atitudes dúbias em relação à Ucrânia, a volta do Brasil à cena mundial.

Para quem apoiou a eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, tudo isso é motivo de comemoração; para quem perdeu, de acomodação, como no caso do Centrão. Ou enorme frustração, caso da extrema-direita, diante do fracasso da tentativa de destituição de Lula, da condenação dos vândalos que depredaram os palácios do Executivo, do Congresso e do Supremo Tribunal Federal (STF) e da inelegibilidade do ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Sergio Fausto - Nuvens políticas carregadas em 2024 (e depois)

O Estado de S. Paulo

Os cordões sanitários que permitiram isolar o extremismo de direita por 70 anos estão se esgarçando ou já se romperam. No Brasil, os ‘companheiros’ não parecem saber em que mundo estão vivendo

Desde a eleição de Donald Trump em novembro de 2016, as democracias têm sido submetidas a constantes testes de estresse. Não será diferente em 2024, quando o ex-presidente, muito provavelmente, voltará a disputar com chances de vitória a Casa Branca. Se vencer, o risco para a democracia será maior do que da primeira vez. Embora seja a mais importante, a eleição presidencial nos Estados Unidos não é a única frente na batalha em defesa da democracia.

Os sinais de ascensão da extrema direita estão quase por toda parte. A vitória do partido nacionalista xenófobo nas eleições parlamentares na Holanda, em novembro, é presságio de avanços de partidos do mesmo naipe nas eleições para o Parlamento Europeu em junho de 2024. Na Espanha, os socialistas se viram na contingência de fazer um grande acordo político, que pode lhes custar caro no futuro, para evitar um governo com a presença da extrema direita. O que foi possível evitar na Espanha ao final deste ano é provável que ocorra em Portugal, onde eleições antecipadas para o início de 2024 podem levar ao governo uma coalizão integrada pelo Chega, irmão siamês do Vox. Em nenhum desses casos, a extrema direita alcança votos e cadeiras suficientes para liderar a maioria no Parlamento, mas se afirma como força incontornável para a direita chegar ao poder. Os cordões sanitários que permitiram isolar o extremismo de direita por 70 anos estão se esgarçando ou já se romperam.

Eliane Cantanhêde - Não a golpes, guerras, violência e desigualdade

O Estado de S. Paulo

Desafio do governo em 2024 é repetir 2023 e superar as previsões negativas

O ano de 2023 acabou melhor do que começou, mas os desafios de 2024 não serão fáceis para o mundo, a América Latina e o Brasil, que resistiu bem às ameaças de golpe de Estado, surpreendeu positivamente na economia, recuperou parceiros fundamentais na política externa e, agora, precisa jogar toda sua energia para enfrentar problemas estruturais e algo que só vem piorando: as tensões na América do Sul e o desequilíbrio entre Executivo, Legislativo e Judiciário.

Ucrânia e Faixa de Gaza viram escombros e a ONU confirma sua irrelevância, num ambiente que frustrou as expectativas do presidente Lula para sua atuação internacional. Em 2023, ele passou 62 dias fora, em 24 países de todos os continentes, e teve sucesso ao normalizar as relações com o resto do mundo, mas derrapou em gestos e declarações de cunho ideológico – portanto, pouco diplomáticas – e acabou muito distante do protagonismo sonhado.

Celso Ming - 2023: o ano em que o mercado errou

O Estado de S. Paulo

Na área econômica, sob muitos aspectos, este 2023 se saiu melhor do que esteve nas projeções. É o que dá para concluir da comparação das previsões registradas no Relatório Focus, do Banco Central (BC), com os resultados finais do ano. O Focus é uma pesquisa que o BC faz semanalmente com instituições, com o objetivo de aferir as expectativas do mercado.

No último relatório de 2022, a variação do PIB para 2023 estava avaliada em 0,80% positivo. Pois vai dar algo em torno dos 3,0%. As apostas na inflação do ano estavam em 5,31%, mas os números finais ficarão quase um ponto porcentual mais baixos. A média para a previsão da Selic foi de 12,25%, magnitude que mais se aproximou dos 11,75% fixados na última reunião do Copom.

