Folha de S. Paulo
Tique-taque soa como bomba-relógio; em
fevereiro, senador fica sem costas quentes pela primeira vez em 24 anos
País só vai recuperar a sanidade quando essa
família for varrida da política pelo voto e pela lei
Fugiu, desapareceu, escafedeu-se. Para Flávio, o Bolsonaro mais corrupto, era isso ou cadeia o que restava. No domingo, derrotado, engrossou a voz para anunciar que pediria anulação do resultado. Na segunda, intimado a entregar os passaportes, gravou vídeo jurando patriotismo: jamais pensara em deixar o país. Na terça, segundo aliados, já está na Flórida com a família, com asilo garantido.
Motivos para o desespero não faltam. Alexandre de
Moraes barrou os passaportes e o proibiu de falar com Willer Thomas,
amigo investigado junto com ele por lavagem de dinheiro. Há no cangote do
senador o inquérito do filme "Dark Horse"
e fraudes relacionadas ao INSS. O tique-taque soa como bomba-relógio: em
fevereiro, Flávio fica sem mandato, sem foro privilegiado, sem costas quentes
pela primeira vez em 24 anos.
Nada é normal quando há um Bolsonaro na
jogada. Na posse de 2019, Jair desfilou no Rolls-Royce com Carlos no
banco de trás, feito um guarda-costas. Freud talvez explicasse, mas Margaret
Mahler define melhor: simbiose, a fase psicanalítica em que o bebê não sabe
onde ele termina e a mãe começa. Fomos governados por uma família que nunca
cortou o cordão umbilical, nem entre si nem com a ideia torta de que o Estado é
o quintal de casa.
O padrão da
família é a fuga.
Derrotado, Jair amargou 45 horas calado e voou para Orlando para não passar a
faixa para Lula. Por pura birra, numa atitude antidemocrática, igualou-se a
Floriano Peixoto e João Figueiredo, os únicos a faltarem à posse do sucessor. O
resultado foi o 8 de janeiro.
Hoje, o patriarca cumpre em
casa os 27 anos de pena por tentativa de golpe.
Eduardo,
refugiado nos EUA desde 2025, articulou de lá sanções e tarifaços
contra Moraes e contra o país para livrar o pai da cadeia. Acabou condenado
pelo STF
por coação e cassado por faltas. A dinastia que se diz patriota trata o Brasil
como uma casa de veraneio: usa, depreda e, quando chega a conta, some na calada
da noite. O país só vai recuperar a sanidade quando essa família for varrida da
política pelo voto e pela lei —justamente o que eles nunca respeitaram.

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