Vinicius Torres Freire - A conversa do semipresidencialismo

Folha de S. Paulo

Crise de uma década estimula planos ruins de criar algum tipo de governo parlamentar

O "semipresidencialismo" foi um assunto do ano, mais uma vez. Assunto ou ruído de fundo, tem sido assim desde que o Congresso depôs Dilma Rousseff. Era assim o jeitão do governo de Michel Temer (PMDB), "semiparlamentar", dominado por parte do comitê de deputados e senadores que derrubou Dilma. Foi de certo modo assim sob as trevas de Jair Bolsonaro, um parasita "antissistema" que se aproveitava do que havia da máquina burocrática ainda funcional e do governo que restava, entregue a premiês do centrão.

Arthur Lira (PP-AL), presidente da Câmara e trator legislativo, vez e outra sugere, de leve e quando convém, que pode liberar a tramitação de um projeto de semipresidencialismo. Ministros do Supremo, como Luís Barroso e o politizador geral da Justiça Gilmar Mendes, acabam de defender a mudança de sistema de governo.

A vulgarização do impeachment, a limitação de prerrogativas do Executivo e o avanço parlamentar sobre o Orçamento estimulam especulações de que viveríamos já sob alguma espécie de semipresidencialismo. O fato circunstancial de que o governo, no caso Lula 3, seja minoritário em números e ideias no Congresso leva mais uma aguinha para esse moinho conceitual. Na falta de pensamento melhor sobre o problema, usamos a palavra, mal e mal, para definir esse arranjo ruim e instável de quase uma década.

Bruno Boghossian - Lula e o bônus do retrovisor

Folha de S. Paulo

Petista usou oportunidade para pôr de pé um governo normal e terá um sarrafo mais alto pela frente

Lula tirou bom proveito do que pode se chamar de "bônus do retrovisor" neste primeiro ano. A decisão de interromper algumas das políticas mais destrutivas de Bolsonaro rendeu pontos logo de saída. O contraste também ofereceu a oportunidade de pôr para rodar uma gestão com pé e cabeça. Este é o governo que será julgado ao fim do mandato.

meio ambiente, a diplomacia e outras áreas foram retiradas da zona de influência dos rancores da extrema direita. A transição para a normalidade fez com que um presidente pudesse ser cobrado por seus compromissos de preservação, por suas alianças internacionais e pelos resultados das escolhas feitas fora do campo das teorias conspiratórias.

Celso Rocha de Barros - Livros de política de 2023

Folha de S. Paulo

Seleção de 13 obras essenciais lançadas neste ano

Um dos maiores cientistas políticos brasileiros escreveu um livro dirigido ao grande público. Em "Operação Impeachment: Dilma e o Brasil da Lava Jato", Fernando Limongi mostrou que o impeachment de 2016, ocorrido no auge da influência da Lava Jato, foi, na verdade, uma reação do sistema político contra a operação.

Os dez anos dos protestos de junho de 2013 geraram ótimos livros. Em "Treze: A Política de Rua de Lula a Dilma", Angela Alonso situou os protestos de junho de 2013 no contexto de uma onda mais ampla de mobilização social, que desde o início incluiu protestos conservadores. Em "A Razão dos Centavos: Crise Urbana, Vida Democrática e as Revoltas de 2013", Roberto Andrés contou a história da luta pelo passe livre, que recentemente obteve êxitos surpreendentes.

Ruy Castro - O dia em que nada acontece

Folha de S. Paulo

Mas pode acontecer. Donde, pela manhã, na volta dos fogos, é bom ler o Diário Oficial

Já reparou que ninguém faz nada importante na última noite do ano? Nenhuma guerra jamais começou num dia 31 de dezembro, nenhum tratado foi assinado, nenhum presidente deposto. Consultei livros, anuários e almanaques, e me convenci de que estamos num dia morto. Exceto por alguns casos.

Na Rússia, no dia 31 de dezembro de 1916, Rasputin, o santo, charlatão e devasso que seduziu czares e princesas e quase tomou a corte, foi assassinado por um grupo de nobres e políticos revoltados. Só que a muito custo. Armaram-lhe uma cilada e lhe serviram cianureto, mas ele não acusou o envenenamento. Daí deram-lhe quatro tiros à queima-roupa. Como continuou vivo, tentaram matá-lo a pauladas e, incrível, ele não morreu. Em desespero, afogaram-no sob o gelo do rio Neva, e só assim Rasputin se foi. Nada mais aconteceu naquela noite em Petrogrado.

Muniz Sodré* - Apagando realidades

Folha de S. Paulo

Da guerra, sobressaem o aumento da capacidade de assassinar, a desumanização do outro e a polarização da empatia

A guerra russo-ucraniana parece caso exemplar da tese pós-modernista de apagamento virtual da realidade. Substituído por números e discurso burocrático, o morticínio sumiu da mídia. No entanto, continua. O espaço midiático dado aos mortos foi ocupado por israelenses e palestinos com contagem alarmante, mas sem que nada justifique a supressão dos europeus. Fica implícita a suposição de que o público estaria saturado, não de guerra propriamente, e sim de um tipo de conflito.

Real é a perenidade da violência extrema, obsessiva no imaginário contemporâneo. Quem nunca viu guerra de frente é para ela atraído por noticiário ou filmes. Diz Erasmo num adágio que "bem parece a guerra a quem não vai nela" ("bellum dulce inexpertis"). Não é gozo com sofrimento alheio, mas espanto ético com a justificação de atos considerados imorais numa situação normal, senão perplexidade ante o enigma do homem como único mamífero que se autodestrói. É frustrante tentar compreender o brutalismo em grande escala, cujas vítimas imediatas são civis indefesos e crianças.

Hélio Schwartsman - Maníacos

Folha de S. Paulo

Novo livro de Benjamín Labatut embaralha realidade e ficção na vida de cientistas

Adoro ficção, mas leio pouca, e a culpa é sua, leitor. É que, para tentar comentar na coluna um livro novo toda semana, dedico quase todo o meu tempo de leitura a obras de não ficção. Penso que, nas páginas de um jornal, o que não é ficção deve ter prevalência sobre o inventado. Abri uma exceção para "MANIAC", o novo livro de Benjamín Labatut (já há edição brasileira), e não me arrependi.

Labatut opera nos limites entre a ficção e a realidade. Como em seu primeiro livro, a matéria-prima é a vida de cientistas e outros personagens salientes em momentos-chave da história. Sem violentar os fatos, ele se dá a liberdade de imaginar situações e fluxos de consciência para iluminar encruzilhadas científicas e morais. No caso de "MANIAC", os escolhidos são o físico austríaco Paul Ehrenfest, o matemático húngaro John von Neumann e o jogador de go sul-coreano Lee Sedol.

Poesia | Receita de Ano Novo - Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Xande de Pilares - Samba de Arerê

 

sábado, 30 de dezembro de 2023

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

MP que acaba com desoneração desrespeita Congresso

O Globo

Medida desafia decisão tomada e reiterada pelos parlamentares em defesa da geração de empregos

Está certo o Congresso ao considerar uma afronta do Executivo a Medida Provisória (MP) que, entre outras providências destinadas a ampliar a arrecadação, acaba com o regime de desoneração da folha salarial vigente para 17 setores da economia, responsáveis por mais de 9 milhões de empregos. Depois de debatida e aprovada em outubro, a prorrogação por quatro anos da desoneração foi vetada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O Congresso derrubou o veto presidencial, e ontem a lei foi publicada no Diário Oficial da União. São, portanto, mais que justificados os protestos despertados pela MP, que reonera a folha a partir de 1º de abril de 2024. Até o Congresso votá-la (no prazo de 120 dias), a programação orçamentária e os investimentos das empresas afetadas estarão prejudicados.

Em vez de atropelar o Parlamento, o Executivo deveria ter apresentado suas sugestões por meio de projeto de lei, permitindo amplo debate. A ânsia arrecadatória para tentar zerar o déficit das contas públicas no ano que vem não justifica desafiar decisão recente e soberana da maioria dos deputados e senadores em prol da criação de empregos. Na Câmara, a derrubada do veto recebeu 378 votos favoráveis e apenas 78 contrários. No Senado, a vantagem foi de 60 a 13. Por isso não causou surpresa a reação crítica dos congressistas à afronta do governo.

Oscar Vilhena Vieira* - Segurança pública: prioridade para 2024

Folha de S. Paulo

Reduzir a violência é não apenas um imperativo moral, mas também uma condição para a prosperidade econômica

Em 2023 a democracia foi salva e a economia parece estar entrando nos eixos. A agenda climática foi retomada, assim como as principais políticas sociais. Feitos nada triviais para um governo minoritário e recebido com grande desconfiança pelo mercado.

O centrão, como era de se esperar, demonstrou-se mais leal aos seus interesses pragmáticos que à agenda obscurantista dos antigos habitantes da Esplanada (com exceções). O governo soube alinhar suas prioridades às ambições da maioria parlamentar. Tudo isso, evidentemente, ao régio custo de emendas. O fato, porém, é que a coisa andou. O governo governou.

Dora Kramer - 2023 foi ruim, mas foi bom

Folha de S. Paulo

Entre perdas e ganhos, primeiro ano de Lula 3 termina com saldo positivo

O ano que agora termina foi ruim na avaliação de alguns e bom na opinião de outros. Tudo depende da comparação. Exemplo: os desacertos verbais de Luiz Inácio da Silva ficaram deglutíveis face as vulgaridades do antecessor.

No entanto, apesar da expectativa de um "efeito alívio" duradouro, a avaliação positiva do novo governo oscilou entre a estabilidade e a queda.

As pesquisas indicaram insatisfação com a ausência do presidente devido a prioridade dada à reinserção internacional do Brasil. Também apontaram visão negativa quanto aos problemas na segurança pública.

Hélio Schwartsman - Direita estética

Folha de S. Paulo

Jovens, que eram público quase cativo da esquerda, flertam com a extrema direita

Os jovens estão ficando de direita? Depende. No Brasil, os mais jovens deram bem mais votos a Lula do que a Bolsonaro, mas, na vizinha Argentina, o apoio dos mais novos foi decisivo para eleger Milei. Nos EUA, a ala trumpista do Partido Republicano tem conseguido adeptos entre jovens negros e latinos, dois grupos demográficos que eram quase que hegemonicamente democratas.

Se olharmos para outros países, como França, Alemanha, Espanha, também encontraremos jovens entre os apoiadores de partidos de extrema direita, que vêm crescendo. Não dá obviamente para dizer que a maioria dos jovens aderiu ao populismo de direita, mas, se considerarmos que esse era um público quase cativo da esquerda do pós-guerra para cá, a tendência é inquietante.

Demétrio Magnoli - A fraude da raça

Folha de S. Paulo

Censo retrata como pessoas se veem ou querem ser vistas

O Censo de 2022 constatou que a parcela de pardos (45,3%) ultrapassou a de brancos (43,5%) e, ainda, que a de pretos atingiu 10,2%. Daí, a militância identitária, que inclui o "jornalismo identitário", extraiu diversas conclusões –todas equivocadas.

1) "Oh! Que novidade histórica!"

Novidade nenhuma: continuidade de tendências verificadas desde o Censo 2000. Há um quarto de século aumenta a proporção de pardos e pretos, enquanto decresce a proporção de brancos.

2) "Agora sim, os brasileiros assumem sua verdadeira identidade."

Só quem, no século 21, insiste em acreditar nas teorias do "racismo científico" do século 19 ousa mencionar uma "verdadeira" identidade racial. Raças humanas não existem. No plano racial, não há identidade "verdadeira" (ou "falsa"). No censo, as pessoas autodeclaram sua cor da pele. Dele, emana um retrato de como elas se veem –ou querem ser vistas.

Carlos Alberto Sardenberg - As previsões mudam. Ainda bem

O Globo

No início deste ano, o clima mundial era de inflação alta, com juros subindo, situação nada propícia para o crescimento

O presidente Lula manifesta especial satisfação em atacar ou zombar do mercado financeiro, quando este erra previsões. Neste ano ofereceu boas oportunidades.

Em janeiro, o mercado esperava, para o ano, inflação de 5,36% e crescimento do PIB de 0,78%. Sobre a inflação, ainda não temos os números finais, mas deverá ficar na casa dos 4,5%. No caso do PIB, o desvio será bem maior. Saberemos o resultado lá por abril, mas já se dá como certo, no próprio mercado, que terá crescido em torno de 3%.

Para Lula e Haddad, não há dúvida. O mercado apostava no desastre.

Será?

A questão é saber o que explica os desvios. Para isso, é preciso entender como são feitas as previsões. Elas aparecem semanalmente no site do Banco Central, no Relatório de Mercado, também conhecido como Boletim Focus. Fazem parte do regime de metas de inflação.

Pablo Ortellado - O projeto autoritário de Milei

O Globo

Presidente tem empregado medidas duras contra protestos de rua

Na última quarta-feira, o presidente da Argentina, Javier Milei, enviou ao Congresso um ambicioso pacote de medidas que, pela extensão, impacto, regime de tramitação e conteúdo, só pode ser qualificado como autoritário. O Projeto de Lei tem 351 páginas e 664 artigos, modifica mais de 50 leis em vigor, e o presidente espera que seja discutido e aprovado até 25 de janeiro.

O projeto é tão abrangente que é difícil selecionar destaques. Parte dele reúne medidas que, ainda que discutíveis, são perfeitamente democráticas, como as privatizações de estatais (incluindo Aerolíneas Argentinas, Correios, Banco de la Nación e a petrolífera YPF), a regulamentação do mercado de carbono e a criação de um exame nacional do ensino médio (como nosso Enem). Em circunstâncias normais, essas medidas tramitariam em separado, permitindo apreciação cuidadosa pelo Congresso, já que o impacto de cada uma é grande. O pacote, porém, as coloca todas num único Projeto de Lei agregador, apelidado de Lei Omnibus, com apreciação extremamente acelerada, que o governo espera que se conclua em apenas um mês.

Eduardo Affonso - Depende do contexto

O Globo

A ditadura venezuelana, possivelmente também a nicaraguense, a chinesa, a iraniana, pode ser só uma narrativa

Este foi o ano da relativização geral (não confundir com a teoria desenvolvida por Einstein). Seu pressuposto é não haver referencial ético absoluto — ou, parafraseando Pirandello, o primado do “assim é (se lhe convém)”.

A mais completa tradução de 2023 pode ter sido dada por Liz Magill (então presidente da Universidade da Pensilvânia), Claudine Gay (presidente da Universidade Harvard) e Sally Kornbluth (reitora do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, MIT). Questionadas se manifestações pedindo a morte de judeus violariam as regras de bullying e assédio em seus campi, as três tergiversaram: “Depende do contexto”. Haveria providências se o discurso antissemita fosse “generalizado e severo”. Se os militantes deixassem de apenas clamar pela extinção de um povo e partissem para as vias de fato.

Carlos Góes - O velho Mercosul no ano novo

O Globo

No ano em que completará 30 anos, o Senhor Mercosul parece se aproximar de um ponto de tensão

Ano que vem o Mercosul completará 30 anos. Deixa de ser jovem. O bloco comercial tem sido atacado e enfrenta desafios de dentro e de fora da região. Nesse cenário, fica a pergunta: o Mercosul tem futuro?

Antes de mais nada, um pouco de história.

O Mercosul entrou em vigor em 1994, fruto do Tratado de Assunção, assinado três anos antes por Argentina, Brasil, Uruguai e Paraguai. A ideia do bloco era a “ampliação de seus mercados nacionais, através da integração” para acelerar o “desenvolvimento econômico com justiça social”.

A ideia iria além da economia: reduzindo barreiras à circulação de bens, pessoas, serviços e investimentos, passando pela coordenação de políticas macroeconômicas e regulatórias — exatamente como tinha sido feito na Europa alguns anos antes.